sábado, 10 de junho de 2017

DO COMBATE ESPIRITUAL

É São Paulo quem o diz, sob a inspiração do Espírito Santo. No começo, a alma naturalmente boa acha que na vida tudo lhe sorri. Entrega-se descuidada ao que lhe agrada e atrai. Julga que todos os homens são retos e simples como ela. Esta ilusão dura pouco. Em breve constata que o amor que lhe manifestam, a bondade com que a tratam não andam sem mistura e muitas vezes não passam de um verniz, de uma aparência, digamos de um véu, sob o qual se esconde muitas vezes o egoísmo.

Quanto mais lida com os homens, mais descobre em muito deles a frieza de coração, a pequenez de sentimentos, e estreiteza de vistas. Esses defeitos, pode encontrá-los mesmo naqueles que lhe parecem virtuosos e instruídos. E a verdade é que, por uma série de experiências pessoais, acaba por constatá-los em si própria. E não se engana. Todo homem é por natureza limitado em todos os sentidos: em inteligência, prudência, reflexão e conselho.

O amor-próprio egoísta amesquinha extraordinariamente o coração humano; e o mesmo faz a ambição com o espírito. A mesquinhez e estreiteza de vistas, a obstinação nas próprias opiniões desfiguram as melhores almas. Muitas vezes, sem dúvida, estes defeitos não são culpáveis, mas são reais e com frequência tornam difícil o convívio prolongado, mesmo entre pessoas que têm o mesmo nível espiritual ou no seio da família.

Sabe-se muito bem que, de parte em parte, as intenções são excelentes, mas os pontos de vista e os temperamentos diferem. De parte a parte, a vontade é boa, mas o modo de ver as coisas é diverso e, muitas vezes, contraditório. Se a dificuldade se limitasse a esses atritos e incompatibilidades de gênio e opinião, seria suportável; bastaria uma virtude comum para vencê-la. Mas acontece que essa surda divergência se sentimentos e pontos de vista rompe em oposição confessada, em alerta desaprovação.

A alma bem-intencionada sente-se rodeada de suspeitas, contrariada, tolhida nos seus melhores propósitos. Julgando chegar a Deus por um simples movimento do coração, vê-se objeto de desconfianças, censuras. Esses amigos, colegas ou familiares não toleram que ela se comporte de modo diferente dos outros, que se dedique à oração e a outras práticas espirituais, que se prive de certos divertimentos ou corte algumas relações que eles julgam necessárias.

E não se limitam a julgar e comentar. Se a alma persiste na sua linha de conduta, começa a perseguição, ora velada, ora às claras. Movem todos os recursos para demovê-la e paralisá-la: a zombaria, os comentários desfavoráveis e até, por vezes, a calúnia. A perseguição nem sempre tem este caráter agudo; permanece muitas vezes latente e surda. Há mesmo almas que não chegam a ser atingidas, seja porque a sua situação, o comportamento inatacável e o ascendente das suas virtudes desarmam ou paralisam o inimigo, seja porque a sua vida sem alardes as subtrai a essas investidas. É fora de dúvida, porém, que em geral as almas interiores devem contar, mais cedo ou mais tarde, com a prova da oposição sob esta ou aquela forma, e estar preparadas para enfrentá-la com proveito.

(Excertos da obra 'O dom de si, vida de abandono em Deus' do Pe. Joseph Schrijvers)