Muitos acreditam que alguns dos réprobos estarão condenados, entre muitas outras dores intoleráveis, a suportar um frio terrivelmente intenso. O venerável Beda relata a seguinte história sobre um homem chamado Trithelmus. Esse homem estava gravemente doente e, certa noite, foi dado como morto. Na manhã seguinte, porém, ele recuperou a consciência para o espanto de todos os que estavam com ele, e levantou-se do leito de doença, dizendo que Deus lhe havia concedido uma prorrogação dos seus dias, para que pudesse levar uma vida diferente daquela que havia levado até então.
Depois de dividir os seus bens entre seus filhos e doar uma parte deles aos pobres, ele adotou um modo de vida totalmente diferente. Encerrando-se em uma pequena tenda à beira de um rio, passava seus dias e noites chorando. No inverno, mergulhava até o pescoço nas águas geladas do rio e, em seguida, tremendo e entorpecido pelo frio, mergulhava em água quente - um procedimento que lhe causava tanta agonia que não conseguia conter seus gritos.
Quando questionado sobre o motivo de sua conduta estranha e como ele conseguia suportar as alternâncias repentinas entre calor extremo e frio extremo, ele respondeu: 'Já vi coisas piores do que isso'. 'O que você viu?' - perguntaram-lhe os outros. E ele respondeu: 'Vi como as almas infelizes em outro mundo são lançadas de um fogo furioso para o frio glacial e, do frio glacial, de volta às chamas ardentes. Quando percebo o que elas têm de suportar, considero meus sofrimentos insignificantes como nada'. Essa história, relatada por um homem tão sério e santo como o venerável Beda, mostra quão terríveis são, de fato, os tormentos do Inferno.
Cristo nos fala das trevas do Inferno com estas palavras solenes: 'Amarrai-lhe as mãos e os pés e lançai-o nas trevas exteriores: ali haverá choro e ranger de dentes' (Mt 22,13). Nosso Senhor fala das trevas do inferno como trevas exteriores, as mais apavorantes, as mais temíveis que possam existir. Um viajante que se perdeu na floresta e foi surpreendido pela noite sente um terror indescritível tomar conta dele. Ora, existe uma terra coberta pela sombra da morte, onde não reina a ordem, mas um horror eterno. Essa terra é o inferno. Uma escuridão opressiva pesa sobre os perdidos; prevalece uma escuridão indescritivelmente terrível.
Neste mundo, os doentes nada temem mais do que a noite, pois o tempo parece passar muito lentamente para eles, e sua dor parece duplamente penosa. Eles contam as horas, e cada uma parece tão longa quanto a noite. Como será para os habitantes do Inferno, onde a escuridão densa domina e a noite nunca dá lugar à luz do dia? Nessa escuridão horrível, os condenados jazem indefesos como cegos, ou como aqueles a quem os olhos foram cruelmente arrancados. Eles não veem nada, pois a fumaça acre arde em seus olhos, e os vapores venenosos do enxofre destroem sua visão. Sabemos quão densa é essa fumaça pelo relato de São João: 'A ele (Satanás) foi dada a chave do abismo (Inferno). E ele abriu o abismo; e a fumaça do abismo subiu como a fumaça de uma grande fornalha; e o sol e o ar foram escurecidos pela fumaça do abismo' (Ap 9,2). E ainda: 'Serão atormentados com fogo e enxofre, e a fumaça de seus tormentos subirá para todo o sempre; nem terão descanso dia nem noite' (Ap 14,11).
Essas são, de fato, ameaças terríveis, e essa profecia anuncia, nos termos mais claros, qual será o destino daqueles que são servos do pecado e do diabo. Eles serão atormentados com fogo e enxofre a tal ponto que a fumaça de seu tormento subirá para todo o sempre. Que palavras terríveis! Ó tortura inexprimível! Considera, ó pecador desorientado, quais seriam teus sentimentos se ficasses confinado por um único dia nessa masmorra escura e fétida. Tu sabes como a fumaça pungente é desagradável aos olhos e às narinas; na verdade, ninguém consegue permanecer nela por um quarto de hora sem ser asfixiado e ficar meio cego. Se isso acontece na Terra, como será no Inferno?
A existência dos condenados se assemelha mais à morte do que à vida; é uma morte em vida, uma tortura e miséria eternas e ilimitadas. E, visto que nos é dito que a fumaça de seu tormento sobe para sempre, segue-se necessariamente que a escuridão total deve prevalecer no Inferno. A respeito desse assunto, o venerável Beda relata as experiências do homem Trithelmus (de quem já se fez menção) enquanto ele jazia em transe e era considerado morto. Ao recuperar a consciência, entre outras coisas, ele narrou o seguinte: 'Fui conduzido por um ser vestido com roupas brilhantes por uma região que me era totalmente desconhecida, até chegarmos a uma área envolta em escuridão densa, que me fez estremecer de medo e horror. Não conseguia distinguir nada além da figura do meu guia. À medida que nos adentrávamos cada vez mais nessas trevas, percebi, no meio da escuridão, um abismo de imensa extensão, cheio de fumaça e de um brilho lúgubre, cuja visão fez meus cabelos se arrepiarem de terror. Desse abismo emanavam gemidos lastimáveis, que soavam como se vários homens e mulheres estivessem sendo submetidos a torturas cruéis e à morte.
Mas o pior foi que meu guia desapareceu, deixando-me sozinho naquele lugar terrível. Não consigo descrever a apreensão agonizante que tomou conta de mim; em vão olhei ao redor na esperança de encontrar socorro ou consolo. O terror que senti foi tão grande que pensei que fosse morrer. Quando olhei para baixo, para o abismo negro, tive medo de cair nele e me perder, de corpo e alma. Pois, junto com as chamas lúgubres que se erguiam do abismo, vinham faíscas ardentes que caíam de volta nele com um ruído ensurdecedor, além de nuvens de fumaça sulfurosa que pareciam prestes, a qualquer momento, a me arrastar com elas para as profundezas do golfo de fogo. Eram todas almas perdidas que eram impulsionadas para cima como faíscas de lenha em chamas pela força do fogo subterrâneo.
Só Deus sabe o que sofri; um suor frio banhou todo o meu corpo. Enquanto permanecia ali nessa agonia, sem saber para onde me virar, ouviram-se, bem acima da minha cabeça, gargalhadas, misturadas a choro amargo e uivos. À medida que aquele barulho se aproximava, vi vários demônios que traziam consigo cinco almas indefesas, as quais perseguiam e atormentavam. Os demônios estavam exultantes, zombando e rindo; as almas estavam em desespero, proferindo lamentos e gritos de angústia lancinante. Imagine quais foram meus sentimentos ao ouvir seus gritos e observar que os demônios malditos se aproximavam cada vez mais.
Quando chegaram bem perto de mim, fiquei tão dominado pelo terror que pensei que fosse desmaiar, e acredito que, se Deus não tivesse me fortalecido, eu teria morrido ali mesmo. Pois os demônios me lançavam olhares com seus olhos ardentes de maneira tão assustadora, e as pobres almas me imploravam por ajuda de forma tão comovente, que eu me sentia dividido entre o medo e a compaixão, e meu coração parecia prestes a se partir. Quando as almas foram levadas de mim, foram precipitadas nas profundezas do abismo pelos espíritos malignos com tanta violência que o céu e a terra pareciam tremer, e uma nuvem de faíscas voou para cima de tal forma que temi que elas me cobrissem. Por fim, para minha grande dor e pavor, vários espíritos malignos se aproximaram de mim, exalando raiva e fúria, e fazendo como se fossem me arrastar com eles para o abismo negro.
Então, em pânico absoluto, chorei, gritei e implorei por ajuda de algum lugar; pois, naquela densa escuridão, não via nada além de demônios zombeteiros, o abismo escancarado e as chamas crepitantes, e não sabia para onde me voltar em busca de salvação. Quando minha angústia estava no auge, meu guia reapareceu; ele me resgatou dos meus inimigos e me conduziu para fora daquele lugar escuro, imundo e horrível. Ele me disse, além disso, que eu deveria retornar ao meu corpo e que deveria dar a conhecer ao maior número possível de meus semelhantes a existência dessa terra de terrível escuridão'.
Além da obscuridade sinistra que prevalece no Inferno, causada pela fumaça sufocante que se eleva em nuvens densas do lago de enxofre, há aida a presença de demônios assustadores que aumentam a dor e o tormento dos condenados. Lemos na lenda de Santo Antônio, o Eremita, que os demônios frequentemente apareciam para ele sob várias formas, atormentando-o e aterrorizando-o de maneiras indescritíveis. Às vezes, assumiam a forma de feras, leões, ursos, dragões ou cães selvagens; outras vezes, apareciam em forma humana, como homens de aparência feroz, mulheres belas ou monstros de aspecto hediondo. Às vezes, eles o espancavam e maltratavam de forma tão bárbara que o deixavam meio morto; outras vezes, causavam-lhe tal terror com suas estranhas aparições espectrais que, se Deus e seu anjo da guarda não tivessem vindo em seu auxílio, ele teria expirado imediatamente.
Ora, se fizeram tudo isso a um homem de vida santa, sobre o qual não tinham nenhum poder legítimo, o que não farão no Inferno aos pecadores ímpios que estão completamente à sua mercê? Sem dúvida, esses espectros diabólicos, assumindo a forma de animais selvagens, se lançarão sobre os infelizes pecadores e os maltratarão vergonhosamente. Isso será um novo sofrimento para eles. Ninguém pode imaginar que novos terrores e tormentos a engenhosidade desses espíritos do Inferno inventará para atormentar os condenados e derramar sobre eles a sua malícia diabólica.
Se temes essa escuridão e todos os horrores que a acompanham, cuida para que temas as obras das trevas, sobre as quais Cristo diz: 'Todo aquele que pratica o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam repreendidas' (Jo 3, 20). Mas se tu amas as trevas e buscas as trevas para que possas pecar com maior impunidade, não será um ato de injustiça da parte de Deus lançar-te nas trevas eternas e, ao morreres, dizer aos demônios: 'Porque durante toda a sua vida ele amou as trevas e as obras das trevas, amarrai-lhe as mãos e os pés e lançai-o nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes'.
Oxalá todos os pecadores obstinados pudessem ver isso e considerar os terríveis tormentos que aguardam os descuidados e indiferentes. Pois naquilo em que pecamos, também seremos punidos. E como em nossos dias há tantos cristãos mornos e negligentes que não têm o menor zelo pela religião ou pelos exercícios religiosos, os exortamos a terem cuidado para que não sejam um dia lançados no fogo do inferno por ordem daquele que se autodenomina Deus zeloso, e que é o único a ser temido, pois Ele pode 'destruir tanto o corpo quanto a alma no inferno'. Portanto, considerem, ó cristãos frios e descuidados, que destino os aguarda. Na verdade, se refletissem sobre esses tormentos terríveis, entrariam imediatamente em uma nova vida. Em vez de serem cristãos mornos, preguiçosos, negligentes e frios, tornariam-se rapidamente servos de Deus zelosos, ativos, escrupulosos e fervorosos.
Fora, então, com toda a tibieza, toda a indiferença na grande questão da nossa salvação. Quem quer que sejas, tu que lês isto, resolve cumprir teus deveres como cristão com toda a seriedade. Aproxima-te dos sacramentos com mais frequência do que tens feito até agora; assiste à missa com mais frequência do que até agora, sê mais assíduo e fervoroso na oração do que até agora. Pensa com mais frequência em Deus e nas coisas últimas. Assim, tu superarás a indiferença, a frieza que se apoderou de ti; farás de Deus teu amigo; a esperança da felicidade eterna surgirá dentro de ti e se tornará uma certeza abençoada. Que Deus conceda, por sua graça, que assim seja contigo e comigo!
(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)
