quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

O SINAL DA CRUZ (IV)


In hoc Signo vinces - 'Por este Sinal vencerás'

IV

A segunda razão do Sinal da Cruz ter sido dado aos homens é o de nos tirarmos da ignorância, pois é um livro sagrado que nos instrui. Todas as ciências, teologia, filosofia, sociologia, política, história, estão reduzidas nestas três palavras: 'criação, redenção, glorificação' — de modo insubstituível, são para o gênero humano mais necessárias que o pão para nutrir-se e mais que o ar para respirar. Só elas bastam para orientar a vida inteira. Orientam as alegrias, as tristezas, os pensamentos, as palavras, as ações, os sentimentos. Sendo assim, a simples razão diz que Deus devia estabelecer um meio fácil, permanente e universal que desse a todos este conhecimento fundamental. Não devia, porém, dá-lo de uma só vez e de passagem; devia renová-lo constantemente, assim como se renova a cada instante o ar que respiramos. 

Que sábio se encarregaria deste ensino indispensável? São Paulo, Santo Agostinho, São Tomás? Ou outro gênio qualquer do Oriente ou do Ocidente? Não. Estes morreram; e seria necessário algo que não morresse. Estes habitaram um lugar determinado e seria necessário algo que estivesse em toda a parte. Estes falaram línguas que nem todos compreendem e seria necessário algo que falasse uma língua inteligível a todos. O que seria pois este algo? É o Sinal da Cruz. Ele e só ele satisfaz a todas as condições exigidas: não morre: está em toda a parte e é por todos entendido. Um instante lhe basta para dar uma lição, como lhe basta um instante para todos o compreenderem.

Mas seria verdade que o Sinal da Cruz repete e ensina como convém as três grandes palavras: 'criação, redenção, glorificação'? Sim. E não só as repete e ensina, mas explica-as com uma autoridade, profundidade e lucidez que só a ele pertencem. Repete-as com autoridade porque, sendo divino em sua origem, vem do próprio Deus. Repete-as com profundidade e lucidez porque se explica nos termos seguintes:

Quando levas a mão à tua fronte, dizendo — 'Em Nome' — o Sinal da Cruz te ensina a indivisível Unidade da Essência Divina. Dizendo — 'do Pai' — novo e imenso raio de luz penetra na tua inteligência. O Sinal da Cruz te diz que há um Ser, Pai de todos os Pais, princípio eterno da existência de todas as criaturas, celestes e terrestres, visíveis e invisíveis. Dizendo  — 'e do Filho' — o Sinal te diz que o Pai dos Pais tem um Filho semelhante a Ele. Fazendo-te levar a mão ao peito, quando assim o pronuncias, ele te diz que este Filho eterno de Deus se fez Homem no seio de uma Virgem para resgatar a humanidade. 'E do Espírito Santo' — esta palavra completa o ensino do Sinal da Cruz. Tu sabes agora que há um Deus, Uno na essência e Trino em Pessoas. Se a Primeira Pessoa necessariamente é Poder, a segunda é necessariamente a Sabedoria e a terceira é necessariamente o Amor. Este amor, completando a obra do Pai Criador e do Filho Redentor, santifica o homem e o conduz à glória. Pronunciando o nome do Espírito Santo, tens formada a Cruz e não só conheces o Redentor, mas também o instrumento da Redenção. 

Será possível ensinar com tão poucas palavras, com mais eloquência e em linguagem mais inteligível, os três grandes dogmas: — 'criação, redenção, glorificação' — eixos do mundo moral e princípios geradores da inteligência humana? Ser criado, ser remido, ser destinado à glória eterna, eis o princípio e todo o futuro do homem. Graças ao uso tão frequente do Sinal da Cruz em todas as classes da sociedade, tanto nas cidades e como nas aldeias, o mundo católico dos primeiros séculos e da Idade Média conservou, em grau até então desconhecido, o conhecimento da Ciência Divina, mãe de todas as ciências e mestra da vida.

O mundo moderno abandonou o Sinal da Cruz e, desde esse tempo, não mais teve a seu lado um Monitor que lhe avivasse, a cada instante, os três grandes dogmas indispensáveis à vida moral. Por isso, ao olvidar o Sinal da Cruz, 'criação, redenção, glorificação', essas três Verdades fundamentais são para ele como se não existissem. O mundo de hoje só conhece e adora o deus-eu, o deus-comércio, o deus-dinheiro, o deus-ventre, o deus-prazer ou a deusa-indústria, a deusa-política e a deusa-volúpia. Por serem meios de satisfazer a todos os seus maus desejos, ele conhece e adora as ciências da matéria: — a química, a física, a mecânica, a dinâmica, os sulfatos, os nitratos e os carbonatos. Eis aqui as divindades destes séculos e o seu culto.

Eis aqui a teologia, a filosofia, a política, a moral, a vida do mundo moderno, com seus egoísmos e vícios! Progredindo assim, breve estará bem a par dos contemporâneos de Noé, destinados a morrer nas águas do dilúvio. Para aqueles também consistia-lhes toda a ciência em conhecer e adorar os deuses do mundo moderno: comer, beber, edificar, comprar, vender e casar cada um, a si e aos outros, animados de todas estas más tendências que não faltam ao mundo atual! 

O Sinal da Cruz é um livro que nos educa e nos eleva. Sob tal ponto de vista, podes agora julgar se era sem razão que nossos pais constantemente faziam o Sinal da Cruz. E se deve à ignorância, uma ignorância muito deplorável do mundo atual, o abandono do Sinal da Cruz. Qual é esta ignorância? A chamada 'indigência do espírito', que procede da fraqueza em praticar a virtude e repelir o mal. E por que existe tal fraqueza? Porque o homem atual despreza os meios de obter a graça e de torná-la eficaz. O primeiro, o mais pronto, o mais comum e o mais fácil destes meios é a oração. E, de todas as orações, a mais fácil, a mais pronta, a mais comum e talvez, a mais poderosa, é o Sinal da Cruz.

(Excertos adaptados da obra 'O Sinal da Cruz', do Monsenhor Gaume, 1862)