sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A VISÃO DE DANIEL

I – Uma noite, o profeta Daniel teve uma visão terrificante. Enquanto os quatro ventos do céu se combatiam sobre um vasto mar, ele viu surgir do meio das vagas quatro bestas monstruosas. Eram um leão, um urso, uma pantera, e um quarto animal medonho de quatro cabeças, dotado de força prodigiosa, tendo dentes e unhas de ferro, e dez chifres na testa. Foi revelado ao profeta que estas quatro bestas significavam quatro impérios que se elevariam sucessivamente sobre as vagas movediças da humanidade.

Ora, enquanto Daniel considerava com horror a quarta besta, viu um chifrezinho nascer no meio dos dez outros, abater três, e crescer acima de todos; e este chifre tinha olhos de homem, e uma boca que falava com insolência; fazia guerra aos santos do Altíssimo, e levava a melhor sobre eles. O profeta perguntou o sentido desta estranha visão. Foi-lhe respondido que os dez chifres representavam dez reis; o chifrezinho era um rei que acabaria por dominar sobre toda a terra com inaudito poder. 'Vomitará, lhe foi dito, blasfêmias contra Deus, esmagará debaixo dos pés os santos do Altíssimo; ele pensará que pode mudar os tempos e as leis; e tudo lhe será entregue durante um tempo, dois tempos, e a metade de um tempo' (Dn 7).

II – Por este rei todos os intérpretes entendem o Anticristo. Qual é a besta sobre a qual surgiu, no tempo marcado, este chifre de impiedade? É a Revolução, pela qual se entende todo o corpo dos ímpios, obedecendo a um motor oculto e se insurgindo contra Deus: a Revolução, poder Satânico e bestial; satânico, porque animado por um espírito infernal; bestial, porque entregue a todos os instintos da natureza degradada. Ela tem dentes e unhas de ferro: pois forja leis despóticas por meio das quais esmaga a liberdade humana. Procura apoderar-se dos reis e dos governos, que têm de fazer um pacto com ela. Quando o Anticristo aparecer, ela terá dez reis a seu serviço, como os dez chifres da testa.

O Anticristo – nos diz Daniel – aparecerá como um chifrezinho; terá um começo obscuro. Não sairá da família real; será um Maomé, um Mahdi, que se levantará pouco a pouco pela audácia de suas imposturas, secundadas pela cumplicidade do diabo. O chifre que o representa é muito diferente dos outros. Tem olhos de homem; pois o novo rei é um vidente, um falso profeta. Tem uma boca que faz grandes discursos; pois se impõe não menos pelo brilho da palavra e a sedução das promessas, do que pela força das armas e das intrigas políticas.

Cedo todo o mundo terá os olhos voltados para o impostor, seus grandes feitos serão celebrados pelas trombetas de uma imprensa complacente. Sua popularidade sombreará a de muitos soberanos apóstatas, que dividirão então entre si o império da besta revolucionária. Seguir-se-á uma luta gigantesca, na qual, segundo Daniel, o Anticristo abaterá todos os seus rivais. Neste momento todos os povos, fanatizados por seus prodígios e suas vitórias, o aclamarão como o salvador da humanidade. E os outros reis não terão outro recurso que se submeterem a ele. Este será o começo de uma crise terrível para a Igreja de Deus. Pois o chifre da impiedade, alcançando o auge do poder, fará guerra aos santos e prevalecerá contra eles.

III – É provável que durante esse período que poderá durar muitos anos, o homem do pecado afetará ares de moderação hipócrita. Judeu, se apresentará aos judeus como o Messias esperado, como o restaurador da lei de Moisés; tentará torcer a seu favor as misteriosas profecias de Isaías e Ezequiel; reconstruirá, no dizer de muitos Padres da Igreja, o templo de Jerusalém. Os judeus, ao menos em parte, ofuscados por seus falsos milagres e seu fausto insolente, o receberão, o falso Cristo; porão ao seu serviço as altas finanças, toda a imprensa, e as lojas maçônicas do mundo inteiro.

É muito crível também que o Anticristo disporá, para subir, de todos os partidários das falsas religiões. Ele se anunciará como cheio de respeito pela liberdade dos cultos, uma das máximas e uma das mentiras da besta revolucionária. Dirá aos budistas que é um Buda; aos muçulmanos, que Maomé é um grande profeta. Nada impede que o mundo muçulmano aceite o falso messias dos judeus como um novo Maomé.

O que sabemos? Talvez irá até dizer, em sua hipocrisia, como Herodes seu precursor, que quer adorar Jesus Cristo. Mas isso não passará de uma zombaria amarga. Malditos os cristãos que suportam sem indignação que seu adorável Salvador seja posto lado a lado com Buda e Maomé, em não sei que panteon de falsos deuses! Todos esses artifícios, parecidos com a carícia no cavalo do cavaleiro que o quer montar, arrebanharão insensivelmente o mundo para o inimigo de Jesus Cristo; mas uma vez firme nos estribos, usará do freio e das esporas; e a mais terrível tirania pesará sobre a humanidade.

IV – São Paulo nos faz conhecer com um só traço toda a extensão dessa tirania, a mais odiosa que houve e que haverá em todos os tempos. O homem da perdição, diz ele, o filho da perdição, o ímpio, 'se oporá e se levantará contra tudo o que se chama Deus ou que é adorado como Deus, até se sentar no templo de Deus, apresentando-se como se fosse Deus' (2 Tes 2, 4). Daniel tinha predito antes de São Paulo: 'Não terá em conta para nada o Deus de seus pais; ele mergulhará em deboches; não terá preocupação com Deus algum, levantar-se-á contra tudo' (Dn 11, 17).

Assim, quando o Anticristo tiver escravizado o mundo, quando tiver colocado em toda parte seus ordenanças e suas criaturas, quando puder puxar à sua vontade todos os fios de uma centralização levada ao extremo: ele tirará a máscara, proclamará que todos os cultos estão abolidos, se aclamará como deus único e, debaixo das penas mais terríveis e mais infamantes, quererá forçar todos os habitantes da terra a adorar, excluindo qualquer outra, sua própria divindade.

É nisto que desembocará a famosa liberdade de culto da qual se faz tanto alarde; a promiscuidade dos erros exige logicamente esta conclusão. Enquanto esteve na terra, o adorável Jesus, manso e humilde de coração, nunca se propôs à adoração de seus apóstolos sendo Ele Deus; muito ao contrário, pôs-se de joelhos diante deles e lhes lavou os pés. O Anticristo, monstro da impiedade e de orgulho, far-se-á adorar pela humanidade enlouquecida e seduzida; ela terá escolhido este mestre de preferência ao primeiro.

E não se pense que a armadilha será grosseira! Não esqueçamos, diz São Gregório, que o monstro disporá do poder do diabo para fazer falsos prodígios; ao contrário do começo, quando os milagres estavam do lado dos mártires, parecerá que agora estão do lado dos carrascos. Haverá uma ofuscação, uma vertigem. Somente os humildes e firmes em Deus,distinguirão a mentira e escaparão à tentação. Mas onde o Anticristo estabelecerá seu novo culto? São Paulo nos diz: no templo de Deus; Santo Irineu, quase contemporâneo dos Apóstolos, esclarece melhor e diz: no templo de Jerusalém que ele fará reconstruir. Este será o centro da horrível religião. São João em outro lugar nos dá a conhecer a imagem do monstro será proposta por toda parte à adoração dos homens (Ap 13, 24).

Então o budismo, o islamismo, o protestantismo, etc. serão suprimidos e abolidos. Mas não é preciso dizer que o furor do mundo se dirigirá contra Nosso Senhor e sua Igreja. Fará cessar o culto público; desaparecerá, diz Daniel, o Sacrifício Perpétuo. Só se poderá celebrar a Santa Missa em cavernas e em lugares escondidos. As igrejas profanadas só apresentarão ao olhar a abominação da desolação, a saber, a imagem do monstro elevada aos altares do verdadeiro Deus. Houve um ensaio dessas coisas na Revolução Francesa. Aí a mão de Deus se fará sentir. Ele abreviará esses dias de suprema angústia. Essa perseguição, que fará vacilar as colunas do céu, só durará um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, a saber, três anos e meio.

(Excertos da obra 'O Drama do Fim dos Tempos', do Pe. Emmanuel-André)

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

29 DE SETEMBRO - SÃO MIGUEL ARCANJO

(São Miguel com elmo e armadura medieval - Catedral de Bruxelas)

'Houve uma batalha no Céu: Miguel e os seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com os seus Anjos, mas foi derrotado e não se encontrou mais um lugar para eles no Céu' (Ap 12, 7-8).

'Naquele tempo, surgirá Miguel, o grande Príncipe, constituído defensor dos filhos do seu povo e será tempo de angústia como jamais houve' (Dn 12, 1).

Assim como Lúcifer é o chefe dos demônios, Miguel é o maior dentre os anjos, Príncipe das milícias celestes, protetor da Santa Igreja e da humanidade contra as forças do inferno. Assim, a designação de arcanjo (oitavo coro dos anjos) tem sentido genérico e nominativo, pois certamente São Miguel, sendo o primeiro dentre os Anjos, é o maior dos serafins. Dentre os vários santuários destinados ao Arcanjo São Miguel, Príncipe das milícias celestes, destaca-se aquele localizado no Monte Saint Michel na França, cuja foto constitui a abertura e o símbolo deste blog.

(Santuário de São Miguel - Monte Saint Michel/França)

São Miguel, rogai por nós!
Intercedei a Deus por nós!

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

ALMA DO SILÊNCIO


'O silêncio é o segredo das grandes almas', já escreveu alguém. As grandes almas são raras. Por isso há pouco silêncio no mundo. Mas muito barulho. Muita confusão. Muitas palavras. Já não se ouvem, por isso, as discretas admoestações da consciência. Nem o perpassar dulcíssimo da graça. Nem os convites suaves para as boas resoluções. O barulho a tudo sufoca. Dispersando forças. Enfraquecendo energias. Mirrando as almas. Tornando-as mesquinhas também. 

Pois 'é no silêncio que as almas crescem'’ diz a Imitação de Cristo. O silêncio é força. 'O silêncio é vida' — escreveu a santa carmelita Ir. Marie Aimée — 'ele é que forja os santos, trabalha-os, aperfeiçoa-os'. O Eterno Pai é vida. Por isso Ele diz uma só palavra: o Verbo Eterno. E por meio deste único Verbo criou todas as maravilhas do Universo. Maria, melhor do que ninguém, compreendeu toda a força e todo o encanto do silêncio. E a ele se entregou ciosamente. 

Eis por que são tão raras as palavras que dela se leem nos santos Evangelhos, palavras de humildade, palavras de amor. E, justamente, por causa deste seu silêncio, se diz dela uma sentença profunda: 'Maria conservava todas estas palavras em seu coração' (Lc 2, 19), meditando-as, refletindo sobre elas, o que é um dos mais belos frutos do silêncio. E a seu esposo castíssimo, São José, dá-se o nome de 'santo silencioso', ó que admirável silêncio não havia de reinar então na casinha de Nazaré! 

Mas não era um silêncio de cemitério, silêncio infrutífero, mas sim realizador e produtivo, assim como o silêncio das águas nos grandes reservatórios que, saindo de sua concentração, desenvolvem energias prodigiosas, produzindo força, produzindo luz. Eis a missão do silêncio. E um dos silêncios mais admiráveis de Maria é o grande silêncio ao pé da cruz. Nada de frases, de exclamações, de lamentos, mas o silêncio dos heróis. 

Foi este sempre o seu procedimento. Silêncio que a acompanhou pela vida afora. Silêncio de humildade: nunca falando sobre si mesma; silêncio de caridade: nunca entristecendo o próximo; silêncio de obediência: nunca murmurando; silêncio de resignação: nunca se queixando; silêncio de prudência: nunca dizendo uma palavra demais; silêncio de recolhimento: nunca dizendo palavras ociosas; silêncio de fé: nunca ofendendo a Deus presente. Era assim o silêncio da alma gloriosa de Maria!

Eis por que todos os quadros marianos, de pintores célebres, nos mostram o rosto amavelmente sério de quem sabia medir suas palavras. Como são silenciosas, por exemplo, as Madonas de Rafael e de Murilo! Nem se pode imaginar de outro modo aquela que andava a escutar, continuamente, o Verbo Eterno Humanado. Se nós aprendêssemos o silêncio de Maria!

Silêncio que é amor, que é adoração! Se nós soubéssemos nos calar, como cresceriam depressa as nossas almas! Mas nós gostamos de muitas palavras, de muita dissipação. É conhecida e bem verdadeira a frase antiga: 'muitas vezes, me arrependi de ter falado, nunca de me ter calado'. E quando nos calamos exteriormente, quem sabe, quantos diálogos e discursos no nosso interior! Se queremos, pois, ter forças para a ação, forças para o amor e forças para o sacrifício, amemos o silêncio. 

Ele é de tanta utilidade que todos os Fundadores de Ordens o puseram em suas regras e, quanto melhor observado ele é, mais florescem todas as virtudes. E o apóstolo São Tiago escreve que 'é varão perfeito somente aquele que pratica o silêncio' (1 Jb 3, 2). Virgem Prudentíssima, Vaso Insigne de Devoção, ó Maria, estabelecei-nos num grande silêncio exterior e interior, em espírito de fé, de adoração e de amor para com a Santíssima Trindade, 'na qual temos a vida, o movimento e o ser' (At 17, 28). 

(Excertos da obra 'A Alma Gloriosa de Maria' de Frei Henrique G. Trindade, 1937)

terça-feira, 27 de setembro de 2016

A MÁ MORTE DOS RICOS DO MUNDO

Além de tudo que já foi dito, eu devo acrescentar uma refutação a certo erro muito prevalente entre os ricos deste mundo, que muito os afasta de uma vida correta e uma boa morte. O erro consiste nisto: o rico supõe que toda riqueza que possui é absolutamente sua propriedade, se justamente adquirida; e, portanto, podem legalmente gastá-la ou desperdiçá-la e ninguém pode lhes dizer: 'Por que você fez isto? Por que se vestir tão ricamente? Por que organizar festas tão suntuosas? Por que gastar tão prodigamente com teus cachorros e falcões? Por que gastar tanto em jogos e outros prazeres semelhante?'. E eles respondem: 'O que é isto para ti? Não é correto eu gastar o meu dinheiro para fazer aquilo que eu desejar?'

Este erro é, sem dúvida, mais grave e pernicioso: considerar que os ricos são mestres das suas propriedades com relação aos demais homens; embora, em relação a Deus, eles não sejam mestres, mas apenas administradores. Esta verdade pode ser provada com muitos argumentos: 'Do Senhor é a terra e o que nela existe, o mundo e seus habitantes' (Sl 24, 1). E ainda: 'Não preciso do novilho do teu estábulo, nem dos cabritos de teus apriscos, pois minhas são todas as feras das matas; há milhares de animais nos meus montes. Conheço todos os pássaros do céu, e tudo o que se move nos campos. Se tivesse fome, não precisava dizer-te, porque minha é a terra e tudo o que ela contém' (Sl 50, 9-12).

E no primeiro livro de Crônicas, quando Davi ofereceu para a construção do templo três mil moedas de ouro e sete mil moedas de prata e mármore em grande abundância; e quando movidos pelo exemplo do Rei, os príncipes das tribos ofereceram cinco mil moedas de ouro, dez mil moedas de prata, dezoito mil de bronze e cem mil de ferro, então Davi disse ao Senhor: 'A vós, Senhor, a grandeza, o poder, a honra, a majestade e a glória, porque tudo que está no céu e na terra vos pertence. A vós, Senhor, a realeza, porque sois soberanamente elevado acima de todas as coisas. É de vós que vêm a riqueza e a glória, sois vós o Senhor de todas as coisas; é em vossa mão que residem a força e o poder. E é vossa mão que tem o poder de dar a todas as coisas grandeza e solidez. Agora, ó nosso Deus, nós vos louvamos e celebramos vosso nome glorioso. Quem sou eu, e quem é meu povo, para que possamos fazer-vos voluntariamente estas oferendas? Tudo vem de vós e não oferecemos senão o que temos recebido de vossa mão' (1Cr 29, 11-14).O testemunho de Deus pode ser acrescentado através das palavras do profeta Ageu: 'A prata e o ouro me pertencem - oráculo do Senhor dos exércitos' (Ag 2,8). Assim falou o Senhor, para que o povo compreendesse que nada seria necessário caso o Senhor ordenasse sua construção, pois a Ele pertencem todo ouro e prata deste mundo.

Devo acrescentar dois outros testemunhos das palavras de Cristo, no Novo Testamento: Havia um homem rico que tinha um administrador. Este lhe foi denunciado de ter dissipado os seus bens. Ele chamou o administrador e lhe disse: 'Que é que ouço dizer de ti? Presta contas da tua administração, pois já não poderás administrar meus bens' (Lc 16, 1-2). O 'homem rico' aqui significa Deus, como dissemos a pouco, pois como diz o profeta Ageu, dele é o ouro e a prata. Por 'administrador'entenda-se os homens ricos, como explicam os santos padres Agostinho, Ambrósio e o Venerável Beda sobre esta passagem.

Se o Evangelho, então, deve ser acreditado, todo homem rico deste mundo deve reconhecer que suas riquezas, justa ou injustamente adquiridas, não são suas: se ele as adquiriu corretamente, ele é apenas o administrador; se injustamente, ele não é nada além de um ladrão. E desde que o homem rico não é mestre de suas riquezas, por consequência, quando acusado de uma injustiça frente a Deus, Deus pode retirá-las através da morte ou tomando-as, pois assim esta indicado nestas palavras: 'Presta contas da tua administração, pois já não poderás administrar meus bens'. Para Deus sempre haverá meios de reduzir um rico à pobreza, retirando os bens de sua custódia. Naufrágios, roubos, tempestades de granizo, pragas, muita chuva, seca e outras aflições são as muitas vozes de Deus dizendo ao rico: 'já não poderás administrar meus bens'.

Mas, então, ao final da parábola, nosso Senhor diz: 'fazei amigos com a riqueza injusta, para que, no dia em que ela vos faltar, eles vos recebam nos tabernáculos eternos' (Lc 16, 9). Ele não quer dizer que as esmolas são dadas a Ele, mas que os ricos não são ricos, propriamente falando, mas somente sombras Dele. Isto é evidente em outra passagem do Evangelho de São Lucas: 'Se, pois, não tiverdes sido fiéis nas riquezas injustas, quem vos confiará as verdadeiras?' (Lc 16, 11).O significado destas palavras é: se nas injustas riquezas ou seja, nas falsas riquezas, não tiverdes sido fiéis dando tudo liberalmente aos pobres, quem vos confiará as verdadeiras que fazem um homem realmente rico? Esta é a explicação dada por São Cipriano e Santo Agostinho.

Em outra passagem do mesmo evangelho, que pode ser considerada como um comentário sobre o administrador injusto: 'Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho finíssimo, e que todos os dias se banqueteava e se regalava. Havia também um mendigo, por nome Lázaro, todo coberto de chagas, que estava deitado à porta do rico. Ele avidamente desejava matar a fome com as migalhas que caíam da mesa do rico... Até os cães iam lamber-lhe as chagas. Ora, aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. estando ele nos tormentos do inferno' (Lc 16, 19-23a). 

Este rico era certamente um daqueles que supõe ser mestre de seu próprio dinheiro e não administrador e, portanto, ele imaginou não estar ofendendo a Deus quando estava vestido de púrpura e linho, e celebrava suntuosamente todos os dias, tinha seus cães e bufões. Talvez tenha dito a si mesmo: eu gasto o meu dinheiro, não ataco ninguém, eu não violo as leis de Deus, eu não blasfemo nem juro em falso, observo os dias santos, honro pai e mãe, não mato, não sou adúltero, não roubo, não dou falso testemunho, não desejo a mulher do próximo, não faço nada disto. Mas, se é este o caso, por que ele foi para o inferno, ser atormentado no fogo? Devemos reconhecer que aqueles enganados, que supõem ser mestres absolutos de seu dinheiro, devem responder por muitos graves pecados, que as Santas Escrituras deveriam mencionar. Mas como nada mais é dito, entendemos que os adornos supérfluos e caros, seus magníficos banquetes, a multidão de servos e cães, enquanto não possuía nenhuma compaixão pelo pobre é causa suficiente para condená-lo aos tormentos eternos.

Portanto, podemos estabelecer uma regra clara para viver e morrer bem, e sempre considerar que iremos prestar contas a Deus de nosso palácios luxuosos, jardins, muitos servos, esplendor nas vestimentas, banquetes, gastos desnecessários, que afetam a multidão de pobres e doentes, que procuram pelos nossos supérfluos, que choram a Deus, e no dia do julgamento não pararão de clamar contra todos os homens ricos, até que sejam condenados às chamas eternas.

(Excertos da obra 'A Arte de Morrer Bem' de São Roberto Belarmino)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

QUESTÕES SOBRE A NATUREZA DO DEMÔNIO (III)


QUESTÃO 5: Que paralelismo pode ser feito entre a zoologia e a demonologia?

Poderíamos dizer que existe um certo paralelismo entre a zoologia e a demonologia, uma vez que cada ser angélico deve ser completamente distinto de outro, ao extrapolar a sua forma [ou seja, não possuindo matéria, cada anjo deve tomar uma forma - em sentido filosófico - diferente para se distinguir dos demais]. Não obstante, é possível englobá-los em grandes grupos. De outra forma: se imaginarmos que, de cada espécie de mamífero, existisse um único exemplar; um único cervo, um único gamo, um único cavalo, etc. Cada um deles seria distinto dos demais; porém, num contexto zoológico, poderíamos agrupar esses seres únicos em uma espécie - a dos mamíferos - não porque estes seres vivos sejam iguais entre si, mas porque são mais semelhantes entre si em relação aos [seres vivos] pertencentes às espécies dos dos insetos, dos peixes, etc.

Estes mamíferos seriam distintos entre si, mas poderiam ser agrupados por existir uma maior semelhança entre eles do que entre os demais seres vivos. O mesmo acontece com as naturezas angélicas; cada uma é distinta da outra, mas podem ser reunidas em grandes grupos e, neste caso, em nove grupos, conforme a Bíblia: serafins; querubins; tronos; dominações; virtudes; potestades; principados; arcanjos e anjos. Se as diferenças entre os animais são, às vezes, tão grandes, no mundo angélico, estas são ainda maiores, pois a forma está livre das leis biológicas e físicas. Portanto, se é muito grande a diferença entre uma libélula e uma águia, muito maiores são as diferenças entre as naturezas angélicas. Se é enorme a diferença entre uma joaninha e uma baleia azul, indescritivelmente maior é a diferença entre um anjo da nona hierarquia em relação àqueles da primeira.

QUESTÃO 6: Que paralelismo pode ser feito entre a astronomia e a demonologia?

Existe [também] um certo paralelismo entre a astronomia e a demonologia. Um sistema solar é como uma espécie de parábola [que faz uma analogia] do que são Deus, os anjos e os demônios. Deus seria o Astro-Rei, ao redor do qual orbitam todos os demais corpos celestes do sistema solar, pois Ele é o centro que ilumina a todos. O restante de planetas, asteroides e satélites seriam os santos e os anjos. O sistema de rotação dos satélites em torno dos planetas seria como uma imagem da iluminação de uns seres angélicos sobre os outros. Ainda que os satélites girem em torno de um planeta, também giram em torno do Sol. 

Deus é o centro por mais intermediários que possam existir. Assim, os demônios seriam como aqueles corpos que se deixaram afastar da atração do Sol. O Sol os atrai, não os deixa de atrair nunca, não deixa de iluminar e de dar calor. Entretanto, esses corpos se afastaram tanto (livremente) que [agora] vivem nas trevas exteriores, no frio do vácuo e da escuridão. Deus segue atraindo-os, em cada instante, a cada segundo. Mas eles já estão irremediavelmente fora do alcance de sua atração e de sua luz. O Sol não os priva de sua luz; são eles que preferiram desviar-se em direção oposta.

Muitos homens se perguntam onde está a linha divisória entre a condenação eterna e a salvação. Esta parábola astronômica oferece luz sobre o tema, pois tal linha é como o limite [da ação] da força da gravidade.Um [corpo] pode estar já muito afastado, mas se [ainda] está unido à força da gravidade do Sol, está unido a Ele. Por outro lado, se [um corpo] vaga já completamente livre, alheio por completo à ação da gravidade [do Sol], isso constitui a condenação eterna. Se observarmos esta parábola astronômica desde a superfície da Terra, temos de adotar certas variantes (incluir as estrelas, por exemplo) e incluir outras nuances (incluir a Lua, por exemplo). Deus seria o Sol, a Virgem [Santíssima] seria a Lua e os anjos seriam as estrelas.

A diferença entre a luz do Sol e a das estrelas seria uma imagem análoga da diferença entre o ser de Deus e os dos espíritos angélicos. Os anjos seriam como um pálido e débil pontinho de luz em relação à luz ofuscante e irresistível de Deus. A diferença entre a luz das estrelas e da Lua seria a diferença entre [a luz irradiada] pelos anjos e pela Virgem. Aliás, em muitas passagens das Sagradas Escrituras, fica claro que as estrelas, brilhando luminosas no firmamento, são imagens dos espíritos angélicos (como, por exemplo, em Ap 12, 4 e Is 14, 12-15, entre outros).

QUESTÃO 7: Quais são os nomes dos demônios?

Satã: é o mais belo, inteligente e poderoso dos demônios que se rebelaram. É chamado de Satã ou Satanás no Antigo Testamento. A raiz primitiva do nome significa 'atacar', 'acusar', 'ser adversário', 'resistir' e, assim, Satã significaria 'adversário', 'inimigo', 'opositor'.

Diabo: é como Satã é chamado no Novo Testamento. Diabo vem do verbo grego diaballo, 'acusar'. Nós empregamos as palavras diabo e demônio como sinônimos, mas a Bíblia não. A Bíblia sempre utiliza o nome Diabo no singular para referir-se ao mais poderoso de todos os demônios. As Sagradas Escrituras também o chama de 'Acusador', 'o Inimigo', 'o Tentador', 'o Maligno', 'o Homicida desde o princípio', 'o Pai da Mentira', 'Príncipe deste mundo' e 'a Serpente'.

Belzebu: nome utilizado comumente como sinônimo de Diabo; provém de Baal-zebul que significa 'senhor das moscas' (citado em 2 Re 1,2).

Lilith: citado em Is 34,14, é considerado pela tradição judaica um ser demoníaco. Na mitologia mesopotâmica, é representado como um gênio com cabeça e corpo de mulher, mas com asas e extremidades inferiores de pássaro. 

Asmodeu: citado no Livro de Tobias, este nome provém do persa aesma daeva, que significa 'espírito de cólera'.

Seirim: citado em Is 13,21; Lev 17,7 e em Bar 4,35, sendo traduzido como 'os peludos'. O nome deriva do hebraico sa’ir que significa 'peludo' ou “bode'. 

Demônio: do grego daimon que significa 'gênio'; na mitologia greco-romana, não se tratava necessariamente de uma entidade maléfica. No Novo Testamento, porém, é um termo sempre usado para designar seres espirituais malignos.

Belial ou Beliar: da raiz baal, que significa 'senhor'; é citado, por exemplo, em  2 Cor 6, 15.

Apollyon: que significa 'destruidor', citado em Ap 9, 11. Diz-se que o nome hebraico equivalente é Abaddon, que significa 'perdição', 'destruição'.

Lúcifer: é um nome extra-bíblico que significa 'estrela da manhã' ou 'o que leva a luz'. O nome dado a ele por Deus nos dá a conhecer sobre a beleza deste anjo e nos recorda a enorme punição que mereceu. [Por outro lado] nos revela que foi um anjo especialmente privilegiado em sua natureza nos firmamentos angélicos, antes de se rebelar e de se deformar. A imensa maioria dos textos eclesiásticos utiliza o nome de Lúcifer como sinônimo de Diabo. Entretanto, o Pe. Gabriele Amorth considera este o nome próprio do demônio em segundo lugar na hierarquia demoníaca. Compartilho inteiramente da mesma opinião e o que conhecemos dos exorcismos nos confirma que Lúcifer é alguém distinto de Satã.

Como curiosidade, posso dizer que, em um exorcismo, um demônio revelou que os cinco demônios mais poderosos dos infernos seriam, nesta ordem: Satã, Lúcifer, Belzebu, Belial e Meridiano. É verossímil esta hierarquia? Somente Deus o sabe! O que é certo, e o sabemos pelas Sagradas Escrituras e pelos exorcismos, é que cada demônio possui um nome. Um nome dado por Deus que expressa a natureza do seu pecado. Diferentes nomes de demônios revelados por eles em exorcismos são: Perversão, Morte, Porta, Morada, etc. Outros, entretanto, revelam nomes que não sabemos o que significam: ElisedeiQuobad, JansenEishelij, etc. 

Em alguns livros de magia e bruxaria, encontram-se extensas listas de nomes [de demônios]. Estas listas enormes são tão enfadonhas quanto inventadas.  Não têm outro valor que não o da imaginação [fértil] de seus autores. Pois alguns oferecem não apenas as listas de nomes, mas inclusive o número de demônios que povoam o inferno. Essas descrições detalhadas das legiões infernais são essencialmente inventadas. Avançar além dos parcos dados [disponíveis] nas Sagradas Escrituras supõe adentrar no mundo da literatura [fantástica], abandonando o terreno firme da Palavra de Deus.

A Teologia pode nos dizer muitas coisas relativas aos demônios, mas sempre num contexto geral, trabalhando com conceitos. Ao trabalhar na essência [do tema], nada pode dizer sobre um dado demônio concretamente.  O autor de uma certa lista de demônios (tão exaustiva quanto inventada) afirma acerca de um deles, chamado Xaphan, que ele teria sugerido a Satã atear fogo no Céu, mas que teriam sido lançados no inferno antes de cometer o ato hediondo. Diz [ainda] que este demônio está encarregado eternamente de manter acesas as chamas do inferno. É desnecessário dizer que aconselho a este inventor de mitos que leia este livro, onde descobrirá que não há como atear fogo ao Céu, nem maneira de manter acesas as chamas do inferno.

(Excertos da obra 'Summa Daemoniaca', do Pe. Jose Antonio Fortea, tradução do autor do blog)

domingo, 25 de setembro de 2016

O HOMEM RICO E O POBRE LÁZARO

Páginas do Evangelho - Vigésimo Sexto Domingo do Tempo Comum 


Na parábola de Jesus no evangelho deste domingo, confrontam-se os valores da riqueza e da pobreza, presentes no corpo e nos sentidos dos liames humanos, fontes diversas que forjam o abismo incomensurável dos destinos eternos da alma. De um lado, o homem rico, avarento e enfastiado pela opulência dos bens materiais; de outro, o mendigo,  na pobreza de sua indigência completa, que almejava apenas 'matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico' (Lc 16, 21). Duas pessoas tão próximas, tão juntas, como as bordas adjacentes de um abismo profundo moldado pelo paroxismo da indiferença humana.

E este abismo tende a se tornar definitivamente intransponível para ambos ao final de suas vidas mortais. Se há um momento em que todos os homens se tornam absolutamente iguais é a hora da morte. Se há um momento em que os homens se tornam absolutamente desiguais é no momento após a morte. Eis a grande lição do evangelho deste domingo: o céu e o inferno são realidades dogmáticas da fé cristã e o pecado mortal impõe ao condenado a definitiva separação de Deus e sua danação eterna no abismo dos abismos: 'há um grande abismo entre nós; por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós’ (Lc 16, 25).

Ricos e pobres, todos nós seremos julgados não pela medida do muito ou pouco que fizemos nesta vida, mas pela medida com que fizemos bem aquilo que era da santa vontade de Deus. Ao morrer impenitente, o rico passa a viver a miséria da sua perdição; o pobre, que era apenas um nome neste mundo, torna-se o Lázaro na côrte eterna de Abraão. E, em contraposição à mendicância e às súplicas nunca ouvidas às suas portas, o rico irá suplicar três vezes pela clemência de Lázaro em seu favor e ao de seus irmãos: 'manda Lázaro molhar a ponta dos dedos... manda Lázaro à casa do meu pai ... se um dos mortos for até eles...' (Lc 16, 24, 27, 30).

A resposta de Abraão não estabelece concessão alguma: 'Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos' (Lc 16, 31). É uma sentença definitiva sob o primado da verdade eterna. Com efeito, Jesus ressuscitou, mas quantos O escutam? Escutar Moisés e os Profetas é ouvir a Palavra de Deus, seguir Jesus pelas passagens do Evangelho, combater o bom combate da fé, carregar a cruz de todos os dias com Cristo, por Cristo e em Cristo para que um dia, transposta a morte que nos torna homens todos iguais, sejamos os Lázaros da vida eterna.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

VIDA DE ORAÇÃO (II)

Orar, orar tanto quanto possível, faz também parte da perseverança na oração. Urge orar muito, porquanto de tudo carecemos, e é dever nosso interceder também por tantos outros. Pedir unicamente para si, e só advogar seus mesquinhos interesses, não é preencher sua missão na Terra; é desconhecer o poder e a eficácia da oração. Nossa oração deve ser a de um filho de Deus, isto é, estender-se a todas as necessidades da Igreja e da humanidade inteira.

A cada momento, quantas graves e importantes questões, das quais dependem em grande parte a salvação das almas e a glória divina, estão perante o tribunal de Deus à espera das respectivas soluções! Incluir em nossas preces os interesses do mundo, apresentá-los ao Senhor, recomendando-os a Ele, é isto orar de modo apostólico, católico, divino, e ao mesmo tempo humano. Assim o fez o Salvador, e é o que nos ensina na oração dominical. Se, por acaso, acontecer que não tenhamos intenção precisa ou particular, percorramos em espírito as diferentes regiões da Terra, a fim de confiar à proteção divina os interesses que nelas se debatem; todos reclamam o auxílio de nossas preces.

Do mesmo modo como aprendemos a andar, a ler e a escrever - andando, lendo e escrevendo - assim também aprendemos a orar bem exercitando-nos na prática da oração. Se esta nos parece enfadonha e insípida, é porque não recorremos a ela com assiduidade. No entanto, quanto importa o gosto da prece, a facilidade de orar! Se prezarmos a oração, seremos engenhosos em achar tempo para o exercício dela, pois encontramos sempre ocasião propícia para aquilo que nos apraz. 

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As palavras são imagens e símbolos. Postas em vibração pela vara mágica da memória, elas nos descortinam magníficas perspectivas no reino da verdade e fazem brotar mananciais da mais suave consolação. O Espírito Santo compôs para nosso uso, no livro dos Salmos, as mais belas orações vocais que se conhecem, e o Salvador levou a condescendência a ponto de nos dar uma fórmula precisa desse gênero de prece. Na celebração de seu culto oficial, a Igreja só emprega orações vocais que, por via de regra, são muito breves. A maior parte da humanidade só conhece esse modo de orar, e nele encontra a salvação eterna. É, pois, essa forma de oração a estrada real que conduz ao Céu, a escada de ouro por onde sobem e descem os anjos, levando a Deus as mensagens da Terra e trazendo aos homens as graças divinas. Enfim, graças à oração vocal, a prece da Cristandade em todo o mundo é simultaneamente particular e comum.

[...]

Há um grande número de orações que constituem excelentes modelos, dignos de todo acatamento, não somente pelo valor intrínseco, mas ainda em razão do seu autor, que é ou o Espírito Santo ou a Igreja. Os Salmos são as mais antigas orações de que temos notícia. Inspirados por Deus, e destinados na maior parte ao culto do Antigo Testamento, nem por isso deixam de pertencer à Igreja, pela estreita conexão que têm com o Messias. São eles uma prece essencialmente nossa, porquanto só no Tabernáculo Eucarístico encontram seu significado próprio e sua completa realização. O objeto desses cantares são Deus e o homem, as relações que entre eles existem por meio da Revelação e da Lei, assim como as bênçãos, esperanças, recompensas e castigos que delas dimanam... Todas as comoções e sentimentos que fazem pulsar o coração humano acham eco nesses admiráveis cânticos. 

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A Oração Dominical goza do particular privilégio de ser composta por palavras saídas dos lábios do Divino Salvador. Recitando-as, podemos dizer em toda a realidade: vivemos e oramos mediante o Filho de Deus. Aquele a quem dirigimos nossas súplicas houve por bem ensinar-nos pessoalmente o modo de formulá-las. Ainda que prescindisse dessa prerrogativa, a Oração Dominical não deixa de ser, por si mesma, a prece por excelência. É explícita, breve, completa. Neste último ponto de vista, ela possui a essência do que constitui a prece: a invocação e a súplica. O título de 'nosso Pai', que damos a Deus, implica tanto a honra do mesmo Deus como a utilidade nossa, porquanto traz à memória as relações que a Ele nos unem como a um pai; inspira-nos os mais reconfortantes sentimentos de respeito, amor e confiança; mostra-nos no gênero humano, a que pertencemos, a grande família do Pai celeste. 

As súplicas contêm tudo o que razoável e oportunamente poderíamos solicitar, e a ordem em que estão dispostas é a mais adequada. Referem-se ao fim a que devemos tender ou aos meios de alcançá-lo. O fim é duplo: consiste na glorificação de Deus e em nossa salvação pela posse do Céu. Os dois primeiros pedidos relacionam-se com esse intuito. Dispostos em duas séries, acham-se depois concatenados os meios de obtermos o nosso fim. Na primeira, solicitamos os bens necessários à alma ou à vida material — terceiro e quarto pedidos; na segunda, imploramos a preservação dos males que possam ameaçar ou impossibilitar a realização de nossos desígnios — os três últimos. Nossa ambição não poderia ir mais longe, nem almejar coisa melhor. Tudo se acha sumariado nessa prece divina. 

[...]

Outra excelente maneira de orar é o uso das jaculatórias. No que concerne à oração, é isto uma indústria pessoal. Consistem as jaculatórias em aspirações ou atos de virtude muito breves, os quais, no decurso do dia, segundo as circunstâncias e sem preparação especial, desprendem-se de nosso coração e se elevam a Deus. Tudo pode dar ocasião a esses impulsos da alma: o sofrimento ou o prazer; uma graça obtida ou uma tentação que nos assalte; o desejo de renovar nossos bons propósitos ou a lembrança do que constitui o ponto do exame particular; uma igreja ou a imagem de um santo; ou ainda a presença de tal pessoa a quem desejamos qualquer bem ou queremos preservar de algum mal; finalmente, o cuidado de aproveitar os instantes de lazer, assaz numerosos se neles atentarmos. 

(Excertos da obra 'A vida Espiritual - Reduzida a Três Princípios' do Pe. Maurício Meschler)

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

FOTO DA SEMANA

'Tende piedade de nós, ó Deus de todas as coisas, olhai para nós, e fazei-nos ver a luz de vossa misericórdia!' (Ecl 36, 1)

terça-feira, 20 de setembro de 2016

DA EXPLICAÇÃO DO MAGNIFICAT (III)


Porque olhou para sua humilde serva

Porque olhou para sua humilde serva (em latim, quia respexit humilitatem ancillae suae): qual é essa humildade de que fala a Bem-aventurada Virgem? A esse respeito, não são unânimes os pensamentos dos santos Doutores. Dizem alguns que, entre todas as virtudes, a humildade é a única que não se contempla e não se conhece a si mesma; pois o que se julga humilde é soberbo. Razão pela qual, ao dizer que Deus olhou a sua humildade, a Bem-aventurada Virgem não se refere à virtude da humildade, mas à sua baixeza e abjeção.

'Há duas espécies de humildade' - diz São Bernardo - ' a primeira é a filha da verdade, é fria e sem calor. A segunda é a filha da caridade, e nos abrasa. A primeira consiste no conhecimento, e a segunda na afeição. Pela primeira, conhecemos que nada somos, e este conhecimento, tomamo-lo de nós mesmos e de nossa própria miséria e enfermidade. Pela segunda, calcamos aos pés a glória do mundo, e aprendemo-la daquele que se aniquilou a si mesmo, e que fugiu quando O procuraram para elevá-lO à glória da realeza; e que, em vez de fugir, ofereceu-Se voluntariamente quando O procuraram para crucificá-lo e mergulhá-lo em um abismo de opróbrios e ignomínias'.

Se perguntardes porque Deus considerou antes a humildade da Santíssima Virgem que a sua pureza e suas outras virtudes, se todas nela se achavam em grau elevadíssimo, responder-vos-á São Alberto Magno, com Santo Agostinho, que considerou antes a sua humildade, porque lhe era mais agradável que sua pureza.

'A virgindade é muito louvável' - diz São Bernardo - 'mas a humildade é necessária. Aquela é de conselho, esta, de mandamento. Podeis ser salvo sem a virgindade, mas sem humildade não há salvação. Sem a humildade de Maria, ouso dizer que não teria sido agradável a Deus a sua virgindade. Se Maria não fora humilde, o Espírito Santo não teria descido a ela; e se não houvera descido a ela, ela não seria Mãe de Deus. Ela agradou a Deus pela virgindade, mas concebeu o Filho de Deus pela humildade. Donde é necessário concluir que foi a humildade que tornou a sua virgindade agradável à divina Majestade'.

Quem não possui humildade, nada possui; e quem possui humildade, possui todas as outras virtudes. Daí, resulta parecer, segundo as palavras do Espírito Santo, pela boca da Igreja, que o Pai eterno só enviou seu Filho a este mundo, para encarnar-se e ser crucificado, a fim de ensinar-nos a humildade com o seu exemplo. 'O que o demônio destruiu pela soberba' - diz um santo Padre - 'o Salvador restabeleceu pela humildade'.

(Da Explicação do Magnificat, de São João Eudes)

domingo, 18 de setembro de 2016

O ADMINISTRADOR FIEL

Páginas do Evangelho - Vigésimo Quinto Domingo do Tempo Comum 


Eis a parábola que fala da necessidade imperiosa dos Filhos de Deus viverem a sábia prudência que nasce e se alimenta da verdadeira fidelidade. A prudência dissociada da fidelidade é vanglória humana; a santidade pressupõe a adoção conjunta e harmônica destas duas virtudes, na convivência diária e nas relações humanas, no exercício das atividades do mundo, na utilização criteriosa dos recursos materiais à nossa disposição - inclusive o dinheiro, com foco único e centrado na salvação eterna de nossas almas.

Qual o uso que se dá ao que nos foi dado por Deus? O fruto de nossa herança eterna é a forma com que lidamos com os bens materiais e espirituais que a Divina Providência semeou no campo fértil da sua vinha: saúde, bens, poderes, riquezas, talentos, habilidades - tudo nos é dado como dotes mutáveis e transitórios para serem compartilhados com o próximo e produzir frutos perenes de vida eterna em terras alheias. Por que, tal como no caso do administrador infiel da parábola do Evangelho deste domingo, todos seremos igualmente cobrados pelo Senhor da Vinha: 'Presta contas da tua administração, pois já não podes mais administrar meus bens’ (Lc 16, 2).

No Julgamento Particular de cada um de nós, já não haverá mais tempo para se administrar o bem que não se fez, a partilha não realizada, a herança não distribuída. Assim, Jesus nos alerta sobre a nossa condição de administradores temporários de bens e graças nesta vida, dos quais teremos de prestar conta de tudo. E cita o exemplo da esperteza do administrador infiel, que usou da sagacidade e de uma falsa e interesseira prudência para obter vantagens e benesses para a sua subsistência futura, porque, 'os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz' (Lc 16, 8).

Com sábia prudência, os filhos da luz deveriam agir como administradores fieis dos bens e riquezas do mundo, coisas boas em si, desde que adquiridas com trabalho honesto e tratadas como meios para glória de Deus e não como fins para ganância e soberba dos homens: 'Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro' (Lc 16, 13). Eis aí a nossa herança como administradores bons e fieis: a eterna recompensa nas moradas eternas do Senhor da Vida.

sábado, 17 de setembro de 2016

SOBRE A AÇÃO DIABÓLICA - ENTREVISTA COM O PE. AMORTH

Faleceu no dia de ontem, aos 91 anos, em Roma, o sacerdote paulino Gabriele Amorth e um dos exorcistas mais conhecidos no mundo. Autor de diversas obras sobre o tema, imprimiu um contínuo e sistemático trabalho, no âmbito da Igreja, de expor a ação diabólica sobre a natureza humana. Mobilizou esforços de toda ordem para alertar o clero sobre a crescente e profunda ação do demônio sobre a atual geração de homens e mulheres. Na entrevista reproduzida abaixo, concedida em junho de 2012 à revista católica Catolicismo, esta atuação e este alerta são exemplarmente declarados e revelam a gravidade e o profundo indiferentismo de grande parte do clero católico em relação à ação do Maligno nos tempos atuais.

Catolicismo - Todas as pessoas sofrem as insídias e as tentações diabólicas, acontecendo de uma mesma tentação voltar a repetir-se muitas vezes. Podemos dizer que tal tentação torna-se um estado de perseguição do demônio?

Pe. Amorth - Devemos distinguir a ação ordinária da ação extraordinária do demônio. A ação ordinária é a de tentar-nos. Por conseguinte, todo o campo das tentações pertence à ação ordinária diabólica à qual todos somos sujeitos e o seremos até a morte. A tal ponto somos sujeitos a essas tentações, que Jesus Cristo, fazendo-se Homem, aceitou ser tentado por Satanás, não apenas nas três tentações do deserto, mas durante toda a Sua vida, como também ocorreu com Maria Santíssima. Isto porque a tentação faz parte da condição humana. Esta é a ação ordinária do demônio, como dizia o Catecismo de São Pio X, por ódio a Deus, [o demônio] tenta o homem ao mal. Ou seja, por ódio a Deus, o demônio gostaria de arrastar-nos a todos para o inferno. A ação extraordinária, por sua vez, é uma ação rara. É aquela na qual o demônio causa distúrbios particulares. Portanto, não se trata de simples tentação. [São] distúrbios particulares que podem chegar à possessão diabólica.

Catolicismo - Que tipos de distúrbios podem ocorrer? V. Revma. poderia classificá-los e, ao mesmo tempo, dar as razões da existência de tais distúrbios?

Pe. Amorth - Não existem dois casos iguais. Já fiz mais de 40 mil exorcismos. Esclarecendo: não a 40 mil pessoas, pois em muitas delas eu fiz centenas e centenas de exorcismos. Pois livrar uma pessoa do demônio, geralmente, constitui um trabalho muito lento. Como escrevi no meu livro 'Um exorcista conta-nos', fico bastante contente quando uma pessoa se livra do demônio, após quatro ou cinco anos de exorcismos, com a média de um exorcismo por semana. Conheço pessoas que ficaram livres do demônio após 12 ou 14 anos de exorcismos seguidos. Portanto, muitos exorcismos são feitos à mesma pessoa. Uma pessoa pode levar uma vida normal com sofrimentos, de maneira que aqueles com os quais convive nem se deem conta de que está possessa. Apenas quando sobrevêm os momentos de crise, então ela se comporta de uma maneira inteiramente anormal, não podendo cumprir os seus deveres de trabalho, da família, sem excessiva dificuldade. Em alguns casos, a pessoa pode ser assaltada pelo demônio, digamos, 24 horas ao dia. Em tal caso, a pessoa não pode fazer nada. Mas são casos raríssimos. Normalmente o demônio, apenas em certos momentos, investe contra a pessoa e se manifesta, sobretudo quando é obrigado a fazê-lo durante o exorcismo.

Catolicismo - E qual é a causa para que o demônio permaneça mais ou menos tempo na mesma pessoa?

Pe. Amorth - A expulsão do demônio depende de uma intervenção extraordinária de Deus. Ou seja, cada expulsão do demônio constitui um verdadeiro milagre. E Deus pode praticá-lo a qualquer momento. Nós, exorcistas, podemos prever, através de algo que nos oriente, quanto tempo ser-nos-á necessário para expulsar o demônio de uma pessoa. Por exemplo, uma criança. É mais fácil expulsar o diabo de uma criança que de um adulto. O mesmo passa-se em relação a uma pessoa que nos procura logo após ter sido possuída, uma vez que o demônio ainda não teve tempo de deitar raízes naquela pessoa. O primeiro exorcismo fala em erradicar e expulsar o demônio. Ao contrário, torna-se muito mais difícil quando sou procurado por pessoas de 50, 60 anos, e ao fazer-lhes exorcismos falando com o demônio - pois eu falo diretamente com o demônio quando a pessoa está endemoninhada -, descubro que, às vezes, a pessoa era criança ou ainda se encontrava no próprio seio materno quando sofreu os primeiros ataques do Maligno.

Catolicismo - V. Revma., há pouco, referindo-se à expulsão do demônio de um possesso, disse que ela constitui sempre uma intervenção extraordinária de Deus...

Pe. Amorth - Certo. A libertação de uma pessoa da ação do demônio constitui sempre uma intervenção extraordinária de Deus. Aliás, tenho disso um exemplo, ocorrido na semana passada. Um caso muito difícil de possessão diabólica e eu tinha razões suficientes que levavam a prever muitos anos de exorcismos para se libertar aquela alma das garras do demônio. Acontece que tal pessoa foi ao Santuário de Lourdes, na França, tomou banho na piscina, acompanhou a procissão do Santíssimo Sacramento, rezou muito. Resultado: um milagre! Voltou para casa completamente livre da possessão.

Catolicismo - V. Revma. poderia dar uma explicação a nossos leitores, ainda que sucinta, da necessidade do exorcismo e dos exorcistas? 

Pe. Amorth - O exorcismo é constituído de várias orações oficiais feitas em nome da Igreja e Deus ouve essas orações. Com efeito, existem tantas razões para isso! O exorcismo depende muito das causas que determinaram a possessão diabólica, uma vez que estas exercem muita influência sobre o possesso. Dou-lhe um exemplo simples. Se uma pessoa se consagrou a Satanás e fez o pacto de sangue com ele, é fácil entender que ela praticou um ato voluntário de doação de si mesma ao Maligno. Então, libertar tal pessoa torna-se muito mais difícil, faz-se necessário muito mais tempo do que o empregado para libertar um inocente, que foi vítima de um malefício causado por outra pessoa.

Catolicismo - Pelo que V. Revma. afirmou acima, o exorcismo não constitui o único modo de uma pessoa fazer cessar a possessão. Haveria outras? Porque com a atual dificuldade em encontrar exorcistas…

Pe. Amorth - Pode-se libertar da possessão com o exorcismo, que é uma oração oficial da Igreja, mas reservada aos exorcistas - pouquíssimos, quase não encontráveis. Outra forma, aberta a todos, são as orações de libertação. No final dos meus livros eu acrescento orações de libertação que sugiro. As orações mais eficazes são as de louvor, glória a Deus. Assim nós também muitas vezes, nos próprios exorcismos, recitamos o Credo, o Glória, o Magnificat, Salmos, trechos da Bíblia, o Evangelho em que Jesus liberta os endemoninhados. Elas têm grande eficácia.

Catolicismo - Os demônios têm nomes?

Pe. Amorth - Quando constringidos pelo exorcista a dizer os seus nomes, costumam apresentá-los. Os que têm nomes bíblicos ou de tradição bíblica são demônios fortes e é muito mais trabalhoso exorcizá-los. Continuamente dão nomes como Satanás, Asmodeu, Lilith, denominações igualmente importantes. O nome Lúcifer é de tradição bíblica e não um nome bíblico. Ou seja, nós o atribuímos à Bíblia, mas esta não cita Lúcifer. Encontramos frequentemente um demônio de nome Zabulon. O nome Zabulon, encontramo-lo na Bíblia, mas nunca como demônio. Zabulon é uma das 12 tribos de Israel. Há um demônio, porém, que tomou posse desse nome e é um demônio fortíssimo. Encontramos nas Sagradas Escrituras o demônio Asmodeu. Deparo-me muitíssimas vezes com ele, porque é o demônio que destrói os casamentos. Ele rompe os matrimônios ou os impede. É tremendo! Uma pessoa possuída ou possessa, in genere, pode estar dominada por muitos demônios. Temos um exemplo no Evangelho, quando Nosso Senhor interroga os endemoninhados de Gerasa e pergunta: 'Como te chamas?' E o demônio responde: 'Legião', porque são muitos. Lembro o caso de um demônio fortíssimo que possuía uma freira, uma possessão tremenda (às vezes, são vítimas que se oferecem pela conversão dos pecadores e sofrem esta espécie de possessão). Quando eu lhe perguntava o número, respondia-me: 'Milhares! Milhares! Milhares!'

Catolicismo - A TV, de um modo geral, com programas incentivadores de práticas de magia e espiritismo, bem como desagregadores das tradições cristãs e da família, têm colaborado ponderavelmente para o incremento do satanismo? E o rock satânico, tem concorrido para a disseminação do poder do demônio?

Pe. Amorth - Quando foi inventada a televisão, o Padre Pio ficou furioso. E a quem lhe dizia que se tratava de uma magnífica invenção, ele respondia: 'Verá que uso farão dela!' Com efeito, a TV é corrupção da juventude e igualmente dos velhos! Ouso acrescentar: é também a corrupção dos padres, dos sacerdotes e das freiras. Com os espetáculos contínuos de sexo, de horror, de violência... A internet é ainda pior, a internet é ainda pior, repito. Certa vez, ao fazer um exorcismo, falando com o demônio, ele dizia: 'A televisão, fui eu que a inventei!' Eu afirmava: 'Não! Tu és um mentiroso! A televisão é uma grandecíssima invenção do homem. Tu inventaste o mau uso dela, a fim de corromper as pessoas'. Todos sabemos que existe o nudismo. Todos sabemos que haverá [como efetivamente ocorreu], dentro de alguns dias, uma manifestação de homossexuais! Uma demonstração do vício, o pecado que isso representa! Ali está, não há dúvida, a ação do demônio. No caso acima, existe a atividade ordinária do demônio de tentar o homem, mas também a atividade extraordinária do demônio, que se serve da ocasião para possuir as pessoas que promovem essas coisas. Quanto ao rock satânico, é tremendo. Pode conduzir à possessão diabólica porque ensina o culto a Satanás. E pouco a pouco, através do culto a Satanás, chega-se a ser possuído por ele. Satanás é esperto, introduz-se sem nunca fazer-se sentir. Pode-se começar com simples jogos de cartas, de tarôs, e, através dos jogos, saber se vai ganhar na loteria, adivinhar acontecimentos, doenças de amigos. E, pouco a pouco, vai-se sendo possuído pelo demônio. O diabo age assim: atua sem se fazer sentir...

Catolicismo - As doutrinas marxistas e a sua aplicação concreta contribuem, de modo considerável, para a difusão do satanismo na sociedade contemporânea?

Pe. Amorth - Sim. Tenhamos presente que assim como o demônio pode possuir uma pessoa, pode igualmente possuir uma classe de pessoas, pode assumir o governo de uma nação. Exemplifico. Estou convicto de que Hitler e Stalin, eram possuídos pelo demônio e que o nazismo - em massa - era possuído pelo Maligno. Auschwitz, Dachau: não podem ser explicadas as atrocidades cometidas nesses lugares sem se cogitar numa perfídia verdadeiramente diabólica. E não há nenhuma dúvida de que o demônio influiu muitíssimo no mundo cultural. O demônio quer distanciar o homem de Deus. Por outro lado, tivemos pela primeira vez na História um fenômeno profetizado em Fátima -  em 13 de julho de 1917 - a aparição mais importante de Nossa Senhora em Fátima, aquela na qual encontram-se os segredos e em que Nossa Senhora fez ver o inferno. Nessa ocasião, entre outras coisas, profetizou: 'Se não obedecerem as minhas palavras, a Rússia espalhará os seus erros pelo mundo'. Nunca aconteceu que o povo tivesse sido instruído para o ateísmo. Em Moscou, entretanto, existia uma universidade de ateísmo, na qual se formavam os participantes do partido e se ensinava como atuar para destruir a religião numa nação religiosa. Jamais, no passado da humanidade, ensinou-se o ateísmo. Foi uma novidade do nosso século, devido ao comunismo que espalhou o ateísmo por todo o mundo.

Catolicismo - A falta de fé seria a principal e mais profunda causa do aumento do poder satânico no mundo atual?

Pe. Amorth - Sempre. É matemático. Examinando toda a história do Antigo Testamento, a história de Israel, quando esta abandona Deus, entrega-se à idolatria. É matemático, quando se abandona a Fé, entregamo-nos à superstição. Isto aplica-se, em nossos dias, a todos nós do mundo ocidental. Tomem as velhas nações da cristandade medieval. A católica Itália, a França, a Espanha, a Áustria, a Irlanda, que uma vez foram nações cujo catolicismo era forte. Agora o catolicismo tornou-se fraquíssimo. Na Itália, de 12 a 14 milhões de italianos frequentam atualmente sessões de bruxaria e cartomantes. Há no país aproximadamente 65.000 bruxos e cartomantes, muito mais que o número de sacerdotes. Existem também na Itália de 600 a 700 seitas satânicas. E 37% da juventude italiana participaram algumas vezes de sessões espíritas, acreditando ser um mero jogo. Um movimento dirigido por um sacerdote ensina os pais como falar com os seus filhos falecidos. Isto é espiritismo puro. Em outros tempos o espiritismo exercia-se através de um médium em estado de transe, e o médium evocava a pessoa.

O espiritismo consiste em evocar um defunto para interrogá-lo e obter dele respostas. Agora não é mais necessária a presença do médium, pois pratica-se o espiritismo através do gravador, do televisor e da internet. Os dois meios mais usados são gravadores e escritura automática. A página mais lida dos jornais é o horóscopo e os cotidianos não são comprados pelos analfabetos. São os industriais, os políticos, que não tomam decisões sem antes ouvir um bruxo. Ou seja, sempre que diminui a Fé, aumenta a superstição. Por exemplo, faz-se um referendo na Itália para a defesa da família, vence o divórcio; faz-se um referendo em defesa da vida, vence o aborto. E isto na católica Itália. Não nos espantemos, Satanás é poderoso. Nosso Senhor o chama por duas vezes Príncipe deste Mundo. São Paulo o chama Deus deste mundo. São João diz: 'Todo o mundo jaz sob o poder do Maligno'. E quando o demônio tenta Nosso Senhor, leva-O ao alto do monte, fá-Lo ver os reinos da Terra, e diz: 'São meus, e os dou a quem quero e se tu te ajoelhares diante de mim'. Jesus não lhe responde: 'Tu és um mentiroso, todos os reinos são de meu Pai. É Ele quem dá a quem quiser'. Não, não. A Escritura diz: 'Tu ajoelhar-te-ás somente ante teu Deus'. Nosso Senhor não contradiz o demônio. Hoje tantos ajoelham-se diante de Satanás para obter sucesso, prazer, riquezas - as três grandes paixões do homem! E o demônio oferece o sucesso, o prazer, a riqueza, mas sempre unidos a terríveis sofrimentos. Vemos o sucesso, vemos o dinheiro. Imaginamos que aquela pessoa é feliz. Não é verdade, pois o demônio só pode praticar o mal. Por conseguinte, as pessoas que se entregam ao demônio têm o inferno nesta vida e na outra. Aqui um inferno dourado, mascarado de sucesso e, depois, o fogo eterno!

Catolicismo - Qual a influência do chamado progressismo católico nessa decadência da virtude teologal da fé?

Pe. Amorth - Hoje, infelizmente, existem teólogos e exegetas que negam até mesmo os exorcismos de Nosso Senhor. No meu último livro - Exorcismos e Psiquiatras - dedico um capítulo aos exorcistas franceses; apenas cinco de um total de 105 creem e fazem exorcismos; os outros não creem neles. Num dos seus congressos, convidaram exegetas para dizer que negam os exorcismos de Nosso Senhor. Afirmam eles tratar-se de uma linguagem apenas cultural e que o Redentor adaptava-se à mentalidade da época, mas que, na verdade, aquelas pessoas eram apenas loucas e não possessas. Essas prédicas de exegetas influíram nos espíritos dos bispos, dos padres etc.

Catolicismo - Quais as razões que levam bispos católicos a se desinteressarem inteiramente da temática demônio, abandonando assim os fiéis à ação preternatural, crescente nos dias atuais?

Pe. Amorth - Não há razão para se impressionar com a minha resposta. No Evangelho, Nosso Senhor diz que o demônio é fortíssimo. Isto está muito claro. É fortíssimo e conseguiu, com a sua habilidade, fazer-nos crer que [ele] não existe, coisa que mais lhe agrada. Porque pôde realizar isso nestes séculos - pois já faz três séculos que faltam exorcistas. E isso explica o meu combate aos bispos, aos padres que não creem na ação do demônio. Eu os critico fortemente. Julgo que 90% dos padres e dos bispos não creem na ação extraordinária do demônio. Talvez existam alguns! Talvez, talvez! No Concílio Vaticano II, alguns Bispos já afirmavam que não existia! Durante o Concílio, hein! Diante da Assembleia Conciliar! Repito: tenho por certo que 90% dos bispos e sacerdotes não creem na ação extraordinária do demônio. Razão pela qual há três séculos, na Igreja Latina, verifica-se uma escassez espantosa de exorcistas. Na Alemanha, nenhum! Na Áustria, nenhum! Na Suíça, nenhum! Na Espanha, nenhum! Em Portugal, nenhum! Quando eu digo nenhum, não estou afirmando que não existam um, dois, mas de tal maneira não são encontrados, que os considero como inexistentes. Numa cidade europeia, importante centro de peregrinação, temos uma livraria paulina. Quando lá estive, dei-me conta, através de um livreiro amigo, que dispunham do meu livro na livraria, mas escondido. Os bispos disseram-nos para tê-lo escondido, e não expô-lo! De não expô-lo! Por outro lado, há muitos bispos que não nomearam exorcistas. Um prelado famoso - o Cardeal Todini, que foi Arcebispo de Ravena - numa transmissão televisiva jactou-se de nunca ter nomeado exorcistas! Esta, infelizmente, é a situação na qual nos encontramos.

Catolicismo - V. Revma. baseia-se em alguma escola espiritual, em algum santo, para tomar uma posição tão louvável quanto destemida?

Pe. Amorth - Eu procuro seguir a linha iniciada por um santo espanhol, o Beato Francisco Palau, carmelitano, que já em 1870 veio a Roma falar sobre o exorcismo com o Papa Pio IX. Voltou depois a Roma durante as sessões do Concílio Vaticano I, para que se tratasse da necessidade de exorcistas. Com a interrupção daquele Concílio em razão da tomada de Roma, o assunto não foi sequer levantado.

Catolicismo - Pe. Amorth, que conselho V. Revma. poderia dar-nos e a nossos caros leitores para nos precavermos contra eventuais malefícios (macumbas, por exemplo) que se queiram fazer para nos prejudicar?

Pe. Amorth - O conselho número um consiste em ter Fé. Depois, viver na graça de Deus. Se se vive em estado de graça, está-se protegido, é mais difícil que a macumba nos atinja. Porém, se se é realmente atingido, é necessário recorrer-se aos exorcismos, a muitas orações, a muitos sacramentos e, com a graça de Deus, se é libertado. Mas pode ser que Deus permita que se continue no estado de possessão, para o bem espiritual da própria pessoa. Assim, São João Crisóstomo afirma que o demônio, malgrado ele próprio, é o grande santificador das almas.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

ORAÇÃO PELO CLERO BRASILEIRO

Deixai, ó Jesus, que em Vosso Coração Eucarístico depositemos nossas mais ardentes preces pelo nosso clero, e sede propício aos nossos pedidos.

Multiplicai as vocações sacerdotais na nossa Pátria: atraí ao Vosso altar os filhos do nosso Brasil; chamai-os com instância ao Vosso Ministério.

Conservai, na perfeita fidelidade ao Vosso serviço, aqueles a quem já chamastes; afervorai-os, purificai-os, santificai-os, não permitindo que se afastem do espírito da Vossa Igreja.

Não consintais, ó Jesus, nós Vos suplicamos, que debaixo do céu brasileiro, sejam, por mãos indignas, profanados os Vossos mistérios de amor.

Também Vos pedimos com instância: deixai que a misericórdia de Vosso Coração vença a Vossa justiça divina por aqueles que se recusaram a honra da vocação sacerdotal ou desertaram das fileiras sagradas.

Atendei, ó Jesus, a esta nossa insistente oração, vô-lO pedimos por Vossa Mãe, Maria Santíssima, Rainha dos Sacerdotes.

Ó Maria, ao vosso Coração confiamos o nosso clero; guiai-o, protegei-o, salvai-o.

(Cardeal Leme, 1922)

(100 dias de indulgência aos que recitarem esta oração - antes ou depois da comunhão sacramental ou espiritual - Rio de Janeiro, em 27/10/1922)

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

VIDA DE ORAÇÃO (I)

A oração é, para o homem, a origem de todo bem. Daí se infere que saber orar, dar à oração o devido apreço, entregar-nos à sua prática com zelo e fervor é, para o tempo como para a eternidade, um tesouro de valor inestimável. Orar é tudo o que há de mais simples, e a primeira razão disso é a própria necessidade que temos da oração.

Para orar, não é mister talento excepcional, eloquência, dinheiro nem recomendação de espécie alguma. Até a devoção sensível não é necessária; a doçura, a consolação, são coisas acessórias e não dependem de nós. Se Deus no-las der, devemos recebê-las com reconhecimento, porquanto tornam a oração mais agradável. Orar, não obstante a aridez, é sempre orar. Consolados ou não, cumpre fazê-lo. Para isso, basta o conhecimento de Deus e de nós mesmos, saber o que Ele é e o que somos nós, como infinita é sua bondade e quão profunda a nossa miséria.

Para orar, uma única coisa é necessária: a fé, instruída pelo catecismo. As palavras serão ditadas pelas nossas próprias necessidades. Poucas ideias (quanto menos numerosas, melhor será), alguns desejos, e finalmente umas palavras saídas do coração - porque, se assim não for, não há oração propriamente dita - eis tudo o que é preciso. Haverá, por acaso, um homem que não tenha um só pensamento, um único desejo? Pois bem, é apenas disso que precisamos para empreender o nobre trabalho da oração. A graça, Deus no-la dá, de bom grado, a todos e a cada um em particular. Por conseguinte, orar é simplesmente falar com Deus. É conversar com Ele mediante a adoração, o louvor, a súplica. 

[...]

Durante a oração, o nosso proceder deve ser idêntico ao que temos relativamente a um amigo íntimo e querido. A ele confiamos com sinceridade o que nos vai na alma: dissabores ou alegrias, esperanças e receios. Dele recebemos conselhos e avisos, auxílio e conforto. Com ele decidimos os mais importantes negócios, singelamente e quase sempre sem que a sensibilidade se manifeste de forma alguma. E isto não obsta a que tudo seja tratado séria e lealmente. É assim que, na oração, devemos ser para com Deus. Quanto maior for a nossa simplicidade, tanto melhor será ao darmos largas ao coração.

Se muitas vezes a oração nos parece penosa e difícil, é culpa nossa. É porque não sabemos como nos portar, e fazemos dela uma ideia errônea. Manifestemos a Deus os sentimentos de nossa alma; digamos as coisas tais como se apresentam, e a oração será sempre proveitosa. Todo caminho leva a Roma, diz o adágio, e toda ideia abre o seu caminho para chegar a Deus. Só saberemos orar quando o fizermos simplesmente. Que nos adianta dirigir ao Senhor discursos sublimes ou torneados? Se acontecer que nenhuma ideia nos venha à mente, tenhamos a simplicidade de expor essa nossa indigência. E isto ainda é orar, glorificar a Deus e expressamente advogar a nossa causa.

[...]

A nós, e não a Deus, devemos atribuir a ineficácia de nossas preces. Três são as causas determinantes dessa insuficiência. Ou ela se encontra em nós, ou em nossa oração ou, enfim, no objetivo da mesma. Geralmente a oração deve reunir as seguintes condições:

Primeiramente, cumpre termos uma consciência nítida do que constitui o objeto de nossa prece; isto é, faz-se mister a intenção, a atenção e o recolhimento. O ponto importante é não nos querermos distrair ou não nos entregarmos cientemente às divagações. Como poderá Deus atender-nos, se nós mesmos não temos consciência do que estamos a dizer? Certamente o nosso anjo custódio sentirá pejo de apresentar à Majestade divina semelhante prece. Aliás, o nosso próprio interesse exige que procedamos de modo diverso, porquanto as distrações voluntárias não somente constituem obstáculo às graças divinas, mas acarretam necessariamente um castigo. Quanto às involuntárias, que sobrevêm mau grado nosso, elas não nos privam do mérito nem tiram à oração o seu valor satisfatório. Apenas interceptam o gosto, a doçura que nela poderíamos fruir. Deus conhece nossa fraqueza e tem paciência conosco.

Em segundo lugar, é preciso tomar a oração a sério e empenhar-nos em ser atendidos. Por conseguinte, devemos orar com zelo e fervor. Estes não consistem na multiplicidade das orações, senão na parte que a vontade nelas toma. Não sobe o incenso se o fogo, consumindo-o, não lhe desprende o perfume que se eleva aos céus. O fervor é a alma da prece; Deus escuta a voz do coração, e não as palavras que os lábios proferem. Conversar com Deus é sempre um ato importante; e o que lhe pedimos, algo de grande valia. Eis porque o zelo e o desejo são imprescindíveis. Se, porventura, a confiança na virtude da oração vier a fraquejar em nosso espírito, recorramos à intercessão de outrem, por meio de prece em comum ou pública. Invoquemos os santos e o bendito nome de Jesus, ao qual está particularmente ligada a eficácia da oração (Jo 16, 23).

Em terceiro lugar, importa que a prece seja humilde. Devemos aproximar-nos de Deus como mendigos, e não como credores. Somos réus de pecado e não podemos tratar o Criador de igual a igual. A própria humildade exterior vem muito a propósito. Ela apraz a Deus, O predispõe em nosso favor e excita o zelo em nosso coração.

Em seguida - e esta condição é de suma importância - é preciso orar confiadamente, com segurança. Tudo nos incita a isso. Deus quer que oremos; logo, quer atender-nos. Somos criaturas suas e filhos seus. Esses títulos que nos dão o direito a sermos ouvidos favoravelmente, Ele os conhece e preza mais que nós mesmos. Finalmente, e importa não olvidá-lo, temos que contar unicamente com a infinita misericórdia de Deus, à qual compete tudo decidir.

Se grande deve ser nossa confiança na oração feita em vista de obter bens espirituais, faz-se mister, porém, evitar dois escolhos, quando for questão de favores de ordem temporal: não implorá-los incondicionalmente, porquanto eles nos poderiam ser nocivos ou então pensar que nunca os devemos pedir. Ao contrário, cumpre fazê-lo, porém de modo conveniente. Deus quer que O reconheçamos também como origem e fonte de todos os bens temporais.

(Excertos da obra 'A vida Espiritual - Reduzida a Três Princípios' do Pe. Maurício Meschler)