terça-feira, 3 de novembro de 2026

AS TRÊS QUALIDADES DO AMOR

1. Gostaria de começar com uma palavra de São Paulo: 'Se alguém não ama o Senhor Jesus, seja anátema'. Na verdade, devo amar Aquele por quem tenho o ser, a vida e o entendimento. Se sou ingrato, sou também indigno. Senhor Jesus, quem se recusa a viver para Ti é certamente digno de morte e, na realidade, já está morto. Quem não Te conhece é insensato. E quem pretende ser alguma coisa sem Ti, sem dúvida alguma é considerado como nada e nada é. Pois que é o homem, se não Te dignas olhar para ele?

Criastes todas as coisas para Ti, ó Deus, e quem deseja viver para si mesmo, e não para Ti, nada é em tudo aquilo que faz. 'Teme a Deus e guarda os seus mandamentos' - está escrito - 'porque nisto consiste todo o dever do homem'. Se, portanto, nisso consiste tudo, sem isso o homem nada é. Volta para Ti, ó Deus, este pouco de ser que me concedeste. Retira desta vida miserável, eu Te suplico, os anos que ainda me restam. Em lugar de tudo aquilo que perdi por minha má maneira de viver, ó Deus, não desprezes um coração humilde e penitente.

2. Há, porém, alguma coisa que me comove, desperta e inflama ainda mais. Ó bom Jesus, o cálice que bebeste, o preço de nossa redenção, faz-me amar-Te mais do que todas as outras coisas. Somente isso já seria suficiente para reclamar o nosso amor. É isso, repito, que tão suavemente conquista o nosso amor, que tão justamente o exige, que tão firmemente o prende e tão profundamente o comove.

Quanto teve de sofrer o nosso Salvador para realizar essa obra! Na verdade, ao criar o mundo inteiro, o Criador não precisou trabalhar tanto. Na criação, Ele falou, e todas as coisas foram feitas; ordenou, e elas passaram a existir. Mas, para nos salvar, teve de suportar homens que contradiziam suas palavras, censuravam suas ações, ridicularizavam seus sofrimentos e escarneciam de sua morte. Vede quanto Ele nos amou!

3. Seu amor foi suave, sábio e forte. Chamo-o suave porque assumiu um corpo humano; sábio porque evitou o pecado; forte porque suportou a morte. Embora tenha assumido um corpo, seu amor jamais foi sensual, mas sempre guiado pela sabedoria do Espírito. 'O Espírito que está diante de nossa face é Cristo, o Senhor', que tem zelo por nós, mas com o zelo de Deus, não com o dos homens, e certamente não como aquele que o primeiro homem, Adão, teve por Eva.

Assim, aqueles a quem procurou revestido de um corpo, amou-os no espírito e redimiu-os pelo seu poder. Como é doce contemplar, feito homem, o Criador da humanidade! Enquanto preservava cuidadosamente a natureza humana do pecado, expulsava dela, com poder, também a morte. Ao assumir um corpo, inclinou-se até mim; ao evitar o pecado, agiu segundo sua própria sabedoria; ao aceitar a morte, satisfez ao Pai.

4. Cristão, aprende de Cristo como deves amar a Cristo. Aprende a amar com ternura, sabedoria e fortaleza; ama com ternura, não com paixão; com sabedoria, não com insensatez; e com fortaleza, para que não te canses nem te afastes do amor do Senhor. Não permitas que a glória do mundo ou os prazeres da carne te desviem do caminho; a sabedoria de Cristo deve tornar-se para ti mais doce do que todas essas coisas.

Que a luz de Cristo brilhe tão intensamente em ti que o espírito da mentira e do engano não possa seduzir-te. Finalmente, que Cristo, força de Deus, te sustente, para que as dificuldades não te abalem. Que o amor inflame teu zelo, que o conhecimento o oriente e que a constância o fortaleça. Conserva-o fervoroso, prudente e corajoso. Cuida para que não seja tíbio, nem temerário e nem tímido. 

(Sermão 20, São Bernardo de Claraval)