TESOURO DE EXEMPLOS (II)

  

201. MORTO E CONDENADO

O conde Orloff e um general russo, ambos incrédulos, juraram por zombaria que o primeiro deles que morresse apareceria ao outro, para comunicar-lhes e há inferno. Poucos meses mais tarde, teve o general de seguir para a guerra, pois as tropas do imperador francês Napoleão haviam invadido a Rússia.

Eis que um dia, ao amanhecer, estando o conde Orloff em seu leito, mas bem acordado, abrem-se de par em par as cortinas do aposento e aparece o general, em pé, com o rosto muito pálido e as mãos sobre o peito. Espantou-se não pouco o conde; maior, porém, espanto, quando ouviu estas palavras:
➖ Existe o inferno e eu estou nele!" - e a visão desapareceu.
Poucos dias depois recebia o conde uma carta em que lhe era comunicada a morte do general. Precisamente o dia e hora, em que aparecera a o conde, recebera uma bala no peito e falecera.

O inferno existe. É uma verdade de fé. Foi Deus que o revelou. De Deus não se zomba impunemente.

202. VENCIDO PELA PACIÊNCIA DE DEUS

A vida do venerável Queriolet, contemporâneo de São Vicente de Paulo, é a mais bela prova da paciência de Deus com o pecador. Até aos trinta anos, esta alma impetuosa vivera numa contínua alternativa de confissões e pecados.

Depois, possuído de um ódio satânico contra Jesus Cristo, partiu para Constantinopla para se fazer maometano. Num bosque da Alemanha foi assaltado por assassinos que, depois de matarem seus dois companheiros, queriam acabar com ele também. Diante da morte iminente, Queriolet fez voto a Nossa Senhora de converter-se se ela o livrasse dos assassinos. 

Ela o livrou, mas ele não se converteu e, não tendo podido fazer-se maometano, fez-se huguenote ao regressar à França. Deus, porém, o seguia como o pastor procura a ovelha desgarrada. Numa tenebrosa noite de grande tempestade, acorda com a queda de um raio sobre a casa. Queriolet saltou do leito como uma fera, cerrou os punhos e blasfemou. 

Qualquer homem já teria cansado de suportá-lo; mas Deus não se cansa e o segue. Em Loudun, uma pobre mulher desconhecida o detém e lhe diz: 'Tu tens um voto a cumprir. Lembra-te de que, naquele bosque na Alemanha, te queriam assassinar?' Queriolet tremeu como naquele dia em que estivera nas mãos dos assassinos. Mas, como o sabia aquela mulher, se ele não comunicara isso a ninguém? Teria Deus suscitado aquela mulher para a sua conversão? Deus ainda tinha compaixão dele para o chamar daquela maneira? Este pensamento venceu-o finalmente, e depois de alguns anos, Queriolet ressuscitava à graça para nunca mais cair, tornando- se a admiração do mundo inteiro por suas virtudes.

Não obstante os nossos grandes pecados, não desesperemos; voltemos a Deus. Ele nos espera.

203. A CONFIANÇA NA PROVIDÊNCIA

Uma vez, estando Santa Catarina muito atribulada, apareceu-lhe Jesus e disse-lhe: 'Catarina, pensa em mim e eu pensarei em ti e em tuas necessidades'. Quando as cruzes, as desgraças e as perseguições nos afligirem, pensemos em Deus, pondo nele a nossa confiança.

Sem a confiança na Providência, como São CamiloSão Jerônimo EmilianiSão João BoscoSão José Cottolengo e tantos outros teriam podido asilar e manter milhares de pessoas, milhares de infelizes? Lede a história deles. Alguma vez chegou a faltar o dinheiro, a roupa, o pão... e o único que não faltou foi a confiança na Providência. E esta encarregava-se de provê-los de tudo.

204. PENSAI NO VOSSO FIM!

Quando Otão III, imperador da Alemanha, impelido pela extraordinária fama de santidade e dos milagres de São Nilo, foi visitá-lo e ofereceu-lhe magníficos presentes, o santo, agradecendo humildemente, assegurou-lhe que em sua pobreza era tão rico, que não carecia de coisa alguma.
➖ Se não quereis aceitar os meus presentes - replicou o imperador - ao menos pedi-me alguma graça para que se não diga que um monarca veio pedir-vos conselhos com as mãos vazias.
➖ Isto sim - respondeu o santo com o rosto iluminado - isto sim. Uma graça, uma só graça desejo muitíssimo, que é: 'Pensai no vosso fim!'

O imperador prometeu não se esquecer daquela recomendação. Feliz foi pois, tendo apenas 22 anos, quando ainda esperava grandes triunfos políticos e quando a sua noiva vinha da Grécia para a ltália, trazendo em dote grandes tesouros e terras, ele morreu em Paternó.

205. O MUNDO É ENGANADOR

Regressando Cristóvão Colombo da América, espalhou-se por toda a Europa a notícia desta região maravilhosa, onde os frutos eram tão grandes que quebravam os galhos das árvores e as montanhas escondiam ouro e prata e as crianças brincavam com pérolas. 

Acudiram então muitos aventureiros desejosos de riquezas e fortunas. Por meio de táticas de dissimulação, aproximaram-se dos índios e, enganando-os, trocavam espelhos, campainhas e outras bagatelas por barras de ouro e prata. E se alguns, percebendo o engano, não queriam dar a verdadeira riqueza em troca de ninharias, obrigavam-nos com violência e até os matavam.

A indignação que sentis ao pensar nessa ignóbil astúcia e crueldade ajudar-vos-á a compreender o que é mundo. O mundo é um mercado diabólico. Satanás sabe que, pelos méritos de Jesus Cristo, possuímos riquezas inestimáveis; conhece, também, a nossa ingenuidade; e por isso percorre as praças do mundo com suas mercadorias infernais (principalmente as más leituras) e muitos são os que se deixam iludir e enganar.

206. CUIDADO COM O MUNDO!

Santo Anselmo, arrebatado em êxtase, viu um grande rio cheio de imundícies e as águas coalhadas de cadáveres de homens, mulheres e crianças. Interrogando o céu sobre o significado daquela visão, foi-lhe revelado que o rio é o mundo e os náufragos são aqueles que o amam.

Essa visão seria, hoje em dia, muito mais espantosa. Por isso é preciso levantar a voz e clamar como Jeremias: 'Fugi dessa Babilônia, se quereis salvar a vossa alma'. Sim; é preciso fugir do mundo, de seus enganos, de suas loucuras, de suas obras. Não podeis servir a dois senhores!

207. NÃO ACREDITAVA NA ALMA

Herbois, amigo íntimo do famoso Robespierre, ambos homens sanguinários, atacava com fúria a existência de Deus e a imortalidade da alma. Foi desterrado em 1795. No desterro, foi acometido de uma febre violenta que o consumia. Com grandes gritos pedia a Deus (ele que dizia não existir Deus) que o socorresse. 

Um soldado, a quem pervertera com suas conversas ímpias, perguntou-lhe:
➖ Olhe; como é que há alguns meses o senhor zombava de Deus e da alma?
➖ Amigo, quem mentia pela boca não era a cabeça, mas o coração. 
E horrorizava aos que o ouviam, gritando:
➖Meu Deus! Meu Deus! Não posso esperar o perdão de minhas maldades? Envia-me quem me console...

Era tão horrível a agonia, que correram a chamar um padre para que o confessasse; mas, quando chegou o padre, o infeliz já estava morto. E o corpo daquele que vivera como animal, foi devorado pelos animais, para os quais não existe outra vida.

208. UMA CONTRARIEDADE QUE SALVA A VIDA

São Francisco de Sales embarcou um dia para Veneza. Naquele navio estava também uma dama distinta com o seu séquito. Ao ver a dama que o santo bispo viajaria no mesmo navio, irritada, insultou-o e exigiu com ameaças que ele ficasse em terra. 

Os companheiros do santo também se irritaram; ele, porém, cheio de mansidão e doçura, desceu da nau, dizendo: 'Neste mar são muito frequentes as tempestades. Quem sabe se não está alguma muito próxima!' A embarcação pôs-se então a caminho. Poucas horas depois, chegava ao santo a notícia de que o navio fôra engolido pelas águas.

209. DANDO A VIDA POR SUAS OVELHAS

Era em 1849. Os canhões retumbavam espantosamente pelas ruas de Paris; uma revolução do povo contra o exército enchia a cidade de ruínas e de ódios, e regava as ruas com sangue humano. Um homem de aspecto venerando, com o rosto transfigurado de dor, apareceu entre os mortos e feridos e exclamou com acento de caridade e aflição: 'Meus filhos, basta! Paz! Paz!'

Ao surgir aquela figura e ao ouvir aquela voz, cessou o fogo; os feridos perguntavam: 'Quem é este homem?' Naquele instante ouve-se uma descarga. Aquele homem caiu ferido e o seu sangue escorreu do seu peito. As suas últimas palavras foram: 
➖ Meu Deus, que o meu sangue seja o último que se derrame aqui.

E assim foi. Cessou a luta. Aquele homem era o arcebispo de Paris, Mons. Affre; era o Pastor que dava a vida pelas suas ovelhas.

210. UM TRABALHO DESTRUÍDO, OUTRO RECOMPENSADO

A natureza é mestra do homem. Há dois insetos muito laboriosos: a aranha e a abelha. A aranha trabalha de manhã e de noite, estende sua teia sutil e anda sem descanso de um fio a outro. Alarga, une, cruza os fios e forma polígonos concêntricos. A abelha, ao contrário, vai de flor em flor, liba o néctar, transformando-o, ao chegar à colmeia, em dulcíssimo mel. Passa o dono da casa e, com a vassoura, destrói furioso o trabalho da aranha; diante do favo de mel, fabricado pela abelha, porém, pára e sorri contente.

Assim é no mundo: todos trabalhamos, uns segundo a palavra de Deus e outros, segundo a palavra do demônio. Mas quando Nosso Senhor passar, destruirá a obra destes e recompensará a daqueles.

211. A ALMA OCIOSA NÃO ENTRARÁ NO CÉU

Como é triste ver um cadáver, frio, inerte, estendido numa cama! Aqueles olhos outrora brilhantes, agora não se movem mais, estão apagados para sempre. Os lábios, antes abertos aos sorrisos e às mais doces expressões do coração, agora estão cerrados e imóveis para sempre. Mais alguns dias e aquele corpo será reduzido a um punhado de pó que o vento poderá espalhar.

Ora, o apóstolo São Tiago diz que, se a nossa fé não estiver acompanhada de boas obras, também ela estará morta (Tg 2, 26). É um corpo que tem todos os meios para agir, para trabalhar, para mover-se... mas não faz nada. Mas, então, que aproveitam os olhos, se não veem? Para que servem os lábios, se não falam? Para que as mãos, se não apalpam?

Façamos o bem enquanto temos tempo, pois como o corpo acaba numa cova, como a planta infrutuosa é cortada e lançada no fogo, do mesmo modo a alma ociosa cairá no inferno. No reino do céu entra somente quem faz a vontade do Pai celeste.

212. QUEM SE HUMILHA...

Quando Santo Hilário chegou, o Concílio já havia começado e os demais bispos estavam reunidos em assembleia. O santo entrou. Todos ocupavam solenemente seus altos assentos e ninguém se moveu, ninguém se levantou para oferecer-lhe o lugar. Então o santo bispo, que se tinha por indigno de estar ao lado dos outros, assentou-se no chão, dizendo humildemente a palavra do profeta: Domini est terra - a terra é de Deus. 

No momento em que o corpo de Santo Hilário, ao assentar-se, tocou a terra, esta ergueu-se de tal modo que colocou o santo à mesma altura dos outros bispos; e todos, vendo o exemplo e o milagre, lembraram se das palavras de Cristo Senhor Nosso: Qui se himiliat exaltabitur - aquele que se humilha será exaltado.

Não nos queixemos se outros nos estimam pouco ou só nos deixam o último posto, ou nos negam aquele pouco mérito que poderíamos ter. Deus saberá exaltar-nos no paraíso.

213. O DOM DA FORTALEZA

Prenderam a virgem Santa Apolônia e, diante de uma fogueira, declararam-lhe que, se não renegasse a Jesus Cristo, seria lançada ao fogo. Vendo a enorme fogueira, ela não só não se espantou, mas mais ainda, movida interiormente pelo Espírito Santo, desembaraçou-se dos soldados, e ela mesma se arrojou às chamas. Foi o efeito do dom da fortaleza.

214. COMO SE CONVERTEU LUÍS VEUILLOT

Este grande escritor católico tinha um filho de muito mau gênio. A mãe dizia a miúdo ao pai: 'Tem paciência: verás como mudará de gênio quando fizer a primeira comunhão'. E assim foi. Tornou-se tão bom, que chegou a conseguir a conversão do pai, até então incrédulo e inimigo de nossa religião.

215. O TRABALHO INÚTIL

Apresentou-se na corte de Henrique IV um homem pedindo ao rei permissão para executar um jogo de muita habilidade, que nunca se vira em nenhuma festa. O rei consentiu e todos foram assistir à façanha. O homem fincou no meio da arena uma estaca de madeira e na ponta colocou uma agulha de coser. Nos olhos de todos notava-se grande curiosidade. 

Eis que o homem, montando em um cavalo arreado, e tendo na mão uma linha muito comprida, passa galopando ao lado da estaca e enfia a linha na agulha, tirando-a pelo lado oposto sem parar. Diante dos calorosos aplausos da multidão, apresenta-se ao rei para receber um prêmio ou um louvor.

➖ Quantos anos empregaste nesse trabalho? - indagou o rei.
➖ Doze anos. Ensaiei, e tornei a ensaiar, trabalhando durante doze anos - respondeu o homem.
➖ Pois bem - replicou o rei - ficarás encarcerado durante doze anos, por teres gasto tanto tempo sem honra para teu rei e sem utilidade para a tua pátria.

Ah! quantos cristãos não terão de ouvir no dia do Juízo: empregastes toda a vida num trabalho que não honrou a Deus nem aproveitou à vossa alma. E é por isso que permanecereis no cárcere do inferno por toda a eternidade.

216. PERDOAR AOS INIMIGOS

Sublime é o exemplo de Santa Joana d'Arc, a jovem singular vinda da Lorena para salvar a França. Depois de haver rompido o cerco de Orleans e de haver levado Carlos VII de triunfo em triunfo até a coroação do mesmo em Reims, foi desprezada, abandonada, atraiçoada. Deus queria indicar-lhe que sua missão terminara e só faltava o supremo sacrifício de sua vida.

Em Compiègne foi feita prisioneira e vendida aos ingleses que a condenaram à fogueira. Apareceu na Praça de Ruão, aos 18 anos de idade, condenada à morte, mas não mostrou nenhum temor. O rei banqueteava-se bem distante dali sem nenhum sentimento de compaixão para com aquela que viera da Lorena para salvar a França.

Quando as chamas envolveram aquele corpo inocente, como numa tormentosa auréola, Joana ergueu os olhos cheios de esperança e exclamou, em alta voz, que perdoava o rei, aos franceses e aos ingleses que a queimavam.

217. ESCOLHEI!

Depois que Moisés explicou ao povo a Lei de Deus, concluiu assim: 'Filhos de Israel, eis que eu ponho hoje diante dos vossos olhos a benção e a maldição; a benção, se observardes os mandamentos de Deus; a maldição, se não obedeceres aos mandamentos do Senhor vosso Deus'. Escolhei! (Dt 11, 26-).

218. A MALDIÇÃO DE UMA MÃE

Antes da aurora foi Agostinho, o santo bispo de Hipona, despertado por uns gemidos e profundos soluços que vinham da rua. Dois homens seminus, de barba e cabelos compridos, sujos, fracos e famintos, tremiam convulsivamente diante da residência do bispo.
➖ Como vos chamais? - perguntou Agostinho.
➖ Paulo e Paládio, responderam sem cessar de chorar.
➖ Tranquilizai-vos, nós vamos ajudá-los.
➖ É impossível tranquilizar-nos. 

Vimos de Cesareia da Capadócia; em nossa família éramos sete irmãos e três irmãs. Ofendemos a nossa mãe viúva e ela nos amaldiçoou e a maldição penetrou em nossa carne, em nosso sangue, em nossos ossos. Livrai-nos, Santo de Deus, da maldição de nossa mãe. E se não o podeis, fazei-nos ao menos morrer.

Santo Agostinho rogou a Deus por eles e os curou. Se tanto pôde, naqueles filhos, a maldição de uma mãe terrena, qual não será terrível, irrevogável e final a maldição de Deus Pai ofendido por nossos pecados: Ite, maledicti, in ignem aeternum?

219. OS MORTOS ESTAVAM DE PÉ...

Quando, na grande guerra europeia, os bolcheviques entraram em Sebastopol, mataram muitas pessoas sem processo prévio algum. Levavam aos escolhos os condenados, atavam-lhes aos pés grandes pedras e os precipitavam ao mar.

Assim foi executado também um almirante; mas quando o atiraram ao mar, desconfiaram que levara consigo documentos importantes. Ordenaram a um escafandrista que fôsse buscar o cadáver. Desceu o homem, mas antes de tocar o fundo do mar, fez sinal para que o erguessem à superfície.

Voltou louco de terror e pronunciava palavras sem sentido. Curado após alguns dias, contou que, ao aproximar-se do fundo do mar, encontrou-se no meio de uma espantosa assembleia: todos os mortos estavam ali de pé e pareciam ir ao seu encontro ameaçando-o com vinganças terríveis. Era um fenômeno natural que, naquele momento, o escafandrista não soube explicar. Os cadáveres que há alguns dias estavam nas águas, que mitigavam a decomposição, tendiam a subir à superfície; mas não podiam pelo peso das pedras que tinham atadas aos pés.

Se a vista de alguns cadáveres, cambaleantes pelo impulso das correntes, fez desmaiar e enlouquecer de susto um homem habituado ao perigo, pensai o que será, então, quando os maus se encontrarem diante do Filho de Deus vivo, agitado pela ira terrível de sua inexorável justiça. Pois então não será mais o Cordeiro que tira os pecados, mas o Leão prestes a destroçar todos os seus inimigos.

220. A RECOMPENSA DO MUNDO

A rainha Isabel da Inglaterra, de triste memória, tinha entre os nobres de sua corte um extraordinário bailarino, chamado Tomás Pando. Quando bailava, todos gritavam com delírio: 'Outra vez! Bis, bis!' E ele continuava bailando. Mas um dia estava tão cansado que suas pernas não lhe permitiam nenhum esforço a mais. 

Mas a fanática rainha gritou: 'Outra vez! Outra vez!'. E Tomás, para fazer-lhe a vontade, bailou, nas últimas voltas, porém, teve vertigem e caiu ao solo. Puseram-se todos a rir, e a rainha gritou: 'Levanta-te boi!' O pobre bailarino ouviu o insulto, mordeu os lábios e levantou-se. No dia seguinte desapareceu da corte. Fugiu para os montes e nunca mais foi visto bailar.

Assim são as recompensas do mundo. Aos aplausos, louvores e sorrisos sucedem quase sempre o abandono, o desprezo e o insulto amargo: 'Levanta-te, boi!'

221. A ORAÇÃO NAS TENTAÇÕES

Em Roma foi metida no cárcere Daria, a santa esposa de Crisanto, por ser cristã e haver convertido inúmeras mulheres da idolatria à verdadeira religião. Empregaram contra ela os mais dolorosos tormentos; puseram em prática todas as astúcias infernais para arrebatar-lhe a virtude, mas tudo em vão.

Levaram-na, finalmente, a um lugar infame; mas Daria, levantando as mãos e os olhos aos céus, pôs-se a orar. Nem bem começara a rezar e eis que aparece, ao lado dela, um majestoso leão disposto a despedaçar a quem quer que se atrevesse a molestá-la (Leonis tutela contumedia divinitus defenditur). Nossa alma está rodeada de terríveis inimigos, como estava a de Santa Daria. Qual será a nossa defesa? A oração. Sem ela não há salvação.

22. SÃO E SALVO NO MEIO DOS LEÕES

O rei Dario proibira severamente toda e qualquer oração. Ora, numa casa com a janela aberta, viu-se um homem orando de joelhos e com o rosto voltado para Jerusalém, a cidade santa. Quem orava era Daniel, o grande ministro do rei.

Espiaram-no muito os inimigos e viram que três vezes ao dia (de manhã, ao meio-dia e à noite), naquela humilde atitude, ele fazia a sua recolhida oração. Foi denunciado e condenado a morrer despedaçado pelos leões. Meteram-no na cova dessas feras e fecharam a abertura da mesma com uma grande pedra marcada com o selo real.

Ao amanhecer Dario, que não pregara os olhos, correu à cova e encontrou Daniel ileso e sorridente. O homem que ora em nome de Jesus será sempre vitorioso. Nem o mundo, nem o leão mais feroz (o demônio) poderão causar-lhe algum dano.

223. O TEMOR DO JUÍZO

Na manhã de 14 de setembro do ano de 258, no campo Sextio, ainda molhado pelo orvalho da noite, degolaram o bispo de Cartago. Prenderam-no os inimigos de Cristo e conduziram-no ao tribunal do procônsul Galério, que lhe fez esta pergunta: 'És tu Táscio Cipriano?'. Ao que Cipriano respondeu com firmeza: 'Sou'. Galério ordenou: 'Que Táscio Cipriano seja degolado'. E o mártir respondeu: 'Deo gratias'.

Mas, quando os soldados se dispunham a executar a sentença; quando, despidos os ornamentos episcopais, os fieis estendiam os seus lenços para recolher o sangue que ia jorrar, o santo tremeu e cobrindo as faces com as mãos exclamou: 'Vae mihi cum ad judicium venero' - ou seja - 'Ai de mim quando vier o Juízo! Foi só por um instante, pois logo inclinou a cabeça e ofereceu a Deus o sacrifício. Se a lembrança do Juízo fazia tremer os mártires, o que será de nós? O que iremos dizer ao divino Juiz?

224. A VITÓRIA SERÁ NOSSA!

Santa Joana d'Arc estava no sítio de Orleans. Combatera por sete horas, sempre calma e intrépida no meio dos soldados. Era chegado o momento de tomar ao inimigo a famosa fortaleza de Tourelles. De repente avançou e tomou a escada para subir impetuosamente até à torre. Feriu-a no peito uma flecha. Jorrou o sangue. Ela empalideceu e tremeu indecisa no meio da escada. Chorando de dor e de medo, desceu a escada e recolheu-se para se curar. Era a debilidade humana. Os ingleses animaram-se e os franceses atemorizados cederam o campo e iniciam a retirada. 

Mas ao primeiro toque de clarim, Joana levanta-se, recorda-se da visão que tivera, das vozes que ouvira e faz uma breve oração. Em seguida, de um golpe arranca a flecha e com o peito manchado de sangue gritou: 'Avante! Seremos os vencedores!' E venceu.

Cristãos, a vida é uma batalha pela conquista do reino de Deus. Se algum dia nos assaltarem o temor e a debilidade, recordemos nossa fé, avivemos nossas convicções e fortaleçamo-nos com a oração. Em seguida, como Santa Joana, sigamos avante, seguros de que a vitória será nossa.

225. ANIMA VESTRA IN MANIBUS VESTRIS

Pe. Segneri costumava contar o seguinte episódio. Havia na praça de Atenas um famoso adivinho, que a todos dava prognósticos, predizia o futuro e descobria o passado. Um dia, querendo zombar dele, apresentou-se um homem astuto que tinha um pequeno passarinho fechado na mão.
➖ Sabes dizer-me - perguntou ao adivinho - se este passarinho está vivo ou morto?
O astuto pensava assim: se ele disser que está morto, eu o deixarei voar mas, se disser que está vivo, eu o apertarei com o polegar e o matarei.

O adivinho, porém, foi mais esperto e respondeu: 'Cavalheiro, esse passarinho está como o senhor quiser: se o quiser vivo, está vivo; se morto, morto'. Todos os espectadores aplaudiram o adivinho.

Amigos, aquela sagaz resposta nós a podemos dirigir também a vós. Vossa alma será qual a quiserdes: se salva, salva; se condenada, condenada.
Anima vestra... in manibus vestris (a sua alma está em suas mãos).

226. CUIDADO COM A ALMA

Conta um poeta latino, Horácio, que um jovem, levado pela loucura de gastar o seu patrimônio, dissolveu em vinagre uma pérola preciosíssima e bebeu-a de um trago (Hor., Sat. II, 3). Um movimento de indignação se apodera do leitor ao recordar tamanha falta de juízo daquele jovem. Mas, que dirão os anjos, quando veem os homens destruir a formosura de sua alma por um amargo prazer?

Um quadro do célebre pintor Rafael ou uma estátua de Miguel Ângelo são avaliadas a preços fabulosos, porque saíram das mãos de artistas famosos. E a nossa alma não saiu das mãos do Artista Supremo? Notai ainda que ela foi criada à semelhança de Deus; leva, pois, em si algo de sua beleza, de sua grandiosidade e da sabedoria de Deus.

227. VIVIA NUMA COLUNA

Um santo ermitão mandou levantar no deserto uma coluna muito alta e no topo da mesma viveu muitos anos. Ali no alto, elevado sobre a terra má e olhando para o céu sereno, repetia com frequência: 'Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo'.

Se todas as vezes que temos rezado o Glória o tivéssemos feito com o respeito daquele anacoreta, quantos méritos não teríamos acumulado para o céu! Quantos méritos se tivéssemos começado e terminado cada uma de nossas orações em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!

228. POR QUE OS PADRES NÃO SE CASAM

Íamos passando diante de uma igreja e um companheiro nosso manifestou desejo de conhecê-la. Como havia na fachada uma grande cruz, julgamos que se tratava de uma Igreja Católica. A um menino que estava ali perto, perguntei:
➖ Sabes onde está o pároco?
➖ Sim; o pastor é o meu pai, eu vou chamá-lo.
➖ Não; não é preciso incomodá-lo. 
Eu tinha compreendido que se tratava de um templo protestante. Mas, por cortesia, tivemos de esperar, pois o menino foi correndo chamar o pai.

Passados alguns minutos, apareceu um certo homem que nos disse:
➖ Desculpai-nos, senhores; mas o pastor não pode vir. Tendo voltado há pouco para casa, encontrou a senhora dele adoentada. O menino, que foi chamá-lo para os senhores, saiu correndo em busca de um médico. Disse-me o pastor que despedisse, sem mais, todos os que desejassem falar-lhe. Pobre pastor! Que pena tenho dele! Uma filha está doente no hospital; um dos filhos está no manicômio e outro em um reformatório. O único filho que tem saúde é o menino que encontraste aqui.

Apenas saímos do templo, disse-me o meu companheiro, um advogado:
➖ Desculpai-me, senhor Padre, se vos digo sinceramente que as palavras desse sacristão me convenceram mais do que as vossas da conveniência do celibato do clero católico. Como  poderia cuidar seriamente de seus paroquianos quem se achasse nas condições de um tal pobre pastor? 

229. O ITALIANO BLASFEMADOR E O JUIZ*

Infelizmente na Itália muitos têm o detestável vício de blasfemar ou xingar a Deus. Numa cidade dos Estados Unidos, onde a blasfêmia é punida severamente, um italiano várias vezes admoestou um patrício que deixasse de blasfemar. Mas a resposta era sempre esta: 'Vai cuidar dos teus negócios!' 

Um dia, porém, um policial, que entendia italiano, ouviu-o blasfemar e sem demora prendeu-o e levou-o ao juiz. Este perguntou-lhe:
➖ Que respondeis à acusação deste policial?
➖ Que blasfemei, mas foi em italiano.
➖ Então pensais que Deus não entende o italiano?!
➖ Mas foi na Itália que me habituei a blasfemar.
➖ E eu, na América, me habituei a condenar os blasfemadores. Por esta vez, condeno-vos a pagar apenas a multa de dez dólares.
➖ Como! tanto dinheiro por uma só blasfêmia?!

E aqui o tal italiano perdeu o controle de si mesmo e soltou outra blasfêmia. E o juiz acrescentou logo:
➖ Por esta segunda blasfêmia pagareis vinte dólares.
➖ Mas isso é uma grave injustiça, senhor juiz. Não sabeis que na Itália... e solta a terceira blasfêmia.
➖ Por esta terceira blasfêmia pagareis trinta dólares; a não ser que prefirais ficar tantos dias na cadeia quanto são os dólares que deveis pagar.
O blasfemador calou-se e aprendeu a lição. Desde aquele dia não mais o ouviram blasfemar.

* no original: 'Dois italianos e o vício de blasfemar'

230. DEVE PREFERIR-SE A TUDO

São João de Gota, um dos mártires do Japão, foi condenado por um tirano. Contava apenas dezenove anos e pouco tempo fazia que entrara na Companhia de Jesus. Indo seu pai despedir-se dele, o jovem, no momento de ser crucificado, disse-lhe:
➖ Meu pai, a salvação deve preferir-se a tudo. O senhor, para assegurá-la, não se descuide de nada.
➖ Muito obrigado, meu filho! Quanto a você, também aguente firme. Sua mãe e eu estamos preparados para morrer pela mesma causa.
E o generoso pai, tendo beijado seu filho mártir, retirou-se molhado pelo sangue da generosa vítima.

231. SUPERSTICIOSO CRUEL

Luís XI, rei de França, condenara à morte um astrólogo por haver pressagiado coisas desagradáveis. Este, em tom profético, disse aos familiares do rei:
➖ Li nos astros que viverei até uma idade avançada e que morrerei três dias antes de sua majestade.
Bastou isso para que o rei revogasse a sentença e prodigalizasse ao astrólogo toda sorte de cuidados para prolongar-lhe a vida.

232. UMA REPRESENTAÇÃO SACRÍLEGA

O imperador Miguel II, de Constantinopla, que contribuíra para o Cisma da Igreja Grega, ordenara que no dia da Ascensão se representasse uma comédia para escarnecer os sacramentos. Na noite seguinte, um espantoso terremoto, acompanhado de furiosa tempestade no mar, devastou aquela cidade. Pouco depois, o imperador, enquanto dormia após uma de suas bebedeiras, foi assassinado pelo seu próprio filho.

233. CORTADOS OS LÁBIOS

A perseguição religiosa, ordenada pela rainha Isabel da Inglaterra, fez inúmeras vítimas. Entre os muitos confessores da nossa fé, achava-se o sacerdote Tiago Bell, que apostatara mas que, depois de haver refletido melhor, se arrependera e trabalhava com muito zelo pela salvação das almas. Preso e condenado à morte, pediu ao juiz que lhe fossem cortados os lábios e os dedos por ter pronunciado o juramento e ter assinado os artigos heréticos contrários à sua consciência e à verdade divina.

234. DE ONDE O SENHOR FUGIU?

Um pastor protestante, que sempre afirmava que os católicos adoram as estátuas e imagens, e que por isso são idólatras, vendo certo dia que uma boa velha rezava devotamente ajoelhada diante de um crucifixo, disse-lhe em tom de mofa:
➖ A senhora adora essa imagem?
A mulher fixou-o admirada e disse:
➖ O senhor está louco? De que manicômio o senhor fugiu? Ajoelho-me diante desta imagem que me representa Jesus Cristo, mas meu coração está com Deus.

235. UM TIRO SACRÍLEGO

Perto de Valença, na Espanha, celebrava-se uma festa em honra do Santo Cristo numa ermida. Muita gente desfilara durante o dia, rezando diante de uma imagem de Jesus. À tarde, quando todos se tinham retirado, voltava da fábrica um operário, o qual, parando no local, puxou do revólver e, com riso satânico, apontou para a imagem e atirou, esmagando-lhe o dedo do pé direito, e depois retirou-se.

À noite, indo a um baile, enquanto se divertia, deixou cair o revólver, que disparou e a bala esmagou-lhe um dedo do pé direito, tal como esmagara o do Cristo da ermida. Um médico o tratou, mas a ferida nunca se fechava. Foi necessário então amputar o dedo, depois o pé, mais tarde a perna, e a gangrena evoluía sempre, e ninguém compreendia porque aquela ferida não se fechava. Era um chaga produzida pela justiça de Deus, chaga que levou o operário a uma morte terrível.

236. QUERIA LIXO COMO FLORES* 

Em 1873 um homem de Wisembach, povoado dos Voges, amontoava imundícies num depósito. Aos que lhe perguntavam para que tudo aquilo iria servir, ele respondia: 
➖ Este lixo eu colocarei como flores nas ruas por onde há de passar a procissão de Corpo de Deus. 

Três dias depois foi atacado de apoplexia, morrendo sem recobrar os sentidos e sendo enterrado no próprio dia da procissão de Corpus Christi.

* no original: 'Queria pô-las como flores'

237. CAIU A PEDRA

No domingo, 22 de dezembro de 1861, em Volterra, alguns jovens se haviam reunido perto de uma muralha, sobre a qual sobressaía uma grande pedra. Um deles, que perdera no jogo, começou a dizer horríveis blasfêmias contra Nossa Senhora. Os companheiros procuraram acalmá-lo, mas ficou ainda pior. Chegada a hora da missa, convidaram-no a entrar com eles na igreja; respondeu-lhes, porém, com a mais horrível das blasfêmias. Apenas tinha fechado a boca, a grande pedra caiu sobre ele e o esmagou.

238. VEREIS COMO ISTO PARA!

Em agosto de 1891, uma aldeia foi açoitada por uma chuva de pedras, que devastou vinhedos e hortas. Vários camponeses reunidos numa taberna se queixavam, blasfemando, da tempestade que os arruinava. O taberneiro, furioso, blasfemava mais do que todos e, tomando uma espingarda, saiu à rua, dizendo: 'Atirarei contra Deus e vereis como isto para já!'

O blasfemo ergueu a espingarda contra o céu... mas, no momento preciso, caiu um raio, matando-o juntamente com um cigano que o acompanhava.

239. COMPADECIAM-SE DELE!

Na cidade de Gênova, em maio de 1902, enquanto os fiéis saíam da igreja de São Teodoro, após as funções sagradas, um indivíduo começou a insultar os que tinham ido à igreja e a blasfemar contra Deus e Nossa Senhora. Os fiéis que passavam, espantados, compadeciam-se dele. De repente, o homem calou-se, empalideceu e caiu como que fulminado por um raio. Toda tentativa para socorrê-lo foi inútil.

240. CEGO PELO RESTO DA VIDA

Um homem voltava da venda depois de ter ouvido ali toda sorte de impiedades. Ao ver o crucifixo à cabeceira da cama, pôs-se a blasfemar e xingar a sagrada imagem. Foi além: tomou uma faca e arrancou sacrilegamente os olhos do crucifixo. No dia seguinte começou a sentir uma dor agudíssima nos olhos. Levaram-no ao hospital, de onde saiu completamente cego, vendo-se obrigado a mendigar até o fim da vida.

241. NEGRO COMO CARVÃO

Um jovem universitário, inteligente mas incrédulo, achava-se em férias em casa de família amiga. Uma noite, à hora do jantar, proferiu horríveis blasfêmias contra a Imaculada Conceição; tais, como nunca se tinham ouvido naquela casa. Ficaram todos horrorizados e a dona esteve a ponto de mandá-lo embora. Retiraram-se aborrecidos e silenciosos, pedindo a Nossa Senhora que lhe perdoasse. Na manhã seguinte, quando o foram despertar, encontraram-no morto e negro como carvão.

242. EXPIAÇÃO

Um capelão francês visitava uma ambulância e aproximando-se de um soldado, disse-lhe:
➖ Amigo, disseram-me que você está gravemente ferido e que sofre muito.
➖ Por favor, levante o cobertor que me cobre.
Horrorizado viu o capelão um peito robusto sem braços.
➖ Não se assuste - disse o soldado - levante agora a coberta dos pés.
Faltavam as pernas até os joelhos.
➖ Pobrezinho! - exclamou o sacerdote.
➖ Não se compadeça de mim, padre; dê-me antes parabéns, porque antes da guerra eu reduzi ao mesmo estado uma imagem de Jesus Crucificado.

'Foi assim: ao chegarmos à encruzilhada do caminho, eu e meus companheiros encontramos um grande crucifixo e o enchemos de insultos e blasfêmias. Quis avantajar-me a eles em impiedade e, com o meu sabre, cortei os braços e as pernas da imagem. Quando começaram a sibilar as primeiras balas é que compreendi a enormidade do meu crime. Lembrei-me de minha igreja, de meu vigário, de minha defunta mãe, de meu catecismo.

Pedi a Deus que me castigasse nesta vida. E Deus me ouviu como o senhor está vendo. Como tratei ao crucifixo, assim fui tratado. Quanto maiores forem os meus sofrimentos, tanto maior será o meu consolo, pois assim estou seguro de que Deus me quer perdoar'.

243. JORGE WASHINGTON

Certa vez Jorge Washington estava sentado à mesa com alguns oficiais, quando um deles proferiu uma vil blasfêmia. Washington sentiu-se interiormente ferido e, deixando cair o talher com indignação e olhando com desdém para o infeliz que acabava de blasfemar, disse: 'Senhores; eu julguei que todos os que aqui nos encontramos éramos pessoas decentes'. Todos se calaram e o culpado corou e baixou os olhos envergonhado.

244. O HOMEM DO FUZIL

Em 1915, o capelão de um regimento foi transferido para outro corpo. Em seu lugar puseram um padre trapista que foi bem recebido por todos, menos por um sujeito anticlerical, que, furioso, dizia: 'Que necessidade temos de padres? Deus não existe. Se há Deus, vejamos se é capaz de quebrar o fuzil que tenho na mão'. E acompanhando as palavras com a ação, apontou o fuzil para o céu em atitude de desafio. No mesmo instante, porém, uma bala inimiga atingiu o fuzil, despedaçando-o em estilhaços que vararam o crânio do blasfemo, que caiu morto ali mesmo.

245. UM MENINO HERÓI

Não faz muito tempo, numa vila da Itália chegava em casa um menino de 12 anos, pálido e choramingando. Que acontecera? Alguns malvados, movidos de ódio contra ele porque fizera a primeira comunhão, disseram-lhe:
➖ Tens de repetir as blasfêmias que dissermos.
➖ Não - disse o menino com firmeza - eu não blasfemo.
➖ Tens de blasfemar, por bem ou por mal.
Dito e feito: atiraram-no ao chão e bateram-lhe brutalmente. Mas dos lábios do menino não saiu nenhuma blasfêmia e nem sequer uma palavra de queixa.

246. DECORAI ESTES CINCO PONTOS

O trabalho de domingo nunca enriquece.
A fortuna mal adquirida nunca se aproveita.
A esmola nunca empobrece.
O encomendar-se a Deus pela manhã e à noite nunca atrasa o trabalho.
Um filho rebelde e libertino jamais será feliz.

247. PRIMEIRO IREI À MISSA

Refere Santo Afonso que três negociantes estavam prontos para partir juntos da cidade de Gúbio. Era domingo, e um deles quis ouvir a missa; os outros, porém, não quiseram nem mesmo esperá-lo. Mas, quando atravessaram a ponte do rio Borfoune, cheio pelas últimas chuvas, caiu a ponte, perecendo afogados os dois negociantes.

248. POR UM PECADO A MENOS

Voltava da missa um domingo, em Londres, uma dama, irmã de um ministro do reino. Encontrou uma mulher a varrer a rua. Soube que era católica. Perguntou-lhe se tinha ido à missa.

Respondeu a varredoura que não tinha tempo, porque antes do meio-dia tinha de acabar a limpeza. A dama deu-lhe uma moeda e, mandando que fosse à missa, disse-lhe:
➖ Cumpra o seu dever de cristã, que eu farei seu trabalho.

E assim dizendo, pegou da vassoura e pôs-se a varrer. Interrogada por que se humilhava assim em lugar tão público, respondeu:
➖ Por um pecado a menos!

249. A ÁRVORE CRESCIA

O ermitão Nicolau, de Suíça, estando a ouvir a missa, teve uma visão. Viu uma arvorezinha que, brotando do piso da igreja, crescia rapidamente e, em poucos segundos, estava coberta de flores, resplandecentes como estrelas. Essas flores caíam sobre a cabeça dos fieis: em alguns murchavam e perdiam o brilho; em outros aumentavam de resplendor, adornando-lhes as frontes como uma cora de luz.

A árvore era figura da benção celeste e as flores simbolizavam a benção que caía sobre cada um, frutificando nos fervorosos e murchando nos distraídos e desatentos.

250. SEMPRE CHEGAVA TARDE

Um homem da Westfalia, durante muitos anos sempre chegava tarde à missa nos dias de preceito. Adoeceu para morrer e mandou chamar o padre com urgência. O vigário sem demora pôs-se a caminho, mas dizia consigo: 'Não será para estranhar que Jesus Cristo chegue tarde para ele, como castigo de sempre ter chegado tarde à missa'. E com efeito; quando o padre chegava à casa, o enfermo expirava sem os últimos sacramentos.

251. SAÍAM DA IGREJA

Santo Hilário, vendo que algumas pessoas, depois da leitura do Evangelho, saíam da igreja, interrompeu a prática exclamando: 'Podeis sair da igreja, mas do inferno não podereis sair!'

252. SANTA JULIANA

Era uma religiosa de clausura em Florença, Itália. Adoeceu tão gravemente, que, ao lhe serem administrados os últimos sacramentos, não foi possível dar-lhe a comunhão, porque não podia reter nada no estômago. Chorando rogava ao sacerdote que, já que não podia receber Jesus pela boca, pelo menos o colocasse alguns instantes sobre o seu peito, para que estivesse mais perto de seu coração.

Assim fez o sacerdote, desaparecendo a sagrada partícula, ao mesmo tempo que a santa morria em êxtase. Sobre o seu peito acharam gravada, à maneira de um selo, a imagem de Jesus.

253. TRÊS COMUNHÕES

Santa Catarina de Gênova achava-se muito doente, e os médicos desesperavam de sua vida e não encontravam remédio para aliviá-la. A santa recebeu uma luz do alto que lhe fez conhecer que, com três comunhões, recobraria a saúde. O confessor administrou-lhe então esse remédio divino e, depois da terceira comunhão, ela estava perfeitamente curada.

Uma noite sonhou que, no dia seguinte, não poderia comungar e sentiu uma dor tão viva que ao despertar encontrou o travesseiro banhado de lágrimas.

254. O QUE VALE UMA MISSA

Achava-se um missionário muito esgotado por seus trabalhos apostólicos. Seus companheiros, para induzi-lo ao descanso, diziam-lhe: 'Se o médico conhecesse o vosso estado de saúde, não vos permitiria a celebração da Missa'.

Mas o enfermo replicou: 'Pelo contrário, se o médico soubesse o que vale uma missa, ele me animaria a fazê-la diariamente'.

255. PAI TODO PODEROSO

Falava um pastor protestante com um menino que se preparava para a primeira comunhão e perguntou-lhe:
➖ Você crê que, na hóstia que vai receber, está Jesus em corpo e alma?
➖ Creio, sim, senhor.
➖ Você sabe o Pai Nosso?
➖ Sei, sim, há muito tempo.
➖ Então, reze-o.
➖ 'Pai nosso que estais no céu...'
➖ Está bem! Você compreende que Deus está no céu; logo, não pode estar na hóstia.

O menino pensou um instante e disse:
➖ O senhor é capaz de rezar o Credo?
➖ Claro que sim: 'Creio em Deus Pai todo-poderoso...'
➖ Basta! O senhor então não compreende que, sendo Deus todo poderoso, pode fazer o que quiser e, assim, pode estar no céu e ao mesmo tempo na hóstia consagrada?
O pastor, não sabendo mais o que responder e confundido, deu por terminado o diálogo.

256. MEU ÚNICO REMÉDIO

Carlos V perguntou a um servo de Deus, que vivia na corte, como fazia para conservar-se na graça de Deus no meio da licença de costumes dos cortesões e de tantas ocasiões de pecado.
➖ Majestade - ele respondeu - meu único remédio para não sucumbir é o temor de Deus e a comunhão diária.

257. ESTOU MELHOR

O general Droupt estivera gravemente enfermo. Vendo chegar o médico, disse-lhe:
➖ Doutor, estou melhor.
➖ De onde lhe vem esta melhora?
➖ Doutor, comunguei esta manhã - respondeu o general.

258. OS DOIS VASOS

Apareceu Jesus à serva de Deus Paula Maresca e mostrando-lhe dois vasos, um de ouro e outro de prata, e lhe disse:
'Neste vaso de ouro guardo as comunhões sacramentais e, neste de prata, guardo as comunhões espirituais'.

259. SERVIA-SE DOS MENINOS

São Francisco Xavier, não podendo no curso de suas missões cuidar dos enfermos e da instrução dos fiéis, servia-se dos menino que batizara, os quais, seguindo suas recomendações, rezavam muito. Por meio das orações deles, curavam-se os doentes, os demônios eram afugentados e os idólatras, convertidos.

260. UMA GRANDIOSA PROCISSÃO

Em 1450, a cidade de Paris foi testemunha de um grandioso espetáculo. Por ordem do bispo Guilherme, uma procissão de doze mil crianças de menos de catorze anos saiu da igreja dos Santos Inocentes, percorreu a cidade cantando e dirigiu-se até à igreja de Notre Dame.

A voz da infância atraiu os olhares de todos e abrandou os corações. Foi o meio mais eficaz para desarmar a cólera divina.

261. POUCAS PALAVRAS

Um dia foram duas pessoas perguntar a São Macário como deviam rezar. Respondeu-lhes o santo: 'Não são necessárias muitas palavras; dizei somente: Senhor, seja feita a vossa vontade!'

262. DIANTE DE UMA IMAGEM DE MARIA

Conta o bispo de Verdun que dois homens tiveram uma discussão muito forte e um deles, enfurecido, pôs-se a correr atrás do outro, com uma faca na mão. Quando estava para ser alcançado, o que fugia agarrou-se a uma estátua de Nossa Senhora, dizendo:
➖ Terás coragem de ferir-me em presença da Virgem, nossa Mãe?
A estas palavras, ao homem antes tão furioso deixou cair a faca da mão.

263. ESTUDE MEIA HORA MENOS

➖ Como vão os seus estudos? - perguntou um sacerdote a um seu antigo aluno.
➖ Muito mal! Estudo o mais que posso e sempre tiro notas baixas.
➖ Estude meia hora menos - disse-lhe o antigo mestre - e empregue essa meia hora para pedir a Nossa Senhora que o ajude.

O rapaz seguiu o conselho e, após algumas semanas, começou a progredir nos estudos, obtendo muitos bons resultados.

264. UMA BENÇÃO POR TELEGRAMA

Uma condessa dirigiu-se a Nice para pedir a Dom Bosco que fosse benzer a um seu netinho, que padecia dolorosa convulsões e parecia que se afogava. Não encontrando a Dom Bosco, enviou-lhe um telegrama a Cannes, onde ele se encontrava.

O santo, ao recebê-lo, enviou-lhe a bênção de Maria Auxiliadora também por telegrama e, na mesma hora, cessaram as convulsões e a criança sarou.

265. SAÍA SEM ESCOLTA

Os cortesãos censuravam o rei Henrique IV por sair, às vezes, sem escolta. Ele respondia: 'O medo não deve existir na alma de um rei. Encomendo-me a Deus quando me levanto e quando me deito e, durante o dia, lembro-me do Senhor. Estou sempre em suas mãos'.

266. OITO HORAS POR DIA

São Alfredo Magno, rei da Inglaterra, consagrava todos os dias oito horas à oração ou à leitura de livros piedosos. Outras oito horas aos negócios do Estado e oito horas ao descanso e às demais necessidades e ocupações. Levantava-se muito cedo e ia à capela, onde, prostrado por terra, fazia a sua oração.

267. UM PROTESTANTE

Um protestante teve a curiosidade de entrar numa igreja durante a missa em um domingo e pôs-se a observar os fiéis. Ao sair disse: 'Os católicos dizem que Jesus Cristo está presente na Eucaristia; mas muitos deles não creem nisso; do contrário, procederiam com mais respeito durante a missa'.

268. EM QUE TE OCUPAS?

Queixava-se um jovem ao seu confessor, dizendo-lhe que ouvia mal a missa.
➖ Que fazes durante a missa? Em que te ocupas?
➖ Não faço outra coisa senão chorar os meus pecados.
➖ Continue assim, meu amigo; desse modo ouves muito bem a missa.

269. AQUELE É MEU PAI

O imperador da Áustria, José II, ordenara que os presidiários fossem empregados em trabalhos públicos. Alguns deles varriam a praça de Santo Estevão, em Viena. Um ministro observou que um moço bem trajado se aproximava de um daqueles varredores e beijava-lhe a mão. Um dia mandou chamar o moço e disse-lhe que aquele modo de agir não lhe convinha.

'Senhor' - disse o jovem - 'esse condenado é meu pai'. Comovido, o ministro referiu o fato ao imperador, o qual pôs o preso em liberdade, dizendo: 'Quem sabe educar seus filhos desta maneira não pode ser um malfeitor'.

270. GUARDÁ-LO-EI COMO LEMBRANÇA

Um inglês visitava a cidade de Viena. Entrou em uma loja de cabeleireiro no momento em que uma jovem oferecia sua formosa cabeleira pelo preço de dez coroas. Já se dispunha o cabeleireiro a cortá-la, quando o visitante quis saber por que a jovem ia sacrificar seus cabelos.

➖ Senhor - disse a jovem - meu pai foi negociante opulento; mas as coisas foram mal; agora ele é velho e desamparado; minha mãe está enferma e, como não encontro outra solução melhor, vejo-me obrigada a vender a minha cabeleira.
➖ A senhora não venda seus cabelos tão barato. Eu o pagarei melhor. E, entregando-lhe cem libras esterlinas, tomou a tesoura e disse:
➖ Permita-me que lhe corte um só fio do seu cabelo que guardarei como lembrança do seu amor filial.
Aquelas cem libras serviram de base para eles, em pouco tempo, reconstituírem a fortuna perdida.

271. DEU-LHE A LIBERDADE

Serapião, o dionita, fez-se escravo de um pagão, para convertê-lo e o conseguiu de fato. Seu amo deu-lhe a liberdade e presenteou-o com vestes, uma túnica e um Livro dos Evangelhos. Serapião deu as vestes para o primeiro pobre que encontrou e, pouco depois, a túnica a outro e, depois, mostrando o Evangelho, dizia: 'Eis aqui o que me despojou de tudo'. E, oportunamente, vendeu também o livro para socorrer a uma viúva.

272. SÃO TOMÁS MORO

Este grande chanceler da corte da Inglaterra, sendo já casado e em idade avançada, nunca saía de casa sem pedir de joelhos a bênção ao seu velho pai, a quem demonstrava a maior veneração e respeito.

273. CASTIGO DE UM MAU FILHO

A 19 de outubro de 1914, próximo de Turim, um rapaz discutiu com sua mãe por questão de interesses menores, chegando a espancá-la brutalmente, quebrando-lhe o braço e causando-lhe ferimentos graves. A mãe teve de ser hospitalizada e o filho foi preso. Quando o levaram à estação para conduzi-lo ao tribunal de Turim, o rapaz tentou atirar-se debaixo do trem que se aproximava.

Caindo, porém, ao lado, o trem cortou-lhe somente as duas mãos com que maltratara a mãe e, assim, teve de apresentar-se no tribunal.

274. QUERO IR COM MINHA MÃE

Enquanto se torturava a mártir Santa Julieta, Ciro, seu filhinho de três anos, ao ver que sua mãe derramava sangue, começou a gritar de maneira enternecedora. O governador tomou-o nos braços para acalmá-lo, mas o menino o repeliu, gritando: 'Sou cristão e quero ir com minha mãe'. E para escapar-se, arranhou o rosto do governador. Furioso, o governador tomou-o pelo pé e partiu-lhe a cabeça contra as grades do tribunal. A mãe deu graças a Deus e, em seguida, a sua cabeça foi cortada.

275. SANTA MACRINA

Era irmã de São Gregório Nazianzeno. Esta santa mulher nunca perdeu de vista sua mãe. Concentrou nela todos os seus cuidados e afetos e jamais permitiu que os criados a servissem, reservando-se a honra de preparar-lhe a comida e de servi-la. Quando a mãe enviuvou, Macrina dedicou-se inteiramente a ajudá-la na educação dos quatro filhos e das cinco filhas que lhe restavam.

276. MINHA MÃE ERA POBRE

O papa Bento XI, filho de pais pobres, foi elevado ao pontificado em 1303. Estando o papa de passagem em Perussia, sua mãe mandou pedir para falar-lhe. O papa perguntou como ela estava vestida. Responderam-lhe que estava com vestido de seda. 'Então não é minha mãe' - disse o papa - 'minha mãe é pobre mulher do povo'. Levaram-lhe essa resposta do papa; ela então pôs os seus vestidos humildes e apresentou-se de novo. Desta vez o filho recebeu-a e abraçou-a com efusão.

277. GUIAVA-O

O célebre Cornélio Cipião, por gratidão e respeito a seu pai que ficara cego, guiava-o ele mesmo por toda a parte, tendo para com ele as maiores atenções.

278. QUANTO CUSTASTES A TEUS PAIS?

O arcebispo de SalzburgoDom Agostinho Gruber, ao visitar uma escola no Tirol, perguntou a uma menina se sabia quanto custara a seus pais. A menina, surpreendida, corou e não soube responder.
➖ Vamos ver - disse - quantos anos tens? Quanto lhes custas por dia, por mês e por ano?
A menina, auxiliada pelo arcebispo, conseguiu fazer as contas pedidas.

O arcebispo acrescentou:
➖ Como poderás pagar os cuidados da tua mãe e os suores do teu pai?
Como? Não com ouro ou prata, mas com amor, respeito e obediência. Esse cálculo impressionou de modo salutar todos os meninos da escola.

279. ESQUECERIA MEUS DEVERES*

O imperador Décio quis coroar imperador ao seu filho, mas este recusou a honra, dizendo: 'Eu creio que, sendo imperador, esqueceria meus deveres de filho. Prefiro não ser imperador, mas filho bom e obediente, a ser imperador e filho revoltoso. Que meu pai mande e a minha glória consistirá em obedecer-lhe com toda fidelidade'.

* no original: 'Esqueceram meus Deveres'

280. O RETRATO DO PAI

Boleslau, rei da Polônia, levava sempre ao pescoço o retrato do seu pai. Quando tinha algo importante, olhava para o retrato, beijava-o e dizia: 'Deus não permita faça eu alguma coisa que desonre a memória de meu querido pai'.

281. OS FILHOS DE TEODÓSIO

O imperador Teodósio entregara seus dois filhos a Arsênio para que os educasse. Um dia entrou o imperador para assistir à aula e encontrou os dois meninos sentados e o mestre de pé. 'Neste momento' - disse-lhes - 'sois discípulos e, portanto, deveis respeito a vosso mestre'.
E obrigou-os a assistir à aula de pé.

282. SENTENÇA SEVERA

Em Esparta, os juízes condenaram à morte um menino por ter arrancado os olhos de um animal. Aos que reclamaram que a sentença era muito severa, responderam: 'O ânimo cruel de um menino que assim procede com os animais, amanhã se voltará contra os homens'.

283. DEVORADOS PELOS URSOS

O profeta Eliseu, venerável ancião, subia à cidade de Betel. Um bando de meninos mal educados saíram-lhe ao encontro e insultaram-no dizendo: 'Sobe, calvo! Sobe, calvo!'
Naquele momento saíram do bosque vizinho dois ursos que mataram a quarenta e dois deles.

284. SALOMÃO HONRA A SUA MÃE

Durante uma audiência solene, estava Salomão sentado em magnífico trono. Ao ver entrar sua mãe, a rainha Betsabé, que ia pedir-lhe uma graça, pôs-se de pé, foi ao seu encontro, fez-lhe uma profunda reverência e mandou preparar-lhe um trono para que ela se sentasse à sua direita.

285. AMOR FILIAL

N. era pai de vários filhos e havia anos que estava de cama. A filha maior fazia o papel de enfermeira; ao vê-lo próximo da morte e sem sentimentos religiosos, chorava sem consolo. O doente indagou a razão de tanto choro.
➖ Papai, o que me faz chorar é o pensamento de que temos de separar-nos e não nos veremos mais.
➖ É preciso ter paciência - replicou o pai - a separação não será para sempre, pois no outro mundo nos tornaremos a ver.
➖ Oh! não - disse a menina - nunca mais nos veremos.
➖ Sim, filha, havemos de nos ver sim; por que não?
➖ Não, meu pai; porque, se o senhor morrer em pecado mortal, irá para o inferno e eu quero ir para o céu. E não quero vê-lo no inferno, mas no céu.
A estas palavras cheias de dor e de carinho da filha, o enfermo resolveu enfim confessar-se e morrer santamente.

286. CASTIGO SEM PRECEDENTE

Em Palma, Colômbia, deu-se um fato duplamente triste. Um velho de nome Ruben Miranda tinha um filho chamado Rogério, de péssimos antecedentes. Várias vêzes havia batido no pai.

Desta vez espancou-o brutalmente com um pau diante de muita gente. As pessoas que assistiram à cena quiseram castigar o mau filho, que, vendo-se em perigo, fugiu para um potreiro. Apenas ali chegado, abriu-se uma fenda aos pés do fugitivo. Produziram-se tremores e a terra começou a tragar o filho desnaturado. Foi tragado pouco a pouco. Nenhum dos presentes se atreveu a socorrê-lo, pois temiam afundar-se. Foi desaparecendo no meio de gritos espantosos, que cessaram quando a terra lhe fechou a boca. Os assistentes retiraram-se horrorizados.

287. FAÇO UM PRATO DE PAU

Um camponês estava ocupado a fazer um prato de pau. Seu filho, que o observava, perguntou-lhe o que fazia.
➖ Faço um prato de pau para o seu avô - respondeu o homem - porque ele sempre deixa cair e quebrar o prato de louça.
O menino replicou:
➖ Pai, faça-o resistente, para que eu o possa dar ao senhor quando for velho.
Estas palavras causaram-lhe tal impressão que imediatamente desistiu da obra e passou a tratar melhor o seu velho pai.

288. AONDES IDES?

Crates, filósofo pagão, indignava-se muito contra os pais que descuraram o dever da educação dos filhos, e costumava dizer: 'Se me fosse possível, subiria à parte mais alta da cidade e gritaria com todas as minhas forças: Aonde ides, homens, cuja única preocupação é amontoar riquezas, descuidando-vos de vossos filhos, aos quais as deixareis?'

289. COMPRA-O E ASSIM TERÁS DOIS

Um pai perguntou a Aristipo quanto lhe cobraria pela educação de seu filho:
➖ Mil dracmas - respondeu o educador.
➖ É muito - replicou o pai; por esse preço, eu posso comprar um escravo.
➖ Compra-o então e assim terás dois (o escravo e o teu filho) - acrescentou Aristipo.

290. SEI SER FIEL

Uma mulher espartana pediu emprego em uma casa. Quando lhe perguntaram o que sabia fazer, respondeu: 'Eu sei ser fiel'.

291. EU O SEREI, MAMÃE!

Uma boa mãe tinha quatro filhos, aos quais formava na piedade. Uma noite, depois de rezar com eles e lhes falar de Deus, disse-lhes com grande ternura: 'Quão feliz seria eu se um de vocês chegasse a ser santo!'
O menorzinho lançou-se nos braços da mãe, dizendo: 'Eu o serei, mamãe!' E cumpriu a palavra, tornando-se o papa São Pedro Celestino.

292. ACONTECIMENTO FUNESTO

Um jovem foi condenado a quinze anos de prisão. Ouvida a sentença, pediu lhe permitissem falar, e disse: 'Perdoo aos juízes pela sentença, que é justa; perdoo a quem me conduz ao cárcere, porque cumpre o seu dever; mas não posso perdoar ao meu pai, que ali está, porque se me tivesse dado bom exemplo, corrigido e castigado a tempo, eu não estaria aqui'. Ouvida esta acusação, o pai caiu morto ali mesmo.

293. QUEM É ESSE MORTAL?

A irmã do rei São Luís estava um dia a confeccionar uma bela vestimenta, quando o santo lhe disse:
➖ Minha irmã, logo me dareis como presente esse vestido, não é?
➖Meu irmão, eu o destino a um príncipe maior ainda que Vossa Majestade.
➖ E quem seria esse afortunado mortal?
➖ É um pobre de Jesus Cristo e, portanto, é o próprio Jesus Cristo a quem eu o prometi.

294. SERVIA-OS ELE MESMO

A caridade de São Luís, rei da França, era prodigiosa. Todas as quartas, sextas e sábados da Quaresma e do Advento dava de comer em seu palácio a treze pobres que ele mesmo servia.

Servia-lhes uma sopa e duas espécies de alimentos. Cortava e distribuía o pão. Colocava, além disso, dois pães a mais para cada um, para que levassem para casa. Se entre os pobres havia algum cego, colocava-os nas mãos deles e os guiava. Dava, também, a cada um deles, uma esmola em dinheiro, conforme as necessidades. Ainda mais, aos sábados fazia separar os três mais pobres deles e lhes lavava os pés.

295. OBEDIÊNCIA AO MARIDO

Santa Francisca Romana estava recitando o Ofício da Santísssima Virgem, quando seu marido a chamou. Deixou a oração e foi atendê-lo; depois continuou. Mas, enquanto rezava uma antífona, quatro vêzes o marido a chamou e, por quatro vezes, interrompeu a oração e foi atendê-lo, continuando depois de terminada a ocupação. Na quarta vez, viu com surpresa que a antífona estava escrita com letras de ouro e lhe foi revelado que Deus concedera aquela graça a ela para que soubesse quanto a Nossa Senhora agradava a sua obediência ao marido.

296. INFLUÊNCIA DA MÃE RELIGIOSA

O famoso pianista Chopin teve uma mãe muito boa. Ele, porém, frequentando o mundo corrompido, perdeu a fé. Em sua derradeira enfermidade, visitou-o um grande amigo seu, o sacerdote polonês Jelowieski, que lhe falou de Deus. Nada conseguiu. E vendo que os dias iam passando sem nada conseguir, tomou o Crucifixo e, colocando-o nas mãos de Chopin, lhe disse: 'Tu te recusarás a crer o que tua mãe te ensinou quando eras criança?'

Chopin pôs-se a chorar e pediu os santos sacramentos, que recebeu com grande fervor. Agradecido a tão bom amigo, ao despedir-se dele antes de morrer, disse: 'Adeus, Jelowieski; fôste para mim o amigo mais fiel'. A lembrança da sua mãe salvou Chopin.

297. DESTINO DE UMA ALMA

Um comerciante que se enriquecera muito cometendo toda a sorte de fraudes, à hora da morte, chamou um tabelião e ordenou-lhe que, ao seu testamento, acrescentasse o seguinte: 'Quero que, depois de morto, o meu corpo seja devolvido à terra de onde saiu, e minha alma ao demônio ao qual pertence'. 

As pessoas presentes ficaram aterrorizadas, e esforçaram-se por dissuadi-lo; mas ele insistiu com energia, dizendo: 'Não me retrato. Quero que minha alma seja entregue ao demônio, junto com a da minha esposa e dos meus filhos. A minha,  porque me enriqueci à custa de furtos e fraudes; a de minha esposa, porque ela me induziu a tais pecados com seu luxo desmedido; as de meus filhos porque, levado pelo amor que lhes tenho, nunca me decidi a restituir o que não é meu'. Ditas essas palavras, expirou o infeliz sem poder reparar o mal que fizera.

298. INTERESSANTE ELOGIO FÚNEBRE

Em 1887 morreu na cidade de N. uma velhinha que passava dos cem anos. Fôra sempre muito admirada, porque em sua longa existência nunca a ouviram falar mal do próximo nem murmurar. E como ao morrer ainda conservava todos os dentes, fez-lhe o pároco êste elogio original: 'Esta boa mulher conservou todos os dentes porque nunca mordeu a ninguém!'

299. ACHADO FUNESTO

Um pedreiro encontrou uma caixinha numa das paredes da casa em que trabalhava. Abriu-a e encontrou-a cheia de jóias e moedas de ouro e prata. A ninguém deu parte o achado e levou a caixinha para casa. Três dias depois, indo a uma joalheria para vender as jóias encontradas, o joalheiro chamou imediatamente a polícia para que o prendessem: o joalheiro reconheceu as jóias que há um ano apenas vendera a um senhor que fôra assassinado e roubado. O pedreiro não pôde justificar a posse das jóias e foi condenado a muitos anos de prisão.

300. A CAPA DE SÃO MARTINHO

Monsenhor Guibert, arcebispo de Tours, numa de suas visitas pastorais, advertiu que as meninas, que se apresentavam para receber o sacramento da crisma, vestiam com muita imodéstia. Não as  teria admitido ao sacramento, se o vigário não lhe houvesse apresentado tôda a sorte de escusas. Contudo, o santo prelado não se absteve de dizer em voz alta, para que o ouvissem: 'Seria oportuno que São Martinho desse a estas meninas a metade de sua capa'.

301. JUSTO REMORSO

O herege Berengário, mesmo depois de fazer penitência de seus pecados, à hora da morte experimentou grandes angústias, causadas pelos remorsos da consciência. E dizia ao sacerdote que o socorria e animava naquela hora tremenda: 'Não temo os meus pecados, mas os que cometeram as almas a quem dei escândalo'. E tudo isto, apesar de que, para reparar esses pecados de escândalo, dera muito bom exemplo e se dedicara em sua casa ao ensino do catecismo.

302. MAUS CONSELHEIROS

Os cortesãos do imperador Frederico III, tutor do rei Ladislau da Hungria, sugeriram-lhe o envenenamento do seu pupilo para se apoderar da coroa. Mas o nobre imperador replicou-lhes: 'É este o conselho que me dais, homens sem fé e sem honra? Fora daqui! Que meus olhos não vos tornem a ver'. E os cortesãos foram expulsos da côrte e desterrados em castigo de seu criminoso conselho.

303. O MELHOR CILÍCIO

Uma senhora piedosa - ou que o julgava ser - era muito inclinada à maledicência e encontrava defeitos em toda gente. Um dia pediu ao diretor espiritual licença para colocar o cilício. O sacerdote, homem de muita experiência, conhecia a fundo a sua penitente. Pôs os dedos sôbre os lábios e disse: 'Filha, para a senhora, o melhor cilício será deixar de prestar atenção a tudo o que se passa além dessa porta'.

304. FUNDAMENTO DO DEVER

O dogma é a base da moral. Quando Miguel Renaud, em 1871, foi eleito deputado, ao chegar a Versalhes, alugou um apartamento por 150 francos mensais. Pagou adiantado. O proprietário perguntou-lhe se queria que lhe passasse o recibo. O deputado respondeu:
➖ Para que passar recibo entre homens de bem? Deus nos vê.
➖ O senhor crê em Deus? - perguntou o dono da casa.
➖ Creio, naturalmente - respondeu Miguel.
➖ Pois eu não - replicou o outro.
➖ Nesse caso, passe-me logo o recibo - disse o deputado - porque quando não se tem fé, a moral carece de fundamento.

305. CARLOS MAGNO E OS MANDAMENTOS

Carlos Magno, um dos maiores soberanos, foi provado por Deus com a morte de quatro dos seus filhos. Restando-lhe somente o seu filho Luís, quis associá-lo ao império. Chegado o momento solene, quando todos os magnatas rodeavam o altar sobre o qual estava a coroa, Carlos Magno volveu-se para o filho e, cheio de emoção, disse: 'Filho querido de Deus e do povo; tu, a quem Deus conservou para meu consolo, vês que minha vida está declinando; que os meus anos passam e a morte se aproxima. Prometes-me temer a Deus, guardar os mandamentos e proteger a Igreja?' Luís prometeu chorando de comoção. Carlos Magno, pondo a coroa sobre a cabeça de seu filho, acrescentou: 'Recebe, pois, a coroa e jamais te esqueças de teu juramento!'

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)