sexta-feira, 13 de março de 2026

PORQUE O INFERNO É O INFERNO

Quanto ao tempo futuro que virá depois desta vida, Sofonias exclama: 'Aquele dia é dia de ira, dia de tribulação e angústia, dia de calamidade e miséria, dia de trevas e escuridão, dia de nuvens e redemoinhos, dia de trombetas e alarme' (Sf 1,15-16). Não apenas todos os pecados serão punidos, mas serão punidos com tormentos horrendos e pavorosos, que serão tão massivos que agora dificilmente podem ser imaginados pelos homens.

Assim como 'olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, nem subiu ao coração do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam' (Is 64,4; 1Cor 2,9), assim também olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, nem subiu ao coração do homem o que Deus preparou para seus inimigos. De fato, o castigo dos pecadores no Inferno será múltiplo e completo, isto é, sem mistura de quaisquer consolações, e, o que aumenta infinitamente a sua miséria, serão eternas. Serão muitas, digo eu, porque cada uma das faculdades da alma e cada um dos cinco sentidos do corpo terão os seus tormentos.

Ponderai as palavras desta sentença do Juiz Supremo que se encontra no Evangelho: 'Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno' (Mt 25,41). 'Apartai-vos de mim' - diz ele - isto é, afastai-vos da comunhão dos bem-aventurados, permanecei privados para sempre da visão de Deus, que é a felicidade suprema e essencial e o fim último para o qual fostes criados.

'Malditos', isto é, não alimenteis mais esperança de qualquer tipo de bênção; estais privados de qualquer vida de graça, de qualquer esperança de salvação; a água da sabedoria não mais choverá sobre vós, nem o orvalho das boas inspirações. Não mais vos iluminará o raio de luz celeste, nem brotará em vós a graça do arrependimento, nem a flor da caridade, nem o fruto das boas obras.

'Aquele que vem do alto' (Lc 1,78) nunca mais os visitará daquele momento em diante; vocês terão falta não apenas de bens espirituais, mas também materiais, não apenas de bens eternos, mas também temporais. Para vocês não haverá riquezas, nem prazeres, nem consolação, mas serão como a figueira que eu amaldiçoei, a qual secou imediatamente, com raiz e tudo (Mt 21,19).

Ele diz: 'para o fogo', isto é, para a fornalha de fogo ardente e inextinguível que se apoderará não de um membro, mas de todos os seus membros ao mesmo tempo e os queimará com a mais aguda dor. 'Eterno', isto é, para o fogo que não precisa ser alimentado com lenha para continuar queimando para sempre, mas é atiçado pelo sopro do Deus Todo-Poderoso para que, assim como sua culpa nunca será destruída, nunca haja fim para o seu castigo.

Com razão, então, o profeta Isaías exclama: 'Quem de vocês pode habitar dentro de um fogo consumidor? Quem de vocês pode habitar em meio às chamas eternas?' (Is 33,14). Com isso, ele diz que absolutamente ninguém pode suportar esse fogo pacientemente, mas os condenados serão forçados contra sua vontade a suportá-lo com impaciência, raiva e desespero.

Ele acrescenta: 'O seu verme não morrerá, e o seu fogo não se apagará' (Is 66,24). Estas palavras são repetidas mais de uma vez por Nosso Senhor no Evangelho de São Marcos (Mc 9,43-45-47). O remorso de consciência aumentará com a lembrança dos tempos em que os pecadores, se quisessem, poderiam ter escapado daqueles castigos com um pequeno esforço e desfrutado das alegrias eternas do Paraíso.

Ninguém deve pensar que os condenados podem encontrar um pouco de alívio andando por aí e mudando de lugar. Ouça o que o próprio Senhor diz: 'Amarrai-lhe as mãos e os pés e lançai-o nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes' (Mt 22,13). Portanto, aqueles miseráveis, atados de pés e mãos por cadeias eternas, jazerão para sempre no mesmo lugar, privados da luz do sol, da lua e das estrelas, queimados pelo fogo ardente, chorando, lamentando e rangendo os dentes em sua fúria e desespero.

Aqueles que forem lançados naquele lugar cheio de horror sofrerão não apenas a mais terrível dor no fogo eterno, mas também a privação absoluta de todas as coisas, bem como vergonha e desgraça repletas de agudo embaraço e confusão. De fato, num piscar de olhos, perderão seus palácios, campos, vinhas, rebanhos, bois, roupas, bem como seu ouro, prata e pedras preciosas, e serão reduzidos a tal miséria que o rico conviva desejará e implorará por uma gota de água fria, mas não será ouvido (Lc 16,24-26). 

... Se o que dissemos sobre a perda de todos os bens, tanto celestiais quanto terrestres, e sobre as dores amargas, a ignomínia e a vergonha, tivesse fim ou pelo menos fosse misturado a algum tipo de consolo ou alívio, como acontece com todas as misérias desta vida, então poderiam ser considerados toleráveis de alguma forma. Contudo, é absolutamente certo e fora de qualquer dúvida que, assim como a felicidade dos bem-aventurados será perpétua e sem aflições, assim também a infelicidade dos condenados durará para sempre, sem qualquer alívio. 

Aqueles que não fazem todo o esforço para alcançar o Reino dos Céus e a felicidade eterna, independentemente de quaisquer provações, perigos, vergonha e morte, que o Apóstolo chama de leves e passageiras (2Cor 4,17), devem ser, na verdade, cegos e tolos.

(São Roberto Belarmino)

quinta-feira, 12 de março de 2026

SOMENTE A FÉ NÃO BASTA!

'Muitos são os chamados e poucos os escolhidos' (Mt 20,16). Muitos, com efeito, chegam à fé, mas bem poucos ao Reino dos Céus. O rebanho da Igreja acolhe tanto os bodes como os cordeiros; mas, segundo o testemunho do Evangelho, quando o Juiz vier, há de separar os bons e os maus. 

Pois os que se fazem na terra escravos dos prazeres da carne, não poderão, no céu, serem contados entre as ovelhas. Vedes, caros fiéis, muitas dessas pessoas na Igreja, mas não deveis imitá-las; nem, por outro lado, desesperar de que possam salvar-se. De fato, vemos bem o que uma pessoa é hoje, mas ignoramos como será amanhã. Muitas vezes quem parece vir atrás de nós passa à nossa frente pelo impulso de uma boa ação. E, às vezes, mal podemos seguir amanhã o que hoje deixávamos para trás.

Quando Estêvão morria pela fé, Saulo tomava conta das vestes daqueles que o lapidavam. Ele o lapidava, portanto, pelas mãos de todos os seus algozes, que então podiam mover-se mais à vontade, para atirar as pedras. E, no entanto, por seus trabalhos pela Santa Igreja, Paulo superou aquele do qual fizera um mártir, ao persegui-lo.

Há, por conseguinte, duas coisas a que devemos estar atentos, uma vez que há muitos chamados e poucos escolhidos. A primeira coisa é que ninguém deve jamais presumir de si próprio; pois, ainda que chamado à fé, ignora se será digno do Reino eterno. A segunda é que jamais devemos ter a ousadia de desesperar do próximo, ainda que o vejamos mergulhado nos vícios, pois não conhecemos os tesouros da misericórdia divina.

(São Gregório Magno)

quarta-feira, 11 de março de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XIV)

     

PARTE II - O JUÍZO FINAL

IX. Sobre como terá início o Juízo Final

Quando os Anjos e os Santos, além de toda a companhia dos demônios e dos condenados, estiverem prostrados diante de seu Juiz em humilde adoração, Ele abrirá os lábios e, com voz alta, proferirá estas ou outras palavras semelhantes: 'Ouçam, ó céus, a minha voz; ouça, ó terra, as palavras que vou proferir; ouçam, ó anjos, ouçam, ó demônios, ouçam também, todos vós, pecadores, pois anuncio a cada um e a todos vós que eu, Jesus Cristo, o verdadeiro Filho de Deus e da Virgem Maria, vosso Criador, vosso Redentor, vosso soberano Senhor, estou prestes a exercer meu ofício de Juiz.

Com infinita paciência, tenho suportado as vossas inúmeras iniquidades: o tempo da graça já passou, o tempo da justiça chegou. Cada um será recompensado de acordo com as suas obras. Aqueles que fizeram o bem irão comigo para a vida eterna, e aqueles que fizeram o mal serão lançados no abismo do tormento e da angústia eternos. Toda a criação verá e reconhecerá que sou um Deus justo, que não julgo segundo as aparências, mas segundo a medida do que cada homem mereceu'.

Palavras como estas sairão da boca do Juiz e serão pronunciadas com tal majestade que todos os homens tremerão e se estremecerão. Todos os miseráveis pecadores começarão a chorar e lamentar-se novamente, de modo que a própria terra poderá ser movida pela compaixão. 'Ai de nós, pobres coitados' - exclamarão em uma só voz - 'como podemos ficar diante da face do nosso Juiz! Montanhas, caiam sobre nós, e rochas, cubram-nos e escondam-nos da face daquele que está sentado no trono e da ira do Cordeiro. Pois o grande dia da sua ira chegou, e quem poderá resistir?'

E como em todo tribunal deve estar presente um acusador para apresentar as acusações contra o indivíduo que será julgado, assim também neste julgamento geral os anjos e os demônios serão os acusadores da humanidade. São Miguel se levantará primeiro e dirá: 'Juiz justíssimo, trago uma acusação contra esses milhões de pecadores, que contaminaram a terra a tal ponto com seus maus feitos, que Vós, em vossa santa indignação, considerastes adequado purificá-la com fogo; eu vos invoco agora para punir esses transgressores de acordo com a vossa justiça'.

Então Lúcifer, falando em nome de todos os espíritos malignos, levantará a voz com um rugido como o de um leão e acusará toda a humanidade em conjunto: 'Justíssimo Juiz dos vivos e dos mortos, eu apresento uma acusação contra todos os seres humanos aqui reunidos. Uma vez que pareceu justo à vossa severa justiça banir-me e a todos os Anjos que se juntaram a mim do Céu por causa de um único pecado, e condenar-nos à condenação eterna, é justo incluir toda a humanidade nesta mesma condenação e, assim, lanceis todos os homens aqui presentes no abismo do Inferno. Pois não há um único indivíduo aqui que não tenha cometido pecado e transgredido a vossa Lei'.

Então Cristo responderá à acusação desta forma: 'Será feito como pedis, ó anjos e demônios; todos os homens devem comparecer perante o meu tribunal, e cada um receberá o que lhe é devido: castigo para os ímpios, recompensa para os bons'. Quando todos aqueles que Cristo escolheu para compartilhar com Ele o seu ofício de Juiz tiverem tomado seus lugares, com os seus apóstolos tendo precedência sobre todos os outros, o julgamento terá início. Pelo que diz o apóstolo São Paulo, parece que ninguém, nem mesmo os santos, estará isento dessa provação: 'Todos nós compareceremos perante o tribunal de Cristo' (Rm 14,10).

Esta apresentação perante o tribunal de Cristo encherá todos de temor. Ninguém estará livre disso; mesmo os justos o sentirão em certa medida, assim como os infelizes pecadores. Mesmo que os justos não tenham consciência de nenhum pecado, não estarão isentos de apreensão. São Paulo diz isto, falando de si mesmo: 'De nada me acusa a consciência; contudo, nem por isso sou justificado. Meu juiz é o Senhor' (1Cor 4,4). Com isso, o apóstolo aparentemente quer dizer: 'Minha consciência não me reprova, mas isso não prova que eu seja um dos justos; devo esperar para ver qual será a sentença que o Juiz eterno proferirá sobre mim'. Na verdade, todo homem ficará tão aterrorizado ao ver pela primeira vez o Juiz irado que, como São João, cairá aos seus pés como morto.

Parece-me que o julgamento dos bons será feito mais ou menos desta maneira: os Anjos da Guarda conduzirão aqueles que foram confiados aos seus cuidados ao tribunal e então os justos se prostrarão diante de Deus em humilde adoração. O inimigo maligno começará então a acusá-los e apresentará tudo o que puder contra eles. Mas o anjo da guarda defenderá o seu protegido e apresentará todas as suas boas obras, suas penitências e suas virtudes, colocando-as na balança da justiça divina. E se elas não forem muito leves, Cristo o vestirá com a nova túnica, a vestimenta do esplendor e o coroará com a diadema do reino eterno. Quem pode dizer a medida desta glória então! Como todos os justos se alegrarão por estarem entre os bem-aventurados! Com que esplendor o coro dos Anjos os felicitará e exultará com eles em júbilo feliz. E como todos os que ainda aguardam a sua sentença se maravilharão com a glória que lhes pertence e desejarão partilhá-la entre si.

ORAÇÃO

Jesus, cheio de bondade, em nome de todos os santos e eleitos, a quem Vós destinastes para desfrutar da felicidade eterna, eu imploro, em nome da vossa infinita bondade, possa eu estar entre os vossos santos no Dia do Juízo Final. Embora seja realmente indigno dessa graça, pela vossa maior honra e louvor, peço-vos que manifestei sobre mim a vossa misericórdia infinita e não me rejeiteis, pobre pecador que sou. E eu imploro a vocês, santos de Deus, que me ajudem a alcançar a vossa companhia abençoada. Sei que a vossa intercessão é poderosa o suficiente junto a Deus para levá-lo a olhar para mim com compaixão e ser infinitamente misericordioso comigo no julgamento da minha vida. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

terça-feira, 10 de março de 2026

LADAINHA A JESUS MISERICORDIOSO POR UMA MORTE SANTA


Jesus Cristo, nosso Senhor, Deus de bondade e misericórdia, aqui me tendes em vossa presença, humilhado e contrito de coração; recomendo-vos a minha hora derradeira, e a sorte que depois dela me espera. Quando os meus pés imóveis me avisarem de que meu caminho neste mundo está prestes a terminar:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando as minhas mãos, trêmulas e entorpecidas, não puderem já apertar o Crucifixo e, contra a minha vontade, o deixarem cair sobre o meu leito de dor:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando os meus olhos, apagados e amortecidos, horrorizados à vista da morte iminente, cravarem em vossa imagem meus olhares abatidos e moribundos:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando os meus lábios, frios e trêmulos, pronunciarem pela derradeira vez o vosso adorável nome:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando o meu rosto, pálido e arroxeado, já mover à compaixão e ao susto as pessoas presentes, e os meus cabelos, revoltos e banhados do suor da morte, derem o sinal de que se apressa o termo dos meus dias:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando os meus ouvidos, prestes a fecharem-se para sempre às conversações dos homens, se abrirem para ouvir de vossa boca a irrevogável sentença, que decidirá a minha sorte por toda a eternidade:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando a minha imaginação, perturbada por fantasmas horrendos e aterradores, cair em mortal angústia, e meu espírito, abalado e confuso à vista das próprias iniquidades e receoso da vossa justiça, lutar contra o anjo das trevas, que há-de querer tirar-me a esperança na vossa misericórdia e precipitar-me no abismo do desespero:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando o meu coração, fraco e angustiado com as dores da doença, for surpreendido pelos horrores da morte e se achar exausto e cansado com os esforços feitos para triunfar dos inimigos da minha salvação:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando deitar as últimas lágrimas, prenúncio da minha destruição, recebei-as, ó meu Jesus, em sacrifício de expiação, para que assim morra vítima de penitência; e naquele terrível momento:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando os parentes e amigos, apinhados ao redor de mim, se enternecerem à vista do meu lastimoso estado, e invocarem vossa misericórdia em meu favor:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando, perdido o uso dos sentidos e apagada de toda minha vista, gemer no meio das ânsias da agonia extrema e na crise da morte:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando os últimos impulsos do meu coração obrigarem a minha alma a sair do corpo, recebei-a como prova de um vivo anseio de ir ter convosco; e diante deVós:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando a minha alma sair para sempre deste mundo, e deixar o meu corpo pálido, frio e sem vida, aceitai a destruição do meu ser como uma homenagem que desde há ofereço à vossa Divina Majestade, e naquela hora:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

Quando, finalmente, a minha alma comparecer diante de Vós e contemplar pela primeira vez o imortal esplendor da vossa Majestade, não a expulseis de vossa presença: mas dignai-vos recebê-la no seio amoroso da vossa misericórdia infinita, para que possa cantar eternamente os vossos louvores e, por isso:
Jesus misericordioso, tende compaixão de mim.

domingo, 8 de março de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

  

'Hoje não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor!(Sl 94)

Primeira Leitura (Ex 17,3-7) - Segunda Leitura (Rm 5,1-2.5-8) - Evangelho (Jo 4,5-42)

  08/03/2026 - TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA

A FONTE DA ÁGUA VIVA


O Evangelho deste domingo nos apresenta um Jesus fatigado, cansado de uma longa viagem, prostrado pelo calor sufocante do meio dia, estrangeiro de uma árida região da Samaria. Em sua humanidade, Jesus tem sede, muita sede. Em sua divindade, Jesus tem sede de levar o evangelho e a salvação a todos os seus filhos, em todos os lugares. Jesus não se curva ao deleite das sombras e nem à saciedade imediata da água fresca tão perto: sentado sozinho à beira do poço de Jacó, Jesus espera pela resposta humana ao seu convite de conversão à ovelha desgarrada: 'Dá-me de beber' (Jo 4,7).

Eis o chamado da graça manifestado pelo Filho de Deus Vivo a uma humilde mulher samaritana daquelas longínquas paragens. Tal como as águas que encheram as talhas de Caná para serem convertidas em vinho, a graça de Deus depende da nossa aceitação, da nossa contrapartida, da nossa 'água' espiritual. Jesus quer a salvação daquela mulher samaritana, como quer a tua alma e a minha na eternidade com Ele. Este chamamento é para todos: a sede de Jesus é plena, é verdadeira, é absoluta, quando almeja a água que jorra intermitente do coração humano.

E Deus saciado faz jorrar nas almas humildes e generosas ao seu chamamento cascatas da água viva que nos leva às moradas eternas: 'Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna' (Jo 4,13). Eis aí a mensagem do Evangelho deste domingo: Jesus é a fonte da água viva que sacia eternamente a alma sedenta de Deus.

A mulher samaritana pôde compartilhar a graça e a glória de Deus naquele dia ensolarado à beira do poço de Jacó. Certamente vacilou, certamente mostrou desconfiança, mas acreditou. Ao aceitar, encontrou perdão e misericórdia; ao oferecer a água do poço, recebeu a água viva, não mais como a jorrante da pedra em Massa e Meriba (Ex 17,6-7), mas aquela derramada do próprio Coração de Deus. É este empenho ao chamado da graça que Jesus está sempre esperando de nós à beira dos poços de Jacó ao longo dos caminhos e atalhos de nossas vidas.

sábado, 7 de março de 2026

SANTINHOS (VII)

'Santinhos' são pequenos cartões impressos que retratam santos, cenas ou pinturas religiosas, produzidos desde época remota e comumente em grandes quantidades, para disseminação da cultura religiosa entre os católicos. São especialmente confeccionados e distribuídos nas festas de devoção de um santo, como pagamento de promessas ou como lembrança da realização de datas festivas e/ou eventos religiosos públicos ou particulares (batismo, primeira comunhão, crisma, etc). As fotos abaixo apresentam alguns exemplos destes 'santinhos' contemplando a temática da Cruz de Cristo com pombas.







sexta-feira, 6 de março de 2026

À BEIRA DE UM GRANDE RIO


Três homens caminhavam juntos, em uma longa jornada, quando chegaram à beira de um grande rio. Começaram a analisar a situação e observar o comportamento do rio. As águas pareciam fluir calmas mas, repentinamente, formavam-se marolas, e então ondas maiores, corredeiras e, mais além, enchentes e fluxos tormentosos em frenéticos turbilhões e redemoinhos. 

O primeiro homem não titubeou. Num momento de aparente calmaria, lançou-se às águas e propôs-se a atravessar a nado o grande rio. Nadou destemido e confiante por longo tempo sem sobressaltos. Quando irrompeu a fúria traiçoeira das águas, foi arrastado brutalmente pelas correntes sem freio e desapareceu no fundo do rio.

O segundo homem, logo após o primeito ter-se lançado as águas, viu um pequeno barco a remo ancorado na margem onde estavam. O barco era tosco e pequeno e tinha as dimensões e a capacidade de sustentação de um único homem. Resoluto e imbuído de uma valentia instantânea, empunhou os remos e avançou destemido no grande rio, confiante nas suas próprias forças e habilidade em conduzir o barco enfrentando as oscilações e as alternâncias bruscas das águas incertas. Tão incertas que, no mesmo instante em que fazia sumir o primeiro homem, virou repentinamente o barco, arremessando longe o remo agora inútil e arrastando sem escrúpulos o segundo homem, antes ousado e agora em desespero, para o mesmo fundo do grande rio.

O terceiro homem vislumbrou os riscos das correntes traiçoeiras e o perigo de enfrentamento do grande rio a peito aberto ou apenas com um barquinho a remo. A insensatez e o orgulho humano podem mover as águas dos moinhos, mas não podem dominar o caudal dos desvarios e adversidades das grandes correntezas. Ciente das limitações da travessia naquele ponto do rio e, mais sábio do que fatigado pela longa jornada, percorreu pacientemente o trajeto ao longo da margem, até que deparou com uma sólida ponte em arco que transpunha o rio. E assim, sem concessão alguma às águas calmas ou turbulentas, chegou com segurança absoluta à outra margem do rio. 

O grande rio não passa da mundana sorte. A margem de agora é nossa vida inconstante. A outra margem tem acenos de vida eterna. A ponte segura é a única Igreja de Cristo. A escolha da travessia é sua.

(Arcos de Pilares)

quinta-feira, 5 de março de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (85/88)

 

85. O PAI DA MENTIRA

Vejam só a que ponto chega a ousadia do demônio. Um dia, estava o bispo São Martinho rezando em sua cela. O espírito das trevas apresentou-se-lhe revestido de vestes luminosas, com uma coroa de ouro na cabeça, e aparentando uns modos tão celestiais que teria enganado a qualquer cristão. 

Por duas vezes disse que era Jesus Cristo; mas, como a humildade é o meio mais eficaz de se descobrirem as artimanhas do capeta, o qual é todo orgulho, Martinho não tardou a reconhecer naquela figura pomposa o diabo em pessoa. Dirigiu-lhe, pois, estas palavras:
➖Senhor Jesus, que é todo humildade, não disse que viria vestido de púrpura, nem coroado com diadema de ouro; por isso jamais considerarei como Jesus Cristo quem não. apresentar os símbolos do Salvador padecente e não trouxer no corpo os sinais da Paixão.

Ouvindo essas palavras o velhaco, o mentiroso, o enganador desapareceu, deixando após si um mau cheiro de enxofre insuportável.

86. POR QUE AS TRIBULAÇÕES?

Certa vez um lavrador, que fizera más colheitas, queixava-se, pensando: 'Se Deus deixasse a mim o governo do tempo, tudo iria melhor; porque, está-se vendo, Ele não entende muito do cultivo da terra'. Deus quis mostrar-lhe quanto estava enganado, e disse:
➖ Por este ano eu te concedo o governo do tempo; terás tudo que pedires.

O ingênuo lavrador quase enlouqueceu de alegria, e disse: 'Agora, quero sol!' E veio o sol. Mais tarde disse: 'Venha a chuva! E choveu quanto ele quis. E ia pedindo: de novo sol; de novo chuva. E assim durante o ano inteiro. A plantação crescia, crescia... que dava gosto vê-la. Agora, sim, Deus pode ver como se governa, pensava o lavrador com uma pontinha de orgulho. Chegou o tempo da colheita. As espigas eram grandes, gordas, uma beleza!... Mas colhendo uma, colhendo outra, colhendo um montão - que desgraça! Todas as espigas estavam chochas, sem nenhum grão, tudo palha.

Daí a pouco vem Nosso Senhor ver a colheita e pergunta ao lavrador:
➖ Então, que tal a colheita?
➖ Muito má, Senhor! Muita palha e pouco grão!
➖ Mas não governastes tu o tempo? Não se fez tudo como desejavas?
➖ Sim, tudo... sempre pedi chuva... pedi sol...
➖ Pois é, e nunca pediste vento e tempestade, neve e gelo, e tudo que purifica o ar e torna resistentes as raízes... e por isso não há colheita!

Também na vida espiritual sem mau tempo não se faz boa colheita. Pedis alegria, riquezas, saúde, bem-estar... As raízes das virtudes não penetram em terra firme e não podem produzir frutos. Sem dor, mortificação, tribulações, não ajuntareis méritos para o céu. É preciso aceitar o que Deus nos envia.

87. AS MULHERES SÃO CURIOSAS?

Papírio Pretextato, então menino de doze anos, foi com o pai ao Senado. Tratou-se ali, provavelmente, de algum assunto importante, porque a sessão se prolongou por muito tempo. Voltaram para casa altas horas. A mãe de Papírio, intrigadíssima e curiosa, chamou o filho à parte e o questionou:
➖ Vem cá, meu filho, diga-me: 'De que é que trataram hoje no Senado?'
O pequeno, temendo o rigor excessivo com que, em Roma, se guardavam os segredos do Senado, recusou-se a dizê-lo. Isso, porém, aumentou mais ainda a curiosidade da mãe. Ela instava o assunto e ele calava-se. 

Afinal, em vista dos pedidos, dos mimos e ameaças, o menino fingiu aceder, e disse-lhe ao ouvido, baixinho:
➖ Mãe, vou contar-lhe o que foi, mas a senhora há de guardar rigoroso segredo.
➖ Pois sim, filhinho; eu me calarei, prometo, diga-me então o que foi?
➖ Foi o seguinte: Houve entre os senadores uma grande controvérsia. Discutiram longamente se seria mais conveniente um marido ter duas ou três mulheres ou se, ao contrário, uma mulher ter dois ou três maridos.
➖ Pois bem... e que é que resolveram?
➖ Não ficou resolvido nada; houve muita discussão e o assunto ficou para ser resolvido amanhã, em votação secreta.
➖ Bem, filhinho, não fique com receio, eu saberei guardar segredo como sempre.

Durante a tarde e à noite, a azáfama dos criados foi enorme. Criados saíam e criados voltavam; recados iam e chegavam a todas as principais damas de Roma, nos seguintes termos: 'Olha, Dona Fulana, venho comunicar-lhe, sob rigoroso segredo, que amanhã o Senado tratará do seguinte assunto..., que já está para ser votado. É absolutamente necessário que nos reunamos e juntas possamos ir ao Senado defender os nossos direitos, certo?'

No dia seguinte, estando os senadores reunidos e entre eles Papírio com o seu pai, de repente entrou um batalhão de senhoras que, sem mais preâmbulos e, em altas vozes, expuseram e defenderam com energia que é mais conveniente que cada esposa tenha dois ou três maridos, e não o contrário... Os senadores se prostaram atônitos.

➖ O que é isto? - diziam, olhando uns para os outros - Estas mulheres enlouqueceram? O que significa tudo isto?
Então Papírio, aproveitando um instante de silêncio, contou-lhes o que se passara com ele no dia anterior e como ele, para guardar segredo e livrar-se das insistências de sua mãe, forjara aquela história. Ela, portanto, traindo o segredo, teria pausado todo aquele alvoroço.

Os snadores riram-se a bandeiras despregadas e as damas, todas bastante envergonhadas, abandonaram o recinto.

88. BOM PARA O CÉU

O piedoso bispo Mons. Tissot gozava na Índia de uma bem merecida fama de santidade, zelo e bondade. Ele próprio contou o seguinte episódio. Um dia, por ocasião de uma entrevista com certo governador, este lhe disse:
➖ Monsenhor, vós e vossos colaboradores sois para mim um enigma.
➖ E por que, senhor? - indagou o bispo missionário.

➖ Vede, monsenhor, disse o inglês: Nós recebemos do governo gordos subsídios e das Sociedades Protestantes enormes somas para a nossa propaganda protestante; os nossos ministros e catequistas ocupam posições invejáveis, as nossas diaconisas são abastadas... e entretanto conseguimos bem pouco! Fazemos alguns prosélitos em tempo de carestia ou de processos: terminada a prova, voltam ao paganismo. Vós, missionários católicos, ao contrário, sois pobres, não tendes tais meios, e, no entanto, as vossas obras prosperaram.
➖ Exatamente, senhor. E é porque nós temos um segredo.
➖ Um segredo?! Confiai-me esse segredo.
➖ Com muito prazer. É o seguinte: dou aos meus missionários e às Irmãs de caridade uma veste pobre, um leito duro, arroz de terceira qualidade... Faço-os levantar-se de madrugada, deitar-se tarde, trabalhar quase sem descanso...

O governador interrompeu-o:
➖ E, todavia, monsenhor, todos perseveram e morrem em seu posto; ao passo que os nossos ministros e as nossas diaconisas não querem demorar-se aqui e estão sempre a pedir para regressar à pátria.
➖ Ah! é verdade, senhor governador; mas, como já vos disse, tenho um segredo. Dou aos meus uma letra de banco, assim redigida: 'Bom para ser recebido no Céu'. Eis, meu caro, o que nós bispos fazemos e que vós não podeis fazer..

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quarta-feira, 4 de março de 2026

10 VEZES AMÉM (E 1 NÃO AMÉM) NA SANTA MISSA


Durante a celebração usual da Santa Missa, o fiel é conclamado a responder Amém pelo menos 10 vezes, nas seguintes ocasiões:

1. No início da Celebração:

'Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo' –  Amém.

2. Na oração que conclui o Ato Penitencial:

'Deus todo-poderoso tenha compaixão de nós, perdoe o nossos pecados e nos conduza à vida eterna' –  Amém.

3. Na conclusão da Oração da Coleta:

'... por todos os séculos dos séculos' –  Amém.

4. Depois da conclusão feita pelo sacerdote após a Oração dos Fiéis:

'...Por Cristo, nosso Senhor' –  Amém.

5. Após a conclusão da Oração sobre as Oferendas pelo sacerdote:

'...Por Cristo, nosso Senhor' –  Amém.

6.  No final da Oração Eucarística:

'Por Cristo, com Cristo, em Cristo…' –  Amém.

* Ao final da Oração do Pai Nosso: 

'e livrai-nos de todo o mal' –  SEM Amém.

7. Na conclusão das Orações que se seguem ao Pai Nosso e imediatamente antes do Rito da Paz:

'...Vós que sois Deus, com o Pai e o Espírito Santo' –  Amém.

8. Durante a comunhão, no ato de recebimento da Santíssima Eucaristia:

'Corpo de Cristo' ou 'Corpo e Sangue de Cristo' –  Amém.

9. Ao final da Oração depois da Comunhão:

'... Por Cristo, nosso Senhor' –  Amém.

10. Como resposta à bênção final dada pelo sacerdote:

'Abençoe-vos Deus todo-poderoso, Pai e Filho e Espírito Santo' –  Amém.

Um Amém fecha a Oração do Credo e outro Amém conclui o Hino do Glória (recitado ou cantado), quando incluídos no rito litúrgico. No caso de uma bênção solene, o sacerdote, antes da bênção final, faz comumente três invocações litúrgicas, ao que os fieis respondem também com um Amém ao final de cada uma delas (10 Améns que podem ser 15...)

terça-feira, 3 de março de 2026

PALAVRAS DE SALVAÇÃO

Um mau pensamento é como a mostarda amarga que deixa a alma amarga e aviltada. Os maus pensamentos são os líquidos densos que uma pessoa, às vezes, precisa. Apesar de não serem muito bons para nutrir o corpo, eles ainda são benéficos para a purgação e cura tanto do corpo quanto da mente. Embora os maus pensamentos não alimentem e curem a alma como o óleo dos bons pensamentos, eles ainda são bons para a purgação da alma, assim como a mostarda é boa para a purificação do cérebro. Se os maus pensamentos não aparecessem, de vez em quando, os seres humanos seriam anjos e não humanos, e eles poderiam pensar que conseguiriam tudo por si próprios. Portanto, para que um homem possa compreender suas fraquezas, que vêm dele mesmo, e a força que vem de mim, é algumas vezes, necessário que minha imensa misericórdia permita que seja tentado por maus pensamentos. Contanto que a alma não consinta com eles, serão uma purificação para a alma e uma proteção para suas virtudes. Embora eles possam ser tão picantes ao ingerir quanto a mostarda, ainda são muito saudáveis para a alma pois a conduzem à vida eterna e ao tipo de saúde que não se obtém sem alguma amargura. Então, deixe que os vasos da alma, onde são colocados os bons pensamentos, sejam cuidadosamente preparados e sempre mantidos limpos, já que é útil que mesmo os maus pensamentos apareçam tanto para uma provação como para se obter maior mérito.

(Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo a Santa Brígida da Suécia)

segunda-feira, 2 de março de 2026

SOB O OLHAR DE DEUS


Vosso olhar, meu Deus, não é apenas agradável: é benéfico. Ele não nos acha bons apenas, ele nos torna bons. Olhar com amor e criar e enriquecer as vossas criaturas é sempre a mesma coisa para Vós, meu Deus. Que o vosso olhar se digne a voltar-se para a minha alma e nela pousar suavemente... Nada me agrada mais do que saber que estou sob a atenção dos vossos olhos. Parece-me assim que devo ter sempre o mais profundo respeito e a mais humilde modéstia. Quanta luz não encontro no vosso olhar! Ele ilumina o meu caminho, me ensina o verdadeiro valor das coisas e me faz ver se elas podem ser meios ou obstáculos para mim. E, por outro lado, me permite levar essa luz a outras pessoas. Sem ela, eu não seria mais do que escuridão. Ó, bendito olhar do meu Deus, queria vos ter fixado em mim para todo o sempre!

Vosso olhar, ó meu Deus, não é um olhar externo para a minha alma; é interior, no mais íntimo de mim. A alma tem a impressão de ser devassada pelo vosso olhar de dentro para fora. Isso é a verdade. Esse olhar sois Vós, ó meu Deus, que faz morada em minha alma e que a ilumina ao mesmo tempo em Vós, nela mesma e em todas as coisas. A alma está consciente dessa luz interior que se assemelha a um cristal muito puro que, exposto diretamente ao sol, torna-se cintilante pelos raios luminosos, e sabe disso. Mas essa é ainda uma comparação muito tênue porque a alma é espírito e Deus é espírito. E nada pode dar sequer uma ideia aproximada do que acontece na dimensão da luz, quando Deus invade uma alma e a toma para si. Ele, que é a verdade absoluta! Bem aventurada é a alma sem defeito e sem mancha que os raios divinos podem iluminar em plenitude! E como é suave ver a Deus em si mesmo assim! Já é um prenúncio do Céu...

(Excertos da obra 'A Vida Oculta em Deus', de Robert de Langeac, texto traduzido integralmente e disponível na Biblioteca Digital deste blog)

domingo, 1 de março de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça,
venha a vossa salvação!(Sl 32)

Primeira Leitura (Gn 12,1-4a) - Segunda Leitura (2Tm 1,8b-10) -  Evangelho (Mt 17,1-9)

  01/03/2026 - SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA

A TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR


'Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha' (Mt 17,1). Uma alta montanha, o Monte Tabor. Como testemunhas da extraordinária manifestação da glória celeste e da vida eterna em Deus, Jesus conduz os três apóstolos escolhidos para o alto, numa clara assertiva de que é por meio da profundo recolhimento interior e da elevação da alma muito acima das coisas do mundo é que podemos viver efetivamente a experiência plena da contemplação de Deus.

'E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz' (Mt 17,2). No mistério da transubstanciação do Senhor, os apóstolos testemunharam antecipadamente alguma coisa dos mistérios de Deus. Algo profundamente diverso da natureza humana, pois nascido direto da glória de Deus. Algo muito limitado da Visão Beatífica, posto que deveria atender sentidos humanos: 'nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que O amam' (1Cor 2,9). Ainda assim, algo tão extraordinário e consolador, que perturbou completamente aqueles homens e, ao mesmo tempo, os moldou definitivamente na certeza da vitória e da ressurreição de Cristo.

'Nisto apareceram-lhe Moisés e Elias, conversando com Jesus' (Mt 17,3). A revelação da glória de Deus é atestada pela Lei e pelos Profetas, pelo Senhor da vida e da morte, pelos textos das Sagradas Escrituras. Naquele momento, se fecha a Lei e a morte (com Moisés) e se cumprem todas as profecias e se impõe a vida eterna em Deus (com Elias, que ainda vive). E, para não se ter dúvida alguma, Deus se pronuncia no Alto do Tabor em favor do Filho: 'Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!' (Mt 17,5).

Do alto do Tabor, a ordem divina ecoa pelos tempos e pelas gerações humanas a todos nós, transfigurados na glória de Deus pelo batismo e herdeiros do Tabor eterno: 'Escutai-o!' Como batizados, somos como os apóstolos descidos do monte e novamente envoltos pelas brumas e incredulidades do mundo. Pela transfiguração, entretanto, somos encorajados a vencer o mundo como Cristo, a superar a fragilidade de nossos sentidos, a elevarmos nosso pensamento às coisas do Alto, a manifestar em nós a glória de Deus como primícias do Céu, sob a divina consolação: 'Levantai-vos e não tenhais medo' (Mt 17,7).

sábado, 28 de fevereiro de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLIV)

São Domingos de Gusmão, fundador da Ordem Dominicana, nasceu em 24 de junho de 1170, na Espanha. Certa ocasião, Nossa Senhora apareceu e lhe entregou o Rosário, instrumento que passou a utilizar exaustivamente em suas pregações para converter milhares de hereges à Fé Católica. Faleceu no dia 6 de agosto de 1221, aos 51 anos de idade, sendo canonizado pouco tempo depois, em 1234, pelo Papa Gregório IX. Em muitas pinturas tradicionais do santo, chama a atenção a figura singular de um cão com uma tocha na boca aos pés do santo.


Trata-se do chamado Domini Canis - o cão do Senhor, um dos atributos associados a São Domingos, diretamente relacionado a um episódio antes do nascimento do santo. Durante a gravidez, a sua mãe teve uma visão: sonhou com um cão que, com uma tocha na boca, saía do seu ventre e parecia querer incendiar o mundo. O significado atribuído a esta visão é que ela iria dar à luz um pregador eminente, o qual, com a sua palavra flamejante, converteria os pecadores e derramaria sobre a terra o fogo de Cristo.

A designação Domini Canis permite estabelecer um jogo de palavras. De fato, Domini (em latim 'do Senhor') e Canis ('cão' em latim) seria , então, o Cão do Senhor. No entanto, se juntarmos as palavras domini + canis, tem-se a palavra dominicanis, ou seja, dominicanos.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

ORAÇÃO DE SÃO BENTO PELAS GRAÇAS DE DEUS

Pai santo e misericordioso,
concedei-nos intelecto para vos compreender,
razão para vos discernir, diligência para vos buscar,
sabedoria para vos encontrar, espírito para vos conhecer
e um coração para meditar em Vós.

Que nossos ouvidos vos ouçam,
que nossos olhos vos contemplem
e que nossas línguas vos proclamem.

Dai-nos a graça de que nossa maneira de viver vos seja agradável,
que tenhamos paciência para vos esperar
e perseverança para vos buscar.

Concedei-nos um fim perfeito: vossa santa presença,
uma ressurreição bendita e a vida eterna.
Isso vos pedimos por Jesus Cristo, nosso Senhor.
Amém.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

MESMO QUE APENAS UM SEJA SALVO!

Que a fé de nossos pais seja proposta àqueles que estão enganados, mas sempre de boa vontade, com toda ternura e caridade. Se eles concordarem, recebamo-los em nosso meio. Se eles não concordarem, habitemos sozinhos, independente de número e mantenhamo-nos afastados de almas equivocadas, que não possuem aquela simplicidade sem dolo, indispensavelmente necessária nos primeiros dias do Evangelho.

Os crentes, como está escrito nas Escrituras, tinham apenas um coração e uma alma. Portanto, aqueles que nos censuram por não desejar a pacificação, marquem bem quem são os verdadeiros autores da perturbação. Que eles não peçam mais reconciliação de nossa parte.

A todo argumento especioso que pareça aconselhar silêncio de nossa parte, opomos este outro argumento, a saber, que a caridade não conta como nada, nem seus próprios interesses nem as dificuldades dos tempos. Mesmo que nenhum homem esteja disposto a seguir nosso exemplo, o que fazer então? Devemos abandonar o dever somente por essa razão? Na fornalha ardente, os filhos do cativeiro da Babilônia entoaram seu cântico ao Senhor, sem fazer nenhuma avaliação da multidão que deixou a verdade de lado. Eles eram suficientes um para o outro, e eram apenas três!

Então, animem-se! Sob cada golpe, renovem-se no amor; deixem seu zelo ganhar força a cada dia, sabendo que em vocês devem ser preservados os últimos resquícios de piedade que o Senhor, em seu retorno, pode encontrar na terra...

Não deem atenção ao que a multidão pode pensar, pois um mero sopro de vento é suficiente para balançar a multidão para frente e para trás, como a onda ondulante. Mesmo que apenas um fosse salvo, como no caso de Ló de Sodoma, não seria lícito para ele se desviar do caminho da retidão, meramente porque ele descobre que ele é o único que está certo. Não; ele deve ficar sozinho, impassível, mantendo firme e unicamente a sua esperança em Jesus Cristo'.

(São Basílio de Cesareia)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

FRASES DE SENDARIUM (LXIX)


'A perfeição do amor no Céu não está exatamente na nossa felicidade em amar a Deus, mas no prazer que damos a Deus ao amá-lo'

(Santo Afonso de Ligório)

Ama a Deus com toda a força do seu coração. Não há ideal maior do homem inserido nos planos de Deus do que catalisar todo o seu incompleto e tíbio amor humano na convicção sincera de retribuir a dádiva infinita do próprio Amor. Deus quer tão somente o teu firme propósito neste mundo em ser instrumento e reflexo do Amor infinito que te espera no Céu.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XIII)

    

PARTE II - O JUÍZO FINAL

VIII. Sobre como a aparição de Cristo será terrível no Dia do Juízo Final e a hediondez do pecado mortal

O leitor pode, por acaso, estar inclinado a perguntar a razão pela qual Cristo, o mesmo Cristo que viveu entre nós na Terra com toda a gentileza e mansidão, deveria ter uma aparência tão terrível quando vier para ser nosso Juiz? Há muitas razões pelas quais Cristo, nessa qualidade, julgará a humanidade com tanta severidade. A principal delas é porque Ele foi gravemente ofendido pelos pecados dos homens.

Os teólogos afirmam que todo pecado mortal é, em si mesmo, um mal infinito e uma afronta infinita à majestade divina. É uma ofensa de tal magnitude que nem a língua dos anjos nem a dos homens são capazes de descrevê-la. Entende-se, portanto, que, como em todo pecado mortal há uma malícia tão profunda, ele deve ferir profundamente o Coração Divino de Jesus e provocar nele uma justa ira contra o indivíduo que cometeu tal pecado. E para que fique mais evidente quão justa é a ira de Deus, quando despertada pelo pecado mortal, convém explicar mais claramente quão grande é o insulto oferecido a Deus pelo pecado voluntário. 

Imagine as três Pessoas Divinas da Santíssima Trindade de um lado, com seus tesouros infinitos de graça e glória e, do outro lado, o espírito do mal com todos os castigos e tormentos do Inferno; e um homem parado no meio, entre os dois, debatendo consigo mesmo se deve honrar a Deus fazendo a sua vontade ou se deve agir em violação à sua vontade, causando assim a alegria do demônio. Se o homem comete o pecado, ele age contra Deus, e Deus considera sua ação exatamente como se ele tivesse proferido estas palavras blasfemas, ou outras da mesma natureza:

'Eu realmente acredito, ó Deus, que fui criado pelo vosso poder todo-poderoso, redimido pela vossa misericórdia, feito filho predileto pela vossa generosidade, sei que Vós me prometestes a vida eterna, toda a doce bem-aventurança do Céu. Também estou bem ciente de que este Satanás amaldiçoado, vosso grande inimigo e meu, está preparado para me privar de tudo o que é bom e me lançar na perdição eterna. E, no entanto, porque Satanás me tenta agora, porque me sugere um pensamento de impureza, um desejo de vingança, um movimento de inveja, prefiro ceder a esse impulso e, assim, tornar-me merecedor de castigo eterno, do que resistir e repelir a sugestão maligna e, assim, merecer o Céu no futuro e as graças espirituais agora. Portanto, deliberadamente e por minha própria vontade, afasto-me de Vós, ó Deus; sigo por escolha própria este demônio odioso, a quem obedeço em vez de Vós. Embora sejais meu Deus e meu Senhor, embora tenhais nos proibido de transgredir a vossa lei, embora o pecado seja uma ofensa infinita contra Vós, não me importo, cometeria este pecado de qualquer maneira, não desistiria dele mesmo sendo uma grande afronta a Vós. Mais ainda, se eu pudesse fazer tudo o que a malícia do meu coração me permite, eu roubaria de Vós a vossa divindade, eu vos destituiria do vosso trono e, em vosso lugar, eu colocaria o pecado e o passaria a adorar como meu deus. Eu amo o pecado, desejo deleitar-me nele e encontrar nele a minha única felicidade'.

Blasfêmias como as expressas nessas palavras são terríveis e não podem ser lidas sem um arrepio na alma. No entanto, todo homem que, deliberadamente e desafiando a lei de Deus, comete um pecado mortal é culpado de blasfemar contra Deus da mesma maneira. Não é de se admirar, então, que Deus se sinta tão profundamente ofendido pelo pecado mortal. Mas ainda não mostramos toda a extensão da malícia do pecado, que vai ainda mais longe; ele é duplamente ofensivo a Deus porque o pecador não apenas manifesta desprezo por Deus Pai, mas também despreza o seu amado Filho, a Segunda Pessoa da Trindade Divina. 

Com cada pecado deliberado, o pecador parece dizer: 'É verdade que Vós tornastes homem por mim, que me procurastes por trinta e três anos, como uma ovelha perdida; que suportastes fome e sede, calor e frio, e todo tipo de dificuldades por minha causa, enquanto Satanás não fez nada disso por mim; pelo contrário, ele me persegue dia e noite e se esforça para me enganar. Apesar des er assim, prefiro pertencer a ele do que a Vós. Prefiro agradá-lo e vos entristecer. É verdade, ó meu Redentor, que por minha causa fostes açoitado, coroado de espinhos, pregado na cruz e morto em meio a torturas amargas; mas, apesar de tudo isso, não vos dou graças. Mais ainda, embora saiba que com os meus pecados eu vos açoito, vos crucifico, vos mato novamente, não abandonarei os meus pecados; pisarei em vosso precioso sangue e adorarei Satanás em vez de Vós; farei dele meu amigo mais querido e farei o possível para lhe satisfazer'.

Mais uma vez pergunto: essas declarações não são blasfemas ao extremo? Não mostram a mais negra ingratidão da parte do pecador para com o seu Salvador? É difícil imaginar que um cristão entristeça seu Redentor de maneira tão vergonhosa. E, no entanto, há muitos milhares que, se não em palavras, pelo menos em ações, dirigem tais palavras ao seu Salvador.

Em terceiro lugar, o pecador audacioso ultrapassa e desafia o Espírito Santo de Deus, pois suas ações equivalem a expressões como estas: 'Vós, ó Espírito Santo, certamente santificastes a minha alma e a purificastes no sangue de Cristo, embelezando-a com a vossa graça. Sei que a vossa graça santificadora é tão preciosa que toda alma que é adornada por ela passa a se tornar filha do Pai celestial, irmã do Filho Divino, esposa do Espírito Santo, morada da Santíssima Trindade, templo da soberana Divindade, herdeira da felicidade eterna, amiga dos Anjos e Santos, mas - por que me preocuparia com essas prerrogativas sublimes, por que me importaria com essa pérola inestimável e essa joia valiosa? Fora com elas; jogarei essa pérola, essa joia valiosa, aos cães e aos porcos, ou seja, às minhas más paixões. Sacrificarei tudo por elas, servirei ao pecado e viverei no pecado'.

Não vês agora, ó leitor, como o pecado é odioso, como a natureza do pecador é chocante, como é infinita a ofensa contra Deus, o desprezo por Deus que é algo inseparável do pecado? Não estás convencido de que Deus tem motivos justos para sentir santa indignação contra o pecado e os escravos do pecado, e para condenar o pecador à condenação eterna? E se a ira de Deus, que é infinito em santidade e justiça, é despertada a tal ponto por um único pecado mortal, quão grande deve ser a ira e a ofensa do Justo e Santo contra os milhões e milhões de pecados vergonhosos e sem pudor cometidos diariamente não só pelos judeus e pagãos, mas também pelos cristãos! Toda essa ira, todo esse sentimento de dignidade ultrajada pelo insulto oferecido, que o pecador desperta no Coração de Deus, será guardado até o Dia do Juízo Final. O santo sacrifício da Missa e a poderosa intercessão dos santos ainda impedem o braço Divino de executar a vingança.

Mas quando a humanidade tiver enchido a medida de suas iniquidades, o dia da ira chegará. Ninguém pode imaginar quão terrível será o derramamento da ira de Deus sobre os pecadores. Nos Salmos, lemos: 'Quem avalia a força de vossa cólera, e mede a vossa ira com o temor que vos é devido?' (Sl 89,11). Ai de nós, pobres pecadores! Então, pela primeira vez, experimentaremos devidamente o que fizemos e o quanto ofendemos profundamente a Deus com nossos graves pecados. A ira de Deus é tão ilimitada que nem a Mãe de Deus, nem todos os Anjos e Santos têm poder para diminuí-la ou contê-la; ela se voltará com santo zelo e distribuirá a cada homem o que ele merece com rigorosa justiça. Ouçam o que o próprio Juiz diz sobre isso, sobre a sua ira, pela boca do profeta Ezequiel: 'Chegou o fim para ti, vou desencadear contra ti a minha cólera, vou julgar-te de acordo com o teu procedimento e fazer cair sobre ti o peso de todas as tuas práticas abomináveis. Não te tomarei em consideração, serei sem complacência, pedirei conta de teu proceder, e todos os teus horrores serão manifestos no teu meio. Então sabereis que sou eu o Senhor' (Ez 7,3-4). .

Estas são palavras verdadeiramente terríveis e a ameaça que contêm é das mais assustadoras. Ó quão implacável será o julgamento com que Deus, ofendido por tão inúmeras transgressões, convocará então toda a humanidade. Ai de mim e ai de ti, se nos encontrarmos entre a multidão incontável dos pecadores, e Deus não puder, na sua justiça, poupar-nos! O que faremos para não cairmos nas mãos do Juiz irado? Devemos abandonar o caminho da iniquidade e, agora, enquanto ainda há tempo, fazer as pazes com o Juiz a quem ofendemos. Vamos manifestar de vez em quando um sincero arrependimento pelos nossos pecados, mediante a oração abaixo ou outras orações similares de profundo pesar pelas ofensas e faltas cometidas.

ORAÇÃO

Juiz de infinita justiça dos vivos e dos mortos, reconheço que pequei contra Vós muitas vezes e gravemente. Abandonei-vos, ó meu Pai do Céu; crucifiquei-vos, ó meu Redentor; entristeci o Espírito Santo e desperdicei as vossas graças. Fiz isso pelos inúmeros pecados que cometi em pensamentos, palavras e ações e, por minhas transgressões, incorri na pena da morte eterna. Mas, como Vós não desejais a morte do pecador, mas que ele se converta e viva, deixai-me experimentar desde agora o efeito da vossa justiça, que está sempre unida à vossa misericórdia. Todas as provações que me enviardes nesta vida serão recebidas com gratidão e acolhidas com suavidade, na medida em quiserdes me castigar com a vossa severidade paternal, para que, no Dia do Juízo Final, eu possa encontrar a vossa misericórdia e alcançar um lugar entre os vossos eleitos. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)