85. O PAI DA MENTIRA
Vejam só a que ponto chega a ousadia do demônio. Um dia, estava o bispo São Martinho rezando em sua cela. O espírito das trevas apresentou-se-lhe revestido de vestes luminosas, com uma coroa de ouro na cabeça, e aparentando uns modos tão celestiais que teria enganado a qualquer cristão.
Por duas vezes disse que era Jesus Cristo; mas, como a humildade é o meio mais eficaz de se descobrirem as artimanhas do capeta, o qual é todo orgulho, Martinho não tardou a reconhecer naquela figura pomposa o diabo em pessoa. Dirigiu-lhe, pois, estas palavras:
➖Senhor Jesus, que é todo humildade, não disse que viria vestido de púrpura, nem coroado com diadema de ouro; por isso jamais considerarei como Jesus Cristo quem não. apresentar os símbolos do Salvador padecente e não trouxer no corpo os sinais da Paixão.
Ouvindo essas palavras o velhaco, o mentiroso, o enganador desapareceu, deixando após si um mau cheiro de enxofre insuportável.
86. POR QUE AS TRIBULAÇÕES?
Certa vez um lavrador, que fizera más colheitas, queixava-se, pensando: 'Se Deus deixasse a mim o governo do tempo, tudo iria melhor; porque, está-se vendo, Ele não entende muito do cultivo da terra'. Deus quis mostrar-lhe quanto estava enganado, e disse:
➖ Por este ano eu te concedo o governo do tempo; terás tudo que pedires.
O ingênuo lavrador quase enlouqueceu de alegria, e disse: 'Agora, quero sol!' E veio o sol. Mais tarde disse: 'Venha a chuva! E choveu quanto ele quis. E ia pedindo: de novo sol; de novo chuva. E assim durante o ano inteiro. A plantação crescia, crescia... que dava gosto vê-la. Agora, sim, Deus pode ver como se governa, pensava o lavrador com uma pontinha de orgulho. Chegou o tempo da colheita. As espigas eram grandes, gordas, uma beleza!... Mas colhendo uma, colhendo outra, colhendo um montão - que desgraça! Todas as espigas estavam chochas, sem nenhum grão, tudo palha.
Daí a pouco vem Nosso Senhor ver a colheita e pergunta ao lavrador:
➖ Então, que tal a colheita?
➖ Muito má, Senhor! Muita palha e pouco grão!
➖ Mas não governastes tu o tempo? Não se fez tudo como desejavas?
➖ Sim, tudo... sempre pedi chuva... pedi sol...
➖ Pois é, e nunca pediste vento e tempestade, neve e gelo, e tudo que purifica o ar e torna resistentes as raízes... e por isso não há colheita!
Também na vida espiritual sem mau tempo não se faz boa colheita. Pedis alegria, riquezas, saúde, bem-estar... As raízes das virtudes não penetram em terra firme e não podem produzir frutos. Sem dor, mortificação, tribulações, não ajuntareis méritos para o céu. É preciso aceitar o que Deus nos envia.
87. AS MULHERES SÃO CURIOSAS?
Papírio Pretextato, então menino de doze anos, foi com o pai ao Senado. Tratou-se ali, provavelmente, de algum assunto importante, porque a sessão se prolongou por muito tempo. Voltaram para casa altas horas. A mãe de Papírio, intrigadíssima e curiosa, chamou o filho à parte e o questionou:
➖ Vem cá, meu filho, diga-me: 'De que é que trataram hoje no Senado?'
O pequeno, temendo o rigor excessivo com que, em Roma, se guardavam os segredos do Senado, recusou-se a dizê-lo. Isso, porém, aumentou mais ainda a curiosidade da mãe. Ela instava o assunto e ele calava-se.
Afinal, em vista dos pedidos, dos mimos e ameaças, o menino fingiu aceder, e disse-lhe ao ouvido, baixinho:
➖ Mãe, vou contar-lhe o que foi, mas a senhora há de guardar rigoroso segredo.
➖ Pois sim, filhinho; eu me calarei, prometo, diga-me então o que foi?
➖ Foi o seguinte: Houve entre os senadores uma grande controvérsia. Discutiram longamente se seria mais conveniente um marido ter duas ou três mulheres ou se, ao contrário, uma mulher ter dois ou três maridos.
➖ Pois bem... e que é que resolveram?
➖ Não ficou resolvido nada; houve muita discussão e o assunto ficou para ser resolvido amanhã, em votação secreta.
➖ Bem, filhinho, não fique com receio, eu saberei guardar segredo como sempre.
Durante a tarde e à noite, a azáfama dos criados foi enorme. Criados saíam e criados voltavam; recados iam e chegavam a todas as principais damas de Roma, nos seguintes termos: 'Olha, Dona Fulana, venho comunicar-lhe, sob rigoroso segredo, que amanhã o Senado tratará do seguinte assunto..., que já está para ser votado. É absolutamente necessário que nos reunamos e juntas possamos ir ao Senado defender os nossos direitos, certo?'
No dia seguinte, estando os senadores reunidos e entre eles Papírio com o seu pai, de repente entrou um batalhão de senhoras que, sem mais preâmbulos e, em altas vozes, expuseram e defenderam com energia que é mais conveniente que cada esposa tenha dois ou três maridos, e não o contrário... Os senadores se prostaram atônitos.
➖ O que é isto? - diziam, olhando uns para os outros - Estas mulheres enlouqueceram? O que significa tudo isto?
Então Papírio, aproveitando um instante de silêncio, contou-lhes o que se passara com ele no dia anterior e como ele, para guardar segredo e livrar-se das insistências de sua mãe, forjara aquela história. Ela, portanto, traindo o segredo, teria pausado todo aquele alvoroço.
Os snadores riram-se a bandeiras despregadas e as damas, todas bastante envergonhadas, abandonaram o recinto.
88. BOM PARA O CÉU
O piedoso bispo Mons. Tissot gozava na Índia de uma bem merecida fama de santidade, zelo e bondade. Ele próprio contou o seguinte episódio. Um dia, por ocasião de uma entrevista com certo governador, este lhe disse:
➖ Monsenhor, vós e vossos colaboradores sois para mim um enigma.
➖ E por que, senhor? - indagou o bispo missionário.
➖ Vede, monsenhor, disse o inglês: Nós recebemos do governo gordos subsídios e das Sociedades Protestantes enormes somas para a nossa propaganda protestante; os nossos ministros e catequistas ocupam posições invejáveis, as nossas diaconisas são abastadas... e entretanto conseguimos bem pouco! Fazemos alguns prosélitos em tempo de carestia ou de processos: terminada a prova, voltam ao paganismo. Vós, missionários católicos, ao contrário, sois pobres, não tendes tais meios, e, no entanto, as vossas obras prosperaram.
➖ Exatamente, senhor. E é porque nós temos um segredo.
➖ Um segredo?! Confiai-me esse segredo.
➖ Com muito prazer. É o seguinte: dou aos meus missionários e às Irmãs de caridade uma veste pobre, um leito duro, arroz de terceira qualidade... Faço-os levantar-se de madrugada, deitar-se tarde, trabalhar quase sem descanso...
O governador interrompeu-o:
➖ E, todavia, monsenhor, todos perseveram e morrem em seu posto; ao passo que os nossos ministros e as nossas diaconisas não querem demorar-se aqui e estão sempre a pedir para regressar à pátria.
➖ Ah! é verdade, senhor governador; mas, como já vos disse, tenho um segredo. Dou aos meus uma letra de banco, assim redigida: 'Bom para ser recebido no Céu'. Eis, meu caro, o que nós bispos fazemos e que vós não podeis fazer..
(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)
