sábado, 25 de julho de 2026

AS VINHAS DE DEUS (V)

 

29. Ao cultivarmos o nosso jardim, não podemos deixar de admirar a inocência e a pureza do humilde morangueiro. Embora se arraste rente ao chão e seja continuamente pisado por serpentes, lagartos e outros répteis venenosos, não absorve o menor vestígio de veneno nem a mais leve qualidade maligna. É um verdadeiro sinal de que não possui qualquer afinidade com o veneno. Assim acontece também com as virtudes humanas. Ainda que estejam em um coração vil, terreno e dominado pelo pecado, de modo algum se contaminam com a sua malícia, porque são de natureza tão sincera e tão pura, que não podem ser corrompidas pela convivência com a iniquidade.

30. A nossa miserável natureza, ferida pelo pecado, assemelha-se às palmeiras que existem nesta região, as quais não produzem senão bagas imperfeitas, meros esboços de fruto. Produzir tâmaras plenamente desenvolvidas, doces e maduras, é privilégio reservado às terras mais quentes. Assim também os nossos pobres corações humanos produzem naturalmente certos começos de amor para com Deus; mas amá-lo acima de todas as coisas - que é a verdadeira maturidade do amor devido à Bondade Suprema - é dom que pertence somente às almas vivificadas e auxiliadas pela graça celeste, e que se encontram no estado da santa caridade.

31. O homem está neste mundo como uma árvore plantada pela mão do Criador, cultivada por sua sabedoria e regada pelo Sangue de Jesus Cristo, para que produza frutos segundo o agrado de seu Senhor, que deseja ser servido principalmente nisto: que, com pleno consentimento da nossa vontade, nos deixemos governar pela sua Providência, a qual conduz os que livremente se submetem a ela e arrasta os que lhe resistem.

32. O ramo da videira, unido à cepa, não produz fruto por si mesmo, mas porque faz parte da própria videira. Assim também nós estamos unidos a Nosso Senhor pela caridade, como os membros estão unidos à cabeça; e é por isso que os nossos frutos e as nossas boas obras, recebendo dele o seu valor, tornam-se meritórios para a vida eterna.

33. Se cortardes um pé de roseira e colocardes um grão de almíscar na abertura, as rosas que depois nascerem exalarão um intenso perfume de almíscar. Fendei, pois, o vosso coração pela santa penitência e depositai nessa abertura o amor de Deus; depois enxertai sobre ele a virtude que desejardes, e todas as vossas boas obras ficarão impregnadas do perfume da santidade, sem que tenhais de vos preocupar com isso.

34. E, assim como sementes que por si mesmas produziriam apenas melões insípidos e sem sabor passam a produzir melões deliciosos e perfumados quando são embebidas em água açucarada, assim também as nossas almas, que por si mesmas não seriam capazes de conceber um único bom pensamento para o serviço de Deus, quando são impregnadas das santas delícias do Espírito Santo, que habita em nós, produzem obras santas que conduzem à glória eterna e nos levam até ela.

35. As nossas obras, consideradas apenas como procedentes de nós mesmos, não passam de frágeis caniços; mas esses caniços tornam-se de ouro pela caridade. É com essa vara de ouro que se mede a Jerusalém celeste (Ap 21,15), a qual nos é concedida segundo essa medida. Pois tanto os homens como os anjos recebem maior ou menor grau de glória conforme a sua caridade e as suas obras; por isso, 'a medida do anjo é também a medida do homem' (Ap 21,17). E Deus 'dará a cada um segundo as suas obras' (Ap 22,12).

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 4, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).