sexta-feira, 12 de junho de 2026

A CIÊNCIA DE DEUS (XIII)

Durante séculos, estudiosos e céticos duvidaram da precisão histórica dos detalhes bíblicos, incluindo a existência de pessoas, lugares e títulos específicos, mas as descobertas arqueológicas falam por si (como estes 5 exemplos abaixo).






(texto original em https://www.saintbeluga.org/)

quinta-feira, 11 de junho de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXI)

            

PARTE III - O INFERNO

III. Sobre os odores repugnantes do Inferno

Para que nada falte às aflições do Inferno, com as quais as almas perdidas são atormentadas, Deus, em sua ira, decretou que essa prisão horrível fosse permeada por um fedor abominável, como castigo para aqueles que, quando na Terra, se deleitavam excessivamente com o uso de perfumes requintados.

A profecia de Isaías se cumprirá assim: 'Em vez de um aroma agradável, haverá um fedor' (Is 3,24). A matéria animal em decomposição emite um odor tão horrível que ninguém gosta de se aproximar dela. Mas se imaginarmos não uma única carcaça em decomposição, mas centenas de milhares amontoadas, o ar em um raio de quilômetros ficaria tão contaminado que causaria a morte de todos nas proximidades.

Mesmo esse fedor, porém, quando comparado ao fedor do Inferno, parece nada, ou melhor, um odor agradável. O húms que exala do Inferno provém principalmente do próprio lugar que é, por natureza, uma região das mais horríveis e imundas. Nenhuma lufada de ar puro jamais pode penetrar nas paredes hermeticamente fechadas daquela prisão. Além disso, todo o Inferno é um lago de enxofre e piche em chamas, e todos sabem quão repugnantes são os vapores que eles exalam. 

'Os incrédulos, os abomináveis, os assassinos, os fornicadores, os feiticeiros, os idólatras e todos os mentirosos terão sua parte na lagoa que arde com fogo e enxofre, que é a segunda morte' (Ap 21,8). O profeta da Nova Aliança fala aqui de um lago cheio de água estagnada, imunda e fétida, para a qual não há saída. Ele acrescenta que esse lago está cheio de enxofre ardente, do qual se eleva uma fumaça densa, como diz em outro lugar: 'A fumaça dos seus tormentos subirá para todo o sempre'.

Os próprios corpos dos réprobos são tão imundos e repugnantes que exalam um odor extremamente ofensivo, pior do que qualquer fedor neste mundo. Segundo São Boaventura, o corpo de um único réprobo contaminaria tanto o ar na terra a ponto de causar a morte de todos os seres vivos que se aproximassem dele. Se um único corpo exala um fedor tão horrível, que exalação será a que se eleva de muitos milhões desses seres miseráveis?

Conta-se que o tirano Maxêncio costumava, como castigo, mandar amarrar um homem vivo a um cadáver, rosto a rosto e membro a membro, até que a infeliz vítima desmaiasse, ou mesmo morresse pelo contato com o corpo morto e em decomposição. Essa é, de fato, uma tortura na qual ninguém consegue pensar sem estremecer. Quão pior será no Inferno, onde os corpos jazem próximos uns dos outros, sem qualquer esperança de serem separados. Por mais repugnante que seja esse fedor, ele se intensifica consideravelmente com a presença dos demônios que, naturalmente, são muito mais repulsivos ao olfato do que os corpos dos condenados.

Lemos na vida de São Martinho que o maligno lhe apareceu em certa ocasião, e o fedor que encheu a sala era tão insuportável que o santo disse para si mesmo: 'Se um único demônio tem um odor tão repugnante, como será o fedor no Inferno, onde há milhares de demônios todos juntos?' Quanto sofrimento esse fedor abominável deve causar aos condenados! Como deve agravar sua angústia e dor! 

Pois deve ser pestilento além de qualquer descrição, surgindo como surge de tantas fontes diferentes: o próprio Inferno, os corpos dos condenados, os demônios, os vermes e répteis, o fogo de piche e enxofre, todos e cada um deles mais fedorentos às narinas dos condenados. Julgai, pelo que foi dito, quão insuportáveis devem ser os odores combinados de todas essas coisas. Ai dos infelizes seres condenados a respirar tal atmosfera! Ai dos pobres pecadores que têm de habitar nela por eras sem fim! Eles devem sucumbir a ela, devem estar constantemente à beira da morte. Ó meu Deus, eu vos imploro pela vossa infinita clemência, poupai-me de um destino tão terrível!

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 10 de junho de 2026

ORAÇÃO: TE LUCIS ANTE TERMINUM

Esta oração é cantada liturgicamente como o hino do ofício nas Completas do Rito Romano. Originalmente, e continuando a ser, ela era cantada com melodias de canto gregoriano do Liber Usualis (Livro Usual). Te Lucis Ante Terminum é uma oração de petição por proteção durante a noite e já foi considerado como um hino ambrosiano do século VII, mas atualmente é assumido como sendo de autoria desconhecida.

Te lucis ante terminum,
Rerum Creator, pooscimus,
Ut solita clementia
Sis præsul ad custodiam.

Procul recedant somnia
Et noctium phantasmata;
Hostemque nostrum comprime,
Ne polluantur corpora.

Præsta, Pater piissime,
Patrique compar Unice,
Cum Spiritu Paraclito,
Regnans per omne sæculum. Amen.


A Vós, antes do fim do dia,
Criador do mundo, rogamos:
Que por Vossa clemência habitual
Sejais o nosso guarda e protetor.

Afugentai os sonhos vãos,
e os fantasmas da noite;
Sustai o nosso inimigo,
para que o corpo não se profane.

Que assim seja, Pai clementíssimo,
pelo vosso Filho Unigênito
que, com o Espírito Paráclito,
reinais por todos os séculos. Amém.

terça-feira, 9 de junho de 2026

'TUDO PASSA!'

Quanta verdade é que a figura deste mundo sempre está passando, e nós também! Dos sábios e justos, diz Isaías, que vêem a terra de longe. Ora vem cá, alma minha, faze por ser sábia, toma as asas da contemplação, e suspende-se nelas, e olha de longe para esta bola da terra, e verás como a sua figura sempre está passando.

Que é o que vês? Mares, rios, árvores, montes, vales, campinas, desertos, povoados... e tudo passando. Os mares em contínuas crescentes e minguantes; os rios sempre correndo; as árvores sempre remudando-se, ora secas, ora floridas, ora murchas; os montes já foram vales, e os vales já foram montes, ou campinas; os desertos já foram povoados, e os povoados de agora, já foram desertos.

Mas olha em especial para os povoado, porque o mundo são os homens. Tudo está fervendo em movimentos que acabam e começam: uns a sair dos seios das mães, outros a entrar nos ventres das sepulturas; aqueles cantam, dali a pouco choram; estes outros choram, dali a pouco cantam; aqui se está enfeitando um vivo, parede e meia estão amortalhando um defunto; aqui contratam, acolá distratam; aqui conversam, acolá brigam; aqui estão à mesa rindo e fartando-se, acolá estão no leito, gemendo o que riram, e sangrando-se do que comeram...

Lá vai um no seu coche com os pés sobre tela e veludo; atrás das rodas vai um pobre nu e descalço. E que turba-multa é aquela que vai cobrindo os campos de armas e carruagens? É um exército, que vai a uma de duas coisas: ou a morrer, ou a matar. E sobre quê? Sobre que dois palmos de terra são de cá, e não são de lá...

E que árvores são aquelas que vão voando pelas ondas com asas de pano? São navios, que vão buscar muito longe coisas que piquem a língua para comer mais, coisas que afaguem a pele, coisas que alegrem os olhos; isto é: espécies, sedas, ouro.

Olhai o tráfego! Tudo ferve, tudo se muda por instantes. Se divertirdes os olhos, dali a nada tudo achareis virado. O rico já é pobre, o plebeu já é fidalgo, o moço já é velho, o são já é enfermo, e o homem já é cinzas. Já são outras cidades, outras ruas, outra linguagem, outros trajes, outras leis, outros homens... Lembra-te, tudo passa!

Pe. Manuel Bernardes (Sermões)

segunda-feira, 8 de junho de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLV)

Os tapetes de Corpus Christi revelam uma tradição muito antiga, que surgiu na região dos Açores em Portugal no século XV e foi introduzida no Brasil no período colonial. Em Minas Gerais, estado que durante o Ciclo do Ouro recebeu milhares de portugueses, a tradição foi amplamente difundida e se enraizou na sociedade cristã de todas as épocas, fazendo parte da tradição religiosa mineira. Em Ouro Preto/MG, essa tradição resulta em um verdadeiro espetáculo de fé, arte e cultura, numa mistura grandiosa de beleza, devoção e encantamento.





 


domingo, 7 de junho de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

           

'A todo homem que procede retamente, eu mostrarei a salvação que vem de Deus' (Sl 49)

Primeira Leitura (Os 6,3-6) - Segunda Leitura (Rm 4,18-25) - Evangelho (Mt 9,9-13)

  07/06/2026 - DÉCIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM

'MISERICÓRDIA E NÃO SACRIFÍCIO!'

'Naquele tempo... Jesus viu um homem chamado Mateus'... (Mt 9,9). Mateus, um homem comum, como eu e você. Jesus viu em Mateus, esse homem comum e pecador, o que vê em todos nós: homens comuns e pecadores que, no cotidiano de suas vidas, dedicam-se a tantas e muitas atividades e perdem tempo com tantas coisas, que se descuidam, que se esquecem, que se afastam da única coisa que realmente importa: a salvação eterna da alma!

Este pobre homem comum chamado Mateus - um coletor de impostos, praticante de uma das atividades mais desprezadas pelo povo judeu à época - vai experimentar, em toda a sua magnitude, as maravilhas da misericórdia de Deus: 'segue-me!' (Mt 9,9). Seguir a Jesus significava abandonar todos os bens para aquele que vivia de se apoderar dos bens alheios. E, sem titubear, o Mateus bendito dos Evangelhos largou tudo e seguiu Jesus. Esse Mateus tem nome - como poderia ter sido meu nome ou o seu - porque, ao se desvestir do mundo, teve como herança eterna o seu nome escrito no Livro da Vida.

E tal mudança de vida impõe a necessidade de uma grande celebração e a experiência de Mateus é então compartilhada com muitos outros irmãos de profissão e são muitos deles que agora estão em festa circundando Jesus à mesa. O apostolado que rende frutos de imediato, o serviço a Deus que começa no minuto seguinte ao chamamento da graça. E eis que, diante o mistério da graça, se manifesta o desvario da malevolência dos fariseus: 'Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?' (Mt 9,11). E Jesus vai lhes dar esta resposta: 'Quero misericórdia e não sacrifício... eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores' (Mt 9,12). Ou seja, para nos chamar a todos - homens comuns e pecadores de todos os tempos - todos nós que precisamos ser curados das feridas do pecado.

Mateus, de agora em diante, será São Mateus, o primeiro Evangelista. Movido pela fé e pela docilidade aos ditames da graça - pela mesma fé creditada como justiça que tornaram Abraão o pai de muitos povos conforme a promessa divina - o coletor de impostos vai abandonar tudo para seguir Jesus. Seguir Jesus implica dedicação plena, tomada de decisão resoluta, integridade de propósito e... obras! São estas coisas que permeiam o significado da proposição imperativa do Senhor aos homens de todos os tempos: 'Quero misericórdia e não sacrifício!' (Mt 9,12). Seguir Jesus, sim, mas não apenas com os lábios ou por meio do indiferentismo de uma crença qualquer, mas com a fé creditada como justiça e servida pela caridade para com todos os nossos irmãos, para propiciar a todos nós a graça da salvação e os frutos eternos das maravilhas da misericórdia de Deus!

sábado, 6 de junho de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (116/123)

 

116. UM DUELO E UMA CONVERSÃO

O professor Parrini, homem de grande talento, era infelizmente maçon, havia muitos anos. Comprometera-se por escrito a não receber o sacerdote mesmo em caso de grave enfermidade; e no seu testamento ordenara que se lhe fizessem funerais civis exclusivamente.

Ora, sucedeu que Parrini, durante um duelo, recebeu vários ferimentos. Quando percebeu a gravidade de seu estado, imediatamente mandou chamar o pároco, pois queria reconciliar-se com Deus. Em presença das testemunhas renunciou à maçonaria e retratou seus escritos contra a religião e a Igreja.

Recebeu, depois, os sacramentos com uma piedade que edificou a todos. Tendo osculado afetuosamente o Crucifixo, declarou que reconhecia a Jesus Cristo como seu único consolador e sua única esperança, e expirou. A explicação desta inesperada conversão é a seguinte: Parrini nunca passava um dia sem rezar, ao menos o De profundis pelas almas do Purgatório.

117. GOUNOD E A SANTA MISSA

O célebre compositor Gounod, que fora educado num seminário, nunca deixou de ser católico praticante. Quando, em seus últimos anos de vida, veraneava na chácara de seu amigo Charbrier, caminhava diariamente dois quilômetros a pé para ouvir a missa, na igreja mais próxima.

Um dia, enquanto esperava, sentado num banco, que começasse o Santo Sacrifício, notou que faltava coroinha. Levantou-se, pediu licença ao padre para substituir o coroinha e ajudou a missa com muita edificação de todos os presentes.

118 - 123. O MENINO JESUS NA HÓSTIA

1. Certo pároco de Moneada (Espanha) andava atormentado por escrúpulos. Temia que a sua ordenação sacerdotal tivesse sido inválida e que, por isso, as suas palavras na consagração fossem ineficazes. Nosso Senhor quis restituir-lhe a paz da alma por meio de um milagre. Uma menina de cinco anos, ao assistir às missas desse pároco, da consagração até a comunhão, via na Hóstia um belíssimo menino. Ciente disso, o sacerdote colocou sobre o corporal três hóstias, mas consagrou somente duas; à hora da comunhão consumiu uma e deixou a outra ao lado da hóstia não consagrada. Chamou em seguida a menina que lhe apontou exatamente a hóstia consagrada, dizendo-lhe que naquela via o Menino e na outra não.

2. São Lourenço Justiniano era devotíssimo da Santíssima Eucaristia e a sua fé profunda na presença real de Jesus na hóstia consagrada manifestava-se especialmente enquanto celebrava o santo sacrifício, na devoção angélica e nas copiosas lágrimas que derramava, edificando grandemente a todos que o viam ao altar. Não raro quis Deus recompensar-lhe a fé e devoção com fatos prodigiosos. Uma vez, por exemplo, na noite de Natal, quando celebrava a santa missa, pode contemplar na Hóstia santa um belíssimo Menino.

3. Em 1924, estavam um dia os deputados da República da Colômbia reunidos na Câmara, quando ouviram o som de uma campainha que anunciava a passagem de uma procissão em que se levava o Sagrado Viático a um enfermo. Fez-se no recinto da Câmara profundo silêncio e os deputados puseram-se em pé e permaneceram em respeitosa atitude até que a procissão acabou de passar.

4. Os protestantes, separando-se da Igreja Católica, perderam o sacerdócio e a Eucaristia instituída por Jesus Cristo. Certo dia, um visitante, entrando na esplêndida catedral protestante da Basileia (Suíça), descobriu respeitosamente a cabeça. O guia, estranhando esse gesto, disse: 'O senhor não precisa descobrir-se, porque aqui não está ninguém'. Tinha razão; nos templos protestantes Jesus não está.

5. A beata Joana Maria Bonomi, contando somente cinco anos de idade, ao assistir à missa de um neo-presbítero viu, no momento da consagração, como dois anjos erguiam a Hóstia resplandecente de luz.

6. Um missionário encontrou-se, certa manhã, bem cedinho, com uma menina que voltava da igreja. Depois de dizer-lhe: 'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo' e ela responder: 'Para sempre seja louvado', perguntou-lhe:
➖ Minha filha, você vai à missa todos os dias?
➖ Sim, senhor Padre, todos os dias, tanto no verão como no inverno.
➖ Mas, minha filha, você mora longe da igreja; não acha que é muito sacrifício fazer cada dia essa jornada tão fatigante?
Ao que ela respondeu com grande candura:
➖ Senhor Padre, é por amor de Jesus que eu faço isso, porque Ele bem o merece.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

sexta-feira, 5 de junho de 2026

SETE REFLEXÕES SOBRE A EUCARISTIA


1. 'Eu fui um grão de trigo semeado no ventre virginal da minha Santíssima Mãe (cf. Jo 12,24); saí dele tenro e fresco, como um trigo em broto; cresci sob ventos e sóis intensos de trabalhos, caminhos e perseguições; e quando tinha quase trinta anos, os maus lançaram a sua foice sobre mim, e fui cortado desta vida, moído e atormentado, e transformado em farinha para que dela se fizesse este pão sagrado, do qual e pelo qual digo: 'Quem me comer, viverá por mim' (Jo 6,58). E tendo custado tão caro entregar-me como alimento aos homens, e estando fechado e depositado em lugar tão pequeno para que melhor possam me comer, prestam tão pouca atenção aos meus trabalhos e ao meu grande amor e à grande necessidade que têm de mim, que alguns nem sequer querem vir à minha casa; e se outros vêm, contentam-se em reverenciar-me quando sou consagrado e elevado na missa; mas preparar suas consciências, lutar contra suas paixões para virem puros à minha mesa e me receberem e se alegrarem comigo, muito poucos há'.

2. 'Quereis que Deus seja todo vosso? Sejais então todo dele. Não ousais? Como sois duros, cegos que sois, que temeis vos trocar por Deus? Por que temeis entregar-vos a Ele e oferecer-vos à sua vontade? Se, pelo que vos dais, Ele se entrega por si mesmo e, ainda assim, não ousaríeis? Pois isso é comungar, e isto é o significado e o ato da comunhão'.


3. 'Que confusão para nós, que nos contentamos com uma missa assistida de passagem, apressadamente, sem amor, sem gratidão! Bem-aventurado aquele que, quando tiver Cristo em suas mãos, sentir-se como o velho Simeão'.

4. 'Ao esquecer a comunhão e a comunicação com Jesus Cristo, a fé esfria tanto que, se nada nos pressionasse, terminariamos por negar a fé... Receber o corpo de Jesus Cristo e nos unirmos agora a Ele, por meio da comunhão, é uma antecipação da união que haverá de existir entre nós e Ele nos céus'.

5. 'O sacerdote toma o pão nas mãos e pronuncia as palavras da consagração; assim que as pronuncia, já não há pão; quem entrou ali no lugar do pão? Jesus Cristo. Pois, quando vierem comungar, considerem que vocês são o pão que se converterá em Jesus Cristo, para que digam como o apóstolo São Paulo: Vivo eu, mas não eu, e sim Jesus Cristo em mim' (Gl 2,20).

6. 'Meu caro irmão, e se soubesses que graça tão grande te concedeu Jesus Cristo ao permanecer aqui para te sustentar! Guarda em teu peito o Santíssimo Sacramento, comunga com frequência, aproxima-te do santo altar de Jesus Cristo e roga-lhe com muita devoção: 'Senhor, estou nesta tribulação; Senhor, estou nesta fadiga; esta tentação me cansa; esta desonra me cerca; Senhor, estou morno, estou fraco, estou frio; Senhor, pois tu és o verdadeiro fogo, acende a minha alma com o teu amor; inflama, meu Senhor, as minhas entranhas na caridade'. Pede-lhe, que se com boa fé lhe pedires, Ele te concederá'.

7. 'E, acima de tudo, aproximemo-nos do fogo que acende e arde, que é Jesus Cristo, nosso Senhor, no Santíssimo Sacramento. Abramos a boca da alma, que é o desejo, e vamos sedentos à fonte de água viva; pois, sem dúvida, ao colocarmos o mel na boca, algo provaremos, e o fogo no íntimo nos aquecerá. E depois e antes de comungar, tenhamos algum preparativo; e os melhores são a fé certa de que vamos receber Jesus Cristo, nosso Senhor, e o pensamento e o amor de sua paixão, pois é em sua memória que o ato se realiza. Corramos, pois, atrás de Deus, que não nos deixará; Ele está pregado na cruz; ali o encontraremos com toda a certeza; coloquemo-lo em nosso coração e fechemos as portas para que Ele não nos deixe.'

(São João de Ávila)

quinta-feira, 4 de junho de 2026

CORPUS CHRISTI 2026

 

Corpus Christi, expressão latina que significa Corpo de Cristo, é uma festa litúrgica da Igreja sempre celebrada na quinta–feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, que acontece no domingo seguinte ao de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa. 

O pão é pão e o vinho é vinho
como frutos do homem em oração;
é o que trazemos, é tudo o que temos,
como oferendas da nossa devoção. 

Não é mais pão, nem é mais vinho
quando espécies na consagração;
alma e divindade que se reconciliam
a cada missa, em cada comunhão.

Aparente pão, aparente vinho,
é mais que vinho, muito mais que pão;
o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo
 é o alimento da nossa salvação.

(Arcos de Pilares)

INDULGÊNCIAS DO DIA DA SOLENIDADE DE CORPUS CHRISTI

    

Nesta quinta-feira, dia da solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, o católico pode ser contemplado com as seguintes indulgências:

(i) Indulgência parcial: rezar, com piedosa devoção, a oração 'Alma de Cristo':

Alma de Cristo, santificai-me.
Corpo de Cristo, salvai-me.
Sangue de Cristo, inebriai-me.
Água do lado de Cristo, lavai-me.
Paixão de Cristo, confortai-me.
Ó bom Jesus, ouvi-me.
Dentro de vossa chagas, escondei-me.
Não permitais que eu me separe de vós.
Do espírito maligno, defendei-me.
Na hora da morte chamai-me e
mandai-me ir para vós,
para que com vossos Santos vos louve
por todos os séculos dos séculos.
Amém.

(ii) Indulgência plenária: rezar, com piedosa devoção, a oração 'Tantum Ergo' ou 'Tão sublime Sacramento':

Tão sublime sacramento
vamos todos adorar,
pois um Novo testamento
vem o antigo suplantar!
Seja a fé nosso argumento
se o sentido nos faltar.
Ao eterno Pai cantemos
e a Jesus, o Salvador,
igual honra tributemos,
ao Espírito de amor.
Nossos hinos cantaremos,
chegue aos céus nosso louvor.
Amém.

Do céu lhes deste o pão,
Que contém todo o sabor.

Oremos: Senhor Jesus Cristo, neste admirável Sacramento, nos deixastes o memorial da vossa Paixão. Dai-nos venerar com tão grande amor o mistério do vosso corpo e do vosso sangue, que possamos colher continuamente os frutos da vossa redenção. Vós que viveis e reinais para sempre. Amém.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

SEIS CONDIÇÕES PARA REZAR BEM

A primeira condição é a fé, de acordo com as palavras do apóstolo: 'Porém, como invocarão aquele em quem não têm fé?' (Rm 10,14a), com as quais São Tiago concorda: mas peça-a com fé, sem nenhuma vacilação (Tg 1,6a). Mas a necessidade de fé não deve ser entendida como se fosse importante acreditar que Deus deva certamente atender ao que é pedido, pois neste caso nossa fé seria provada falsa e então não obteríamos nada. Devemos acreditar que Deus é mais poderoso, mais sábio e mais digno de fé; e que Ele sabe, que tem poder e está preparado para atender nossos pedidos, se entendê-lo apropriado e útil para nós, receberemos o que pedimos. 

Esta fé Cristo pediu aos dois homens cegos que curou: 'Credes que eu posso fazer isso?' (Mt 9,28). Com a mesma fé Davi rezou pelo seu filho adoentado, como provam suas palavras, pois ele acreditava não ser seguro que Deus atenderia suas preces, mas que somente Deus seria capaz de conceder tal graça: 'Quem sabe, talvez o Senhor terá pena de mim e o menino ficará bom?' (2Sm 12,22). Disto não se pode duvidar. Com a mesma fé, o apóstolo Paulo rezou para se livrar de um 'espinho na carne'. Pois o apóstolo rezou com fé, e sua fé não era falsa se ele acreditava que Deus poderia lhe conceder a cura que pedia, embora não tenha obtido o que pedia. E com a mesma fé a Igreja pede por todos os heréticos, pagãos, cismáticos e maus cristãos que possam ser converter, e, no entanto, é certo que nem todos se converterão.

Outra condição muito necessária para rezar é a esperança. Pois ainda que pela fé, que é consequência da compreensão, nós não acreditemos que Deus atenderá nossos pedidos; pela esperança, que é um ato de desejo, podemos firmemente nos apoiar na bondade divina e termos confiança que Deus poderá nos atender. Esta condição Deus requer do paralítico, para quem diz: 'Meu filho, coragem! Teus pecados te são perdoados' (Mt 9,2). O mesmo pede o apóstolo para todos, quando diz: 'Aproximemo-nos, pois, confiantemente do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e achar a graça de um auxílio oportuno' (Heb 4,16). E muito antes dele, o profeta apresenta Deus, falando: 'Quando me invocar, eu o atenderei; na tribulação estarei com ele' (Sl 90,15). 

Mas como a esperança brota da fé perfeita, quando a Escritura requer fé nas grandes coisas, ela acrescenta algo sobre esperança. Assim lemos em São Marcos: 'Em verdade vos declaro: todo o que disser a este monte: Levanta-te e lança-te ao mar, se não duvidar no seu coração, mas acreditar que sucederá tudo o que disser, obterá esse milagre' (Mc 11,23). Que a fé produz confiança, podemos entender destas palavras do apóstolo: 'mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas' (1Cor 13,2b). João Cassiano escreve em seu Tratado sobre a Oração que um sinal certo que nossos pedidos serão atendidos, ocorre quando em oração, nós não duvidamos que Deus certamente nos atenderá, e não hesitamos de nenhuma maneira, mas derramamos nossas orações com alegria espiritual.

A terceira condição é a caridade, pela qual nos libertamos dos pecados; pois os amigos de Deus obtém os seus dons. Assim fala Davi em um salmo: 'Os olhos do Senhor estão voltados para os justos, e seus ouvidos atentos aos seus clamores' (Sl 33,15) e em outro: 'Se eu intentasse no coração o mal, não me teria ouvido o Senhor' (Sl 65,18). E no Novo Testamento, o Senhor mesmo confirma: 'Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito' (Jo 15,7). E o amado discípulo fala: 'Caríssimos, se a nossa consciência nada nos censura, temos confiança diante de Deus, e tudo o que lhe pedirmos, receberemos dele porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que é agradável a seus olhos' (1Jo 3,21-22).

Isto não é contrário à doutrina. Quando o publicano suplica por perdão de seus pecados, ele retorna para casa 'justificado', pois um pecador arrependido não obtém perdão por ser pecador, mas por estar arrependido; pois, como pecador, ele é inimigo de Deus; como penitente, amigo de Deus. Aquele que peca, desagrada a Deus; mas quem se arrepende dos seus pecados, faz o que mais agrada ao Senhor.

A quarta condição é a humildade, pela qual o suplicante, confia não em sua própria justiça, mas na bondade de Deus: 'Fui eu quem fez o universo, e tudo me pertence', declara o Senhor. É o angustiado que atrai meus olhares, o coração contrito que teme minha palavra (Is 66,2). E o Livro do Eclesiástico acrescenta: 'A oração do humilde penetra as nuvens; ele não se consolará, enquanto ela não chegar (a Deus), e não se afastará, enquanto o Altíssimo não puser nela os olhos' (Eclo 35,21).

A quinta condição é a devoção, pela qual não devemos rezar de maneira negligente, como muitos costumam fazer, mas com atenção, sinceridade, diligência e fervor. Nosso Senhor severamente adverte aqueles que rezam apenas com os lábios. Assim Ele nos fala em Isaias: 'O Senhor disse: Esse povo vem a mim apenas com palavras e me honra só com os lábios, enquanto seu coração está longe de mim' (Is 29,13). Esta virtude é fruto de uma fé viva e consiste não apenas no hábito de orar, mas na ação. Para aqueles que com fé firme e atenção consideram a grandeza da sua Majestade, Nosso Senhor, quão grande é nossa insignificância, e como são importantes nossos pedidos, não pode fazer diferente do que rezar com grande humildade, reverência, devoção e fervor.

A sexta condição é a perseverança, que nosso Senhor em duas parábolas recomenda: uma sobre o amigo importuno que pede dois pães em um horário inconveniente, no meio da noite, e recebe pela sua perserverança (Lc 11,5-8); outra sobre a viúva que pede sem esmorecer para que o juiz a livre de seu adversário; e o juiz, embora sendo iníquo, homem que não temia nem Deus nem os homens, sobrepujado pela perseverança da mulher, livrou-a de seu inimigo. Destes exemplos o Senhor conclui, que muito mais perseverantes devemos ser na oração a Deus, porque ele é justo e misericordioso. E São Tiago completa: 'Deus concede generosamente a todos, sem recriminações' (Tg 1,5). Ou seja, ele concede seus dons liberalmente a todos que pedem, e 'sem recriminações' por serem inoportunos, pois Deus não tem limites em suas riquezas nem em sua misericórdia.

(Excertos da obra 'A Arte de Morrer Bem', de São Roberto Belarmino)

terça-feira, 2 de junho de 2026

FRASES DE SENDARIUM (LXXIV)

'Uma Missa bem assistida em vida vale mais para a sua salvação que muitas outras rezadas em sua intenção após a morte'
(Santo Padre Pio)

A Missa é a mais bela oração que a criatura pode oferecer a Deus e uma fonte inesgotável de graças para a salvação das almas...

segunda-feira, 1 de junho de 2026

SOBRE AS ADVERSIDADES

É pela adversidade, cristãos ouvintes, que Deus coage os homens mais perversos a reentrarem nas suas boas graças; e que outra via mais eficaz para os levar a isso? A palavra de Deus, o uso dos sacramentos, as graças comuns podem manter na prática do bem os que se obrigam a eles, mas um homem sobrecarregado do peso dos negócios públicos e domésticos, uma mulher que vive nos prazeres, que é escrava da vaidade, um cristão, numa palavra, que envelheceu na sua impiedade e nas suas desordens, é mister, senhores, é mister que sofra ou que pereça.

Sei o quanto a palavra de Deus é eficaz, sei que ela é mais penetrante do que uma espada de dois gumes; mas todos os dias não vemos senão sobejamente que os homens lhe resistem e que ela não pode atingir até os corações empedernidos. Que não se há dito contra esse luxo espantoso que devora a substância assim dos pobres como dos ricos, contra esse jogo que consome impiedosamente um bem com que se poderia comprar o céu, esse jogo que nos arrebata um tempo que nos fora dado para ganharmos a eternidade? Que se não diz ainda hoje em dia contra esses desregramentos? Ai! Mas que é que produzem os nossos discursos no espírito dos jogadores de profissão, desses que gastam o mais possível em roupas? Uns esquecem-no um momento após, outros só se lembram deles para escarniçá-los; alguns até se ofendem com eles, e creem ter motivo para se queixar do pregador, porque ele disse da parte de Deus o que não podia calar sem trair a própria consciência e sem se tornar réu de perfídia.

Que cumpre então que faça o Senhor para fazer essas pessoas tornarem ao dever? Não há outro meio senão a indigência; há que reduzi-las à necessidade de trabalhar para fazer subsistir a família, e de revender, para viverem, aquilo que compraram para se enfeitar. Ide falar de oração e de retiro àquela mulher enamorada da própria beleza, tão vaidosa das atenções que se tem com ela no mundo; acreditais que ela seja capaz de apreciar os vossos conselhos ou sequer de ouvi-los? Para salvá-la, faz-se mister que uma moléstia a desfigure, ou que uma esmagadora confusão a faça banir para sempre das companhias.

Que tempo escolhereis para exortar aquele rico, aquele voluptuoso, a se converter? Não está ele disposto a ouvir a palavra de Deus, e muito menos ainda a vos chamar a casa para tomar junto a vós conselhos salutares. E quando o estivesse, como haveria um pensamento santo de encontrar lugar naquele espírito abarrotado dos seus negócios temporais? A própria graça, por insinuante que seja não acha abertura para lhe passar até o coração. Oh! Como há então, ó meu Deus, que desesperar daquela alma? A vossa sabedoria não tem então meio para retirá-la do precipício? O Senhor tem um meio, cristãos ouvintes, e este meio é o que ele se serve sempre para reconduzir os eleitos seus que a prosperidade lhe arrebatou; esse meio é a adversidade, é a perda daquele processo, a morte daquele marido, daquele filho único, uma paralisia, uma gota violenta, uma febre maligna, um langor incurável, uma afronta insigne. 

Qual será o efeito dessa desgraça? Disporá aqueles homens à compunção por uma dor mortal, dar-lhe-á desgosto dos prazeres com que estava encantado, levá-lo-á a fazer reflexões sobre os desregramentos da sua vida que lhe atraíram a cólera de Deus; sofrerá que a gente de bem se lhe achegue, quando menos para consolá-lo. E como procurará por toda parte remédios para o seu mal, far-lhe-ão conhecer a causa deste, prepará-lo-ão para receber os remédios convenientes à moléstia de sua alma. Enfim, ver-se-á ele felizmente forçado a mudar de vida, ou pela impotência de perseverar no pecado, ou pelo desejo de deter o braço do Onipotente que pesa sobre ele.

Tudo isto nos faz ver suficientemente que, de qualquer modo que vivamos, deveríamos sempre receber a adversidade com alegria. Se somos bons, a adversidade nos purifica e nos faz melhores; enche-nos de virtudes e de méritos; se somos maus, se somos viciosos, ela nos corrige, força-nos a nos tornarmos virtuosos. Se em algum de nós não tem ela este feliz efeito, se há alguém que ela não transforme ou que torne ainda pior, é esse coração endurecido que tem razão de se afligir; essa resistência inflexível é de todos os indícios de reprovação o mais certo e o mais visível. Um cristão que vive mal e que Deus não castiga, deve tremer; e, se lhe resta ainda algum sentimento, deverá fremir; mas um pecador que Deus castiga e que não verga aos seus golpes, pode-se ousadamente arrolá-lo entre os réprobos e desesperar da sua salvação.

(Excertos da obra 'Reflexões Cristãs', de São Cláudio de La Colombière) 

domingo, 31 de maio de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

          

'A Vós, louvor, honra e glória eternamente!' 

Primeira Leitura (Ex 34,4b-6.8-9) - Segunda Leitura (2Cor 13,11-13) - Evangelho (Jo 3,16-18)

  31/05/2026 - SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE

GLÓRIA AO PAI, AO FILHO E AO ESPÍRITO SANTO


O mistério da Santíssima Trindade é um mistério de conhecimento e de amor. Pois, desde toda a eternidade, o Pai, conhecendo-se a Si mesmo com conhecimento infinito de sua essência divina, por amor gera o Filho, Segunda Pessoa da Trindade Santa. E esse elo de amor infinito que une Pai e Filho num mistério insondável à natureza humana se manifesta pela ação do Espírito Santo, que é o amor de Deus por si mesmo. Trindade Una, Três Pessoas em um só Deus.

Mistério dado ao homem pelas revelações do próprio Jesus, posto que não seria capaz de percepção e compreensão apenas pela razão natural, uma vez inacessível à inteligência humana: 'Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele (o Espírito Santo) receberá e vos anunciará, é meu' (Jo 16,15). Mistério revelado em sua extraordinária natureza em outras palavras de Cristo nos Evangelhos: 'Em verdade, em verdade vos digo: O Filho não pode de si mesmo fazer coisa alguma, mas somente o que vir fazer o Pai; porque tudo o que fizer o Pai, o faz igualmente o Filho. Porque o Pai ama o Filho, e mostra-lhe tudo o que ele faz (Jo 5,19-20) ou ainda 'Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai; nem alguém conhece o Pai senão o Filho' (Mt 11,27).

Nosso Senhor Jesus Cristo é o Verbo de Deus feito homem, sob duas naturezas: a natureza divina e a natureza humana: 'Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele' (Jo 3,16 - 17). Enquanto homem, Jesus teve as três potências da alma humana: inteligência, vontade e sensibilidade; enquanto Deus, Jesus foi consubstancial ao Pai, possuindo inteligência e vontade divinas.

'Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo'. Glórias sejam dadas à Santíssima Trindade: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Neste domingo da Santíssima Trindade, a Igreja exalta e ratifica aos cristãos o maior dos mistérios de Deus, proclamado e revelado aos homens: O Pai está todo inteiro no Filho, todo inteiro no Espírito Santo; o Filho está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Espírito Santo; o Espírito Santo está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Filho (Conselho de Florença, 1442).

sábado, 30 de maio de 2026

MAGNIFICA HUMANITAS E A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA


A primeira encíclica do Papa Leão XIV - Magnifica Humanitas - já está sendo descrita como a grande intervenção da Igreja Católica no debate sobre a inteligência artificial. Essa descrição é correta, dentro dos limites que estabelece. O Papa aborda o poder dos algoritmos, a automação, a substituição da mão de obra, a vigilância e a crescente concentração da influência tecnológica nas mãos de um pequeno número de atores corporativos e políticos. Mas o tema mais profundo da encíclica não é a inteligência artificial. É a pessoa humana e sua definição.

Essa é a questão subjacente a todo debate contemporâneo sobre IA, mesmo quando não expressa. Somos meramente máquinas biológicas altamente sofisticadas - conjuntos de impulsos, preferências e atividade neural à espera de replicação por sistemas mais avançados? Ou somos criaturas dotadas de capacidade moral, profundidade espiritual, criatividade, consciência e um destino transcendente que nenhum algoritmo pode imitar?

A resposta é importante porque toda tecnologia acaba se tornando uma expressão da civilização que a cria. Ferramentas nunca são meramente ferramentas. Elas carregam pressupostos embutidos sobre a natureza humana, a intenção humana e o propósito humano.

Leão compreende isso claramente. Ao longo de Magnifica Humanitas, ele adverte contra tanto o economismo quanto o cientificismo - a tendência de reduzir as pessoas a unidades de produtividade econômica ou a processos materiais inteiramente sujeitos à gestão técnica. A dignidade humana, ele insiste, não é conferida pela eficiência, pela utilidade de mercado ou pela superioridade computacional. Ela é intrínseca à própria pessoa. Isso coloca o papa em oposição direta não à tecnologia em si, mas à visão de mundo transumanista cada vez mais influente que molda grande parte do desenvolvimento tecnológico de elite e a cultura que o produz.

O transumanismo* parte de uma compreensão limitada do homem. Se a consciência é redutível ao processamento de informações, então as limitações humanas tornam-se problemas de engenharia à espera de solução. A mortalidade torna-se um defeito técnico. A dependência torna-se fraqueza. O próprio corpo torna-se hardware obsoleto à espera de atualização. Sob essa visão, o propósito da tecnologia não é mais servir à humanidade, mas transcendê-la.

Essa aspiração anima hoje uma quantidade surpreendente da retórica tecnológica contemporânea. Ouvem-se constantemente promessas de que a IA em breve superará os seres humanos não apenas no cálculo, mas também na criatividade, no discernimento, na inteligência emocional, na companhia e até mesmo no raciocínio moral. A implicação é inequívoca: a própria humanidade está se tornando um estágio intermediário ineficiente na evolução da inteligência. É difícil não perceber a ironia. Uma civilização cada vez mais incerta quanto ao significado da vida e da identidade humana propõe agora construir máquinas à sua própria imagem.

A encíclica de Leão representa um desafio direto a essa antropologia. O papa insiste que os seres humanos não podem ser compreendidos meramente através das categorias de eficiência, produtividade ou resultados mensuráveis, pois os seres humanos não são sistemas materiais autônomos. Eles possuem o que a tradição cristã clássica descreve como transcendência - uma abertura à verdade, à beleza, à bondade, ao amor, ao sacrifício e, em última instância, ao próprio Deus. Nessa perspectiva, o sentido de nossa humanidade se revela precisamente em nossa contingência e vulnerabilidade. A pessoa humana, nesse entendimento, não é superada pela máquina porque a pessoa humana não é redutível a cálculos.

Essa percepção não é anticientífica. Nem é nostálgica. Leão tem o cuidado de evitar a tentação troglodítica que muitas vezes acompanhou períodos de rápida mudança tecnológica. Ele não clama por um recuo em relação à inovação. Ele não romantiza um passado pré-tecnológico. De fato, um dos aspectos mais marcantes de Magnifica Humanitas é sua recusa em demonizar o próprio progresso.

O papa elogia explicitamente a iniciativa empreendedora como uma vocação digna. Ele reconhece que a inovação aliviou o sofrimento, ampliou as possibilidades humanas e tirou bilhões de pessoas de condições de pobreza e isolamento que seriam inimagináveis para as gerações anteriores. A preocupação da Igreja, ele deixa claro, não é com a tecnologia em si, mas com os pressupostos morais e antropológicos que orientam o seu desenvolvimento. Essa distinção é fundamental porque grande parte do debate público em torno da inteligência artificial permanece presa entre dois extremos igualmente inadequados.

De um lado estão os utópicos tecnológicos. Para eles, todo aumento no poder computacional representa progresso moral. Os problemas humanos tornam-se problemas de engenharia. A política torna-se gestão de sistemas. Atrito, ambiguidade, dependência e limitação são vistos menos como características permanentes da condição humana do que como erros a serem corrigidos por meio de tecnologia suficientemente avançada.

Do outro lado estão os novos reacionários - aqueles tentados a tratar a própria tecnologia moderna como um erro civilizacional. Seu instinto é o recuo: um anseio romantizado por uma era anterior, supostamente intocada pela alienação, pela burocracia e pela mediação tecnológica. Ambas as visões interpretam mal o problema porque ambas interpretam mal a pessoa humana. O desafio que a civilização moderna enfrenta não é se possuiremos tecnologias poderosas. Já as possuímos. A verdadeira questão é se nossas tecnologias permanecerão subordinadas a uma visão coerente do florescimento humano. Uma civilização livre e verdadeiramente virtuosa requer mais do que inovação. Ela requer um pluralismo enraizado em uma compreensão duradoura da dignidade humana.

A encíclica de Leão aponta precisamente para essa possibilidade. Sua defesa reiterada das instituições intermediárias - famílias, igrejas, escolas, associações voluntárias, comunidades locais e iniciativa empreendedora - reflete a compreensão de que a civilização não é construída exclusivamente por meio de regulamentação centralizada ou gestão burocrática ou tecnológica. Ela é construída por meio da cultura. E a cultura depende, em última instância, da antropologia. A questão decisiva da era da IA, portanto, não é simplesmente o que as máquinas são capazes de fazer. É para que servem os seres humanos. Qual é o seu telos?

Se o homem é meramente um organismo computacional avançado, então sistemas artificiais cada vez mais sofisticados tornar-se-ão naturalmente a medida da inteligência, da produtividade e da autoridade social. Nessas condições, a humanidade acabará por parecer sempre obsoleta segundo os seus próprios padrões. Mas se a pessoa humana possui uma dignidade irredutível fundamentada na transcendência - se ela está orientada não apenas para o consumo e a eficiência, mas para a verdade, a beleza, a virtude, a adoração e o amor - então nenhuma máquina, por mais poderosa que seja, pode substituí-la.

As máquinas podem nos superar em velocidade, memória, previsão e cálculo. Elas podem realizar inúmeras tarefas melhor do que nós. Mas não podem se arrepender. Não podem se sacrificar por outra pessoa. Não podem contemplar a beleza por si mesma. Não podem amar. Não podem buscar a Deus. Uma civilização que esqueça isso pode tornar-se tecnologicamente magnífica, mas espiritualmente exaurida. Uma civilização que se lembre disso ainda poderá construir tecnologias dignas do homem.

* movimento filosófico e científico que defende o uso da tecnologia e da ciência para aprimorar as capacidades físicas, intelectuais e psicológicas do ser humano

(Robert A. Sirico, em First Things, 29/05/2026, tradução do autor do blog)

sexta-feira, 29 de maio de 2026

COMO O SOL BAILOU EM FÁTIMA AO MEIO DIA!

(i) o sol tinha a forma de um disco luminoso, com a borda claramente delineada por uma faixa luminosa e podia ser visado diretamente por longo tempo, sem cegar ou ofuscar a visão das pessoas;

(ii) o sol pareceu dançar no firmamento, passando a girar aceleradamente sobre o seu eixo para, em seguida, interromper e recomeçar outras vezes esse movimento vertiginoso;

(iii) o sol começou a irradiar luzes diferentes e cambiantes, que foram disseminadas e refletidas sobre todo o ambiente da Cova da Iria (sobre as pessoas, a paisagem, os montes e as árvores);

(iv) ao final dos eventos, o sol pareceu precipitar-se sobre a terra num movimento apocalíptico que produziu nas pessoas um enorme temor e uma impressão geral de 'fim do mundo'; interrompendo esse processo de arremetida em ziguezague, o sol retornou então à sua posição natural e passou a ser visto na sua conformação original e ofuscante à visão direta;

(v) os mesmos fenômenos foram vistos por inúmeras outras pessoas, muitas delas a quilômetros de distância da Cova da Iria.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XX)

           

PARTE III - O INFERNO

II. Sobre a fome e a sede padecidos no Inferno

Assim como os crimes pelos quais o pecador, nesta vida, provoca a ira de Deus são de vários tipos, também as dores do inferno, pelas quais esses crimes serão punidos, variam em sua natureza. Sabemos que os homens muitas vezes pecam por intemperança, entregando-se avidamente à comida e à bebida. Consequentemente, Deus designou uma pena severa para esse pecado no outro mundo. Cristo o prediz, de fato, com estas palavras: 'Ai de vós que estais saciados, pois tereis fome' (Lc 6,25).

Quando Nosso Senhor pronuncia a palavra 'Ai', Ele sempre pretende ameaçar ou predizer alguma grande calamidade. Consideremos por um momento o que isso realmente significa neste caso. É impossível para nós formarmos uma ideia verdadeira das dores da fome, porque nunca as sentimos. Se durante um dia inteiro alguém não tem nada para comer, o tempo parece muito longo e a pessoa deseja muito algum alimento. E se alguém fosse privado de qualquer alimento por dois ou três dias, que miséria seria! Mas se um homem não tivesse absolutamente nada para comer durante uma semana inteira e fosse deixado à mercê da fome, o que seria dele?

Em tempos de escassez e fome, fica-se horrorizado ao ver quais são os efeitos produzidos pela fome e que terrível flagelo é a escassez de alimentos. Pois, para acalmar as dores insuportáveis da fome, as pessoas devoram tudo o que conseguem encontrar: grama, folhas, animais imundos e repugnantes; sim, os homens chegaram até a se alimentar da carne de seus semelhantes, mães sacrificaram seus filhos, e sabe-se que alguns roeram sua própria carne. E quando os pobres infelizes famintos não têm mais nada, vagam como sombras de si mesmos, pálidos e emaciados como a própria morte.

Eles arrastam uma existência moribunda até que todas as suas forças se esgotem; finalmente, pela tortura da fome, perdem os sentidos; deliram, gritam e uivam, e morrem da mais miserável das mortes. Se tais são os efeitos da fome na Terra, como será a fome que se experimentará no Inferno?

Se a falta de comida por apenas alguns dias causa tal tortura, como será uma fome contínua e sem fim? Quem pode pensar sem horror na fome sofrida no Inferno! Ai daqueles que tiverem de suportá-la. O profeta Isaías testemunha a existência de uma fome real e efetiva no Inferno, nesta passagem da Sagrada Escritura: Deus assim fala pela boca do profeta: 'Porque eu chamei e vocês não responderam, falei e vocês não ouviram; eis que os meus servos comerão e vocês terão fome; eis que os meus servos beberão e vocês terão sede. Meus servos se alegrarão e vós ficareis confusos; meus servos louvarão com alegria no coração e vós chorareis de tristeza no coração, e uivareis de dor no espírito' (Is 65, 12-14). 

Quem pode dizer quão terrível será essa fome no Inferno? O salmista diz dos inimigos de Deus que sofrerão fome como cães (Sl 58,7). Os réprobos serão então constantemente atormentados pela fome mais voraz, por uma fome tão grande que excederá além da medida a fome suportada em tempos de fome, por uma fome que os atormentará para sempre.

O que vocês fizeram, ó infelizes pecadores! Vocês trouxeram sobre si mesmos esta dor eterna. Se tivessem feito penitência nesta vida, não teriam se tornado presas desta fome eterna. Mas vocês desejaram comer e se saciar em vida; consequentemente, agora devem suportar o que Cristo predisse que seria o seu destino: 'Ai de vocês que estão saciados, pois terão fome'.

Que tomem isto especialmente a sério aqueles que costumam negligenciar deliberadamente a observância dos jejuns prescritos e comer carne nos dias de abstinência. Pois quem come carne nos jejuns da Igreja sem necessidade e sem ter sido dispensado, comete um pecado grave. Fazer isso equivale a desafiar a Igreja e excluir-se voluntariamente de sua bênção. E aquele que persiste nesse pecado, e não se arrepende sinceramente dele, não pode esperar a felicidade eterna. O que poderia ser mais imprudente e insensato do que, por uma satisfação tão desprezível, expor-se ao perigo da perdição eterna! Ó pecador obstinado, para onde vais! Pensa na fome sem fim que será suportada no Inferno e tem piedade da tua própria alma!

Além da fome, os condenados sofrem a sede mais ardente, que está além do poder das palavras para descrever. Todos sabem quão terríveis são os sofrimentos causados pela sede: são simplesmente insuportáveis. Aqueles que são atormentados pela sede beberão das fontes mais impuras, e se nada puder ser obtido para saciar sua sede, o resultado será uma morte lenta e dolorosa. A sede sofrida pelas almas perdidas é infinitamente maior, mais intensa, mais dolorosa do que qualquer sede experimentada na terra, por maior que seja. Se um homem mortal pudesse senti-la mesmo que por um breve período, desmaiaria e morreria imediatamente.

Nunca há descanso ou trégua para os condenados; eles são levados de um tormento a outro incessantemente. Isso provoca sede. Mas o calor do fogo do Inferno, no qual ardem dia e noite, para todo o sempre, é a principal causa da sede intolerável que os consome. Eles estão imersos em chamas e nunca obtêm o alívio de um gole de água. Meu Deus, quão grande deve ser a sede deles! É insuportável, e ainda assim eles precisam suportá-la. Ouça o apelo lastimável de uma alma perdida implorando fervorosamente pela graça de uma única gota de água: 'Pai Abraão, tem misericórdia de mim e manda Lázaro molhar a ponta do dedo na água para refrescar a minha língua; pois estou atormentado nesta chama' (Lc 16,24). 

'Deus misericordiosíssimo, peço apenas água; anseio por apenas uma gota de água para dar alívio momentâneo à minha língua em chamas. Tu não recusarás um pedido tão moderado, Tu que és louvado por todas as tuas criaturas como a própria bondade'. Mas esta súplica é em vão. Deus faz ouvidos moucos à voz do seu apelo. Nem uma única gota de água é dada para mitigar os seus sofrimentos. É possível, ó meu Deus, que Tu possas ser tão severo? Pai de compaixão, por que não queres ouvir a oração deles? Tua justiça e Teu ódio ao pecado não te permitem ceder; eles te obrigam a punir o pecado eternamente e da maneira mais terrível.

Mas nos é dito que os condenados não apenas são atormentados por fome e sede excessivas, como também são alimentados com chamas e obrigados a beber do cálice da ira divina. 'Se alguém adorar a besta, também beberá do vinho da ira de Deus, que está misturado com vinho puro no cálice da sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre. E a fumaça de seus tormentos subirá para todo o sempre' (Ap 14,10). No livro de Moisés também lemos: 'O vinho deles é o fel dos dragões e o veneno das víboras, que é incurável' (Dt 32,33).

Reflita, ó pecador, sobre esta agonia indescritível. Fogo e enxofre serão o alimento dos condenados e a sua bebida, o vinho da ira de Deus. O que pode exceder tal tortura? Meu Deus, quão rigoroso és! Quão severos são os teus castigos! Pensem, vós, pecadores, que agora bebeis em excesso, pensai qual é o vinho preparado para vós no futuro, pensai na terrível sede que vos consumirá por toda a eternidade. Se não suportais ter sede por um dia, como suportareis a sede ardente da qual nunca obtereis alívio? Refleti sobre isso em vosso coração e não vos entregueis mais à vossa intemperança. Abandonai esse vício, que infalivelmente vos arrastará para a perdição.

São Paulo fecha expressamente a porta do Céu para vocês, quando diz: 'Os bêbados não herdarão o reino de Deus' (1Cor 6,10). Aí está a sentença, pronunciada contra vocês de antemão. Se continuarem a seguir o caminho do mal, não poderão alegar ignorância quanto ao destino ao qual serão condenados.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)