Esta não é uma lenda fantasiosa, mas uma simples narrativa de autenticidade incontestável; e merece ocupar um lugar nesta coletânea, embora seja, sem dúvida, conhecida por muitos de nossos leitores. Seu tema é uma oração - o Memorare ['Lembrai-vos'] - tão querida ao coração de todos os católicos, saída da pena daquele grande servo de Maria, São Bernardo de Claraval.
Nos tempos de Luís XIII, um cortesão, libertando-se da vida agitada do mundo, de suas loucuras e de seus prazeres, teve a felicidade, movido pela graça de Deus, de abraçar a vida sólida, pura e tranquila do serviço de Deus. Pertencia a uma família nobre e abandonou os esplendores da riqueza para viver nas condições humildes da pobreza.
No início de sua nova vida, uma grande tentação o surpreendeu, sob a forma de uma daquelas seduções com que o mundo tão sedutoramente procura apanhar aqueles que estão prestes a perder-se. Em vez de enfrentar inutilmente o perigo, o novo soldado de Cristo refugiou-se numa igreja de Paris, que, infelizmente, como tantas outras, já não existe. Humildemente, mas com confiança, lançou-se aos pés de Nossa Senhora do Livramento, cuja história acabamos de narrar, e a tentação, juntamente com o seu objeto, desapareceu.
Pouco tempo depois, recebeu a ordenação sacerdotal e celebrou sua primeira Missa na igreja de São Julião, o Pobre (Saint-Julien-le-Pauvre), no Hôtel-Dieu ['Casa de Deus', o principal hospital de Paris], rodeado pelos pobres, que dali em diante adotou como sua família. Uma fortuna de 18.000 libras esterlinas coube-lhe por herança, da qual prontamente tomou posse, não para seu próprio proveito, mas para aliviar as misérias e necessidades de seus novos amigos. Entretanto, tão numerosa era essa família que ele havia adotado, que a fortuna logo se esgotou; e ele começou a procurar os ricos e a pedir-lhes esmolas.
Dedicado ao cuidado dos pobres e dos membros desafortunados da sociedade, esse sacerdote havia abandonado tudo e, não possuindo coisa alguma além de seu coração ardente, realizou prodígios de caridade e promoveu numerosas conversões. Sua solicitude não se limitava aos pobres que viviam em liberdade; penetrava também nas prisões, levando consolação aos infelizes que ali se encontravam, e frequentemente os acompanhava até o lugar de sua terrível morte.
É difícil acreditar que um homem, na hora da angústia e do abatimento, diante de uma morte violenta, possa ainda esquecer-se de Deus. Isso, porém, acontece com demasiada frequência. O santo sacerdote de quem escrevemos tinha uma compaixão particular por essas pobres criaturas. Bernardo de nome [Bernardo de Paris], era mais conhecido em toda Paris pelo título de 'O Pobre Sacerdote'.
Cheio de confiança e amor à Santíssima Virgem, a Ela recorria em todas as conversões que desejava alcançar. Sua oração predileta era aquela que leva o autor do seu nome - o Memorare. Trazia sempre consigo essa oração, impressa em pequenos pedaços de papel, dos quais distribuiu várias centenas de milhares de exemplares. Quanto bem devem ter produzido! Pois, certamente, essa doce oração tem sido o instrumento para alcançar mil vezes mais graças do que o número de palavras que contém.
Era essa a força do bom sacerdote, cuja serena indiferença às coisas do mundo não era menos notável do que sua santidade. Muitos exemplos disso poderiam ser citados. O Cardeal Richelieu, que nutria grande admiração por ele, insistia em conceder-lhe algum benefício ou proteção. Mas, percebendo que não conseguia convencer o humilde sacerdote a aceitar, disse-lhe certo dia:
➖ Dizei-me, então, de que outra maneira posso ser-vos útil; e pedi-me algum favor.
➖De bom grado me aproveitarei da bondade de Vossa Eminência - respondeu o sacerdote - Permiti-me suplicar a Vossa Graça que ordene a colocação de novas tábuas nas carroças em que os prisioneiros são conduzidos ao lugar da execução, para que sua atenção não seja desviada do amor de Deus e da preparação para o encontro com Ele pelo temor de caírem através do fundo da carroça...
Certa manhã, foi-lhe comunicado que, na prisão do Châtelet, encontrava-se um homem miserável, condenado a ser despedaçado vivo na roda, que persistia em negar sua culpa e se recusava a ver ou ouvir um ministro da religião. Bernardo apressou-se a ir à sua cela, saudou-o, abraçou-o e consolou-o. Empregou suas palavras mais persuasivas para tentar comover e abrandar aquele coração de pedra. Toda a sua caridade, porém, foi em vão; seu zelo parecia desperdiçado.
O prisioneiro, taciturno, não levantava os olhos nem dava o menor sinal de atenção. Nada respondia e, enquanto o sacerdote esgotava todo o seu repertório de paciência, permanecia imóvel, sentado num banco de pedra. Chegara, então, o momento de experimentar a eficácia de sua oração predileta. O padre Bernardo disse:
➖ Vamos, meu irmão, não vos recusareis a recitar uma pequena oração à nossa Santíssima Mãe, para obter seu auxílio nesta hora de necessidade.
O prisioneiro permaneceu como uma rocha, em seu estado de impenetrável taciturnidade.
➖ Pois bem, eu a recitarei sozinho - disse o sacerdote, ajoelhando-se ao lado do prisioneiro. Peço-vos apenas que unais vossa intenção à minha e, se vos for demasiado penoso falar, participareis de minha oração respondendo simplesmente: Amém.
Tirou de seu breviário uma das pequenas orações e recitou-a em voz alta. Quando terminou, esperou um instante para ver se o coração do prisioneiro havia cedido; mas percebeu apenas um movimento de impaciência e ouviu uma exclamação brutal. Ferido pela dor, o sacerdote prestou atenção somente ao seu zelo. Ergueu a mão trêmula e, colocando a santa oração sobre os lábios do criminoso, tentou introduzi-la à força em sua boca, dizendo:
➖ Já que não quereis recitá-la, havereis de engoli-la!
O prisioneiro estava acorrentado e não podia resistir, suportando silenciosamente aquilo que não tinha forças para impedir. Abriu a boca, ainda agora cerrada pelo desespero, e prometeu recitar a oração que, sem dúvida, já havia purificado os lábios que tocara. Enquanto isso, tremendo de alegria, o bom sacerdote repetiu novamente a oração e percebeu, com visível emoção, que cada palavra saía dos dos lábios do prisioneiro com um fervor de devoção cada vez mais intenso. Por fim, ele suspirou, soluçou e chorou; e, quando a oração terminou, seu coração endurecido havia cedido. Foi tomado de profunda contrição; já não era o infiel obstinado, mas o pecador arrependido.
Entre as lágrimas que lhe embargavam a voz, confessou os numerosos e graves pecados de sua vida. Aceitou, com humilde submissão, o sacrifício de sua própria vida, reconhecendo que era uma expiação demasiado pequena para tão longa sucessão de iniquidades quanto aquelas de que sua existência havia sido marcada. Tão profundamente, de fato, o sentimento de contrição havia penetrado em sua alma que ele desmaiou.
O pecador, salvo pelo poder de Maria, morreu aos pés do pobre sacerdote, que acabara de lhe conceder, na plenitude de seu ministério sacerdotal, o perdão completo de suas transgressões. O Padre Bernardo, repleto de boas obras, deixou esta vida em 23 de março de 1641, sendo sepultado no cemitério anexo ao Hospital da Caridade em Paris.
(Excertos da obra 'Légendes de la Sainte Vierge', por J. Collin de Plancy, 1853)
