sábado, 28 de fevereiro de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLIV)

São Domingos de Gusmão, fundador da Ordem Dominicana, nasceu em 24 de junho de 1170, na Espanha. Certa ocasião, Nossa Senhora apareceu e lhe entregou o Rosário, instrumento que passou a utilizar exaustivamente em suas pregações para converter milhares de hereges à Fé Católica. Faleceu no dia 6 de agosto de 1221, aos 51 anos de idade, sendo canonizado pouco tempo depois, em 1234, pelo Papa Gregório IX. Em muitas pinturas tradicionais do santo, chama a atenção a figura singular de um cão com uma tocha na boca aos pés do santo.


Trata-se do chamado Domini Canis - o cão do Senhor, um dos atributos associados a São Domingos, diretamente relacionado a um episódio antes do nascimento do santo. Durante a gravidez, a sua mãe teve uma visão: sonhou com um cão que, com uma tocha na boca, saía do seu ventre e parecia querer incendiar o mundo. O significado atribuído a esta visão é que ela iria dar à luz um pregador eminente, o qual, com a sua palavra flamejante, converteria os pecadores e derramaria sobre a terra o fogo de Cristo.

A designação Domini Canis permite estabelecer um jogo de palavras. De fato, Domini (em latim 'do Senhor') e Canis ('cão' em latim) seria , então, o Cão do Senhor. No entanto, se juntarmos as palavras domini + canis, tem-se a palavra dominicanis, ou seja, dominicanos.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

ORAÇÃO DE SÃO BENTO PELAS GRAÇAS DE DEUS

Pai santo e misericordioso,
concedei-nos intelecto para vos compreender,
razão para vos discernir, diligência para vos buscar,
sabedoria para vos encontrar, espírito para vos conhecer
e um coração para meditar em Vós.

Que nossos ouvidos vos ouçam,
que nossos olhos vos contemplem
e que nossas línguas vos proclamem.

Dai-nos a graça de que nossa maneira de viver vos seja agradável,
que tenhamos paciência para vos esperar
e perseverança para vos buscar.

Concedei-nos um fim perfeito: vossa santa presença,
uma ressurreição bendita e a vida eterna.
Isso vos pedimos por Jesus Cristo, nosso Senhor.
Amém.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

MESMO QUE APENAS UM SEJA SALVO!

Que a fé de nossos pais seja proposta àqueles que estão enganados, mas sempre de boa vontade, com toda ternura e caridade. Se eles concordarem, recebamo-los em nosso meio. Se eles não concordarem, habitemos sozinhos, independente de número e mantenhamo-nos afastados de almas equivocadas, que não possuem aquela simplicidade sem dolo, indispensavelmente necessária nos primeiros dias do Evangelho.

Os crentes, como está escrito nas Escrituras, tinham apenas um coração e uma alma. Portanto, aqueles que nos censuram por não desejar a pacificação, marquem bem quem são os verdadeiros autores da perturbação. Que eles não peçam mais reconciliação de nossa parte.

A todo argumento especioso que pareça aconselhar silêncio de nossa parte, opomos este outro argumento, a saber, que a caridade não conta como nada, nem seus próprios interesses nem as dificuldades dos tempos. Mesmo que nenhum homem esteja disposto a seguir nosso exemplo, o que fazer então? Devemos abandonar o dever somente por essa razão? Na fornalha ardente, os filhos do cativeiro da Babilônia entoaram seu cântico ao Senhor, sem fazer nenhuma avaliação da multidão que deixou a verdade de lado. Eles eram suficientes um para o outro, e eram apenas três!

Então, animem-se! Sob cada golpe, renovem-se no amor; deixem seu zelo ganhar força a cada dia, sabendo que em vocês devem ser preservados os últimos resquícios de piedade que o Senhor, em seu retorno, pode encontrar na terra...

Não deem atenção ao que a multidão pode pensar, pois um mero sopro de vento é suficiente para balançar a multidão para frente e para trás, como a onda ondulante. Mesmo que apenas um fosse salvo, como no caso de Ló de Sodoma, não seria lícito para ele se desviar do caminho da retidão, meramente porque ele descobre que ele é o único que está certo. Não; ele deve ficar sozinho, impassível, mantendo firme e unicamente a sua esperança em Jesus Cristo'.

(São Basílio de Cesareia)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

FRASES DE SENDARIUM (LXIX)


'A perfeição do amor no Céu não está exatamente na nossa felicidade em amar a Deus, mas no prazer que damos a Deus ao amá-lo'

(Santo Afonso de Ligório)

Ama a Deus com toda a força do seu coração. Não há ideal maior do homem inserido nos planos de Deus do que catalisar todo o seu incompleto e tíbio amor humano na convicção sincera de retribuir a dádiva infinita do próprio Amor. Deus quer tão somente o teu firme propósito neste mundo em ser instrumento e reflexo do Amor infinito que te espera no Céu.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XIII)

    

PARTE II - O JUÍZO FINAL

VIII. Sobre como a aparição de Cristo será terrível no Dia do Juízo Final e a hediondez do pecado mortal

O leitor pode, por acaso, estar inclinado a perguntar a razão pela qual Cristo, o mesmo Cristo que viveu entre nós na Terra com toda a gentileza e mansidão, deveria ter uma aparência tão terrível quando vier para ser nosso Juiz? Há muitas razões pelas quais Cristo, nessa qualidade, julgará a humanidade com tanta severidade. A principal delas é porque Ele foi gravemente ofendido pelos pecados dos homens.

Os teólogos afirmam que todo pecado mortal é, em si mesmo, um mal infinito e uma afronta infinita à majestade divina. É uma ofensa de tal magnitude que nem a língua dos anjos nem a dos homens são capazes de descrevê-la. Entende-se, portanto, que, como em todo pecado mortal há uma malícia tão profunda, ele deve ferir profundamente o Coração Divino de Jesus e provocar nele uma justa ira contra o indivíduo que cometeu tal pecado. E para que fique mais evidente quão justa é a ira de Deus, quando despertada pelo pecado mortal, convém explicar mais claramente quão grande é o insulto oferecido a Deus pelo pecado voluntário. 

Imagine as três Pessoas Divinas da Santíssima Trindade de um lado, com seus tesouros infinitos de graça e glória e, do outro lado, o espírito do mal com todos os castigos e tormentos do Inferno; e um homem parado no meio, entre os dois, debatendo consigo mesmo se deve honrar a Deus fazendo a sua vontade ou se deve agir em violação à sua vontade, causando assim a alegria do demônio. Se o homem comete o pecado, ele age contra Deus, e Deus considera sua ação exatamente como se ele tivesse proferido estas palavras blasfemas, ou outras da mesma natureza:

'Eu realmente acredito, ó Deus, que fui criado pelo vosso poder todo-poderoso, redimido pela vossa misericórdia, feito filho predileto pela vossa generosidade, sei que Vós me prometestes a vida eterna, toda a doce bem-aventurança do Céu. Também estou bem ciente de que este Satanás amaldiçoado, vosso grande inimigo e meu, está preparado para me privar de tudo o que é bom e me lançar na perdição eterna. E, no entanto, porque Satanás me tenta agora, porque me sugere um pensamento de impureza, um desejo de vingança, um movimento de inveja, prefiro ceder a esse impulso e, assim, tornar-me merecedor de castigo eterno, do que resistir e repelir a sugestão maligna e, assim, merecer o Céu no futuro e as graças espirituais agora. Portanto, deliberadamente e por minha própria vontade, afasto-me de Vós, ó Deus; sigo por escolha própria este demônio odioso, a quem obedeço em vez de Vós. Embora sejais meu Deus e meu Senhor, embora tenhais nos proibido de transgredir a vossa lei, embora o pecado seja uma ofensa infinita contra Vós, não me importo, cometeria este pecado de qualquer maneira, não desistiria dele mesmo sendo uma grande afronta a Vós. Mais ainda, se eu pudesse fazer tudo o que a malícia do meu coração me permite, eu roubaria de Vós a vossa divindade, eu vos destituiria do vosso trono e, em vosso lugar, eu colocaria o pecado e o passaria a adorar como meu deus. Eu amo o pecado, desejo deleitar-me nele e encontrar nele a minha única felicidade'.

Blasfêmias como as expressas nessas palavras são terríveis e não podem ser lidas sem um arrepio na alma. No entanto, todo homem que, deliberadamente e desafiando a lei de Deus, comete um pecado mortal é culpado de blasfemar contra Deus da mesma maneira. Não é de se admirar, então, que Deus se sinta tão profundamente ofendido pelo pecado mortal. Mas ainda não mostramos toda a extensão da malícia do pecado, que vai ainda mais longe; ele é duplamente ofensivo a Deus porque o pecador não apenas manifesta desprezo por Deus Pai, mas também despreza o seu amado Filho, a Segunda Pessoa da Trindade Divina. 

Com cada pecado deliberado, o pecador parece dizer: 'É verdade que Vós tornastes homem por mim, que me procurastes por trinta e três anos, como uma ovelha perdida; que suportastes fome e sede, calor e frio, e todo tipo de dificuldades por minha causa, enquanto Satanás não fez nada disso por mim; pelo contrário, ele me persegue dia e noite e se esforça para me enganar. Apesar des er assim, prefiro pertencer a ele do que a Vós. Prefiro agradá-lo e vos entristecer. É verdade, ó meu Redentor, que por minha causa fostes açoitado, coroado de espinhos, pregado na cruz e morto em meio a torturas amargas; mas, apesar de tudo isso, não vos dou graças. Mais ainda, embora saiba que com os meus pecados eu vos açoito, vos crucifico, vos mato novamente, não abandonarei os meus pecados; pisarei em vosso precioso sangue e adorarei Satanás em vez de Vós; farei dele meu amigo mais querido e farei o possível para lhe satisfazer'.

Mais uma vez pergunto: essas declarações não são blasfemas ao extremo? Não mostram a mais negra ingratidão da parte do pecador para com o seu Salvador? É difícil imaginar que um cristão entristeça seu Redentor de maneira tão vergonhosa. E, no entanto, há muitos milhares que, se não em palavras, pelo menos em ações, dirigem tais palavras ao seu Salvador.

Em terceiro lugar, o pecador audacioso ultrapassa e desafia o Espírito Santo de Deus, pois suas ações equivalem a expressões como estas: 'Vós, ó Espírito Santo, certamente santificastes a minha alma e a purificastes no sangue de Cristo, embelezando-a com a vossa graça. Sei que a vossa graça santificadora é tão preciosa que toda alma que é adornada por ela passa a se tornar filha do Pai celestial, irmã do Filho Divino, esposa do Espírito Santo, morada da Santíssima Trindade, templo da soberana Divindade, herdeira da felicidade eterna, amiga dos Anjos e Santos, mas - por que me preocuparia com essas prerrogativas sublimes, por que me importaria com essa pérola inestimável e essa joia valiosa? Fora com elas; jogarei essa pérola, essa joia valiosa, aos cães e aos porcos, ou seja, às minhas más paixões. Sacrificarei tudo por elas, servirei ao pecado e viverei no pecado'.

Não vês agora, ó leitor, como o pecado é odioso, como a natureza do pecador é chocante, como é infinita a ofensa contra Deus, o desprezo por Deus que é algo inseparável do pecado? Não estás convencido de que Deus tem motivos justos para sentir santa indignação contra o pecado e os escravos do pecado, e para condenar o pecador à condenação eterna? E se a ira de Deus, que é infinito em santidade e justiça, é despertada a tal ponto por um único pecado mortal, quão grande deve ser a ira e a ofensa do Justo e Santo contra os milhões e milhões de pecados vergonhosos e sem pudor cometidos diariamente não só pelos judeus e pagãos, mas também pelos cristãos! Toda essa ira, todo esse sentimento de dignidade ultrajada pelo insulto oferecido, que o pecador desperta no Coração de Deus, será guardado até o Dia do Juízo Final. O santo sacrifício da Missa e a poderosa intercessão dos santos ainda impedem o braço Divino de executar a vingança.

Mas quando a humanidade tiver enchido a medida de suas iniquidades, o dia da ira chegará. Ninguém pode imaginar quão terrível será o derramamento da ira de Deus sobre os pecadores. Nos Salmos, lemos: 'Quem avalia a força de vossa cólera, e mede a vossa ira com o temor que vos é devido?' (Sl 89,11). Ai de nós, pobres pecadores! Então, pela primeira vez, experimentaremos devidamente o que fizemos e o quanto ofendemos profundamente a Deus com nossos graves pecados. A ira de Deus é tão ilimitada que nem a Mãe de Deus, nem todos os Anjos e Santos têm poder para diminuí-la ou contê-la; ela se voltará com santo zelo e distribuirá a cada homem o que ele merece com rigorosa justiça. Ouçam o que o próprio Juiz diz sobre isso, sobre a sua ira, pela boca do profeta Ezequiel: 'Chegou o fim para ti, vou desencadear contra ti a minha cólera, vou julgar-te de acordo com o teu procedimento e fazer cair sobre ti o peso de todas as tuas práticas abomináveis. Não te tomarei em consideração, serei sem complacência, pedirei conta de teu proceder, e todos os teus horrores serão manifestos no teu meio. Então sabereis que sou eu o Senhor' (Ez 7,3-4). .

Estas são palavras verdadeiramente terríveis e a ameaça que contêm é das mais assustadoras. Ó quão implacável será o julgamento com que Deus, ofendido por tão inúmeras transgressões, convocará então toda a humanidade. Ai de mim e ai de ti, se nos encontrarmos entre a multidão incontável dos pecadores, e Deus não puder, na sua justiça, poupar-nos! O que faremos para não cairmos nas mãos do Juiz irado? Devemos abandonar o caminho da iniquidade e, agora, enquanto ainda há tempo, fazer as pazes com o Juiz a quem ofendemos. Vamos manifestar de vez em quando um sincero arrependimento pelos nossos pecados, mediante a oração abaixo ou outras orações similares de profundo pesar pelas ofensas e faltas cometidas.

ORAÇÃO

Juiz de infinita justiça dos vivos e dos mortos, reconheço que pequei contra Vós muitas vezes e gravemente. Abandonei-vos, ó meu Pai do Céu; crucifiquei-vos, ó meu Redentor; entristeci o Espírito Santo e desperdicei as vossas graças. Fiz isso pelos inúmeros pecados que cometi em pensamentos, palavras e ações e, por minhas transgressões, incorri na pena da morte eterna. Mas, como Vós não desejais a morte do pecador, mas que ele se converta e viva, deixai-me experimentar desde agora o efeito da vossa justiça, que está sempre unida à vossa misericórdia. Todas as provações que me enviardes nesta vida serão recebidas com gratidão e acolhidas com suavidade, na medida em quiserdes me castigar com a vossa severidade paternal, para que, no Dia do Juízo Final, eu possa encontrar a vossa misericórdia e alcançar um lugar entre os vossos eleitos. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

SOBRE A BATALHA ESPIRITUAL CONTRA OS VÍCIOS

Na luta que devemos empreender contra os vícios, devemos empregar a mesma tática com que estes nos assaltam. Para isso, urge descobrir qual o vício que mais nos subjuga e iniciar contra ele a luta principal. Que cada um, com toda a atenção e diligência da mente, bem como com a máxima vigilância, observe suas investidas. Dirijamos, então, contra ele os dardos dos jejuns cotidianos, golpeando-o com frequentes suspiros e gemidos do coração; invoquemos contra ele o labor das vigílias e das meditações espirituais, as incessantes orações com lágrimas derramadas perante Deus, implorando-lhe que, de modo especial e para sempre, extinga esses ataques.

É impossível triunfar sobre qualquer paixão, se antes não compreendermos que nossa diligência e nosso esforço jamais poderão alcançar-nos a vitória nessa luta. Contudo, toda a obra de purificação exige cuidado e solicitude incessantes, dia e noite. No entanto, ao sentir-se alguém liberto, novamente esquadrinhe todos os recantos do coração com a mesma meticulosidade e surpreenda aquele que entre os outros vícios percebe ser o mais pernicioso. É indispensável, então, que se lance mão de todas as armas espirituais para combatê-lo. Desse modo, depois de vencidos os mais poderosos, mais facilmente serão superados os restantes, e a luta contra os mais fracos passa a ser vitoriosa.

... Por uma tática semelhante, superadas as paixões mais violentas, nos dispomos gradualmente a combater as mais fracas, obtendo assim, sem riscos, uma completa vitória. Contudo, não julguemos que, ao orientarmos nossa luta específica contra um vício particular, olhando com negligência os dardos de outros, sejamos feridos com facilidade por um golpe inesperado. Isso é impossível; pois, quem se preocupa com a purificação de seu coração e, com esse intuito, lança mão de todas as forças de sua alma para libertar-se de determinado vício, envolve todos os outros no mesmo ódio e se mantém vigilante contra todos eles.

A que título mereceria alguém a vitória desejada sobre uma paixão, se depois se tornasse indigno da recompensa prometida aos puros de coração, por se ter contaminado com outros vícios? Mas, quando tivermos feito da luta contra determinada paixão nosso principal propósito, passaremos a rezar nessa intenção, com zelo e solicitude a fim de merecermos a graça de uma vigilância mais cuidadosa e assim alcançarmos uma rápida vitória.

(Excertos da obra 'Conferências', de João Cassiano, monge do século V)

domingo, 22 de fevereiro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

   

'Piedade, ó Senhor, tende piedade, pois pecamos contra Vós(Sl 50)

Primeira Leitura (Gn 2,7-9.3,1-7) - Segunda Leitura (Rm 5,12-19) -  Evangelho (Mt 4,1-11)

  22/02/2026 - PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA

JESUS E AS TENTAÇÕES


Neste domingo do Senhor, nos deparamos com uma das páginas mais intrigantes dos Evangelhos: a existência do demônio, sua natureza maligna convertida integralmente às tentações e ao infortúnio eterno da humanidade; a necessidade do homem, no seu encontro com Deus, de superar estas tentações, domar os seus instintos e não acolher ou se submeter às rédeas do pecado.

Homem do infortúnio pela fraqueza dos nossos primeiros pais, reféns da primeira tentação do demônio, iludidos pela serpente 'o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito' (Gn 3,1). Homem da redenção, transformado pelo exemplo de Cristo, que aceita as tentações na sua condição humana para mostrar que as tentações devem ser combatidas pelos frutos da mortificação interior e pela oração intensa e persistente: 'Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites...' (Mt 4,2). A ação do demônio é-nos dirigida sempre nos momentos de maior fragilidade, visando a perda ou o descaminho da santificação pessoal, sempre moldada nos apelos à sensibilidade e aos instintos mais expostos do homem. E, ao se deixar tentar pelo demônio, Jesus nos mostra que a superação das tentações é o caminho que faz os santos e diverge os tíbios e os pecadores.

Três tentações serão impostas por satanás, no intuito desgraçado de obter alguma certeza sobre a verdadeira natureza de Jesus. Exposto ao ridículo nas suas tolas intenções de tentar confundir o próprio Criador, o demônio suscita que o Filho de Deus converta pedras em pães, que aflore o prodígio da proteção dos anjos ao se atirar da parte mais elevada do templo e, na podridão máxima da soberba diabólica, lhe preste culto e adoração, como penhor das riquezas e glórias do mundo.

O Filho de Deus Vivo submete o demônio à sua natureza degradada, confirmada tantas e tantas vezes pelas Sagradas Escrituras: 'Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus’ (Mt 4,4); 'Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus!' (Mt 4,7) e 'Vai-te embora, Satanás, porque está escrito: Adorarás ao Senhor, teu Deus, e somente a ele prestarás culto' (Mt 4,10). Três respostas taxativas, categóricas, definitivas, de fim de conversa. Na última expressão, após confirmar a identidade do anjo do mal como 'satanás', Jesus ordena peremptoriamente que ele se afaste em definitivo. Neste início de Quaresma, que seja esta nossa reflexão: como nos comportar diante às tentações, permitidas por Deus para a nossa santificação, ou seja, nunca ceder ao diálogo e às manipulações do mal, mas, implorando a graça divina, ordenar peremptoriamente ao diabo ir rugir nas hostes infernais.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

ATÉ QUANDO?

'Nos últimos tempos, virão escarnecedores cheios de zombaria, que viverão segundo as suas próprias concupiscências' (2Pd 3,3)


'Feliz o homem que não procede conforme o conselho dos ímpios, não trilha o caminho dos pecadores, nem se assenta entre os escarnecedores' (Sl 1,1)

O escárnio, a blasfêmia e o escândalo são frutos da miséria humana desde a criação. E o Filho do Homem numa cruz nos ensinou que o caminho da graça não perpassa pela lixeira dos sentidos, muito menos por uma avenida de lixos em conserva.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

INDULGÊNCIA PLENÁRIA DAS SEXTAS-FEIRAS DA QUARESMA

   

Indulgência Plenária: rezar com piedosa devoção a oração En ego, o bone et dulcissime Iesu (Eis-me aqui, ó bom e dulcíssimo Jesus!) nas sextas-feiras da Quaresma, diante de uma imagem de Jesus Crucificado e depois da comunhão.

En ego, o bone et dulcissime Iesu, ante conspectum tuum genibus me provolvo, ac maximo animi ardore te oro atque obtestor, ut meum in cor vividos fidei, spei et caritatis sensus, atque veram peccatorum meorum paenitentiam, eaque emendandi firmissimam voluntatem velis imprimere; dum magno animi affectu et dolore tua quinque vulnera mecum ipse considero ac mente contemplor, illud prae oculis habens, quod iam in ore ponebat tuo1 David propheta de te, o bone Iesu: Foderunt manus meas et pedes meos: dinumeraverunt omnia ossa mea. Amen.

Eis-me aqui, ó bom e dulcíssimo Jesus! De joelhos me prostro em vossa presença e vos suplico com todo o fervor de minha alma que vos digneis gravar no meu coração os mais vivos sentimentos de fé, esperança e caridade, verdadeiro arrependimento de meus pecados e firme propósito de emenda, enquanto vou considerando com vivo afeto e dor as vossas cinco chagas, tendo diante dos olhos aquilo que o profeta Davi já nos fazia dizer, Ó bom Jesus: ‘Transpassaram minhas mãos e meus pés e contaram todos os meus ossos’.

(SI 21,17; cf. Missal Romano, ação de graças depois da missa)

É sempre importante lembrar que a indulgência não é o perdão dos pecados, mas a reparação das penas e danos devidos aos pecados. Para se obter a indulgência plenária é preciso:

1. ter uma disposição interior de afastamento total de todo o pecado, mesmo do pecado venial;
2. ter feito confissão recente;
3. receber a Sagrada Comunhão;
4. rezar em intenção do Santo Padre e da Santa Igreja (orações livres, mas que a Santa Sé recomenda fazer na forma de um 'Pai Nosso' e de uma 'Ave Maria').

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (81/84)

 

81. AS TENTAÇÕES DO DEMÔNIO

Quando Santo Inácio se entregava aos exercícios de penitência e oração na gruta de Manresa, Deus, para fortificar-lhe a virtude por meio do combate, permitiu ao demônio que o assaltasse de vários modos. Tendo o tentador estudado o coração de Inácio, encontrando-o inacessível aos golpes da avareza e da luxúria, julgou poder vencê-lo pela vanglória. 

Sugeriu-lhe então o pensamento de que ele era um grande santo e, encobrindo-lhe os pecados, fez-lhe uma excelente descrição das aspérrimas penitências, esmolas e longas horas que passava em oração, bem como de todas as virtudes por ele praticadas. O servo de Deus, iluminado pela graça, reconheceu que aquelas sugestões de vanglória vinham do demônio, espirito orgulhoso, e não do Espirito Santo que é espirito de humildade. Assim venceu o astuto inimigo só com a lembrança de seus grandes pecados e a meditação do inferno que tantas vezes merecera.

Esperava-o outra prova. Foi privado da paz do coração, da tranquilidade interior, de que gozava após a sua conversão, e invadiram-no trevas, temores, cuidados, inquietações. Parecia-lhe que tudo que fazia era pecado, que nada agradava a Deus e que Nosso Senhor o abandonara. Eram temores exagerados, sem fundamento, angústias de espírito e escrúpulos, com que o demônio queria tornar-lhe o caminho da vida espiritual áspero e aborrecido e lançá-lo no desespero. Mas também aqui o demônio teve de meter a viola no saco e os carretéis na algibeira, porque, com a paciência e sobretudo com a obediência cega ao seu confessor, Inácio saiu triunfante dessa nova tentação. Seguiu a voz do ministro de Deus como se fora a do próprio Jesus Cristo, e recuperou a calma.

O demônio tentou ainda abalar a confiança do santo.
➖ Como poderás continuar nessa vida tão austera? - dizia-lhe interiormente - És moço, tens ainda cinquenta anos de vida: como poderás, por tanto tempo, aguentar uma vida tão penosa?

Inácio, iluminado pela oração fervorosa, não custou muito a reconhecer a manha do tentador.
poderás continuar nessa vida tão austera?
➖ Tu falas desse modo? - replicou-lhe - Quem me garante viver mais cinquenta anos? Podes garantir-me uma hora sequer? E, ainda que tivesse de viver mais cinquenta anos, que é isso em comparação com a eternidade? De resto a mim me basta viver um dia a cada dia. Aquele que com sua graça me sustenta hoje me conservará também amanhã e até quando lhe aprouver prolongar-me a vida.
Desta maneira, o valoroso soldado de Cristo, a exemplo de seu Mestre, superou todas as tentações.

82. AOS DESCONTENTES

A muitos, que se lamentam de sua sorte e invejam a dos mais favorecidos, poder-se-ia repetir esta parábola.

A fortuna tinha muitos queixosos e nenhum agradecido. Chegou o descontentamento até aos animais; e o burro, o mais queixoso de todos, foi ter com Júpiter, e disse-lhe: 
➖ Integérrimo deus, como podes consentir esta impiedade da Fortuna contra mim? Ela persegue a inocência e favorece a malícia; o orgulhoso leão triunfa; o tigre cruel engorda; a astuta raposa, que a todos engana, ri-se de todos; o voraz lobo anda à solta; e só eu, que a ninguém faço mal algum, de todos sou desprezado e maltratado, como pouco e trabalho muito, nada de pão e tudo de paus e pauladas...

Júpiter, assaz comovido, ordenou que a Fortuna viesse à sua presença. Saíram soldados a procurá-la. Buscaram-na em casa do rico, do poderoso, do belo, do vaidoso, e não a encontraram. .. Por fim deram com ela na casa da virtude. Levaram-na à presença de Júpiter, que lhe repetiu todas as queixas do burro. A Fortuna, depois de ouvir tudo em silencio, com um lindo sorriso respondeu:
➖ Grande Júpiter, permiti-me dizer apenas uma palavra em minha defesa; somente esta: Se ele é um burro, de que se queixa?
Júpiter, virando-se para o asno, disse-lhe:
➖ Vai, e de hoje em diante procura ser esperto como o leão, corajoso como o tigre, astuto como a raposa, cauteloso como o lobo. Ordena bem os meios para conseguires teus intentos e não terás queixas da Fortuna.

83. AS BOAS OBRAS...

Um dia, um banqueiro milionário me chamou e entregou-me um cheque em que estava escrito: 'Pague-se à vista um milhão de reais’e, logo abaixo, li a firma do banqueiro: Rotschild. Corri ao banco e apresentei o cheque. Todos me saudaram com muita cortesia e o gerente entregou-me um milhão de reais. Quando me retirei, fui de novo alvo de mesuras, sorrisos e saudações de todo o pessoal do banco...

Um belo dia, porém, tomei o mesmo cheque e, por minha conta e orgulho, coloquei nele a minha própria assinatura. Como a minha caligrafia era mais bela que a do banqueiro milionário, corri ao banco cheio de confiança... Mas, desta vez nem dinheiro, nem mesuras; não me pagaram o cheque e por cúmulo, botaram-me para fora sob empurrões e entre dois policiais...

E tudo isso por quê? Por que um cheque assinado por Rotschild tem valor e o meu não tem? É que ao meu falta a condição principal: o crédito. Na vida espiritual, dá-se coisa semelhante. Uma obra assinada por um amigo de Deus tem valor no Banco do Céu; mas uma obra feita por um indivíduo sem religião, que só acredita na filantropia, na honradez natural, nenhum ou bem pouco valor tem diante de Deus.

84. O NÓ GÓRDIO

O célebre capitão Alexandre Magno (+ 323 a. C.), numa de suas guerras, chegou a Górdio, cidade da Frígia, onde se encontrava, numa torre, o assim chamado nó górdio. O famoso nó era muito complicado, e jamais alguém o conseguira desatar. Alexandre, porém, desatou-o sem a mínima dificuldade. De que modo? Com um simples golpe de espada partiu o nó pelo meio.

É assim que devemos fazer para livrar-nos das ocasiões do pecado: cortar imediatamente e sem hesitação os vínculos pecaminosos.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

QUARTA DE CINZAS


Memento, homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris

'Lembra-te, homem, que és pó e ao pó retornarás!(Gn 3,19). A Quarta-Feira de Cinzas é o primeiro dia do tempo da Quaresma, quarenta dias antes da Páscoa. Neste dia por excelência refletimos sobre a nossa condição mortal nesta vida e a eternidade de nossas almas na vida futura. Num tempo em que se valoriza tanto a dimensão física, a beleza do corpo, a imposição das cinzas nos desvela a dura realidade do nosso corpo mortal: apenas pó que há de se consumir em cinzas.

Esse dia dá início, portanto,  a um tempo de profunda meditação sobre a nossa condição humana diante da grandeza e misericórdia de Deus. Tempo para fazer da nossa absurda fragilidade, sustentáculos da verdade e da fé; tempo para fazer de nossa pequenez e miséria, um templo de oração e um arcabouço de graças; tempo para transformar a argila pálida de nossos feitos e conquistas, em patamares seguros para a glória de Deus. Um tempo de oração, jejum e caridade. Um tempo de oração, desagravo, conversão, reparação. E um tempo de penitência, penitência, penitência...

A penitência é traduzida por atos de mortificação, seja na caridade silenciosa de um pequeno gesto, seja na determinação silenciosa de um pequeno 'não!' Pequenos gestos: uma visita a um amigo doente, uma palavra de conforto a quem padece ausências, um bom dia ainda nunca ofertado; ou um pequeno 'não': à abstinência de carne ou refrigerante ou ao fumo; abrir mão de ter sempre a última resposta ou para aquela hora a mais de sono; simplesmente dizer não a um livro, a uma música, a uma revista, a um programa de televisão. 

Propague o silêncio, sirva-se da modéstia; invista no anonimato, não se ensoberbeça, pratique a tolerância, estanque a frivolidade, consuma-se na obediência. Lembra-te que és pó e todas as tuas ações, aspirações e pensamentos vão reverberar em ti as glórias de Deus.

Abre-se hoje o Tempo da Quaresma: 'convertei-vos e crede no Evangelho'. Pois é no Evangelho (Mt 6, 1-6.16-18) que Jesus nos dá os instrumentos para a realização de uma autêntica renovação interior: oração, jejum e caridade. Com estas três práticas fundamentais, o tempo de penitência da quaresma é convertido em caminho de santificação ao encontro de Jesus Ressuscitado que vem, na Festa da Páscoa.

QUARESMA 2026

A Quaresma é assumida pela Igreja como um tempo de preparação para a celebração da Páscoa, movido essencialmente pelo incentivo maior e mais intenso pelo povo cristão das práticas de oração constante e penitência, como jejuns e obras de caridade. A Quaresma deste ano tem início na Quarta-Feira de Cinzas (18 de fevereiro) e se estende até as vésperas imediatas da Missa Vespertina In Coena Domini na Quinta-Feira Santa, ou seja, na Quarta Feira da Semana Santa (dia 01/04/2026).


Sugestão: Adotar este ciclo de leituras e devoções diárias (40 dias) durante esta Quaresma (clicar sobre o título abaixo)


Primeiro Dia - Quarta Feira de Cinzas
Quadragésimo Dia - Quarta Feira da Semana Santa 

Não incluir na sequência das datas das Leituras do Diário da Quaresma de 2026 os dias 19/03 (São José), 25/03 (Anunciação do Senhor) e 29/03 (Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor)

Ver: Leituras para os Tempos da Quaresma - Biblioteca Digital do blog

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

FESTA VOTIVA DA SAGRADA FACE DE NOSSO SENHOR

Hoje é o último dia antes do grande e santo jejum da Quaresma. No rito litúrgico da Igreja, sempre representou um dia ímpar, chamado Marti Gras (ou Terça-feira Gorda), que delimita um tempo de separação radical entre um tempo de diversão, alegria e consumo de carne ao período austero de jejum e penitência da Quaresma. Ou seja, impõe ao cristão uma percepção clara de antagonismo entre o tempo de festa que termina e o tempo de penitência prestes a se iniciar. Infelizmente, e particularmente no Brasil, este dia da terça-feira de carnaval transformou-se apenas em um dia ímpar de zombarias, escândalo público e pecado para muita gente.


Exatamente por tais razões, a festa votiva em honra à Sagrada Face de Nosso Senhor (instituída pelo Papa Pio XII em 1958 e que não consta mais do calendário da liturgia atual) é especialmente celebrada na terça-feira que precede o tempo da Quaresma, como ato de desagravo e reparação aos pecados cometidos durante o carnaval. Este foi inclusive um pedido formal de Nosso Senhor Jesus Cristo à Madre Pierina em 1938:

'Veja como sofro. No entanto, sou compreendido por tão poucos. Que gratidão da parte daqueles que dizem que me amam. Eu dei o meu Coração como um objeto sensível do meu grande amor pelo homem e dou o meu rosto como um objeto sensível da minha tristeza pelos pecados do homem. Desejo que seja honrado por uma festa especial na terça-feira da Quinquagesima (a terça-feira antes da Quarta-feira de Cinzas). A festa será precedida por uma novena na qual os fiéis farão reparação comigo unindo-se à minha tristeza'.

O pedido de Nosso Senhor Jesus Cristo é muito claro: não é preciso esperar a Quarta-feira de Cinzas para nos colocarmos em espírito de penitência pelos nossos pecados e pelos pecados dos homens. 

Deus onipotente e misericordioso, dignai-vos, nós vos suplicamos, conceder a todos aqueles que honram o rosto do vosso Cristo neste dia, desfigurado na sua Paixão e Morte de Cruz pelos nossos pecados, a graça de vê-lo e glorificá-lo por toda a eternidade. Amém.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

VERSUS: ANGÚSTIA X CONSOLAÇÃO

'Que nada te assuste ou entristeça, que teu coração não se perturbe, não temas nenhuma doença ou angústia. Não estou eu aqui, eu que sou tua Mãe? Não estás sob minha sombra e proteção? Não sou eu tua fonte de saúde? Não estás felizmente aconchegado nas dobras do meu manto, seguro em meus braços?'

(Mensagem de Nossa Senhora de Guadalupe a Juan Diego, em 12 de dezembro de 1531)



'Sim, povo de Sião, que habitas em Jerusalém, não terás mais do que chorar. À voz de tua súplica, Ele te fará misericórdia; assim que a ouvir, Ele te atenderá. Quando o Senhor vos tiver dado o pão da angústia e a água da tribulação aquele que te instrui não se esconderá mais, e verás com teus olhos aquele que te ensina. Ouvirás com teus ouvidos estas palavras retumbarem atrás de ti: 'É aqui o caminho, andai por ele' - quando te desviares quer para a direita, quer para a esquerda'. 

(Is 30,19-21)

PALAVRAS ETERNAS

'O melhor jejum é o jejum do pecado'

(São João Crisóstomo)

domingo, 15 de fevereiro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

  

'Feliz o homem sem pecado em seu caminho, que na lei do Senhor Deus vai progredindo!(Sl 118)

Primeira Leitura (Eclo 15,16-21) - Segunda Leitura (1Cor 2,6-10) -  Evangelho (Mt 5,17-37)

  15/02/2026 - SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

'E EU VOS DIGO...'



Nas palavras: 'Em verdade, Eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra' (Mt 5,18), Jesus proclama que a Boa Nova do Evangelho trazida à humanidade, como instrumento de resgate e não de abolição à Antiga Lei, está fundada na Verdade Absoluta, imutável no espaço e no tempo, desde os nossos primeiros pais até o último homem da face da terra. O pecado é o mesmo ontem e hoje, e os Dez Mandamentos modelam a história humana na dimensão divina.

A plenitude do exercício do Decálogo é a via de santificação perfeita. O Céu é uma porta aberta para os que se consomem e se alimentam da Verdade de Cristo, emanada da vivência profunda dos valores do Evangelho e não apenas sedimentados no alicerce frágil das exterioridades enormes da antiga Lei Mosaica: 'Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus' (Mt 5,20). Nesta contextualização, Jesus vai passar dos conceitos formais expressos por 'vós ouvistes...' às premissas mais abrangentes da Nova Lei: 'e eu vos digo...' Assim, do pecado gravíssimo do homicídio formal, Jesus anuncia que na própria ira contra o próximo já se manifesta a gravidade do pecado. O pecado do adultério não se restringe ao ato consumado e definitivo, que era castigado com a morte, mas é igualmente perverso no desejo; o juramento falso é um ato abominável, mas é igualmente pecaminoso o simples juramento sobre qualquer coisa.

Jesus exorta, em todas estas passagens, a se cumprir, em tudo e para todos, a santificação em plenitude, traduzida na observância radical dos seus Mandamentos e na fuga da ocasião de pecado por todos os meios disponíveis, pelos mais extremos possíveis: 'Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o para longe de ti! De fato, é melhor perder um de teus membros, do que todo o teu corpo ser jogado no inferno. Se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a e joga-a para longe de ti! De fato, é melhor perder um dos teus membros, do que todo o teu corpo ir para o inferno' (Mt 5,29 - 30).

Não ceder ao pecado sob concessão alguma. Não afrontar a graça divina por nenhum propósito humano. A verdadeira santificação exige, portanto, vigilância extrema e oração constante. A superação da fragilidade de nossas limitações implica decisões claras e firmes em favor da pureza evangélica e aos ditames de Cristo, nosso Divino Mestre: 'Seja o vosso ‘sim’: ‘Sim’, e o vosso ‘não’: ‘Não’. Tudo o que for além disso vem do Maligno' (Mt 4,37).

sábado, 14 de fevereiro de 2026

DEVOÇÃO DAS 40 HORAS

  

Estamos a poucos dias do início da Quaresma, tempo singular de oração e penitência. E precedido por um tempo também singular de desvario e liberação total de escândalos públicos que arrastam as almas para os abismos do pecado. Há maneiras diversas de um católico viver livre destas amarras ou fazer atos de desagravo nestes tempos de carnaval e antecipar o tempo quaresmal de penitência, mas um, bastante especial, é a chamada Devoção das 40 Horas ao Santíssimo Sacramento nestes dias e antes da Quarta-Feira de Cinzas, que constitui um antigo rito litúrgico da Igreja quase relevado ao esquecimento nos dias atuais.

A devoção teve origem na Idade Média (pelo menos desde o século X) como devoção ao Santo Sepulcro do Salvador, que era erigido desde a Adoração da Cruz, na Sexta-Feira Santa, até a Missa de Ressurreição do Domingo de Páscoa. Durante este tempo (cerca de 40 horas), os fiéis oravam diante dele, recitando ou cantando salmos e outras preces, em memória da morte e sepultura do Senhor, que esteve no Sepulcro por cerca também de 40 horas.

A Exposição do Santíssimo ─ visível ou velado no cálice ─ para sua adoração pelos fiéis, constitui uma das principais práticas de adoração a Jesus na Sagrada Eucaristia, particularmente por meio da Festa de Corpus Christi e da Devoção das 40 Horas. Estas práticas litúrgicas constituem, portanto, o termo feliz da evolução da devoção original ao Santo Sepulcro de Nosso Senhor Jesus Cristo. A celebração da Devoção das 40 Horas foi aprovada inicialmente pelo papa Paulo V em 1539 e Clemente XI ordenou definitivamente a sua prática litúrgica, em termos de Adoração Perpétua, mediante a famosa Instrução Clementina de 1705.

A devoção pode ser praticada em quaisquer datas, mas especialmente é indicada no Tempo Pascal, durante as quarenta horas que antecedem o dia de Corpus Christi e durante os três dias de carnaval que antecedem a Quarta-Feira de Cinzas (domingo, segunda-feira e terça-feira), como rito de reparação aos pecados cometidos nesta época. As comunidades dividem-se em grupos e horas alternadas, de modo a adorar Jesus Sacramentado por 40 horas ininterruptas. As práticas de Devoção das Quarenta Horas é comumente intercalada com celebrações de missas coram exposito (mediante exposição do Santíssimo Sacramento).

ORAÇÃO DE DESAGRAVO PELOS TEMPOS DE CARNAVAL

 

Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pela miséria dos instintos... Perdoai-nos Senhor!
Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pelas músicas profanas e sacrílegas... Perdoai-nos Senhor!
Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pela nudez sem limites... Perdoai-nos Senhor!
Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pelas palavras e atos de blasfêmia... Perdoai-nos Senhor!

Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pela avidez da sensualidade ... Perdoai-nos Senhor!
Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pelo entorpecimento das consciências... Perdoai-nos Senhor!
Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pela violência dos sentidos... Perdoai-nos Senhor!
Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pela insanidade dos costumes... Perdoai-nos Senhor!

Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pelo indiferentismo espiritual ... Perdoai-nos Senhor!
Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pela dissipação dos valores cristãos... Perdoai-nos Senhor!
Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pelo abandono da penitência e oração... Perdoai-nos Senhor!
Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pelo inconformismo aos mistérios da graça... Perdoai-nos Senhor!

Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pelo apego desenfreado ao hedonismo... Perdoai-nos Senhor!
Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pelo delírio das vontades sem controle... Perdoai-nos Senhor!
Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pelo preço pago aos ritos de prazer... Perdoai-nos Senhor!
Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pela aberração de todos os vícios... Perdoai-nos Senhor!

Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pelo afastamento dos sacramentos e da caridade... Perdoai-nos Senhor!
Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pelo esquecimento da Vossa Santa Vontade... Perdoai-nos Senhor!
Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pelo abandono da Vossa Doutrina... Perdoai-nos Senhor!
Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pela blasfêmia ao Vosso Santo Nome... Perdoai-nos Senhor!

Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pela ganância do lucro do pecado... Perdoai-nos Senhor!
Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pela exploração do mal por todas as imagens... Perdoai-nos Senhor!
Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pelo incentivo ao pecado a qualquer preço... Perdoai-nos Senhor!
Pelos pecados cometidos, nestes dias de carnaval, pela exposição aberta e maciça aos males de todos os nomes... Perdoai-nos Senhor!

(Arcos de Pilares)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

EXAME DE CONSCIÊNCIA (XXV/Final)

    

XXV. Orações Após a Confissão

Oração I

Ó meu Deus, manifesto agora a bondade do vosso perdão. Conheço a bênção da vossa misericórdia e agora estou radiante e com forças renovadas. Todos os meus dias abençoarei o vosso nome, professarei a vossa bondade, responderei à vossa vontade e graças para que a vossa glória seja conhecida em todos os lugares. Amém.

Oração II

Ó meu Jesus, confessei todos os meus pecados da melhor maneira possível. Tentei sinceramente fazer uma boa confissão e sei que Vós me perdoastes. Obrigado, querido Jesus! O vosso coração divino está cheio de amor e misericórdia pelos pobres pecadores. Eu vos amo, ó meu Jesus; Vós sois tão bom para mim!  Meu amoroso Salvador, tentarei evitar o pecado e amar-vos mais a cada dia.  Ó minha Mãe Maria, rezai por mim e ajudai-me a cumprir todas as minhas promessas. Protegei-me e não me deixeis cair novamente no pecado. Ó meu Deus, ajudai-me a levar uma vida santa pois, sem a vossa graça, nada posso fazer. Amém.

Oração III

Senhor de misericórdia, com o coração contrito, eu vos agradeço porque me livrastes dos meus pecados. Deixai que o Espírito Santo guie a minha vida para que a minha alma possa dar frutos de amor, alegria, paz, paciência, bondade, confiança, gentileza e autocontrole.  Renovai o meu desejo de ser vosso filho e servo fiel, aumentai a minha dependência amorosa de Vós e concedei-me a alegria e a paz de coração que advêm de fazer sempre a vossa santa vontade. Amém.

(Excertos da obra 'An Examination of Conscience', de Fr. Robert Altier, 2002)

A CIÊNCIA DE DEUS (XI)


Dois pesquisadores matemáticos* concluíram, em publicação recente no periódico Journal of Theoretical Biology, que a probabilidade de formação de uma proteína funcional - fonte de qualquer processo vital - é de 1 em 100.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000. Por outro lado, muitas proteínas precisam interagir formando grupos para realizar uma função química específica. Na imagem no topo do texto, por exemplo, um complexo proteico (à esquerda) é analisado de acordo com as interações das várias proteínas que o compõem. Assim, mesmo ignorando a baixa probabilidade de formação de cada proteína individual, a probabilidade de formação de complexos proteicos é absurdamente baixa. Como resultado, você tem uma probabilidade extremamente baixa de que proteínas individuais possam ser produzidas por interações químicas aleatórias e, mais do que isso, uma probabilidade absurdamente baixa de que tais proteínas produzidas aleatoriamente possam formar os complexos necessários para a vida. Isso significa que a chance de tais complexos proteicos se formarem como resultado de processos aleatórios é extremamente baixa x absurdamente baixa.

Quanto mais aprendemos sobre o universo, mais percebemos que ele é produto de um projeto. De fato, há algum tempo, muitos cientistas reconhecem que o universo é finamente ajustado para a vida. Existem muitos parâmetros que governam como as coisas acontecem no universo, e todos eles têm as características necessárias para que a vida floresça. Um elétron, por exemplo, é precisamente tão negativo quanto o próton é positivo, apesar de serem partículas muito, muito diferentes. Se as cargas estivessem desalinhadas por apenas um bilionésimo de um por cento, o desequilíbrio elétrico resultante nas moléculas tornaria até mesmo objetos muito pequenos instáveis ​​demais para se formarem. A explicação mais óbvia para esse ajuste fino é que o universo foi projetado para a vida.

(Excertos do artigo 'Another Peer-Reviewed Paper Favoring Intelligent Design', de Jay Wile)

* Thorvaldsen, S., & Hössjer, O. (2020). Using statistical methods to model the fine-tuning of molecular machines and systems. Journal of Theoretical Biology, 501, Article 110352.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

EXAME DE CONSCIÊNCIA (XXIV)

   

XXIV. Imperfeições

As imperfeições não são pecados e, portanto, não precisam ser confessadas. Nem sempre é fácil distinguir entre pecados veniais e imperfeições. Algumas coisas são imperfeições por serem muito pequenas, outras por serem disposições da alma e não ações ou falhas intencionais, e outras ainda por serem habituais. É bom estar ciente das imperfeições, pois, à medida que crescemos na vida espiritual, as imperfeições, voluntárias e involuntárias, tornam-se áreas em que devemos investir nas orações. Por essa razão, incluímos aqui alguns exemplos de imperfeições.

☀ tentar manter todas as coisas sob controle em vez de buscar a vontade de Deus
☀ descuidar do crescimento espiritual; contentar-se com um conhecimento vago e superficial da fé católica
☀ ter vergonha de ser católico
☀ não defender a Igreja quando atacada ou ridicularizada
☀ não aceitar ou não se dispor ao sofrimento
☀ não praticar o recolhimento ou a memória frequente da presença de Deus
☀ não dedicar tempo extra aos domingos à oração e ao estudo da fé
☀ não cultivar a paz na família
☀ não valorizar o cônjuge
☀ não rezar por aqueles que estão sob os seus cuidados
☀ não rezar por aqueles que detêm classe de autoridade como pais, professores, governantes, etc
☀ deixar-se levar pela impaciência
☀ fumar excessivamente (quando hábito)
☀ faltar com a pontualidade
☀ não rezar pelos pais ou parentes falecidos
☀ não rezar pela conversão dos pecadores

(Excertos da obra 'An Examination of Conscience', de Fr. Robert Altier, 2002)

A ORAÇÃO SILENCIOSA DO CORAÇÃO

Que a nossa fala e nossa súplica sejam disciplinadas quando orarmos, e que preservemos a tranquilidade e a modéstia, pois, lembrem-se, estamos diante de Deus. Devemos agradar aos olhos de Deus tanto com os movimentos do nosso corpo quanto com a maneira como usamos as nossas vozes. Pois, assim como um homem desavergonhado fará barulho com seus gritos, também convém que o modesto ore de maneira moderada.

Além disso, o Senhor nos ensinou a orar em segredo, em lugares escondidos e remotos, em nossos próprios quartos – e isso é o mais adequado para a fé, pois nos mostra que Deus está em todos os lugares e ouve e vê tudo e, na plenitude de sua majestade, está presente até mesmo em lugares escondidos e secretos, como está escrito: 'Eu sou um Deus próximo e não distante. Se alguém se esconder em lugares secretos, não o verei? Não preencho eu todos os céus e a terra?' e, ainda: 'Os olhos de Deus estão em toda parte e veem o bem e o mal igualmente' .

Quando nos reunimos com os irmãos em um só lugar e celebramos os sacrifícios divinos com o sacerdote de Deus, devemos lembrar-nos da nossa modéstia e disciplina, não proclamando as nossas orações em voz alta, nem apresentando a Deus, com indisciplina e prolixidade, uma súplica que seria melhor feita com mais modéstia: pois, afinal, Deus não ouve a voz, mas o coração, e aquele que vê os nossos pensamentos não deve ser perturbado pelas nossas vozes, como o Senhor demonstra quando diz: 'Por que pensais mal nos vossos corações?' ou ainda: 'Todas as igrejas saberão que sou eu quem sonda as vossas motivações e os vossos pensamentos' .

No primeiro livro dos Reis, vemos que Ana orava a Deus não com súplicas em voz alta, mas silenciosa e modestamente, no íntimo do seu coração. Ela falava com uma oração silenciosa, mas com fé manifesta. Não falava com a voz, mas com o coração, porque sabia que era assim que Deus ouvia, e recebeu o que buscava porque pediu com fé. A Sagrada Escritura afirma isso quando diz: 'Ela falava em seu coração, e seus lábios se moviam, e sua voz não era audível; e Deus a ouvia'. E lemos nos Salmos: 'Falem em seus corações e em seus leitos, e sejam acolhidos'. Novamente, o Espírito Santo ensina as mesmas coisas por meio de Jeremias, dizendo: 'Mas é no coração que deves ser adorado, ó Senhor'.

Amados irmãos, que o adorador não se esqueça de como o publicano orou com o fariseu no templo - não com os olhos altivos voltados para o céu, nem com as mãos erguidas em orgulho; mas, batendo no peito e confessando os pecados que carregava, implorava a ajuda da misericórdia divina. Enquanto o fariseu se vangloriava de si mesmo, foi o publicano quem mereceu ser santificado, pois depositou sua esperança de salvação não na confiança em sua inocência - pois ninguém é inocente - mas orou, confessando humildemente os seus pecados, e Aquele que perdoa os humildes ouviu a sua oração.

(São Cipriano de Cartago)