sábado, 8 de junho de 2024

TRATADO SOBRE A HUMILDADE (IV)


30. Por vezes, somos demasiado escrupulosos em relação às obras de supererrogação [ação de se fazer mais que o necessário ou obrigatório] como, por exemplo, ter omitido em tal dia uma certa oração ou uma mortificação imposta por nós próprios; são escrúpulos de omissões que, no que respeita à nossa salvação eterna, têm pouca ou nenhuma importância; mas prestamos pouca atenção àquela humildade que, para nós, é a mais essencial e necessária e sem a qual ninguém se pode salvar. São Paulo adverte-nos: 'Não vos torneis crianças no sentido de julgar' [1Cor 14,20]. Não sejais como as crianças que choram e desesperam se lhes tiram uma maçã, mas pouco se importam de perder uma joia de grande valor. Coloquemos a humildade acima de todas as coisas. Ela é o tesouro escondido e enterrado no campo, para o qual devemos vender tudo o que possuímos [Mt 13,44]. É a pérola de grande valor, para a qual devemos vender tudo o que temos [Mt 13,45].

Não chamemos esses pecados contra a humildade de escrúpulos, mas consideremo-los como pecados reais, dignos de confissão e emenda. Que Deus nos guarde de uma consciência demasiado fácil no que respeita à verdadeira humildade que nos é ordenada no Evangelho. Deveríamos, na verdade, tomar o caminho largo mencionado pelo Espírito Santo, que, embora pareça ser o caminho certo e reto, leva diretamente à perdição: 'Há um caminho que ao homem parece direito, mas os seus fins conduzem à morte' [Pv 16, 25]. Há pessoas que pensam, como os fariseus, que a virtude e a santidade consistem em orações muito longas, na visita às igrejas e em alguma abstinência especial, em retiros, na modéstia do vestuário, em conferências espirituais ou em algum exercício de piedade exterior; mas em tudo isso quem pensa na humildade? Quem a estima e se esforça por adquiri-la? O que é então tudo isso senão uma vã ilusão?

31. Lemos sobre vários filósofos antigos que suportaram calúnias, insultos e desprezo com perfeita equanimidade e sem raiva ou perturbação, mas eles nem mesmo conheciam o nome de humildade. A sua corajosa fortaleza era apenas um efeito do orgulho refinado, pois como se consideravam muito acima dos reis e imperadores, pouco se importavam com os insultos e mantinham a sua equanimidade pelo desprezo com que olhavam para aqueles que os insultavam. Eles superavam o sentimento de ressentimento por uma paixão ainda mais dominadora, e o fato de serem modestos, pacíficos e gentis era um efeito desse orgulho que dominava despoticamente os sentimentos de seus corações.

Há uma diferença imensa entre a moral da filosofia humana e a moral evangélica ensinada por Jesus Cristo. Lede atentamente as obras de Sêneca - aquele que era tido como superior a todos os outros filósofos em moralidade - e vereis como, nas mesmas máximas com que ele ensina a magnanimidade e a fortaleza, instila também o orgulho. Lede as obras do mais célebre dos estóicos e direis como São Jerônimo que 'quando são estudadas com o maior cuidado e atenção, não se encontra nenhuma plenitude satisfatória da verdade, nenhuma correspondência com os verdadeiros princípios da justiça' [Epist. 146, ad Damas]. Tudo é vaidade que apenas inspira vaidade.

É somente no Evangelho de Jesus Cristo que se encontram as regras dessa humildade de coração que é a verdadeira virtude, que consiste no conhecimento da grandeza de Deus e do nosso próprio nada; e é atentando para o estudo dessa humildade sábia que cumprimos o preceito apostólico: 'Não ser mais sábio do que convém ser sábio, mas ser sábio até à sobriedade' [Rm 12,3]. Jesus Cristo, antes de ensinar qualquer coisa da sua nova lei, quis ensinar a humildade, como observa São João Crisóstomo: 'Quando começou a estabelecer as suas leis divinas, começou pela humildade' [Hom. 39 em Mt]. Pois, sem humildade, é impossível compreender esta doutrina celeste, mas com humildade somos capazes de compreender tudo o que é necessário ou útil para a nossa salvação.

32. Confessar a nossa indignidade e o nosso nada e proclamar que tudo o que é bom em nós vem de Deus é muitas vezes o exercício estéril de uma humildade muito desprezível, e pode até ser um grande orgulho - magna superbia - como observa Santo Agostinho e ensina Santo Tomás: 'A humildade, que é uma virtude, é sempre fecunda em boas obras' [22, qu. clxi, art. .5, ad 4]. Quereis ter uma ideia do que é essa humildade que é uma verdadeira virtude? A alma é verdadeiramente humilde quando reconhece que a sua verdadeira posição na ordem da natureza ou da graça depende inteiramente do poder, da providência e da misericórdia de Deus; de tal modo que, não encontrando em si mesma senão o que é de Deus, só se apropria do seu nada e, permanecendo no seu nada, coloca-se ao nível de todas as outras criaturas sem se elevar de modo algum acima delas. Aniquila-se diante de Deus, não para permanecer numa inatividade ociosa mas, procurando glorificá-lo continuamente, conformando-se com a obediência exata às suas leis e com a submissão perfeita à sua vontade.

A humildade tem dois olhos: com um reconhecemos a nossa própria miséria para não nos atribuirmos senão o nosso nada; com o outro reconhecemos o nosso dever de trabalhar e de atribuir tudo a Deus, remetendo-lhe todas as coisas: 'Louvai, ó servos do Senhor, louvai o nome do Senhor' [Sl 112,1]. O homem verdadeiramente humilde considera que tudo o que é bom para a sua natureza material ou espiritual é como os riachos que vieram originalmente do mar e que devem finalmente regressar ao mar; e por isso tem sempre o cuidado de render a Deus tudo o que recebeu de Deus, e não reza, nem ama, nem deseja nada, exceto que em todas as coisas o nome de Deus seja santificado: 'Santificado seja o vosso nome' [Mt 6, 9].

33. A humildade não é uma virtude doentia, tímida e débil, como alguns imaginam; pelo contrário, é forte, magnânima, generosa e constante, porque se fundamenta na verdade e na justiça. A verdade consiste em saber o que Deus é e o que nós somos. A justiça consiste em reconhecermos que Deus, como nosso Criador, tem o direito de nos ordenar, e que nós, como suas criaturas, somos obrigados a obedecer-lhe. Todos os mártires foram perfeitamente humildes, porque preferiram morrer sofrendo os mais terríveis tormentos a abandonar a verdade e a justiça. Como foi grande a sua resistência e coragem ao resistir àqueles que tentavam forçá-los a negar Jesus Cristo!

Contrariar os outros é um efeito do orgulho, sempre que os contrariamos para seguir a nossa vontade injusta e errada; mas quando a nossa oposição à criatura procede da determinação de cumprir a vontade do Criador, é ditada pela humildade, pois com isso confessamos a nossa obrigação indispensável de estarmos sujeitos e obedientes à vontade divina. É por isso que o homem orgulhoso é sempre tímido, porque o seu orgulho só se sustenta na fraqueza da natureza humana. E aquele que é humilde é sempre corajoso no exercício da sua submissão à Majestade Divina, porque recebe a sua força através da graça.

Os humildes obedecem aos homens, quando, ao fazê-lo, obedecem também a Deus; mas recusam a obediência aos homens, quando, ao obedecê-los, desobedeceriam ao seu Deus. Refleti na resposta, tão modesta quanto magnânima, dada diante dos anciãos de Jerusalém por São Pedro e São João: 'Se é justo aos olhos de Deus ouvir-vos antes a vós do que a Deus, julgai vós' [At 4,19]. O homem humilde está acima de qualquer respeito humano e não corre o risco de se tornar escravo das opiniões, das modas ou dos costumes do mundo; conhece as suas falhas e sabe que é capaz de todos os males, mesmo que não os cometa. Se vê os outros agirem mal, compadece-se deles, mas nunca se escandaliza nem é induzido a seguir os maus exemplos dos outros; porque todas as suas intenções são dirigidas para Deus, e não tem outro desejo senão o de agradar a Deus e de ser dirigido apenas por Deus, como nos ensina Santo Tomás, o doutor angélico: 'Ele se apega somente a Deus e, por isso, por mais que veja os outros agirem desordenadamente em palavras ou ações, ele próprio não se afasta da retidão da sua conduta [22, qu. 33, art. 5].

34. O coração do homem orgulhoso é como um mar tempestuoso, nunca em repouso: 'Como o mar furioso que não pode descansar' [Is 57,20] e o coração do humilde está plenamente satisfeito em sua humildade - rico em ser humilde [Tg 1,10] - e está sempre calmo e tranquilo e sem medo de que qualquer coisa neste mundo possa perturbá-lo, e 'descansará com confiança' [Is 14,30]. E de onde vem essa diferença? O homem humilde desfruta de paz e sossego porque vive de acordo com as regras da verdade e da justiça, submetendo sua própria vontade em todas as coisas à vontade Divina. O homem orgulhoso está sempre agitado e perturbado por causa da oposição que está continuamente oferecendo à vontade divina, a fim de cumprir a sua própria.

Quanto mais o coração estiver cheio de amor-próprio, tanto maior será a sua ansiedade e agitação. Esta máxima é, de fato, verdadeira, pois sempre que me sinto interiormente irritado, perturbado e encolerizado por alguma adversidade que me tenha acontecido, não preciso procurar a causa de tais sentimentos em outro lugar que não seja dentro de mim mesmo, e faria sempre bem em dizer: 'Se eu fosse verdadeiramente humilde, não me inquietaria. A minha grande agitação é uma prova evidente que devo convencer-me de que o meu amor-próprio é grande, dominante e poderoso dentro de mim, e é o tirano que me atormenta e não me dá paz. Se me sinto ofendido por alguma palavra dura que me foi dita, ou por alguma indelicadeza que me foi mostrada, de onde vem esse sentimento de dor? Do meu orgulho. Ó se eu fosse verdadeiramente humilde, que calma, que paz e que felicidade não gozaria a minha alma!' E esta promessa de Jesus Cristo é infalível: 'Aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas' [Mt 11,29].

Quando nos sentimos angustiados por alguma adversidade, não é necessário procurar a consolação daqueles que nos lisonjeiam ou se compadecem de nós, e a quem podemos derramar os nossos problemas. Basta perguntar à nossa alma: “Por que estás abatida, ó minha alma? e por que me inquietas?' [Sl 41,12]. Alma minha, oque tens e o que buscas? Porventura desejas aquele repouso que perdeste? Ouve, pois, o remédio que te oferece o teu Salvador, exortando-te a aprender com Ele a ser humilde: 'Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração' e ouve ainda o que Ele acrescenta quando te assegura que, com a tua humildade restaurada, também recuperarás a tua paz: 'E encontrareis descanso para as vossas almas'.

35. Há duas espécies de humilhações: as que procuramos por nossa própria vontade, e as que provêm das vicissitudes naturais e temporais desta vida. Contra as primeiras, devemos estar atentos, não obstante o ardor com que as abraçamos, pois a vaidade sempre latente do nosso amor-próprio é tão sutil que procura até aumentar a sua própria vanglória, enquanto parece procurar o desprezo do homem. Mas se aceitamos as outras humilhações que nos sobrevêm, independentemente da nossa vontade, mortificando os nossos sentimentos, pensamentos e paixões com pronta resignação à vontade de Deus, é sinal de uma verdadeira e sincera humildade; porque tais humilhações tendem a mortificar o nosso amor-próprio e a aperfeiçoar a submissão que devemos a Deus.

As humilhações voluntárias e procuradas por nós mesmos podem levar a alma a tornar-se hipócrita. Mas as humilhações involuntárias, que nos são enviadas pela vontade divina e que suportamos com paciência, santificam a alma; e por isso o Espírito Santo nos deu este importantíssimo mandato: 'Na tua humilhação guarda a paciência. Porque o ouro e a prata são provados no fogo, mas os homens agradáveis no cadinho da humilhação' [Eclo 2,4-5]. É impossível, exceto em casos raros, não descobrir a hipocrisia da humildade afetada: 'Tocai as amontanhas e elas hão de se abrasar' [Sl 143,5]. E, novamente, é impossível não conhecer a virtude da verdadeira humildade, porque seu espírito é 'gentil, amável, firme, estável, seguro, livre de inquietação'  [Sb 7, 23].

36. Há também dois tipos de tentações: as que nos chegam através da maldade do maligno e as que nós próprios procuramos na nossa própria fraqueza e malícia, mas não há melhor proteção contra nenhuma delas do que a humildade. A humildade faz com que o maligno fuja, porque ele não pode enfrentar os humildes devido ao seu grande orgulho, e ainda faz com que todas as tentações desapareçam subitamente, porque não pode haver tentação sem um toque de orgulho. As tentações surgem contra a pureza, contra a fé ou contra qualquer outra virtude, mas podemos vencê-las facilmente se nos humilharmos no nosso coração e dissermos: 'Senhor, eu mereço estas terríveis tentações como castigo do meu orgulho, e se não vieres em meu auxílio, certamente cairei. Sinto a minha fraqueza e que não posso fazer nada de bom por mim próprio. Ajuda-me!' 'Vinde em meu auxílio, ó Deus, ó Senhor, apressai-vos a me socorrer' [Sl 69,2].

Quanto mais uma alma se humilha perante Deus, mais Deus conforta essa alma com a sua graça e, uma vez que Deus está conosco, quem prevalecerá contra nós? 'O Senhor é o protetor da minha vida, de quem terei medo?' [Sl 26,1] disse o rei Davi; e São Paulo disse: 'Se Deus é por nós, quem será contra nós?' [Rm 8,31]. O subterfúgio mais forte que o demônio pode empregar para nos fazer cair em tentação é lisonjear a nossa humildade, impedindo-nos assim de sermos humildes, pois se o maligno conseguir persuadir-nos de que temos força suficiente para vencer a tentação, já sucumbimos, como sucumbiram aqueles de quem está escrito que o Senhor humilha 'os que se arrogam a si mesmos e se gloriam na sua própria força [Jt 6,15]. A caridade nunca arrefece, nem o fervor se torna tíbio, a não ser por falta de humildade. Mantenhamo-nos vigilantes, revestidos com a armadura da humildade, e isso será suficiente. Deus ajudar-nos-á na medida da nossa humildade e, com a sua ajuda, poderemos dizer: 'Posso todas as coisas naquele que me fortalece' [Fp 4,13].

37. Quanto a essas outras tentações, deve haver certamente presunção da nossa parte quando as procuramos por nossa própria vontade e nos colocamos em ocasiões perigosas de pecado. Aquele que é humilde conhece a sua própria fraqueza; e, conhecendo-a, teme colocar-se em perigo; e porque o teme, foge dele. Aquele que é humilde confia implicitamente na ajuda da graça divina, nas ocasiões involuntárias que possa encontrar, mas nunca presume da ajuda da graça divina nas ocasiões que ele próprio procurou.

Sejamos humildes e a humildade ensinar-nos-á a temer e a evitar todas as ocasiões perigosas. Na vida dos santos, lemos como eles eram cuidadosos em evitar relações familiares com as mulheres; e também na vida das mulheres santas, como elas eram igualmente cautelosas em evitar a familiaridade com os homens. Porque é que elas temiam tanto, se já tinham tantas penitências e orações para se defenderem da tentação? A razão é que eram humildes e desconfiavam da fraqueza da natureza humana sem presumir da graça; e assim a sua humildade foi o meio pelo qual mantiveram a sua pureza imaculada.

Podeis dizer: 'Posso colocar-me no caminho da tentação, mas não tenho medo, porque não vou pecar'. Esta é uma temeridade que provém do orgulho, como diz São Tomás: '“Esta é uma verdadeira temeridade e é causada pelo orgulho' [22 qu. liii, art 3, ad 2] e ficaríeis envergonhado por uma queda inesperada. 'Aquele que ama o perigo perecerá nele' Eclo 3,27]. Todos os que assim se atrevem cairão sem dúvida, e sua queda é o justo castigo de seu orgulho, como predisse o profeta: 'Isto lhes sucederá por causa da sua soberba' [Sf. 2,10].

38. Deus resiste aos orgulhosos, porque os orgulhosos se opõem a Ele; mas Ele dispensa as suas graças liberalmente aos humildes, porque eles vivem em sujeição à sua vontade. Ó se humildemente déssemos lugar aos dons divinos, quão grande seria a abundância dessa graça em nossas almas! Uma das piores consequências da nossa falta de humildade é que ela nos tornará tão terrível o dia do Juízo Final, porque nesse dia não só teremos de prestar contas das graças que recebemos e das quais fizemos mau uso, mas também das graças que Deus nos teria dado se fôssemos humildes, e que Ele nos negou por causa do nosso orgulho.

Será inútil, então, desculparmo-nos dizendo que caímos em tal ou tal pecado por falta de graça. 'A graça existia' - responderá o Senhor - 'mas deveríeis tê-la pedido com humildade e não a terdes perdido pelo vosso orgulho'. O orgulho é um obstáculo mais duro que o aço, que impede a infusão benéfica da graça na alma. E é doutrina de São Tomás que é precisamente pelo orgulho que a nossa alma é colocada num estado tal 'que fica privada de todo o bem espiritual interior' [22, qu. cxxxii, art. 3]. Desejas a graça neste mundo e a glória no outro? Humilhai-vos, diz São Tiago: 'Sede humildes diante do Senhor e Ele vos exaltará' [Tg 4,10]. Deus criou do nada tudo o que vemos no nosso mundo, quando 'a terra era vazia e sem nada' [Gn 1,2] e encheu de azeite todos os vasos vazios com que a viúva presenteou Eliseu: 'ânforas vazias em grande quantidade' [2Rs 4,3]. E enche também com a sua graça os corações vazios de si mesmos, isto é, que não têm autoestima nem auto-confiança e não confiam nas suas próprias forças.

É muito humilhante refletir sobre isso, que mesmo que estejamos isentos de pecados graves, ainda assim, por alguma desordem secreta dentro de nós, podemos ser tão culpados como se os tivéssemos cometido. Porque, se o orgulho surge em nossos corações e nos leva a nos considerarmos melhores do que aqueles que cometeram esses pecados, somos imediatamente culpados e piores do que eles aos olhos de Deus, porque, como o Espírito Santo diz: 'O orgulho é odioso diante de Deus' [Eclo 10,7]. São Lucas, em seu Evangelho [Lc 18,11] registra dois tipos diferentes de vaidade demonstrados pelo fariseu, um quando ele se louvou pelos pecados que não cometeu, o outro quando ele se louvou pelas virtudes que praticou: e ele foi igualmente condenado por cada uma dessas declarações vãs.

Aparentemente, ele manifestou toda a glória a Deus quando disse: 'Ó Deus, eu Te dou graças'. Mas isso não passava de uma ostentação de autoestima. É muito fácil para esses pensamentos de vanglória se insinuarem em nossos corações: e quem pode me garantir que não sou culpado de muitos deles? 'O que eu fiz abertamente eu vejo' - posso dizer com mais verdade do que São Gregório - 'mas o que eu senti interiormente eu não vejo' [Lib. 9, Mor., c. 17]. Ó meu Deus, meu Deus, 'que nenhuma iniquidade tenha domínio sobre mim' [Sl 118,133]. Não me deixeis ser dominado pelo orgulho, que é a soma de todas as maldades; limpai-me dos meus pecados secretos. Purificai-me dos pecados de orgulho de que sou ignorante e 'então serei imaculado' [Sl 18,14]. Este pensamento, diz São Tomás, faz com que todo o homem justo se considere pior do que um grande pecador: 'O justo, que é verdadeiramente humilde, considera-se pior, porque teme que, naquilo que parece fazer bem, venha a pecar gravemente por orgulho' [supl. 3 part. qu. 6, art. 4].

('A Humildade de Coração', de Fr. Cajetan (Gaetano) Maria de Bergamo, 1791, tradução do autor do blog)