sábado, 25 de julho de 2020

A VIDA OCULTA EM DEUS: A FÉ


54. Agradar a Deus é tudo o que importa para nós. Mesmo se tivéssemos todas as riquezas do mundo, mesmo se fôssemos admirados por todos, se não agradássemos a Deus, todas essas honras e admirações seriam inúteis. Mas se Ele está feliz conosco, se ele gosta de vir nos visitar e descansar em nossos corações, se ele está satisfeito conosco ... oh, então, tudo é ganho, e as coisas deste mundo, por sua vez, não valem nada.

Nossa maior sabedoria deve ser, portanto, tentar agradar a Deus em tudo, sempre e em todos os lugares, mais e mais, de maneira que Ele possa ser cativado pelo encanto de nossa alma. Como fazer isso? São Paulo nos diz, ou pelo menos, nos indica um dos meios indispensáveis: 'sem a fé, é impossível agradar a Deus'. Quando queremos empreender a conquista de Deus, temos que começar pela fé.

55. A fé é a firme adesão de nossas mentes à palavra de Deus. Pela fé, submetemos nossa mente, nosso coração e nossa vontade. Proclamamos que Deus é a própria verdade, palavra verdadeira e infalível, pelo que assim o agradamos e, pela fé, O honramos. Um mestre se alegra quando os seus discípulos acreditam nele, mesmo quando não entendem o que lhes é dito. Um pai está feliz quando seus filhos confiam nele. E que enriquecimento isso representa para a nossa inteligência, que comunhão é essa da verdadeira ciência de Deus! Ele vê, nós acreditamos!

56. Se uma alma verdadeiramente iluminada pela fé repousa em tudo nos braços do Pai e vê a Vontade de Deus em cada um dos pequenos deveres do momento presente, como pode não agradar a Deus? Durante todo o tempo, ela se põe à procura de descobri-lo nas mil ninharias, nos mil detalhes que compõem a sua vida. É de se supor que essa alma alcance diretamente a Deus, escondido sob as espécies dos pequenos deveres cotidianos. Seu olhar não se detém no plano das criaturas, mas ascende às Mãos que tudo sustentam e que tudo governam suave e firmemente; para essa alma, o mundo é apenas uma espécie de transparência, que reflete em cada momento a vontade de Deus. Como essa alma pode não agradar a Deus?

Vamos dar outro exemplo. A fé nos diz que toda alma em estado de graça possui a Santíssima Trindade no fundo de seu coração. Bem, aqui temos, portanto, uma alma que vive na fé. Se ela orar, irá diretamente ao santuário interior onde Deus se esconde e se entrega, à Santíssima Trindade que nela faz morada. Ela vai adorar, louvar, amar, ouvir o seu Deus, e falará com Ele; tentará, ainda, à sua medida, ter comunhão nesta vida divina, dizer a Palavra junto com o Pai, exalar o Espírito de Amor que procede do Pai e do Filho, e retornar ao Pai e ao Filho com o mesmo Espírito divino. Ela esquecerá a si mesma, esquecerá o mundo e, libertada das criaturas, terá prazer nesta comunhão, gostará de viver nela e não a deixará, exceto com dor, às vezes sem ter experimentado nada mas, na maioria das vezes iluminada, reanimada, fortalecida. Ela soube como agradar a Deus.

57. Que força incomparável é a nossa vontade de saber que o menor dos nossos sofrimentos e que a menor das nossas orações não poderá ser perdida! Veja a diferença entre uma alma de fé tíbia e uma que acredita no valor do silêncio, no poder da lembrança, na possibilidade de união íntima com Deus, em um grande escondimento, sem pretensões e sem orgulho. No primeiro caso, como que se rasteja; no segundo, a nossa alma voa e torna-se cada vez mais agradável a Deus, porque o que mais lhe agrada não é que apenas escutemos seus mandamentos, mas que os cumpramos. Se queremos agradar a Deus, sejamos almas de fé, de fé simples, que nos aviva completamente. Vamos julgar os acontecimentos à luz da fé, tanto quanto no caso das provações e alegrias. Toda fraqueza na vida espiritual vem da falta do espírito de fé. Quando você se sente desanimado, quando se fica menos recolhido ou menos mortificado e, assim, menos generoso no serviço de Deus, é porque o espírito de fé enfraqueceu. Urge redescobri-lo desde os fundamentos.

58. Vamos aperfeiçoar o nosso espírito de fé. Em vez de nos deixarmos levar pela pura razão e, às vezes, pela sensibilidade, retifiquemos pela fé as impressões de nossos sentidos. Quando aquela luz, que atinge com seus raios as últimas fibras do nosso coração, nos levar a uma plena transformação, teremos então em nós o triunfo da fé. E a fé inspirada pela caridade nos molda à imagem e à semelhança de Jesus, a ponto de fazer Deus julgar que Ele, ao nos ver, vê o seu Filho.

(Excertos da obra 'A Vida Oculta em Deus', de Robert de Langeac; Parte I -  O Esforço da Alma; tradução do autor do blog)