quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A CONVERSÃO QUE NÃO VAI CHEGAR NUNCA

I. Não morre como justo senão quem vive como justo

Preciosa é a morte do justo! Morre Estêvão, primeiro dos mártires, cheio do Espírito Santo; e vê os Céus abertos e Jesus sentado à direita de Deus. Morre com a alegria mais serena no espírito: 'Senhor Jesus, recebei o meu espírito'. 

Quem é que não deseja ter a morte dos justos? 'Que eu morra da morte dos justos' (Nm 23, 10), disse até aquele que depois morreu como ímpio. E, todavia dizem, e desejam incessantemente morrer como justos aqueles que porém querem viver como ímpios. Mas é vão este seu desejo: 'o desejo dos ímpios perecerá' (Sl 111, 10). Não morre como justo senão quem vive como justo. Não morre como santo senão quem vive como santo. Quem vive mal, morre mal; quem vive em pecado morre em pecado.

Sei o que me quererei opor, ó pecadores: que espereis morrer bem embora agora vivais mal, porque quereis converter-vos no momento da morte. Vãs esperanças; na morte vós não vos convertereis. Vós podeis morrer repentinamente, como em nossos dias muitos morrem. Mas eu quero que vós tenhais todo o tempo. E não obstante, vos provo que não vos convertereis. Tenhais toda a oportunidade de sacerdotes entendidos que vos ajudam; vós não vos convertereis.

II. Quem não quer converter-se agora não se converterá nem mesmo nas últimas

E por primeiro vós não vos convertereis, porque não quereis converter-vos. Parecerá talvez a vós que desde o princípio eu saia do caminho tendo de falar com tais pecadores que querem converter-se na hora da morte. Sei muito bem que vós quereis converter-vos então; mas sei ainda que vós não quereis converter-vos agora. Portanto eu deduzo: não quereis usar bem do tempo nem mesmo nos extremos.

Quem não conhece a força prodigiosa dos hábitos, radicados profundamente para inclinar e arrastar irreversivelmente a vontade aos atos convenientes a ele? Vós, resistindo agora aos convites da graça tão frequentes, aliás, contínuos, habituais o vosso coração a uma dureza, que multiplicada por alguns dias, e agravada incomensuravelmente por tantos anos, no momento da morte se encontrará ter chegado a um grau de aumento realmente monstruoso; de modo que se agora o vosso coração é duro, então será duríssimo. Como pois o quereis romper, como dobrar, como amolecer?

Não é esta simples conjectura, quando o Espírito Santo ajuntar sua sentença. É verdade irrefutável: 'O coração empedernido acabará por ser infeliz' (Eclo 3, 27). Um coração duro, como usa mal do tempo agora, assim o usará mal também. Continuará na sua obstinação, na sua dureza: 'acabará por ser infeliz'. Atingido por tantas dores, por tantas angústias, por tantas tribulações, poderá sim blasfemar; humilhar-se, compungir-se, converter-se, não. 'Acabará por ser infeliz': fará mal até o último instante.

Quantos não morreram em nossos dias como cães! Não são conjecturas estas, são fatos. Não são fatos acontecidos somente no passado; neste tempo tão depravado, veem-se acontecer quase diariamente. Batidos, afligidos, angustiados pelos males - diz a Escritura - estrebucham, retorcem-se horrivelmente mais que mares agitados; e longe de fazer penitência para dar glória a Deus, blasfemam o Altíssimo que com tanto poder os flagela. 'E blasfemaram o nome do Deus Todo-Poderoso sobre estas pragas, e não fizeram penitência para dar-lhe glória 1 e 'E comem sua língua pelas dores'. E tornam a blasfemar o Deus do céu. 'E blasfemaram o Deus do céu pelas suas dores e feridas'. Não se convencem nem mesmo nas últimas, de arrepender-se de tanta iniquidade; 'e não fizeram penitência pelas suas obras' (Ap 16, 9-11).

III. No momento da morte não podereis converter-vos porque não estais em condições de fazê-lo.

Mas vamos! Quero a todo custo o vosso bem. Tendes não só todo o tempo e toda oportunidade, mas mais ainda, todo o desejo de converter-se, como desejais tê-lo então? Será vã a vossa vontade, porque então não podereis. Como? Oh! Deus! Você então nos desespera? Não; antes quero que previnais o perigo de desesperar-vos não deixando para aquele momento a vossa conversão, mas fazendo logo, aquilo que não podereis então.

De fato, dizei-me, por favor: se uma dor de cabeça, uma dor de dentes, que depois de alguns dias passa, vos abate e vos ocupa a mente que não podeis pensar em outra coisa, nem fazer algo senão sentir vosso desgosto e padecer; que farão as dores e os espasmos da morte? Com as forças exauridas, nada, com o corpo arruinado, se não podeis ser aptos à menos ação, como o sereis à maior cheia de enormes dificuldades que é converter-se num momento de uma vida má e acostumada durante tantos anos ao mal? Se os próprios bons, quando a doença se agrava, se encontram incapazes, e são acostumados sempre a orar, a fazer atos de contrição, de esperança, de amor; e apesar disso sentem então grande dificuldade; como não a sentirão maior e insuperáveis os pecadores, habituados sempre ao mal e sem nenhum exercício ao bem?

A fantasia agitada, escurecida, estranhamente alterada, não apresentará ao intelecto senão imagens de terror, fantasmas de confusão, visões medrosas de objetos estragados e desfigurados. A apreensão do juízo iminente e da eternidade próxima, os atrocíssimos remorsos de consciência que farão ver o pecado muito diferente daquele que parecia durante a vida; porque aqui se via quase como um cãozinho festivo que se acaricia nos braços, e lá aparecerá como uma enorme serpente ou como um dragão poderosíssimo e venenoso.

O demônio que andará à roda com grandíssima raiva para devorar, como diz São Pedro (1Pd 5, 8-9), duplicará suas tentações, apertará o cerco, se esforçará com os assaltos para fazer desesperar; farão chegar aos últimos degraus o temor, o espanto, a consternação. O temor, quando é moderado - diz São Tomás - torna os homens solícitos para consultar e agir; mas quando se torna excessivo, tolhe de fato não só a ação, mas também o pensamento (São Tomás, I - II, q. 44, a. 4 c.). Imaginai o que fará então aquele temor que é levado ao mais alto grau, isto é, à agonia.

IV. Exemplo

Ouvi da própria boca do Pontífice São Gregório Magno um fato horrível de ser ouvido, acontecido na sua época, não só, mas em Roma, debaixo dos seus olhos, no seu próprio mosteiro, poucos anos antes que ele o narrasse ao povo romano em uma homilia, e o tornasse conhecido a todo o mundo cristão registrando-o nos seus Diálogos. Assim diz o Santo: 

'Houve um certo Teodoro, jovem muito inquieto, que mais por necessidade que por vontade veio seguindo um seu irmão ao meu mosteiro. Ele afirmava com juramento, com raiva, com escárnio que por si não chegaria jamais ao hábito da santa conversação. Agora no meio daquela pestilência que logo consumiu uma grande parte da população desta cidade, atingido pelo mal ele mesmo, chegou à morte. E estando para dar o último suspiro, reuniram-se os irmãos para proteger com a oração o seu pensamento. Nas extremidades do corpo já estava morto; somente no peito ainda continuava o desejo de calor vital. Começaram, portanto, os irmãos a reforçar as preces, quando já o viam partir a qualquer momento. 

De repente começou ele a gritar aos confrades assistentes e a interromper com grandes gritos suas orações dizendo: 'ide embora, ide embora daqui. Eis que eu fui dado para ser devorado por um dragão, que não acaba de devorar-me. Já absorveu minha cabeça na sua boca. Que se faça logo, para que eu não sofra mais aquilo que se é para fazer. Se fui entregue a ele, que me devore; porque vós me fazeis sofrer demora tão amarga?'

Então os irmãos começaram a dizer-lhe: 'Irmão, o que é isto? Faça o sinal da Santa Cruz. Mas ele respondia com gritos agudos: 'Sim eu quero persignar-me, mas não posso. As escamas deste dragão me oprime, não posso, não posso'. Oh! Deus! Pecador, pecadora, que estais aqui para ouvir estas coisas e outras acontecidas, cuidai, cuidai. Que não aconteçam para vós, que tenhais que gritar por desespero: 'Não posso, não posso!' E certamente vos acontecerá não poder então, se agora, quando podeis, não quereis.

V. Aquele que não quis fazer bem quando podia, não encontrará possibilidade de fazê-lo quando quiser

Mas concedamos por último que vós, tendo todos os sentidos livres, possais também valer-vos dos auxílios que Deus possa dar-vos naqueles extremos instantes para converter-vos. O mais terrível, será se vós não o tiverdes; e se os tiverdes suficientes, não os tereis eficazes, porque Deus não vo-los fará; e por isso não vos convertereis.

Deus mesmo protesta não querer dá-los a vós. 'Eu vos chamei' - diz Ele - 'tantas vezes nesta vida e vós não me quisestes responder' (Jr 7, 13). Eu vos procuro e vos persigo amorosamente com a minha graça; e vós fugis sempre mais longe. Pois bem virá o tempo, virá a morte. 'Procurar-me-eis; naquele momento procurareis a mim; e não me encontrareis' (Jo 7 34, 36), 'morrereis no vosso pecado' (Id 8, 21). 'Levantem-se para dar-vos auxílio e defender-vos aqueles amigos que para agradá-los não duvidastes ofender-me. Levantem-se para proteger-vos aquelas criaturas em que colocastes o vosso afeto, vossas esperanças, vosso coração, tirando-o ingratamente de mim que o pedia: Levantem-se para vos socorrer (Dt 32, 38). Eu fecharei meus ouvidos aos vossos clamores; não mais me deixarei encontrar naquele dia; encherei o meu templo de fumaça pela majestade e pelo poder da minha justiça, a fim de que nenhum santo possa ir e interceder por vós até que não seja consumada a minha vingança' (Ap 15, 8).

Mas então o senhor não é misericordioso? Sim, irmãos, mas Ele é também justo. Como misericordioso vos procura, vos espera, vos promete perdão agora; como justo fugirá de vós, vos repelirá, vingar-se-á até a morte de um abuso tão longo que vós fizestes das suas misericórdias. Como misericordioso vos faz exortar agora: 'porque não se alegra com a perdição dos ímpios, nem quer a morte do pecador, mas que se converta e viva' (Ez 33, 11).

Como justo vos deixará abandonados ao vosso desespero, ou endurecidos na vossa cegueira ir a té a perdição e morrer eternamente, porque se compraz da sua justiça: 'Porque o Senhor é justo e ama a justiça' (Sl 10, 18). Como antes pela sua misericórdia, alegrou-se o Senhor sobre vós fazendo-vos o bem e multiplicando sobre vós suas graças; assim pela sua justiça se alegrará em perder-vos, em destruir-vos para tirar-vos de fato da posse daquela terra feliz de alegria e de repouso eterno, em que, estando com os pés na soleira, vos confiareis em vão colocar os pés. Concluo com Santo Agostinho: 'Esta pena é justíssima com aquele que não quis fazer o bem quando podia, não encontre mais possibilidade de fazê-lo quando quiser'.

VI. Apressar a conversão

Se vã é a ilusão de morrer bem para o pecador que não quer converter-se logo enquanto está são e tem todos os meios oportunos, daí segue que vós não deveis deixar escapar da mão a ocasião favorável destes dias de graça e de reconciliação, para colocar vossa alma na amizade com Deus, e assegurar a vossa salvação. Portanto entendereis porque eu quis entristecer-vos com um arrazoado sobre a morte; porque eu olhei mais ao útil, antes à necessidade de alguns, que ao agrado, embora santo, de muitos e à minha própria inclinação. 

O que adianta, irmãos caríssimos, que vos digamos coisas bonitas se muitos de vós permaneçam em pecado mortal? E perseverem nas suas práticas? Nas suas dissoluções? Nas suas iniquidades? Vêm à igreja e à pregação pecadores, e depois voltam a pecar. Vêm às santas solenidades com pecado na alma e com ele continuam depois. Oh! Deus! E depois querem fazer uma boa morte? Engano, presunção, audácia detestável.

Ah! irmãos, acolhei esta luz que vos deram minhas palavras, e que eu por vós implore do nosso Pai que está nos céus com toda a instância do meu coração. Levantai-vos das trevas! 'Levantai-vos do sono agora que está próxima a vossa salvação' (Rm 13, 11). Não percais tempo. Chorai, parti o vosso coração endurecido com uma salutar contrição. Resolvei mudar estavelmente de vida, mas logo, neste mesmo instante. Confessai vosso pecado; mas o mais depressa! Empreendei, fugi da má morte, já próxima de vós de modo que começa a cobrir-vos com a sua sombra; assegurai-vos antes que consiga colocar sobre vós suas gélidas mãos. Pois então não tereis mais salvação; mas perecerão eternamente convosco todos os vossos bons desejos jamais conseguidos, por vossa culpa, com efeito.

(Excertos da obra 'Páginas de Vida Cristã', do Pe. Gaspar Bertoni)

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

TESTEMUNHAS DE FÁTIMA: A DATA DA REVELAÇÃO

O SEGREDO DEVE SER REVELADO EM 1960!

Cônego Galamba: 'Quando o bispo recusou-se a abrir a carta, Lúcia fê-lo prometer que seria aberta definitivamente e lida ao mundo após a sua morte ou em 1960, o que ocorresse primeiro' (A Verdade sobre o Segredo de Fátima, Pe. Joaquim Alonso, p. 46-47).

John Haffert: 'Na casa do bispo (em Leiria), à mesa, sentei-me à sua direita, com os quatro cônegos. Durante essa primeira cena, o cônego José Galamba de Oliveira dirigiu-se a mim quando o bispo saiu do quarto por um momento e me perguntou: ‘Por que não dizes ao bispo para abrir o Segredo?’ Cuidando de não mostrar minha ignorância acerca de Fátima ― que naquela época era quase completa ― simplesmente olhei para ele sem expressão. Ele continuou: ‘O bispo pode abrir o Segredo. Ele não necessita esperar até 1960’ (Dear Bishop!, John Haffer, AMI 1981, p. 3-4).

Cardeal Cerejeira: Em fevereiro de 1960, o patriarca de Lisboa relatou as instruções que o bispo de Leiria 'lhe havia dado' sobre o assunto do Terceiro Segredo: 'O bispo da Silva fechou (o envelope lacrado por Lúcia) dentro de outro envelope sobre o qual indicava que a carta teria de ser aberta em 1960 pelo mesmo bispo José Correia da Silva, caso ele ainda estivesse vivo, e em caso contrário, pelo patriarca cardeal de Lisboa' (Novidades, 24 de fevereiro de 1960, citado por La Documentation Catholique, 19 de Junho de 1960, col. 751).

Cônego Barthas: Durante a sua conversa com a Irmã Lúcia entre 17 e 18 de outubro de 1946, ele teve a oportunidade de perguntar-lhe sobre o Terceiro Segredo. Ele escreve: 'Quando nos será revelada a terceira parte do segredo?' Já em 1946, responderam-me de maneira uniforme ― Lúcia e o bispo de Leiria ― a esta pergunta, sem duvidar e sem comentário: 'Em 1960'. E quando levei a minha audácia tão longe ao ponto de perguntar sobre o porquê de ser necessário esperar até lá, a única resposta que recebi de ambos foi: 'Porque a Santíssima Virgem deseja que assim o seja'. (Barthas - Fátima, merveille du XXe siecle, p. 83, Fatima-editions, 1952).

Armstrongs: Em 14 de maio de 1953, Lúcia recebeu uma visita dos Armstrongs, que puderam fazer-lhe perguntas sobre o Terceiro Segredo. No seu relato, publicado em 1955, eles confirmaram que o Terceiro Segredo 'teria de ser aberto e divulgado em 1960' (A. O. Armstrong, Fátima, peregrinação à paz, Ed. inglesa, The World’s Work, Kingswood, Surrey, 1955).

Cardeal Ottaviani: Em 17 de maio de 1955, o cardeal Ottaviani, pró-prefeito do Santo Ofício, visitou as carmelitas de Santa Teresa em Coimbra. Ele interrogou a Irmã Lúcia sobre o Terceiro Segredo; e em sua conferência de 1967 recordou: 'A mensagem não deveria ser aberta antes de 1960. Eu perguntei à Irmã Lúcia: Por que esta data? Ela respondeu: Porque será mais claro nessa altura' (La Documentation Catholique, 19 de março de 1967, col. 542).

Padre Joaquim Alonso, arquivista oficial de Fátima: 'Outros bispos também falaram ― e com autoridade ― sobre o ano 1960 como sendo a data indicada para abrir a famosa carta. Assim que, quando então o bispo titular de Tiava e bispo auxiliar de Lisboa perguntou a Lúcia quando deveria ser aberto o Segredo, foi-lhe dada sempre a mesma resposta: em 1960' (A Verdade sobre o Segredo de Fátima, Pe. Joaquim Alonso, p. 46).

Padre Joaquim Alonso: 'Quando Dom José, o primeiro bispo de Leiria, e a Irmã Lúcia acordaram que a carta deveria ser aberta em 1960, eles quiseram obviamente dizer que o seu conteúdo deveria ser tornado público para o bem da Igreja e do mundo' (ibid., p. 54).

Bispo Venâncio: 'Eu penso que a carta não será aberta antes de 1960. A Irmã Lúcia pediu que não fosse aberta antes da sua morte, ou antes de 1960. Estamos já em 1959 e a Irmã Lúcia goza de boa saúde' (A Verdade sobre o Segredo de Fátima, Pe. Joaquim Alonso, p. 46).

Padre Fuentes: Em 26 de dezembro de 1957, o Padre Fuentes entrevistou a Irmã Lúcia, que lhe disse: 'Padre, a Santíssima Virgem está muito triste, porque ninguém faz caso da sua Mensagem, nem os bons nem os maus. Os bons continuam os seus caminhos, mas sem dar importância alguma à sua Mensagem… Não posso detalhar mais, uma vez que é ainda um segredo. Por vontade da Santíssima Virgem, só pode ser conhecido pelo Santo Padre e pelo Senhor Bispo de Fátima – mas nem um nem outro o quiseram ler, para não se deixarem influenciar. Esta é a parte da mensagem [do Terceiro Segredo] da Nossa Senhora que irá permanecer em segredo até 1960'. (A Verdade sobre o Segredo de Fátima, Pe. Joaquim Alonso, p. 103-104).

F. Stein: 'Os testemunhos que têm anunciado a revelação do Segredo para 1960 são de peso tal e tão numerosos que, em nossa opinião, mesmo que as autoridades eclesiásticas de Fátima [em 1959, os próprios estudiosos do assunto estavam ainda na ignorância de que Roma havia pedido ao bispo de Leiria que lhes enviasse o segredo] não se resolvam a publicar o segredo em 1960, eles ver-se-ão forçados a fazê-lo pelas circunstâncias'. (Mensagem de Fátima, julho - agosto, 1959).

Padre Dias Coelho: '… nós podemos servirmo-nos, como um fato inquestionável, desta afirmação do Dr. Galamba de Oliveira (em 1953) em Fátima, Altar do Mundo: A terceira parte do Segredo foi lacrada nas mãos de Sua Excelência, o bispo de Leiria, e será aberta, ou depois da morte da vidente, ou no mais tardar em 1960' (L'Homme Nouveau, no. 269, 22 de novembro de 1959).

terça-feira, 29 de agosto de 2017

29 DE AGOSTO - MARTÍRIO DE SÃO JOÃO BATISTA


Ilustre precursor da graça e mensageiro da verdade, João Batista, tocha de Cristo, torna-se evangelista da Luz Eterna.

O testemunho profético que não cessou de dar com a sua mensagem, com toda a sua vida e a sua atividade, assinala-o hoje com o seu sangue e o seu martírio.


Sempre tinha precedido o Mestre: ao nascer, anunciara a sua vinda a este mundo.

Ao batizar os penitentes do Jordão, tinha prefigurado Aquele que vinha instituir o seu batismo.


E a morte de Cristo redentor, seu Salvador, que deu a vida ao mundo, também João Batista a viveu antecipadamente, derramando o seu sangue por Ele, por amor.


Bem pode um tirano cruel metê-lo na prisão e a ferros; em Cristo, as correntes não conseguem prender aquele que um coração livre abre para o Reino.

Como poderiam a escuridão e as torturas de um cárcere sombrio dominar aquele que vê a glória de Cristo, e que recebe Dele os dons do Espírito?

Voluntariamente oferece a cabeça ao gládio do carrasco; como pode perder a cabeça aquele que tem a Cristo por seu chefe?

Hoje sente-se feliz por completar o seu papel de Precursor com a sua partida deste mundo.


Aquele de quem dera testemunho em vida, Cristo que vem e que já aqui está, hoje proclama a sua morte.

Poderia a mansão dos mortos reter esta mensagem que lhe foge?


Alegram-se os justos, os profetas e os mártires, que com ele vão ao encontro do Salvador.

Todos eles rodeiam João com amor e louvores. E com ele suplicam a Cristo que venha finalmente ter com os seus.

Ó grande Precursor do Redentor, Ele não tarda, Aquele que te libertará para sempre da morte.

Conduzido pelo teu Senhor, entra na glória com os santos!

('Hino ao Martírio de São João Batista', de São Beda, o Venerável, Doutor da Igreja, 673 - 735)

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

28 DE AGOSTO: SANTO AGOSTINHO DE HIPONA


"...Inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Ti."

Dia 28 de agosto é a festa de um dos grandes santos da Igreja, um dos fundadores da chamada Patrística (a fase inicial da formação da Teologia Cristã e seus dogmas). Santo Agostinho nasceu a 13 de novembro de 354, na pequena cidade de Tagaste, perto de Hipona, na Numídia (atual Argélia), filho de Patrício e Mônica (santa da Igreja Católica, cuja festa é celebrada em 27 de agosto). Da vida promíscua ao desvario da sua inclusão em seitas maniqueístas, Santo Agostinho experimentou desde a indiferença até a descrença completa nas coisas de Deus. A resposta da sua mãe, profundamente dolorosa diante a perspectiva da perda eterna da alma do filho amado, foi sempre a mesma: oração, oração, oração! E a conversão de Agostinho foi lenta e profunda: no ano de 382, em Milão, então com 32 anos de idade, o santo foi finalmente batizado, junto com um amigo e o seu filho Adeodato (que morreria pouco tempo depois) por Santo Ambrósio. E que conversão! Sobre o tapete dos pecados passados, da vida desregrada da juventude (que descreveria com imenso desgosto em sua obra máxima ‘Confissões’), nasceria um santo dedicado por inteiro à glória de Deus, pregando como sacerdote e, mais tarde, como bispo de Hipona, que a verdadeira fonte da santidade nasce, renasce e se fortalece na humildade. Combateu com tal veemência as diversas frentes de heresias do seu tempo, incluindo o arianismo e o maniqueísmo, que foi alcunhado de Escudo da Fé e Martelo dos Hereges. Santo Agostinho, Doutor da Igreja e Defensor da Graça, morreu em 28 de agosto de 430, aos 76 anos de idade.

Excertos da Obra: 'Confissões', de Santo Agostinho:

'Amo-te, Senhor, com uma consciência não vacilante, mas firme. Feriste o meu coração com a tua palavra, e eu amei-te. Mas eis que o céu, e a terra, e todas as coisas que neles existem me dizem a mim, por toda a parte, que te ame, e não cessam de o dizer a todos os homens, de tal modo que eles não têm desculpa. Tu, porém, compadecer-te-ás mais profundamente de quem te compadeceres,e concederás a tua misericórdia àquele para quem fores misericordioso: de outra forma, é para surdos que o céu e a terra entoam os teus louvores. Mas que amo eu, quando te amo? Não a beleza do corpo, nem a glória do tempo, nem esta claridade da luz, tão amável a meus olhos, não as doces melodias de todo o gênero de canções, não a fragrância das flores, e dos perfumes, e dos aromas, não o maná e o mel, não os membros agradáveis aos abraços da carne. Não é isto o que eu amo, quando amo o meu Deus, E, no entanto, amo uma certa luz, e uma certa voz, e um certo perfume, e um certo alimento, e um certo abraço, quando amo o meu Deus, luz, voz, perfume, alimento, abraço do homem interior que há em mim, onde brilha para a minha alma o que não ocupa lugar, e onde ressoa o que o tempo não rouba, e onde exala perfume o que o vento não dissipa, e onde dá sabor o que a sofreguidão não diminui, e onde se une o que o que a saciedade não separa. Isto é o que eu amo, quando amo o meu Deus'.

'Aterrorizado com os meus pecados e com o peso da minha miséria, tinha considerado e meditado no meu coração fugir para a solidão, mas tu proibiste-me e encorajaste-me, dizendo: Cristo morreu por todos, a fim de que os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que morreu por eles. Eis, Senhor, que eu lanço em ti a minha inquietação, a fim de que viva, e considerarei as maravilhas da tua Lei. Tu conheces a minha incapacidade e a minha fragilidade: ensina-me e cura-me. O teu Unigênito, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência, redimiu-me com o seu sangue. Não me caluniem os soberbos, porque penso no preço da minha redenção, e como, e bebo, e distribuo, e, pobre, desejo saciar-me dele entre aqueles que dele se alimentam e saciam: e louvam o Senhor aqueles que o procuram'.

domingo, 27 de agosto de 2017

'E VÓS, QUEM DIZEIS QUE EU SOU?'

Páginas do Evangelho - Vigésimo Primeiro Domingo do Tempo Comum


Num dado dia, na 'região da Cesareia de Felipe', Jesus revelou a seus discípulos, num mesmo momento, a sua própria identidade divina e o primado da Igreja. Neste tesouro das grandes revelações divinas, o apóstolo Pedro será contemplado, neste dia, por privilégios extraordinários: seu ato humano de fé perfeita será convertido por Cristo na pedra angular da qual nascerá a Santa Igreja.

Nesta ocasião, as mensagens e as pregações públicas de Jesus estavam consolidadas; os milagres e os poderes sobrenaturais do Senhor eram de conhecimento generalizado no mundo hebraico; multidões acorriam para ver e ouvir o Mestre, dominados pela falsa expectativa de encontrar um personagem mítico e um Messias dominador do mundo. Então, Jesus retira-se para um lugar isolado, afastando-se do júbilo fácil do mundo e das multidões errantes, que O tomam por João Batista, por Elias, por um dos antigos profetas. E se aproxima intimamente daqueles que haverão de ser os primeiros apóstolos da Igreja nascente, compartilhando-lhes na pergunta do juízo de fé: 'E vós, quem dizeis que eu sou?' (Mt 16, 15). A resposta de Pedro é um símbolo da confissão perfeita da sua fé: 'Tu és o Messias, o Filho do Deus Vivo' (Mt 16, 16).

Sim, Jesus Cristo é o Filho de Deus Vivo: Deus feito homem na eternidade de Deus. A missão salvífica de Jesus há de passar não por um triunfo de epopeias mundanas, mas por um tributo de Paixão, Morte e Ressurreição; não pelo manejo da espada ou por eventos feitos de glórias humanas, mas pela humildade, perseverança e um legado de Cruz. A Cruz de Cristo é o caminho da nossa salvação e da vida eterna, ontem e sempre. Por isso, a mesma pergunta se impõe a todos os homens, de todos os tempos: quem é Jesus para nós, o Filho de Deus Vivo da confissão de Pedro ou um arauto de nossas próprias incertezas, refeito sob a ótica dos interesses humanos?

Em resposta ao apóstolo fiel, Jesus vai oferecer a Pedro as primícias do papado e o primado da Igreja, como privilégio da glória, poder e realeza de Cristo: 'Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso, eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la' (Mt 16, 17 - 18). E Jesus vai declarar em seguida o poder universal e sobrenatural da Santa Igreja Católica Apostólica e Romana: 'Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus' (Mt 16, 19). Ligado ou desligado. Poder absoluto, domínio universal, primado da verdade, Cátedra de Pedro. Na terra árida de algum ermo qualquer da 'Cesareia de Felipe', erigiu-se naquele dia, pela Vontade Divina, nas sementeiras da humanidade pecadora, a Santa Igreja, a Videira Eterna.

sábado, 26 de agosto de 2017

SOBRE AS VIRTUDES MORAIS

Introdução 

Para compreender como deve ser o funcionamento do organismo espiritual, é importante saber distinguir, em relação às virtudes teologais, quais são as virtudes morais adquiridas, já descritas pelos moralistas da antiguidade pagã e que podem existir sem o estado de graça, das virtudes morais infusas, ignoradas dos moralistas pagãos e descritas no Evangelho. 

As primeiras, como seu nome indica, adquirem-se pela repetição dos atos sob a direção da razão natural mais ou menos desenvolvida. As segundas são ditas infusas, porque somente Deus pode produzi-las em nós; não são o resultado da repetição de nossos atos: recebemo-las no batismo, como partes do organismo espiritual e, se tivermos a infelicidade de perdê-las, a absolvição no-las restitui. As virtudes morais adquiridas, conhecidas dos pagãos, possuem um objeto acessível à razão natural; as virtudes morais infusas possuem um objeto essencialmente sobrenatural, proporcionado ao nosso fim sobrenatural, que seria inacessível sem a fé infusa na vida eterna, na gravidade do pecado, no valor redentor da Paixão do Salvador, no penhor da graça e dos sacramentos. 

Com relação à vida interior, falaremos primeiramente das virtudes morais adquiridas, depois das virtudes morais infusas e, enfim, das relações de umas com outras.

As virtudes morais adquiridas 

Elevemo-nos progressivamente dos graus inferiores da moralidade natural àqueles da moralidade sobrenatural. Notemos de início, com Santo Tomás, que no homem em estado de pecado mortal costumamos encontrar falsas virtudes, como a temperança no ávaro; ele a pratica não por amor do bem honesto e razoável, não para viver segundo a reta razão, mas por amor deste bem útil que é o dinheiro. Do mesmo modo, se paga suas dívidas, é antes para evitar os aborrecimentos dum processo do que por amor à justiça. Acima dessas falsas virtudes, não é impossível encontrar, mesmo no homem em estado de pecado mortal, verdadeiras virtudes morais adquiridas. Muitos praticam a sobriedade para viver razoavelmente e, pelo mesmo motivo, pagam suas dívidas e fornecem alguns bons princípios aos seus filhos. 

Mas, enquanto o homem permanece em estado de pecado mortal, as verdadeiras virtudes encontram-se em estado de disposição pouco estável (in statu dispositionis facile mobilis), não estão ainda em estado de sólida virtude (difficile mobilis). Por que? Porque enquanto o homem estiver em estado de pecado mortal, sua vontade está habitualmente desviada de Deus; em vez de amá-lO acima de tudo, o pecador se ama a si mais que a Deus, donde a grande fraqueza para realizar o bem moral, mesmo o de ordem natural. 

...

Por conseguinte, para que as verdadeiras virtudes adquiridas não estejam tão-somente em estado de disposição pouco estável, mas em estado de virtude já sólida (in status virtutis), faz-se mister que estejam conexas e, por isso, que o homem não mais esteja em estado de pecado mortal, mas que sua vontade esteja retificada quanto ao fim último. Convém que ame a Deus mais que a si ― se não um amor sentido, pelo menos um amor de estima, real e eficaz. E isso não é possível sem o estado de graça e a caridade. 

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As virtudes morais infusas 

As virtudes morais adquiridas, das quais falamos, bastam, sob a influência da caridade, para constituir o organismo espiritual das virtudes nos cristãos? É necessário que recebamos virtudes morais infusas? O catecismo do Concílio de Trento, em conformidade à Tradição e à decisão do papa Clemente V no Concílio de Viena, a propósito do batismo e seus efeitos, responde: 'A graça (santificante), que o batismo comunica, é acompanhada do glorioso cortejo de todas as virtudes que, por um dom especial de Deus, penetram na alma ao mesmo tempo que esta'. É um admirável efeito da Paixão do Salvador, que se nos aplica pelo sacramento da regeneração. 

Nisso se manifesta grandíssima conveniência, destacada bem a propósito por Santo Tomás. É mister, salienta ele, que os meios sejam proporcionados ao fim. Ora, pelas virtudes teologais infusas somos elevados e retificados quanto ao fim último sobrenatural. Convém, pois, grandemente que sejamos elevados e retificados pelas virtudes morais infusas quanto aos meios sobrenaturais capazes de nos conduzir ao fim sobrenatural. 

Às nossas necessidades, Deus não proveria menos na ordem da graça do que naquela da natureza. Se nessa última Ele nos deu a capacidade de vir a praticar as virtudes morais adquiridas, convém grandemente que, na ordem da graça, dê-nos as virtudes morais infusas. As virtudes morais adquiridas não bastam ao cristão para que ele queira como convém os meios sobrenaturais ordenados à vida eterna. Há, de fato, diz Santo Tomás, uma diferença essencial entre a temperança adquirida, já descrita pelos moralistas pagãos, e a temperança cristã, da qual fala o Evangelho. Aqui existe uma diferença análoga àquela duma oitava, entre duas notas musicais de mesmo nome, separadas por um intervalo completo. 

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Que diferença entre a modéstia filosófica descrita por Aristóteles e a humildade cristã, que pressupõe o conhecimento dos dois dogmas da criação ex nihilo e da necessidade da graça atual para o menor passo no caminho da salvação! Que distância entre a virgindade da vestal encarregada de conservar o fogo sagrado e a da virgem cristã, que consagra corpo e coração para Deus, a fim de seguir mais perfeitamente Nosso Senhor Jesus Cristo! 

Essas virtudes morais infusas são a prudência cristã, a justiça, a força, a temperança e aquelas que as acompanham, tais como a docilidade e a humildade. Elas são conexas com a caridade, no sentido de que a caridade ― que nos retifica quanto ao fim último sobrenatural ― não pode existir sem elas, sem esta múltipla retificação quanto aos meios sobrenaturais de salvação. Ademais, aquele que por um pecado mortal perde as virtudes infusas, perde a retificação infusa quanto aos meios proporcionados a esse fim. Contudo, não se segue que perca a fé e a esperança, nem as virtudes adquiridas, mas estas não lhe são mais estáveis e conexas. De fato, quem está em estado de pecado mortal não ama mais a Deus, tendendo, por egoísmo, a faltar até com seus deveres na ordem natural.

Relações entre as virtudes morais infusas e as virtudes morais adquiridas 

Conforme ao que precede, explicaremos as relações dessas virtudes e sua subordinação. Antes de mais nada, a facilidade dos atos virtuosos não é garantida do mesmo modo pelas virtudes morais infusas e pelas virtudes morais adquiridas. As infusas fornecem uma facilidade intrínseca, sem que se exclua os obstáculos extrínsecos, os quais são afastados pela repetição dos atos que engendram as virtudes adquiridas. 

Inteiramo-nos disso facilmente quando, pela absolvição, as virtudes morais infusas, unidas à graça santificante e à caridade, são recebidas por um penitente que, apesar de ter atrição de suas faltas, não possui as virtudes morais adquiridas. É o que acontece, por exemplo, no caso dos que têm o hábito de irritar-se e que vêm confessar-se, com atrição suficiente, para a Páscoa. Pela absolvição recebe, junto com a caridade, as virtudes morais infusas, dentre as quais a temperança. Contudo, não possui a temperança adquirida. A virtude infusa que ele recebe dá-lhe uma como facilidade intrínseca para exercer os atos obrigatórios de sobriedade; mas essa virtude infusa não exclui os obstáculos extrínsecos, que seriam eliminados pela repetição dos atos que engendram a temperança adquirida. Assim, o penitente deve vigiar-se cuidadosamente para evitar as ocasiões que o fariam recair em seu pecado habitual. 

Daí temos que a virtude adquirida da temperança facilita muito o exercício da virtude infusa de mesmo nome. Como isso se dá? Elas operam simultaneamente, de tal modo que a virtude adquirida está subordinada à virtude infusa, como uma disposição favorável. Da mesma forma, num outro domínio, para o artista que toca harpa ou piano, a agilidade dos dedos, adquirida pela repetição dos atos, favorece o exercício da arte musical que está, não só nos dedos, mas na inteligência do artista. Se lhe sobrevier uma paralisia, ele perde toda agilidade dos dedos, não podendo mais exercer sua arte, devido a um obstáculo extrínseco. Todavia, sua arte permanece em sua inteligência prática, tal como a vemos num músico de gênio vítima de paralisia. Normalmente, ele a possui como duas funções subordinadas que se exercem conjuntamente. O mesmo vale para a virtude adquirida e para a virtude infusa do mesmo nome.

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Notemos enfim que os autores espirituais insistem particularmente, como o Evangelho, em certas virtudes morais que têm ligação mais especial para com Deus, uma afinidade com as virtudes teologais. Ei-las: a religião ou a piedade sólida; a penitência, que presta a Deus o culto e a reparação que Lhe são devidas; a mansidão, unida à paciência; a castidade perfeita, a virgindade e a humildade, virtude fundamental que afasta o orgulho, princípio de todo pecado. A humildade, que nos rebaixa diante Deus para elevar-nos acima da pusilanimidade e do orgulho, e dispor-nos à contemplação das coisas divinas, em união com Deus. Humilibus Deus dat gratiam. É aos humildes que Deus dá Sua graça, tornando-os humildes para cumulá-los. Jesus amava dizer: 'Recebei minha doutrina, pois sou manso e humildade de coração'. Somente Ele, tão assentado em Sua verdade, podia falar em humildade sem perdê-la. 

Essas são as virtudes morais (infusas e adquiridas) que, com as virtudes teologais às quais se subordinam, constituem nosso organismo espiritual. É um conjunto de funções de grande harmonia, ainda que o pecado venial venha meter-lhe, com maior ou menor frequência, falsas notas. Todas as partes de tal organismo espiritual crescem juntas, diz Santo Tomás, como os cinco dedos da mão. É o que prova que não podemos ter uma grande caridade sem possuirmos uma profunda humildade, assim como o galho mais alto de uma árvore se eleva ao céu à medida que sua raiz aprofunda-se cada vez mais no solo. Na vida interior, é preciso garantir que nada venha perturbar a harmonia desse organismo espiritual, como ocorre, infelizmente, com aqueles que, mesmo vivendo em estado de graça, parecem mais ocupados das ciências humanas ou das relações exteriores que do crescimento na fé, na confiança e no amor de Deus. 

(Excertos da obra 'La Vie Spirituelle" do Pe. Garrigou-Lagrange)

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

BREVIÁRIO DIGITAL (LVIII) - ILUSTRAÇÕES DE NADAL (VI)

 Quietem agunt discipuli iubente Christo,postea nauigant trans mare

41. Evangelho (Mt 14. Mc 6. Lc 9. Jo 6): Jesus se afasta da turba para conversar e descansar com os seus discípulos 

Docet, et sanat languidos. Distribuuntur turbae, quasi per contubernia

42. Evangelho (Mt 14. Mc 6. Lc 9. Jo 6): Jesus ensina e cura os doentes e divide a multidão em grupos 

Satiat quinque millia hominum

43. Evangelho (Mt 14. Mc 6. Lc 9. Jo 6): Jesus alimenta 5000 homens

Ambulat super mare IESVS

44. Evangelho (Mt 14. Mc 6. Jo 6): Jesus caminha sobre as águas

Sanatur daemoniacus caecus & mutus

45. Evangelho (Mt 12. Mc 3. Lc 11): A cura de um endemoniado cego e surdo 

 Quaerunt signa a IESV Iudaei

46. Evangelho (Mt 12. Lc 6): Os judeus pedem um sinal a Jesus 


Sanatur Languidus

47. Evangelho (Jo 5): Uma pessoa é curada 

Sanatur hydropicus

48. Evangelho (Lc 14): A cura de um homem hidrópico 

Vocatio ad coenam magnam

49. Evangelho (Lc 14): O convite para o banquete 

Non ascendit ad festum IESVS: quaerunt eum Iudaei

50. Evangelho (Jo 7): Os judeus incitam Jesus mas Ele se recusa a ir para a Judeia 

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

ORAÇÃO A JESUS CRUCIFICADO


Eis-me aqui, ó bom e dulcíssimo Jesus! De joelhos me prostro em vossa presença e vos suplico com todo o fervor de minha alma que vos digneis gravar no meu coração os mais vivos sentimentos de fé, esperança e caridade, verdadeiro arrependimento de meus pecados e firme propósito de emenda, enquanto vou considerando com vivo afeto e dor as vossas cinco chagas, tendo diante dos olhos aquilo que o profeta Davi já vos fazia dizer, ó bom Jesus: ‘Transpassaram minhas mãos e meus pés e contaram todos os meus ossos’.

(Indulgência plenária concedida a quem rezar esta oração com piedosa devoção nas sextas-feiras da Quaresma, diante de uma imagem de Jesus crucificado e depois da comunhão).

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

23 DE AGOSTO - SANTA ROSA DE LIMA


Isabel Mariana de Jesus Paredes Flores y Oliva, descendente dos conquistadores espanhóis, nasceu na Vila de Quives, em Lima, capital do Peru, no dia 30 de abril de 1586. De Isabel passou a Rosa ainda criança, em virtude de sua beleza singular. De Rosa passou a ser Irmã Rosa de Santa Maria, quando ingressou, em 1606, aos vinte anos, na Ordem Terceira Dominicana. E haveria de se tornar, um dia, Santa Rosa de Lima.

Modelo de vida contemplativa e penitência, de jejuns severos e oração contínua, foi movida por diversas experiências místicas, que incluíram dons de cura, previsões, milagres, conversões e domínio sobre os fatores climáticos. Todos os anos, na festa de São Bartolomeu, dia 24 de agosto, Rosa vivia este dia ainda com mais fervor religioso de penitência, oração e despojamento do que o habitual, resumindo numa frase a justificativa por este ato diário de extremo zelo espiritual: 'Porque este é o dia das minhas núpcias eternas'.

E assim ocorreu realmente; com apenas 31 anos de idade, Rosa faleceu em 24 de agosto de 1617 para as suas núpcias eternas. Foi beatificada em 1667, pelo papa Clemente IX e canonizada pelo papa Clemente X em 12 de abril de 1671, como Santa Rosa de Lima, tornando-se a primeira santa da América do Sul. Sua festa litúrgica é comemorada no dia 23 de agosto. Santa Rosa de Lima é padroeira do Peru, das Filipinas e da América Latina.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

ATO DE SUBMISSÃO COMPLETA À SANTA VONTADE DE DEUS

Qui facit voluntatem Patris mei, qui in coelis est, ipse intrabit in regnum coelorum — 'O que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse entrará no reino dos céus' (Mt 7, 21)

Sumário. O que faz a vontade de Deus, entrará no céu; o que não a faz, não entrará. Se portanto quisermos ser salvos, renunciemos à nossa vontade própria, e entregando-a sem reserva a Deus, dizendo frequentes vezes a cada dia: 'Senhor, ensinai-me a cumprir a vossa vontade santíssima; protesto não querer senão o que quereis Vós'. Para que estejamos sempre dispostos a cumprir a vontade divina, é utilíssimo que desde de manhã nos representemos as contrariedades que nos possam suceder durante o dia.

I. 'O que faz a vontade de Deus, entrará no céu; o que não a faz, nele não entrará'. Alguns fazem depender a sua salvação de certas devoções, de certas obras exteriores de piedade e, entretanto, não cumprem a vontade de Deus. Jesus Cristo, porém, diz: 'Não todos aqueles que me dizem: Senhor, Senhor, entrarão no reino dos céus; mas entrará somente o que faz a vontade de meu Pai' — Qui facit voluntatem Patris mei, qui in coelis est, intrabit in regnum coelorum.

Portanto, se nos quisermos salvar e chegar à união perfeita com Deus, habituemo-nos a rogar-lhe sempre com Davi: Doce me, domine, facere voluntatem tuam  — 'Senhor, ensinai-nos a fazer a vossa santa vontade'. Ao mesmo tempo, desfaçamo-nos da vontade própria e entreguemo-la toda inteira e sem reserva a Deus. Quando damos a Deus os nossos bens pela esmola, o alimento pelo jejum, o sangue pela disciplina, damos-lhe a nossa própria pessoa. Eis porque o sacrifício da vontade própria é o sacrifício mais aceito que possamos fazer a Deus; e Deus enriquece de graças ao que o faz.

Porém, para que tal sacrifício seja perfeito, deve ter duas qualidades: deve ser feito sem reservas e constantemente. Alguns dão a Deus a sua vontade, mas com reserva, e semelhante dádiva pouco agrada a Deus. Outros dão a Deus a sua vontade, mas logo em seguida tornam a retomá-la, e estes se expõem a grande risco de serem abandonados de Deus. Por isso, todos os nossos esforços, desejos e orações devem ser dirigidos ao fim de obtermos de Deus a perseverança em não querermos senão o que Deus quer. Habituemo-nos a antever desde de manhã, no tempo da meditação, as tribulações que nos possam suceder no correr do dia e a fazermos continuamente atos de resignação à vontade Divina. Diz São Gregório: Minus iacula feriunt, quae praevidentur — 'São menos dolorosas as feridas antevistas'.

II. Meu Jesus, cada vez que eu disser: 'Louvado seja Deus' ou 'Seja feita a vontade de Deus', tenho intenção de aceitar todas as vossas disposições a meu respeito, no tempo e na eternidade. Só quero o emprego, a habitação, os vestuários, o nutrimento, a saúde que me tendes destinado. Se quereis que meus negócios não surtam feliz êxito, meus projetos se esvaneçam, meus processos se percam, tudo quanto possuo seja roubado, eu também o quero. Se quereis que eu seja desprezado, odiado, posposto aos outros, difamado e maltratado, até por aqueles a quem mais amo, eu também o quero. Se quereis que eu fique privado de tudo, banido de minha pátria, encerrado numa prisão e viva em penas e angústias contínuas, eu também o quero. Se quereis que esteja sempre enfermo, coberto de chagas, estropiado, estendido sobre um leito, abandonado de todos, eu também o quero; tudo seja como Vos agradar e por quanto tempo quiserdes.

Minha vida mesma ponho nas Vossas mãos e aceito a morte que me destinais; aceito igualmente a morte de meus parentes e amigos e tudo o que quiserdes. Quero também tudo o que quereis no que diz respeito ao meu bem espiritual. Desejo Vos amar com todas as minhas forças nesta vida e ir-Vos amar no paraíso como Vos amam os serafins; mas contente fico com o que bem quiserdes conceder-me. Se não quereis dar-me senão um só grau de amor, graça e glória, não quero mais do que isto, porque Vós assim o quereis. Prefiro o cumprimento de Vossa vontade a todos os bens.

Numa palavra, ó meu Deus, de mim e de tudo o que me pertence, disponde como for Vossa vontade; com a minha não tenhais consideração alguma, pois só quero o que Vós quereis. Qualquer que seja o tratamento que me deres, amargo ou doce, agradável ou penoso, aceito-o e abraço-o, porque tanto um como outro me virá de vossa mão. Aceito, meu Jesus, de maneira especial a morte que me espera e todas as penas que devem acompanhá-la, no lugar e momento que for a vossa vontade. Unindo-as à vossa santa morte, ó meu Salvador, Vo-las ofereço em testemunho de meu amor a Vós. Quero morrer para Vos agradar e cumprir vossa divina vontade. Ó Maria, Mãe de Deus, obtende-me esta santa perseverança. 

Excertos da obra 'Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano — Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do Ano Eclesiástico' de Santo Afonso Maria de Ligório)

domingo, 20 de agosto de 2017

A ASSUNÇÃO DA VIRGEM MARIA

Páginas do Evangelho - Solenidade da Assunção de Nossa Senhora

 'O Todo-Poderoso fez grandes coisas a meu favor'

As glórias de Maria podem ser resumidas na portentosa frase enunciada pelo anjo Gabriel: 'Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus' (Lc 1, 30). Ao receber a boa-nova do anjo, Maria prostrou-se como serva e disse 'sim', e por meio desse sim, como nos ensina São Luís Grignion de Montfort, 'Deus Se fez homem, uma Virgem de tornou Mãe de Deus, as almas dos justos foram livradas do limbo, as ruínas do céu foram reparadas e os tronos vazios foram preenchidos, o pecado foi perdoado, a graça nos foi dada, os doentes foram curados, os mortos ressuscitados, os exilados chamados de volta, a Santíssima Trindade foi aplacada, e os homens obtiveram a vida eterna'.

Esta efusão de graças segue Maria na Visitação, pois ela é reflexo da presença e das graças do Espírito Santo que são levadas à sua prima Isabel e à criança em seu ventre. No instante da purificação de São João Batista, o Precursor, Santa Isabel foi arrebatada por inteira pelo Espírito Santo: 'Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo' (Lc 1,41). Por meio de uma extraordinária revelação interior, Santa Isabel confirma em Maria o repositório infinito das graças de Deus: 'Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu' (Lc 1,43).

E é ainda nesta plenitude de comunhão com o Espírito Santo, que Maria vai proclamar o seu Magnificat: 'Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo. Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem. Manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre' (Lc 1, 46-55).

Mãe da humildade, mãe da obediência, mãe da fé, mãe do amor. Mãe de todas as graças e de todos os privilégios, Maria foi contemplada com o dogma de fé divina e católica da assunção, em corpo e alma, à Glória Celeste. Dentre as tantas glórias e honras a Maria, a Igreja celebra neste domingo a Serva do Senhor como Nossa Senhora da Assunção. 

sábado, 19 de agosto de 2017

100 ANOS DE FÁTIMA

Fátima é o acontecimento sobrenatural mais extraordinário de Nossa Senhora e a mais profética das aparições modernas (que incluíram a visão do inferno, 'terceiro segredo', consagração aos Primeiros Cinco Sábados, orações ensinadas por Nossa Senhora às crianças, consagração da Rússiamilagre do sol e as aparições do Anjo de Portugal), constituindo a proclamação definitiva das mensagens prévias dadas pela Mãe de Deus em Lourdes e La Salette. Por Fátima, o mundo poderá chegar à plena restauração da fé e da vida em Deus, conformando o paraíso na terra. Por Fátima, a humanidade será redimida e salva, pelo triunfo do Coração Imaculado de Maria. Se os homens esquecerem as glórias de Maria em Fátima e os tesouros da graça, serão também esquecidos por Deus.

'por fim, o meu Imaculado Coração triunfará'


FÁTIMA EM FATOS E FOTOS (XI)

51. Como se deu a quarta aparição de Nossa Senhora?

Na manhã de 19 de agosto de 1917, um domingo, as crianças tinham ido à missa em Fátima e, depois da missa, seguido até à Cova da Iria, para rezarem o terço com outras pessoas. Retornando a Aljustrel, depois do almoço, Lúcia, Francisco e João (irmão mais velho de Francisco) foram levar o rebanho para pastar nas paragens dos Valinhos. Jacinta não tinha ido porque a mãe não o tinha permitido. Em torno das quatro horas da tarde, Lúcia percebeu claramente a mudança do ambiente e as sensações atípicas que antecediam as aparições de Nossa Senhora. Pediram, então, a João que fosse imediatamente chamar Jacinta, enquanto esperavam ansiosos pelos acontecimentos. Jacinta chegou pouco depois, ofegante da corrida inesperada e cheia de perguntas. Logo em seguida, as crianças perceberam o mesmo relâmpago e a mesma luz brilhante e então viram, mais uma vez, Nossa Senhora pousada sobre uma pequena azinheira situada ali perto, pouco maior que a da Cova da Iria, numa manifestação em tudo similar às aparições anteriores. 



52. Como foi o diálogo de Lúcia com Nossa Senhora nesta quarta aparição?

Como nas aparições precedentes, assim que viu Nossa Senhora, Lúcia iniciou o diálogo:

– Que é que Vossemecê me quer?
– Quero que continueis a ir à Cova da Iria no dia 13; que continueis a rezar o terço todos os dias. No último mês, farei o milagre para que todos acreditem.

– Que é que Vossemecê quer que se faça ao dinheiro que o povo deixa na Cova da Iria?
– Façam dois andores: um leva-o tu com a Jacinta e mais duas meninas, vestidas de branco; o outro que o leve o Francisco, com mais três meninos. O dinheiro dos andores é para a festa de Nossa Senhora do Rosário, e o que sobrar é para a ajuda de uma capela que hão de mandar fazer.
– Queria pedir-1he a cura de alguns doentes.
– Sim, curarei alguns durante o ano.

Então, fez uma pausa e, com uma expressão muito séria, recomendou enfaticamente às crianças:

– Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o inferno, por não haver quem se sacrifique e peça por elas.


E como de costume, Nossa Senhora começou a elevar-se em direção ao nascente até desaparecer na imensa distância do firmamento [Lúcia, Quarta Memória].

53. O que aconteceu no local após a aparição de Nossa Senhora?

A quarta aparição foi a única que não ocorreu na Cova da Iria, mas em Valinhos, um sítio de propriedade de um dos tios de Lúcia e situada a cerca de 500 m de Aljustrel. As próprias crianças cortaram alguns ramos da azinheira sobre a qual Nossa Senhora lhes tinha aparecido e levaram-nos para casa. Os ramos exalavam um perfume sobrenatural e singularmente suave. A mãe de Lúcia, ao sentir este perfume tão particular, teve um lume de convencimento e, a partir de então, limitou bastante o seu ferrenho descrédito em relação às revelações da filha. 

A pequena azinheira foi protegida inicialmente por um círculo de pedras, mas em pouco tempo foi levada pelos fieis e desapareceu por completo. Em 1956, foi edificado no local um monumento evocativo à quarta aparição, de autoria de Maria Amélia Carvalheira da Silva.  


54. Nossa Senhora não fez nenhuma menção ao rapto das crianças e à não aparição do dia 13 de agosto?

Na transcrição formal do diálogo da quarta aparição feito por Lúcia, em sua Quarta Memória, não há nenhuma referência a estes fatos. Entretanto, durante o interrogatório da vidente sobre a correspondente aparição, feito ao pároco de Fátima, Pe. Manuel Marques Ferreira, em 21 de agosto de 1917, Lúcia assinala, sim, a manifestação de Nossa Senhora sobre a enorme gravidade destes acontecimentos. 

Após ratificar a previsão do milagre para a sua última aparição, como já revelara na aparição anterior, Nossa Senhora faz uma severa admoestação em termos da limitação deste mesmo milagre como consequência dos fatos ocorridos: 'se não tivessem abalado contigo para a Aldeia [Aldeia da Cruz, antigo nome de Vila Nova de Ourém, atualmente Nossa Senhora da Piedade], o milagre seria mais conhecido; havia de vir São José com o Menino Jesus para dar a paz ao mundo e havia de vir Nosso Senhor benzer o povo, vinha Nossa Senhora do Rosário com um anjo de cada lado e Nossa Senhora com um arco de flores à roda'.  

Assim, em função dos desdobramentos dos fatos ocorridos, o milagre prometido na última aparição seria mitigado e 'menos conhecido'. Tal admoestação constitui um claro indício da suma gravidade do pecado cometido naquele dia com os videntes de Fátima.


55. Quais foram as impressões sentidas pelas crianças após essa quarta aparição de Nossa Senhora?

A impressão mais marcante sentida pelas crianças nesta aparição foi o apelo final feito pela Virgem, com semblante compenetrado e sério: 'Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o inferno, por não haver quem se sacrifique e peça por elas'. Isto produziu nas crianças um apego ainda maior às penitências e um ardor ainda mais intenso à prática de sacrifícios pela salvação das almas, certamente frutos da santificação delas e fonte de muitas graças dos Céus.

Um episódio desta época que retrata de forma bastante clara estes esforços é o achado de um pedaço de corda grossa e áspera pelas três crianças em uma das estreitas ruas de Aljustrel. Percebendo que a aspereza da corda lhes machucava as mãos, decidiram cortá-la em três pedaços menores e trazê-los amarrados à cintura, quais cilícios improvisados, mesmo durante o sono. Por muitos dias e noites usaram este artifício como instrumento de sacrifício pelas almas, até que Nossa Senhora as recomendou, quando da quinta aparição, que abrissem mão desta penitência, pelo menos durante a noite.