sexta-feira, 30 de outubro de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (166/170)

 

166. FUGIR DAS MÁS COMPANHIAS

Um juiz inglês, de nome Holt, homem distintíssimo no seu oficio, quando jovem se ajuntara a alguns amigos libertinos que, sem escrúpulo, profanavam os dias santos, jogando, embriagando-se e cometendo toda sorte de desordens. Holt teve, porém, a felicidade de desligar-se a tempo daquelas companhias e, entregando-se seriamente aos estudos, fez ótima carreira.

Ora, aconteceu que, sendo juiz, um dia apresentaram ao seu tribunal um miserável que ele teve de condenar à pena de morte: era um dos seus velhos amigos. A vista daquele homem desfigurado, magro e maltrapilho, fez sobre o juiz uma profunda impressão. Movido de compaixão e curiosidade, perguntou ao réu que era feito dos outros amigos de outrora.
➖ Além de mim e do senhor, todos já morreram de morte violenta em mãos do algoz ou do sicário - respondeu o condenado

Ao ouvir essas palavras, o juiz lançou um profundo suspiro e agradeceu a Deus por havê-lo afastado daquelas companhias. Atribuía o triste fim dos seus amigos companheiros principalmente à profanação do dia do Senhor.

167. SAROU PARA A SUA RUÍNA

Uma mãe queria bem demais a um filhinho. Ora, aconteceu que o menino adoeceu gravemente e a mãe, quase desesperada, não cessava de pedir, a Deus que o curasse. Parecendo-lhe que suas orações não eram ouvidas, procurou o pároco para desabafar-se.

O pároco deu-lhe o conselho de rezar, pedindo que se fizesse a vontade de Deus; pois, se a cura não fosse da vontade de Deus, ela deveria conformar-se. A mãe, porém, não aceitou esse conselho e gritava como desesperada: 'Não, não, não deve morrer! deve sarar como eu quero'.

E o filho sarou, mas levou uma vida péssima, vindo a morrer na forca, castigo pelos seus crimes. Que felicidade para ele, se tivesse morrido daquela enfermidade, quando ainda era inocente. É, pois, melhor fazer nossa oração, confiando na Providência Divina, que conhece o nosso futuro e faz tudo para o nosso bem.

168. OS BILHETES DE PÁSCOA

Um dia, pouco antes da Páscoa, um pregador de Quaresma fez uma prática especial aos homens da paróquia e disse-lhes entre outras coisas o seguinte:
➖ Meus caros homens, atenção! O que vou contar-vos não aconteceu propriamente no céu, mas é uma pequena lenda muito instrutiva.

Um homem, logo depois de falecer, foi bater à porta do céu. Queria entrar. São Pedro, o chaveiro fiel, pediu-lhe os papéis. O pobrezinho apresentou-lhe o atestado de terceiro ano elementar; e São Pedro lhe devolveu o papel dizendo que aquilo não tinha valor no céu. O pobre homem tirou do bolso a carteira de reservista; São Pedro examinou-a e disse: Isto vale para o teu país, mas para o Reino do Céu não vale. Puxou, então, o homem o passaporte para o estrangeiro.
➖ Não serve para nada - explicou o Apóstolo. 

Apresentou-lhe os recibos do imposto, a caderneta da Caixa Econômica, alguns bilhetes de banco... mas nada tinha valor para São Pedro.
➖ Então, que papéis quereis? - perguntou o homem.
➖ Bilhetes de Páscoa - respondeu São Pedro; tens 60 anos e, portanto, deves ter uns 50 bilhetes desses que os vigários costumam dar aos paroquianos que fazem a Páscoa. Sem esses bilhetes não se entra no céu...
Meus caros - acrescentou o pregador - provei-vos de tais bilhetes; eles são o passaporte para o céu. Quem não faz a Páscoa não pode entrar no Paraíso.

169. A DEVOÇÃO DE UMA VARREDORA

Faz poucos anos - diz o Padre Fessart, jesuíta - eu pregava a Quaresma numa paróquia de Paris. Era um domingo. Pelo meio-dia, pouco antes da missa, fui ao confessionário. Apresentou-se-me ali uma moça de aspecto simples e pobre. Desejoso de melhor ajudar a alma que Deus me enviava, perguntei-lhe pela sua condição.
➖ Padre, respondeu-me, de manhã estou no emprego de varrer rua e, depois do meio-dia, ganho um dinheirinho consertando roupas velhas.

E começou a sua confissão. Foi-me dado penetrar no santuário de uma alma muito humilde e muito pura, que se julgava à luz dAquele que descobre manchas até nos Anjos. Profundamente comovido ao considerar o que Deus devia ter feito naquela alma privilegiada, e pensando nos perigos que a cercavam, perguntei-lhe:
➖ Minha filha, como vos conservais fiel a Deus, achando-vos continuamente no meio de gente sem fé e sem lei, que tem no coração ódio e nos lábios blasfêmias contra Deus?
➖ Padre, eu comungo todos os domingos...
➖ Mas o que vedes e ouvis no meio daqueles varredores de rua não faz alguma impressão em vós, em vossa alma?

E sempre com a mesma simplicidade aquela seráfica menina me respondeu:
➖ Padre, eu não vejo nada; vivo no meu coração e nele só há lugar para a minha Comunhão. Jesus veio esta manhã, Jesus virá domingo próximo; este é o meu único pensamento, e o domingo me absorve.
➖ Já comungaste esta manhã?
➖ Ainda não, padre; ganho muito pouco, apenas o necessário para o sustento de minha pobre mãe doente, tanto que sou constrangida a varrer também nos domingos; mas largo da vassoura às 11 horas e assim que posso, depois de confessar-me, faço a Comunhão na missa do meio-dia...

170. COROA OU ESPADA

Carlos V, rei de França, mandou certa vez preparar, duas mesinhas no seu quarto. Sobre uma delas colocou o cetro e a coroa; e sobre a outra a sua espada. Chamando, depois, o filho, disse-lhe: 'Escolhe o que te agradar'. O príncipe, sem hesitar, tomou logo a espada, dizendo ao pai: 'Tomo a espada, porque a coroa eu a devo ganhar. Com a espada combaterei valorosamente, e assim merecerei cetro e coroa'.

Eis o que devem fazer os cristãos: combater valorosamente contra as tentações e suportar com paciência as dores desta vida. Só assim chegarão a conquistar a coroa do reino eterno, isto é, a eterna felicidade do céu.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)