segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

BREVIÁRIO DIGITAL (XLVIII) - AS VISÕES DE TONDAL (I)

A experiência além da morte de uma alma medieval percorrendo o Céu, o Inferno e o Purgatório, guiada pelo seu Anjo da Guarda.


VISÕES DE TONDAL - PARTE I

'Visions du Chevalier Tondal' ou simplesmente 'Visions de Tondal' relata uma experiência pós-morte de um nobre irlandês medieval que, em companhia do seu anjo da guarda, visita o Céu, o Inferno e o Purgatório. A obra original, escrita em latim, data do século XII, sendo de autoria de um monge irlandês chamado Marcus, que se encontrava então em Regensburg, na Alemanha. A obra alcançou grande popularidade ao longo do período medieval tendo sido traduzida para diversos idiomas.

A versão mais famosa da obra, entretanto, é um manuscrito em francês de 1475 de autoria de David Aubert (1453 - 1479) e com iluminuras de Simon Marmion (1450 - 1489), elaborado a pedido da duquesa Margaret de York, e atualmente em domínio do Museu Paul Getty, em Los Angeles. Destinada à devoção privada da duquesa, a obra é caracterizada por uma caligrafia esmerada, sendo ricamente ilustrada por imagens e iluminuras, que tornavam menos abstratas ao leitor as referências e as vinculações com o sobrenatural. 


A história se passa na Irlanda no ano de 1149. O nobre Tondal (Tundale na tradução inglesa) era um homem muito rico e desprovido de quaisquer preocupações espirituais, que vivia pura e simplesmente para ficar cada vez mais rico e para experimentar sem restrições todos os prazeres do mundo. Com uma alma tão atormentada pelo pecado, sua condenação eterna parecia irreversível pelo que Deus permitiu a ele viver a experiência da quase morte, como tentativa extrema de sua conversão e salvação.

Numa certa ocasião, dirigindo-se, mais uma vez, para cobrar pagamentos extorsivos a um de seus muitos devedores, Tondal foi recebido com tanta cortesia e amabilidade pelo seu anfitrião que resolveu aceitar até mesmo o convite para almoçar com a sua família, convite este que foi externado também a muitos amigos que o acompanhavam naquela jornada.



Eis que, de repente, Tondal começa a passar mal, o ar lhe falta, uma dor no peito o paralisa, o coração acelera: 'Jesus Cristo, tem piedade de mim' grita, num último esforço de vida, antes de desabar no chão. Enquanto os presentes acorrem em socorrê-lo e depositar o seu corpo sobre um estrado, o espírito de Tondal abandonou o seu corpo inanimado e começou a adentrar num mundo de completa escuridão. 



Ele estava nas portas do inferno, literalmente voando dentro de um túnel escuro enquanto uma legião de demônios, das formas mais asquerosas e espantosas possíveis, corria em sua direção. Ele compreendeu que estava sozinho e perdido e que o prêmio de seus pecados era a condenação eterna. Quando os demônios já estavam quase o alcançando, um anjo o puxou dali e o arrastou para longe de todos eles. E, identificando-se como o anjo da guarda de Tondal, começou a fazer com a alma dele uma longa viagem pelas diferentes moradas do inferno (Parte II). Em contraste com as belas vestimentas do anjo, em traje azul com tons dourados, Tondal é mostrado nu nas iluminuras, como referência à nudez da alma que ainda não alcançou o paraíso.