1. Estou prestes a dizer a todos os que me ouvem que suas almas são a vinha de Deus, na qual a fé é a cisterna, a esperança é a torre, a santa caridade é o lagar, e a lei de Deus é a cerca que as separa dos infiéis... Tua vontade é a tua vinha; as inspirações divinas derramadas por Deus em tua alma são a cisterna; a santa castidade é a torre que, como a de Davi, deve ser feita de marfim; a obediência, pela qual todas as tuas ações se tornam meritórias, é o lagar. Que Deus preserve esta vinha que Ele plantou com as suas próprias mãos. Que Ele encha a cisterna com as abundantes águas da graça divina. Que proteja sua torre; que seu lagar, sob a pressão de sua mão, transborde do vinho bom; que conserve sempre fechada e espessa a bela cerca com que rodeou a sua vinha; e que seus santos anjos sejam os vinhateiros imortais.
2. Deus permita que floresças, ó bela planta, filha do céu; Deus permita que teus frutos cheguem à maturidade; e que Ele os preserve, dia e noite, em sua plena maturação, dos ventos cruéis que lançam ao chão os frutos da terra, onde os animais selvagens e famintos os devoram.
3. O anseio pela santidade deve ser semelhante às laranjeiras da costa marítima de Gênova, que permanecem cobertas de frutos, flores e folhas durante quase todo o ano. Pois o teu desejo deve amadurecer diariamente em frutos, em cada oportunidade de praticar o bem que se apresentar, sem jamais deixar de aspirar a novas ocasiões de progresso espiritual. Essas aspirações são as flores da árvore; suas folhas são o frequente reconhecimento de tua própria fraqueza, o qual preserva tanto as tuas boas obras quanto os teus bons desejos.
4. Nossos corações são árvores; os afetos e as paixões são seus ramos; e as obras e ações são seus frutos. O coração é bom quando possui bons afetos, e os afetos são bons quando produzem ações boas e santas. Se a doçura, a ternura e as consolações nos tornam mais humildes, pacientes, mansos, caridosos e compassivos para com o próximo; mais fervorosos na mortificação de nossas concupiscências e más inclinações; mais constantes em nossos exercícios religiosos; mais dóceis nas mãos de nossos superiores; mais simples em nosso modo de vida, então, sem dúvida, elas vêm de Deus. Mas se essa doçura é apenas para nós mesmos, tornando-nos curiosos, ásperos, excessivamente melindrosos, impacientes, obstinados, orgulhosos, presunçosos e duros de coração para com o próximo; se nos leva a acreditar que já somos santos e, por isso, não precisamos mais de direção nem de correção, então, certamente, essas consolações são falsas e perniciosas. Uma árvore boa produz bons frutos.
5. No princípio, Deus ordenou às plantas que produzissem frutos, cada uma segundo a sua espécie; da mesma forma, ordena a todos os cristãos, que são as plantas vivas da sua Igreja, que produzam os frutos da devoção, cada qual de acordo com sua condição e vocação.
6. Olhai as abelhas sobre o tomilho: elas encontram ali um suco amargo, mas, ao sugá-lo, transformam-no em mel. Assim também as almas verdadeiramente devotas transformam as amarguras, tribulações e mortificações da vida em doçura espiritual, porque o amor de Deus converte aquilo que naturalmente seria penoso em ocasião de alegria e crescimento interior.
7. O açúcar adoça os frutos ainda verdes e corrige tudo o que há de áspero ou nocivo nos frutos maduros. Ora, a devoção é o verdadeiro açúcar espiritual: ela retira das mortificações a sua amargura e das consolações todo o perigo. Ela anima os pobres e modera os ricos; suaviza a miséria dos oprimidos e a insolência dos favorecidos; alivia a tristeza dos que vivem na solidão e as discórdias dos que vivem em sociedade... Se a caridade é o leite, a devoção é sua nata; se a caridade é uma planta, a devoção é sua flor; se é uma pedra preciosa, a devoção é seu brilho; se é um bálsamo precioso, a devoção é seu perfume - um perfume de suavidade que consola os homens e faz os anjos estremecerem de alegria.
(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 1, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).
