sábado, 17 de outubro de 2026

LENDAS DA BEM AVENTURADA VIRGEM MARIA (III)

O que se segue é, mais propriamente, uma página da história eclesiástica do que uma lenda. Julgamos, porém, que um breve relato do concílio realizado em Éfeso teria lugar muito apropriado num volume dedicado à narração das maravilhas operadas pela intercessão da sempre bendita 'Mãe de Deus'. Ao confirmar à Santíssima Virgem esse sublime título, o Concílio ensinou-nos que jamais poderemos formar uma ideia demasiado elevada do poder e da majestade daquela a quem recorremos em nossas necessidades.

No século V, enquanto ilustres doutores combatiam o arianismo e todas as outras pequenas seitas que atacavam a rocha inexpugnável sobre a qual está estabelecida a cátedra de Pedro, surgiu entre os defensores da Igreja um homem de grande mérito, de palavra poderosa, de vasta erudição e respeitado pela austeridade de sua vida. Chamava-se Nestório e tornou-se patriarca de Constantinopla. Sua vaidade foi estimulada pelos grandes aplausos que recebia. Em um de seus sermões, disse ao jovem Teodósio: 'Purificai a terra das heresias, e eu vos prometo as alegrias do céu'. Era uma afirmação ousada. Ele combatia o arianismo, mas substituiu o zelo da caridade pela violência; incitou o povo contra os arianos, expulsando-os à força de suas assembleias e arrasando suas igrejas. Contudo, durante todo esse tempo, ele próprio sustentava uma doutrina errônea.

Admitia que havia em Cristo duas naturezas que agiam em conjunto. 'Jesus Cristo' - dizia ele - 'enquanto homem, nasceu da Santíssima Virgem, sofreu e morreu; mas Cristo, enquanto Deus, dirigia o homem Jesus, ao qual estava ligado apenas por uma união moral'. Primeiramente, conseguiu o auxílio de homens fracos para pregar essa doutrina, que depois ele próprio passou a professar, no ano de 428. O povo percebeu imediatamente que ele pretendia privá-lo de sua sublime invocação de Maria como 'Santa Mãe de Deus' e levantou-se em massa contra essa inovação.

Mas a obstinação inflexível de Nestório não cedia. São Cirilo de Alexandria escreveu em vão ao patriarca infiel; igualmente infrutíferas foram as súplicas dos fiéis e as advertências e exortações do guardião da fé, o santo papa São Celestino. Nestório não atendia a nenhuma admoestação, mas perseguia seus adversários com grande furor. Foi excluído da comunhão da Igreja, mas ainda assim persistiu em seus erros.

A controvérsia tornou-se tão violenta que se julgou necessário convocar um concílio geral para condenar a heresia propagada por Nestório. Isso se fez com a anuência do imperador Teodósio, o Jovem, e o concílio foi convocado para reunir-se em Éfeso, sem dúvida por um desígnio especial da Providência onipotente, pois a bendita Mãe de nosso Salvador havia vivido naquela cidade, com o discípulo amado, depois da ascensão de seu divino Filho. A tradição desse fato foi conservada com grande fidelidade pelos efésios, conhecidos pelo fervor de sua devoção a Nossa Senhora. Alegraram-se, portanto, ao saber que de sua cidade partiria a defesa de sua sacratíssima dignidade.

No dia 7 de junho do ano de 431, duzentos e sessenta bispos estavam reunidos em Éfeso. Nestório também chegou com numerosa escolta, mas estava mais do que nunca cheio de orgulho e presunção. Como João de Antioquia e outros prelados ainda estavam a caminho para participar do concílio, sua abertura foi adiada, com algum pesar, para o dia 22, pois o dia 7 era a festa de Pentecostes. Contudo, esses prelados, sendo amigos pessoais de Nestório e não desejando presenciar sua condenação, ainda não haviam chegado quando a primeira sessão foi aberta naquele dia. Os bispos e doutores da Igreja ali reunidos dirigiram-se em procissão à igreja de Éfeso, dedicada a Deus sob o patrocínio especial de sua santa Mãe. Nesse edifício realizou-se o concílio.

Todos os habitantes da cidade se abstiveram de trabalhar e, na ânsia de conhecer a decisão dos Padres, cercaram a igreja, invocando Nossa Senhora para que dirigisse seus trabalhos e fizesse reconhecer sua dignidade. Poderia tão numerosa reunião de dignos pastores da Igreja, congregados numa cidade tão devotada a Maria, deixar de ser unânime em sua decisão? Nestório previu que não poderiam e, por isso, recusou-se a comparecer. São Cirilo presidiu o concílio como representante do Sumo Pontífice e pronunciou, em uma das sessões, um discurso do qual se seguem algumas frases:

'Salve, Maria! Tesouro do mundo!'
'Salve, Maria, Mãe de Deus! É por vós que os profetas elevam suas vozes e os pastores da Igreja celebram os louvores do Todo-Poderoso, cantando com os anjos aquele sublime cântico: Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós os Magos ofereceram seus presentes, guiados por uma estrela resplandecente'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós o glorioso colégio dos apóstolos foi escolhido por nosso Redentor'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós São João exultou no ventre de sua mãe; a chama da tocha palpitou na presença da fonte da luz'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós desceu sobre a humanidade aquela graça inefável da qual fala o Apóstolo, quando diz que ela se manifestou a todos os homens'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! De vós procedeu a verdadeira luz, da qual disse o Evangelista: Eu sou a luz do mundo'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! De vós nasceu Aquele que venceu a morte e o inferno'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Destes à luz o Criador e Redentor dos homens, nosso guia para o reino dos céus'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós é salva toda alma fiel'.*

* Como se pode pôr em dúvida que a Santíssima Virgem tem direito a ser chamada Mãe de Deus? Pois, assim como Jesus Cristo, nosso Salvador, é verdadeiramente Deus, assim também a Santíssima Virgem é Mãe de Deus' (Carta de São Cirilo).


Assim, todo o discurso continha, em cada frase uma invocação a Maria, sob o título do qual se havia tentado privá-la. A questão foi decidida no primeiro dia; tão unânimes foram os Padres que não foi necessário consultar cada um individualmente, pois todos exclamaram em coro: Sancta Dei Genitrix! Mater divinæ gratiæ! Mater Creatoris! Mater Salvatoris! - 'Santa Mãe de Deus! Mãe da divina graça! Mãe de nosso Criador! Mãe de nosso Redentor!'

Alguns amigos de Nestório procuraram, de fato, defendê-lo, mas em vão: ele foi condenado. Partiu para o exílio e permaneceu obstinado, orgulhoso e inflexível até sua morte, ocorrida na Líbia, depois de haver vagado por muito tempo de cidade em cidade. Diz-se que, imediatamente após sua morte, verificou-se que sua língua havia sido devorada por vermes.

Os habitantes de Éfeso, que ouviram as aclamações antes de lhes ser anunciada a decisão, logo deduziram o resultado, e grande foi sua alegria. Quando, ao término do sermão, os bispos e os Padres saíram da igreja, todos se reuniram e os acompanharam de volta às suas moradas, ao som de conjuntos musicais, levando tochas e ramos de louro e cobrindo de flores o chão das ruas iluminadas em honra daquela ocasião. As mulheres e as crianças prostravam-se, beijando as vestes dos prelados, entoando-lhes louvores e exaltando Nossa Senhora, em cuja honra a cidade ressoou durante toda a noite com os clamores: 'Viva Maria, Mãe de Deus!'

Desde então, à saudação angélica - 'Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco' - e às palavras de Santa Isabel, por ocasião da Visitação - 'Bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus' - acrescentou-se, desde então, a conclusão adotada pelo Concílio de Éfeso: 'Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém'.

(Excertos da obra 'Légendes de la Sainte Vierge', por J. Collin de Plancy, 1853)