sábado, 25 de abril de 2020

A BÍBLIA EXPLICADA (XXI): 'APASCENTA AS MINHAS OVELHAS!'

'Era esta já a terceira vez que Jesus se manifestava aos seus discípulos, depois de ter ressuscitado. Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: 'Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?'. Respondeu ele: 'Sim, Senhor, tu sabes que te amo'. Disse-lhe Jesus: 'Apascenta os meus cordeiros'. Perguntou-lhe outra vez: 'Simão, filho de João, amas-me?'. Respondeu-lhe: 'Sim, Senhor, tu sabes que te amo'. Disse-lhe Jesus: 'Apascenta os meus cordeiros'. Perguntou-lhe pela terceira vez: 'Simão, filho de João, amas-me?'. Pedro entristeceu-se porque lhe perguntou pela terceira vez: 'Amas-me?' – e respondeu-lhe: 'Senhor, sabes tudo, tu sabes que te amo'. Disse-lhe Jesus: 'Apascenta as minhas ovelhas' (Jo 21, 14-17).

Esta passagem do texto do Evangelho de São João é carregada de simbolismos e de sinais proféticos. Trata-se explicitamente da terceira manifestação de Jesus aos seus discípulos após os eventos da sua Paixão e Ressurreição e esta menção não é casual e tem relação íntima tanto com as três perguntas que o Senhor dirigiu a Pedro como às três negações do Apóstolo. Por três vezes Pedro há de negar a Pedro, por três vezes Jesus vai pedir para Pedro (o papado) apascentar a Igreja. Com uma diferença exponencial no terceiro pedido: apascenta as minhas ovelhas e não, como nas duas precedentes, apascenta os meus cordeiros.

Existe, portanto, um caráter completamente distinto envolvendo os dois primeiros diálogos de Jesus com Pedro (e, assim, igualmente, entre a terceira e as duas primeiras negações de Pedro). Entre o rebanho de cordeiros (filhote da espécie, indicando, assim, uma Igreja ainda infante e por cumprir ainda a sua função de evangelizar o mundo) e o rebanho de ovelhas (animais adultos, representando simbolicamente a Igreja madura e já plenamente consolidada no mundo), as palavras de Jesus, mais do que a Pedro, são dirigidas à Igreja Militante de tempos essencialmente diversos.

Serão três eras distintas, três momentos absurdamente críticos para a Igreja de Cristo, momentos tão tenebrosos na história humana que levaram o próprio Senhor a explicitar a Pedro (e aos sucessores de Pedro) a sua ordem divina: 'se me amam de verdade, zelem com cuidado extremo e particular pelos meus filhos nestes tempos de tribulação extremada'. 

O primeiro momento tenebroso da história da Igreja é a mesma ter padecido, no nascedouro, de Jesus ausente em corpo entre os homens. Os discípulos, mesmo após o longo convívio com a presença, os ensinamentos, exemplos e milagres do Senhor, vão se refugiar em lugares fechados por medo dos homens, vão vacilar, vão se acovardar. E será o próprio Pedro o mentor do primeiro apelo de Jesus, o mesmo Pedro que vai negar o Mestre pela primeira vez diante de uma simples criada. Sim, uma simples mulher abre a porta para Pedro adentrar um espaço mundano, mas são os próprios discípulos que fecham as portas dos seus refúgios por medo dos homens e da missão que têm a cumprir. Diante da perturbação e da queda iminente diante um mundo que ainda desconhece por completo os mistérios da graça (a criada), Pedro e os Apóstolos romperão as portas do escondimento e do medo para se tornarem os arautos dos evangelhos e os mártires da fé após o Pentecostes. E, assim, a Igreja Primitiva ouviu e fez cumprir o primeiro mandato de Cristo: apascenta os meus cordeiros.

O segundo momento tenebroso da história da Igreja não teve uma data fixa e definida, mas se estendeu por um longo período de flagelo diante as muitas e variadas eras das perseguições romanas. Naqueles tempos, o martírio se converteu em prática cotidiana. Para subverter a Roma pagã e alçar os ares do mundo, o Evangelho de Cristo floresceu na sementeira do sangue derramado por milhares e milhares de mártires. Como conciliar provação tão tremenda de amor à fé cristã por tantos homens e mulheres diante da figura apequenada de Pedro, refestelado diante do fogo acolhedor para se aquecer da noite fria quando Deus vivo está sendo condenado à morte? É uma outra criada agora que o interpela e o acusa diante de outros, isto porque o mundo pagão agora não pode mais dizer que desconhece a Verdade: a força do evangelho vai arrebentando portas e masmorras e convertendo milhares de milhares e, por isso, deve ser denunciado, atacado e combatido pelos inimigos reunidos em torno do fogo acolhedor das misérias do mundo. Essa perseguição vai ter raízes ainda mais profundas no enfrentamento de hordas heréticas de diversas origens, mas o triunfo da Igreja é definitivo. Pedro vai se transformar em um novo Cristo após o seu 'quo vadis' e juntar o seu martírio ao de outros milhares de mártires que temperaram o cadinho da Igreja Nascente e purificada que reformou o mundo para fazer cumprir fielmente o segundo mandato de Cristo: apascenta os meus cordeiros.

O terceiro momento tenebroso da história da Igreja ainda está por vir e terá um período e data muito bem definidos, conforme as inúmeras profecias e referências presentes nos textos das Sagradas Escrituras: os tempos do Anticristo. Será uma era de provação como nunca se viu, será uma hora tremenda para a Igreja e para o povo santo de Deus. Será uma época de perseguições e martírios, de uma crise de fé espantosa, de uma rebelião inimaginável dos homens contra o Evangelho e a fé cristã. Na terceira provação magna da sua história, os eventos associados às duas primeiras estarão presentes conjunta e simultaneamente, e em magnitude extrema. Isto se conclui porque a terceira negação do Apóstolo não constitui somente uma negação como as outras: Pedro blasfema, faz imprecações e jura em falso. A Igreja não apenas vacila e tem medo, mas muda de lado e se alia ao mal. E o galo canta, pois a noite está no fim e já desponta o amanhecer de um novo dia. Neste simbolismo dos trechos proféticos, fica expresso o triunfo final da Igreja nos novos tempos que seguem o fim da noite fria, escura e tenebrosa de provações tamanhas. Este triunfo da Igreja, como expressamente ratificado por Nossa senhora de Fátima, é a certeza de que, naqueles tristes tempos, será firmemente edificada a Igreja Eterna de Cristo e cumprido in totum o terceiro e último mandato de Cristo: apascenta as minhas ovelhas.