quinta-feira, 15 de outubro de 2026

PÁGINAS DIFÍCEIS DOS EVANGELHOS (IV)

4. A PARÁBOLA DO BANQUETE REAL

Um rei chamou os convidados para a festa de casamento do seu filho. Muitos não foram. No banquete, um homem aceitou o convite, mas não trajava a veste adequada, e foi expulso da festa com todo rigor [Mt 22,11-14].

[11] Quando o rei entrou para ver os convidados, observou aí um homem que não estava usando traje de festa
[12] e perguntou-lhe: 'Amigo, como entraste aqui sem o traje de festa?' Mas o homem nada respondeu. 
[13] Então o rei disse aos que serviam: 'Amarrai os pés e as mãos desse homem e jogai-o fora, na escuridão! Aí haverá choro e ranger de dentes'. 
[14] Por que muitos são chamados, e poucos são escolhidos'.


Na parábola do banquete de núpcias, o rei representa Deus; o banquete, a participação no seu Reino; e o traje de festa, a disposição interior correspondente ao convite recebido: conversão, fé viva e caridade. Impacta particularmente neste trecho bíblico a severidade da cena: um homem que aceitou o convite para participar do banquete é expulso dele com todo rigor e com condenação expressa pelo próprio rei.

O convite feito pressupõe necessariamente a conversão: o pecador é convidado a entrar no Reino de Deus, mas também a merecer tal privilégio, mediante a sua transformação interior pela graça divina. Muitos simplesmente recusam explicitamente a via da salvação, usufruindo desgraçadamente do livre arbítrio a eles confiado. Muitos aqui são a imensa maioria dos homens. Muitos de muitos também a perderão, por participarem do banquete real sem o traje de festa adequado. Correspondem àquela legião dos homens de almas tíbias e vacilantes, que não traduzem a fé que porventura manifestam em obras e nem as graças recebidas em conversão. 

O exército das almas tíbias e vacilantes deste mundo é personificado no homem que adentra ao banquete real sem a veste adequada [11]. O rei se acerca dele e o chama por 'amigo' [12], não como um traço de intimidade, mas como uma repreensão solene a alguém que estava ali como convidado, uma vez que aceitara previamente o chamado de Deus. Mas não basta ser chamado; impõe-se chamar-se, ou seja, investir alma e coração ao chamado divino. Há uma clara divisão entre o chamado e o juízo divinos, expressos pelas duas realidades distintas entre a 'sala cheia de convidados bons e maus' e 'a entrada do rei para ver os convidados'.  

O silêncio do homem [12] ratifica o seu traje inadequado (uma vez desprovido interiormente da graça apenas exterior e aparente) e sela o seu destino final da sua expulsão do banquete e exclusão definitiva da comunhão com Deus, tal como os convidados que recusaram o convite. O 'choro e ranger de dentes' [13] expressa a dor e o sofrimento dessa perda e severidade da cena ressalta a responsabilidade de cada homem diante o convite divino. 

As palavras finais do rei são particularmente duras e reverberam pelos tempos aos homens de todos os tempos: 'Muitos são chamados, e poucos são escolhidos' [14]. O convite a ingressar no banquete real é um dom da infinita misericórdia de Deus; revestir-se da graça divina é a contrapartida para poder merecer ficar no banquete na santa presença de Deus. E estes serão muitos e serão poucos. Pois embora os bons sejam numerosos em si mesmos, são poucos em comparação com os maus, assim como o trigo em comparação com a palha (Santo Agostinho).