quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A CONVERSÃO QUE NÃO VAI CHEGAR NUNCA

I. Não morre como justo senão quem vive como justo

Preciosa é a morte do justo! Morre Estêvão, primeiro dos mártires, cheio do Espírito Santo; e vê os Céus abertos e Jesus sentado à direita de Deus. Morre com a alegria mais serena no espírito: 'Senhor Jesus, recebei o meu espírito'. 

Quem é que não deseja ter a morte dos justos? 'Que eu morra da morte dos justos' (Nm 23, 10), disse até aquele que depois morreu como ímpio. E, todavia dizem, e desejam incessantemente morrer como justos aqueles que porém querem viver como ímpios. Mas é vão este seu desejo: 'o desejo dos ímpios perecerá' (Sl 111, 10). Não morre como justo senão quem vive como justo. Não morre como santo senão quem vive como santo. Quem vive mal, morre mal; quem vive em pecado morre em pecado.

Sei o que me quererei opor, ó pecadores: que espereis morrer bem embora agora vivais mal, porque quereis converter-vos no momento da morte. Vãs esperanças; na morte vós não vos convertereis. Vós podeis morrer repentinamente, como em nossos dias muitos morrem. Mas eu quero que vós tenhais todo o tempo. E não obstante, vos provo que não vos convertereis. Tenhais toda a oportunidade de sacerdotes entendidos que vos ajudam; vós não vos convertereis.

II. Quem não quer converter-se agora não se converterá nem mesmo nas últimas

E por primeiro vós não vos convertereis, porque não quereis converter-vos. Parecerá talvez a vós que desde o princípio eu saia do caminho tendo de falar com tais pecadores que querem converter-se na hora da morte. Sei muito bem que vós quereis converter-vos então; mas sei ainda que vós não quereis converter-vos agora. Portanto eu deduzo: não quereis usar bem do tempo nem mesmo nos extremos.

Quem não conhece a força prodigiosa dos hábitos, radicados profundamente para inclinar e arrastar irreversivelmente a vontade aos atos convenientes a ele? Vós, resistindo agora aos convites da graça tão frequentes, aliás, contínuos, habituais o vosso coração a uma dureza, que multiplicada por alguns dias, e agravada incomensuravelmente por tantos anos, no momento da morte se encontrará ter chegado a um grau de aumento realmente monstruoso; de modo que se agora o vosso coração é duro, então será duríssimo. Como pois o quereis romper, como dobrar, como amolecer?

Não é esta simples conjectura, quando o Espírito Santo ajuntar sua sentença. É verdade irrefutável: 'O coração empedernido acabará por ser infeliz' (Eclo 3, 27). Um coração duro, como usa mal do tempo agora, assim o usará mal também. Continuará na sua obstinação, na sua dureza: 'acabará por ser infeliz'. Atingido por tantas dores, por tantas angústias, por tantas tribulações, poderá sim blasfemar; humilhar-se, compungir-se, converter-se, não. 'Acabará por ser infeliz': fará mal até o último instante.

Quantos não morreram em nossos dias como cães! Não são conjecturas estas, são fatos. Não são fatos acontecidos somente no passado; neste tempo tão depravado, veem-se acontecer quase diariamente. Batidos, afligidos, angustiados pelos males - diz a Escritura - estrebucham, retorcem-se horrivelmente mais que mares agitados; e longe de fazer penitência para dar glória a Deus, blasfemam o Altíssimo que com tanto poder os flagela. 'E blasfemaram o nome do Deus Todo-Poderoso sobre estas pragas, e não fizeram penitência para dar-lhe glória 1 e 'E comem sua língua pelas dores'. E tornam a blasfemar o Deus do céu. 'E blasfemaram o Deus do céu pelas suas dores e feridas'. Não se convencem nem mesmo nas últimas, de arrepender-se de tanta iniquidade; 'e não fizeram penitência pelas suas obras' (Ap 16, 9-11).

III. No momento da morte não podereis converter-vos porque não estais em condições de fazê-lo.

Mas vamos! Quero a todo custo o vosso bem. Tendes não só todo o tempo e toda oportunidade, mas mais ainda, todo o desejo de converter-se, como desejais tê-lo então? Será vã a vossa vontade, porque então não podereis. Como? Oh! Deus! Você então nos desespera? Não; antes quero que previnais o perigo de desesperar-vos não deixando para aquele momento a vossa conversão, mas fazendo logo, aquilo que não podereis então.

De fato, dizei-me, por favor: se uma dor de cabeça, uma dor de dentes, que depois de alguns dias passa, vos abate e vos ocupa a mente que não podeis pensar em outra coisa, nem fazer algo senão sentir vosso desgosto e padecer; que farão as dores e os espasmos da morte? Com as forças exauridas, nada, com o corpo arruinado, se não podeis ser aptos à menos ação, como o sereis à maior cheia de enormes dificuldades que é converter-se num momento de uma vida má e acostumada durante tantos anos ao mal? Se os próprios bons, quando a doença se agrava, se encontram incapazes, e são acostumados sempre a orar, a fazer atos de contrição, de esperança, de amor; e apesar disso sentem então grande dificuldade; como não a sentirão maior e insuperáveis os pecadores, habituados sempre ao mal e sem nenhum exercício ao bem?

A fantasia agitada, escurecida, estranhamente alterada, não apresentará ao intelecto senão imagens de terror, fantasmas de confusão, visões medrosas de objetos estragados e desfigurados. A apreensão do juízo iminente e da eternidade próxima, os atrocíssimos remorsos de consciência que farão ver o pecado muito diferente daquele que parecia durante a vida; porque aqui se via quase como um cãozinho festivo que se acaricia nos braços, e lá aparecerá como uma enorme serpente ou como um dragão poderosíssimo e venenoso.

O demônio que andará à roda com grandíssima raiva para devorar, como diz São Pedro (1Pd 5, 8-9), duplicará suas tentações, apertará o cerco, se esforçará com os assaltos para fazer desesperar; farão chegar aos últimos degraus o temor, o espanto, a consternação. O temor, quando é moderado - diz São Tomás - torna os homens solícitos para consultar e agir; mas quando se torna excessivo, tolhe de fato não só a ação, mas também o pensamento (São Tomás, I - II, q. 44, a. 4 c.). Imaginai o que fará então aquele temor que é levado ao mais alto grau, isto é, à agonia.

IV. Exemplo

Ouvi da própria boca do Pontífice São Gregório Magno um fato horrível de ser ouvido, acontecido na sua época, não só, mas em Roma, debaixo dos seus olhos, no seu próprio mosteiro, poucos anos antes que ele o narrasse ao povo romano em uma homilia, e o tornasse conhecido a todo o mundo cristão registrando-o nos seus Diálogos. Assim diz o Santo: 

'Houve um certo Teodoro, jovem muito inquieto, que mais por necessidade que por vontade veio seguindo um seu irmão ao meu mosteiro. Ele afirmava com juramento, com raiva, com escárnio que por si não chegaria jamais ao hábito da santa conversação. Agora no meio daquela pestilência que logo consumiu uma grande parte da população desta cidade, atingido pelo mal ele mesmo, chegou à morte. E estando para dar o último suspiro, reuniram-se os irmãos para proteger com a oração o seu pensamento. Nas extremidades do corpo já estava morto; somente no peito ainda continuava o desejo de calor vital. Começaram, portanto, os irmãos a reforçar as preces, quando já o viam partir a qualquer momento. 

De repente começou ele a gritar aos confrades assistentes e a interromper com grandes gritos suas orações dizendo: 'ide embora, ide embora daqui. Eis que eu fui dado para ser devorado por um dragão, que não acaba de devorar-me. Já absorveu minha cabeça na sua boca. Que se faça logo, para que eu não sofra mais aquilo que se é para fazer. Se fui entregue a ele, que me devore; porque vós me fazeis sofrer demora tão amarga?'

Então os irmãos começaram a dizer-lhe: 'Irmão, o que é isto? Faça o sinal da Santa Cruz. Mas ele respondia com gritos agudos: 'Sim eu quero persignar-me, mas não posso. As escamas deste dragão me oprime, não posso, não posso'. Oh! Deus! Pecador, pecadora, que estais aqui para ouvir estas coisas e outras acontecidas, cuidai, cuidai. Que não aconteçam para vós, que tenhais que gritar por desespero: 'Não posso, não posso!' E certamente vos acontecerá não poder então, se agora, quando podeis, não quereis.

V. Aquele que não quis fazer bem quando podia, não encontrará possibilidade de fazê-lo quando quiser

Mas concedamos por último que vós, tendo todos os sentidos livres, possais também valer-vos dos auxílios que Deus possa dar-vos naqueles extremos instantes para converter-vos. O mais terrível, será se vós não o tiverdes; e se os tiverdes suficientes, não os tereis eficazes, porque Deus não vo-los fará; e por isso não vos convertereis.

Deus mesmo protesta não querer dá-los a vós. 'Eu vos chamei' - diz Ele - 'tantas vezes nesta vida e vós não me quisestes responder' (Jr 7, 13). Eu vos procuro e vos persigo amorosamente com a minha graça; e vós fugis sempre mais longe. Pois bem virá o tempo, virá a morte. 'Procurar-me-eis; naquele momento procurareis a mim; e não me encontrareis' (Jo 7 34, 36), 'morrereis no vosso pecado' (Id 8, 21). 'Levantem-se para dar-vos auxílio e defender-vos aqueles amigos que para agradá-los não duvidastes ofender-me. Levantem-se para proteger-vos aquelas criaturas em que colocastes o vosso afeto, vossas esperanças, vosso coração, tirando-o ingratamente de mim que o pedia: Levantem-se para vos socorrer (Dt 32, 38). Eu fecharei meus ouvidos aos vossos clamores; não mais me deixarei encontrar naquele dia; encherei o meu templo de fumaça pela majestade e pelo poder da minha justiça, a fim de que nenhum santo possa ir e interceder por vós até que não seja consumada a minha vingança' (Ap 15, 8).

Mas então o senhor não é misericordioso? Sim, irmãos, mas Ele é também justo. Como misericordioso vos procura, vos espera, vos promete perdão agora; como justo fugirá de vós, vos repelirá, vingar-se-á até a morte de um abuso tão longo que vós fizestes das suas misericórdias. Como misericordioso vos faz exortar agora: 'porque não se alegra com a perdição dos ímpios, nem quer a morte do pecador, mas que se converta e viva' (Ez 33, 11).

Como justo vos deixará abandonados ao vosso desespero, ou endurecidos na vossa cegueira ir a té a perdição e morrer eternamente, porque se compraz da sua justiça: 'Porque o Senhor é justo e ama a justiça' (Sl 10, 18). Como antes pela sua misericórdia, alegrou-se o Senhor sobre vós fazendo-vos o bem e multiplicando sobre vós suas graças; assim pela sua justiça se alegrará em perder-vos, em destruir-vos para tirar-vos de fato da posse daquela terra feliz de alegria e de repouso eterno, em que, estando com os pés na soleira, vos confiareis em vão colocar os pés. Concluo com Santo Agostinho: 'Esta pena é justíssima com aquele que não quis fazer o bem quando podia, não encontre mais possibilidade de fazê-lo quando quiser'.

VI. Apressar a conversão

Se vã é a ilusão de morrer bem para o pecador que não quer converter-se logo enquanto está são e tem todos os meios oportunos, daí segue que vós não deveis deixar escapar da mão a ocasião favorável destes dias de graça e de reconciliação, para colocar vossa alma na amizade com Deus, e assegurar a vossa salvação. Portanto entendereis porque eu quis entristecer-vos com um arrazoado sobre a morte; porque eu olhei mais ao útil, antes à necessidade de alguns, que ao agrado, embora santo, de muitos e à minha própria inclinação. 

O que adianta, irmãos caríssimos, que vos digamos coisas bonitas se muitos de vós permaneçam em pecado mortal? E perseverem nas suas práticas? Nas suas dissoluções? Nas suas iniquidades? Vêm à igreja e à pregação pecadores, e depois voltam a pecar. Vêm às santas solenidades com pecado na alma e com ele continuam depois. Oh! Deus! E depois querem fazer uma boa morte? Engano, presunção, audácia detestável.

Ah! irmãos, acolhei esta luz que vos deram minhas palavras, e que eu por vós implore do nosso Pai que está nos céus com toda a instância do meu coração. Levantai-vos das trevas! 'Levantai-vos do sono agora que está próxima a vossa salvação' (Rm 13, 11). Não percais tempo. Chorai, parti o vosso coração endurecido com uma salutar contrição. Resolvei mudar estavelmente de vida, mas logo, neste mesmo instante. Confessai vosso pecado; mas o mais depressa! Empreendei, fugi da má morte, já próxima de vós de modo que começa a cobrir-vos com a sua sombra; assegurai-vos antes que consiga colocar sobre vós suas gélidas mãos. Pois então não tereis mais salvação; mas perecerão eternamente convosco todos os vossos bons desejos jamais conseguidos, por vossa culpa, com efeito.

(Excertos da obra 'Páginas de Vida Cristã', do Pe. Gaspar Bertoni)