quinta-feira, 5 de abril de 2018

SUMA TEOLÓGICA EM FORMA DE CATECISMO (X)

SEGUNDA PARTE

O homem procede de Deus e para Deus deve voltar

 PRIMEIRA SEÇÃO

Noções gerais acerca do modo como o homem tem de voltar para Deus

I

SEMELHANÇA ENTRE AS OPERAÇÕES DE DEUS E AS DO HOMEM

Há alguma semelhança entre as operações divinas e as humanas?
Sim, Senhor.

Em que consiste?
Em que, assim como Deus é livre para dispor do Universo a seu agrado, também o é o homem no que dele depende (Prólogo)*.

II

ÚLTIMO FIM DOS ATOS HUMANOS - A FELICIDADE

Tem em vista o homem algum fim em todas as suas ações?
Quando obra como homem e não como máquina, por impulso ou reação física e instintiva, sim, Senhor (I, 1).

É o homem o único ser material que se propõe algum fim em suas ações?
Somente o homem é capaz de se propor uma finalidade.

Logo, os outros seres materiais obram ao acaso?
Não, Senhor; as suas operações estão ordenadas à consecução de um fim determinado, porém, não o intentam, nem o propõem, porque isto, em seu lugar, o faz Deus (I, 2).

Logo, todos se movem para realizar o fim que Deus se propôs?
Sim, Senhor.

Assinalou Deus algum fim às ações humanas?
Na verdade, Deus lhes assinalou um fim.

Que diferença há entre as ações do homem e as dos outros seres materiais?
Diferenciam-se em que o homem pode, sob o impulso e dependência de Deus, determinar o fim dos seus atos, ao passo que os outros seres propendem cegamente, por natureza ou instinto, para o fim que Deus lhes assinalou (Ibid).

Em que se baseia esta diferença?
Em que o homem possui inteligência e os demais seres, não (Ibid).

Propõe-se o homem, com seus atos, alcançar algum fim último e supremo?
Sim, Senhor; porque se não quisesse e não intentasse o seu fim último, nada poderia intentar nem querer (I, 4, 5).

Subordina ao dito fim todas as suas ações?
Ordena-as a todas para a consecução do fim último ou de modo consciente e explícito, ou implicitamente em virtude de certa espécie de instinto racional (I, 6).

Qual é este objeto tão desejado?
A felicidade (I, 7).

Logo, o homem quer necessariamente ser feliz?
Sim, Senhor.

Não haverá algum que queira ser desgraçado?
É impossível que o haja (V, 8).

Pode equivocar-se ao escolher o objeto da sua felicidade?
Sim, Senhor; porque, estando em suas mãos escolher entre muitos bens, pode confundir os verdadeiros com os aparentes (I, 7).

Que sucede se se engana?
Que em lugar de encontrar a felicidade no fim da jornada, só encontra a mais desconsoladora e irreparável desgraça.

Logo é de excepcional importância o acerto na opção?
É importantíssimo.

III

OBJETO DA FELICIDADE

Em que consiste objetivamente a felicidade do homem?
Num bem superior a ele e o único capaz de acumulá-lo de perfeições (II, 1-8).

Este bem pode consistir nas riquezas?
Não, Senhor; porque as riquezas são coisa inferior ao homem, e incapazes, por si mesmas, de aperfeiçoá-lo (II, 1).

São as honras?
Também não; porque as honras não dão perfeição, já a supõem, sob pena de serem postiças, e se são postiças nada são (II, 2).

E a glória e o renome?
Também não; já porque supõem méritos, já por serem, neste mundo, coisa mui frágil e volúvel (II, 4).

Consiste no poder?
Não, Senhor; porque o poder não se dá para o bem próprio, senão para o dos outros e está à mercê do capricho e do espírito de insubordinação (II, 4).

Consiste na saúde e na beleza corporal?
Também não; porque a saúde e a beleza são bens inconsistentes e passageiros e, além de tudo, só dão perfeição ao exterior e não ao interior do homem (II, 5).

Serão os prazeres dos sentidos?
Não, Senhor; porque são grosseiros demais, comparados com os gozos delicados da alma (II, 6).

Logo, o objeto da felicidade consiste nalgum bem que traz perfeição diretamente ao espírito?
Sim, Senhor (II, 7).

Qual é este bem?
Deus, Sumo Bem, Soberano e Infinito (II, 8).

referências aos artigos da obra original

('A Suma Teológica de São Tomás de Aquino em Forma de Catecismo', de R.P. Tomás Pègues, tradução de um sacerdote secular).

segunda-feira, 2 de abril de 2018

O TEMPO DA NOSSA SANTIFICAÇÃO...

Contentar-se com o dever presente, colocar nele, para cumpri-lo perfeitamente, toda sua atenção e toda sua energia, animá-lo pela intenção do amor divino, tal é a tarefa da alma que quer chegar à santidade. Cada instante assim utilizado lhe faz alcançar, no momento preciso, toda perfeição de que ela é capaz. De então em diante, não lhe resta outro dever a cumprir senão o de continuar sem descanso, até ao fim, seu trabalho. É aqui precisamente, porém, que as almas não advertidas encontram um grande perigo. Quase todas querem ser santas no fim de alguns anos de esforços. Se o resultado não corresponde às suas esperanças, desolam-se e correm risco de tudo abandonar.

Estas almas negligenciam na sua santificação um elemento pouco apreciado, porém indispensável, isto é, o tempo. Deus sabe o número de anos que temos a passar sobre a terra; conhece também o grau de santidade que devemos adquirir. Deixemos a Ele o cuidado de nos santificar antes de nossa morte. Contentemo-nos em servi-lO no momento presente, em amá-lO ardentemente, apaixonadamente.

Coloquemos todo nosso ardor em nossos atos. Deliciemo-nos em nos enraizar cada vez mais nEle e depois... abandonemos a Ele tudo o mais. Ele é nosso Pai, quer verdadeiramente se encarregar dos interesses de seus filhos. A menos que Deus intervenha de modo particular, o trabalho de nossa santificação não se fará na medida de nossos impacientes desejos.

A santidade é a orientação de toda vida para Deus; são todas as faculdades dispersas sobre as criaturas a reconduzir para Ele; é a inclinação de todo o homem para o sensível a transformar e a mudar em uma tendência constante para Deus, que é um puro Espírito; são inumeráveis apegos secretos às criaturas e a si mesmo a romper um a um; é um domínio pacífico da vontade a estabelecer sobre paixões impacientes do jugo; é, enfim, uma infinidade de ações cotidianas a impregnar da intenção do puro amor de Deus. Semelhante metamorfose não se opera geralmente em alguns anos.

Nos momentos de fervor e de estreita união com Deus, a alma pode bem sentir-se toda dEle e crer terminada a feliz transformação de todo seu ser, mas a triste experiência faz, com que ela volte bem cedo à realidade. Depois de suas ardentes orações, ela se encontra novamente natural, apegada às suas comodidades, frouxa e pusilânime. A alma admira-se de que, sendo tão imperfeita, Deus tenha podido favorecê-la com suas carícias; concebe indignação contra si mesma; desanima. Contudo, nada é mais natural do que a conduta de Deus.

A alma está em marcha para a santidade; no momento presente, ela põe ao serviço de Deus toda soma de boa vontade de que dispõe, e, por seu lado, Deus mostra-se satisfeito com seus esforços, e a favorece com suas comunicações. Mestre hábil na direção das almas, Ele sabe que, por momentos, elas têm necessidade de repouso durante a rude ascensão para o ideal e dá-lhes oportunidades de experimentarem, de tempos a tempos, a sua doce presença. Mais tarde, tratá-las-á como almas perfeitas, fá-las-á assentarem-se à sua mesa e introduzi-las-á definitivamente na sua intimidade.

A alma deve, pois, ter paciência, confiança em Deus. O que não podem fazer seu ardor e mesmo sua fidelidade ao momento presente, o que não quer fazer, em regra geral, Deus, Ele mesmo, por um socorro especial, ela o obterá com o tempo e graças ao tempo. Deus assim o deseja: é com este fim que Ele a deixa sobre a terra. O tempo, este precioso auxiliar, conduzi-la-á infalivelmente à santidade, contanto que ela permaneça fiel ao dever presente.

Nossa vida compõe-se de uma infinidade de pequenos atos sem aparência exterior e quase imperceptíveis. A santidade é fruto destes atos; não se conquista por meio das ações brilhantes. Estas, entretanto, não nos são proibidas. Devemos santificar-nos, pouco mais ou menos, como aprendemos a falar, escrever e ler. Quantos milhões de atos foram precisos para alcançar este resultado.

Contai, se podeis, aqueles que se fazem lendo um livro: ato de percepção visual de cada letra, de cada palavra, de cada frase; atos correspondentes dos sentidos interiores para registrar e completar cada uma destas percepções; em seguida atos de formação de cada noção, de cada juízo, de cada raciocínio; atos de memória, de comparação dos conceitos, de juízos e de idéias. Estendei este exemplo a todas as ocupações de um dia, de uma semana, de um ano, de uma vida, e chegareis a um conjunto de atos, cujo número desafia todo cálculo.

Entretanto, graças a esta constante aplicação, o homem pode assimilar uma multidão de conhecimentos e levar a bom termo empresas consideráveis. O mesmo acontece na vida espiritual. A vida de uma alma justa é um encadeamento de pequenos atos de virtude, que ela multiplica sem se aperceber graças à intenção virtual. Cada momento consagrado ao dever contém um novo mérito, um novo grau do amor de Deus.

Imaginai, se podeis, o que semelhante alma acumula de atos meritórios em um só dia, em um só ano, sobretudo, se ela é cuidadosa em dar à intenção toda pureza, toda intensidade. Ajuntai a isto a ação incessante da graça, que trabalha esta alma, que a desapega da criatura e dela própria, que a transforma, sem ela o saber, que a orna de virtudes, que lhe instila gota a gota a divina caridade, que a enraíza sem cessar cada vez mais no Cristo, que a habilita a viver com Deus, e concordareis que a alma se acha na feliz impossibilidade de não atingir a santidade.

Estes progressos contínuos escapam habitualmente ao olhar da alma. A ação que a transforma é demasiado sutil para ser perceptível. Todavia, a certos momentos, ela nota que tal defeito, há tanto tempo combatido, desapareceu subitamente; que tal virtude, tão ardentemente desejada e pedida, veio tomar seu lugar; que suas relações com o divino Mestre tomaram um caráter de mais franca intimidade; que as preocupações passadas não exercem mais sobre ela sua tirânica influência.

São indícios verdadeiros de uma lenta, mas segura transformação. Todavia, mesmo na falta de provas palpáveis, saberíamos que a santificação deve operar-se assim. Os atos sem cessar repetidos produzem em nossas faculdades hábitos sempre mais poderosos, enraízam sempre mais profundamente em nós as virtudes infusas com a divina caridade. 

Possam estas poucas considerações moderar o ardor das almas inquietas, impacientes de chegar ao termo, e ensinar-lhes que nada de considerável se faz aqui na terra, mesmo na vida espiritual, sem o precioso concurso do tempo! Uma virtude demasiadamente precoce é sempre suspeita aos olhos dos diretores espirituais. Talvez em aparência bela, é raramente sólida. Ao primeiro contato com as dificuldades reais da vida ela se quebra. É um fruto antecipadamente amadurecido, muitas vezes um verme oculto o rói.

Acompanhemos o passo de Deus e tenhamos paciência. Saibamos esperar seu momento; chegaremos seguramente à santidade. Não nos inquietemos a respeito da parte que Deus reservou para si na obra de nossa perfeição. A nossa resume-se na fidelidade ao dever presente e no abandono ao nosso Pai celeste: Jacta super Dominum curam iuam et ipse te enutriet (Ps 54, 23).

(Excertos da obra 'A Boa Vontade' pelo Padre José Schrijvers, 1937)

domingo, 1 de abril de 2018

BÊNÇÃO URBI ET ORBI - PÁSCOA 2018


Sacada Central da Basílica Vaticana
Domingo, 1° de abril de 2018

1. Imagens Iniciais

2. Mensagem Urbi et Orbi - Páscoa 2018 (3:37 - 12:33)

Queridos irmãos e irmãs, feliz Páscoa! Jesus ressuscitou dos mortos. Cristo ressuscitou! 

Ressoa na Igreja, por todo o mundo, este anúncio, juntamente com o cântico do Aleluia: Jesus é o Senhor, o Pai ressuscitou-O e Ele está vivo para sempre no meio de nós. Aleluia!

O próprio Jesus preanunciara a sua morte e ressurreição com a imagem do grão de trigo. Dizia: 'Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto' (Jo 12, 24). Foi isto mesmo que aconteceu: Jesus, o grão de trigo semeado por Deus nos sulcos da terra, morreu vítima do pecado do mundo, permaneceu dois dias no sepulcro; mas, naquela sua morte, estava contida toda a força do amor de Deus, que se desencadeou e manifestou ao terceiro dia, aquele que celebramos hoje: a Páscoa de Cristo Senhor.

Nós, cristãos, acreditamos e sabemos que a ressurreição de Cristo é a verdadeira esperança do mundo, a esperança que não decepciona. É a força do grão de trigo, a do amor que se humilha e oferece até ao fim e que verdadeiramente renova o mundo. Esta força dá fruto também hoje nos sulcos da nossa história, marcada por tantas injustiças e violências. Dá frutos de esperança e dignidade onde há miséria e exclusão, onde há fome e falta trabalho, no meio dos deslocados e refugiados – frequentemente rejeitados pela cultura atual do descarte – das vítimas do narcotráfico, do tráfico de pessoas e da escravidão dos nossos tempos.

E nós, hoje, pedimos frutos de paz para o mundo inteiro, a começar pela amada e martirizada Síria, cuja população se encontra exausta por uma guerra sem um fim à vista. Nesta Páscoa, a luz de Cristo Ressuscitado ilumine as consciências de todos os responsáveis políticos e militares, para que se ponha imediatamente termo ao extermínio em curso, respeite o direito humanitário e proveja facilitar o acesso às ajudas de que têm urgente necessidade estes nossos irmãos e irmãs, assegurando ao mesmo tempo condições adequadas para o regresso de quantos foram desalojados.

Frutos de reconciliação, imploramos para a Terra Santa, ferida, também nestes dias, por conflitos abertos que não poupam os indefesos, para o Iêmen e para todo o Oriente Médio, a fim de que o diálogo e o respeito mútuo prevaleçam sobre as divisões e a violência. Possam os nossos irmãos em Cristo, que muitas vezes sofrem abusos e perseguições, ser testemunhas luminosas do Ressuscitado e da vitória do bem sobre o mal.

Frutos de esperança, suplicamos neste dia para todos aqueles que anseiam por uma vida mais digna, especialmente nas regiões do continente africano atormentadas pela fome, por conflitos endémicos e pelo terrorismo. A paz do Ressuscitado cure as feridas no Sudão do Sul: abra os corações ao diálogo e à compreensão mútua. Não esqueçamos as vítimas daquele conflito, sobretudo as crianças! Não falte a solidariedade em prol das inúmeras pessoas forçadas a abandonar as suas terras e privadas do mínimo necessário para viver.

Frutos de diálogo, imploramos para a península coreana, para que os colóquios em curso promovam a harmonia e a pacificação da região. Aqueles que têm responsabilidades diretas ajam com sabedoria e discernimento para promover o bem do povo coreano e construir relações de confiança no âmbito da comunidade internacional.

Frutos de paz, pedimos para a Ucrânia, a fim de que se reforcem os passos a favor da concórdia e sejam facilitadas as iniciativas humanitárias de que necessita a população.

Frutos de consolação, suplicamos para o povo venezuelano, que vive – escreveram os seus Pastores – como que em 'terra estrangeira' no seu próprio país. Possa, pela força da Ressurreição do Senhor Jesus, encontrar a via justa, pacífica e humana para sair, o mais rápido possível, da crise política e humanitária que o oprime e, àqueles dentre os seus filhos que são forçados a abandonar a sua pátria, não lhes falte hospedagem nem assistência.

Frutos de vida nova, Cristo Ressuscitado dê às crianças que, por causa das guerras e da fome, crescem sem esperança, privadas de educação e assistência sanitária; e também aos idosos descartados pela cultura egoísta que põe de lado aqueles que não são 'produtivos'.

Frutos de sabedoria, imploramos para aqueles que, em todo o mundo, têm responsabilidades políticas, a fim de que respeitem sempre a dignidade humana, trabalhem com dedicação ao serviço do bem comum e garantam progresso e segurança aos seus cidadãos.

Queridos irmãos e irmãs!

Também a nós, como às mulheres que acorreram ao sepulcro, é-nos dirigida esta palavra: 'Porque buscais o Vivente entre os mortos? Não está aqui; ressuscitou!' (Lc 24, 5-6). A morte, a solidão e o medo já não são a última palavra. Há uma palavra que vem depois e que só Deus pode pronunciar: é a palavra da Ressurreição (cf. João Paulo II, Palavras no final da Via Sacra 2003). Com a força do amor de Deus, ela 'afugenta os crimes, lava as culpas, restitui a inocência aos pecadores, dá alegria aos tristes, dissipa os ódios, derruba os poderosos, estabelece a concórdia e a paz' (Precônio Pascal).

Feliz Páscoa para todos!

3. Concessão da Indulgência Plenária

4. Imagens Finais

PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO

Páginas do Evangelho - Domingo da Páscoa


Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos! A mão direita do Senhor fez maravilhas, a mão direita do Senhor me levantou. Não morrerei, mas, ao contrário, viverei para cantar as grandes obras do Senhor! Aleluia! Aleluia! Aleluia!

Eis o grande dia do Senhor, em que a vida venceu a morte, a luz iluminou as trevas, a glória de Deus se impôs aos valores do mundo. Jesus veio para fazer novas todas as coisas, abrir o caminho para o Céu, eternizar a glória de Deus na alma humana. Cristo Ressuscitado é a razão suprema de nossa fé, penhor maior de nossa esperança, causa de nossa alegria, plenitude do amor humano. Como filhos da redenção de Cristo, cantamos jubilosos a Páscoa da Ressurreição: 'Tende confiança! Eu venci o mundo' (Jo 16, 33).

O Triunfo de Cristo é o nosso triunfo pois o o Homem Novo tomou o lugar do homem do pecado. Mortos para o mundo, tornamo-nos herdeiros da ressurreição da nova vida em Deus: 'Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres. Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus (Cl 3, 1-3).

Entremos com Pedro no sepulcro agora vazio de Jesus: 'Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte' (Jo 20, 6 -7). Este sepulcro vazio é a morte do pecado, a vitória da vida sobre a morte: 'Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?' (1 Cor 15, 55). Jesus ressuscitou! Bendito é o Senhor dos Exércitos que, com a sua Ressurreição, derrotou o mundo e nos fez herdeiros do Céu! Este é o dia da alegria suprema, do triunfo da vida, do gáudio eternos dos justos. Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos! 

Hæc est dies quam fecit Dominus. Exultemus et lætemur in ea!

DOMINGO DA RESSURREIÇÃO

SOLENIDADE DA RESSURREIÇÃO DE NOSSO SENHOR

'Haec est dies quam fecit Dominus. Exultemus et laetemur in ea
— 
'Esse é o dia que o Senhor fez. Seja para nós dia de alegria e felicidade'
 (Sl 117, 24)

Cristo ressuscitou! Eis a Festa da Páscoa da Ressurreição, a data magna da cristandade. Por causa da ressurreição de Jesus, podemos ter fé e esperança, obter o perdão dos nossos pecados e a salvação de nossas almas. Com a ressurreição de Jesus, a morte foi vencida. E as Portas do Céu foram abertas para toda a eternidade.

'Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está o teu aguilhão?' 
(1 Cor 15, 55)

sábado, 31 de março de 2018

SÁBADO SANTO

VIGÍLIA PASCAL

Estamos prostrados em silêncio diante o Santo Sepulcro. Hoje é o dia da bênção do Fogo Novo, do Círio Pascal, da renovação das nossas promessas do batismo. Cantamos o Exultet com Maria. Com Maria, Mãe de todas as vigílias, aguardamos, em súplice espera, a Ressurreição do Senhor.


Vamos nos juntar à devoção com que Maria, o discípulo amado, Maria Madalena e as santas mulheres recolheram, em seus braços, o corpo de Jesus descido da cruz por José de Arimateia e Nicodemos. Com que ternura e amor Maria considera todas as suas chagas, olha todo o seu corpo dilacerado, beija todas as suas feridas! E o discípulo amado, como se projeta sobre aquele peito em que havia repousado a cabeça na noite anterior! Como O beija e se acende de vontade de se enterrar naquele peito aberto! E Madalena, como abraça os sagrados pés sagrados, de quem recebera o perdão; como os lava com as suas lágrimas e os enxuga com os seus cabelos! Entremos nos piedosos sentimentos dessas almas santas.

PRIMEIRO PONTO - O QUE NOS ENSINA O ENTERRO DE NOSSO SENHOR

Este mistério nos ensina primeiro COMO DEVEMOS COMUNGAR. Depois que o adorável corpo foi deposto da cruz, Nicodemos trouxe cem libras de um perfume precioso, composto de mirra e aloés, para embalsamá-lo. José de Arimateia ofereceu-se para envolvê-lo em linho branco e para levar o corpo até um um sepulcro novo, talhado na rocha, que ainda não tinha sido utilizado; depois, a entrada do túmulo foi fechada por uma pedra, ficando sob a guarda da autoridade pública e a custódia de soldados. 

QUANDO O CORPO DE NOSSO SENHOR CHEGA ATÉ NÓS NA SAGRADA COMUNHÃO, DEVEMOS TAMBÉM ENVOLVÊ-LO COM O PERFUME DAS SANTAS INTENÇÕES, COM O PERFUME DAS BOAS OBRAS, COM A APRESENTAÇÃO DE UM CORAÇÃO PURO DA INOCÊNCIA, FIGURADA NAQUELE LINHO SEM MANCHA; COM UMA RÍGIDA DETERMINAÇÃO DE FAZER O BEM TAL QUAL A PEDRA DO SEPULCRO; UMA CONSCIÊNCIA INTEIRAMENTE RENOVADA PELA PENITÊNCIA; E, DEPOIS DA COMUNHÃO, DEVEMOS CERRAR AS PORTAS DO NOSSO CORAÇÃO COM A PEDRA E O SELO DO NOSSO RECOLHIMENTO, FRENTE A MODÉSTIA, MESURAS E ATENÇÃO COM NÓS MESMOS, COMO GUARDAS VIGILANTES PARA IMPEDIR QUE NOS ARREBATEM O TESOURO PRECIOSO QUE ACABAMOS DE RECEBER.

É assim que fazemos? Este mistério nos ensina, em segundo lugar, AS TRÊS PREMISSAS QUE CONSTITUEM A MORTE ESPIRITUAL A QUE ESTÁ CHAMADO TODO CRISTÃO, segundo a doutrina do Apóstolo: 'tomai-vos por mortos, porque mortos estais e vossa vida está escondida com Cristo em Deus'. O primeiro dessas premissas é AMAR A VIDA OCULTA; estar como morto, em relação a todas as coisas que podem ser ditas ou pensadas sobre nós, não buscar nem ver o mundo, nem ser visto por ele. Jesus, na noite do seu sepultamento, dá-nos esta lição. Que o mundo nos esqueça e até nos possa pisar, pouco nos importa. Nós não devemos nos preocupar com isso, mais do que se importa um morto. A felicidade de uma alma cristã é se esconder em Jesus e em Deus. Nossa perversa natureza se compraz em deleitar-se, em querer ser louvado, amado, ser distinguido de reputação e amizades; não lhe façamos caso; quanto mais sensível e extremado sejamos ao apreço dos outros, mais indigno este se torna e maior é a nossa necessidade de privar-nos dele. Que se nos livre da reputação, para que em nada nos levem em conta, que nem pensem em nós, que nos olhem com horror. Faça-se, Senhor, Vossa Santa Vontade! 

A segunda premissa da morte espiritual é USAR OS BENS SENSÍVEIS POR NECESSIDADE, SEM DAR-LHES NENHUMA IMPORTÂNCIA; não nos deleitar com a preguiça nem com os prazeres da vida, nem os prazeres da gula, nem a satisfação da curiosidade que quer ver e saber de tudo; estar, em suma, como mortos para os prazeres dos sentidos. Nesta segunda premissa é preciso juntar O ABANDONO DE SI MESMO À DIVINA PROVIDÊNCIA, abandono que, tal como um cadáver, nos deixamos levar, sem argumentar e nem querer ou desejar qualquer coisa, indiferentes a todas as coisas e a todas as ocupações. Quando deixarei de me amar desordenadamente? Quando morrerei em mim para viver somente em Vós?

SEGUNDO PONTO - O QUE NOS ENSINA A DESCIDA DA ALMA DE JESUS AO LIMBO

Este mistério nos ensina, em primeiro lugar, O AMOR DE JESUS AOS HOMENS. Ao deixar o sagrado corpo, sua santa alma poderia ter-se apresentado diante de Deus para descansar ali todas as suas dores; mas o seu amor para os homens O inspirou a descer ao limbo para consolar os Patriarcas e anunciar-lhes que, dentro de quarenta dias, eles O iriam acompanhar ao paraíso. É assim, pois, que o amor de Jesus não tem repouso. Após sua morte, como em sua vida, fez todo o bem possível aos homens. Obrigado, ó Jesus, mil vezes obrigado por este esforço em nos fazer tanto bem. 

Este mistério nos ensina, em segundo lugar, O NOSSO AMOR A JESUS. À vista dessa santa alma, os justos retidos não podem conter o seu júbilo e entoam cânticos de louvor, gratidão e amor, e entregam todos os seus corações ao Deus libertador. Eis aí os nossos modelos: Por que teríamos menos gratidão e amor, uma vez que Jesus morreu por nós e por eles, porque nos ama como amou a eles e, como a eles, nos prometeu seu Paraíso ?

(Excertos da obra 'Meditações para todos os dias do ano para uso do clero e dos fieis', de Pe. Andrés Hamon, Tomo II).