segunda-feira, 24 de junho de 2019

SERMÃO DA SEXAGÉSIMA (VIII)


Nesta oitava parte do sermão, o Pe. Antônio Vieira constata que a voz, seja mais suave ou mais incisiva, não é também a causa do pouco fruto que hoje faz a Santa Palavra de Deus.

VIII

Será finalmente a causa, que tanto há buscamos, a voz com que hoje falam os pregadores? Antigamente pregavam bradando, hoje pregam conversando. Antigamente a primeira parte do pregador era boa voz e bom peito. E verdadeiramente, como o mundo se governa tanto pelos sentidos, podem às vezes mais os brados que a razão. Boa era também esta, mas não a podemos provar com o semeador, porque já dissemos que não era ofício de boca. Porém o que nos negou o Evangelho no semeador metafórico, nos deu no semeador verdadeiro, que é Cristo. Tanto que Cristo, ao acabar a parábola, diz o Evangelho, começou a bradar: Haec dicens clamabat [(Jesus) disse elevando a voz (Lc 8,8)]. Bradou o Senhor e não arrazoou sobre a parábola porque era tal o auditório que fiou mais dos brados que da razão.

Perguntaram ao Batista quem era? Respondeu ele: Ego vox clamantis in deserto [Eu sou a voz que clama no deserto (Jo 1,23)] - Eu sou uma voz que anda bradando neste deserto. Desta maneira se definiu o Batista. A definição do pregador, cuidava eu que era: voz que arrazoa e não voz que brada. Pois por que se definiu o Batista pelo bradar e não pelo arrazoar; não pela razão, senão pelos brados? Porque há muita gente neste mundo com quem podem mais os brados que a razão, e tais eram aqueles a quem o Batista pregava. 

Vede-o claramente em Cristo. Depois que Pilatos examinou as acusações que contra ele se davam, lavou as mãos e disse: Ego nullam causam invenio in homine isto - nenhuma causa eu acho neste homem (Lc 23, 14). Neste tempo todo o povo e os escribas bradavam de fora, que fosse crucificado: at illi magis clamabant, crucifigatur [porém, clamavam cada vez mais: sede crucificado! (Mt 27, 23)]. De maneira que Cristo tinha por si a razão e tinha contra si os brados. E qual pôde mais? Puderam mais os brados que a razão. A razão não valeu para o livrar, os brados bastaram para o pôr na Cruz. E como os brados no mundo podem tanto, bem é que bradem alguma vez os pregadores, bem é que gritem. Por isso Isaías chamou aos pregadores de 'nuvens': Qui sunt isti, qui ut nubes volant? [quem são estes que voam como as nuvens? (Is 60,8)]. A nuvem tem relâmpago, tem trovão e tem raio: relâmpago para os olhos, trovão para os ouvidos, raio para o coração; com o relâmpago alumia, com o trovão assombra, com o raio mata. Mas o raio fere a um, o relâmpago a muitos, o trovão a todos. Assim há de ser a voz do pregador, um trovão do Céu, que assombre e faça tremer o mundo.

Mas que diremos à oração de Moisés? Concrescat ut pluvia doctrina mea: fluat ut ros eloquim meum [derrame-se como chuva a minha doutrina, espalhe-se como orvalho a minha palavra (Dt 32,1)] - desça minha doutrina como chuva do céu e a minha voz e as minhas palavras como orvalho que se destila brandamente e sem ruído. Que diremos ao exemplo ordinário de Cristo, tão celebrado por Isaías: non clamabit neque audietur vox ejus foris? [não grita e nunca eleva a voz aos outros (Is 42,2)] - não clamará, não bradará, mas falará com uma voz tão moderada que se não possa ouvir fora. E não há dúvida que o praticar familiarmente e o falar mais ao ouvido que aos ouvidos, não só concilia maior atenção, mas naturalmente e sem força se insinua, entra, penetra e se mete na alma. 

Em conclusão: a causa de não fazerem hoje fruto os pregadores da palavra de Deus não é a circunstância da pessoa: qui seminat [quem semeia]; nem a do estilo: seminare [semear]; nem a da matéria: semen [semente]; nem a da ciência: suum [sua (semente)]; nem a da voz: clamabat [que brada]. Moisés tinha voz fraca (Ex 4,10); Amós tinha estilo grosseiro (Am 1,1); Salomão multiplicava e variava os assuntos (Ecl 1); Balaão não tinha exemplo de vida e o seu animal não tinha ciência (Nm 22) e, contudo, todos estes falando, persuadiam e convenciam. Pois se nenhuma destas razões que discorremos e nem todas elas juntas são a causa principal nem bastante do pouco fruto que hoje faz a palavra de Deus, qual diremos finalmente que é a verdadeira causa?

(Sermão da Sexagésima- Parte VIII, Pe. Antônio Vieira)

domingo, 23 de junho de 2019

'E VÓS, QUEM DIZEIS QUE EU SOU?'

Páginas do Evangelho - Décimo Segundo Domingo do Tempo Comum


Jesus encontra-se em oração em um lugar retirado. O Filho de Deus, em sua condição humana, suplicando graças à Trindade Santa, da qual constitui a Segunda Pessoa, constitui um mistério insondável. E Jesus reza sozinho, em profunda meditação, como a indicar, com soberana clareza, que a revelação extraordinária que será dada a seguir - a identidade do Cristo - perpassa pela oração profunda e pelos mistérios da graça. E, neste espírito de profundo recolhimento interior, que antecede grandes revelações, Jesus indaga aos seus discípulos: 'Quem diz o povo que eu sou?' (Lc 9, 18).

Neste 'certo dia', as mensagens e as pregações públicas de Jesus estavam consolidadas; os milagres e os poderes sobrenaturais do Senhor eram de conhecimento generalizado no mundo hebraico; multidões acorriam para ver e ouvir o Mestre, dominados pela falsa expectativa de encontrar um personagem mítico e um Messias dominador do mundo. Na oração profunda, Jesus afasta-se do júbilo fácil do mundo e das multidões errantes, que O tomam por João Batista, por Elias, por um dos antigos profetas. E se aproxima intimamente daqueles que haverão de ser os primeiros apóstolos da Igreja nascente, compartilhando-lhes na pergunta do juízo de fé:  'E vós, quem dizeis que eu sou?' (Lc 9, 20), a resposta à sua identidade salvífica, saída da boca de Pedro: 'O Cristo de Deus' (Lc 9, 20).

Sim, Jesus é o Cristo de Deus e o seu reino não é deste mundo. Ante a confissão de Pedro, Jesus revela a sua origem e a sua missão e faz o primeiro anúncio de sua Paixão, Morte e Ressurreição: 'O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia' (Lc 9, 22). E, um passo além, faz o testemunho da cruz, pela privação do mundo: 'Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará (Lc 9, 33-24).

Eis aí o legado definitivo de Jesus aos homens de sempre: a Cruz de Cristo é o caminho da salvação e da vida eterna. Tomar esta cruz, não apenas hoje ou em momentos específicos de grandes sofrimentos em nossas vidas, mas sim, todos os dias, a cada passo, em cada caminho, é a certeza de encontrá-lO na glória e da plenitude das bem-aventuranças. A Cruz de Cristo é a Porta do Céu. 

sábado, 22 de junho de 2019

OS ESTIGMAS DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS

O santo não temia a morte. Tinha cortado, pelo seu despojamento total, os vínculos que o ligavam à terra; tinha, a exemplo do Apóstolo, conquistado o domínio sobre o seu corpo: a sua alma devia desprender-se sem dilacerações do seu invólucro físico. Se não tremia perante a aproximação do momento fatal, queria pelo menos preparar-se para comparecer diante do Soberano Juiz. Partiu, pois, rumo à solidão, para se recolher por algum tempo.

Durante o verão de 1224, esteve no pequeno convento de Alverne. Era uma clausura rústica, construída precariamente no cimo de uma montanha escarpada. As grutas abertas nas rochas, os bosques povoados de pássaros e o afastamento dos centros habitados tornavam o sítio encantador e particularmente propício aos exercícios da contemplação.

O santo amava esta morada que outrora lhe tinha sido dada pelo Conde Orlando, senhor de Chiusi. Logo que chegou ao lugar do seu retiro, Francisco iniciou um jejum de 40 dias em honra de São Miguel. Consagrava o tempo à oração, que lhe propiciava delícias que nunca lhe pareceram tão saborosas.

Suplicou ao Senhor que lhe desse a conhecer as obras às quais deveria consagrar os últimos dias da vida. Como resposta, Deus cumulou-o com abundância de suavidades interiores. Então o santo recorreu ao seu procedimento habitual: abriu o Evangelho ao acaso, por diversas vezes, esperando encontrar ali uma indicação. Por diversas vezes caiu no relato da Paixão. Esta coincidência surpreendeu-o: concluiu que o Salvador queria uni-lo mais intimamente aos seus sofrimentos.

Os calores estivais declinavam; o Alverne já se revestia com os esplendores do outono. Debaixo das grandes árvores, cuja folhagem tornava-se dourada, Francisco pensava na adorável imolação de Cristo, quando subitamente lhe apareceu um serafim resplandecente de luz. O anjo aparentava uma semelhança admirável com o Salvador pregado no patíbulo.

O santo reconheceu estupefato os traços do divino Crucificado; a sua alma inflamou-se com amor tão ardente e tão doloroso, que o seu débil corpo não aguentou: caiu em profundo arrebatamento. Que aconteceu durante este êxtase? Os mistérios de amor não se divulgam: São Francisco guardou ciosamente este segredo. Confessou, no entanto, que recebera nessa altura revelações sublimes, mas nunca quis comunicá-las.

Quando a visão se desvaneceu, uma transformação tinha-se operado nele: na sua carne estavam gravados os sagrados estigmas da Paixão. Grandes feridas lhe rasgavam as mãos e os pés: nas cicatrizes percebiam-se nitidamente as cabeças negras dos pregos. Uma chaga mais larga abria o seu costado e deixava filtrar algumas gotas de sangue. Francisco tornara-se um crucificado vivo.

Um prodígio assim não podia passar inadvertidamente. Apesar de todos os esforços para afastar as curiosidades indiscretas, o santo não conseguiu esconder inteiramente os estigmas. O seu prestígio, já tão grande, aumentou ainda mais: a sua vida terminava numa espécie de apoteose. O serafim que imprimira no seu corpo as chagas de Cristo também as enterrara no seu coração. A partir daquele dia, Francisco não fez mais do que esmorecer lentamente no duplo martírio da dor e do amor.

Ainda percorria penosamente os caminhos da Úmbria, a pregar menos pela palavra do que pelo exemplo. Deixava, ao caminhar, irradiar da sua alma o imenso amor pelo divino Mestre; manifestava-o em termos tão veementes, que sentia por vezes a necessidade de se desculpar. 'Não fostes Vós que nos destes' – dizia ele ao Salvador – 'o exemplo desta sublime loucura? Vós vos lançastes à procura da ovelha desgarrada; caminhastes como um escravo, como um homem inebriado de amor'.

Para adornar a sua coroa, Deus mandava-lhe as últimas provações. O santo notava que alguns religiosos, embora poucos, desejavam restringir a pobreza da ordem: previa que os seus filhos atravessariam, depois da sua morte, uma crise perigosa. A esta tristeza, acrescentava-se o peso da doença. A saúde declinava, a vista apagava-se; os remédios mais fortes só lhe davam umas melhoras precárias.

São Francisco mantinha, apesar das dores, uma alegria apaziguadora. Mas o seu espírito desprendia-se cada vez mais das preocupações terrenas; o seu recolhimento tornava-se mais profundo. Os que estavam à sua volta percebiam a aproximação da hora da recompensa.

(Excertos da obra 'São Francisco de Assis', do Pe. Thomas de Saint-Laurent )

DA VIDA ESPIRITUAL (99)

Perguntas, filho, como é possível compreender que um Deus, de glória e realeza infinitas, possa ter compadecido de tal forma da humanidade a ponto de ter assumido, para salvá-la, a miserável condição humana? Eu te respondo com outras perguntas: Que Deus é esse que aceita ficar escondido num pedaço de Pão? Abandonado e isolado em tantos sacrários tão isolados e tão abandonados? Que Deus é esse que espera, com ternura e paciência infinitas, o nosso sim, o nosso amor, a nossa vontade prescrita pela Santa Vontade? Em vez de buscar respostas impossíveis, melhor que fazer perguntas é se perguntar: Como eu posso viver distante de um Deus assim, como uma flecha sem alvo, nauta sem rumo, alma sem destino, criatura sem Criador? Meu Deus, meu Deus, Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro, incriado e eterno, o que seria de mim se eu não fosse obra de Vossas mãos e se eu não for fruto de Vossa graça?

sexta-feira, 21 de junho de 2019

SERMÃO DA SEXAGÉSIMA (VII)


Nesta sétima parte do sermão, o Pe. Antônio Vieira considera se a falta de ciência pelo pregador (ou a mera repetição de conhecimento alheio em sua pregação) constitui a causa principal da perda dos frutos valiosíssimos da Santa Palavra de Deus.

VII

Será porventura a falta de ciência que há em muitos pregadores? Muitos pregadores há que vivem do que não colheram e semeiam o que não trabalharam. Depois da sentença de Adão, a terra não costuma dar fruto, senão a quem come o seu pão com o suor do seu rosto. Boa razão parece também esta. O pregador há de pregar o seu, e não o alheio. Por isso diz Cristo que semeou o lavrador do Evangelho o trigo seu: semen suum [semente sua]. Semeou o seu e não o alheio porque o alheio e o furtado não são bons para semear, ainda que o furto seja de ciência. 

Comeu Eva o pomo da ciência e queixava-me eu antigamente desta nossa mãe; já que comeu o pomo, por que lhe não guardou as pevides? Não seria bem que chegasse a nós a árvore, já que nos chegaram os encargos dela? Pois por que não o fez assim Eva? Porque o pomo era furtado e o alheio é bom para comer, mas não é bom para semear: é bom para comer, porque dizem que é saboroso; não é bom para semear, porque não nasce. Alguém terá experimentado que o alheio lhe nasça em casa, mas esteja certo, que se nasce, não há de deitar raízes e o que não tem raízes não pode dar fruto. Eis aqui por que muitos pregadores não fazem fruto: porque pregam o alheio e não o seu: semen suum [semente sua]. O pregar é entrar em batalha com os vícios e armas alheias, ainda que sejam as de Aquiles, a ninguém deram vitória. Quando Davi saiu a campo com o gigante, ofereceu-lhe Saul as suas armas, mas ele não as quis aceitar. Com armas alheias ninguém pode vencer ainda que seja Davi. As armas de Saul só servem a Saul e as de Davi a Davi; e mais aproveita um cajado e uma funda própria que a espada e a lança alheias. Pregador que peleja com as armas alheias, não hajais medo que derrube gigante.

Fez Cristo aos Apóstolos pescadores de homens, o que foi ordená-los pregadores; e que faziam os Apóstolos? Diz o texto que estavam: reficientes retia sua - refazendo as redes suas; eram as redes dos Apóstolos e não eram alheias. Notai: retia sua [redes suas]. Não diz que eram suas porque as compraram, senão que eram suas porque as faziam; não eram suas porque lhes custaram o seu dinheiro, senão porque lhes custavam o seu trabalho. Desta maneira eram as redes suas e porque desta maneira eram suas, por isso eram redes de pescadores que haviam de pescar homens. Com redes alheias ou feitas por mão alheia, podem-se pescar peixes, homens não se podem pescar. A razão disto é porque nesta pesca de entendimentos só quem sabe fazer a rede sabe fazer o lanço. Como se faz uma rede? Do fio e do nó se compõe a malha; quem não enfia nem ata, como há de fazer rede? E quem não sabe enfiar nem sabe atar, como há de pescar homens? A rede tem chumbada que vai ao fundo e tem cortiça que nada em cima da água. A pregação tem umas coisas de mais peso e de mais fundo e tem outras mais superficiais e mais leves; e governar o leve e o pesado, só o sabe fazer quem faz a rede. Na boca de quem não faz a pregação, até o chumbo é cortiça.

As razões não hão de ser enxertadas, hão de ser nascidas. O pregar não é recitar. As razões próprias nascem do entendimento, as alheias vão pegadas à memória e os homens não se convencem pela memória, senão pelo entendimento. Veio o Espírito Santo sobre os Apóstolos, e quando as línguas desciam do Céu, cuidava eu que se lhes haviam de por na boca; mas elas foram-se por na cabeça. Pois por que na cabeça e não na boca, que é o lugar da língua? Porque o que há de dizer o pregador, não lhe há de sair só da boca; há de lhe sair pela boca, mas da cabeça. O que sai só da boca pára nos ouvidos; o que nasce do juízo penetra e convence o entendimento. 

Ainda tem mais mistério estas línguas do Espírito Santo. Diz o texto que não se puseram todas as línguas sobre todos os Apóstolos, senão cada uma sobre cada um: apparuerunt dispertitae linguae tanquam ignis, seditque supra singulos eorum [apareceram repartidas umas como línguas de fogo, que repousaram sobre cada um deles (At 2,3)]. E por que cada uma sobre cada um e não todas sobre todos? Porque não servem todas as línguas a todos, senão a cada um a sua. Uma língua só sobre Pedro, porque a língua de Pedro não serve a André; outra língua só sobre André, porque a língua de André não serve a Filipe; outra língua só sobre Filipe, porque a língua de Filipe não serve a Bartolomeu, e assim dos mais. E senão vede-o no estilo de cada um dos Apóstolos, sobre que desceu o Espírito Santo. 

Só de cinco temos escrituras; mas a diferença com que escreveram, como sabem os doutos, é admirável. As penas todas eram tiradas das asas daquela pomba divina; mas o estilo tão diverso, tão particular e tão próprio de cada um, que bem mostra que era seu. Mateus fácil, João misterioso, Pedro grave, Jacó forte, Tadeu sublime, e todos com tal valentia no dizer, que cada palavra era um trovão, cada cláusula um raio e cada razão um triunfo. Ajuntai a estes cinco São Lucas e São Marcos, que também ali estavam, e achareis o número daqueles sete trovões que ouviu São João no Apocalipse. Loquuti sunt septem tonitrua voces suas [os sete trovões ressoaram com as suas vozes (Ap 10,3)]. Eram trovões que falavam e desarticulavam as vozes, mas essas vozes eram suas: voces suas [vozes suas]: 'suas e não alheias' como notou Ansberto: non alienas, sed suas. Enfim, pregar o alheio é pregar o alheio e com o alheio nunca se fez coisa boa.

Contudo, eu não me firmo de todo nesta razão, porque do grande Batista sabemos que pregou o que tinha pregado Isaías, como notou São Lucas, e não com outro nome, senão de sermões: praedicans baptismum poenitentiae in remissionem peccatorum, sicut scriptum est in libro sermonun Isaiae prophetae [pregando o batismo de arrependimento para remissão dos pecados, conforme está escrito no livro das palavras do profeta Isaías (Lc 3,3)]. Deixo (também como referência) o que tomou Santo Ambrósio de São Basílio, São Próspero e Beda de Santo Agostinho, Teofilato e Eutímio de São João Crisóstomo.

(Sermão da Sexagésima- Parte VII, Pe. Antônio Vieira)

quinta-feira, 20 de junho de 2019

CORPUS CHRISTI 2019


Corpus Christi, expressão latina que significa Corpo de Cristo, é uma festa litúrgica da Igreja sempre celebrada na quinta–feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, que acontece no domingo seguinte ao de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa. Abaixo, duas orações particularmente associadas a esta festa litúrgica:

Anima Christi

Anima Christi, sanctifica me.
Corpus Christi, salva me.
Sanguis Christi, inebria me.
Aqua lateris Christi, lava me.
Passio Christi, conforta me.
O bone Iesu, exaudi me.
Intra tua vulnera absconde me.
Ne permittas me separari a te.
Ab hoste maligno defende me.
In hora mortis meæ voca me.
Et iube me venire ad te,
ut cum Sanctis tuis laudem te
in sæcula sæculorum. 
Amen.


Tantum Ergo
Tantum ergo Sacramentum 
Veneremur cernui:
Et antiquum documentum 
Novo cedat ritui: 
Praestet fides supplementum 
Sensuum defectui. 
Genitori, Genitoque 
Laus et iubilatio, 
Salus, honor, virtus quoque 
Sit et benedictio: 
Procedenti ab utroque 
Compar sit laudatio. 
Amen.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

INDULGÊNCIAS DO DIA DA SOLENIDADE DE CORPUS CHRISTI


Amanhã, dia da solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, o católico pode ser contemplado com as seguintes indulgências:

(i) Indulgência parcial: rezar, com piedosa devoção, a oração 'Alma de Cristo':

Alma de Cristo, santificai-me.
Corpo de Cristo, salvai-me.
Sangue de Cristo, inebriai-me.
Água do lado de Cristo, lavai-me.
Paixão de Cristo, confortai-me.
Ó bom Jesus, ouvi-me.
Dentro de vossa chagas, escondei-me.
Não permitais que eu me separe de vós.
Do espírito maligno, defendei-me.
Na hora da morte chamai-me e
mandai-me ir para vós,
para que com vossos Santos vos louve
por todos os séculos dos séculos.
Amém. 

(ii) Indulgência plenária: rezar, com piedosa devoção, a oração 'Tantum Ergo' ou 'Tão sublime Sacramento':

Tão sublime sacramento
vamos todos adorar,
pois um Novo testamento
vem o antigo suplantar!
Seja a fé nosso argumento
se o sentido nos faltar.
Ao eterno Pai cantemos
e a Jesus, o Salvador,
igual honra tributemos,
ao Espírito de amor.
Nossos hinos cantaremos,
chegue aos céus nosso louvor.
Amém.

Do céu lhes deste o pão,
Que contém todo o sabor.

Oremos: Senhor Jesus Cristo, neste admirável Sacramento, nos deixastes o memorial da vossa Paixão. Dai-nos venerar com tão grande amor o mistério do vosso corpo e do vosso sangue, que possamos colher continuamente os frutos da vossa redenção. Vós que viveis e reinais para sempre. Amém.

COMPÊNDIO DE SÃO JOSÉ (XIV)


66. Como os fiéis viram o seu poder de intercessão? 

Numerosos escritores josefinos e santos defenderam o grande poder de intercessão de São José, justamente por reunir em si um tesouro de riquezas, concentrando os esplendores de todos os santos. O grande teólogo São Tomás de Aquino ensina que 'alguns santos receberam o privilégio de nos proteger em casos especiais; a São José, porém, foi conferido o encargo de nos socorrer em todas as necessidades'. Santa Tereza de Ávila diz que: 'no céu é feito tudo o que São José pede'. De fato, depois de Maria, São José ocupa o primeiro lugar no coração de Deus; assim, ninguém depois de Maria e do Salvador pode nos conceder mais graças que São José. Gerson diz que: 'No céu São José não pede, mas manda; não impetra, mas impera'. Afirmou Santa Tereza ser uma grande devota de São José: 'que nunca me lembro de haver pedido uma graça a São José sem que a tenha recebido imediatamente'. O fundador da Congregação dos Oblatos de São José, o Bem-Aventurado José Marello, confiava tanto no poder de intercessão de São José que afirmava: 'Se São José não concedesse graças, não seria mais São José'. Para Santa Tereza, as graças que São José concede são: a busca do perdão dos pecados, o amor a Jesus e Maria, uma vida interior e uma boa morte. É diante de tamanho poder de intercessão que o Papa Bento XV considerou que os devotos de São José têm o caminho mais breve para a santidade e Pio XI, grande devoto do pai de Jesus, afirmou que ele tem diante de Deus uma intercessão 'onipotente'. 

67. Se São José é intercessor, é também protetor? 

A devoção a São José teve um desenvolvimento surpreendente, culminando na sua proclamação como Patrono da Igreja Universal, com o decreto Quemadmodum Deus de Pio IX, em 08 de dezembro de 1870. Neste decreto, o papa afirma de José, como pai de Jesus, que Deus 'constituiu como senhor de sua casa e de suas propriedades, e como guarda de seus tesouros mais queridos. A Jesus ele abraçou-o com afeto paterno e nutriu-o com solicitude especialíssima'. O Papa Leão XIII em sua encíclica Quamquam Pluries, de 15 de agosto de 1889, explica o porquê do patrocínio de São José sobre toda a Igreja Católica com estas palavras: 'As causas e razões especiais pelas quais São José foi proclamado Patrono da Igreja e em virtude das quais ela se colocou repetidas vezes sob a sua proteção, são estas: porque ele foi o esposo de Maria e pai, como era reconhecido, de Jesus Cristo. Daí derivam sua dignidade e graça, santidade e glória'. Sendo ele protetor de toda Igreja, o é também de todos os fiéis, particularmente das famílias. Na verdade, a família de Nazaré, da qual ele é o chefe, torna-se o modelo mais sublime para todas as famílias. Por isso, todas as famílias devem tê-lo como seu protetor. São José é tido também como protetor dos sacerdotes, em virtude de sua específica missão de cuidar do tesouro divino do Pai aqui na terra, vivendo intimamente com Ele, tocando-o, sustentando-o, defendendo-o e educando-o. Na verdade, o mesmo corpo que nasceu de Maria e que José protegeu é aquele que o sacerdote segura no momento da consagração na missa. 'São José nutriu', como nos ensina Pio IX, 'aquele que os fiéis deviam comer como pão da vida eterna'. Portanto, existe uma relação profunda entre o ministério sacerdotal e a missão de São José. Ele é também o protetor da boa morte, justamente por ter morrido ao lado de Jesus e de Maria. 

68. Ele é também o protetor das famílias religiosas? 

As Congregações Religiosas, os Institutos de vida consagrada, as Sociedades de vida apostólica que têm São José como protetor e trazem o seu nome são inumeráveis e encontram-se espalhadas em todo mundo. Da mesma forma as Confrarias, as Associações e Instituições intituladas ao nosso santo são numerosíssimas e disseminadas em todos os lugares. Disto podemos deduzir a grande consideração que São José possui entre os cristãos. 

69. Dentre as muitíssimas Congregações e Institutos religiosos que escolheram São José como Patrono, poderia ser citada uma e o porquê da escolha? 

Assim como Pio IX diante das tribulações que angustiavam a Igreja do seu tempo buscou a proteção de São José, da mesma forma também o Fundador da Congregação dos Oblatos de São José, o Bem-Aventurado José Marello, atraído pelo exemplo de São José, do seu serviço por amor aos interesses de Jesus com a dedicação completa de sua vida, em 1872, aos 28 anos, idealizava uma 'Companhia de São José' que fosse a 'promotora dos interesses de Jesus', onde cada membro tivesse suas próprias inspirações de seu modelo São José, que foi na terra o primeiro a cuidar dos interesses de Jesus. Esta sua inspiração inicial ganhou corpo quando, em 1877, no esboço da regra para a Companhia, ele declara que esta estava aberta para quem desejasse 'seguir de perto o Divino Mestre com a observância dos Conselhos Evangélicos', retirando-se na casa de São José com 'o propósito de permanecer escondida e silenciosamente operoso na imitação daquele grande modelo de vida pobre e escondida'. De fato, em 1878 fundava a Congregação, tendo como patrono São José e os seus membros chamados 'Oblatos de São José', com a intenção especial de honrá-lo e amá-lo, imitando suas virtudes e propagando a sua devoção. Desta forma, esta Congregação, espalhada pelo mundo inteiro com os seus mais de quinhentos religiosos, empenha-se em 'reproduzir na própria vida as virtudes características de São José, na união com Deus, na humildade, no escondimento, na laboriosidade, na dedicação aos interesses de Jesus, consagrando-se ao serviço da Igreja nas formas de apostolado ministerial que dia-a-dia a Providência indica'. Assim, esta Congregação tem como empenho primordial aquele do serviço que foi próprio de São José, aquele do silêncio e do escondimento que, como consente a pérola de cristalizar-se, ao nascituro de formar-se e à semente de desenvolver-se, assim também consente ao Filho de Deus de inserir-se da maneira mais discreta na família humana. 

70. Sendo José intercessor e protetor, é também modelo? 

Sem dúvida, pois todos os cristãos devem ter São José como o modelo perfeito que se colocou completamente à disposição da vontade de Deus e executou humilde e fielmente o plano divino da encarnação. Cada cristão deve, como disse João Paulo II em sua exortação apostólica Redemptoris Custos, 'procurar extrair desta insigne figura, coisas novas e coisas antigas' (Mt 13,52), pois sua participação na economia da salvação foi livremente desejada por Deus para servir juntamente com Maria ao 'mistério escondido nos séculos na mente de Deus' (Ef 3,9). Ele é o exemplo de obediência incondicional à vontade de Deus; o que ele fez é puríssima 'obediência da fé' (Rm 1,5; 16,26); tornando-se o primeiro depositário do mistério divino; ele é 'aquele que foi posto em primeiro lugar por Deus sobre o caminho da peregrinação da fé', sobre o qual Maria irá adiante de modo perfeito. José é modelo para os trabalhadores porque 'junto à humanidade do Filho de Deus, o trabalho foi acolhido no mistério da encarnação, como também foi de particular maneira redimido', e tudo isso graças ao banco da carpintaria, no qual ele trabalhava juntamente com Jesus; assim, José aproximou o trabalho ao mistério da redenção. Ele é o modelo para os que buscam a vida interior porque estava 'em contínuo contato com o mistério escondido nos séculos, que morou debaixo do teto de sua casa'. Assim, ele colocou, em suas ações envolvidas de silêncio, um clima de profunda contemplação. Em suma, José é o modelo para todos os cristãos, pois ele é o tipo ideal do evangelho, ao qual Jesus fará alusões em suas pregações. 'Ele oferece-nos um exemplo de atraente disponibilidade ao chamado divino, de calma em cada acontecimento, de plena confiança fundamentada numa vida de sobre-humana fé e caridade e do grande meio da oração'. Não sem razão, São José exerceu uma força irresistível na vida dos santos, constituindo-se para estes, modelo e uma verdadeira escola de santidade. Para muitos santos, São José foi o leit-motiv para o caminho da santidade. É impossível enumerar os santos que tiveram as inspirações em São José; basta-nos apenas lembrar alguns como São Luiz Gonzaga, São João Maria Vianney, São João Batista de la Salle, Santa Teresa, Santo Afonso Maria de Ligório, São Vicente de Paulo e o bem-aventurado José Marello, o qual aconselhava continuamente aos seus religiosos: 'Peçamos a São José que seja o nosso diretor espiritual'.

('100 Questões sobre a Teologia de São José', do Pe. José Antonio Bertolin, adaptado)

terça-feira, 18 de junho de 2019

O CÉU É AQUI...

SERMÃO DA SEXAGÉSIMA (VI)


Na sexta parte do Sermão da Sexagésima, o Pe. Antônio Vieira avalia se é o conteúdo do discurso que constitui a causa primária que impacta tão gravemente os frutos não colhidos das pregações da Santa Palavra de Deus.

VI

Será pela matéria ou matérias que tomam os pregadores? Usa-se hoje o modo que chamam de apostilar o Evangelho, em que se tomam muitas matérias, levantam-se muitos assuntos e quem levanta muita caça e não segue nenhuma não é muito que se recolha com as mãos vazias. Boa razão é também esta. O sermão há de ter um só assunto e uma só matéria. Por isso Cristo disse que o lavrador do Evangelho não semeara muitos gêneros de sementes, senão uma só: Exiit, qui seminat, seminare semen [saiu, o semeador, a semear uma semente]. Semeou uma semente só e não muitas, porque o sermão há de ter uma só matéria e não muitas matérias. Se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre o trigo semeara centeio, e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara cevada, que havia de nascer? Uma mata brava, uma confusão verde. 

Eis aqui o que acontece aos sermões deste gênero. Como semeiam tanta variedade, não podem colher coisa certa. Quem semeia misturas, mal pode colher trigo. Se uma nau fizesse um bordo para o norte, outro para o sul, outro para leste, outro para oeste, como poderia fazer viagem? Por isso nos púlpitos se trabalha tanto e se navega-se tão pouco. Um assunto vai para um vento, outro assunto vai para outro vento; que se há de colher senão vento? O Batista convertia muitos na Judeia; mas quantas matérias tomava? Uma só matéria: Parate viam Domini [preparai o caminho do Senhor (Mt 3,3)]: a preparação para o Reino de Cristo. Jonas converteu os ninivitas; mas quantos assuntos tomou? Um só assunto: adhuc quadraginta dies, et Ninive subvertetur [daqui a quarenta dias, Nínive será destruída (Jn 3, 4)]: a subversão da cidade. De maneira que Jonas em quarenta dias pregou um só assunto e nós queremos pregar quarenta assuntos em uma hora? Por isso não pregamos nenhum. O sermão há de ser de uma só cor, há de ter um só objeto, um só assunto, uma só matéria.

Há de tomar o pregador uma só matéria; há de defini-la para que se conheça; há de dividi-la para que se distinga; há de prová-la com a Escritura; há de declará-la com a razão; há de confirmá-la com o exemplo; há de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que se hão de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar; há de responder às dúvidas, há de satisfazer às dificuldades; há de impugnar e refutar com toda a força da eloquência os argumentos contrários e, depois disso, há de colher, há de apertar, há de concluir, há de persuadir, há de acabar. Isto é sermão, isto é pregar; e o que não é isto, é falar mais alto.

Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedade de discursos, mas esses hão de nascer todos da mesma matéria e continuar e acabar nela. Quereis ver tudo isto com os olhos? Ora vede. Uma árvore tem raízes, tem tronco, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há de ser o sermão: há de ter raízes fortes e sólidas, porque há de ser fundado no Evangelho; há de ter um tronco, porque há de ter um só assunto e tratar uma só matéria; deste tronco hão de nascer diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria e continuados nela; estes ramos não hão de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão de ser vestidos e ornados de palavras. Há de ter esta árvore varas, que são a repreensão dos vícios; há de ter flores, que são as sentenças; e por remate de tudo, há de ter frutos, que é o fruto e o fim a que se há de ordenar o sermão. De maneira que há de haver frutos, há de haver flores, há de haver varas, há de haver folhas, há de haver ramos; mas tudo nascido e fundado em um só tronco, que é uma só matéria. 

Se tudo é tronco, não é sermão, é madeira. Se tudo são ramos, não é sermão, são maravalhas [gravetos, aparas]. Se tudo são folhas, não é sermão, são folhagens. Se tudo são varas, não é sermão, é feixe. Se tudo são flores, não é sermão, é ramalhete. Ser tudo fruto não pode ser porque não há frutos sem árvore. Assim que nesta árvore, a qual podemos chamar de 'árvore da vida', há de haver o proveito do fruto, a formosura das flores, a rigidez das varas, o enfeitado das folhas, o distendido dos ramos; mas tudo isto nascido e formado de um só tronco e esse não levantado no ar, senão fundado nas raízes do Evangelho: seminare semen [semente semeada]. Eis aqui como hão de ser os sermões, eis aqui como não são. E assim não é muito que se não faça fruto com eles.

Tudo o que tenho dito pudera-se demonstrar largamente, não só com os preceitos dos Aristóteles, dos Túlios, dos Quintilianos, mas com a prática observada do príncipe dos oradores evangélicos, São João Crisóstomo, de São Basílio Magno, São Bernardo, São Cipriano, e com as famosíssimas orações de São Gregório Nazianzeno, mestre de ambas as Igrejas. E posto que nestes mesmos Padres, como em Santo Agostinho, São Gregório e muitos outros, se acham os Evangelhos apostilados com nomes de sermões e homilias: uma coisa é expor e outra pregar; uma ensinar e outra persuadir; desta última é que eu falo, com a qual tanto fruto fizeram no mundo Santo Antônio de Pádua e São Vicente Ferrer. Mas nem por isso entendo que seja ainda esta a verdadeira causa que busco.

(Sermão da Sexagésima- Parte VI, Pe. Antônio Vieira)

domingo, 16 de junho de 2019

GLÓRIA À TRINDADE SANTA!

Páginas do Evangelho - Festa da Santíssima Trindade


O mistério da Santíssima Trindade é um mistério de conhecimento e de amor. Pois, desde toda a eternidade, o Pai, conhecendo-se a Si mesmo com conhecimento infinito de sua essência divina, por amor gera o Filho, Segunda Pessoa da Trindade Santa. E esse elo de amor infinito que une Pai e Filho num mistério insondável à natureza humana se manifesta pela ação do Espírito Santo, que é o amor de Deus por si mesmo. Trindade Una, Três Pessoas em um só Deus.

Mistério dado ao homem pelas revelações do próprio Jesus, posto que não seria capaz de percepção e compreensão apenas pela razão natural, uma vez inacessível à inteligência humana:  'Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele (o Espírito Santo) receberá e vos anunciará, é meu' (Jo 16, 15). Mistério revelado em sua extraordinária natureza em outras palavras de Cristo nos Evangelhos: 'Em verdade, em verdade vos digo: O Filho não pode de si mesmo fazer coisa alguma, mas somente o que vir fazer o Pai; porque tudo o que fizer o Pai, o faz igualmente o Filho. Porque o Pai ama o Filho, e mostra-lhe tudo o que ele faz (Jo 5, 19-20) ou ainda 'Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai; nem alguém conhece o Pai senão o Filho (Mt 11, 27). 

Nosso Senhor Jesus Cristo é o Verbo de Deus feito homem, sob duas naturezas: a natureza divina e a natureza humana: 'Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele' (Jo 3, 16 - 17). Enquanto homem, Jesus teve as três potências da alma humana: inteligência, vontade e sensibilidade; enquanto Deus, Jesus foi consubstancial ao Pai, possuindo inteligência e vontade divinas.

'Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo'. Glórias sejam dadas à Santíssima Trindade: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Neste domingo da Santíssima Trindade, a Igreja exalta e ratifica aos cristãos o  maior dos mistérios de Deus, proclamado e revelado aos homens: O Pai está todo inteiro no Filho, todo inteiro no Espírito Santo; o Filho está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Espírito Santo; o Espírito Santo está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Filho (Conselho de Florença, 1442).

sábado, 15 de junho de 2019

A REALIDADE DO INFERNO

É bem conhecido o relato do bispo Fulton Sheen sobre um homem que o procurou manifestando firmemente a sua crença pela não existência do inferno, ao que ele respondeu: 'Você vai acreditar quando estiver lá'. Dentre as extraordinárias comprovações formais da existência do inferno ao longo dos séculos, é de particular menção o fato retratado na vida do padre jesuíta São Francisco de Jerônimo, incluído com riqueza de detalhes no processo de canonização do santo e atestado sob juramento por um grande número de testemunhas oculares, conforme descrito abaixo*.

No ano de 1707, São Francisco de Jerônimo pregava, como de costume, nos arredores de Nápoles, falando particularmente nesta ocasião sobre o inferno e os terríveis castigos reservados aos pecadores obstinados. Da janela de uma casa próxima à multidão reunida, uma mulher interrompeu e perturbou várias vezes o ofício da pregação, com ironias, insolências e blasfêmias variadas ao sacerdote e à temática do sermão. Diante das provocações recorrentes, o santo então a interpelou: 'Ai de ti, filha, que resistes à graça! Não passarão oito dias sem que Deus te castigue'. Nem tal alerta, nem coisa alguma levou a mulher a alterar seu comportamento e suas más intenções.

Oito dias depois, o santo retornou ao mesmo local da pregação anterior e fez o seu sermão sem quaisquer constrangimentos ou perturbações pela mulher, permanecendo as janelas da casa vizinha sempre fechadas. Alguém o informou, então, que a tal mulher, de nome Catarina, havia morrido de súbito e há pouco naquele dia, ao que o santo, interrompendo a sua pregação, dirigiu-se à casa da defunta, acompanhado pela multidão, tomada de grande apreensão e temor.

Na presença de quantos conseguiram adentrar à sala da casa, onde repousava o cadáver tão recente, o santo fez uma breve oração e, desvelando o rosto da mulher falecida, disse em voz alta: 'Catarina, diz-nos onde estás agora!'. Neste momento, o cadáver abriu os olhos em estado de absoluto pavor, levantou um pouco a cabeça e respondeu com um gemido assustador e voz horrível: 'No inferno! Eu estou no inferno!' para, em seguida, retornar definitivamente à rigidez de cadáver.

(*adaptação do texto da obra 'O inferno existe – Provas e Exemplos', do Pe. André Beltrami, 2007)

SERMÃO DA SEXAGÉSIMA (V)


Nesta quinta parte do sermão, o Pe. Antônio Vieira  discute a influência relativa do estilo do pregador na maior ou menor eficácia da Palavra de Deus render muitos frutos.

V

Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afetado, um estilo tão encontrado em toda a arte e em toda a natureza? Boa razão é também esta. O estilo há de ser muito fácil e muito natural. Por isso Cristo comparou o pregar ao semear: Exiit, qui seminat, seminare [saiu, quem semeia, a semear]. Compara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte. Nas outras artes, tudo é arte: na música tudo se faz por compasso, na arquitetura tudo se faz por regra, na aritmética tudo se faz por conta, na geometria tudo se faz por medida. O semear não é assim. É uma arte sem arte, caia onde cair. Vede como semeava o nosso lavrador do Evangelho: 'Caía o trigo nos espinhos e nascia: aliud cecidit inter spinas, et simul exortae spinae [uma parte caiu entre os espinhos e os espinhos cresciam juntos (com o trigo)]; 'Caía o trigo nas pedras e nascia': aliud cecidit super petram, et ortum [outra parte caiu entre pedras e germinou]; 'caía o trigo na terra boa e nascia: aliud cecidit in terram bonam, et natum [outra parte caiu em terra boa e nasceu]. Ia o trigo caindo e ia nascendo.

Assim há de ser o pregar. Hão de cair as coisas e hão de nascer; tão naturais que vão caindo, tão próprias que venham nascendo. Que diferente é o estilo violento e tirânico que hoje se usa! Ver vir assim os tristes passos da Escritura como quem vem ao martírio: uns vêm acarretados, outros vêm arrastados, outros vêm estirados, outros vêm torcidos, outros vêm despedaçados; só atados não vêm! Há tal tirania? Então no meio disto, que bem levantado está aquilo! Não está a coisa no levantar, está no cair: cecidit [caiu]. Notai uma alegoria própria da nossa língua. O trigo do semeador, ainda que caiu quatro vezes, só de três nasceu; para o sermão vir nascendo, há de ter três modos de cair: há de cair com queda, há de cair com cadência e há de cair com caso [circunstância]. A queda é para as coisas, a cadência para as palavras, o caso [a circunstância] para a disposição. A queda é para as coisas porque hão de vir bem trazidas e em seu lugar; hão de ter queda. A cadência é para as palavras, porque não hão de ser escabrosas nem dissonantes; hão de ter cadência. O caso [a circunstância] é para a disposição, porque há de ser tão natural e tão desafetada que pareça caso [circunstância] e não estudo: cecidit, cecidit, cecidit [caiu, caiu, caiu].

Já que falo contra os estilos modernos, quero alegar por mim o estilo do mais antigo pregador que houve no mundo. E qual foi ele? O mais antigo pregador que houve no mundo foi o céu. Coeli enarrant gloriam Dei et opera manuum ejus annuntiat Firmamentum [os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos (Sl 19,1)] diz Davi. Suposto que o céu é pregador, deve de ter sermões e deve de ter palavras. Sim, as tem, diz o mesmo Davi, tem palavras e tem sermões e mais, muito bem ouvidos. Non sunt loquellae, nec sermones, quorum non audiantur voces eorum [não há línguas e nem sermões, onde suas vozes não sejam ouvidas].

E quais são estes sermões e estas palavras do céu? As palavras são as estrelas e os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. Vede como diz o estilo de pregar do céu, com o estilo que Cristo ensinou na terra. Um e outro é semear; a terra semeada de trigo, o céu semeado de estrelas. O pregar há de ser como quem semeia e não como quem ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas: stellae manentes in ordine suo [as estrelas se mantêm na sua ordem]. Todas as estrelas estão por sua ordem; mas é ordem que faz influência, não é ordem que faça lavor. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte há de estar branco, da outra há de estar negro; se de uma parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; se de uma parte dizem 'desceu', da outra hão de dizer 'subiu'. 

Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão de estar sempre em fronteira com o seu contrário? Aprendamos do céu o estilo da disposição e também o das palavras. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há de ser o estilo da pregação; muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem. O rústico acha documentos nas estrelas para sua lavoura e o nauta para a sua navegação e o matemático para as suas observações e para os seus juízos. De maneira que o rústico e o navegante, que não sabem ler nem escrever, entendem as estrelas; e o matemático, que tem lido quantos escreveram, não alcança a entender quanto nelas há. Tal pode ser o sermão: estrelas que todos vêem e que muito poucos medem.

Sim, padre; porém esse estilo de pregar não é pregar culto. Antes fosse! Este desventurado estilo que hoje se usa, os que o querem honrar chamam-lhe culto, os que o condenam chamam-lhe escuro, mas ainda lhe fazem muita honra. O estilo culto não é escuro, é negro, e negro boçal e muito cerrado. É possível que somos portugueses e havemos de ouvir um pregador em português e não havemos de entender o que diz?! Assim como há o Lexicon para o grego e o Calepino para o latim [faz referência a dicionários clássicos para estas duas línguas], assim é necessário haver um vocabulário do púlpito. Eu ao menos o tomaria para os nomes próprios porque os cultos têm desbatizados os santos e cada autor que alegam tem sido um enigma. Assim o disse o Cetro Penitente, assim o disse o Evangelista Apeles, assim o disse a Águia da África, o Favo de Claraval, a Púrpura de Belém, a Boca de Ouro [personagens identificados na sequência do texto]. Há tal modo de alegar! 

O Cetro Penitente dizem que é Davi, como se todos os cetros não foram penitência; o Evangelista Apeles é São Lucas; o Favo de Claraval, São Bernardo; a Águia da África, Santo Agostinho; a Púrpura de Belém, São Jerônimo; a Boca de Ouro, São Crisóstomo. E quem quitaria ao outro cuidar  [tolheria a outro de dizer] que a Púrpura de Belém é Herodes que a Águia da África é Cipião e que a Boca de Ouro é Midas? Se houvesse um advogado que alegasse assim a Bártolo e Baldo, havíeis de fiar dele o vosso pleito? Se houvesse um homem que assim falasse na conversação, não o havíeis de o ter por néscio? Pois o que na conversação seria necessidade, como há de ser discrição no púlpito?

Boa me parecia também esta razão; mas como os cultos se defendem pelo (lado) polido e estudado com o grande Nazianzeno, com Ambrósio, com Crisólogo, com Leão e pelo (lado) escuro e duro, com Clemente Alexandrino, com Tertuliano, com Basílio de Selêucia, com Zeno Veronense e outros, não podemos negar a reverência a tamanhos autores posto que desejássemos, aos que se prezam de beber destes rios, a sua profundidade. Qual será, portanto, a causa da nossa queixa?

(Sermão da Sexagésima- Parte V, Pe. Antônio Vieira)

sexta-feira, 14 de junho de 2019

SERMÃO DA SEXAGÉSIMA (IV)


Nesta quarta parte do sermão, o Pe. Antônio Vieira busca estabelecer a correlação entre o fato da Palavra de Deus não render muitos frutos com a natureza da pregação por palavras não estar associada com o exemplo das boas obras.

IV

Mas como em um pregador há tantas qualidades e em uma pregação tantas leis, e os pregadores podem ser culpados em todas, em qual consistirá esta culpa? No pregador, podem-se considerar cinco circunstâncias: a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo, a voz. A pessoa que é, e ciência que tem, a matéria que trata, o estilo que segue, a voz com que fala. Todas estas circunstâncias temos no Evangelho. Vamos examiná-las uma por uma e buscando esta causa.

Será porventura o não fazer fruto hoje a palavra de Deus pela circunstância da pessoa? Será porque antigamente os pregadores eram santos, eram varões apostólicos e exemplares e hoje os pregadores são eu e outros como eu? Boa razão é esta. A definição do pregador é a vida e o exemplo. Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não disse Cristo: saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia: Ecce exiit, qui seminat, seminare. Entre o semeador e o que semeia há muita diferença. Uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja; uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega. O semeador e o pregador é o nome; o que semeia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o mundo. O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais que seja? - o conceito que de sua vida têm os ouvintes.

Antigamente convertia-se o mundo, hoje porque se não converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem. A funda de Davi derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra: Infixus est lapis in fronte ejus [a pedra perfurou-lhe a testa]. As vozes da harpa de Davi lançavam fora os demônios do corpo de Saul, mas não eram vozes pronunciadas com a boca, eram vozes formadas com a mão: David tollebat citharam, et percutiebat manu sua [Davi tomava a harpa e a tocava com a mão (I Sm 16, 23)]. 

Por isso Cristo comparou o pregador ao semeador. O pregar que é falar faz-se com a boca; o pregar que é semear faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras. Diz o Evangelho que a palavra de Deus frutificou cento por um. Que quer isto dizer? Quer dizer que de uma palavra nasceram em palavras? Não. Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras. Pois palavras que frutificam obras, vede se podem ser só palavras! Quis Deus converter o mundo e o que fez? Mandou ao mundo o seu Filho feito homem. Notai. O Filho de Deus, enquanto Deus, é palavra de Deus, não é obra de Deus: genitum non factum [gerado, não criado]. O Filho de Deus, enquanto Deus e Homem, é palavra de Deus e obra de Deus juntamente: Verbum caro factum est [o Verbo se fez Carne].

De maneira que, até de sua palavra desacompanhada de obras, não fiou Deus a conversão dos homens. Na união da palavra de Deus com a maior obra de Deus consistiu a eficácia da salvação do mundo. Verbo Divino é palavra divina; mas importa pouco que as nossas palavras sejam divinas, se forem desacompanhadas de obras. A razão disto é porque as palavras ouvem-se, as obras vêem-se; as palavras entram pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos, e a nossa alma rende-se muito mais pelos olhos que pelos ouvidos. No Céu ninguém há que não ame a Deus, nem possa deixar de o amar. Na terra há tão poucos que o amem, todos o ofendem. Deus não é o mesmo e tão digno de ser amado no Céu e na Terra? Pois como no Céu obriga e necessita a todos a o amarem e na terra não? A razão é porque Deus no Céu é Deus visto; Deus na terra é Deus ouvido. No Céu entra o conhecimento de Deus à alma pelos olhos: Videbimus eum sicut est [veremos a Deus como Ele é]; na terra, entra-se no conhecimento de Deus pelos ouvidos: Fides ex auditu [a fé vem pelo ouvir] e o que entra pelos ouvidos crê-se e o que entra pelos olhos, necessita. Se virem os ouvintes em nós o que nos ouvem a nós, o abalo e os efeitos do sermão seriam muitos outros.

Vai um pregador pregando a Paixão, chega ao pretório de Pilatos, conta como a Cristo o fizeram rei de zombaria, diz que tomaram uma púrpura e lhe puseram aos ombros; ouve aquilo o auditório muito atento. Diz que teceram uma coroa de espinhos e que a pregaram em sua cabeça; ouvem todos com a mesma atenção. Diz mais que lhe ataram as mãos e lhe meteram nelas uma cana por cetro; continua o mesmo silêncio e a mesma suspensão nos ouvintes. Desvela-se uma cortina neste espaço e aparece a imagem do Ecce Homo [eis aqui o homem]; eis todos prostrados por terra, eis todos a bater no peito, eis as lágrimas, eis os gritos, eis os alaridos, eis as bofetadas. Que é isto? Que apareceu de novo nesta igreja? Tudo o que desvelou aquela cortina já tinha dito o pregador. Já tinha dito daquela púrpura, já tinha dito daquela coroa e daqueles espinhos, já tinha dito daquele cetro e daquela cana. Pois se isto então não fez abalo nenhum, como faz agora tanto? Porque então era Ecce Homo ouvido e agora é Ecce Homo visto; a relação do pregador entrava pelos ouvidos; a representação daquela figura entra pelos olhos. 

Sabem, padres pregadores, porque fazem pouco abalo os nossos sermões? Porque não pregamos aos olhos, pregamos só aos ouvidos. Porque convertia o Batista tantos pecadores? Porque assim como as suas palavras pregavam aos ouvidos, o seu exemplo pregava aos olhos. As palavras do Batista pregavam penitência: Agite poenitentiam - 'Homens, fazei penitência' e o exemplo clamava: Ecce Homo: 'eis aqui o homem', que é o retrato da austeridade e da penitência. As palavras do Batista pregavam jejum e repreendiam os regalos e demasias da gula e o exemplo clamava: Ecce Homo:  'eis aqui o homem' que se sustenta de gafanhotos e mel silvestre. As palavras do Batista pregavam composição e modéstia e condenavam a soberba e a vaidade das galas e o exemplo clamava: Ecce Homo: 'eis aqui o homem' vestido de peles de camelo, com as cordas e cilício à raiz da carne. As palavras do Batista pregavam desapegos e retiros do mundo e a fugir das ocasiões e dos homens e o exemplo clamava: Ecce Homo: 'eis aqui o homem' que deixou as cortes e as sociedades e vive num deserto e numa cova. Se os ouvintes ouvem uma coisa e vêem outra, como hão de se converter? Jacó punha as varas manchadas diante das ovelhas quando concebiam e daí procedia que os cordeiros nasciam malhados. Se quando os ouvintes percebem os nossos conceitos, têm diante dos olhos as nossas manchas, como hão de se conceber virtudes? Se a minha vida é apologia contra a minha doutrina, se as minhas palavras vão já refutadas nas minhas obras, se uma coisa é o semeador e outra o que semeia, como há de se fazer fruto?

Muito boa e muito forte razão era esta de não fazer fruto a palavra de Deus, mas tem contra si o exemplo e experiência de Jonas. Jonas fugitivo de Deus, desobediente contumaz e, ainda depois de engolido e vomitado iracundo, impaciente, pouco caritativo, pouco misericordioso e mais zeloso e amigo da própria estimação que da honra de Deus e salvação das almas, desejoso de ver subvertida a Nínive e de a ver subvertida com seus próprios olhos, havendo nela tantos mil inocentes. Contudo, este mesmo homem, com um único sermão, converteu o maior rei, a maior corte e o maior reinado do mundo, e não de homens fiéis mas de gentios idólatras. Outra é, portanto, a causa que buscamos. Qual será?

(Sermão da Sexagésima- Parte IV, Pe. Antônio Vieira)

quinta-feira, 13 de junho de 2019

13 DE JUNHO - SANTO ANTÔNIO DE PÁDUA



SÍNTESE BIOGRÁFICA

1195: Nasce em Lisboa, filho de Maria e Martinho de Bulhões. É batizado com o nome de Fernando. Reside na frente da Catedral.

1202: Com sete anos de idade, começa a frequentar a escola, um privilégio raro na época.

1209: Ingressa no Mosteiro de São Vicente, dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho, perto de Lisboa. Torna-se agostiniano. 

1211: Transfere-se para Coimbra, importante centro cultural, onde se dedica de corpo e alma ao estudo e à oração, pelo espaço de dez anos.

1219: É ordenado sacerdote. Pouco depois conhece os primeiros franciscanos, vindos de Assis, que ele recebe na portaria do mosteiro. Fica impressionado com o modo simples e alegre de viver daqueles frades.

1220: Chegam a Coimbra os corpos de cinco mártires franciscanos. Fernando decide fazer-se franciscano como eles. É recebido na Ordem com o nome de Frei Antônio, enviado para as missões entre os sarracenos de Marrocos, conforme deseja.

1221: Chegando a Marrocos, adoece gravemente, sendo obrigado a voltar para sua terra natal. Mas uma tempestade desvia a embarcação arrastando-a para o sul da Itália. Desembarca na Sicília. Em maio do mesmo ano participa, em Assis, do capítulo das Esteiras, uma famosa reunião de cinco mil frades. Aí conhece o fundador da Ordem, São Francisco de Assis. Terminado o Capítulo, retira-se para o eremitério de Monte Paolo, junto aos Apeninos, onde passa 15 meses em solidão contemplativa e em trabalho braçal. 

1222: Chamado de improviso a falar numa celebração de ordenação, Frei Antônio revela uma sabedoria e eloquência extraordinárias, que deixam a todos estupefatos. Começa a sua epopeia de pregador itinerante.

1224: Em brevíssima Carta a Frei Antônio, São Francisco o encarrega da formação teológica dos irmãos. Chama-o cortesmente de 'Frei Antônio, meu bispo'.

1225: Depois de percorrer a região norte da Itália, passa a pregar no sul da França, com notáveis frutos. Mas tem duras disputas com os hereges da região.

1226: É eleito custódio na França e, um ano depois, provincial dos frades no norte da Itália.

1228: Participa, em Assis, do Capítulo Geral da Ordem, que o envia a Roma para tratar com o Papa de algumas questões pendentes. Prega diante do Papa e dos Cardeais. Admirado de seu conhecimento das Escrituras, Gregório IX o apelida de 'Arca do Testamento'.

1229: Frei Antônio começa a redigir os 'Sermões', atualmente impressos em dois grandes volumes.

1231: Prega em Pádua a famosa quaresma, considerada como o momento de refundação cristã da cidade. Multidões acorrem de todos os lados. Há conversões e prodígios. Êxito total! Mas Frei Antônio está exausto e sente que seus dias estão no fim. Na tarde de 13 de junho, mês em que os lírios florescem, Frei Antônio de Lisboa morre às portas da cidade de Pádua. Suas últimas palavras são: 'Estou vendo o meu Senhor'. As crianças são as primeiras a saírem pelas ruas anunciando: 'Morreu o Santo'.

1232: Não tinha bem passado um ano desde sua morte, quando Gregório IX o inscreveu no catálogo dos santos.

1946: Pio XIII declara Santo Antônio Doutor da Igreja, com o título de 'Doutor Evangélico'.

MILAGRE DOS PEIXES



Certa vez, quando o Frei Antônio pregava o Evangelho na cidade de Rímini, Itália, os moradores locais não queria escutá-lo e começaram a ofendê-lo a ponto de ameaçá-lo de agressão física. Santo Antônio saiu da praça e caminhou em direção à praia e, dando as costas aos seus detratores, falou em voz alta. 'Escutai a Palavra de Deus, vós que sois peixes e vives no mar, já que os infiéis não a querem ouvir.' Diversos peixes agruparam-se à beira da praia e, postando suas cabeças para fora d’água, ficaram em posição como de escuta das palavras do santo: 'Bendizei ao Senhor, vós que sois também criaturas de Deus!' E aqueles que presenciaram este milagre espantoso creram e se converteram ao cristianismo!

EXCERTOS DE UM SERMÃO: 'A CEGUEIRA DAS ALMAS '
(SERMÃO DO DOMINGO DA QUINQUAGÉSIMA) 

Um cego estava sentado... etc. Omitidos todos os outros cegos curados, só queremos mencionar três: o primeiro é o cego de nascença do Evangelho, curado com lodo e saliva; o segundo é Tobias que cegou com excremento de andorinhas, e se curou com fel de peixe; o terceiro é o bispo de Laodicéia, ao qual diz o Senhor no Apocalipse: 'Não sabes que és um infeliz e miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que me compres ouro provado no fogo, para te fazeres rico, e te vestires com roupas brancas, e não se descubra a tua nudez, e unge os teus olhos com um colírio, para que vejas'. Vejamos o que significa cada uma destas coisas.

O cego de nascença significa, no sentido alegórico, o gênero humano, tornado cego nos protoparentes. Jesus restituiu-lhe a vista, quando cuspiu em terra e lhe esfregou os olhos com lodo. A saliva, descendo da cabeça, significa a divindade, a terra, a humanidade; a união da saliva e da terra é a união da natureza humana e divina, com que foi curado o gênero humano. E estas duas coisas significam as palavras do cego sentado à borda do caminho e a clamar: 'Tem piedade de mim (o que diz respeito à divindade), Filho de Davi' (o que se refere à humanidade).

No sentido moral, o cego significa o soberbo. A este respeito lemos no profeta Abdias: 'Ainda que te eleves como a águia e ponhas o teu ninho entre os astros, eu te arrancarei de lá, diz o Senhor'. A águia, voando mais alto que todas as aves, significa o soberbo, que deseja a todos parecer mais alto com as duas asas da arrogância e da vanglória. É a ele que se diz: 'Se entre os astros, isto é, entre os santos que, neste lugar tenebroso, brilham como astros no firmamento, puseres o teu ninho, isto é, a tua vida, dali te arrancarei, diz o Senhor'. 

O soberbo, pois, esforça-se por colocar o ninho da sua vida na companhia dos santos. Donde a palavra de Job: 'A pena do avestruz, isto é, do hipócrita, é semelhante às penas da cegonha e do falcão, isto é, do homem justo'. E nota que o ninho em si tem três caracteres: no interior é forrado de matérias brandas; externamente é construído de matérias duras e ásperas; é colocado em lugar incerto, exposto ao vento. Assim a vida do soberbo tem interiormente a brandura do deleite carnal, mas é rodeada no exterior por espinhos e lenhas secas, isto é, por obras mortas; também está colocada em lugar incerto, exposta ao vento da vaidade, porque não sabe se de tarde ou se de manhã desaparecerá. E isto é o que se conclui: 'De lá eu te arrancarei, ou seja, arrancar-te-ei para te lançar no fundo do inferno, diz o Senhor'. Por isso, escreve-se no Apocalipse: 'Quanto ela se glorificou e viveu em delícias, tanto lhe dai de tormentos'.

E nota que este cego soberbo é curado com saliva e lodo. Saliva é o sêmen do pai derramado na lodosa matriz da mãe, onde se gera o homem miserável. A soberba não o cegaria se atendesse ao modo tão triste da sua concepção. Daí a fala de Isaías: 'Considerai a rocha donde fostes tirados. A rocha é o nosso pai carnal; a caverna do lago é a matriz da nossa mãe. Daquele fomos cortados no fétido derrame do sêmen; desta fomos tirados no doloroso parto. Por que te ensoberbeces, portanto, ó mísero homem, gerado de tão vil saliva, criado em tão horrível lago e ali mesmo nutrido durante nove meses pelo sangue menstrual?' Se os cereais forem tocados por esse sangue não germinarão, o vinho novo azedará, as ervas morrerão, as árvores perderão os frutos, a ferrugem corroerá o ferro, enegrecerão os bronzes e se dele comerem os cães, tornar-se-ão raivosos e, com as suas mordeduras, farão enlouquecer as pessoas.