sexta-feira, 23 de abril de 2021

O DOGMA DO PURGATÓRIO (V)


Capítulo V

Localização do Purgatório - Revelações dos Santos - Santa Teresa - São Luís Bertrand - Santa Maria Madalena de Pazzi

Santa Teresa tinha grande caridade para com as almas do Purgatório e as ajudava tanto quanto estava em seu alcance com as suas orações e boas obras. Em recompensa, Deus frequentemente mostrava a ela as almas que ela havia libertado; ela as via no momento de sua libertação do sofrimento e da sua entrada no céu. E, em geral, as almas saíam do seio da terra. 

'Recebi a notícia' - escreve ela - 'do falecimento de um religioso que havia sido o superior dessa província e depois de uma outra. Eu o conhecia e ele me prestou um grande serviço. Essa informação me causou grande inquietação. Embora este homem fosse louvável por muitas virtudes, fiquei apreensivo pela salvação de sua alma, porque ele havia ocupado o cargo de superior por um espaço de vinte anos, e sempre temo muito por aqueles que estão encarregados de cuidar das almas. Muito triste, fui a um oratório; ali invoquei nosso Divino Senhor para aplicar a este religioso o pouco bem que fizera durante a minha vida, e suprir o resto por seus infinitos méritos, a fim de que esta alma pudesse ser libertada do purgatório'.

'Enquanto eu implorava esta graça com todo o fervor de que era capaz, vi do meu lado direito esta alma sair das profundezas da terra e ascender ao céu em vórtices de alegria. Embora esse padre fosse avançado em anos, ele me pareceu com as feições de um homem que ainda não havia atingido a idade de trinta anos, e com um semblante resplandecente de luz. Esta visão, embora muito curta, deixou-me imersa em alegria e sem sombra de dúvida quanto à veracidade do que tinha visto. Como eu estava separada por uma grande distância do lugar onde esse servo de Deus havia terminado os seus dias, demorou algum tempo até que eu soubesse dos detalhes de sua morte edificante: todos aqueles que foram testemunhas disso não puderam olhar sem admiração como ele preservou a consciência até o último momento, as lágrimas que derramou e os sentimentos de humildade com os quais entregou s sua alma a Deus'.

'Um religioso da minha comunidade, um grande servo de Deus, estava morto há menos de dois dias. Estávamos rezando o Ofício dos Mortos para ele no coro; enquanto uma irmã fazia a leitura, eu estava de pé para rezar o versículo. Ao se chegar à metade da leitura, vi sair das profundezas da terra a alma deste religioso, como aquela de que acabei de falar, e ir para o céu'.

'Uma freira da minha comunidade, e uma grande serva de Deus, havia falecido há menos de dois dias. O Ofício dos mortos estava sendo celebrado para ela no coro: enquanto uma irmã fazia a leitura, eu ficava de pé para rezar o versículo. Na metade da leitura, vi a alma dessa religiosa sair, como aquela de quem acabei de falar, do fundo da terra e ir para o céu. Essa visão era puramente intelectual, enquanto a anterior se apresentou a mim sob a forma de imagens. Mas ambas me deixaram a alma com uma igual certeza'.

'Neste mesmo mosteiro, com a idade de dezoito ou vinte anos, acabara de falecer outra freira, verdadeiro modelo de fervor, perseverança e virtude. Sua vida tinha sido uma sequência de doenças e sofrimentos. sempre tolerados com paciência. Eu não tinha dúvidas de que, depois de ter vivido assim, ela não teria mais méritos do que precisava para estar isenta do Purgatório. No entanto, enquanto eu estava no serviço, antes de ser enterrada e cerca de quatro horas após sua morte, eu vi a sua alma também sair da terra e subir ao céu'. - É o que nos escreve Santa Teresa.

Um exemplo semelhante é relatado na vida de São Luís Bertrand, da Ordem de São Domingos. Esta leitura, escrita pelo Padre Antist, religioso da mesma ordem que conviveu com o santo, está inserida na Acta Sanctorum, no dia 10 de outubro: no ano de 1557, quando São Luís Bertrand residia no convento de Valência, a peste irrompeu nesta cidade. O terrível flagelo, em ondas sucessivas, ameaçava todos os habitantes e cada qual temeu pela sua vida. Um religioso da comunidade, Padre Clément Benet, desejando ardentemente preparar-se para a morte, fez uma confissão geral de toda a sua vida ao santo e, após a confissão, disse a ele: 'Padre, se agora for do agrado de Deus me chamar, eu haverei de voltar e tornar conhecido a você a minha condição na outra vida'. 

Ele morreu realmente pouco depois e, na noite seguinte, apareceu ao santo dizendo-lhe que ainda estava retido no Purgatório por algumas pequenas faltas ainda a expiar, implorando a sua recomendação à comunidade. O santo comunicou imediatamente este pedido ao Padre Prior, que se apressou em recomendar a alma do defunto às orações e súplicas por parte de todos os irmãos daquela congregação. Seis dias depois, um homem da cidade, que nada sabia do ocorrido no convento, vindo confessar-se ao padre Bertrand, revelou-lhe que 'a alma do padre Clément havia se manifestado a ele. Ele tinha visto a terra se abrir e a alma do falecido padre emergir dela toda gloriosa: parecia - acrescentou ele - como uma estrela resplandecente que se elevou no ar em direção ao céu'. 

Lemos na vida de Santa Madalena de Pazzi, escrita pelo seu confessor, o Padre Cépari da Companhia de Jesus, que esta serva de Deus foi testemunha da libertação de uma alma nas seguintes circunstâncias. Uma de suas religiosas já estava morta há algum tempo, quando a santa, encontrando-se em oração diante do Santíssimo Sacramento, viu a alma desta irmã emergindo da terra, mas ainda presa às prisões do Purgatório. Ela estava envolvida por um manto de chamas, abaixo do qual um vestido de alvura deslumbrante a protegia contra o calor muito forte do fogo; e ela permaneceu por uma hora inteira aos pés do altar, adorando, em indizível prostração, o Deus escondido sob as espécies eucarísticas. Essa hora de adoração, que Santa Madalena a viu fazer, foi a última de sua penitência; assim que esta hora expirou, sua alma se elevou e voou em direção ao céu.

Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', 342p., do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog)