quinta-feira, 26 de março de 2020

A VIDA OCULTA EM DEUS: MORTIFICAÇÃO DO CORAÇÃO


27. Dai o vosso coração a Jesus cada vez mais. Não espereis fazer isso para quando fordes perfeito. Não; dai-o a Ele agora. Não busqueis voluntariamente nenhuma consolação. Deus, que nos conhece e que se desvela por nós, há de nos dar o que precisamos in tempore oportuno [no momento oportuno].

28. O Bom Deus não quer que procureis e que conheceis ser amado. Ele vos concederá isso sim, afinal, mas somente quando não mais o desejais. Enquanto isso, Ele quer que busqueis somente a Ele, sempre, em todos os lugares e em tudo, particularmente na humilhação.

29. Não procureis anelos sensíveis, que não são sólidos. Somos constituídos por uma parte espiritual e uma parte sensível, mas o que acontece na segunda é de uma ordem bem inferior e, em termos práticos, nem deveria contar. Como Deus é espírito, só o que é espiritual deve importar. Se o que disserdes a Ele não lhe parecer nada, pouco importa. Persevere, pois o que importa realmente é Ele estar contente.

30. É preciso temer as emoções sensíveis no caminho da vida espiritual porque elas inibem mudanças. Acredita-se numa dada virtude e, assim, apega-se a ela simplesmente por isso ser agradável. Não as peçais e nem as desejais para que nunca vos apegueis a elas. O amor sensível provém do conhecimento sensível. Se pudésseis compreender a diferença entre o amor natural, mesmo a Jesus, e o amor sobrenatural, o verdadeiro amor da caridade! Suponha que uma alma que, sem ter recebido a graça, tenha  amado Nosso Senhor na terra apenas por isso ser bom e belo... Isso assume uma ordem diferente. O caráter sensível deve ser mortificado e eliminado, para dar lugar ao espiritual. Veja o exemplo de São João da Cruz: ele não apenas quis renunciar ao que era sensível, mas também às próprias alegrias dos anelos espirituais. Na terra, não há proporção entre o nosso conhecimento e o nosso amor. É por isso que se pode amar mais do que se conhece. Basta-nos saber que Deus é infinitamente bom e que se ama Deus quando se faz a sua Vontade. O conhecimento sensível é secundário, mas podemos imaginar Nosso Senhor desta ou daquela maneira e isso depende da nossa imaginação. Quanto ao conhecimento intelectual, São João da Cruz diz, e é verdade, que nós não temos nada além do que uma ideia difusa de Deus; mas enquanto Deus não nos dá luzes infusas, temos que nos ater a essa ideia geral, mesmo sabendo que é bastante grosseira porque, afinal, não somos espíritos puros.

(Excertos da obra 'A Vida Oculta em Deus', de Robert de Langeac; Parte I -  O Esforço da Alma; tradução do autor do blog)