quarta-feira, 14 de outubro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXX/Final)

PARTE IV - O CÉU

IV. Sobre o número dos que se salvam

Nos três capítulos anteriores, tivemos a agradável tarefa de mostrar quão belo é o paraíso celestial e quão grande é a felicidade de que desfrutam os redimidos. Sem dúvida, no coração de cada um de nossos leitores surgiu um fervoroso desejo de ser admitido nos domínios da luz eterna e de participar de suas alegrias. Talvez cada um se sinta seguro de que suas esperanças a esse respeito serão realizadas.

É, contudo, muito de temer que muitos não alcancem a meta e sejam para sempre excluídos do Reino dos Céus, como este capítulo pretende demonstrar. Permiti-me, porém, suplicar a todos os que o lerem que não deixem que estas palavras os desanimem e os tornem pusilânimes, mas que, pelo contrário, elas aumentem neles o espírito de humildade e de temor salutar, estimulando-os a maior empenho e diligência na obra de sua salvação, caso esta lhes pareça menos fácil do que estavam inclinados a imaginar. Meu único motivo ao escrever este capítulo é abrir os olhos do leitor e mostrar-lhe o perigo em que se encontra. Pois, se eu não o fizesse, ele poderia continuar cegamente pelo caminho errado e somente perceber que se trata do caminho da perdição quando já fosse tarde demais para voltar atrás, quando a mão da morte retirasse o véu de seus olhos. Considero, portanto, que prestarei um serviço àquele que anda desgarrado se o esclarecer acerca do risco que corre e procurar dirigir seus passos para o caminho do Céu.

Permite-me perguntar-te, ó leitor: que proporção de todos os que vivem sobre esta terra julgas que será salva? A metade? A terça parte? Ou talvez a quarta parte? Ah! Receio, e não sem boas razões, que o número esteja muito longe de ser tão grande. Jesus Cristo, que é a Verdade eterna, seus santos Apóstolos e os Padres da Igreja, todos nos dizem que assim será.

Que diz Cristo acerca do número dos eleitos? Suas palavras são estas: 'Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos'. Ele repete essas palavras ao falar do convidado que não trajava a veste nupcial: 'Atai-lhe as mãos e os pés e lançai-o nas trevas exteriores. Pois muitos são chamados, mas poucos são escolhidos'. Ainda que nada mais se encontrasse em toda a Escritura a esse respeito, essa passagem não poderia deixar de nos alarmar. Há, porém, muitas outras semelhantes, das quais citarei uma ou duas.

No Evangelho de São Mateus, lemos que Nosso Senhor disse: 'Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ele. Quão estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que o encontram' (Mt 7,13). Não são essas palavras capazes de nos inspirar inquietação e apreensão? Não poderemos estar entre aqueles que entram pela porta larga e caminham pela estrada espaçosa que termina na perdição eterna?

Para que possas compreender melhor o sentido das palavras de Nosso Senhor e perceber mais claramente quão poucos são os eleitos, observa que Cristo não disse que eram poucos os que caminhavam pela senda do Céu, mas que eram poucos os que encontravam esse caminho estreito. 'Quão estreita é a porta que conduz à vida, e poucos são os que a encontram'. É como se o Salvador quisesse dizer: o caminho que conduz ao Céu é tão estreito e tão áspero, tão tomado pela vegetação, tão escuro e difícil de distinguir, que muitos passam a vida inteira sem jamais encontrá-lo. E aqueles que o encontram estão constantemente expostos ao perigo de se desviar dele, de tomar uma direção errada e de se afastar inadvertidamente, porque ele é tão irregular e tão encoberto pela vegetação. Assim o diz São Jerônimo em seu comentário à passagem em questão. Além disso, há alguns que, mesmo estando no caminho certo, se apressam em abandoná-lo, porque ele é tão íngreme e penoso. Há também muitos que são atraídos para fora do caminho estreito pelas artimanhas e pelos enganos do demônio e, assim, quase sem perceber, são conduzidos para baixo, rumo ao Inferno. De tudo o que foi dito, podemos concluir que são poucos os que encontram o caminho do Céu, e ainda menos os que perseveram em segui-lo até o fim.

Ora, como Cristo sabia que essas suas palavras seriam mal interpretadas e entendidas em sentido falso tanto pelos crentes como pelos descrentes, em outra ocasião acentuou e reforçou o que já havia dito acerca do pequeno número dos eleitos. Pois, quando um dos discípulos lhe perguntou: 'Senhor, são poucos os que se salvam?' - Ele respondeu: 'Esforçai-vos por entrar pela porta estreita; porque muitos, eu vos digo, procurarão entrar e não poderão' (Lc 13,24). Escuta as palavras do Divino Mestre. Ele nos ordena que nos esforcemos, que nos empenhemos, que empreguemos todas as nossas forças para entrar pela porta estreita. E, o que é ainda mais capaz de nos causar temor, acrescenta que muitos procurarão entrar e não poderão.

Se aqueles que desejam e se esforçam por entrar no Reino dos Céus não conseguem fazê-lo, que será daqueles que levam uma vida descuidada, talvez até ímpia, e não demonstram zelo nem interesse pelo que diz respeito à sua salvação eterna? Já ouvimos Cristo declarar-nos três vezes que o número dos eleitos é pequeno; que, em proporção à grande massa da humanidade, apenas poucos serão salvos. E, como sabia que não tomaríamos a peito essa grave verdade como deveríamos, Ele a repete em linguagem ainda mais explícita.

Depois de dizer a um homem rico que viera procurá-lo que deixasse todos os seus bens e o seguisse, e de o homem se retirar entristecido, Ele disse, dirigindo-se aos discípulos: 'Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que possuem riquezas!' E os discípulos ficaram admirados com suas palavras. 'Mas Jesus, tornando a falar, disse-lhes: Filhos, quão difícil é para os que confiam nas riquezas entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. Então, eles se admiraram ainda mais, dizendo entre si: Quem, pois, poderá salvar-se? E Jesus, olhando para eles, disse: Aos homens isso é impossível, mas não a Deus; porque a Deus tudo é possível' (Mc 10,23-27).

Na verdade, essas palavras, vindas dos lábios de nosso Divino Mestre, bastam para nos inspirar profundo temor; quase bastam para nos fazer perder o ânimo. Pois elas nos dizem expressamente que a obra de nossa salvação é de imensa dificuldade, uma realização quase milagrosa, e que é quase impossível à pobre humanidade entrar no Reino dos Céus. É, na realidade, tão milagroso que um homem escape da perdição eterna e alcance a felicidade eterna quanto seria que um único homem, sozinho, vencesse e pusesse em fuga um exército inteiro. Pois todas as potências do Inferno se aliam ao mundo perverso contra nós; todas as potências do Inferno dispõem suas forças em ordem de batalha para vencer e escravizar cada um de nós, mortais. E, com as terríveis potências das trevas, o mundo mau e astuto faz causa comum, assim como as concupiscências da carne, com o propósito de provocar nossa ruína.

Ora, visto que são tantos os adversários que nos assaltam, adversários tão astutos, tão fortes e tão ferozes, quem poderá julgar-se seguro da vitória? É quase um milagre escapar das garras de inimigos tão numerosos e tão formidáveis. Quem poderá esperar vencê-los por suas próprias forças? Devemos necessariamente reconhecer que todos os que venceram o inimigo maligno, o mundo perverso e suas próprias inclinações más foram fortalecidos por Deus com seu auxílio especial. Vemos, assim, quão penosa e laboriosa é a tarefa de conquistar o Céu; e compreendemos a verdade das palavras de Nosso Senhor, quando disse: 'O Reino dos Céus sofre violência, e os violentos o arrebatam' (Mt 11,12).

Para consolo e encorajamento do cristão, deve-se observar aqui que, se o número de seus inimigos é tão assustadoramente grande, o número de seus amigos é ainda maior. 'Não temas, porque são mais os que estão conosco do que os que estão com eles'. Assim falou o profeta Eliseu ao seu servo amedrontado. 'E o Senhor abriu os olhos do servo, e ele viu; e eis que o monte estava cheio de cavalos e de carros de fogo' (4Rs 6,16). Não somos deixados sozinhos no combate; nosso santo Anjo da Guarda e todos os espíritos bem-aventurados estão ao nosso lado; podemos contar com a poderosa proteção da Mãe de Deus, com a eficácia dos sacramentos, com os méritos da Paixão de Cristo, com a inspiração do Espírito Santo e com o socorro de Deus Todo-Poderoso. Por meio desses poderosos auxílios, venceremos, se combatermos corajosamente e não nos entregarmos, por fraqueza, ao cativeiro, como infelizmente tantos fazem. Pois essas pessoas tímidas, indolentes e sem ânimo iludem-se com a falsa esperança de que, afinal, não é difícil conquistar o Céu. Pensam e dizem a si mesmas: a situação não é tão grave quanto alguns querem fazer parecer; Cristo não sofreu por nós em vão; se não fosse da vontade de Deus que nos salvássemos, Ele não nos teria criado para desfrutarmos do Céu. Essas e outras palavras semelhantes ouvimos dos lábios dos filhos deste mundo; eles vivem segundo essas ideias e conseguem enganar a si mesmos e aos outros.

A Sagrada Escritura não nos deixa dúvida de que essas pessoas estão no erro e caminham pela estrada larga que conduz à perdição. Todo o ensinamento do Evangelho se opõe inteiramente aos princípios que elas seguem; e aqueles que levam uma vida descuidada e satisfazem desregradamente os sentidos são repetidamente advertidos de que a morte eterna será sua porção. Escuta a advertência que Cristo dirige aos devotos deste mundo e aos amantes de seus prazeres: 'Ai de vós, os ricos, porque já tendes a vossa consolação! Ai de vós, os que estais saciados, porque tereis fome! Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis! Ai de vós, quando os homens vos louvarem!' - isto é, quando homens de maus princípios, contrários às máximas da religião, aplaudirem vossas palavras, vossas ações e vossas opiniões. Essa condenação, saída dos lábios de Nosso Senhor, bem pode encher-nos de temor. Qual é o objetivo da grande maioria dos homens na vida? Que procuram alcançar e pelo que anseiam? Desejam ser ricos, prosperar, viver no luxo e ser louvados por seus semelhantes. Ninguém considera isso um pecado. E, no entanto, Nosso Senhor declara que a morte eterna será o destino dessas pessoas e as denuncia em termos veementes.

Por essas e outras passagens semelhantes, que abundam na Sagrada Escritura, vês que Deus é mais rigoroso do que imaginas e que perder tua alma é mais fácil do que talvez penses. Portanto, não continues a viver tão descuidadamente, mas trabalha por tua salvação com temor e tremor, como te exorta o Apóstolo. Assim fizeram os santos em todos os tempos, tendo sempre diante dos olhos o temor dos juízos de Deus. Os ímpios, pelo contrário, sempre costumaram dizer, como muitos ainda dizem hoje: Deus é misericordioso; Ele não nos condenará tão facilmente à perdição eterna. Mas recorda o que diz a Sagrada Escritura: 'Não estejas sem temor acerca do pecado perdoado, e não acrescentes pecado a pecado. E não digas: A misericórdia do Senhor é grande; Ele terá misericórdia da multidão dos meus pecados. Pois a misericórdia e a ira vêm prontamente dele, e sua ira recai sobre os pecadores' (Eclo 5,5-7). Encontramos também Santa Catarina de Sena dizendo: 'Ó infelizes pecadores, não vos fieis na grandeza da misericórdia de Deus; crede-me: quanto mais provocardes a ira desse Deus misericordioso pelo pecado deliberado, tanto mais profundamente sereis lançados no abismo da perdição'.

É indubitavelmente verdade que devemos depositar nossa confiança na misericórdia de Deus; mas São Gregório nos ensina qual deve ser a natureza dessa confiança. Ele diz: 'Aquele que faz tudo quanto pode confie firmemente na misericórdia de Deus. Mas, para aquele que não faz tudo o que está ao seu alcance, confiar na misericórdia de Deus seria mera presunção'. A todos e a cada um de nós, o Apóstolo Pedro diz: 'Empenhai-vos ainda mais para tornar certa, pelas boas obras, a vossa vocação e eleição' (2Pd 1,10).

Vários Padres da Igreja consideram que, do fato de apenas oito pessoas terem sido salvas por ocasião do dilúvio, de apenas quatro - a saber, Ló, sua mulher e suas duas filhas - terem escapado com vida da destruição de Sodoma e Gomorra, e de não mais de dois dos seiscentos mil homens aptos que saíram do Egito terem alcançado a Terra Prometida, enquanto todos os demais morreram no deserto, pode-se concluir que o número dos eleitos entre os cristãos será proporcionalmente pequeno. Isso concorda com o que São João Crisóstomo disse certa vez, ao pregar na cidade de Antioquia: 'Que pensais, meus ouvintes: quantos habitantes desta cidade poderão talvez salvar-se? O que estou prestes a dizer é muito terrível; contudo, não vo-lo ocultarei. Desta cidade tão populosa, com seus milhares de habitantes, nem cem se salvarão; duvido até mesmo que sejam tantos. Pois quanta indiferença vemos entre os idosos, quanta maldade entre os jovens, quanta impiedade entre todas as classes de pessoas!'

Palavras como essas bem podem fazer-nos tremer. Hesitaríamos em acreditar nelas se não viessem dos lábios de tão grande Santo e Padre da Igreja. E, se é verdade que, nos cinco primeiros séculos, quando o zelo e a devoção dos cristãos eram muito mais fervorosos do que agora, um número tão pequeno alcançava a salvação eterna, que acontecerá em nossos dias, quando o crime e o vício predominam em proporções tão assustadoras? Visto que ninguém pode negar, ou sequer duvidar, que o número dos eleitos é pequeno em comparação com o dos réprobos, suplico-te, ó leitor cristão, que te empenhes ao máximo em realizar a obra de tua salvação. Sabes quão terrível é ser condenado eternamente.

Os suplícios e tormentos do Inferno são tão terríveis que não se encontram palavras para descrevê-los. Considera, enquanto é tempo, a eternidade dessas torturas indizíveis e acautela-te, para que também tu não sejas lançado no abismo de uma angústia sem fim. Como poderias suportar tormentos tão imensuráveis e tão intermináveis? Não perderias o ânimo e te entregarias ao desespero? Não te enfurecerias e te revoltarias? Contudo, isso de nada te valeria; apenas acrescentaria sofrimento aos teus padecimentos e aumentaria tua miséria.

Tudo isso é terrível, pavoroso e aterrador. Como é que não pensas nisso mais frequentemente? Como é possível que continues a viver tão descuidadamente? Como é possível que não tenhas maior temor do Inferno? Julgas, talvez, que o Céu te está assegurado? Como é que segues a multidão, como se não soubesses que corres grande perigo de perecer com ela?

Se queres salvar-te, segue o conselho de Santo Anselmo, quando diz: 'Se queres ter certeza de estar no número dos eleitos, esforça-te por ser um dos poucos, e não um dos muitos. E, se queres estar inteiramente seguro de tua salvação, esforça-te por estar entre os mais poucos dentre os poucos; isto é: não sigas a grande maioria dos homens, mas segue aqueles que entram pelo caminho estreito, que renunciam ao mundo, que se entregam à oração e que nunca afrouxam seus esforços, nem de dia nem de noite, para alcançar a felicidade eterna'.

CONCLUSÃO

Façamos, meu caro leitor, com coragem e alegria, tudo quanto for necessário; empreendamos tudo e sacrifiquemos tudo para alcançar a felicidade inefável do Céu, pois jamais poderemos pagar por ele um preço demasiado alto. Não nos deixemos abater pelas dificuldades do caminho, pois, afinal, não é tão difícil merecer o Céu. Se fizéssemos pelo Céu a metade do que as pessoas fazem para ganhar o sustento, adquirir um pouco de riqueza, poder ou fama, ou desfrutar da vida, estaríamos certos de assegurar um lugar elevado entre os santos. Tudo o que temos de fazer para alcançar o Céu é guardar os mandamentos de Deus e de sua Igreja, carregar nossas pequenas cruzes, cumprir as obrigações de nosso estado de vida e vencer a tentação; e, embora isso ultrapasse nossas forças naturais, podemos, contudo, contar com a graça de Deus, se a pedirmos com fervor. Com o auxílio de Deus, tudo se tornará relativamente fácil, pois, como diz São Paulo: 'Tudo posso naquele que me fortalece' (Fl 4,13). A oração fervorosa e perseverante nos assegurará o Céu.

Agora, caro leitor, dirijo-te as palavras que a mãe dos Macabeus disse ao seu filho mais novo, ainda um menino, quando ele estava prestes a ser torturado até a morte, como seus seis irmãos haviam sido antes dele: 'Meu filho, suplico-te que olhes para o Céu'. Olha para o Céu todos os dias, especialmente nos momentos de provação e de tentação. O Céu vale plenamente cada sofrimento, cada sacrifício e cada combate que nos são exigidos, e até mil vezes mais! A vida é breve; suas provações, seus sofrimentos, seus trabalhos, seus combates e suas cruzes também são breves e transitórios; mas o Céu e suas alegrias são inconcebíveis, satisfazem todos os desejos do coração e não têm fim! - 'A nossa tribulação presente, momentânea e leve, produz para nós, acima de toda medida, um peso eterno de glória' (2Cor 4,17). Que Deus, em sua misericórdia, conceda esse feliz fim ao autor deste livro e a todos aqueles em cujas mãos ele vier a cair.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)