81. AS TENTAÇÕES DO DEMÔNIO
Quando Santo Inácio se entregava aos exercícios de penitência e oração na gruta de Manresa, Deus, para fortificar-lhe a virtude por meio do combate, permitiu ao demônio que o assaltasse de vários modos. Tendo o tentador estudado o coração de Inácio, encontrando-o inacessível aos golpes da avareza e da luxúria, julgou poder vencê-lo pela vanglória.
Sugeriu-lhe então o pensamento de que ele era um grande santo e, encobrindo-lhe os pecados, fez-lhe uma excelente descrição das aspérrimas penitências, esmolas e longas horas que passava em oração, bem como de todas as virtudes por ele praticadas. O servo de Deus, iluminado pela graça, reconheceu que aquelas sugestões de vanglória vinham do demônio, espirito orgulhoso, e não do Espirito Santo que é espirito de humildade. Assim venceu o astuto inimigo só com a lembrança de seus grandes pecados e a meditação do inferno que tantas vezes merecera.
Esperava-o outra prova. Foi privado da paz do coração, da tranquilidade interior, de que gozava após a sua conversão, e invadiram-no trevas, temores, cuidados, inquietações. Parecia-lhe que tudo que fazia era pecado, que nada agradava a Deus e que Nosso Senhor o abandonara. Eram temores exagerados, sem fundamento, angústias de espírito e escrúpulos, com que o demônio queria tornar-lhe o caminho da vida espiritual áspero e aborrecido e lançá-lo no desespero. Mas também aqui o demônio teve de meter a viola no saco e os carretéis na algibeira, porque, com a paciência e sobretudo com a obediência cega ao seu confessor, Inácio saiu triunfante dessa nova tentação. Seguiu a voz do ministro de Deus como se fora a do próprio Jesus Cristo, e recuperou a calma.
O demônio tentou ainda abalar a confiança do santo.
➖ Como poderás continuar nessa vida tão austera? - dizia-lhe interiormente - És moço, tens ainda cinquenta anos de vida: como poderás, por tanto tempo, aguentar uma vida tão penosa?
Inácio, iluminado pela oração fervorosa, não custou muito a reconhecer a manha do tentador.
poderás continuar nessa vida tão austera?
➖ Tu falas desse modo? - replicou-lhe - Quem me garante viver mais cinquenta anos? Podes garantir-me uma hora sequer? E, ainda que tivesse de viver mais cinquenta anos, que é isso em comparação com a eternidade? De resto a mim me basta viver um dia a cada dia. Aquele que com sua graça me sustenta hoje me conservará também amanhã e até quando lhe aprouver prolongar-me a vida.
Desta maneira, o valoroso soldado de Cristo, a exemplo de seu Mestre, superou todas as tentações.
82. AOS DESCONTENTES
A muitos, que se lamentam de sua sorte e invejam a dos mais favorecidos, poder-se-ia repetir esta parábola.
A fortuna tinha muitos queixosos e nenhum agradecido. Chegou o descontentamento até aos animais; e o burro, o mais queixoso de todos, foi ter com Júpiter, e disse-lhe:
➖ Integérrimo deus, como podes consentir esta impiedade da Fortuna contra mim? Ela persegue a inocência e favorece a malícia; o orgulhoso leão triunfa; o tigre cruel engorda; a astuta raposa, que a todos engana, ri-se de todos; o voraz lobo anda à solta; e só eu, que a ninguém faço mal algum, de todos sou desprezado e maltratado, como pouco e trabalho muito, nada de pão e tudo de paus e pauladas...
Júpiter, assaz comovido, ordenou que a Fortuna viesse à sua presença. Saíram soldados a procurá-la. Buscaram-na em casa do rico, do poderoso, do belo, do vaidoso, e não a encontraram. .. Por fim deram com ela na casa da virtude. Levaram-na à presença de Júpiter, que lhe repetiu todas as queixas do burro. A Fortuna, depois de ouvir tudo em silencio, com um lindo sorriso respondeu:
➖ Grande Júpiter, permiti-me dizer apenas uma palavra em minha defesa; somente esta: Se ele é um burro, de que se queixa?
Júpiter, virando-se para o asno, disse-lhe:
➖ Vai, e de hoje em diante procura ser esperto como o leão, corajoso como o tigre, astuto como a raposa, cauteloso como o lobo. Ordena bem os meios para conseguires teus intentos e não terás queixas da Fortuna.
83. AS BOAS OBRAS...
Um dia, um banqueiro milionário me chamou e entregou-me um cheque em que estava escrito: 'Pague-se à vista um milhão de reais’e, logo abaixo, li a firma do banqueiro: Rotschild. Corri ao banco e apresentei o cheque. Todos me saudaram com muita cortesia e o gerente entregou-me um milhão de reais. Quando me retirei, fui de novo alvo de mesuras, sorrisos e saudações de todo o pessoal do banco...
Um belo dia, porém, tomei o mesmo cheque e, por minha conta e orgulho, coloquei nele a minha própria assinatura. Como a minha caligrafia era mais bela que a do banqueiro milionário, corri ao banco cheio de confiança... Mas, desta vez nem dinheiro, nem mesuras; não me pagaram o cheque e por cúmulo, botaram-me para fora sob empurrões e entre dois policiais...
E tudo isso por quê? Por que um cheque assinado por Rotschild tem valor e o meu não tem? É que ao meu falta a condição principal: o crédito. Na vida espiritual, dá-se coisa semelhante. Uma obra assinada por um amigo de Deus tem valor no Banco do Céu; mas uma obra feita por um indivíduo sem religião, que só acredita na filantropia, na honradez natural, nenhum ou bem pouco valor tem diante de Deus.
84. O NÓ GÓRDIO
O célebre capitão Alexandre Magno (+ 323 a. C.), numa de suas guerras, chegou a Górdio, cidade da Frígia, onde se encontrava, numa torre, o assim chamado nó górdio. O famoso nó era muito complicado, e jamais alguém o conseguira desatar. Alexandre, porém, desatou-o sem a mínima dificuldade. De que modo? Com um simples golpe de espada partiu o nó pelo meio.
É assim que devemos fazer para livrar-nos das ocasiões do pecado: cortar imediatamente e sem hesitação os vínculos pecaminosos.
(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)
