sábado, 31 de dezembro de 2016

ORAÇÃO PARA O ÚLTIMO DIA DO ANO

Obrigado, Senhor,
pelo ano que termina,
porque estou aqui, junto Convosco e com minha família (com meus amigos),
vivendo a alegria de ter vivido um ano mais
em Vossa Santa Presença.

Obrigado, Senhor,
por mais um ano de vida,
por ter tido ainda este tempo para viver 
as santas alegrias do Natal e deste Ano Novo.
Por estar com pessoas que amo
e que compartilham comigo
a mesma fé e o sincero propósito
de viver o Evangelho a cada dia.

Obrigado, Senhor,
por tantas graças recebidas neste ano que passa;
eu Vos ofereço hoje o meu nada
e, dentro do meu nada, todo o meu amor humano possível,
como herança de Vossa Ressurreição.
No meio das luzes do mundo nesse dia de festa,
eu me recolho à sombra da Vossa Misericórdia;
e Vos honro e Vos dou glória nesse tempo
pelos tempos que estarei Convosco para sempre.

Obrigado, Senhor,
por estar aqui na Vossa Presença,
no tempo que conta mais um ano que se vai,
na gratidão da alma confiante
que aprendeu o caminho do Pai.
Das coisas boas que fiz, dou-Vos tudo,
porque as recebi de Vosso Santo Espírito.
E Vos suplico curar com Vosso Corpo e Sangue
as cicatrizes dos meus pecados.

Obrigado, Senhor,
pela caminhada diária com Maria, 
que nos ensina no cotidiano de nossa vidas
a ir ao Vosso encontro todos os dias.
Pelo meu Santo Anjo da Guarda,
pelos meus santos de devoção, 
pelo papa, e pela Vossa Igreja,
eu Vos agradeço, Senhor, e Vos louvo, 
neste último dia do ano.

Obrigado, Senhor,
pelo ano que termina.
Que eu não me lembre nesse tempo
das dores e sofrimentos que passei,
das tristezas e angústias que vivi:
que todo mal seja olvidado agora
na alegria de eu estar aqui Convosco,
e pela resignação à Santa Vontade de Deus.

E que nesta última hora do tempo que se vai,
do ano que chega ao fim:
mais uma vez, não seja eu que viva,
mas o Cristo que vive em mim.
Amém.


(Arcos de Pilares)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

HISTÓRIAS QUE OUVI CONTAR (XVII)


Isto aconteceu em N., um povoado ermo localizado no interior da Hungria, durante o segundo semestre de 1956. A doutrina comunista impunha um modelo ideológico de ensino e de doutrinação baseada na perseguição à fé cristã e na difamação e ridicularização da Igreja Católica. O regime ateu buscava disseminar por todo o país o seu programa de ensino ideológico como regra geral, baseado na negação de Deus e das verdades do Evangelho e no aniquilamento de todas e quaisquer práticas cristãs.  

Na paróquia de N., entretanto, o trabalho por fazer tenderia a ser especialmente duro. Aquela comunidade mantivera intactos os fundamentos da fé cristã por gerações e fazer desaparecer as raízes de sua fé e religiosidade não seria uma tarefa simples e imediata. Era preciso adotar estratégias especiais e inocular o veneno do ateísmo em doses crescentes e sistemáticas. E era preciso cortar o mal pela raiz, solapando a religiosidade na sua escala inicial: nas crianças, mediante um propósito firme e persuasivo: arrancar a fé da alma das crianças para formar mais tarde legiões de homens desprovidos de qualquer convívio com a ideia de Deus.

Não havia pessoa melhor do que G. para cumprir esta missão diabólica: ela era a professora-modelo do regime ateu vigente. E, cheia de honrarias e galanteios, G. foi deslocada para aquele lugar do interior da Hungria para servir de referência do poder e da força do regime ateu militante para a transformação da sociedade magiar em direção ao comunismo pleno. E, ainda mais cheia de galanteios e honrarias, tomou a frente da direção da escola local e tornou-se a professora da turma dos alunos do último ano.

E não perdeu tempo para disseminar os seus venenos e desvarios em doses crescentes, a cada aula, todos os dias. Da zombaria às blasfêmias, do deboche explícito aos argumentos inventados, das mentiras à negação absoluta de quaisquer valores cristãos, a professora se impôs como um flagelo e uma bruxa demente na frente das crianças. Mas encontrou resistência. Não firmou trincheiras na consciência dos pequenos. Não intimidou as crianças pelo medo e pelas ameaças veladas. Não obscureceu a luz do dia com as trevas de sua alma vulgar.

O velho pároco da comunidade as sustentava na fé, fora dos horários da escola; ensinava-lhes os exemplos e as obras dos grandes santos e mártires da Igreja, os valores extraordinários do Evangelho, os tesouros incomensuráveis da verdadeira fé cristã. Ensinava-lhes uma, dez, cem vezes: Deus não se interessa por almas almas tíbias e acovardadas; era preciso não esmorecerem nunca para não se tornarem vassalos do exército ateu, mas perseverarem na fé cristã para serem sempre os soldados de Cristo. As crianças aprendiam muito melhor as lições do velho pároco. E, ninguém mais do que A. se alistou nesta grande resistência: a menina tornou-se rapidamente a cabeça do pequeno exército de Cristo na região erma de N. 

Os ataques aumentaram de intensidade e vigor; as ameaças se tornaram frequentes, o medo se impôs como alternativa natural. O velho pároco foi preso e mantido incomunicável, as aulas foram aumentadas, reuniões e ajuntamentos foram proibidos. O sistema fazia valer a sua teia de infâmias e perseguições. Mas G. não avançava em nada, o silêncio das crianças a atormentava, a indiferença delas diante de suas constantes ameaças a desnorteavam; seu relatório semestral ao partido não registrou nenhum ganho palpável e apenas alardeava um projeto de ineficiência crônica. E o seu ódio por A. tornou-se compulsivo e mórbido.

Em meados de dezembro, ela chegou ao paroxismo de suas intenções: algumas crianças, lideradas por A., a tinham desafiado a limites extremos: G. as ouvira entoar baixinho, durante um intervalo das aulas, uma canção que falava de Natal e do Menino Jesus! Na sala dos professores tomando o seu chá, G. ficou lívida como um cadáver e espumando de raiva feito um zumbi. O refrão da cantiga vibrava e ressoava dentro de sua cabeça: 'Vem, Menino Jesus, vem!' Gemeu entorpecida por uns 15 minutos, antes de definir a tática malévola que se esgueirou por sua mente doentia, diferente de tudo que até então tentara. Tremendo de ódio, voltou à sala de aula. 

'Crianças, vocês sabem que festa está próxima de ocorrer?' Silêncio total. 'Vamos lá, que festa é essa que vocês comemoravam nesta época todo ano?' Silêncio total. 'Muito bem, se vocês não a reconhecem, é porque ela não tinha importância nenhuma, não é?' 'É o Natal' - a vozinha de A. quebrou o silêncio seguinte. G. estremeceu, mas se conteve. 'Ah, o Natal, aquela festinha do nascimento de um menino... como é o nome dele, A.?' 'Jesus - a vozinha era suave mas firme - o Menino Jesus'. G. estremeceu com uma risada sarcástica: 'Vocês gostam de acreditar em historinhas bem contadas... quanta superstição boba... e vocês conhecem alguma cantiga que fale nesse Menino Jesus?'. Nenhuma resposta. 'Tem aquela: 'Vem, Menino Jesus, vem!'... e começou a cantar o refrão da cantiga, em tons desafinados e ares de deboche. 'Você conhece essa cantiga, A.?' 'Sim, eu a conheço'. G. estremeceu de ira interior e muito disso aflorou aos seus lábios trementes: 'Então a cante para mim, agora!'

A. sabia que tinha ido muito longe, mas o seu pensamento intimidado foi cortado de repente pela sua voz: ela começara a cantar a velha cantiga de Natal. Sua vozinha tinha a força de um sino vibrando em todas as direções da sala de aula. Ela se levantou e começou a cantar com mais força; ao chegar no refrão, a menina da segunda carteira da fila à sua direita começou a cantar junto com ela; depois, outra à sua esquerda, o menino lourinho da frente... e, um pouco depois, a sala inteira cantava, numa única voz, a velha cantiga. E um pequeno milagre já aconteceu aí: G. ficou muda e petrificada na sua cadeira até que o último som se esvaiu no ar.

A professora ficou os cinco minutos seguintes tentando entender o que tinha acontecido. Era claro que toda a escola tinha ouvido a música de Natal entoada inteira na sua classe, isto ela podia perceber pelo silêncio absoluto que reinava na sala e também fora da sala de aula. Ela buscou recompor o estado das coisas, fingindo um sarcasmo que agora parecia débil: 'Vem, Menino Jesus, vem? Vocês cantam para um fantasma, um duende, uma ficção... querem ver? Querem que eu lhes mostre como essa cantiga é tola, absurda, supersticiosa, inútil?' E, de imediato, virou-se para o menino loirinho da frente e gritou: 'Vem, Menino H. vem!' H. se levantou aterrorizado e se aproximou da professora como um autômato. 

Em seguida, abriu a porta e gritou: 'Vem, senhor D., vem!'. E quase no mesmo instante apareceu o velho bibliotecário da escola, o senhor D., muitíssimo mais vermelho do que o seu normal. E chamou em seguida a senhora L., a chefe da cantina, que apareceu às pressas, ainda atarefada em se desfazer do seu avental. A professora os despachou em seguida, fechou a porta da sala e, sarcástica como nunca, desafiou as crianças: 'Vem, Barba Azul, vem!' E, colocando a mão em concha sobre uma das orelhas, fingia esperar uma resposta. 'Vem, Pé-Grande, vem!' e, rindo sem parar, desfilou uma galeria de elfos, duendes, fadas e outros tantos seres mitológicos com o refrão da cantiga. 'E então, crianças, estão vendo? Coisas que existem vêm e vão porque existem; coisas que não existem não podem nos ouvir chamá-los e nem vir até nós porque simplesmente não existem!' O 'simplesmente não existem' foi proclamado sílaba por sílaba, numa entonação exasperada.

O sarcasmo fazia a professora salivar e desferir perdigotos como uma metralhadora líquida. E ela havia encontrado a saída para explicar depois, lá fora, a concessão à cantoria religiosa. E, quase em vertigem, desafiou as crianças: 'Chamem o Menino Jesus, chamem... quem sabe ele não aparece aqui para nos mostrar que não é uma fábula da religião de vocês? Vamos, chamem o menino de novo, chamem...'

A vozinha de A. deu início ao coro que se seguiu de imediato. As crianças se colocaram de pé e entoaram juntas, mais uma vez, a velha canção de Natal. 'Vem, Menino Jesus, vem!' 'Vem, Menino Jesus, vem!' 'Vem, Menino Jesus, vem!' Foi A. quem viu primeiro a luz nascendo de repente, no meio da parede atrás da professora, quando entoavam o refrão da música pela terceira vez. A Luz tinha a forma de uma esfera de uma brancura indescritível e, no meio da Luz, o Menino Jesus cantava o refrão da música com as crianças. As crianças ficaram totalmente imersas na luz que emanava da Luz e que se dissipava muito mais além, tornando transparentes as paredes e o teto da sala. Ninguém nunca soube precisar o tempo da aparição, pois todos tiveram a certeza de que o tempo naquele momento parou nos relógios dos homens.

A luz simplesmente dissipou e tudo voltou ao normal na sala de aula de N. As crianças lembraram-se então de olhar para a professora e não a viram mais na sala. Muitas testemunhas disseram depois que a viram passar pela parede como se esta não existisse, ao se afastar da luz que a cegava, e sair em louca disparada em direção desconhecida, gritando feito uma demente: 'Ele veio! Ele veio! Ele veio!' É fato notório que o ateísmo nunca vingou ali e o regime comunista se desfez sob a Hungria libertada. Também é fato concreto que todo Natal em N. é precedido e acompanhado por muitos e muitos coros daquela velha canção natalina. E muitos dizem que, de tempos em tempos, o Menino Jesus reaparece por lá no Natal, quando se está cantando o refrão da velha música pela terceira vez...

('Histórias que Ouvi Contar' são crônicas do autor deste blog)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

O SILÊNCIO DO PRESÉPIO


Jesus, ao nascer, escolheu para ermitagem e oratório o estábulo de Belém; quis nascer fora da cidade, numa caverna solitária, para inspirar-nos o amor pela solidão e pelo silêncio. Entremos nessa gruta, lá só acharemos solidão e silêncio: Jesus conserva-se silencioso na manjedoura; Maria e José O adoram e O contemplam em silêncio. Foi revelado à Irmã Margarida do Santíssimo Sacramento, carmelita descalça, apelidada a Esposa do Menino Jesus, que tudo o que se passou na gruta de Belém, mesmo a visita dos pastores e a adoração dos Santos Reis Magos se fez em silêncio.

O silêncio das outras crianças provém da sua impotência; o de Jesus Cristo foi uma virtude. Jesus Menino não fala; mas em seu silêncio, o que Ele não diz? Ó felizes os que se entretêm silenciosamente com Jesus, Maria e José nessa santa solidão do presépio! Os pastores lá passaram poucos instantes e saíram inflamados de amor para com Deus louvando-O e bendizendo-O. Ó feliz a alma que se retira à solidão de Belém para contemplar a divina misericórdia e o amor que um Deus teve e tem para com os homens! Eu a levarei à solidão e falarei a seu coração. Lá o Divino Infante lhe falará não aos ouvidos, mas ao coração, e a convidará a amar um Deus que tão ternamente a ama.

Ao ver a pobreza desse encantador ermitãozinho que fica na gruta gelada, sem lume, tendo apenas uma manjedoura por berço e um pouco de palha por leito; ao ouvir os vagidos e ao ver as lágrimas desse Menino, a inocência mesma; ao refletir que é o seu Deus, como poderia pensar em outra coisa senão em amá-lO? O estábulo de Belém, eis a doce ermida para a alma que tem fé.

Imitemos a Maria e a José que, inflamados de amor, contemplam o adorável Filho de Deus revestido de carne e sujeito às misérias desta vida; o sábio por excelência tornado criança sem palavra; o grande feito pequeno; o Altíssimo tão rebaixado; o Riquíssimo feito tão pobre; o Todo-poderoso feito fraco. Numa palavra, vejamos a majestade divina oculta sob a forma de uma criancinha, desprezada e abandonada por todos, fazendo e sofrendo tudo para se tornar amável aos homens, e peçamos-lhe a graça de sermos admitidos nessa santa solidão; detenhamo-nos lá, lá fiquemos e de lá não saiamos mais. 'Ó bela solidão', exclama São Jerônimo, 'na qual Deus fala e conversa com as almas que ama', não como um soberano, mas como um amigo, como um irmão, como um esposo! Ó que paraíso entreter-se a sós com Jesus Menino na humilde gruta de Belém!

(Excertos da obra 'Encarnação, nascimento e infância de Nosso Senhor' por Santo Afonso Maria de Ligório)

29 DE DEZEMBRO - SÃO TOMÁS BECKET


Thomas Becket nasceu em Londres no dia 21 de dezembro de 1117 e, como cortesão da corte, conviveu intimamente com o futuro rei Henrique II que, ao se tornar rei, o nomeou como chanceler. Sob orientação de Teobald, então Arcebispo de Canterbury, foi educado na autêntica fé cristã e enviado para várias missões em Roma. Com a morte do seu preceptor em 1161, tornou-se seu substituto como Arcebispo da Canterbury e Primaz da Inglaterra, por indicação do rei Henrique II. Nesta nova função, a defesa da fé levou a um confronto continuado com o rei e o amigo íntimo dos tempos da adolescência e da juventude, o que culminou com um longo exílio na França. Após seis anos, e mediante a intervenção do papa Alexandre III para uma acordo com o rei, o arcebispo reassumiu o seu cargo, ciente dos riscos que teria de correr, por manter convictos os seus princípios cristãos em detrimento da amizade e lealdade antigas ao rei. E, com efeito, a relação entre os dois tendia a ser, cada vez mais, mais crítica e mais conflituosa.


Na noite de 29 de dezembro de 1170, Thomas (Tomás) Becket dirigiu-se à Catedral de Canterbury, para as cerimônias das Vésperas. De repente, quatro cavaleiros da corte, aparentemente convictos de estarem atendendo a uma vontade expressa do rei, irromperam o recinto sagrado, gritando: 'Onde está o arcebispo? Onde está o traidor?'. Apoiado em um altar lateral, o arcebispo respondeu: 'Aqui me tendes; sou o arcebispo, mas não um traidor'. Diante da ameaça de morte, recusou-se a fugir e enfrentou o covarde ataque. Com vários golpes de espadas, foi ferido mortalmente e, ao morrer, aos 53 anos de idade e nove de episcopado, dos quais dois terços passados em desterro na França, exclamou: 'Morro voluntariamente pelo nome de Jesus e pela defesa de sua Igreja'. 

(altar lateral da Catedral de Canterbury, local do martírio do santo)


Devido às imediatas e intensas manifestações de devoção que se seguiram, na Inglaterra e por toda a Europa, Thomas Becket foi canonizado pouco mais de dois anos após a sua morte, em 21 de fevereiro de de 1173, pelo papa Alexandre III. Em julho de 1174, o rei Henrique II se penitenciou publicamente diante do túmulo do santo, que se tornou local de grande peregrinação religiosa, até ser destruído por ordem do rei Henrique VIII, em setembro de 1538, à época da implantação do Anglicanismo como religião oficial da Inglaterra em rejeição à fé cristã.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

28 DE DEZEMBRO - SANTOS INOCENTES


Santos Inocentes de Deus,
almas cristalinas,
pousai vossos ternos anelos
nas sombras das colinas;
não inquieteis com vosso pranto
as feras sibilinas,
fitai o esgar dos carrascos
com doces retinas;
que a vida que foge breve,
em  adagas repentinas,
renasça em eternos louvores
nas glórias divinas.
(Arcos de Pilares)

Santos Inocentes de Deus, rogai por nós

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

BREVIÁRIO DIGITAL (XLVII) - ANNE DE BRETAGNE (VIII)

LIVRO DE ORAÇÕES DE ANNE DE BRETAGNE* (1477 - 1514) - PARTE VIII

* esposa de dois reis sucessivos da França, Charles VII e Luís XII

AUTORIA DAS ILUMINURAS: JEAN POYER 


I.31 - O Arcanjo Gabriel: O arcanjo é representado com asas e uma faixa dourada cruzando suas vestes, segurando um cetro encimado por uma flor-de-lis. A iluminura faz referência ao papel do arcanjo na salvação da humanidade, no momento da Encarnação, e como ponderador das almas, no Juízo Final.


I.32 - Santo Huberto e a Visão Milagrosa entre os Cornos de um Veado: Huberto era um nobre do século VII-VIII que, numa certa sexta-feira santa, tendo ido a uma caçada em detrimento das cerimônias religiosas daquela data, deparou-se de repente com um veado de imponentes chifres, entre os quais se formou milagrosamente a imagem de um crucifixo. Caindo em adoração diante da visão (evento representado na iluminura), o nobre medieval converteu-se totalmente e, mais tarde, tornou-se bispo da Igreja Católica. É o santo patrono dos caçadores e invocado nas curas da raiva e das mordidas de cães.


I.33 - A Coroa de Espinhos do Salvador: na penúltima iluminura da série, Poyer retrata dois anjos seguram a coroa de espinhos de Jesus, poderoso símbolo da Paixão e Morte do Senhor. A rainha Anne dedicava uma particular e especial devoção à Coroa de Espinhos do Senhor.


I.34 - O príncipe Charles-Orland em oração: a última iluminura da série mostra Charles-Orland, filho primogênito da rainha Anne de Bretagne e do rei Charles VIII. O príncipe é retratado com a idade de 12 anos e ajoelhado em oração, implorando sabedoria a Deus para um dia ocupar o trono, que é mostrado vazio atrás dele. A oração é parte integrante da iluminura e foi composta especialmente para o pequeno príncipe por Anne, para que fosse aprendida por ele mais tarde, mais ou menos com esta idade. Infelizmente o príncipe nunca chegou a aprendê-la, pois morreu logo após completar o seu terceiro aniversário.  

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

OS SONHOS DAS TRÊS ÁRVORES

Numa floresta erma, três pequenas árvores cresciam juntas e, no tempo em que as árvores falavam e sonhavam, também sonhavam juntas.

Suspirando, a primeira árvore, olhando ao longe, disse às outras duas: 'Eu queria guardar um dia os tesouros mais preciosos do mundo'. 

A segunda completou de imediato: 'Pois eu queria fazer parte de muitos navios que levassem reis e rainhas, carregados dos tesouros mais preciosos'.

A terceira árvore ousou ainda mais longe no diálogo dos sonhos: 'Eu queria ser tão grande e imponente que pudesse não apenas carregar e transportar os maiores tesouros do mundo, mas me tornar eu mesma um bem mais valioso que todo o ouro do mundo'.

E os anos passaram como se passam os sonhos. Certo dia, finalmente vieram alguns lenhadores e de imediato passaram a cortar aquelas três árvores tão próximas e tão singulares. As árvores estavam ansiosas para se cumprir os seus sonhos, mas era infelizmente um tempo em que os lenhadores eram apenas homens práticos e não dados a ouvir e a dar realidade a devaneios de árvores sonhadoras...

A primeira árvore foi transformada em muita lenha e em um pequeno coxo, que guardava apenas feno, e que era usado para alimentar animais de uma estrebaria. 

A segunda árvore virou madeira para a construção de pequenos e simples barcos de pesca, que carregavam tão somente rudes pescadores, peixes e redes de pesca. 

A terceira árvore, por sua vez, que havia se tornado mais imponente que as outras duas, foi cortada e recortada num monte de vigas e tábuas, que foram armazenadas em um velho depósito.

E como árvores que sonham tem sentimentos, as três se perguntavam então desiludidas: 'que destino triste o nosso, de que valeram os nossos belos sonhos?'

Mas, numa certa noite, cheia de luz e de estrelas, uma jovem mulher depositou o seu bebê recém nascido no pequeno coxo feito da primeira árvore e fez dele uma manjedoura. 

Anos depois, um homem falou a rudes pescadores num pequeno barco feito da segunda árvore que faria deles 'pescadores de homens' e este mesmo homem, em outro pequeno barco feito da segunda árvore, acordou no meio de uma grande tempestade e fez o mar revolto se acalmar de pronto com uma simples ordem: 'Acalmai!'

Tempos mais tarde, numa sexta-feira, algumas vigas da terceira árvore foram retiradas do velho depósito e foram unidas em forma de cruz; e nela foi pregado um homem cujos braços abertos resgataram a humanidade do pecado e legaram a salvação ao mundo.

E Deus fez entender às três árvores que os seus sonhos tinham sido realizados muito além do possível.

(Livre adaptação do autor do blog de um antigo conto de Natal)

domingo, 25 de dezembro de 2016

O FILHO DO DEUS VIVO ESTÁ ENTRE NÓS!

Páginas do Evangelho - Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo 


Estamos prostrados diante a manjedoura humilde, na Gruta de Belém, na Noite Santa em que Deus nos tornou herdeiros de todas as bem aventuranças eternas. O Filho do Deus Vivo já habita entre nós! Nesta noite extraordinária, os véus dos mistérios insondáveis se desvelam no Menino-Deus: O Filho do Deus Vivo já habita entre nós! É dEle que João exclamou: 'O que vem depois de mim passou à minha frente, porque ele existia antes de mim' (Jo 1, 15). É por Ele que 'foram criadas todas as coisas ... tudo foi criado por Ele e para Ele' (Col 1, 16). Essa criança será Jesus de Nazaré e que forjará numa cruz o legado da redenção e salvação da humanidade. Não se pode polir mais a grandeza extraordinária deste Evangelho, buscar redescobrir palavras que já são por si só sumamente belas; então, apenas as acolhamos no coração como tesouro inesgotável de graças e, ainda com muito mais razão, o Menino-Deus reclinado nesta Noite Santa na humilde manjedoura de Belém!

'No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus; e a Palavra era Deus. No princípio estava ela com Deus. Tudo foi feito por ela, e sem ela nada se fez de tudo que foi feito. Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la. Surgiu um homem enviado por Deus; seu nome era João. Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz: daquele que era a luz de verdade, que, vindo ao mundo, ilumina todo ser humano' (Jo 1, 1-9).

'A Palavra estava no mundo — e o mundo foi feito por meio dela — mas o mundo não quis conhecê-la. Veio para o que era seu, e os seus não a acolheram. Mas, a todos que a receberam, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus, isto é, aos que acreditam em seu nome, pois estes não nasceram do sangue nem da vontade da carne nem da vontade do varão, mas de Deus mesmo' (Jo 10, 13).

'E a Palavra se fez carne e habitou entre nós. E nós contemplamos a sua glória, glória que recebe do Pai como Filho unigênito, cheio de graça e de verdade. Dele, João dá testemunho, clamando: 'Este é aquele de quem eu disse: O que vem depois de mim passou à minha frente, porque ele existia antes de mim'. De sua plenitude todos nós recebemos graça por graça. Pois por meio de Moisés foi dada a Lei, mas a graça e a verdade nos chegaram através de Jesus Cristo. A Deus, ninguém jamais viu. Mas o Unigênito de Deus, que está na intimidade do Pai, ele no-lo deu a conhecer' (Jo 1, 14 - 18).

sábado, 24 de dezembro de 2016

FELIZ E SANTO NATAL EM CRISTO!


Desejo a todos os nossos amigos visitantes um Santo e Feliz Natal. 
Deseo a todos los amigos y visitantes Felices Navidades. 
I wish to our friends' visitors an happy and Holy Christmas. 
Je désire à tous nos amis un heureux et joyeux Noel. 
Auguro a tutti gli amici uno Santo ed Felice Natale. 
Ich wunshe to unsere Freude eine Wundabar und Stille Nacht.

IGREJA CATÓLICA: ALMA DO NATAL

(clicar para o vídeo)

AS MAIS BELAS CANÇÕES DE NATAL


(clicar para o vídeo)

NATAL

Jesus nasceu! e na pequena estrebaria
José apressa-se em fazer a manjedoura
ajunta palha e feno, mudo de alegria,
enquanto a Mãe em êxtase se entesoura

Os animais se aproximam cautelosos
inebriados diante a luz que transfigura
e os pastores de joelhos, jubilosos,
louvam o Criador agora criatura!

Há uma paz imensa nesta noite fria
todos os anjos cantam a doce melodia
que une céu e terra em amor profundo;

É Natal, a Mãe embala seu pequeno filho
e a luz que inunda a gruta tem o brilho
da salvação que libertou o mundo!

                                                                              (Arcos de Pilares)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O NASCIMENTO DE JESUS

Maria sentiu um leve estremecimento no ventre. Estremecimento e não dor. Percebera-o nitidamente em meio ao movimento harmônico do trote do burrico pela estrada poeirenta. No recolhimento de sua oração profunda, sua mão busca tocar levemente o ventre como uma resposta imediata da Mãe ao sinal enviado pelo Filho: a longa preparação do Tempo dos Profetas há de ser realidade em breve naquele tempo da história e Deus feito homem vai nascer no mundo. É o primeiro sinal. Suave estremecimento, perceptivel apenas por Maria, naquele momento da longa travessia que perpassa agora os campos abertos que levam mais adiante à Belém de todas as profecias.

José, puxando o burrico, olha para trás e se preocupa. O vento começa a soprar mais forte e mais frio e a jornada agora é mais lenta e penosa, nos declives mais acentuados da estrada que serpenteia pelo vale e pelos contrafortes de formações rochosas. E há muitas pessoas e alarido em torno deles. De tempos em tempos, são obrigados a parar e dar passagem a outros viajantes em marcha mais apressada ou para superarem com extremo cuidado os trechos mais íngremes. Quase todos os peregrinos têm o mesmo destino e o mesmo objetivo: apresentarem-se às autoridades em Belém e cumprirem as normas do novo recenseamento imposto pelas autoridades romanas. 

Em meio a um acontecimento regional e específico da história humana, está prestes a ocorrer o mais extraordinário evento da humanidade. Em meio ao burburinho e à agitação de toda aquela gente, Maria recebeu o primeiro sinal da manifestação da vinda do Messias prometido. Um murmúrio de humanidade no sagrado ventre consubstancia em definitivo o Mistério da Anunciação. Um leve estremecimento acaba de prenunciar o nascimento de Deus. 


As ruas estreitas se consomem de tanta gente. Há um cenário de mercado livre por toda a Belém daqueles dias. Eles acabaram de cumprir os registros formais do recenseamento e agora buscam ansiosamente uma pousada para o pernoite. Não é apenas o albergue principal da cidade que está com a lotação esgotada; as casas se transformaram em emaranhados de pessoas e utensílios, num entra e sai sem fim de gente ruidosa e apressada. Há o burburinho comum das crianças e o festim grotesco das ofertas gritadas e dos negócios de ocasião. No vaivém das ruas apinhadas e confusas, Maria e José buscam refúgio fora da cidade, além das casas mais ermas e mais afastadas. Aqui e ali ainda se veem acampamentos rústicos, improvisados, à guisa de refúgio de grupos mais ou menos numerosos. Além, mais além, as formações calcárias formam reintrâncias e cavernas, que muitas vezes são utilizadas como estrebarias pelos mercadores das grandes rotas até Jerusalém.

José leva o burrico na direção destas cavernas. Ele não sente no rosto o vento frio da tarde que se desvanece, nem o cansaço da longa jornada. Seu pensamento é todo, totalmente por Maria. A preocupação em encontrar um lugar digno para ela o consome por completo. A ânsia de dar descanso e refúgio a Maria tolhe todos os seus sentidos e atividades. A dimensão do mistério insondável o atordoa e o aniquila: a humanidade de José sente o peso incomensurável dos desígnios da Providência.

Passa adiante da primeira entrada, que não passa de um buraco estreito e irregular na rocha. A seguinte é pouco melhor do que isso. As demais mostram-se maiores e limpas, mas já estão todas ocupadas. As pessoas amontoam-se nos espaços exíguos em silêncio, homens na sua grande maioria, cercados por animais, feno e capim. São estrebarias que agora acomodam pessoas. José se inquieta ainda mais. Não há possibilidade aparente de privacidade para o nascimento de Jesus, não há lugar nenhum para um abrigo ainda que provisório. 

Avançado o paredão rochoso, José agora se depara com um cinturão de amendoeiras que margeiam o caminho adiante, que se abre, então, para campos e vales ao longe. Bem distante, na encosta suave do outro lado do vale, consegue divisar um pastor empurrando o seu rebanho. Nesse momento, sente os ombros dolorosamente pesados e seu andar vacilante. Seu olhar havia percorrido cada entrada rochosa e cada rosto humano em busca de recepção e de um gesto de boa vontade. E nada. Agora volve o seu olhar para Maria, como que pedindo perdão pela sua incapacidade e incerteza daquele momento. A humanidade inteira geme as suas ânsias pelo olhar desconsolado de José. 

Ao passar pela terceira gruta, Maria sentiu, como uma vibração percorrendo todo o seu corpo, o sopro do Espírito de Deus. Desde o primeiro sinal, recolhera-se, ainda com maior devoção, à oração de dar glórias ao Pai pelo que estava prestes a acontecer. Como serva da Anunciação, era agora a mesma serva como Mãe de Deus. E, nesse momento, pressentira o segundo sinal. A Divina Promessa iria dispensar a Redenção em breve à humanidade pecadora. Ao olhar para José, compreendendo a sua aflição e seu desapontamento, fitou-o com os olhos da perseverança e da fé inquebrantáveis e o brilho deste olhar emanava a própria luz de Deus.

Diante do olhar de Maria, a humanidade de José se detém e suas dúvidas se dissipam. Então, ele avança mais vinte, mais cinquenta metros, contorna as árvores e avista a gruta que emerge da continuação do maciço rochoso à esquerda. É e será sempre a visão do paraíso. Não é exatamente uma gruta, mas uma escavação que avança em profundidade na rocha e é protegida por uma murada frontal de pedras mal alinhadas, trançadas com restos de vigas de madeira, espalhados em desordenada profusão, que fecham de maneira irregular a entrada do lugar, protegendo-o dos ventos e das intempéries. Escondida, erma, isolada, bendita seja a gruta de Belém! 

Ela está suja, úmida, mal cuidada, mas não de todo desconhecida ou abandonada, porque um boi ali se encontra, com bastante feno e água. Há sujeira e palha solta em todos os lugares. Num canto, um arranjo de pedras enegrecidas indica o lugar de costume de se acender o fogo. Aliviado e feliz, José se consome nos arranjos práticos do refúgio improvisado. Ajuda Maria a entrar na gruta e se apressa a alimentá-la e a acomodá-la o melhor possível; dá feno e água ao burrico que é levado para junto do boi, monta um tablado de feno no chão, dispondo cuidadosamente os fardos; com paus e pedras, faz um arremedo de cercado em torno de Maria e o cobre com a sua manta grossa de viagem; empilha num canto os troncos e os pedaços de madeira espalhados; limpa as pedras e o chão com feixes de palhas e, com gravetos e pedaços de madeira seca, acende o fogo. A pequena luz se espalha pela escondida, erma, isolada, bendita gruta de Belém! 


O silêncio da gruta é quebrado apenas pelo crepitar das últimas chamas. O fogo aqueceu o espaço limitado e agora existe mais penumbra do que claridade. O fogo emoldura em repentes luminosos o rosto de José enquanto, pelas aberturas das muradas de pedras, o luar desenha feixes de luzes prateadas que cortam a escuridão que envolve toda a gruta. De repente, Maria põe-se de joelhos em contrita oração. Prostra-se com o rosto no chão e José percebe, apesar de toda a escuridão, o que está para acontecer. Coloca-se também de joelhos, também em fervorosa oração, louvando a Deus por ser testemunha e personagem de mistério tão extraordinário. Em muda expectativa, contempla o perfil de Maria apenas esboçado na escuridão da gruta.

A princípio, supõe ver os feixes de luar convergirem para o rosto de Maria ou auréolas de luz provenientes do fogo a envolverem completamente. Mas sabe que é muito mais que isso: uma luz, de claridade e brilho espantosos, nasce, emana e flui dela, enchendo a gruta de uma tal iridescência, que todas as coisas perdem a forma, o volume e a natureza material. Maria não se transfigura em luz, ela é a própria luz! O rosto de Maria é luz, as vestes de Maria são luz, as mãos de Maria são luz. Mas não é uma luz deste mundo, nem o brilho do cristal mais polido, nem o resplendor do diamante mais lapidado, nem a etérea luminosidade dos átomos em fissão; tudo isso seria uma mera pátina de luz. Maria torna-se um espelho do próprio Deus, da qual emana a luz do Céu!

José se transfigura neste redemoinho de luz sem ser a luz. Seus olhos puderam contemplar o terceiro e definitivo sinal da Natividade de Deus. E trêmulo, mudo, pasmado, contempla o recém-nascido acolhido entre os braços de Maria, recebendo o primeiro carinho e o primeiro beijo da Mãe Imaculada. Pressuroso e em êxtase, prepara a humilde manjedoura, o primeiro altar de Jesus na terra. O Filho do Deus Vivo já habita entre nós!

(Adaptação livre do autor do blog sobre os eventos prévios ao nascimento de Jesus)

LUZ NAS TREVAS DA HERESIA PROTESTANTE (V)

Segunda Objeção* do crente: 'Pede-se um texto da bíblia que prove que Maria foi concebida sem pecado.'

Resposta do Pe. Júlio Maria de Lombaerde:

É a segunda objeção formidável, que prova a supina ignorância de quem a formula. Falam da conceição imaculada de Maria, sem saber de que se trata, em que consiste e qual a significação das palavras. Eis porque vou citar, não somente um texto da bíblia, mas sim diversos, e explicar o mais claro possível o que é a imaculada conceição, para que o meu amigo protestante entenda que ele pretende combater o que ignora. Escute bem, meu amigo.

I. O que é o pecado original

O pecado original é o pecado cometido por Adão e Eva, desobedecendo a Deus. Este pecado, em Adão era atual, e o afastou de Deus, como fim sobrenatural. Em nós, é um pecado de raça. O gênero humano forma um corpo único, como ensina São Paulo: 'assim como o corpo é um, e tem muitos membros... assim é também Cristo, porque num espírito fomos batizados todos nós, para sermos um só corpo' (1 Cor 12, 12). Cristo é a cabeça sobrenatural deste corpo, sendo Adão a sua cabeça natural e moral. A cabeça moral pecando, todos os membros participam deste pecado.

Quando Deus criou nossos primeiros pais, estabeleceu-os no estado de inocência, de justiça original e de santidade, outorgando-lhes dons de três qualidades: naturais, sobrenaturais e preternaturais. Os dons naturais são as propriedades do corpo e da alma, exigidos por sua natureza dos homens, para alcançar o seu fim natural. Os dons sobrenaturais são: a graça santificante que faz deles filhos de Deus e predestinados à visão beatífica. Os dons preternaturais consistem na imunidade do sofrimento, da morte, da ignorância e da concupiscência. 

Adão e Eva, desobedecendo a Deus, cometeram um pecado mortal (Gn 2,17) e perderam a graça divina, com todos os dons que excediam as exigências da natureza humana. Perderam todos os dons sobrenaturais e preternaturais, conservando apenas os dons naturais, porém muito enfraquecidos. Os dons naturais não lhes foram retirados em sua constituição intrínseca, mas em seu exercício; as paixões desnorteando o juízo e enfraquecendo a vontade.

Este pecado, sendo um pecado de raça, transmite-se a todos os que pertencem à raça humana. O pecado entrou no mundo por um homem só, diz o Apóstolo (Rom 5,22). E ainda: 'Se um só morreu para todos é porque todos estavam mortos' (2 Cor 5,14). Todos estavam mortos em Adão. Todos! Logo também Maria Santíssima.

Entende-se por morta em Adão o fato de Maria, em virtude da sua conceição, estar sujeita ao pecado original por direito, porém não estava sujeita a este pecado de fato, porque uma graça singular do Redentor preservou-a, afastando dela a privação que constitui o pecado original. Maria, em virtude da sua descendência natural de Adão, estaria sujeita ao pecado, se não fosse, como pessoa, preservada dele. Como criatura, Maria devia herdar o pecado original; como Mãe de Deus, devia ela ser preservada.

II. A objeção protestante

A curta definição supra, simples definição do pecado original, é imediatamente impugnada pelos protestantes, que não querem compreender a verdade. O mesmo pastor, já citado diversas vezes, que tem a reputação de ser um farol da seita, para não dizer um lampião, começa logo com suas invenções. 

Maria Imaculada – quer dizer que a bendita Virgem foi concebida sem pecado, tal qual o seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo. Ignorância, sempre a mesma ignorância. Quem é, entre os teólogos católicos, que assevera tal absurdo? O amigo protestante inventa um absurdo e pretende refutá-lo, quando tal absurdo nunca figurou na doutrina católica, e é por ela formalmente combatido. Para combater a doutrina católica, caro protestante, é necessário conhecer esta doutrina, e não inventá-la de sua cabeça.

Não; absolutamente não, a Igreja nunca ensinou que Maria foi concebida sem pecado, tal qual Nosso Senhor Jesus Cristo. Tal asserção ridícula não passa de uma grotesca calúnia. A imaculada conceição não consiste em qualquer derrogação das leis da natureza, que presidem à procriação do homem. Nascer de uma Virgem milagrosamente feita mãe pela exclusiva operação do Espírito Santo, é um privilégio que Jesus Cristo reservou para si mesmo. Não quis partilhá-lo com ninguém, nem sequer com aquela que devia dar-lhe a vida.

Maria Santíssima entrou neste mundo pelas vias comuns da natureza, ela foi o fruto bendito de Santa Ana e de São Joaquim. Conforme São Boaventura e o Papa Bento XIV, pode-se distinguir no homem uma dupla conceição: uma ativa, que é a procriação do corpo, e uma passiva, que é a união da alma ao corpo gerado. A conceição ativa de Maria Santíssima em nada difere da conceição das outras crianças. A conceição passiva, ao contrário, é completamente diferente.

A nossa alma, no momento de unir-se ao corpo que ela deve vivificar, é contaminada pelo pecado original; enquanto a alma de Maria Santíssima foi milagrosamente preservada desta mancha. O pecado original é essencialmente uma privação. É a privação da graça primordialmente concedida à natureza humana, na pessoa de Adão. Na ordem intelectual e moral, pode-se dizer que a diferença entre o primeiro homem (Adão) e o homem decaído, o primeiro criado na natureza pura, e o segundo na natureza manchada, é o mesmo que aquela que existe na ordem física entre um homem civilizado, despojado dos vestidos que devia trajar, e um selvagem, que nunca usou roupagem.

Nos desígnios de Deus, a graça sobrenatural devia encontrar-se em todos os homens que nascem, mas depois do pecado original, a alma, chegando à existência é pobre, nua, miserável, privada dos dons magníficos da graça. Essa nudez é para a alma uma mancha, como a ausência das vestes é, para um homem civilizado, uma verdadeira mancha.

Tiremos agora a conclusão desta doutrina. O pecado original sendo essencialmente a privação da graça santificante, que a alma devia ter, deve-se concluir que a imaculada conceição consiste em que Maria Santíssima nunca conheceu, nem um único instante, esta privação, mas que desde o momento que foi criada a sua alma e unida ao corpo, preparado naturalmente para recebê-la, ela achou-se revestida da justiça e da santidade, por uma graça especial de Deus e uma aplicação antecipada dos méritos do Salvador.

Este privilégio é sumamente glorioso para Maria Santíssima e é único em seu gênero, porém não pode, de nenhum modo ser assemelhado à conceição humana do Salvador. De fato, o corpo do Salvador foi formado no seio de uma Virgem, por uma operação pura e divina do Espírito Santo, enquanto o corpo de Maria Santíssima teve a origem comum dos outros corpos humanos. A santidade original é, em Jesus, uma condição de sua natureza, um atributo essencial da sua pessoa. Em Maria, a santidade original é um privilégio, uma graça gratuita, concedida em previsão dos méritos do Salvador.

O Redentor estava infinitamente acima da corrupção comum. Maria Santíssima estava sujeita a esta corrupção, mas foi dela preservada. Assim entendido – no sentido da doutrina católica, a prerrogativa da Mãe não prejudica a excelência do Filho. Jesus é inocente por natureza; Maria o é por graça. Jesus o é por excelência; Maria Santíssima o é por privilégio. Jesus o é como Redentor; Maria Santíssima o é como a primeira resgatada pelo sangue divino, mas num resgate antecipado. Eis a bela, a gloriosa, e luminosa doutrina da imaculada conceição, que os protestantes ignoram por completo, e que pretendem combater, sem conhecê-la.

III. A lei geral

A lei geral é o que o pecado de Adão e Eva passa a todos os seus descendentes, por isso todos os homens nascem com a mancha do pecado original. Esta verdade é claramente ensinada pela Sagrada Escritura, e especialmente por São Paulo (Rom 5). O Concílio Tridentino a proclamou dogma católico e a tradição da Igreja, neste particular, é constante e universal. 

O Criador, para lembrar aos nossos primeiros pais a sua dependência da criatura, proibiu-lhes que comessem da fruta da árvore do bem e do mal (Gen 2,17). Adão e Eva desobedeceram a Deus, e esta desobediência constitui o pecado original. Tudo isso figura na Bíblia (Gn 3,6). O tal pecado, sendo cometido pelo primeiro homem, passa a toda a sua posteridade. Adão viveu, diz a Bíblia, e gerou à sua semelhança e conforme sua imagem (Gn 5,3). Adão, pecador, gerou outro pecador. É lógico. Por um só homem entrou o pecado no mundo, diz São Paulo (Rom 5,12). Todos nós, como filhos de Adão e Eva, nascemos com a alma manchada pelo pecado original.

O testemunho de São Paulo é explícito: 'Assim como o pecado entrou no mundo por um só homem e pelo pecado a morte, assim também passou a morte a todos os homens, porque todos pecaram num só' (Rom 5,12). Segundo São Paulo, houve, pois, pecado num homem só, e este pecado, com as consequências, tornou-se universal, como diz o santo rei Davi: 'Fui gerado na iniquidade, e minha mãe concebeu-me no pecado' (Sl 50,7). Eis a lei geral: todos os homens, como filhos de um pai decaído, como era Adão, nascem decaídos, do mesmo modo como de um rei decaído nascem filhos decaídos.

IV. As exceções a esta lei

O grande argumento dos protestantes é que todos os homens pecaram. E eles concluem: Maria, a Mãe de Jesus, era de raça humana – logo ela pecou. O raciocínio é exato, porém o caso é de repetir a palavra de Judite: 'Quem sois vós para tentar a Deus' (Jd 6,2), para por limites a seu poder? Tal é a lei geral, porém o supremo legislador pode derrogar as leis por ele estabelecidas.

A Bíblia está repleta destas derrogações. O movimento do sol e da lua está matematicamente fixado pela lei da natureza; enquanto Josué não hesitou em fazê-lo parar: 'Sol, detém-se em Gibaon, e tu, lua, no vale de Ajalon. E o sol se deteve e a lua parou' (Js 10, 12-13). É uma lei que as águas seguem a correnteza do seu curso, entretanto Moisés estendeu a sua mão sobre o mar 'e o mar tornou-se enxuto, e as águas foram partidas...como muro à sua direita e à sua esquerda' (Ex 14, 21-22). É uma lei que um morto fica morto até à ressurreição geral, entretanto o próprio Cristo-Deus, diante do cadáver de Lázaro já em putrefação, exclamou: 'Lázaro, sai...' E imediatamente aquele que estava morto saiu vivo (Jo 11, 43-44). Que prova isso, meu caro protestante? Isso prova que nada é impossível a Deus (Lc 18,27).

Todos os homens pecaram em Adão e Eva, e nascem com o pecado original. É a lei geral. Deus pode derrogar esta lei, como pode derrogar muitas outras, quando o julgar necessário ou conveniente. Ora, era absolutamente necessário que ele derrogasse esta lei em favor do seu próprio Filho. O Deus de toda pureza não podia entrar em contato com o pecado. Estes dois termos excluem-se mutuamente. Se Jesus se contaminasse pelo pecado, não seria mais a pureza infinita e não o sendo mais, deixaria de ser Deus, porque em Deus tudo é infinito.

Escute bem, caro protestante. Ora, Cristo, infinitamente puro, não o seria mais, se ele tomasse um corpo formado por uma carne e um sangue maculados pelo pecado. O filho recebe o seu corpo do corpo e do sangue da sua mãe. O filho é uma continuação dos seus pais. O corpo de Jesus Cristo é um corpo formado pela carne e pelo sangue da Santíssima Virgem. Ele é o filho de Maria: 'Aquele que há de nascer de ti, será chamado o filho de Deus', diz São Lucas (Lc 1,35).

Sendo o corpo de Jesus formado do sangue de Maria, e devendo este corpo ser uma pureza infinita – pois é o corpo de Deus – é absolutamente exigido que a carne e o sangue de Maria sejam de uma pureza absoluta, isto é, sem pecado original. Havia duas maneiras de alcançar esta pureza: a purificação ou a isenção do pecado original. Qual destes dois modos há de ser mais conveniente?

A discussão é inútil. Se Maria Santíssima tivesse sido apenas purificada do pecado, ela teria sido escrava, pelo menos durante uns instantes, do demônio, e mais tarde o demônio teria podido lançar no rosto do Salvador este insulto: 'Tua mãe! Ela foi minha antes de ser tua! Eu a possuí maculada!' Uma tal suposição é horrível! Vai, Satanás, longe daqui. Nunca, nunca, nem durante um instante tu dominarás a mulher bendita entre todas as mulheres! O Senhor estará com ela desde o princípio, e onde está o Senhor, lá não pode estar Satanás. Ela será cheia de graça. E se ela fosse dominada pelo mal, se ela o fosse apenas um instante, não estaria mais cheia de graça; faltaria a graça inicial. Eis porque a Mãe de Jesus não podia ser simplesmente purificada do pecado... devia ser preservada.

V. A Imaculada Conceição

Eis-nos, com uma lógica irrefutável, em frente do mistério da imaculada conceição que não é outra coisa senão a preservação do pecado original, em previsão dos merecimentos futuros do Salvador. Diga, amigo protestante, não é lógico isso? Não é convincente? Não é necessário? Pois bem, a tal preservação é o que nós chamamos: imaculada conceição. Está vendo que tal privilégio, outorgado à pura Mãe de Jesus, não é, como aos protestantes se afigura: um bicho de sete cabeças, um espantalho misterioso!

É a coisa mais lógica do mundo, que eles negam por não saber o que é, e que seus pastores combatem, unicamente para dar-se um jeitinho bíblico, para passar por homens inteligentes, entendidos, zelosos discípulos da Bíblia, que não compreendem. A imaculada conceição abrange dois pontos importantes que convém salientar, porque destroem, de antemão, as objeções protestantes: (i) O primeiro é ter sido a Santíssima Virgem preservada da mancha original, desde o princípio da sua conceição; (ii) O segundo é que tal privilégio não lhe era devido por direito, mas foi-lhe concedido em previsão dos merecimentos de Jesus Cristo.

Como tal, Maria Santíssima foi resgatada por Jesus Cristo, como qualquer um de nós; mas convém notar que há duas maneiras de resgatar, ou salvar uma pessoa: antes da queda ou pelo levantamento. O primeiro resgate é de Maria Santíssima; o segundo é o nosso. Cristo morreu para todos, diz o Apóstolo (2 Cor 5,15) e ainda: 'Um só morreu para todos' (2 Cor 5,14). Morreu de fato para todos, e em previsão de sua morte preservou a sua Mãe da mancha do pecado, sendo ela, deste modo, a primeira resgatada, e a mais bela conquista do seu sangue.

VI. As provas da Bíblia

O que acabamos de dizer é lógico, meu caro protestante, e se impõe a uma inteligência não viciada pelo preconceito. Eu sei que isso não é ainda o bastante para vós, por isso apoiemos tal doutrina sobre a Bíblia. Abrindo o Gênesis, encontramos no capítulo 3,15, as seguintes palavras que Deus dirigiu ao demônio, depois da queda dos nossos primeiros pais: Inimicitias ponam inter te et mulierem, et sêmen tuum et sêmen illius: ipsa conteret caput tuum (Gn 3,15). A tradução popular deste texto é: Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua posteridade e a posteridade dela: ela te pisará a cabeça. A tradução literal seria: Porém inimizade entre ti e a mulher, entre a tua semente e a semente dela: ela te esmagará a cabeça.

A primeira tradução está mais ao alcance de todos: a segunda se aproxima mais do texto oficial da Vulgata. Este texto refere-se à Santíssima Virgem, pois é impossível restringir a sua significação à pessoa de Eva. Assim limitado, este texto perderia toda significação. Esta mulher é a Virgem Santíssima, filha de Adão e Eva pela natureza, filha e esposa de Deus, pela graça. Sua posteridade, sua semente é o seu filho unigênito Jesus Cristo, e em Jesus, somos os Cristãos. A serpente é o demônio; e os filhos do demônio são os infiéis e ímpios, diz Cornélio a Lápide

A Santíssima Virgem, por si, por Jesus e pela Igreja, esmaga a cabeça da serpente. Esmaga-a pela sua imaculada conceição, pela perfeição de sua santidade, pelo seu triunfo sobre o pecado e sobre a morte. Esmaga-a por Jesus, que é o vencedor de Satanás, do pecado do mundo. Esmaga-a pela Igreja, isso é, pelos membros fiéis, pelos católicos fervorosos que procuram viver para Deus. Diante deste texto luminoso, profético, que tanto exalta a grandeza e o poder da Santíssima Virgem, os amigos protestantes procuram todos os meios de desviar o sentido, e de excluir dele a Santíssima Virgem.

A tradição cristã sempre viu nesta passagem simbólica a figura do Cristo e de sua Santíssima Mãe; só a obcecação protestante procura contestar esta figura, sem depois saber a quem aplicá-la. Destroem, mas sobre as ruínas acumuladas são incapazes de edificar outro edifício. Procuram nos textos antigos se não houve qualquer divergência a respeito, e encontram qualquer coisa, sem mudança essencial, apenas acidental, mas que lhes permite pelo menos suscitar um protesto e formular uma objeção.

Há três versões diferentes do texto citado. O texto oficial da Vulgata diz: A mulher te esmagará a cabeça (ipsa). A versão hebraica diz: A semente da mulher te esmagará a cabeça (ipsum). A versão caldaica diz: O filho (Cristo) te esmagará a cabeça (ipse). Que belo achado! Os protestantes gritaram o seu eureca. Tudo serve: ipse ou ipsum, só não pode servir ipsa, porque este ipsa refere-se a Maria Santíssima. É o tradicional ódio à Mãe de Jesus. Haja discussão! Haja trevas! Haja objeções, haja dúvidas para afastar o texto da Mãe de Jesus, e remover a figura majestosa da Virgem, desta primeira página bíblica.

E no meio da balbúrdia, os pobres protestantes, não enxergam que tal mudança de pronome: ipse, ipsa, ipsum só tem valor secundário, que não muda em nada o valor do texto, nem a extensão de sua significação. Menos precipitação, menos paixão e mais sinceridade lhes teria mostrado que o sentido fica sempre aquele que interpretou São Jerônimo, adotando o pronome ipsa: ela: a Santíssima Virgem.

VII. A grande discussão

Examinemos de perto o sentido da passagem, na mudança do pronome. Qualquer que seja a versão adotada, o texto prova sempre o triunfo da mulher, que é a Virgem Imaculada. O essencial é que haja um eterna inimizade entre a mulher e o demônio: Porei inimizades entre ti e a mulher. Eis o principal. Tal inimizade significa que deve haver oposição completa entre o demônio e a Virgem Santíssima.

Ora, esta oposição não seria completa se – ainda mesmo por um só instante estivesse sujeita ao pecado original. Donde se deve concluir que ela foi preservada deste pecado. Depois vem a continuação do primeiro fato. Não somente haverá inimizade entre o demônio e a Santíssima Virgem, mas esta inimizade continuará entre a posteridade de Satanás e a posteridade da Virgem. Inter semen tuum et semen illius.

Daí conclui-se logicamente que são as mesmas inimizades que já existem entre o demônio e a Virgem, que devem continuar a existir entre a posteridade, ou a semente de ambos. A semente do demo é o pecado. A semente da Virgem é Cristo. A inimizade entre Cristo e o demônio é absoluta, é radical, completa. E, sendo a mesma inimizade que existe entre o demônio e a mulher, deve-se concluir, de novo, que tal inimizade é absoluta, radical, completa; numa palavra: é a imaculada conceição.

Entre Cristo e o demônio nada pode haver de comum como o próprio demônio confessa: Quid nobis et tibi, Jesus? Que há entre nós e vós, Jesus? De modo que nada pode haver de comum entre o pecado e a Santíssima Virgem. Ora, se Maria não fosse imaculada, isso é, preservada do pecado original, ela teria tido, fosse apenas durante um instante, qualquer coisa de comum com o pecado, o próprio pecado original. Isso repugna ao texto bíblico, como repugna à dignidade da Virgem Santa.

Depois destes princípios, a mudança de pronome ipseipsaipsum torna-se uma questão de palavras, que nada muda a verdade católica. O texto contestado é pois o seguinte: Deve-se ler: Ipse ou Ipsum, conteret caput tuum. O sentido é o mesmo nos três casos: ipse é Cristo; ipsa é a Virgem Santa; ipsum é a semente ou Cristo. Ora, a Igreja Católica nunca pretendeu outorgar diretamente à Santíssima Virgem o privilégio de esmagar a cabeça da serpente, exclusivamente por si, mas unindo-se a seu Filho, pela ação de seu Filho, isso é, como Mãe de Deus.

Adotando, pois, a versão: ipse ou ipsum, dizendo que é Cristo que esmaga a cabeça da serpente, é preciso admitir que ele o faz como Deus-homem; pois Cristo é um homem; como tal ele está unido à sua Mãe: Cristo o faz diretamente, a Santíssima Virgem o faz indiretamente, mas ela fica inseparavelmente associada a este triunfo. Adotando, como a Vulgata, a versão ipsa dizendo que é Maria Santíssima que esmaga a serpente; não é ela só, mas unida ao Filho; ela o faz pelo poder de seu Filho, de modo que ela continua a ser associada a Jesus, a intermediária entre Jesus e o demônio. É a virtude de Jesus que esmaga a cabeça da serpente, pelo pé da Virgem Santa.

Isto é tão simples e lógico que, nas edições hebraicas, a mulher e o filho são unidos num único pronome: Eles te esmagarão a cabeça; o que ainda é o mais claro e o mais lógico, indicando deste modo o princípio e o instrumento: o filho e a mãe. Eis a tremenda discussão levantada pelos protestantes, no intuito de rebaixar a Mãe de Jesus; porém tal discussão em nada prejudica a glória de Maria Santíssima; de modo que, através das discussões humanas, a palavra divina continua resplandecente, fulminante, mostrando-nos, desde os albores da humanidade, a figura luminosa, nimbada de esperança e misericórdia: a Virgem Imaculada.

Tal é aliás a opinião do próprio São Jerônimo, que escolheu, entre as três diversas versões, três hebraicas que trazem ipsa, senão pela exatidão gramatical, senão pelo sentido espiritual. Ele mesmo dá a razão desta preferência: Não pode ser outra a semente da mulher, escreve ele, senão aquele que o apóstolo diz ter sido feito da mulher, isto é, Jesus Cristo. Cristo é verdadeiramente a semente da mulher, havendo ela nascido sem cooperação do homem.

Podia-se citar ainda o Antigo Testamento este texto de Isaías: 'O Senhor vos dará um sinal: Eis que uma Virgem conceberá e dará a Luz a um filho, e chamarão o seu nome Emanuel, isso é, Deus conosco' (Is 7,14). Este outro de Jeremias: 'Deus criou uma novidade na terra; uma mulher cercará [de cuidados] um homem' (Jer 31,22). Estes passos provam diretamente a virgindade perpétua da Santíssima Virgem, e indiretamente a sua conceição imaculada.

VIII. Provas do evangelho

Passemos ao Evangelho, onde tal verdade não é mais figurativamente anunciada, mas positiva e implicitamente revelada. O anjo, vindo participar à Santíssima Virgem que tinha sido escolhida entre todas as mulheres, para ser a Mãe do Filho de Deus, cumprimentando-a, em nome de Deus, com a seguinte saudação: 'Ave, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois entre as mulheres' (Lc 1,28). Que quer dizer isso? Deus proclama a Virgem cheia de graça. Ora, num vaso cheio não cabe mais nada.

Dizendo que Maria Santíssima é cheia de graça, é dizer que possui todas as graças que pode conter um criatura. Se ela não fosse imaculada, podendo sê-lo, lhe faltaria qualquer coisa; não seria mais: cheia de graça. O Senhor Deus é com ela. Ora, onde está Deus não pode estar o pecado. A presença de Deus expele todo pecado. Quando nós nascemos, Deus não está conosco, porque nascemos em pecado. Ele estava com Maria, sempre, desde a sua entrada neste mundo, porque era imaculada.

Maria Santíssima é bendita entre todas as mulheres. Por que bendita? Porque será Mãe de Deus. Isso é um título, uma dignidade, merecimento pessoal. A razão da benção deve brotar do fundo da criatura: e este fundo é a sua pureza imaculada, que a separa de todas e a eleva acima de todas as mulheres. Juntemos a esta prova decisiva as palavras inspiradas no Magnificat, onde a Virgem exclama: 'Fez grandes coisas em mim aquele que é poderoso' (Lc 1, 49). Esta grande coisa não é somente a maternidade divina, mas também a conceição imaculada, que é como a base deste privilégio.

Outra prova insofismável: Maria Santíssima continua: 'Deus pôs os olhos em sua humilde escrava'. Se houvesse tido o pecado original, deveria ter dito: Deus pôs os olhos na iniquidade da sua escrava, como dizem os santos, e como aconselha a Sagrada Escritura. Justus prior est accussator sui. Eis a revelação implícita do grande dogma da imaculada conceição. É o que fazia dizer São Cirilo, desde os primeiros séculos da Igreja: 'Qual é o homem de bom senso, que pode acreditar que o Filho de Deus tenha construído para si mesmo um templo, um trono animado, cedendo o primeiro direito deste templo, e o seu primeiro uso ao demônio, seu mortal inimigo? Uma tal ideia, pode ela penetrar num ser capaz de raciocínio?' Não havia protestante neste tempo. Que diria São Cirilo, se voltasse hoje e visse sustentarem tal absurdo?

Eis, meu caro protestante, não somente o texto pedido, mas diversos textos, uma explicação destes textos, para o senhor poder compreendê-los. Esta verdade é tão clara que o seu próprio pai Lutero não teve a ousadia de negá-la. Cito apenas uma passagem entre muitas. Escute bem: 'Era justo e conveniente - diz ele - fosse a pessoa de Maria preservada do pecado original, visto o filho de Deus tomar dela a carne que devia vencer todo o pecado' (Lut. In postil. maj.). O seu pai Lutero era menos protestante que os netinhos de hoje; sobretudo, era menos ignorante, e, apesar de sua revolta, compreendia melhor a bíblia que os nossos modernos biblistas e biblieiros, que só sabem ler com os óculos dos outros, e interpretar através dos óculos de qualquer pastor.

IX. Cheia de graça

Nova objeção. Não devia faltar. Eis, dizem eles, como os padres raciocinam. Dizem que Maria é cheia de graça e que ser cheia de graça é ser imaculada. Então Santa Isabel, 'cheia do Espírito Santo', ' São João Batista, também 'cheio do Espírito' e outros, são igualmente imaculados. É um argumento de criança. Examinem bem a diferença dos termos, e portanto da significação.

De SãoJoão, o evangelista diz: Spiritu Sancto replebitur (Lc 1, 15). De Santa Isabel, ele diz: Repleta est Spiritu Sancto Elisabeth (Lc 1, 41). De Maria Santíssima, o arcanjo diz: Ave, gratia plena (Lc 1,28). Estes termos são muito diferentes. A Sagrada Escritura emprega continuadamente o termo repletus como estar cheio, no sentido de abundância relativa ou uma certa quantidade, como repletus consolatione (2 Cor 7,4), cheio de consolação; repletus iniquitate (Miq 6, 12) cheio de iniquidade; repletus dilectione (Rom 15, 14), cheio de amor, etc.

Falando da Santíssima Virgem, o termo é diferente e significa uma plenitude completa. O grego Kecharitoménê, particípio passado de charitóô, de cháris, é empregado na Sagrada Escritura para designar a graça, tomado no sentido teológico, isso é, por um dom divino que adere à nossa alma. O sentido exato, dizem os exegetas é: omnino gratiosa reddita, que se tornou plenamente graciosa, em outros termos: omnino plena caelesti gratia: cheia de graça.

Os termos assim bem compreendidos, pode-se formar o silogismo: Maria Santíssima estava cheia de graça, ao ponto que nada mais podia conter. Ora, se ela tivesse o pecado original, ela não estaria mais cheia, pois podia receber uma graça (a preservação do pecado) que não recebera. É pois necessário admitir a imaculada conceição, como fazendo parte de sua plenitude.

Os teólogos citam outro argumento ainda (Tract. B. V. Lepicier, p.100): A graça estava na Santíssima Virgem, do mesmo modo que em Deus, devido à união dela com a divindade na produção do corpo de Jesus Cristo, que é o corpo de uma pessoa divina. Ora, esta graça tem por propriedade de nunca ter faltado a Deus. É, pois, necessário que Maria Santíssima nunca tenha sido privada da graça, o que só pode ser, admitindo a imaculada conceição. Outro argumento teológico: O anjo saúda a Maria como sendo bendita entre, ou acima de todas as mulheres. Ora, em que Maria seria superior a todas as mulheres, senão pela imaculada conceição?

X. Proclamação deste dogma

Maria Santíssima é verdadeiramente imaculada, isso é, preservada da mácula do pecado original, pela aplicação antecipada dos merecimentos de Jesus Cristo. É um dogma da nossa fé, solenemente proclamado pelo Papa Pio IX, em 1854. Aqui vem uma pedra formidável dos mansos protestantes. Ouço-os gritar: 'estão vendo, a tal imaculada conceição é uma novidade, data apenas de 1854! É uma invenção romana!' Pobres de espírito, escutem bem! Existir é uma coisa; ser proclamado é outra coisa.

Quando Denis Papin proclamou em 1710 a lei da pressão do vapor., já não existia a tal pressão? Quando Ramsden em 1779 proclamou a existência da eletricidade: já não existia ela? Quando Franklin proclamou a atração do pára-raio, em 1780, não existia ainda o raio, o trovão e o relâmpago? A asserção é ridícula. A Igreja proclamou a conceição imaculada em 1854, em defesa deste privilégio, contra os ataques ímpios protestantes, porém tal privilégio existiu sempre, na Bíblia, na Tradição e na pessoa da Virgem Maria.

XI.Conclusão

Tiremos a conclusão: Maria Santíssima é imaculada. É certo. O fim da Encarnação inclui a imaculada conceição. Este fim é resgatar-nos do pecado original; em consequência, a Encarnação e o pecado original excluem-se mutuamente. São dois termos opostos, como são opostos os termos de luz e trevas, de dia e noite. 

Como é que a Virgem, pela qual deve vir a libertação, pode ser escrava de Satanás? Como é que a Virgem, que deve dar a Cristo um corpo e um sangue imaculados, pode estar manchada pela culpa original? Seria isso dizer que pode circular uma água cristalina num canal imundo. Seria afirmar que uma mãe preta pode gerar um filho branco. Isso é o contrário da Bíblia que diz: quem pode tirar um fruto puro de uma semente impura? (Jó 14, 36).

Como então, mais tarde, Jesus poderia expulsar os espíritos imundos (Lc 4, 36), se ele mesmo era o fruto do pecado, pelo nascimento de uma mãe pecadora? Não está vendo que isso é insensato? Ela nos traz a luz e ela estaria nas trevas! Ela nos traz o preço do nosso resgate e ela seria devedora! Ela seria a mãe da pureza infinita, e ela seria impura. Ela seria a Mãe de Deus e filha do pecado! Ela seria revestida de sol, da lua e de estrelas, como descreve São João (Ap 12,1) e ela teria nascido nas trevas! Não se vê que isso é uma blasfêmia, um insulto a Deus! Concluamos, pois, dizendo que Maria Santíssima devia ser imaculada, e que o foi, conforme o bom senso e a Sagrada Escritura nos indicam.

* Esta 'objeção' foi proposta por 'um crente' como um desafio público ao Pe. Júlio Maria e que foi tornado público durante as festas marianas de 1928 em Manhumirim, o que levou às refutações imediatas do sacerdote, e mais tarde, mediante a inclusão de respostas mais abrangentes e detalhadas, na publicação da obra 'Luz nas Trevas - Respostas Irrefutáveis às Objeções Protestantes', ora republicada em partes neste blog.

(Excertos da obra 'Luz nas Trevas - Respostas Irrefutáveis às Objeções Protestantes', do Pe. Júlio Maria de Lombaerde)