terça-feira, 28 de abril de 2020

A PANDEMIA DO CORONAVÍRUS É UM CASTIGO DE DEUS?

A perda de referências doutrinárias e das premissas mais elementares da fé católica levam grupos cada vez maiores de católicos a proclamarem, como uma verdade inquestionável, que Deus, sendo o Deus da misericórdia infinita, não castiga os homens e, assim, a pandemia do coronavírus deveria ser entendida como um fato alheio à Vontade de Deus. Entediados pela tibieza da fé e do relativismo, talvez nem percebam a natureza de tão grande blasfêmia: uma singular e crescente letargia em relação a qualquer realidade transcendente de nossa vida, cujos eventos passam então a ser sempre entendidos e interpretados pelo viés da história humana e, assim, privados de qualquer dimensão sobrenatural e, muito menos, por movimentos e desígnios da própria Providência Divina.

Deus não castiga?

'Eu, o Senhor, teu Deus, sou um Deus zeloso. Castigo a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e a quarta geração daqueles que me odeiam (Dt 5, 9)

'Viste como Acab se humilhou diante de mim? Como ele assim procedeu, não mandarei o castigo durante a sua vida, mas nos dias de seu filho farei vir a catástrofe sobre a sua casa' (I Rs 21, 29)


'Por que razão o ímpio despreza Deus e diz em seu coração 'Não haverá castigo?' (Sl 9, 34)

'não é o poder dos ídolos invocados, mas o castigo reservado ao pecador, que sempre persegue as faltas dos maus' (Sb 14, 31)

'Senhor, na tribulação, nós vos buscamos, e clamamos a vós na angústia em que vosso castigo nos abate' (Is 26, 16)

'É contra ti que me volto, ó insolente, chegou o teu dia, o tempo do teu castigo (Jr 50, 31)

'O Senhor não se descuidou do castigo, e o descarregou sobre nós, porque o Senhor, nosso Deus, é justo em tudo o que faz. Mas nós não escutamos a sua voz' (Dn 9, 14)

'Porque estes serão dias de castigo, para que se cumpra tudo o que está escrito. Ai das mulheres que, naqueles dias, estiverem grávidas ou amamentando, pois haverá grande angústia na terra e grande ira contra o povo. Cairão a fio de espada e serão levados cativos para todas as nações, e Jerusalém será pisada pelos pagãos, até se completarem os tempos das nações pagãs'. Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra a aflição e a angústia irão apoderar-se das nações pelo bramido do mar e das ondas. Os homens definha­rão de medo, na expectativa dos males que devem sobrevir a toda a terra. As próprias forças dos céus serão abaladas' (Lc 21, 22-26).
'Eu repreendo e castigo aqueles que amo. Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te' (Ap 3, 19).
É claro que Deus castiga, e castiga os que ama, para corrigi-los dos erros; e pune os ímpios com ira santa, porque desdenharam da Graça. A temática do erro e da punição na justiça divina - tão infinita quanto a sua misericórdia - é mais óbvia do que o dia seguir-se à noite. O Purgatório e o Inferno não são meras abstrações difusas. Sodoma e Gomorra foram destruídas pelos pecados dos seus habitantes e não para se contar uma fábula. O Dilúvio foi um castigo divino de cunho universal. O pecado original impactou toda a humanidade e a pena dele privou não apenas Adão (que foi expulso do Paraíso), mas também toda a sua descendência da Graça e de todos os dons que Deus havia lhe outorgado desde a Criação. Por acaso, em Fátima, Nossa Senhora falou do castigo de Deus reservado à humanidade pecadora por meio de metáforas? Por acaso mostrou o inferno a três crianças porque estava proclamando que a misericórdia de Deus vai salvar todos os pecadores? Então, como Deus não castiga?

Deus castiga os justos e os ímpios; os primeiros para resgatá-los na sua Redenção e salvá-los pela misericórdia; os últimos para salvar os que só podem ser salvos pelo temor da justiça divina. No escopo da fé cristã, flagelos, desastres, doenças e a morte constituem consequências diretas do pecado original. E, por meio deles e de outros tantos meios, Deus pode castigar (e castiga) um homem em particular, um grupo de pessoas, uma nação ou mesmo o mundo inteiro, de acordo com a gravidade das ações particulares e/ou públicas perpetradas contra a lei de Deus. Assim, por princípio, é inconcebível ponderar o flagelo do coronavírus como não sendo um ato direto da interposição de Deus em relação à geração atual da humanidade. E, por ser flagelo e por ser pandemia, por ser agente extremado de dor, sofrimento e morte - frutos do pecado original e dos homens de pouca fé desta geração - só pode ser um castigo movido pela santa ira de Deus. 

Todo católico sabe (ou deveria saber) que doenças e, portanto, também epidemias, sofrimento e privação de entes queridos, devem ser aceitos com fé e humildade, e com profundo espírito de mortificação para expiação dos nossos pecados pessoais. E que, graças à Comunhão dos Santos, podemos oferecer essas provações também para o perdão dos pecados dos outros, para a conversão dos que não creem e para abreviar a purificação das almas santas do Purgatório (Igreja Penitente). E mais: que Deus é infinita misericórdia, sim, mas que o pecado, mesmo venial, nos separa por um abismo profundo de Deus. E, como cristãos convictos, deveríamos ter a consciência perfeita de que, na sua Sua Paixão e Morte de Cruz, o divino Salvador assumiu para si não apenas o peso do Pecado Original, mas também de todos os nossos pecados, de todos os tempos e de todos os homens. Os meus e os seus também. E que o nosso pecado pessoal tem reflexo direto nas dores e sofrimentos que Cristo padeceu em suas três horas de agonia na Cruz. Temos uma perfeita consciência disso e da gravidade dos nossos pecados, mesmo veniais?

Mas, além dos pecados pessoais, sobem aos Céus pecados terríveis cometidos por povos inteiros, por nações, por toda a humanidade, como os pecados terríveis do aborto, da eutanásia, do culto à sodomia e à ideologia de gênero, do divórcio e do casamento homossexual, da pornografia, da corrupção dos costumes, da manipulação do capital, da exploração dos mais pobres, do tráfico e consumo de drogas ilícitas, das falsas ideologias, da nova era, das sociedades secretas, do capitalismo selvagem, do ateísmo militante, do relativismo religioso, do ecumenismo, do culto ao corpo, da profanação do sagrado, das blasfêmias e de tantos sacrilégios... Nações e sociedades inteiras que não apenas ignoram Deus, mas que o negam de forma aberta e sistemática, que impõem aos seus cidadãos leis e procedimentos, que não apenas contrariam, mas que se rebelam e se contrapõem por completo aos preceitos da moral natural e da Fé católica. E estes povos e nações vão ficar nutrindo da utopia de que permanecerão isentas da ira santa de Deus?

Some-se a isso uma coleção inimaginável de adultérios, de violação dos domingos, de profanações da eucaristia, negligência e desrespeito aos ritos litúrgicos, exaltação de práticas ecumênicas, licenciosidade a outros ritos religiosos, louvor a tal mãe terra e ao panteísmo... tudo isso caracteriza uma profunda ruptura da humanidade com Deus. E nesse caldo de horrores se agregam também os frutos podres do desvario e da infidelidade de tantos clérigos e religiosos, escândalos contra os pequeninos, abusos litúrgicos de toda ordem... Neste quadro, tão explicitamente exposto por Nossa Senhora em Fátima, a pandemia (epidemia universal) não seria um castigo de Deus? Uma provação de tal ordem que freia a vida contemporânea nos seus limites, que faz literalmente o mundo parar, não seria um castigo de Deus? 

Mas o maior dos castigos não seria a privação da própria Missa e dos sacramentos? Um castigo imposto, assim, à própria Igreja? Um castigo imposto, assim, aos próprios católicos, por viverem como criaturas tíbias, dóceis, passivas, indiferentes e acovardadas num mundo cada vez mais tolerante e comprometido com o Maligno? Um castigo imposto, assim, a toda uma humanidade que se legou a divinização do próprio homem e que se declara cada vez mais agnóstica, ateísta, herética e anticlerical? Vivemos hoje, em caráter universal, a dramática experiência que muitos cristãos tiveram de não ter acesso direto aos sacramentos e à eucaristia em determinadas épocas e sob circunstâncias específicas da história humana, tipicamente associadas a grandes e sangrentas perseguições religiosas. 

Mas o caso presente é distinto de todas essas experiências prévias: o flagelo (e não estou falando da pandemia) é universal e atinge toda a Igreja de Cristo e é imposto sob a concessão e a subserviência da própria hierarquia católica. Mas nem tudo está perdido, porque Deus, na sua infinita paciência, ainda nos dá tempo para esperar pela nossa resposta, pela nossa reação diante de tão grande provação. O flagelo de uma pandemia é uma tragédia e, sem dúvida, uma enorme fonte de angústias e de sofrimentos mas, ainda assim, pode ser uma preciosa oportunidade de mudança de costumes e para uma verdadeira transformação de nossa fé cristã tornada operante e ativa sob o domínio da caridade.

Neste contexto, será que estamos compreendendo bem a dimensão desse flagelo? Qual é a função do castigo se não tiver o proveito da correção? Qual é o sentido de um castigo universal que não seja a adoção de medidas que promovam bruscas e definitivas mudanças de rota na atual bancarrota moral da espécie humana? Vão morrer alguns milhares de homens para a conversão de milhões? Vamos fazer férteis os corações duros para florescer a vinha do Senhor? Vamos nos tornar soldados de Cristo e portar, como guerreiros valorosos, as armas e as armaduras da fé cristã autêntica para enfrentar os males e as misérias do mundo quando pudermos dispor as máscaras que usamos como escudos contra um vírus? Vamos fazer amanhã, no nascer de um novo tempo, um mundo cristão enquanto somos cristãos no mundo? Estamos realmente rezando mais, renunciando às coisas que passam e firmemente determinados no projeto da nossa efetiva conversão e salvação eterna? Estamos realmente praticando a caridade cristã e amando o próximo sem anelos de gratidão ou de retribuição alguma? Se dissermos SIM a tudo isso, Deus nos receberá novamente como filhos e, como Pai de Misericórdia que é, nos levará ao cimo da santidade pessoal e ao Reino de Maria neste mundo. Mas, se a nossa resposta a tudo isso for ainda NÃO, então que Deus tenha piedade de todos nós!