SEGUNDA PARTE
O homem procede de Deus e para Deus deve voltar
PRIMEIRA SEÇÃO
Noções gerais acerca do modo como o homem tem de voltar para Deus
I
SEMELHANÇA ENTRE AS OPERAÇÕES DE DEUS E AS DO HOMEM
Sim, Senhor.
Em que consiste?
Em que, assim como Deus é livre para dispor do Universo a seu agrado, também o é o homem no que dele depende (Prólogo)*.
II
ÚLTIMO FIM DOS ATOS HUMANOS - A FELICIDADE
Tem em vista o homem algum fim em todas as suas ações?
Quando obra como homem e não como máquina, por impulso ou reação física e instintiva, sim, Senhor (I, 1).
É o homem o único ser material que se propõe algum fim em suas ações?
Somente o homem é capaz de se propor uma finalidade.
Logo, os outros seres materiais obram ao acaso?
Não, Senhor; as suas operações estão ordenadas à consecução de um fim determinado, porém, não o intentam, nem o propõem, porque isto, em seu lugar, o faz Deus (I, 2).
Logo, todos se movem para realizar o fim que Deus se propôs?
Sim, Senhor.
Assinalou Deus algum fim às ações humanas?
Na verdade, Deus lhes assinalou um fim.
Que diferença há entre as ações do homem e as dos outros seres materiais?
Diferenciam-se em que o homem pode, sob o impulso e dependência de Deus, determinar o fim dos seus atos, ao passo que os outros seres propendem cegamente, por natureza ou instinto, para o fim que Deus lhes assinalou (Ibid).
Em que se baseia esta diferença?
Em que o homem possui inteligência e os demais seres, não (Ibid).
Propõe-se o homem, com seus atos, alcançar algum fim último e supremo?
Sim, Senhor; porque se não quisesse e não intentasse o seu fim último, nada poderia intentar nem querer (I, 4, 5).
Subordina ao dito fim todas as suas ações?
Ordena-as a todas para a consecução do fim último ou de modo consciente e explícito, ou implicitamente em virtude de certa espécie de instinto racional (I, 6).
Qual é este objeto tão desejado?
A felicidade (I, 7).
Logo, o homem quer necessariamente ser feliz?
Sim, Senhor.
Não haverá algum que queira ser desgraçado?
É impossível que o haja (V, 8).
Pode equivocar-se ao escolher o objeto da sua felicidade?
Sim, Senhor; porque, estando em suas mãos escolher entre muitos bens, pode confundir os verdadeiros com os aparentes (I, 7).
Que sucede se se engana?
Que em lugar de encontrar a felicidade no fim da jornada, só encontra a mais desconsoladora e irreparável desgraça.
Logo é de excepcional importância o acerto na opção?
É importantíssimo.
III
OBJETO DA FELICIDADE
Em que consiste objetivamente a felicidade do homem?
Num bem superior a ele e o único capaz de acumulá-lo de perfeições (II, 1-8).
Este bem pode consistir nas riquezas?
Não, Senhor; porque as riquezas são coisa inferior ao homem, e incapazes, por si mesmas, de aperfeiçoá-lo (II, 1).
São as honras?
Também não; porque as honras não dão perfeição, já a supõem, sob pena de serem postiças, e se são postiças nada são (II, 2).
E a glória e o renome?
Também não; já porque supõem méritos, já por serem, neste mundo, coisa mui frágil e volúvel (II, 4).
Consiste no poder?
Não, Senhor; porque o poder não se dá para o bem próprio, senão para o dos outros e está à mercê do capricho e do espírito de insubordinação (II, 4).
Consiste na saúde e na beleza corporal?
Também não; porque a saúde e a beleza são bens inconsistentes e passageiros e, além de tudo, só dão perfeição ao exterior e não ao interior do homem (II, 5).
Serão os prazeres dos sentidos?
Não, Senhor; porque são grosseiros demais, comparados com os gozos delicados da alma (II, 6).
Logo, o objeto da felicidade consiste nalgum bem que traz perfeição diretamente ao espírito?
Sim, Senhor (II, 7).
Qual é este bem?
Deus, Sumo Bem, Soberano e Infinito (II, 8).
* referências aos artigos da obra original
('A Suma Teológica de São Tomás de Aquino em Forma de Catecismo', de R.P. Tomás Pègues, tradução de um sacerdote secular).