quarta-feira, 11 de março de 2020

A VIDA OCULTA EM DEUS: DESAPEGO DA IMAGINAÇÃO


16. Um ponto sobre o qual temos de insistir é a educação da imaginação. A imaginação é o porto onde convergem as faculdades superiores e inferiores. Assumir o controle dela é, portanto, de demasiada importância. Porém, isso não se consegue facilmente... é preciso paciência e dar tempo ao tempo. Não temos sobre a imaginação um poder despótico, mas político. Nós a ganhamos pela destreza. Apresentemos a ela boas e santas imagens; deixemo-la livre, se for necessário, vigiando-a. Pouco a pouco, quando as demais faculdades forem ganhas por Deus, esta ficará ao lado delas. 

17. A regra geral é o age quod agis [faça o que está fazendo, ou seja, concentre-se na tarefa em curso] dos antigos. Acabar com as discussões inúteis sobre o que acabamos de fazer, com as preocupações sobre o que temos que fazer mais tarde. O que temos de vigiar, regular e dominar é que a imagem que estará ao final da ação seja a mesma que estava no início. Nos ater unicamente à imagem do que fazemos, sem acrescentar nada além do que necessário. Que durante este tempo o âmago da alma esteja unido suavemente a Deus. Insistimos muito neste ponto.

18. Multiplicar as imagens é aumentar o desassossego, dividir as forças da atenção. Durante a ação, não tenhamos na imaginação mais que uma imagem do que fazemos. Na meditação, por outro lado, em lugar de combater as distrações, é mais importante que nos volvemos inteiramente a Deus, indo direto ao encontro com Ele por um movimento vigoroso da alma. 

19. Ocupai vosso espírito, porém em paz e com paciência. Não dê a ele para moer mais que o bom trigo. E que trabalhe lentamente. As leituras inúteis só servem para fazer a imaginação girar no vazio. Entretanto, os moinhos não foram feitos para girar, mas para moer. A conclusão é fácil de deduzir... 

20. Para ver melhor os 'harmônicos' entre uma ideia principal e suas ideias correlatas, reduza o som daquela. E diga a si mesmo: 'eu aumento, eu exagero'.

21. Não deis ouvido ao rumor que se forma em vossa alma, isso é, no mínimo, perder tempo. A terra vai continuar girando. Procurai viver à maneira das almas desapegadas, unindo-se a Deus no mais íntimo da vossa alma. Não espereis o dia de amanhã para concluir vossos trabalhos e obras: fazei-o agora mesmo. 

22. Vigiai com rigor vossas origens e vossos pontos de partida, tais como se fiscalizam os alicerces de uma fundação. Pois sem isso, e pela lógica, podeis construir todo um edifício sobre a areia, sem ponto de apoio, solto no ar. E sabeis o que iria suceder... a menos que as conclusões a que chegueis vos advirtam por si mesmas que haveis errado o caminho...

23. No repouso, desfazei impiedosamente de todos os devaneios imaginativos assim que vislumbrá-los. Dai a Deus a fidelidade de ocupar-vos apenas dEle e recebereis, então, a graça para fazer o que for necessário e resolver os problemas pendentes. 

24. Existem períodos nos quais é muito difícil fazer parar a 'roda do moinho'; é preciso saber suportar estas importunações da imaginação. Não reclameis então a Deus, mas volvei suavemente até Ele as faculdades superiores. É o mais seguro e, inclusive, mais fácil. Velar sobre a saúde e a moderação em tudo ajuda muito. Pois, na frágil natureza humana, tudo está relacionado. 

25. É muito importante evitar tudo o que nos agita, inquieta e perturba. Em quem descansará o Espírito senão sobre os humildes e os pacíficos? Temos muita necessidade do Espírito Santo! 

26. Tenhais em conta que a imaginação deve ser sempre temida e vigiada ainda que não esteja sempre necessariamente errada.

(Excertos da obra 'A Vida Oculta em Deus', de Robert de Langeac; Parte I -  O Esforço da Alma; tradução do autor do blog)