segunda-feira, 27 de julho de 2026

OS MILAGRES EUCARÍSTICOS DE FLORENÇA

A Igreja de Santo Ambrósio, em Florença, foi contemplada com dois milagres eucarísticos: um ocorrido em 1230 e outro em 1595. O primeiro milagre eucarístico é conhecido tradicionalmente como o Milagre da Encarnação (Miracolo dell'Incarnazione) e ocorreu em 30 de dezembro de 1230, no mosteiro beneditino anexo à Igreja de Santo Ambrósio.

Neste dia, um sacerdote de idade avançada chamado Uguccione, então capelão das monjas beneditinas, celebrou a Santa Missa na festa de São Florêncio. Ao terminar a celebração, durante a purificação do cálice, deixou inadvertidamente algumas gotas do Preciosíssimo Sangue, sob as espécies consagradas do vinho, no interior do vaso sagrado. Na manhã seguinte, ao preparar-se para celebrar novamente a Missa, encontrou no cálice não mais vestígios de vinho, mas sangue coagulado, descrito como 'sangue vivo, coagulado e encarnado'. 


O acontecimento foi objeto de investigação detalhada, conduzida pelo bispo de Florença, Ardingo Foraboschi, que posteriormente reconheceu a extraordinária natureza do evento. O sangue foi cuidadosamente recolhido do cálice e colocado em uma ampola de cristal, destinada à veneração pública. Segundo a tradição, o próprio bispo devolveu a relíquia ao mosteiro numa rica custódia de marfim ornamentada com ouro. A ampola contendo o sangue é conservada até hoje na Capela do Milagre do Santíssimo Sacramento, à esquerda do altar-mor da Igreja de Santo Ambrósio, guardada dentro de um tabernáculo de mármore esculpido por Mino da Fiesole, executado entre 1481 e 1484. Nesta mesma capela, um grande afresco de Cosimo Rosselli reproduz os acontecimentos relacionados ao milagre, representado na praça localizada na frente da Igreja de Santo Ambrósio.

tabernáculo de mármore esculpido por Mino da Fiesole

afresco de Cosimo Rosselli sobre o Milagre da Encarnação

O segundo Milagre Eucarístico ocorreu na Sexta-feira Santa do ano de 1595. Uma vela que permaneceu acesa sobre o altar da capela lateral, denominada Capela do Santo Sepulcro, deu início a um incêndio de grandes proporções no interior da Igreja de Santo Ambrósio. Os fiéis conseguiram retirar o Santíssimo Sacramento e o cálice mas, infelizmente seis Hóstias consagradas caíram do cibório sobre um tapete em chamas. Mas, apesar de caírem diretamente sobre o fogo, as seis Hóstias foram posteriormente encontradas intactas e reunidas na forma de um anel. Em 1628, o arcebispo Marzio Medici examinou as Hóstias e constatou que todas permaneciam incorruptas, ordenando a sua conservação em um precioso relicário.


Assim, os dois acontecimentos são considerados complementares: o primeiro manifesta a permanência extraordinária da Hóstia consagrada, enquanto o segundo ressalta a proteção providencial do Santíssimo Sacramento em meio à destruição causada pelo fogo. Todos os anos, durante a devoção das Quarenta Horas, as relíquias dos dois milagres (1230 e 1595) são expostas juntas para adoração pública.

domingo, 26 de julho de 2026

26 DE JULHO - SÃO JOAQUIM E SANTA ANA

  

Sagrada Família com São Joaquim e Santa Ana (Nicolás Juarez, 1699)

De acordo com a Tradição Católica e documentos apócrifos antigos, os pais de Maria foram São Joaquim e Santa Ana. Ana, em hebraico Hannah, significa 'Graça' e Joaquim equivale a 'Javé prepara ou fortalece'. Ambos os nomes indicam, portanto, a  missão divina de realização das promessas messiânicas, com o nascimento da Mãe do Salvador. Segundo a mesma Tradição, os pais de Maria teriam nascido na Galileia, transferindo-se depois para Jerusalém, onde Maria nasceu e onde ambos morreram e foram enterrados.

O culto aos pais de Maria Santíssima é antiquíssimo na Igreja Oriental (como revelados nos escritos de São Gregório de Nissa e Santo Epifânio, em hinos gregos e em homilias dos Santos Padres). Os túmulos de São Joaquim e Santa Ana em Jerusalém foram honrados até o final do Século IX, numa igreja construída no local onde viveram. No Ocidente, o culto de Santa Ana é muito mais recente, com sua festa litúrgica tendo início na Idade Média, sendo formalizada no Missal Romano apenas em 1584, no tempo de Gregório XIII. A devoção a São Joaquim foi ainda mais tardia no Ocidente.

Como pais de Nossa Senhora, São Joaquim e Santa Ana são nossos avós espirituais e o calendário litúrgico instituiu a festa conjunta destes dois santos em 26 de julho, que ficou também conhecida como 'dia dos avós'. Eles são também os santos protetores da Ordem dos Carmelos Descalços (fundada no Século XVI por Santa Teresa de Ávila). No dia dos avós, o blog presenteia os nossos irmãos mais velhos com estas duas orações.

Oração a Santa Ana

Santa Ana, mãe da Santíssima Virgem, pela intercessão da Vossa Filha e do Meu Salvador, dai-me obter a graça que Vos peço, o perdão dos meus pecados, a força para cumprir fielmente os meus deveres de cristão e a perseverança eterna no amor de Jesus e de Maria. Amém.

Oração a São Joaquim

Senhor! Pela intercessão de São Joaquim, pai da Santíssima Virgem, velai pelos Vossos filhos idosos, especialmente... (nomes) que, tendo cumprido na Terra uma vida longa, possa(m) merecer de Vós a Vida Eterna no Céu. Senhor, dai-lhes o conforto de uma idade avançada, saúde do corpo e da alma, a sabedoria de envelhecer e um coração inquieto enquanto não repousar em Vós. Amém.  

EVANGELHO DO DOMINGO

                 

'Como eu amo, Senhor, a vossa lei, vossa palavra!' (Sl 118)

Primeira Leitura (1Rs 3,5.7-12) - Segunda Leitura (Rm 8,28-30) - Evangelho (Mt 13,44-52)

  26/07/2026 - DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM

O REINO DE DEUS (II)


No Evangelho deste Domingo, contemplamos ainda os ensinamentos de Jesus sobre o verdadeiro sentido do Reino de Deus, por meio de parábolas manifestadas à multidão reunida à sua volta, às margens do mar da Galileia. Nesta temática comum a todo o Capítulo 13 do Evangelho de São Mateus, Jesus já lhes havia dado a conhecer a natureza do Reino por meio das parábolas do campo semeado de trigo e de joio, da semente de mostarda e da porção de fermento. Na continuação de sua pregação, Jesus lhes fala do Reino dos Céus por meio de outras três parábolas.

'O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo' (Mt, 13,44). Eis a verdadeira riqueza deste mundo: buscar, no anonimato e no escondimento aos rumores e apelos mundanos, a vida da graça em plenitude, nas obras de uma vida simples, na alegria do autêntico exercício da fé cristã, nos pequenos atos de amor, no cotidiano de uma vida entregue e consagrada à Deus.

'O Reino dos Céus é também como um comprador que procura pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola' (Mt 13,45 - 46). Eis o mesmo tesouro, que tem valor de eternidade, expresso agora como a pérola mais preciosa. Pérola única, especialíssima, pois a Verdade de Deus é única, definitiva, indivisível. Implica, pois, ao homem, buscá-la, empreendendo todos os esforços e persistência em encontrá-la. E, quando a encontra, passa a possuir a própria Verdade de Deus, a maior riqueza deste mundo.

'O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam' (Mt 13,47 - 48). A busca da pérola preciosa é possível a todos os homens, e lhes é dado igualmente o 'mapa do tesouro': o caminho de santificação pautado numa vida consagrada à Deus. Mas, como o trigo e o joio, peixes bons e imprestáveis serão ponderados pelos 'pescadores' no dia do Juízo, na definitiva separação dos justos e dos pecadores obstinados. Uns, para o Reino de Deus, que já subsiste nos corações do justos; os outros para a condenação eterna, na fornalha de fogo eterno, onde só 'haverá choro e ranger de dentes' (Mt 13,50).

sábado, 25 de julho de 2026

AS VINHAS DE DEUS (V)

 

29. Ao cultivarmos o nosso jardim, não podemos deixar de admirar a inocência e a pureza do humilde morangueiro. Embora se arraste rente ao chão e seja continuamente pisado por serpentes, lagartos e outros répteis venenosos, não absorve o menor vestígio de veneno nem a mais leve qualidade maligna. É um verdadeiro sinal de que não possui qualquer afinidade com o veneno. Assim acontece também com as virtudes humanas. Ainda que estejam em um coração vil, terreno e dominado pelo pecado, de modo algum se contaminam com a sua malícia, porque são de natureza tão sincera e tão pura, que não podem ser corrompidas pela convivência com a iniquidade.

30. A nossa miserável natureza, ferida pelo pecado, assemelha-se às palmeiras que existem nesta região, as quais não produzem senão bagas imperfeitas, meros esboços de fruto. Produzir tâmaras plenamente desenvolvidas, doces e maduras, é privilégio reservado às terras mais quentes. Assim também os nossos pobres corações humanos produzem naturalmente certos começos de amor para com Deus; mas amá-lo acima de todas as coisas - que é a verdadeira maturidade do amor devido à Bondade Suprema - é dom que pertence somente às almas vivificadas e auxiliadas pela graça celeste, e que se encontram no estado da santa caridade.

31. O homem está neste mundo como uma árvore plantada pela mão do Criador, cultivada por sua sabedoria e regada pelo Sangue de Jesus Cristo, para que produza frutos segundo o agrado de seu Senhor, que deseja ser servido principalmente nisto: que, com pleno consentimento da nossa vontade, nos deixemos governar pela sua Providência, a qual conduz os que livremente se submetem a ela e arrasta os que lhe resistem.

32. O ramo da videira, unido à cepa, não produz fruto por si mesmo, mas porque faz parte da própria videira. Assim também nós estamos unidos a Nosso Senhor pela caridade, como os membros estão unidos à cabeça; e é por isso que os nossos frutos e as nossas boas obras, recebendo dele o seu valor, tornam-se meritórios para a vida eterna.

33. Se cortardes um pé de roseira e colocardes um grão de almíscar na abertura, as rosas que depois nascerem exalarão um intenso perfume de almíscar. Fendei, pois, o vosso coração pela santa penitência e depositai nessa abertura o amor de Deus; depois enxertai sobre ele a virtude que desejardes, e todas as vossas boas obras ficarão impregnadas do perfume da santidade, sem que tenhais de vos preocupar com isso.

34. E, assim como sementes que por si mesmas produziriam apenas melões insípidos e sem sabor passam a produzir melões deliciosos e perfumados quando são embebidas em água açucarada, assim também as nossas almas, que por si mesmas não seriam capazes de conceber um único bom pensamento para o serviço de Deus, quando são impregnadas das santas delícias do Espírito Santo, que habita em nós, produzem obras santas que conduzem à glória eterna e nos levam até ela.

35. As nossas obras, consideradas apenas como procedentes de nós mesmos, não passam de frágeis caniços; mas esses caniços tornam-se de ouro pela caridade. É com essa vara de ouro que se mede a Jerusalém celeste (Ap 21,15), a qual nos é concedida segundo essa medida. Pois tanto os homens como os anjos recebem maior ou menor grau de glória conforme a sua caridade e as suas obras; por isso, 'a medida do anjo é também a medida do homem' (Ap 21,17). E Deus 'dará a cada um segundo as suas obras' (Ap 22,12).

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 4, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

sexta-feira, 24 de julho de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXIV)

PARTE III - O INFERNO

VI. Sobre a perda da Visão Beatífica de Deus

Já falamos de muitos e dos terríveis castigos infligidos aos condenados; contudo, estes constituem apenas uma parte muito pequena do conjunto. São incontáveis em número e tão grandes e espantosos que, como diz Santo Agostinho, todos os sofrimentos deste mundo são como nada quando comparados com o fogo eterno e os tormentos do Inferno.

Assim como o Apóstolo São Paulo diz: 'Nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem jamais entrou no coração do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam', também se pode dizer: 'nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram os castigos que Deus preparou para aqueles sobre os quais recaem os seus justos juízos'. E, quando lemos os terríveis castigos com que Deus ameaça esmagar, ainda neste mundo, os transgressores da sua santa lei, não podemos estar certos de que Ele derramará toda a força da sua ira sobre aqueles pecadores audazes que desprezaram os seus avisos e, com malícia diabólica, perseveraram em sua iniquidade até o fim da vida?

Recordai-vos do que Deus disse ao povo de Israel: 'Um fogo se acendeu na minha ira e arderá até o mais profundo do Inferno; consumirá a terra com os seus frutos e queimará os fundamentos dos montes. Amontoarei males sobre os transgressores da minha lei e esgotarei contra eles as minhas flechas. Serão consumidos pela fome, e as aves os devorarão com mordedura amarguíssima; enviarei contra eles os dentes das feras, juntamente com o furor das serpentes. Por fora os devastará a espada e por dentro o terror, tanto o jovem como a virgem, a criança de peito e o homem já avançado em anos' (Dt 32,22-25).

A Sagrada Escritura contém muitas outras ameaças semelhantes e igualmente aterradoras. Não há dúvida de que, na outra vida, onde reinará a justiça e não a misericórdia, Deus castigará com mão inexorável os insolentes violadores dos seus santos mandamentos. Os castigos da eternidade serão sem número e sem medida. Os condenados estarão cercados por aflição e tristeza, por angústias e tormentos inumeráveis. São Bernardo afirma que as penas dos condenados são incontáveis; nenhuma língua mortal é capaz de enumerá-las.

Entretanto, dentre todos esses sofrimentos, aquele que causa a mais aguda angústia é a privação da visão de Deus. Jamais será concedido aos condenados contemplar a Face divina. Essa pena excederá incomparavelmente todos os demais tormentos de que falamos. É impossível ao homem mortal compreender quão grande pode ser essa aflição para os condenados.

Todavia, este é o ensinamento dos Santos Padres: todos sustentam que não há sofrimento que os réprobos lamentem tão amargamente quanto o de serem excluídos para sempre da visão de Deus. Enquanto vivemos neste mundo, pouco pensamos na visão de Deus e no que significaria sermos privados dela por toda a eternidade. Isso provém da obscuridade de nossa percepção, que nos impede de compreender a infinita beleza e bondade de Deus e a felicidade experimentada por aqueles que o contemplam face a face. Mas, depois da morte, quando estivermos livres dos entraves do corpo, nossos olhos se abrirão, e perceberemos, ao menos em certa medida, que Deus é o Bem supremo e infinito, e que a posse dele constitui a nossa mais alta felicidade.

Então, um desejo tão ardente de contemplar e possuir esse Bem supremo se apoderará de nossa alma, que ela será irresistivelmente atraída para Deus e ansiará, com todas as suas forças, contemplar a sua inefável beleza. E, se por causa de seus pecados lhe for negada essa visão beatífica, isso lhe causará a mais intensa angústia. Nenhuma dor, nenhum suplício conhecido neste mundo pode, de modo algum, ser comparado a ela.

São Boaventura dá testemunho disso quando afirma: 'A pena mais terrível dos condenados é serem excluídos para sempre da contemplação bem-aventurada e jubilosa da Santíssima Trindade'. Do mesmo modo, São João Crisóstomo diz: 'Conheço muitas pessoas que temem o Inferno apenas por causa de seus tormentos; mas eu afirmo que a perda da glória celeste é uma fonte de sofrimento mais amargo do que todos os tormentos do Inferno'. O próprio demônio foi constrangido a reconhecer essa verdade, conforme se lê nas Legendas do Bem-aventurado Jordão da Saxônia, outrora Mestre Geral da Ordem Dominicana. 

Quando Jordão perguntou a Satanás, por intermédio de um possesso, qual era o principal tormento do Inferno, este respondeu: 'Ser excluído da presença de Deus'. Jordão perguntou então: 'É Deus, pois, tão belo de contemplar?' Ao que o demônio respondeu: 'Sim, pois Ele é de uma beleza incomparável'. Jordão prosseguiu: 'Quão grande é essa beleza?' E o demônio replicou: 'Insensato! Como podes fazer-me semelhante pergunta? Não sabes que a sua beleza está acima de toda comparação?' Jordão insistiu: 'Não poderias apresentar-me alguma comparação que ao menos me desse uma pequena ideia da beleza divina?' Então Satanás respondeu: 'Imagina uma esfera de cristal mil vezes mais resplandecente que o sol, na qual se reunissem a formosura de todas as cores do arco-íris, o perfume de todas as flores, a doçura de todos os sabores mais deliciosos, o valor de todas as pedras preciosas, a bondade dos homens e o encanto de todos os Anjos. Por mais bela e preciosa que fosse essa esfera de cristal, comparada com a beleza divina, ela pareceria disforme e impura'. Então o santo religioso perguntou ainda: 'E dize-me: que darias para seres admitido à visão de Deus?' O demônio respondeu: 'Se houvesse uma coluna que se estendesse da terra ao Céu, coberta de pontas afiadas, pregos e ganchos, eu consentiria de bom grado em ser arrastado para cima e para baixo por essa coluna, desde agora até o Dia do Juízo, se ao menos me fosse permitido contemplar a Face divina por alguns breves instantes'.

Daí podemos compreender quão infinita é a beleza da Face de Deus, se até mesmo o espírito do mal se sujeitaria aos tormentos físicos que ele próprio descreveu, para gozar, ainda que por breves instantes, da contemplação daquele semblante cheio de graça e majestade. Não há, pois, dúvida de que nada causa aos demônios e aos condenados angústia tão profunda quanto serem privados da visão beatífica de Deus.

Suponhamos, portanto, que Deus enviasse um Anjo às portas do Inferno com esta mensagem aos infelizes habitantes daquele lugar de tormento: 'O Todo-Poderoso, em sua misericórdia, compadeceu-se de vós e está disposto a libertar-vos de uma das penas que sofreis. Qual delas desejais que vos seja retirada?' Que pensais que responderiam? Todos, como uma só voz, exclamariam: 'Ó bom Anjo, suplicai a Deus que, ao menos por sua infinita bondade, deixe de privar-nos da visão da sua Face!' Este seria o único favor que implorariam de Deus. Se lhes fosse possível contemplar a Face divina, ainda que permanecessem em meio às chamas do Inferno, a alegria dessa visão faria com que já não se importassem com o fogo devorador. Pois a visão de Deus é tão bela, tão bem-aventurada, tão cheia de êxtase e de delícias infinitas, que todas as alegrias e atrativos da terra não podem ser-lhe comparados nem de muito longe.

Na verdade, toda a felicidade celeste, por maior que fosse, converter-se-ia em amargura se lhe faltasse a visão de Deus; e os próprios redimidos prefeririam estar no Inferno, desde que ali pudessem gozar da visão beatífica, a permanecer no Céu privados dela. Assim como o privilégio de contemplar a Face divina constitui a felicidade principal dos bem-aventurados - aquela sem a qual nenhuma outra felicidade seria verdadeiramente felicidade - assim também constitui a principal miséria do Inferno: o fato de que as almas condenadas estejam para sempre excluídas dessa visão. Sobre isso diz São João Crisóstomo: 'Os tormentos de mil infernos nada são em comparação com a angústia de ser banido da bem-aventurança eterna e da visão de Deus'.

Para compreendermos, ao menos em parte, quão grande é essa pena de dano, devemos recordar que fomos criados por Deus para sermos felizes eternamente. Esse amor à felicidade, esse anseio por ela que cada um de nós sente no coração, jamais será destruído, nem mesmo no Inferno. Durante esta vida, os homens, impelidos por esse desejo e cegados pelas paixões, procuram a felicidade nas riquezas, nas honras e nos prazeres dos sentidos. Essas imagens ilusórias da felicidade nos enganam enquanto a alma permanece unida ao corpo. Mas, quando a alma se separa do corpo, todos esses prazeres falsos e passageiros desaparecem, e ela reconhece que somente Deus é a fonte de toda felicidade e que apenas na posse dEle se pode encontrá-la.

Já não iludida pelas falsas aparências, já não obscurecida pelas paixões, ela percebe claramente a inefável e arrebatadora beleza de Deus e suas perfeições infinitas. Contempla o seu poder infinito na criação do universo, a sua sabedoria infinita no governo de todas as coisas, o seu amor incomensurável por ela ao fazer-se homem, ao morrer por ela, ao dar-se a ela como alimento da sua alma no Santíssimo Sacramento e ao destiná-la a participar para sempre da sua própria felicidade no Céu. Esse conhecimento da grandeza, da bondade e da beleza de Deus permanecerá profundamente gravado nela por toda a eternidade. Ela compreenderá também a perfeita justiça dos castigos que Deus inflige eternamente no Inferno a todos aqueles que não guardaram os seus mandamentos.

Então a alma réproba, sedenta de felicidade e irresistivelmente atraída para Deus, único que pode torná-la feliz, esforça-se por lançar-se para Ele com todo o ímpeto de sua natureza, desejando contemplá-o, possuí-lo e unir-se a Ele. Mas sente-se repelida por uma força infinita e rejeitada por Deus por causa dos seus pecados. Ainda que nesse momento lhe fossem oferecidas todas as riquezas, todas as honras e todos os prazeres do mundo, ela os rejeitaria e até os amaldiçoaria, porque anseia unicamente por Deus e somente nele pode encontrar a felicidade.

A alma condenada, atormentada pelos mais horríveis sofrimentos, procura ao seu redor algum alívio, alguma palavra de consolação; mas nem sequer um olhar de compaixão encontra, pois está cercada de demônios cruéis e inimigos implacáveis. Não encontrando misericórdia onde está, levanta os olhos para o Céu e o contempla tão belo, tão encantador, tão admirável, tão repleto da verdadeira felicidade. Recorda-se de que foi criada e destinada a participar dessa bem-aventurança; e agora, em meio às dores mais atrozes, deseja aqueles gozos com um anseio ainda mais indizível. Faz esforços extraordinários para alcançar o Céu, mas não pode abandonar a sua morada de tormentos.

Ninguém no Céu parece notar a sua presença. Ela vê o trono que Deus, em sua bondade, lhe havia preparado, agora ocupado por outro! Já não há mais lugar para ela no Céu. Contempla ali alguns de seus parentes, companheiros e conhecidos, mas eles não lhe dão atenção. Vê todos os eleitos cheios de alegria e felicidade. Nem sequer se compadecem dela; antes, como canta o salmista: 'O justo se alegrará quando vier a vingança' (Sl 57,11).

Em vão a alma réproba invoca os Santos, a Santíssima Virgem e o próprio Salvador divino. Ela sente-se atraída para Deus por um impulso irresistível e compreende que somente Deus pode saciar a sua sede de felicidade e torná-la feliz. Anseia contemplá-lo e possuí-lo; repetidas vezes procura lançar-se para Ele, mas sente-se repelida por uma força invencível. Reconhece-se objeto da ira divina, do anátema de Deus. Tem plena consciência de que a sua situação é irremediável e de que jamais será admitida nas moradas dos bem-aventurados, nem sairá da habitação da miséria sem fim.

Então o desespero apoderar-se-á dela. Proferirá as mais terríveis imprecações contra Deus e contra os eleitos, contra o Céu, contra si mesma, contra os seus pais, seus companheiros e contra todas as criaturas. Todo o Inferno estremecerá com as suas horrendas blasfêmias, e ela se tornará, em meio aos seus acessos de furor, objeto de terror até mesmo para todos os demais condenados.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quinta-feira, 23 de julho de 2026

ORAÇÃO: OBSECRO TE, DULCISSIME DOMINE IESU CHRISTE

 

Obsecro te, dulcissime Domine Iesu Christi, ut passio tua sit virtus mea, qua muniar, protegar, atque defendar. Vulnera tua sint mihi cibus potusque, quibus pascar, inebrier atque delecter. Aspersio Sanguinis tui sit mihi ablutio omnium delictorum meorum. Mors tua sit mihi vita indeficiens, Crux tua sit mihi gloria sempiterna. In his sit mihi refectio, exsultatio, sanitas et dulcedo cordis mei: Qui vivis et regnas in saecula saeculorum. Amen.


Dulcíssimo Senhor, Jesus Cristo, que a vossa Paixão seja o poder que me fortaleça, proteja e defenda. Que as vossas Chagas sejam alimento e bebida que me nutram, me inebriem e me deleitem. Que a aspersão do vosso Sangue me purifique de todos os meus pecados. Que a vossa Morte seja a minha vida perene e a vossa cruz seja a minha glória eterna. Que isso seja a minha consolação, o meu refrigério, a minha alegria, a pureza e o deleite do meu coração, eu suplico a Vós, que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos. Amém.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

22 DE JULHO - SANTA MARIA MADALENA

  

Maria Madalena. Para se fazer distinção do nome Maria tão comum entre os habitantes de Israel (esse era o nome, por exemplo, da irmã de Moisés), os textos bíblicos nomeavam as diferentes Marias por um acréscimo singular do personagem - assim, Maria Madalena é a Maria de Magdala, povoado situado às margens do Lago da Galileia e próximo à cidade de Tiberíades. Eis as pouquíssimas referências a ela nas Sagradas Escrituras:

[Lc 8, 2-3]: 'Os Doze estavam com ele, como também algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e curadas de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes; Susana e muitas outras, que o assistiram com as suas posses'.

[Jo 19, 25]: 'Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena'.

[Mc 15,40-41; 47]: 'Achavam-se ali também umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé, que o tinham seguido e o haviam assistido, quando ele estava na Galileia; e muitas outras que haviam subido juntamente com ele a Jerusalém... Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde o depositavam'.

[Mc 16, 1; 5-6; 9-10]: 'Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ungir Jesus... Entrando no sepulcro, viram, sentado do lado direito, um jovem, vestido de roupas brancas, e assustaram-se. Ele lhes falou: Não tenhais medo. Buscais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ele ressuscitou, já não está aqui. Eis o lugar onde o depositaram... Tendo Jesus ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria de Magdala, de quem tinha expulsado sete demônios. Foi ela noticiá-lo aos que estiveram com ele, os quais estavam aflitos e chorosos'.

[Jo 20, 1-2; 18]: 'No primeiro dia que se seguia ao sábado, Maria Madalena foi ao sepulcro, de manhã cedo, quando ainda estava escuro. Viu a pedra removida do sepulcro. Correu e foi dizer a Simão Pedro e ao outro discípulo a quem Jesus amava: Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram! ... Maria Madalena correu para anunciar aos discípulos que ela tinha visto o Senhor e contou o que ele lhe tinha falado'.

Ela é a figura bíblica 'Maria de Magdala', da qual Jesus havia expulsado sete demônios. Esta acepção não implica a interpretação direta de 'uma grande pecadora'. O fato de ter-se livrado de 'sete demônios' (sete é o número da perfeição, da plenitude) implica que ela foi curada de todos os seus males tanto físicos (enfermidades) como espirituais (pecados, estes de naturezas quaisquer). É absolutamente forçada e despropositada a conjectura de que Maria Madalena pudesse ter sido uma 'prostituta' na sua condição pregressa antes do seu encontro com Jesus. Desta interpretação espúria, nasceram inúmeras outras lendas e desdobramentos fantasiosos da participação e do envolvimento desta mulher singular na vida pública de Jesus e dos seus apóstolos. 

terça-feira, 21 de julho de 2026

A SÓS COM DEUS (V)

 

São Paulo diz que o Reino dos Céus é paz, justiça e alegria no Espírito Santo; e Jesus me ensina, no Santo Evangelho, esta verdade tão cheia de luz e de consolação: 'O Reino dos Céus está dentro de vós mesmos'. Ele está dentro de mim, e é um reino de luz, de belezas e de harmonias. Não há lugar, nesse reino, para as trevas nem para a fealdade das traições, nem para os desacertos e desvios da vontade. Nesse reino de graça e de amor, só podem ser ouvidas melodias de anjos, que cantam a glória de Deus. Esse reino é constituído pela presença de Deus.

Deus está em mim e me plenifica. Deus envolve minha alma com sua graça e a transforma em seu amor. Deus faz de minha alma um Reino dos Céus, e Ele mesmo é o meu Rei; põe em mim amplitudes e belezas infinitas e me fortalece com aspirações ilimitadas à sua própria Vida eterna e infinita. Porque Deus é a minha vida.

O Senhor trouxe-me para viver a vida eterna, que consiste em ter o pensamento, a vontade, toda a atenção e todo o afeto postos em Deus e em Jesus Cristo. Parece-me ouvir, como um dulcíssimo eco, o meu santo de devoção, São João da Cruz:

Anima-te e ergue, com alegria, o coração, e entra na luz;
olha, jubiloso e confiante, para o teu Pai Celestial,
que deseja envolver-te e iluminar-te
com a luz e a beleza inatas do seu olhar.

E para que assim o possa fazer,
não queiras nada, nada, nada do que é propriamente teu,
porque é vileza e miséria, porque é pequenez e desarmonia.
E o que é vil e miserável não pode entrar no Reino dos Céus.

Não queiras nada do que pertence à terra, às trevas e à mesquinhez.
Levanta-te e esvazia-te de tudo o que é feio e mortal,
para que entre em ti a chama do amor de Deus e te transforme.
Deus então estabelecerá em ti o Reino dos Céus
e te fará experimentar o gosto da vida eterna.

[Excertos da obra 'Com Dios a Solas - Un Carmelita Descalzo', do Pe. Valentin de San Jose (1896 - 1989)]

segunda-feira, 20 de julho de 2026

FRASES DE SENDARIUM (LXXVIII)

'Em tudo, servir e amar; amar a todos, servindo e servir a todos, amando'

(Santo Inácio de Loyola)

Não se pode viver sem este Deus que morreu de braços abertos, crucificado por teu mísero amor humano; suplica ao Pai um coração manso e humilde feito manjedoura bela e santa para servir de morada permanente a este Deus que é o próprio Amor.

domingo, 19 de julho de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

                

'Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel!' (Sl 85)

Primeira Leitura (Sb 12,13.16-19) - Segunda Leitura (Rm 8,26-27) - Evangelho (Mt 13,24-43)
(
  19/07/2026 - DÉCIMO SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

O REINO DE DEUS (I)


No Evangelho deste Décimo Sexto Domingo do Tempo Comum, Jesus encontra-se ainda numa barca, às margens do mar da Galileia, falando à multidão. E vai se utilizar de três diferentes parábolas para descrever o Reino de Deus aos homens.

A primeira parábola é a do campo semeado de trigo e de joio: 'O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo' (Mt 13,24). No campo do Senhor, ou seja, o mundo, Deus planta sempre a boa semente, plena de fertilidade e capaz de produzir muitos frutos. Mas o Maligno interveio e 'enquanto todos dormiam' (Mt 13,25), contaminou o campo com a erva inútil. O mal sempre triunfa quando o bem não se manifesta ou se recolhe. No mundo dos homens, ambas as plantas germinam igualmente e convivem igualmente, os Filhos da Luz (o trigo) e os herdeiros do Mal (o joio). E não serão separados nas vinhas do Senhor, mas apenas na colheita final: 'Deixai crescer um e outro até a colheita! E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!' (Mt 13,30). Pois o bem é a prática da virtude que há de superar o mal e o mal pode ser sempre reparado antes da colheita.

A segunda parábola compara o Reino dos Céus a uma minúscula semente de mostarda: 'O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo' (Mt 13,31). De fertilidade ímpar, a pequena semente produz um vigoroso arbusto, tão alto que as aves podem fazer ninhos em seus ramos. O Reino de Deus se desenvolve tal como a pequena semente: no escondimento, quase imperceptível na sua evolução, mas vigoroso e extraordinário na grandeza e dimensão dos seus frutos! O caminho da santificação é essencialmente simples e tranquilo, mas impelido por uma torrente de bênçãos e graças.

A terceira parábola compara o Reino dos Céus a uma porção de fermento: 'O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado' (Mt 13,33). A mistura do bem e do mal no mundo é resultado do campo semeado pelas boas e más sementes; a ação do bem é a de fomentar os ensinamentos evangélicos, atuando como fermento de transformação e transfiguração das almas semeadas nas vinhas do Senhor.

sábado, 18 de julho de 2026

AS VINHAS DE DEUS (IV)

 

22. Se formos melindrosos quanto a cargos e títulos, além de expormos nossas qualificações a exames e contradições, nós as tornamos vis e desprezíveis. Pois a honra, que é nobre quando concedida livremente, torna-se detestável quando exigida, buscada e reivindicada. As flores, que são lindas enquanto deixadas no solo em que foram plantadas, murcham assim que são colhidas.

23. Há muitas causas diferentes que servem para nos fazer julgar os outros precipitadamente, e devemos tentar descobri-las e corrigi-las o mais rápido possível. Algumas pessoas são ásperas, amargas e rudes por natureza, e tornam tudo o que encontram igualmente áspero e amargo, 'mudando' - diz o profeta - 'o juízo em absinto, e nunca julgando o seu próximo senão com rigor e aspereza'. Seria muito bom para essas pessoas caírem nas mãos de um bom médico espiritual. Pois, como essa amargura de coração lhes é natural, é difícil superá-la; e, embora não seja um pecado, mas apenas uma imperfeição, ainda assim é perigosa, porque faz o julgamento temerário e a calúnia reinarem na alma.

24. Todos os cristãos, certamente, mas especialmente todos os religiosos, ao considerarem e lerem as vidas dos santos, deveriam tentar moldar-se conforme o seu exemplo, assim como as abelhas apenas pousam nas flores para colher o mel com o qual se alimentam. Ora, há muitas almas que fazem justamente o contrário disso e se assemelham às vespas, que também pousam na flor, mas para extrair não o mel, mas o veneno; e, se porventura sugam o mel, é apenas para transformá-lo em fel; olhando para as ações de seus próximos não para colher o mel da santa edificação pela consideração de suas virtudes, mas para extrair veneno delas ao repararem nas falhas e imperfeições daqueles com quem convivem ... E, ainda, há outras pessoas maliciosas que não se contentam em reparar nas falhas alheias e copiá-las, mas dão más interpretações a tudo o que veem e incitam os outros a fazerem o mesmo, de modo que são exatamente como as vespas, que por seu zumbido atraem outras moscas para a flor onde descobriram o veneno. 

25. Às vezes, julgamos a afeição mais por belas frases do que pelos frutos de verdadeiros sentimentos interiores, os quais só aparecem em ocasiões raras e notáveis, e que nos são muito mais úteis.

26. A nogueira é muito prejudicial às vinhas e aos campos em que é plantada porque, sendo muito grande, atrai para si toda a seiva da terra, que deixa de ser suficiente para nutrir as outras plantas. Suas folhas são tão densas e espalhadas que fazem uma sombra agradável e, por fim, ela atrai os transeuntes que, ao derrubarem seus frutos, estragam e pisoteiam tudo ao redor. Esses amores tolos causam o mesmo dano à alma, pois a ocupam e absorvem todos os seus pensamentos e sentimentos com tanta força que ela não fica apta para nenhuma boa obra. As folhas, isto é, as conversas, os divertimentos e os galanteios, são tão frequentes que desperdiçam todo o tempo livre de alguém, e então causam tantas tentações, distrações, suspeitas e outras consequências miseráveis que o coração inteiro fica esmagado e arruinado. Em suma, eles banem não apenas o amor celestial, mas o temor de Deus, enervam a mente e enfraquecem a reputação. São, em uma palavra, o passatempo dos mundanos, mas a praga dos corações.

27. O grande São Basílio nos diz que a rosa entre os espinhos faz esta admoestação ao homem: 'As coisas mais agradáveis deste mundo, ó mortais, estão sempre misturadas com a dor; nada aqui é puro: o arrependimento está sempre lado a lado com a alegria, a família e os fardos com a criação dos filhos, a ignomínia com a glória, as humilhações com as honras, o desgosto com o prazer e a doença com a saúde. A rosa é uma flor bela' - continua - 'mas ela sempre me enche de tristeza, ao lembrar-me dos meus pecados, pelos quais a terra foi condenada a produzir espinhos'.

28. Mesmo a rosa não é tão perfeita que não tenha as suas imperfeições, pois embora pela manhã seja bela e brilhante, derramando um perfume delicioso ao seu redor, à noite está murcha e desbotada; de modo que a Escritura faz uso dela para simbolizar o prazer e os deleites do mundo, e coisas que, embora pareçam belas aos nossos olhos, são passageiras e de curta duração.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 4, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

sexta-feira, 17 de julho de 2026

SOBRE O CONSELHO ESPIRITUAL

1. Para vencer as inclinações do orgulho e da soberba, a alma necessita buscar o conselho seguro de um diretor espiritual. Quem confia apenas nas próprias luzes facilmente cai em ilusão e erro.

2. O dom do conselho é uma graça especialíssima com que o Espírito Santo aperfeiçoa a virtude da prudência. Por meio dele, a alma recebe uma facilidade sobrenatural para julgar, prontamente e de modo reto, o que deve fazer em circunstâncias difíceis, escolhendo o que mais convém para a glória de Deus e a própria salvação.

3. Não estamos abandonados às nossas próprias opiniões confusas. Na Igreja, encontramos o conselho seguro e a guia infalível estabelecida por Cristo para que caminhemos na verdade.

4. Diante de uma decisão moral importante, o cristão deve recorrer primeiro à oração, suplicando o conselho divino antes de agir.

5. Aquele que por um mau conselho induz o próximo a cometer uma injustiça ou a faltar com a verdade, torna-se corresponsável pelo pecado alheio e tem a obrigação de tentar reparar o erro.

6. O sacerdote no confessionário não age apenas como um juiz que absolve, mas como um médico que cura e um pai que oferece o conselho oportuno para a emenda de vida.

7. O bom católico acolhe com humildade o conselho de seus pastores, reconhecendo neles os canais da providência e da instrução cristã.

(Excertos da obra 'A Fé Explicada', de Leo Trese)

quinta-feira, 16 de julho de 2026

GLÓRIAS DE MARIA: MÃE E FORMOSURA DO CARMELO

    

No dia 16 de julho de 1251, São Simão Stock suplicava a intercessão de Nossa Senhora para resolver problemas da Ordem Carmelita quando teve uma visão da Virgem que, trazendo o Escapulário nas mãos, lhe disse as seguintes palavras:

"Filho diletíssimo, recebe o Escapulário da tua Ordem, sinal especial de minha amizade fraterna, privilégio para ti e todos os carmelitas. Aqueles que morrerem com este Escapulário não padecerão o fogo do Inferno. É sinal de salvação, amparo e proteção nos perigos, e aliança de paz para sempre". 


Imposição e Uso do Escapulário

1 - Qualquer padre pode fazer a bênção e imposição do Escapulário à pessoa.

2 - A bênção e a imposição valem para toda a vida e, portanto, basta receber o Escapulário uma única vez.

3 - Quando o Escapulário se desgastar, basta substituí-lo por um novo.

4 - Mesmo quando alguém tiver a infelicidade de deixar de usá-lo durante algum tempo, pode simplesmente retomar o seu uso, não sendo necessária outra bênção.

5 - Uma vez recebido, o Escapulário deve ser usado em todas as ocasiões (inclusive ao dormir), preferencialmente no pescoço.

6 - Em casos de necessidade de retirada do Escapulário, como no caso de doenças e/ou internações em hospitais, a promessa de Nossa Senhora se mantém, como se a pessoa o estivesse usando.

7 - Mesmo um leigo pode fazer a imposição do Escapulário a uma pessoa em risco de morte, bastando recitar uma oração a Nossa Senhora e colocar na pessoa um escapulário já bento por algum sacerdote.

8 - O Escapulário pode ser substituído por uma medalha que tenha, de um lado, o Sagrado Coração de Jesus e, do outro, uma imagem de Nossa Senhora (por autorização do Papa São Pio X).
Oração a Nossa Senhora do Carmo
     Ó Virgem do Carmo e mãe amorosa de todos os fiéis, mas especialmente dos que vestem vosso sagrado Escapulário, em cujo número tenho a dita de ser incluído, intercedei por mim ante o trono do Altíssimo. 

          Obtende-me que, depois de uma vida verdadeiramente cristã, expire revestido deste santo hábito e, livrando-me do fogo do inferno, conforme prometestes, mereça sair quanto antes, por vossa intercessão poderosa, das chamas do Purgatório.

        Ó Virgem dulcíssima, dissestes que o Escapulário é a defesa nos perigos, sinal do vosso entranhado amor e laço de aliança sempiterna entre Vós e os vossos filhos. Fazei, pois, Mãe amorosíssima, que ele me una perpetuamente a Vós e livre para sempre minha alma do pecado. 

       Em prova do meu reconhecimento e fidelidade, ofereço-me todo a Vós, consagrando-Vos neste dia os meus olhos, meus ouvidos, minha boca, meu coração e todo o meu ser. E porque Vos pertenço inteiramente, guardai-me e defendei-me como filho e servidor vosso. Amém.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (133/136)

 

133. A METADE DE UM PÃO PARA 50 RELIGIOSAS

Santa Clara, abadessa do convento de São Damião, porfiava com São Francisco na observância da pobreza, de tal modo que, as vezes, não havia nada para a refeição. De uma feita, à hora do almoço, Irmã Cecília, a ecônoma, correu triste a mostrar a abadessa o único pão que havia em casa. Um pão para 50 religiosas!

➖ Minha filha - disse-lhe Santa Clara - divida o pão em duas partes: uma metade mande aos nossos bons Irmãos esmoleiros, os quais com certeza estão necessitados como nós; a outra metade, você a divida em cinquenta fatias, pois tantas são as Irmãs.
➖ Mas, Madre - replicou a ecônoma ➖ para dar de comer a 50 religiosas com a metade de um pão, seria mister que Deus renovasse para nós as maravilhas operadas outrora em favor da multidão faminta...
➖ E por que duvidar, minha filha? Vá - disse a santa com um sorriso angélico - e com espirito de fé faça tudo como lhe ordenei.

Depois, reunidas no refeitório todas as Irmãs, pôs-se a rezar junto com elas; e eis que, durante a oração, as fatias de pão cresciam maravilhosamente nas mãos de Irma Cecília que as distribuía. Todas as Irmãs ficaram abundantemente servidas e não cessavam de dar graças à santa abadessa e mais ainda ao bom Deus, que renovara diante dos seus olhos o prodígio da multiplicação dos pães.

134. SENTAR-SE AO LADO DE UM PADRE

Não faz muito tempo deu-se em Roma o seguinte caso. Um padre subiu a um bonde e foi sentar-se ao lado de certo individuo, que seria tudo menos um cavalheiro. Por que? Porque, levantando-se de mau humor, foi sentar-se ao lado de uma senhora, dizendo em voz alta - para ser ouvido de todos - que não queria viajar ao lado de um corvo.

A senhora mais que depressa levantou-se e foi assentar-se ao lado do sacerdote, dizendo: 'E eu não quero ficar perto de um asno!' Gargalhadas sonoras obrigaram o mal-educado a calar-se envergonhado e a descer na primeira parada.

135. NO TRIBUNAL DE DEUS

São Jerônimo, que foi sempre estudiosíssimo, quando jovem apaixonou-se demais pelos clássicos latinos, e lia com avidez as obras de Plauto, de Terêncio e especialmente de Cícero. Ele mesmo conta que, uma vez, estando gravemente enfermo e à beira da morte, foi arrebatado em espírito ao tribunal do Juiz Jesus Cristo.

Eu estava - dizia o santo - com o rosto por terra e, ferido pelo fulgor do rosto de Deus e não ousava erguer os olhos. O Juiz interrogou-me: 'Quem és tu?' E eu, com voz trêmula, respondi: 'Sou Jerônimo, sou cristão'. 'Cristão? Mentes; não és cristão, mas ciceroniano - Mentiris; Ciceronianus es, non Christianus'.

Em seguida uma mão invisível desferiu-me uma tempestade de açoites. Eu gritava: 'Misericórdia! Misericórdia!', fazendo mil promessas de não ler mais os clássicos profanos e de entregar-me ao estudo assíduo da Sagrada Escritura. Ó quão rigoroso não será o Juízo divino!

136. O MEMORARE DO 'TERROR'

Na terrível época que se chamou na França como 'o Terror', um certo dia o vigário de Firanges (diocese de Puy) estava batizando ocultamente uma criança. Naquela infeliz época, isso era um crime passível de morte. Repentinamente, 14 hussardos e 5 gendarmes, guiados por um fogoso revolucionário, cercaram a aldeia  de Boisseyres e a casa onde estava o padre. Fugir era impossível. E onde esconder-se?

'Ó Maria, exclamou o padre, vós me salvareis, e eu recitarei o memorare (Lembrai-vos) todos os dias de minha vida, e o farei cantar todos os domingos na minha paróquia'. Assim dizendo, refugiou-se atrás de um armário. O primeiro soldado entrara no aposento justamente no momento em que ele cobria com um velho chapéu de palha as extremidades dos pés que ficaram por baixo do armário. Os soldados procuraram, revistaram, quebraram e estragaram tudo, mas não encontraram o padre. Um dos soldados chegou a enfiar a sua espada por três vezes atrás do armário; a espada passou sempre ao longo do corpo do pároco sem fazer-lhe nem a mínima ferida. Os carrascos partiram desapontados e o sacerdote se salvou.

O protegido de Maria foi fiel em cumprir o seu voto e os seus sucessores continuaram esta prática que consagrou aquela comovente recordação: depois do Magnificat, na igreja paroquial de Piranges, ecoava sempre o canto do Memorare.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

terça-feira, 14 de julho de 2026

A SÓS COM DEUS (IV)

 

O santo ama a solidão e ama o retiro e o silêncio, porque ama a luz, porque recebe soberanas notícias da infinita magnificência de Deus; como vive vivendo o amor de Deus, todas as coisas lhe falam de Deus e o próprio Deus fala continuamente ao seu coração palavras do Céu.

Quero nestes dias de recolhimento especial olhar para essas nobilíssimas verdades e pedir humildemente ao Senhor que Ele mesmo me ensine tanta formosura. O amoroso conhecimento e abraço desta formosura faz, ainda na terra, a felicidade da alma santa que goza de viver na companhia de Deus. O trato não necessário com as criaturas impede esta amorosa e gozosa comunicação da alma com Deus e a afasta da vida e da luz divinas.

Nestes dias quero fechar os olhos e os ouvidos do meu corpo, para estar atento e abraçado somente com Deus. Recolhe-te, alma minha, dentro de ti mesma e submerge-te na luz, na verdade, na beleza infinita e no amor sem limites de Deus. Esconde-te em teu Deus, com visão de fé, e vive a vida eterna da graça e do amor.

Moisés, o escolhido de Deus, subiu ao alto do Monte Sinai, ao silêncio não perturbado por ninguém, à claridade e luz pura não contaminada; subiu, deixando abaixo o ruído e as inquietações das gentes com todos os seus afãs, preocupações e pequenezas; subiu para isolar-se das necessárias perturbações de seus afazeres e obrigações e ficar a sós com Deus. Não subia para morrer; subia para receber a instrução e o ensinamento do próprio Deus; para tratar em silêncio e isolamento com Deus e escutar diretamente as palavras de verdade que Ele colocava no íntimo de sua alma. 

Em um momento difícil da perseguição que padeceu por parte dos grandes da terra, Elias sentiu a vida pesada e intolerável; sentiu um tédio avassalador e o peso de sua miséria natural. Deus mandava-o subir à solidão e ao silêncio, e na luz de Deus. Elias não fala, mas escuta, olha, atende a Deus no silêncio e no esquecimento das criaturas, e sente a presença e o olhar de Deus. Nesse olhar de amor, comunica-se-lhe e dá-se-lhe a sabedoria do divino conhecimento. Junto com este conhecimento, recebeu em sua alma a fortaleza do espírito e a vida de Deus, que é vida eterna de luz, de verdade e de todo bem.

Como a Moisés e como a Elias, chamastes-me e trouxestes-me, Senhor, à Religião, e agora a esta solidão e recolhimento; não para morrer, nem para tristezas, nem para ruídos ou distrações com as criaturas, não para descansar, mas para a tua casa de silêncio e santidade, para viver em ti mesmo, para comunicar-te e dar-me a tua vida, e alegrias e luzes do espírito; vim para viver na tua própria vida.

Que eu vos conheça e vos ame, Deus meu. Quereis dar-me uma vida sobrenatural em plenitude. Que eu prepare a minha alma com virtudes e com o contínuo trato convosco na oração e no silêncio, para que possa crescer e desenvolver-se continuamente mais esta vossa vida em mim. Dá-me a vossa própria vida. Como poderei corresponder a um tal bem?

[Excertos da obra 'Com Dios a Solas - Un Carmelita Descalzo', do Pe. Valentin de San Jose (1896 - 1989)]

segunda-feira, 13 de julho de 2026

FRASES DE SENDARIUM (LXXVII)

 

'Cada novo dia é uma moeda a mais que Deus nos dá para comprarmos a sua glória'

(Santa Rosa de Lima)

Eu consagro, neste dia, a minha mente e meus pensamentos em atos de louvor e glória ao meu Senhor e meu Deus. Que, durante várias vezes ao longo do dia de hoje, eu tenha o firme propósito de concentrar completamente os meus pensamentos em Vossa Santa Presença e ligar minha consciência de Filho de Deus à corrente de louvores e graças que se proclamam sem cessar, e por todo o sempre, à Vossa Glória em toda a Terra e nos Céus.