quarta-feira, 17 de junho de 2020

PARA AQUÉM DOS TEMPOS DA TRIBULAÇÃO...

'O dia do Senhor será trevas e não claridade; escuridão, e não luz' 
(Am 5, 20)

Há uma certeza latente nesta e em tantas profecias similares: o dia do Senhor virá e será tremendo. Certeza absoluta, evidência cristalina. Se o homem não se conforma à Vontade de Deus, Deus age sobre a humanidade pecadora. Eventos diversos da história humana comprovam estas intervenções extremadas da onipotência divina. O que podemos esperar então de uma geração singular dos tempos que abandonou Deus até nos rudimentos mais sensíveis da Graça, senão tempos de grande tribulação? Mas, o que Deus espera dos seus escolhidos nestes tempos tremendos? O que Jesus conclama aos justos de toda a terra diante do aviltamento crescente do mal e da impiedade do mundo? O que Nossa Senhora pediu com tanta insistência em Fátima e tem pedido em tantos outros lugares aos seus filhos diletos e amados?

Os Céus pedem o nosso medo? Desespero? Que nos desfaleçamos de terror e espalhemos aterrados os horrores dos castigos universais que nos esperam? Medo, desespero, terror... não são virtudes, não são armas espirituais, não são consolo, não são escudo. Se o medo impera, vacila a fé. Se o desespero assola, a esperança torna-se inútil. Se o horror se manifesta, não há lugar para a temperança e a paz interior. Se o mal é capaz de sitiar as almas em tais angústias, não existirá bem capaz de as livrar de desfalecer de medo.

Deus não quer isso de nós. Jesus não pode aspirar o triunfo da graça com o nosso medo. Nossa Senhora não nos consola para nos adaptarmos à escuridão mas para que possamos enfrentar e superar as trevas. A realidade do mal não pode ser obscurecida, mas sua superação será completa e definitiva: 'Por fim, meu Imaculado Coração triunfará'. O pecado é um vômito repugnante que inunda a face da terra, de todos os modos e formas possíveis. A humanidade parece esmagada pela banalidade do mal que, qual um sorvedouro universal, engole e impulsiona o homem a desatinos e infâmias cada vez mais terríveis. O mal impera, domina, gargalha, reina absoluto. Vivemos a sexta-feira das trevas. 

E tudo isso é nada, é vômito que será ressecado.  É vendaval que se desfaz depois de colossal tormenta de ventos embriagados de fúria; são ondas gigantescas que se arrebentam nos contrafortes dos rochedos; são trevas pastosas e repulsivas que vão se esvair lentamente nas fissuras e crateras da terra sacudida em dinâmica espantosa. É fumaça, porque é só fumaça o poder possível do maligno sobre o homem.

Se o mal que aí está não lhe perturba, é natural que a hora da provação possa lhe amedrontar ... e muito! Se você não tem tempo agora para fazer penitência e mortificação pelos pecadores, como pode achar que terá tempo para você mesmo naquelas horas tremendas?  Se o conformismo modela as suas atitudes e uma descrença generalizada é o acervo do que restou de uma fé católica tíbia e anêmica, o que quaisquer apelos do Céu, por mais assertivos e repetitivos que possam ser, poderiam fazer em seu socorro? Deus tem formas diversas de converter os homens além de fazê-los cair do cavalo como fez com Paulo em alguma estrada de Damasco...

O que Deus quer de nós é oração. O que Jesus nos conclama é buscar a sua misericórdia. O que Nossa Senhora nos impele a fazer é a nossa oferta de nós mesmos, com todas as nossas limitações e dificuldades, com toda a nossa miséria e pequenez, como oferecimento despojado das nossas angústias, sofrimentos, dores, contrariedades e todas as provações cotidianas, como instrumentos dóceis que imploram a conversão dos pecadores e que buscam reparar a avalanche de ofensas e blasfêmias cometidas em golfadas contra o Coração Divino. 

O que você pode oferecer a Deus - hoje, agora! - é amor. Nada mais que isso. Manifeste a Ele este amor agora: em tudo, em todos, o tempo todo!  Ele pode fazer maravilhas com o seu amor abstraído de afeições e sensibilidades humanas; Deus precisa destes pedaços, destas migalhas de amor, para converter o mundo. Deus precisa de suas orações e das minhas! E faça também uma outra coisa pequena: estanque a curiosidade, a angústia e o medo dos tempos que hão de vir no abismo de sua pequenez: pois não há vento em fúria nem terra em transe que possa fazer jorrar as trevas, nem em um momento sequer de toda a eternidade, em uma alma incendiada pela luz que é Cristo.