terça-feira, 27 de agosto de 2019

COMPÊNDIO DE SÃO JOSÉ (XIX)


91. Se São José é cultuado nas igrejas, o que dizer de sua presença na Basílica de São Pedro no Vaticano? 

Se São José foi proclamado por Pio IX, em 1870, Patrono da Igreja Universal com o Decreto Quemadmodum Deus e se o mesmo Papa, em 1847, tinha estendido a Festa do Patrocínio para toda a Igreja Universal com o Decreto Inclytus Patriarcha Joseph, quis também o Papa João XXIII, em 19 de março de 1963, que no maior templo do cristianismo houvesse um altar com sua imagem para acender ainda mais a devoção a São José, Protetor da Santa Igreja e também do Concílio Vaticano II. Além desta presença central na basílica vaticana, encontramos um mosaico de 1647 representando o 'sonho de São José', onde o Anjo revela a José a prodigiosa concepção de Maria por obra do Espírito Santo. Também na chamada 'Capela do Crucifixo', foi colocado em 19 de março de 1851 uma tela que representa São José com o Menino Jesus nos braços. Encontramos também na parte esquerda do Colonnato del Bernini, quase no início da praça de São Pedro, uma belíssima estátua de São José representando um homem vigoroso, com os olhos voltados para os céus, com a mão direita sobre o peito e tendo na esquerda um bastão florido. Uma outra representação no átrio da basílica apresenta a 'morte de São José'. Tudo isto mostra a necessidade de dar a São José um lugar de destaque, correspondente à sua dignidade. Digno de consideração é o fato que no altar de São José, 'Patrono da Igreja Universal', é celebrada diariamente uma missa para a paz. 

92. Dentre as várias representações que a arte fez sobre São José, quais são as que chamam mais atenção? 

Há algumas raras iconografias sobre São José, não tanto pela beleza da arte, mas pelo motivo representado, como aquela que enfoca José ensinando a Torá ou a Lei a Jesus, fato raro, porém em perfeita harmonia com a tarefa que a Sagrada Escritura e a tradição hebraica asseguram ao pai, ou seja, de ensinar ao filho as leis divinas. É fácil encontrar José representado entre as suas ferramentas na carpintaria, porém é raro vê-lo como um 'instruído', um conhecedor das Escrituras. Esta nova visão pela arte começou no Renascimento (1450-1600), onde ele é representado com um lírio na mão ou lendo. Desta forma, o bastão com o qual se identificava o nosso santo não foi a única forma que os artistas encontraram para representá-lo.

93. Ao representar São José lendo um livro, os artistas abandonaram as características onde ele é representado com o bastão florido, o lírio ou no trabalho da carpintaria? 

Não. Encontramos diversas obras onde São José é reconhecido pelo lírio na mão direita e tendo um livro na mão esquerda, ou ainda representado sentado ao lado de sua mesa de carpinteiro cheia de ferramentas e concentrado, à luz de uma vela, na leitura de um livro. Um outro afresco de 1524 representa a Virgem com o Menino à esquerda de José com uma auréola, tendo um ramo florido na mão direita e de novo um livro fechado na mão esquerda. Por fim, encontra-se na National Gallery de Londres uma obra atribuída a João Batista Moroni, morto em 1578, onde José é representado como jovem com um turbante no lugar da auréola, segurando na mão direita um ramo florido e na esquerda um livro fechado. Tudo isso indica que, embora os artistas quiseram exprimir outros particulares da vida de José, não esqueceram de realçar conjuntamente aqueles que lhes foram mais característicos. 

94. Podemos afirmar que a arte sacra evolui em relação a São José na medida em que a Teologia e a devoção josefina também evoluíram? 

Em certo sentido sim, pois nos séculos em que a teologia de São José estava ainda em germe, a figura do nosso santo é enfocada no conjunto das cenas evangélicas da infância de Jesus; depois, na medida em que as reflexões teológicas se concentram sobre ele, a arte lentamente começa a representá-lo intimamente ligado à Sagrada Família, onde vem reconhecida a sua missão de esposo e chefe e em atitudes paternas para com Jesus. Um bom exemplo disto é o quadro de Gabriel Wüger de 1892 onde São José é representado com um rosto jovem, com uma farta barba e cabelo, olhar sereno e voltado para o Menino, o qual é sustentado sem dificuldades no seu braço esquerdo, enquanto Jesus tem a mão apoiada no peito de José e com a outra acaricia o seu rosto num gesto de delicadeza, confiança, respeito, amor e admiração. Portanto, evidencia fortemente a paternidade de José. Por outro lado, sua cabeça é ornada com uma auréola assinalando o prêmio que recebeu de Deus pelas suas virtudes e também para realçar sua realeza humana, descendente de Davi, de estirpe real, a qual José transmitiu a Jesus dando-lhe o título de 'Filho de Davi'. José é ilustrado ainda neste quadro com o bastão na mão direita, símbolo de sua eleição divina e de sua autoridade: o bastão florido com um ramo de amendoeira indicam a sua vigilância sobre a Sagrada Família. O lírio encontra-se aos pés de São José, perto das ferramentas de trabalho, para indicar que a virtude de sua castidade e a fadiga diária foram os instrumentos com os quais ele exerceu sua paternidade. 

95. A arte moderna continua acompanhando a evolução da teologia josefina? 

Podemos dizer que sim e um exemplo significativo disso encontra-se no grandioso afresco que ocupa a parte central da capela da Casa Geral dos Oblatos de São José em Roma, executado pelo pintor romano Pagliardini no ano de 1960, no clima de preparação do Concilio Vaticano II, cujo tema é expresso no afresco com a frase: quasi arcus refulget Joseph - José resplandece como um arco-íris, uma expressão acomodada do livro do Eclesiástico (Eclo 50,8), num elogio ao sumo sacerdote Simeão II. O arco-íris é um símbolo conhecido na Bíblia como sinal de aliança de Deus com o povo depois do dilúvio. A presença de São José na história da salvação dá-se no momento em que Deus faz pessoalmente a sua aliança com os homens através do dom de seu Filho; por isso, José ocupa o centro da cena sustentando o Filho de Deus com seu braço vigoroso, tendo na mão esquerda o lírio, símbolo de sua castidade. O Menino se agarra confiante em José que manifesta uma expressão de tranquila segurança. Dois Anjos seguram uma faixa com a frase: Te Joseph celebrent agmina coelitum - 'te celebrem, ó José, as cortes celestes', um convite às potestades celestes para festejarem José, o arco-íris da paz. À esquerda uma outra frase: Protector Sanctae Ecclesiae - Protetor da Santa Igreja e o espaço é ocupado por João XXIII, apresentando a São José a Igreja representada pela Basílica de São Pedro, ele que o declararia, depois, em 19 de março de 1961, o Protetor do Concílio Vaticano II. O quadro apresenta ainda outras representações referentes ao patrocínio de São José sobre a Congregação dos Oblatos de São José. Esta obra de notável valor artístico indica a consonância da arte com a atual teologia josefina.

('100 Questões sobre a Teologia de São José', do Pe. José Antonio Bertolin, adaptado)

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

SOBRE O ANIQUILAMENTO INTERIOR

Quando nos falam de renunciarmos a nós mesmos, de aniquilar-nos; quando nos dizem ser esse o fundo da moral cristã, consistir nisso a adoração em espírito e verdade, tal palavra nos parece dura e até injusta: não queremos ouvi-la e repelimos quem no-lo prega da parte de Deus. Convençamo-nos, uma vez por todas, de que esse preceito nada de injusto encerra e na prática é mais suave do que pensamos. Em seguida, humilhemo-nos se nos faltar coragem para pô-lo em prática e, ao invés de condená-lo, condenemos a nós mesmos.

Que nos pede o Senhor, ordenando que nos aniquilemos? Pede fazermos justiça a nós mesmos, colocarmo-nos em nosso lugar e reconhecermo-nos tais quais somos... Tudo quanto possuo, tudo quanto sou, não pertence propriamente a mim; que só tenho de meu o nada e a quem nada se pode tirar. Se assim encarássemos, sempre do lado de Deus e jamais do nosso, tudo que nos acontece, não seríamos tão melindrosos, tão sensíveis, tão sujeitos a nos queixarmos e irritarmos. Toda a desordem vem sempre de supormos que somos alguma coisa, de nos arrogarmos direitos que nos falecem, de em tudo começarmos sempre por nos considerarmos diretamente e não prestarmos atenção aos direitos e aos interesses de Deus, os únicos lesados no que nos concerne.

Confesso que isso é de prática muito difícil e para consegui-lo faz-se mister renunciarmos, absoluta e completamente, a nós mesmos. Mas, em suma, é justo e a razão coisa alguma pode opor. Deus, portanto, nada exige de nós que não seja razoável, quando a seu respeito e a respeito do próximo quer que nos portemos como nada sendo, nada tendo, nada pretendendo... Acrescento que semelhante forma de aniquilamento, contra a qual a natureza tanto se insurge e clama, ao invés de tão penosa como imaginamos, é até suave, porque antes de tudo Jesus Cristo a declarou tal: 'Tomai sobre vós o meu jugo', disse Ele; 'que é doce e leve'. Por mais pesado que seja esse jugo, Deus o suaviza para os que o tomam de boa vontade e consentem em carregá-lo por seu amor. O amor não nos impede de sofrer, mas faz como que amemos o sofrimento e torna-o preferível e a todos os prazeres.

A recompensa presente do aniquilamento é a paz do coração, a calma das paixões, a cessação de todas as agitações do espírito, das murmurações, das revoltas interiores. Vejamos, em pormenores, a prova disto. Qual é o maior mal do sofrimento? Não é a própria dor, é a revolta, a sublevação interior que a acompanha. A alma aniquilada sofreria todos os males imagináveis sem perder o repouso conexo ao seu estado: é fato de experiência. Custa-nos conseguir o nosso aniquilamento, temos que fazer grandes esforços sobre nós mesmos: mas também gozamos da paz na proporção das vitórias alcançadas.

O hábito de renunciarmos a nós mesmos, de não atendermos ao nosso eu, torna-se cada dia mais fácil; admiramo-nos de que não nos faça mais sofrer, no fim de certo tempo, aquilo que nos parecia intolerável, assustava a imaginação, sublevava as paixões e punha a natureza em estado violento. Nos desprezos, nas calúnias e humilhações, o que no-las torna tão duras de suportar é o nosso orgulho; é o nosso desejo de ser estimados, considerados, tratados com certas atenções; é o pavor que temos das zombarias e do desprezo do próximo. Eis o que nos agita e enche de indignação, o que nos torna a vida amarga e insuportável. Trabalhemos com afinco para aniquilar-nos; não demos alimento nenhum ao orgulho, deixemos caírem todos os artifícios de estima e amor próprio, aceitemos interiormente as pequenas mortificações que se apresentarem.

Pouco a pouco chegaremos a não mais nos inquietarmos com o que se pensa e diz de nós, nem com o modo pelo qual nos tratam. Um morto nada sente; para ele não há honra nem reputação; os louvores e as injúrias lhe são indiferentes. A maior parte dos sofrimentos e desgostos por que passamos no serviço de Deus provém de não estarmos bastante aniquilados em sua presença, de conservarmos certa vida própria no meio dos nossos exercícios, de imiscuir-se um secreto orgulho em nossa devoção. E por isso não somos indiferentes às consolações e à sua falta; sofremos quanto Deus parece afastar-se de nós; esgotamo-nos em desejos e esforços tendentes a fazê-lo voltar; ficamos abatidos e desolados, se o afastamento perdura muito. 

Por isso também temos falsos alarmes a respeito do nosso estado. Afigura-se-nos estarmos mal com Deus porque Ele nos priva de algumas doçuras sensíveis. Julgamos más as nossas comunhões, porque as fazemos sem gosto, a mesma coisa acontecendo quanto às nossas leituras, orações e outras práticas. Sirvamos a Deus com espírito de aniquilamento; sirvamo-lo por Ele e não em atenção a nós; sacrifiquemos os nossos interesses à sua glória e ao seu bel-prazer; então, estaremos sempre contentes com o seu modo de tratar-nos, persuadidos de que nada merecemos e de ser imensa a bondade de sua parte, não digo aceitando, porém suportando os nossos serviços.

Nas grandes tentações contra a pureza, a fé e a esperança, o que há de mais penoso para nós não é precisamente o temor de ofender a Deus, senão o medo de perder-nos, ofendendo-o. É o nosso interesse que nos ocupa muito mais do que a sua glória. Eis a razão de ter um confessor tanta dificuldade em tranquilizar-nos e reduzir-nos à obediência. Cremos que ele nos engana, transvia e perde, porque nos obriga a deixar de lado as nossas vãs apreensões. Aniquilemos o nosso conceito; não julguemos por nós mesmos. Encontraremos a paz e paz perfeita, no esquecimento total de nós mesmos. Nada há no céu, na terra, nem do inferno, capaz de perturbar a alma verdadeiramente aniquilada.

(Excertos da obra 'Manual das Almas Interiores', do Pe. Grou, 1932)

domingo, 25 de agosto de 2019

PÁGINAS COMENTADAS DOS EVANGELHOS DOS DOMINGOS

Filho, realiza teus trabalhos com mansidão e serás amado mais do que um homem generoso. Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade e assim encontrarás graça diante do Senhor (Eclo 3, 19-20)

sábado, 24 de agosto de 2019

IMAGINARIUM

(adaptado de arquivo original publicado no blog Senza Pagare)

28 DE AGOSTO: SANTO AGOSTINHO DE HIPONA


"...Inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Ti."

Dia 28 de agosto é a festa de um dos grandes santos da Igreja, um dos fundadores da chamada Patrística (a fase inicial da formação da Teologia Cristã e seus dogmas). Santo Agostinho nasceu a 13 de novembro de 354, na pequena cidade de Tagaste, perto de Hipona, na Numídia (atual Argélia), filho de Patrício e Mônica (santa da Igreja Católica, cuja festa é celebrada em 27 de agosto). Da vida promíscua ao desvario da sua inclusão em seitas maniqueístas, Santo Agostinho experimentou desde a indiferença até a descrença completa nas coisas de Deus. A resposta da sua mãe, profundamente dolorosa diante a perspectiva da perda eterna da alma do filho amado, foi sempre a mesma: oração, oração, oração!

E a conversão de Agostinho foi lenta e profunda: no ano de 382, em Milão, então com 32 anos de idade, o santo foi finalmente batizado, junto com um amigo e o seu filho Adeodato (que morreria pouco tempo depois) por Santo Ambrósio. E que conversão! Sobre o tapete dos pecados passados, da vida desregrada da juventude (que descreveria com imenso desgosto em sua obra máxima ‘Confissões’), nasceria um santo dedicado por inteiro à glória de Deus, pregando como sacerdote e, mais tarde, como bispo de Hipona, que a verdadeira fonte da santidade nasce, renasce e se fortalece na humildade. Combateu com tal veemência as diversas frentes de heresias do seu tempo, incluindo o arianismo e o maniqueísmo, que foi alcunhado de Escudo da Fé e Martelo dos Hereges. Santo Agostinho, Doutor da Igreja e Defensor da Graça, morreu em 28 de agosto de 430, aos 76 anos de idade.

Excertos da Obra: 'Confissões', de Santo Agostinho:

'Amo-te, Senhor, com uma consciência não vacilante, mas firme. Feriste o meu coração com a tua palavra, e eu amei-te. Mas eis que o céu, e a terra, e todas as coisas que neles existem me dizem a mim, por toda a parte, que te ame, e não cessam de o dizer a todos os homens, de tal modo que eles não têm desculpa. Tu, porém, compadecer-te-ás mais profundamente de quem te compadeceres,e concederás a tua misericórdia àquele para quem fores misericordioso: de outra forma, é para surdos que o céu e a terra entoam os teus louvores. Mas que amo eu, quando te amo? Não a beleza do corpo, nem a glória do tempo, nem esta claridade da luz, tão amável a meus olhos, não as doces melodias de todo o gênero de canções, não a fragrância das flores, e dos perfumes, e dos aromas, não o maná e o mel, não os membros agradáveis aos abraços da carne. Não é isto o que eu amo, quando amo o meu Deus, E, no entanto, amo uma certa luz, e uma certa voz, e um certo perfume, e um certo alimento, e um certo abraço, quando amo o meu Deus, luz, voz, perfume, alimento, abraço do homem interior que há em mim, onde brilha para a minha alma o que não ocupa lugar, e onde ressoa o que o tempo não rouba, e onde exala perfume o que o vento não dissipa, e onde dá sabor o que a sofreguidão não diminui, e onde se une o que o que a saciedade não separa. Isto é o que eu amo, quando amo o meu Deus'.

'Aterrorizado com os meus pecados e com o peso da minha miséria, tinha considerado e meditado no meu coração fugir para a solidão, mas tu proibiste-me e encorajaste-me, dizendo: Cristo morreu por todos, a fim de que os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que morreu por eles. Eis, Senhor, que eu lanço em ti a minha inquietação, a fim de que viva, e considerarei as maravilhas da tua Lei. Tu conheces a minha incapacidade e a minha fragilidade: ensina-me e cura-me. O teu Unigênito, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência, redimiu-me com o seu sangue. Não me caluniem os soberbos, porque penso no preço da minha redenção, e como, e bebo, e distribuo, e, pobre, desejo saciar-me dele entre aqueles que dele se alimentam e saciam: e louvam o Senhor aqueles que o procuram'.

ORAÇÃO: UBI CARITAS

Ubi Caritas é uma oração intimamente associada à Comunhão Eucarística, sendo parte integrante das antífonas comumente cantadas durante as cerimônias de exposição pública do Santíssimo Sacramento e, particularmente, da cerimônia de Lava-Pés na Quinta-feira Santa. A tradição recente alterou a primeira linha da oração original de Ubi caritas est vera ('onde a caridade é verdadeira') para Ubi caritas et amor ('onde a caridade e o amor').


Ubi caritas et amor, Deus ibi est.
Congregavit nos in unum Christi amor.
Exultemus, et in ipso iucundemur.
Timeamus, et amemus Deum vivum.
Et ex corde diligamus nos sincero.

Ubi caritas et amor, Deus ibi est.
Simul ergo cum in unum congregamur:
Ne nos mente dividamur, caveamus.
Cessent iurgia maligna, cessent lites.
Et in medio nostri sit Christus Deus.

Ubi caritas et amor, Deus ibi est.
Simul quoque cum beatis videamus,
Glorianter vultum tuum, Christe Deus:
Gaudium quod est immensum, atque probum,
Saecula per infinita saeculorum. Amen.

***********************

Onde o amor e a caridade, Deus aí está.
Congregou-nos num só corpo, o amor de Cristo.
Exultemos, pois e nele jubilemos.
Ao Deus vivo nós temamos, mas amemos
E sinceros, uns aos outros, nos queiramos.

Onde o amor e a caridade, Deus aí está.
Todos juntos, num só corpo congregados,
pela mente não sejamos separados.
Cessem rixas. cessem lutas, divisões,
E esteja, em nosso meio, Cristo Deus.

Onde o amor e a caridade, Deus aí está.
Junto, um dia, com os eleitos nós vejamos
Tua face gloriosa, Cristo Deus:
Gáudio puro que é imenso e que ainda vem,
Pelos séculos dos séculos. Amém.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

DA PRÁTICA DA CARIDADE PELO EXEMPLO E ORAÇÃO

1. O melhor exercício de caridade é ter zelo pelo bem espiritual do próximo. Quanto a alma é superior ao corpo, tanto a caridade que se exerce com a alma do próximo vale mais diante de Deus do que a que se exerce com o corpo. Esta caridade se exerce em primeiro lugar pela correção daqueles que pecam. Quem converte um pecador, salva não só o seu irmão, senão também a si mesmo porque Deus, por essa caridade, lhe perdoará todos os pecados, como escreve São Tiago. 

Pelo contrário, diz Santo Agostinho, que aquele que vê seu próximo se perder, irando-se contra seu irmão ou maltratando-o com injúrias, e deixa de adverti-lo, com seu silêncio torna-se pior do que o outro com suas afrontas. Não vos escuseis por falta de capacidade. Para corrigir, vos responde São João Crisóstomo, é mais necessária a caridade do que a sabedoria. Fazei a correção no tempo oportuno com caridade e doçura, e vos saireis bem. Se sois superiora [o texto foi dirigido originalmente à orientação espiritual de religiosas], estais obrigada a fazê-la por ofício; se o não sois, estais obrigada por caridade, sempre que houver esperança de bom resultado. Quem visse um cego caminhar para um precipício, não seria cruel, se o não avisasse para livrá-lo da morte temporal? 

Muito mais cruel é quem, podendo livrar sua irmã da morte eterna, por negligência deixa de fazê-lo. Quando pois julgardes prudentemente que a vossa correção será inútil, procurai, ao menos, advertir secretamente a superiora ou outra que possa remediar o caso. Não insteis em dizer: 'Este não é o meu ofício, não quero ser intrometida'. Esta foi a resposta de Caim, que assim dizia: 'Sou eu, pois, guarda de meu irmão?' Cada um está obrigado a impedir a ruína do próximo, quando pode; pois diz o Sábio: Deus encarregou a cada homem de zelar pelo bem de seu próximo (Ecl 17, 12).

2. São Filipe Nery diz que, quando se trata de socorrer o próximo, principalmente nas suas necessidades espirituais, Deus se compraz de ver-nos, se preciso for, deixar a oração. Um dia, Santa Gertrudes desejava entreter-se em orar, quando tinha que fazer uma obra de caridade; e o Senhor lhe disse: 'Dize-me Gertrudes, que coisa quereis? Quereis que eu te sirva ou queres me servir?' Dizia São Gregório: 'Se quereis ir ter com Deus, não vos apresenteis sós diante dele'. O mesmo dizia Santo Agostinho: 'Se amais a Deus, atrai todos os homens ao seu amor'. 

Se, pois, amais a Nosso Senhor, deveis esforçar-vos para não ser a única a amá-lo, mas procurai arrastar ao seu amor todas as criaturas, os vossos parentes, as pessoas com quem tratais, e sobretudo as vossas irmãs. Ah! uma santa religiosa pode santificar um convento todo, com suas palavras e com seus exemplos, fazendo nesta intenção todos os seus atos de piedade, e induzindo as outras a fazer o mesmo que ela. Com isto, não tenhais escrúpulo de vanglória: essas ações que nada têm de extraordinário, mas convêm a toda religiosa que se aplica à perfeição, como é obrigada, devem fazer-se também no intuito de dar bom exemplo e atrair mais a Deus as irmãs; pois ensinou Jesus Cristo: 'A vossa luz brilhe diante dos homens, para que vejam as vossas boas ações e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus (Mt 5, 16). Assim comungar frequentemente, mostrar-se piedosa, mortificada, exata na observância das regras, aplicada à oração, para dar bom exemplo às outras, não é ato de vaidade mas de caridade muito agradável a Deus. 

3. Procurai, portanto, auxiliar a todos, quanto for possível, com palavras, obras, e sobretudo com as vossas orações. Todas as esposas de Jesus Cristo devem zelar a sua honra, como ele mesmo exigiu de Santa Teresa, quando a constituiu sua esposa. Se uma Esposa de Jesus Cristo não toma a peito os interesses de sua glória, quem o fará? Todos conhecem a promessa feita por Nosso Senhor de ouvir a quem pedir qualquer coisa a seu Eterno Pai em seu nome (Jo 16, 23). Muitos doutores, apoiados na autoridade de São Basílio, ensinam que essa promessa vale também para todas as pessoas por quem se pede, contanto que elas não ponham nenhum óbice positivo ao efeito da oração. Sendo assim nas orações comuns, nas ações de graças depois da comunhão e nas visitas ao Santíssimo Sacramento, nunca deixeis de recomendar a Deus os pobres pecadores, os infiéis, os hereges e todos os outros que vivem afastados de Deus. 

Ó quanto agrada a Jesus Cristo ser rogado por suas esposas pelos pecadores! Ele mesmo disse um dia à venerável Soror Serafina de Capri: 'Ajuda-me, filha, a salvar almas com tuas orações'. De modo semelhante, disse um dia a Santa Maria Madalena de Pazzi: 'Vês, Madalena, como os cristãos estão de braços com o demônio? Se os meus eleitos os não livrassem com suas orações, seriam devorados'.  Pelo que a santa assim falava às suas monjas: 'Irmãs, Deus nos separou do mundo não só para que cuidássemos do nosso bem espiritual, senão também para que trabalhássemos pelos pecadores'. Outra vez, lhes dizia: 'Minhas irmãs, nós temos de dar contas por tantas almas perdidas'. 

4.  Não vos esqueçais de orar também pelas almas do purgatório. A caridade nos aconselha e até nos obriga, como diz um douto autor, a orar por essas almas santas que tanto precisam de nossas orações.  São Tomás ensina que a caridade cristã se estende não só aos vivos, mas também a quantos morreram em estado de graça. Assim como somos obrigados a socorrer o nosso próximo durante a vida, quando tem necessidade do nosso auxílio, assim também devemos socorrer aquelas almas prisioneiras. As penas que elas padecem, acrescenta o doutor angélico, ultrapassam a todas as penas desta vida; e necessitam do nosso adjutório, porque por si mesmas não se podem ajudar. 

Assim o declarou um monge da Ordem de Cister que, aparecendo, depois da morte, ao sacristão do seu mosteiro, lhe disse: 'Socorre-me com tuas orações, porque por mim mesmo nada posso obter'. Ora, se todos os fiéis estão obrigados a orar pelas almas do purgatório, tanto mais devem socorrê-las com suas orações as religiosas recolhidas por Deus aos mosteiros, que todos são casa de oração. Não deixeis, pois, passar nenhum dia, sem recomendar a Deus em todas as vossas orações às benditas almas, esposas de Nosso Senhor que pedem o vosso auxílio. Sede generosas com elas, oferecendo-lhes alguns jejuns e outras mortificações. Sobretudo aplicai-lhes as missas que ouvirdes, pois este é o grande sufrágio por essas santas almas, que não sabem ser ingratas. Ainda que do fundo do seu cárcere, alcançarão a Deus para vós grandes graças e, quando entrarem no paraíso, ainda maiores.

(Excertos da obra 'A Verdadeira Esposa de Jesus Cristo', de Santo Afonso Maria de Ligório)