Como é possível que tantas pessoas, depois de terem vivido quarenta ou cinquenta anos em estado de graça e recebido frequentemente a Santa Comunhão, quase não manifestem os dons do Espírito Santo em sua conduta e em seus atos, se ofendam por uma ninharia, mostrem grande avidez por elogios e levem uma vida muito natural? Essa condição provém dos pecados veniais que cometem frequentemente sem se preocupar com eles; esses pecados e as inclinações que deles nascem atraem essas almas para as coisas da terra e mantêm os dons do Espírito Santo como que presos, semelhantes a asas que não podem se abrir. Falta recolhimento a essas almas; elas não estão atentas às inspirações do Espírito Santo, que passam despercebidas. Consequentemente, permanecem na obscuridade, não nas trevas do alto, próprias da vida íntima de Deus, mas na obscuridade inferior que procede da matéria, das paixões desordenadas, do pecado e do erro; essa é a explicação de sua inércia espiritual. A essas almas dirigem-se as palavras do salmista, que o Ofício Divino nos apresenta diariamente nas Matinas: 'Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações'.
Para sermos dóceis ao Espírito Santo, devemos primeiro ouvir a sua voz. Para isso, são necessários o recolhimento, o desapego do mundo e de nós mesmos, a guarda do coração e a mortificação da vontade própria e do juízo pessoal. Se o silêncio não reina em nossa alma, se a voz dos afetos excessivamente humanos a perturba, não podemos ouvir com segurança as inspirações do Mestre interior. Por essa razão, o Senhor submete nossos apetites sensíveis a duras provações e, de certo modo, os crucifica, para que finalmente se calem ou se tornem inteiramente submissos à nossa vontade animada pela caridade. Se habitualmente estamos preocupados conosco mesmos, certamente ouviremos a nós mesmos ou, talvez, uma voz mais pérfida e perigosa, que procura nos desviar. Por isso, Nosso Senhor nos convida a morrer para nós mesmos, como o grão de trigo lançado à terra.
Para ouvir as inspirações divinas, devemos, portanto, fazer silêncio em nós mesmos; mas, mesmo então, a voz do Espírito Santo permanece misteriosa. Como diz Cristo: 'O Espírito sopra onde quer; ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do Espírito'. Palavras misteriosas, que devem tornar-nos prudentes e reservados em nossos juízos sobre o próximo, atentos às inclinações que o Senhor coloca em nós e que constituem as sementes diversas de um futuro conhecido pela divina Providência. São inclinações à renúncia, à oração interior; são mais preciosas do que pensamos. Alguns intelectuais sentem, desde cedo, uma atração pela oração mental silenciosa, que talvez seja a única capaz de preservá-los do orgulho espiritual e da aridez do coração, tornando suas almas semelhantes às das crianças, como devem ser para entrar no Reino de Deus e, sobretudo, na intimidade desse Reino. Muitas vezes, uma vocação para determinada ordem religiosa pode ser reconhecida por essas primeiras inclinações.
A voz do Espírito Santo começa, portanto, por um impulso interior, uma iluminação obscura; e, se perseveramos na humildade e na conformidade com a vontade de Deus, esse impulso manifesta claramente à consciência sua origem divina, embora permaneça misterioso. Os primeiros clarões tornar-se-ão outras tantas luzes que, como as estrelas, iluminarão a noite de nossa peregrinação rumo à eternidade; a noite escura tornar-se-á, assim, luminosa, semelhante à aurora da vida celeste: 'E a noite será minha luz em minhas delícias'. Para chegarmos a ser dóceis ao Espírito Santo, precisamos, portanto, de silêncio interior, recolhimento habitual, atenção e fidelidade.
(Excertos da obra 'As Três Idades da Vida Interior', Pe. Reginald Garrigou-Lagrange)