156. O VIÁTICO LEVADO DE AVIÃO
Era um bravo soldado francês e estava em terras da Argélia, na África, lutando contra os inimigos de sua pátria. Por seu valor, e talento chegara em pouco tempo a comandante. Cristão e piedoso fôra em sua infância, cristão e piedoso em sua juventude e, agora, nos campos de batalha e nas tendas de campanha, era ele muito mais piedoso e cristão.
Recebeu ordem de avançar e avançou até internar-se no deserto muito distante das cidades onde viviam os europeus. Estava na frente do exército dos árabes e tinha consigo apenas um regimento de soldados. Teve que dar batalha; nela o nosso comandante lutou como um leão. Fugiram vencidos e completamente derrotados os inimigos; ele, porém, recebeu uma bala no peito e caiu na areia candente do deserto sob um sol abrasador. Acorreu o médico, examinou a ferida e franziu a testa com visível mau humor.
➖ Doutor - disse-lhe o comandante - não me oculteis a verdade: Estou ferido de morte?
O médico replicou friamente:
➖ Pode ser.
➖ Está bem - disse o moribundo com a maior serenidade - vou perguntar-vos outra coisa: quantas horas julgais que posso viver?
➖ Três horas... quatro no máximo.
➖ Morrer, morrer... - exclamou o comandante - isso não me aterra. O que sinto é ter que morrer aqui no deserto sem um sacerdote que me absolva, sem o consolo da divina Eucaristia.
Ao ouvir estas palavras, um aviador, que estava ali perto, disse-lhe:
➖ Meu comandante, se quiserdes agora mesmo tomo o meu avião, que voa mais que os pássaros, e antes de três horas estarei aqui de volta com um padre.
➖ E onde ireis buscar esse sacerdote? Daqui ao primeiro lugar aonde podereis ir buscá-lo há mais de duzentos quilômetros.
➖ É verdade, meu comandante; por isso mesmo, não há tempo a perder. Senhor Doutor, conservai-lhe a vida três horas ao menos, que antes disso eu estarei aqui com um sacerdote.
Era um relâmpago aquele aviador. Subiu ao aparelho e, em poucos instantes, já havia desaparecido no horizonte. Entretanto, o comandante, moribundo, beijava com fervor o seu Crucifixo e dizia:
➖ Três horas de vida, Senhor, três horas até que venha um sacerdote... até que me deem o vosso sagrado Viático.
Deixemos o moribundo por um instante. Voemos com o aviador. Já chegou felizmente a Laghouat, onde está o hospital francês. Correu ao padre Capelão e lhe disse:
➖ Padre, quer subir comigo no avião? Temos que percorrer duzentos quilômetros. Lá está a morrer um comandante e não quer morrer sem um padre e sem a comunhão. Se o senhor puder ir, não podemos perder nem um minuto.
➖ Pois não... neste instante - respondeu o Capelão. E correu à capela, tomando consigo a hóstia santa e os santos óleos. Subiu ao avião e o aviador deu partida de pronto.
Antes das três horas convencionadas, estava o Capelão à cabeceira do comandante moribundo. Ouviu-lhe a confissão, deu-lhe a absolvição e apresentou-lhe a divina Eucaristia. Naquele momento solene, soldados e oficiais enchiam a tenda onde agonizava o valente comandante. O sacerdote elevou em suas mãos a hóstia santa e disse: 'Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira os pecados do mundo'. O sacerdote inclinou-se para depositar a branca hóstia nos lábios do herói. O comandante abriu pela última vez os olhos e exclamou do fundo da alma:
➖ Obrigado, meu Deus, obrigado...
Momentos depois, o Capelão, chorando como criança, dizia:
➖ Morreu um herói... morreu um santo.
Sim, quem morre amando a Jesus como este comandante, certamente morre como um santo.
157. A MISSA DE SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA
Segundo Santa Teresa, que o conheceu pessoalmente e muitas vezes o consultou em casos difíceis, poucos santos tiveram vida tão interior e receberam graças tão insignes como São Pedro de Alcântara. O seu amor a Jesus e a sua devoção à sagrada Paixão do Salvador eram inefáveis: dificilmente se faz uma ideia da piedade com que celebrava o Santo Sacrifício e do recolhimento, da fé viva e do amor com que se aproximava do santo altar. Quando celebrava, os fiéis corriam à igreja desejosos de presenciar os favores divinos que o santo recebia.
Dizem os biógrafos que, dirigindo-se à sacristia, ele transportava-se ao Pretório e a lembrança da Paixão o penetrava de tal modo que os paramentos de que se revestia eram aos seus olhos como que vestes da Vítima divina. Absorto neste pensamento, dirigia-se ao altar com os mesmos sentimentos com que se teria dirigido ao Calvário; e ali, abrangendo com um olhar o mundo inteiro, oferecia o Santo Sacrifício em união com Jesus, e pedia a Deus que recebesse a Hóstia divina pela salvação de todos.
Desde as primeiras palavras, a sua devoção comovia os presentes. Quando lia o Evangelho e principalmente quando pronunciava o nome de Jesus, o ardor do seu coração era tão grande que de seu peito irrompiam suspiros e de seus olhos brotavam lágrimas. Ao Canon, o seu rosto inflamava-se; e quanto mais se aproximava a Elevação, tanto mais viva era a sua comoção. Era preciso contemplá-lo depois da consagração: o corpo imóvel, o rosto inflamado, os olhos atentos e expressivos como se ele estivesse vendo realmente o mistério adorável oculto sob as sagradas espécies. Com frequência perdia os sentidos e, não obstante a sua resistência, era arrebatado e elevado da terra. Voltando a si, continuava a rezar o Pai Nosso com muitos suspiros e lágrimas.
Após a Comunhão, os êxtases e a imobilidade recomeçavam. Ficava confundido com esses favores extraordinários, e, para evitar a admiração dos presentes, fugia o mais possível de celebrar em público. Ordinariamente despia depressa os paramentos e corria a fechar-se em sua cela, onde gozava em paz da visita do Hóspede divino. A sua ação de graças era longa e entrecortada de suspiros amorosos. Assim se explica o que dele afirmaram os que o conheceram de perto: que ele conseguiu mais conversões com a celebração da santa Missa do que todos os pregadores de sua província com seus sermões; e que muitíssimos dos que o viram celebrar procuravam-no depois para se confessarem e receberem os seus sábios conselhos.
158. A MISSA DE SÃO CARLOS
A devoção de São Carlos, arcebispo de Milão, pela Eucaristia, quem a poderá exprimir? Passava horas e noites inteiras em adoração aos pés do altar, como um puro espirito, e durante as Quarenta Horas dificilmente se afastava do Santuário.
As velas consumiam-se diante do Santíssimo Sacramento com menos ardor que a sua alma. O incenso elevava-se ao céu com um perfume menos puro que as preces de seu coração. E, quando celebrava o divino Sacrifício, os fiéis julgavam ver um anjo ao altar. Todas as manhãs, antes de celebrar, purificava a sua consciência, levando as suas menores faltas ao tribunal da penitência.
Uma de suas regras era: guardar absoluto silêncio desde a oração da noite até o fim da ação de graças após a missa. Antes de haver celebrado a santa missa não queria ocupar-se de nenhum negócio. Subir ao altar e distribuir a sagrada comunhão eram as suas delicias, tendo-se imposto muitas vezes grandes sacrifícios para o fazer. Depois de celebrar e fazer a sua ação de graças, o santo deixava a igreja em silêncio e voltava para casa todo absorto em Deus.
159. SÃO LUÍS BELTRÃO E A SANTA MISSA
São Luís Beltrão, parente de São Vicente Ferrer e, como este, famoso por suas pregações, estimava infinitamente o favor que Deus lhe fizera chamando-o ao sacerdócio. Considerava a Festa do Natal como a mais bela de todo o ano, porque nesse dia lhe era permitido celebrar três Missas.
Todos os dias se confessava, a fim de levar ao altar uma consciência mais pura. Jamais elevava a Hóstia ou o Cálice, sem pedir a Nosso Senhor a graça de derramar o seu sangue pela conversão e salvação dos pecadores: 'Senhor, concedei-me a graça de morrer por vós, como vós morrestes por mim'. Nada comovia tanto os fiéis como as lágrimas que viam correr dos seus olhos desde a Elevação até a Comunhão. Viram-no, várias vezes, enquanto tinha nas mãos a Hóstia santa, circundado de uma luz sobrenatural resplandecente como o sol; era como se uma luz do céu inundasse toda a igreja. A Hóstia divina era a alegria do seu coração e a glória da sua vida.
160. UM SANTO E UM COMERCIANTE
É interessante o que se passou certa ocasião com São João Bosco, grande amigo da mocidade e grande convertedor de pecadores. Apresentou-se a ele um comerciante para tratar de assuntos relativos ao seu comércio. Mas, como para aquele grande mestre o maior negócio da vida era o da salvação eterna da alma, conhecendo sem dúvida por divina revelação que aquele homem andava muito bem de assuntos financeiros, porém muito mal de temor de Deus e muito afastado do cumprimento de seus deveres de cristão, disse-lhe sem mais preâmbulos:
➖ Já sabe, amigo, que é preciso confessar-se?
➖ Dom Bosco - replicou o comerciante - deixemos esse assunto para outro dia.
➖ E contudo, este é o mais importante de todos. O amigo já sabe que é preciso confessar-se e fazer a páscoa.
➖ Ninguém o duvida, mas eu não vim para isso.
➖ Pois eu para isso estou aqui, por isso vou repetir: Já sabe, amigo, que é preciso que se confesse e faça a páscoa?
O comerciante ficou um pouco agastado e disse:
➖ Mas, Dom Bosco, o senhor me tem por um herege?
➖ Não, amigo - replicou o santo com o seu sorriso imperturbável - não o tenho por herege, mas digo-lhe unicamente que é preciso confessar-se e fazer a páscoa.
➖ Bem - exclamou enfadado o comerciante - e quem lhe disse que eu ainda não o fiz? Quem lhe disse que ainda não me confessei este ano?
Dom Bosco, com as mãos cruzadas sobre o peito, e fixando-o com um olhar que penetrava até o fundo da consciência, disse-lhe acentuando bondosamente cada palavra:
➖ Está bem; eu apenas lhe recordo que é preciso...
➖ Pois eu lhe digo - insistiu o comerciante - que eu agora não tenho vontade nem tempo.
➖ E eu repito - acrescentou o santo - que é preciso...
Não podendo o comerciante resistir mais à graça de Deus que, pelas palavras do grande educador, acabou por lhe comover o coração, respondeu:
➖ Padre, faz mais de quarenta anos que não me confesso.
E o santo com maior bondade, maior doçura e compassivo olhar, respondeu:
➖ Por isso, meu filho, eu lhe dizia: É preciso confessar e fazer a páscoa.
E, após uma boa confissão, o comerciante, que fôra tratar de assuntos comerciais, dali saiu mais rico e feliz do que nunca por haver comprado a graça de Deus e a paz da alma.
(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)
