sexta-feira, 6 de maio de 2022

O DOGMA DO PURGATÓRIO (XXXI)

Capítulo XXXI

Razões da Expiação no Purgatório - Pecados de Escândalo - Padre Zucchi e a Noviça

Aqueles que tiveram a infelicidade de dar mau exemplo, ferir ou causar a perdição das almas pelo escândalo devem ter todo o cuidado de reparar tudo isso neste mundo, senão serão submetidos às mais terríveis expiações no outro. Não foi em vão que Jesus Cristo proclamou: 'Ai do mundo por causa dos escândalos! Ai daquele homem por quem o escândalo vem!' (Mt 18,7). Ouçamos o que o Padre Rossignoli relata em seu Merveilles du Purgatoire

Um pintor de grande maestria e vida exemplar havia feito uma pintura que não se conformava com as regras estritas da modéstia cristã. Era uma daquelas pinturas que, a pretexto de serem obras de arte, são mantidas sob as melhores famílias, e cuja mera visão causa a perda de tantas almas. A verdadeira arte é uma inspiração do Céu, que eleva a alma a Deus; a arte profana, que apela apenas aos sentidos, que não apresenta aos olhos senão as belezas da carne e do sangue, traduz apenas uma inspiração do espírito maligno; suas obras, por mais brilhantes que sejam, não são obras de arte, e este nome é falsamente atribuído a elas. São apenas as infames produções de uma imaginação corrupta.

O artista que mencionamos deixou-se enganar neste caso por um mau exemplo. Em seguida, porém, renunciando a esse estilo pernicioso, dedicou-se à produção de quadros religiosos ou daqueles que pelo menos eram perfeitamente irrepreensíveis. Uma vez realizando a pintura de um grande afresco para um convento dos carmelitas descalços, abateu-se sobre ele uma doença mortal. Sentindo-se prestes a morrer, solicitou ao prior que pudesse ser sepultado na igreja do mosteiro, legando àquela comunidade os seus ganhos, que ascendiam a uma soma considerável em dinheiro, exortando-lhes que fossem rezadas muitas missas para o repouso de sua alma. 

Morreu sob piedosos sentimentos e, após alguns dias, um religioso que havia permanecido no coro depois das Matinas, o viu aparecer em meio a chamas e suspirando de maneira lastimável: 'Como? - disse o religioso - 'como pode você estar padecendo tantas dores, depois de levar uma vida tão justa e morrer uma morte tão santa?' 'Ai!' - respondeu ele - 'tudo isso é por causa do quadro imodesto que pintei anos atrás. Quando compareci perante o tribunal do Juiz Soberano, uma multidão de acusadores veio depor contra mim. Eles declararam que tinham sido estimulados a pensamentos impróprios e maus desejos pela imagem que foi obra da minha mão. Por causa desses maus pensamentos, alguns estavam no Purgatório e outros no Inferno. Estes clamavam por vingança dizendo que, tendo sido esta a causa de sua perdição eterna, eu merecia, pelo menos, o mesmo castigo. Então a Santíssima Virgem e os santos que eu havia glorificado com meus quadros me defenderam. Eles representaram ao Juiz que aquela pintura infeliz tinha sido obra da minha juventude e da qual havia me arrependido; que eu a havia reparado depois com objetos religiosos que haviam sido fonte de edificação para as almas. Em consideração a essas e outras razões, o Juiz Soberano declarou que, por causa do meu arrependimento e das minhas boas obras, eu deveria estar isento de condenação; mas, ao mesmo tempo, Ele me condenou a essas chamas até que aquele quadro fosse queimado, para que não pudesse mais escandalizar ninguém'.

Então a aparição implorou aos religiosos do convento que tomassem as providências para que aquela pintura fosse destruída. 'Eu imploro' - acrescentou - 'procure em meu nome tal pessoa, proprietária do quadro; diga-lhe em que condições estou por ter cedido às suas insistências em pintá-lo e exorte-o a desfazer-se dele de pronto e ai dele se o recusar! Para provar que isso não é uma fantasia e para puni-lo pela sua própria culpa, diga-lhe que em breve perderá os seus dois filhos e, se ainda recusar a obedecer Àquele que nos criou, ele pagará por isso com uma morte prematura'.

O religioso não tardou em fazer o que a pobre alma havia pedido e foi ter com o dono do quadro. Este, ao ouvir essas coisas, pegou a pintura e a lançou no fogo. No entanto, como designado pelas palavras do falecido, ele perdeu os seus dois filhos em menos de um mês e passou o resto dos seus dias fazendo penitência, por ter encomendado e mantido por tanto tempo aquela pintura escandalosa em sua casa. Se tais são as consequências de um único quadro, qual será, então, o castigo dos escândalos ainda mais desastrosos induzidos por maus livros, notícias falseadas, ensinamentos perversos e conversas vulgares? Vae mundo a scandalis! Vae homini illi per quem scandalum venit! - 'Ai do mundo por causa dos escândalos! Ai daquele homem por quem vem o escândalo!' (Mt 18, 7).

O escândalo faz grandes estragos nas almas pela sedução da inocência. Ah! esses malditos sedutores! Eles prestarão a Deus uma terrível conta pelo sangue de suas vítimas. Lemos o seguinte na Vida do Pe. Nicolau Zucchi, escrita pelo Pe. Daniel Bartoli, da Companhia de Jesus. O santo e zeloso Pe. Zucchi, falecido em Roma, em 21 de maio de 1670, atraiu para uma vida de perfeição três jovens, que se consagraram a Deus no claustro. A mais nova delas, antes de deixar o mundo, recebera uma proposta de casamento de um jovem nobre. Após a sua entrada no noviciado, este homem, em vez de respeitar a sua santa vocação, continuou a dirigir-lhe cartas a quem desejava chamar de sua noiva, insistindo que ela deixasse - como dizia - o tedioso serviço a Deus para voltar a viver as alegrias da vida. O sacerdote,  encontrando-o um dia na rua, exortou-lhe que abandonasse tal conduta: 'Eu lhe asseguro' - disse ele - 'que em breve você irá comparecer perante o tribunal de Deus e, portanto, já é mais que tempo para se preparar para isso com sincera penitência'.

De fato, quinze dias depois, este jovem morreu de uma morte muito rápida, que lhe deixou pouco tempo para colocar em ordem os assuntos de sua consciência, de modo que havia tudo a temer por sua salvação. Uma noite, enquanto as três noviças estavam envolvidas em uma conversa religiosa, a mais jovem foi chamada a se dirigir até a sala de entrada, onde a esperava um homem encoberto por uma pesado casaco e que andava a passos largos pelo ambiente. 'Sim, senhor - ela disse - 'o senhor queria falar comigo?' O estranho, sem nada responder, aproximou-se dela e abriu o misterioso manto que o envolvia. A religiosa reconheceu de imediato e horrorizada de que se tratava do recém-falecido, que estava totalmente tomado por correntes de fogo que o prendiam pelo pescoço, pulsos, joelhos e tornozelos. 'Reze por mim!' - gritou ele, desaparecendo em seguida. Esta manifestação milagrosa mostrou que Deus teve misericórdia dele no último momento e que não foi condenado, mas que pagou caro por sua tentativa de sedução à jovem noviça com um terrível Purgatório.

Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog)