terça-feira, 19 de março de 2019

19 DE MARÇO - SÃO JOSÉ


São José, esposo puríssimo de Maria Santíssima e pai adotivo de Jesus Cristo, era de origem nobre e sua genealogia remonta a Davi e de Davi aos Patriarcas do Antigo Testa­mento. Pouquíssimo sabemos da vida de José, além de suas atividades de carpinteiro em Nazaré. Mesmo o seu local de nascimento é ignorado: poderia ser Nazaré ou mesmo Belém, por ter sido a cidade de Davi. Ignora-se igualmente a data e as condições da morte de São José, mas existem fortes razões para afirmar que isso deve ter ocorrido an­tes da vida pública de Jesus. Com certeza, José já teria falecido quando da morte de Jesus, uma vez que não se explicaria, então, a recomendação feita aos cuidados mútuos à mãe e ao filho, dados, da cruz,  por Jesus a Maria e a São João Evangelista.

Não existem quaisquer relíquias de São José e se desconhece o local do seu sepultamento. Muitos pais da Igreja defendiam que, devido à sua missão e santidade, São José, a exemplo de São João Batista, teria sido consagrado antes do nasci­mento e já gozava de corpo e alma da glória de Deus no céu, em companhia de Jesus e sua santíssima Esposa. As virtudes e as graças concedidas a São José foram extraordinárias, pela enorme missão a ele confiada pelo Altíssimo. A dig­nidade, humildade, modéstia e pobreza, a amizade íntima com Je­sus e Maria e o papel proeminente no plano da Redenção, são atributos e méritos extraordinários que lhe garantem a influência e o poder junto ao tro­no de Deus. Pedir, portanto, a intercessão de São José, é garantia de ser ouvido no mais alto dos céus. Santa Tereza, ardorosa devota de São José, dizia: 'Não me lembro de ter-me dirigido a São José sem que tivesse obtido tudo que pedira'.

A devoção a São José na Igreja Ca­tólica é antiquíssima. A Igreja do Oriente celebra-lhe a festa, desde o século nono, no domingo depois do Natal. Foram os carmelitas que in­troduziram esta solenidade na Igreja Ocidental; os franciscanos, já em 1399, festejavam a comemoração do Santo Pa­triarca. Xisto IV inseriu-a no bre­viário e no missal; Gregório XV ge­neralizou-a em toda a Igreja. Cle­mente XI compôs o ofício, com os hinos, para a celebração da Festa de São José em 19 de março e colocou as missões na China sob a proteção do Santo. Pio IX introdu­ziu, em 1847, a festa do Patrocínio de São José e, em 1871, declarou-o Pa­droeiro da Igreja; muitos pontífices promoveram solenemente a devoção a São José, por meio de orações, homilias, encíclicas e devoções diversas.

POEMAS PARA REZAR (XXXII)


OLHE PARA A CRUZ DE CRISTO


Quando você perder a esperança,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando a paz for alguma coisa muito distante,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando tudo parecer não ter sentido,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando a amargura for sua ditosa companhia,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando a tristeza vier morar à sua porta,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando você não mais poder contar estrelas,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando a solidão entorpecer os seus sonhos e desejos,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando a noite encobrir de trevas o seu caminho,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando a dor espantar o seu sorriso,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando a vida parecer causa perdida,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando você não puder mais abraçar seu filho,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando seu corpo for a prisão de uma alma atormentada,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando a alegria se tornar sombra desvanecida,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando o horizonte parecer apenas um lugar distante,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando a mão que afagava se transformar em açoite,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando o sofrimento o fizer ansiar fugir da vida,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando a sua casa for insuportável exílio,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando você tiver prostrado ao chão em agonia,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando o pecado esmagar sua consciência nua,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando o pranto for seu derradeiro amigo,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando a oração parecer não ter respostas,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando o mundo engolir todos os seus sonhos,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando a felicidade for apenas uma lembrança inútil,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando ninguém mais puder ouvir o seu sussurro,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando você tornar-se apenas um espectro de homem, 
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando o tempo vier buscar o seu olhar perdido,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando o nada for seu último refúgio,
Olhe para a Cruz de Cristo.

Quando lhe restar apenas o último suspiro,
Olhe para a Cruz de Cristo. 
E peça a Ele, em seu último suspiro,
para ser para sempre outro Cristo.

(Arcos de Pilares)

segunda-feira, 18 de março de 2019

SUMA TEOLÓGICA EM FORMA DE CATECISMO (XXVII)

XXV

PECADOS QUE SE COMETEM ENGANANDO O PRÓXIMO OU ABUSANDO DELE: A FRAUDE E A USURA

Qual é a última classe de pecados contra a justiça comutativa? 
Aqueles, mediante os quais, indevidamente, se obriga ao próximo o consentir naquilo que o prejudica (LXXVII, Prólogo)*. 

Que nome têm? 
Chamam-se fraude e usura (LXXVII; LXXVIII). 

Que entendeis por fraude? 
O ato, contrário à justiça, de enganar o próximo nos contratos de compra e venda, persuadindo-o a que aceite como bom o que não o é (LXXVII). 

Por quantos modos se comete o pecado de fraude? 
Comete-se, umas vezes, no preço, quer comprando por muito menos do que valem as coisas, quer vendendo por preços excessivos; outras, enganando nas qualidades e natureza da mercadoria, saiba disso ou não o vendedor; outras vezes comete-o o comerciante, ocultando os defeitos do gênero; comete-se, por último conforme o fim a que se destinam os lucros ou o propósito que sobre eles forme o negociante (LXXVII, 1-4). 

Nunca se pode comprar cientemente uma coisa por menos ou vendê-la por mais do que vale? 
Não, Senhor; porque o preço dos contratos de compra e venda deve corresponder ao valor real da mercadoria; pedir mais ou dar menos, é ato essencialmente injusto e impõe obrigação de restituir (Ibid). 

É contra a justiça vender uma coisa por outra? 
Sim, Senhor; porque é enganar na natureza ou espécie, quantidade e qualidades da mercadoria; é pecado, se se faz conscientemente e obriga à restituição. Mesmo no caso em que não tenha havido pecado, permanece a obrigação de ressarcir prejuízos ao vendedor ou ao comprador de boa fé, quando se descobre a fraude (LXVII, 2). 

Está o vendedor sempre obrigado a manifestar os defeitos da mercadoria? 
Quando são ocultos e podem acarretar danos e prejuízos, sim, Senhor (LXXVII, 3). 

É lícito a alguém dedicar-se ao negócio de compra e venda com o fim exclusivo de obter lucros e amontoar dinheiro? 
O negócio pelo negócio tem algo de brutal e agressivo, porque fomenta o afã desmedido do lucro, insaciável por natureza (LXXVII, 3). 

Que fins ou circunstâncias poderiam legitimá-lo? 
É necessário que não seja o lucro a finalidade do negócio, mas haja um fim mais honrado e moral, por exemplo, sustentar a família, socorrer os indigentes; dedicar-se-lhe tendo em vista a utilidade pública, para que não faltem no mercado os artigos de consumo necessário, ou ainda, querer o lucro como retribuição do trabalho empregado em sua aquisição (Ibid). 

Que entendeis por pecado de usura? 
O ato de injustiça, que consiste em aproveitar a indigência ou a situação crítica de um homem para emprestar-lhe dinheiro ou coisa de valor apreciável, porém destinada a cobrir as suas necessidades e sem outro uso que o consumo, obrigando-o a devolver-lho em data fixa, com mais uma quantia adicional a título de usura (LXXVIII, 1, 2, 3). 

O empréstimo com juro é o mesmo que usura? 
Não, Senhor; porque, se bem que toda usura é empréstimo com juros, nem todo empréstimo com juros é usura. 

Em que se distinguem? 
Em que, no empréstimo com juros, se considera o dinheiro como coisa produtiva, dadas as condições sociais e econômicas em que hoje se desenrola a vida. 

E que condições deve reunir o empréstimo com juros para não degenerar em usura? 
Duas: 1.ª que a taxa de juros não exceda à legal ou a usada entre pessoas de boa consciência; 2.ª que os ricos, que possuem bens supérfluos, não sejam exigentes com os pobres, se estes pedem emprestado, não para negociar, mas para atender às necessidades mais imperiosas da vida. 

XXVI 

COMPONENTES DA VIRTUDE DA JUSTIÇA: PRATICAR O BEM E EVITAR O MAL — VÍCIOS OPOSTOS: A OMISSÃO OU TRANSGRESSÃO 

Podemos achar elementos constitutivos ou partes integrantes da virtude da justiça, conforme fizemos ao falar da prudência, prescindindo de suas diversas espécies? 
Sim, Senhor; e se condensam neste aforismo: pratica o bem e evita o mal (LXXIX, 1). 

Por que não se distinguem estes dois componentes nas outras virtudes morais? 
Porque, na fortaleza e temperança, não fazer mal se identifica com a prática do bem; mas na virtude da justiça, fazer o bem consiste em estabelecer a igualdade jurídica com o nosso próximo e evitar o mal, em abster-nos de tudo o que possa destruir aquela igualdade (Ibid). 

Como se chamam os pecados contra o primeiro componente? 
Pecados de comissão ou transgressão (LXXIX, 3). 

E os cometidos contra o segundo? 
Pecados de omissão (LXXIX, 2). 

Quais são mais graves? 
Por natureza, os de comissão, ainda que há omissões mais graves do que algumas transgressões. Assim, por exemplo, falta mais grave é injuriar a alguém do que deixar de demonstrar-lhe o devido respeito; porém, maior injúria comete quem falta ao respeito ou se nega a prestar o devido acatamento a um superior de elevada hierarquia, sobre tudo se o faz em público (pecado de omissão), do que quem desdenha ou ligeiramente mortifica a um homem de categoria ínfima (pecado de comissão) (LXXXIX, 4). 

XXVII 

DAS VIRTUDES ANEXAS À JUSTIÇA: RELIGIÃO, AMIZADE, LIBERALIDADE E EQUIDADE NATURAL 

Relacionam-se com a Justiça outras virtudes que sejam como que suas partes potenciais ou virtudes anexas?
Sim, Senhor (LXXX, 1). 

Em que se distinguem da Justiça propriamente dita? 
Em que a Justiça tem por objeto dar a outrem, sem cercear-lhe coisa alguma, quanto em direito se lhe deve, e estas outras virtudes, ainda que concordem com ela em terem por objeto os direitos de outrem, diferenciam-se em que ou versam sobre direitos ou ações que propriamente e conformemente à Justiça fundada em lei não se devem, nem são exigíveis perante os tribunais; ou, se bem que em rigor se devem, nunca podem satisfazer-se ou cumprir-se inteira e cabalmente (Ibid). 

Quantas e quais são as virtudes deste modo subordinadas à Justiça?
As nove seguintes: religião, piedade, observância, gratidão, vindicta, verdade, amizade, liberdade e equidade natural (Ibid). 

Podereis dar razão desta divisão? 
Sim, Senhor; as oito primeiras referem-se à justiça particular e a nona à geral ou legal. Entre as primeiras há três, a religião, a piedade e a observância, que têm de comum com a justiça regular estritos e imperiosos deveres, porém se diferenciam dela em que são deveres em cujo cumprimento nunca se enche a medida do correspondente direito; a religião abrange todos os deveres para com Deus, a piedade para com os pais e a pátria, e a observância para com os virtuosos e os constituídos em dignidade. Também não se identificam com a justiça as cinco últimas, porque as obrigações que elas impõem não são legais, nem exigíveis perante um tribunal de direito, mas simplesmente morais, sem outros limites ou condições que os prescritos pela consciência do homem virtuoso, ainda que sempre necessários para manter a ordem, facilidade e boa harmonia nas relações sociais; e ainda porque admitem dois graus: ou são absolutamente necessárias para a convivência humana, como a verdade, a gratidão e a vindicta, ou muito convenientes, como a amizade e a fidelidade (Ibid).

referências aos artigos da obra original

('A Suma Teológica de São Tomás de Aquino em Forma de Catecismo', de R.P. Tomás Pègues, tradução de um sacerdote secular)

domingo, 17 de março de 2019

A TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR

Páginas do Evangelho - Segundo Domingo da Quaresma


Jesus acabara de fazer o anúncio de sua Paixão aos discípulos e eles experimentavam, naquele momento, o peso das tribulações e das adversidades futuras que certamente teriam de enfrentar. O Filho do Homem se revelara vítima pascal e não senhor de um exército dominador: o Reino de Deus não é deste mundo e a redenção teria que perpassar necessariamente pela subida do Calvário. Aqueles homens precisavam, mais do que nunca, da fortaleza da graça sobrenatural. E, três deles, Pedro, Tiago e João, a receberiam com abundância extrema.

Neste Segundo Domingo da Quaresma, meditamos esta extraordinária experiência sobrenatural vivida pelos três apóstolos no alto do Monte Tabor. Jesus os levou consigo para subir a montanha 'para rezar' (Lc 9,28), pois é a oração que nos coloca plenamente sob o repositório das graças divinas. A fragilidade humana tomou frente a princípio pelo sono de todos e pelas palavras desarticuladas de Pedro: 'vamos fazer três tendas' (Lc 9,33). Mas esvaiu-se de vez quando os três apóstolos foram inundados pela claridade luminosa emanada dos corpos gloriosos de Jesus, Moisés e Elias. 

Naquele lugar, e ainda que por um breve tempo, os três apóstolos puderam contemplar na terra a glória de Deus. E testemunhar que a história humana evolui pelos tempos confirmada pela Lei (presença de Moisés) e pelos Profetas (presença de Elias). A Transfiguração do Senhor é um evento extraordinário da manifestação divina de Jesus aos homens, um olhar da história humana no espelho da eternidade.

'Este é o meu Filho, o escolhido. Escutai o que Ele diz' (Lc 9, 35). Solícitos na oração, firmes na fé, tornamo-nos oratórios dignos das abundantes graças de Deus. Somos movidos, pela coragem, a superar as adversidades, as tentações, as dores humanas; pela fortaleza, impõe-se seguir em frente, avançar para águas mais profundas, subir a montanha das graças e da transfiguração de nossa imensa fragilidade humana. E também, descer outra vez a montanha, voltar ao caminho de Jerusalém e do Gólgota, repetir quantas vezes,  e por quanto tempo for, o itinerário contínuo de enfrentar e vencer o mundo, oportuna ou inoportunamente, até o Tabor definitivo de nosso encontro com Deus na eternidade.

sábado, 16 de março de 2019

CONFESSAREI O QUE SEI E O QUE NÃO SEI DE MIM

Que eu te conheça, ó conhecedor meu! Que eu também te conheça como sou conhecido! Tu, ó força de minha alma, entra dentro dela, ajusta-a a ti, para a teres e possuíres sem mancha nem ruga. Esta é a minha esperança e por isso falo. Nesta esperança, alegro-me quando sensatamente me alegro. Tudo o mais nesta vida tanto menos merece ser chorado quanto mais é chorado, e tanto mais seria de chorar quanto menos é chorado. Eis que amas a verdade, pois quem a faz, chega-se à luz. Quero fazê-la no meu coração, diante de ti, em confissão, com minha pena, diante de muitas testemunhas.

A ti, Senhor, a cujos olhos está a nu o abismo da consciência humana, que haveria de oculto em mim, mesmo que não quisesse confessá-lo a ti? Eu te esconderia a mim mesmo, e nunca a mim diante de ti. Agora, porém, quando os meus gemidos testemunham que eu me desagrado de mim mesmo, enquanto tu refulges e agradas, és amado e desejado, que eu me envergonhe de mim mesmo, rejeite-me e te escolha! Nem a ti nem a mim seja eu agradável, a não ser por ti.

Seja eu quem for, sou a ti manifesto e declarei com que proveito o fiz. Não o faço por palavras e vozes corporais, mas com palavras da alma e clamor do pensamento. A tudo o teu ouvido escuta. Quando sou mau, confessá-lo a ti nada mais é do que não o atribuir a mim. Quando sou bom, confessá-lo a ti nada mais é do que não o atribuir a mim. Porque tu, Senhor, abençoas o justo, antes, porém, o justificas quando ímpio. Na verdade minha confissão, ó meu Deus, faz-se diante de ti em silêncio e não em silêncio porque cala-se o ruído, clama o afeto.

Tu me julgas, Senhor, porque nenhum dos homens conhece o que há no homem a não ser o espírito do homem que nele está. Há, contudo, no homem algo que nem o próprio espírito do homem, que nele está, conhece. Tu, porém, Senhor, conheces tudo dele, pois tu o fizeste. Eu, na verdade, embora diante de ti me despreze e me considere pó e cinza, conheço algo de ti que ignoro de mim.

É certo que agora vemos como em espelho e obscuramente, ainda não face a face. Por isto enquanto eu peregrino longe de ti, estou mais presente a mim do que a ti e, no entanto, sei que és totalmente impenetrável, ao passo que ignoro a que tentações posso ou não resistir. Mas aí está a esperança, porque és fiel e não permites sermos tentados acima de nossas forças e dás, com a tentação, a força para suportá-la.

Confessarei aquilo que de mim conheço, confessarei o que desconheço. Porque o que sei de mim, por tua luz o sei; e o que de mim não sei, continuarei a ignorá-lo até que minhas trevas se mudem em meio-dia diante de tua face.

(Excertos da obra 'Dos Livros das Confissões', de Santo Agostinho)

IMAGINARIUM

sexta-feira, 15 de março de 2019

SOBRE O PERDÃO DOS PECADOS E OS MÉRITOS FUTUROS

Se o Apóstolo diz que a herança vem da fé, para que seja gratuita e para que a promessa fique garantida, muito me admiro que os homens prefiram confiar na sua fraqueza a confiar na firmeza da promessa de Deus. Mas alguém dirá: 'Não estou certo sobre a vontade de Deus ao meu respeito'. O que dizer? Não estás certo nem sequer de tua vontade sobre ti mesmo e não temes o que está escrito: 'Aquele que julga estar em pé, tome cuidado para não cair' (lCr 10,12). Se ambas as vontades são incertas, por que o homem não apóia sua fé, esperança e caridade no mais firme e não no mais fraco?

Replicarão: 'Mas quando se diz: 'Se creres, serás salvo' (Rm 10,9), uma das duas coisas é exigência, a outra é oferecida. O que se exige, depende do homem, o que é oferecido, está no poder de Deus'. Por que não dizer que ambas estão no poder de Deus, o que se exige e o que se oferece? Pois pede-se que conceda o que manda. Os que têm fé rogam para que lhes aumente a fé, rogam pelos que não creem, para que lhes seja concedida a fé. Portanto, tanto em seu crescimento como em seu princípio, a fé é dom de Deus. 

Está escrito: Se creres, serás salvo, do mesmo modo que se diz: Se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis. Nesta passagem, também uma das duas coisas é exigida e a outra é oferecida. Diz o texto: 'Se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis'. Portanto, exige-se a mortificação das obras da carne e nos é oferecida a vida. Acaso parece bem dizer que mortificar as obras da carne não seja dom de Deus e que não confessemos ser dom de Deus porque sabemos ser uma exigência em troca da recompensa oferecida da vida eterna, se as fizermos? Não permita Deus que esta opinião agrade aos que participam da verdadeira doutrina da graça e a defendem. E este um erro condenável dos pelagianos, os quais o Apóstolo faz calar, quando diz: 'Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus' (Rm 8,13-14), o que evita acreditar que a mortificação de nossa carne não seja um dom de Deus, mas capacidade de nosso espírito. 

Ao mesmo Espírito de Deus se referia ao dizer: 'Mas isso tudo é o único e mesmo Espírito que o realiza, distribuindo a cada um os seus dons, conforme lhe apraz' (lCr 12,11). No conteúdo desse 'isso tudo', mencionou também a fé, como sabeis. Portanto, assim como, embora seja de Deus, o mortificar as obras da carne é exigência para a consecução do prêmio da vida eterna prometida, assim também a fé, embora seja condição indispensável para alcançar a recompensa da salvação prometida, quando se diz: 'Se creres, serás salvo'. Por conseguinte, ambas as coisas são preceitos e dons de Deus, para entendermos que as fazemos e Deus faz com que as façamos, como diz claramente pelo profeta Ezequiel. Pois nada mais claro do que a sentença: 'E farei com que as (minhas leis) pratiqueis' (Ez 36,27). Prestai atenção a esta passagem da Escritura e percebereis que Deus promete fazer o que ele manda cumprir. E faz certamente aí menção dos méritos e não dos deméritos daqueles a quem revela retribuir bens por males, pois ele faz com que pratiquem depois boas obras, fazendo com que cumpram os seus mandamentos.

Toda a argumentação, da qual nos servimos para defender que a graça de Deus por Jesus Cristo nosso Senhor é de fato graça, ou seja, não nos é concedida em vista de nossos merecimentos, embora se confirme claramente pelos testemunhos das divinas Escrituras, contudo apresenta dificuldades para aqueles situados na maioridade e em uso da razão. Estes, se não atribuem algo a si mesmos que ofereçam a Deus primeiramente para receber a retribuição, julgam ser limitados em todo o exercício da piedade. Mas quando se trata de crianças e do Mediador de Deus e dos homens, o homem Cristo Jesus (lTm 2,5), é improcedente toda afirmação sobre méritos prévios à graça de Deus. Pois as crianças não se distinguem umas das outras no tocante a méritos prévios para pertencerem ao Libertador dos homens, nem este se tornou libertador dos homens por algum merecimento humano, sendo ele também ser humano.

Portanto, quem terá ouvidos para tolerar a afirmação segundo a qual as crianças deixam esta vida já batizadas na idade infantil em virtude de seus méritos futuros, e as crianças morrem na referida idade sem serem batizadas devido a seus deméritos futuros, quando não há lugar à recompensa ou à condenação por parte de Deus não havendo ainda uma vida de virtudes ou de pecados?  O Apóstolo fixou um limite, o qual — expressando-me mais delicadamente — a temerária conjetura humana não pode ultrapassar. 

Ele diz: 'Todos nós teremos de comparecer manifestamente perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba a retribuição do que tiver feito durante a sua vida no corpo, seja para o bem, seja para o mal' (2Cr 5,10). Ele diz: 'ter feito' e não acrescentou: 'ou haveriam de fazer'. Mas ignoro como tais homens puderam pensar em méritos futuros por parte de crianças, méritos que não hão de existir, e que mereçam castigo ou recompensa. E por que está escrito que o homem será julgado por aquilo que praticar pelo corpo, se muitas vezes as ações são feitas só pela alma e não pelo corpo ou qualquer de seus membros, e frequentemente são ações de tamanha importância que apenas em pensamento são dignas de um castigo muito justo, como é, para não mencionar outras, o que o insensato diz em seu coração: 'Não há Deus'? (Sl 13,1). 

O que significa então do que tiver feito durante a sua vida no corpo, senão 'do que tiver feito durante o tempo em que viveu no corpo', de modo que 'no corpo' queria dizer o tempo do corpo? Depois da morte do corpo, ninguém estará no corpo, a não ser pela última ressurreição, não mais para alcançar merecimentos, mas para receber a recompensa pelos merecimentos e penas expiatórias pelos deméritos. No intervalo entre a deposição e a recepção do corpo, as almas ou são atormentadas ou descansam, de acordo com o que fizeram durante a morada no corpo. 

A este tempo da permanência no corpo diz respeito também o que os pelagianos negam, mas a Igreja de Cristo confessa, ou seja, o pecado original. Remido pela graça de Deus este pecado ou não remido por um juízo de Deus, quando morrem as crianças, ou passam dos males para os bens pelo mérito da regeneração ou passam dos males desta vida para os males da outra pelo merecimento de origem. É o que ensina a fé católica e o que alguns hereges aceitam sem nenhuma oposição. Mas que alguém seja julgado não conforme os merecimentos adquiridos durante a vida no corpo, mas de acordo com os merecimentos que teria, se tivesse uma vida longa, tomado de admiração e espanto, não consigo descobrir onde se apóia esta opinião de pessoas que, como vossas cartas revelam, são dotadas de inteligência não comum. 

Não me atreveria a acreditar em tal opinião, se não considerasse ser maior ousadia não acreditar em vossa informação. Mas confio que o Senhor os assistirá para que, admoestados, percebam logo que os chamados futuros pecados, se pelo juízo de Deus podem ser punidos com relação aos não batizados, também podem ser perdoados pela graça de Deus com respeito aos batizados. Pois todo aquele que diz que pelo juízo de Deus somente podem ser punidos os pecados futuros, mas não podem ser perdoados pela misericórdia de Deus, devem considerar a grave ofensa que faz a Deus e à sua graça. Isto supõe que Deus pode ter presciência de um pecado futuro, mas não pode perdoá-lo. Se isto é absurdo, maior ainda será dizer que Deus deveria socorrer pelo batismo, que apaga os pecados, os pecadores futuros, que morrem na infância, se tivessem uma vida longa.

É possível que eles digam que os pecados são perdoados aos que fazem penitência. Portanto, os que morrem em idade infantil sem o batismo não são perdoados porque Deus prevê que, se vivessem, não fariam penitência, ao passo que são perdoados os que deixam esta vida já batizados, porque Deus sabe, em sua presciência, que fariam penitência se vivessem. Que eles considerem e percebam que, se fosse assim, Deus castigaria nos não batizados não apenas o pecado original, mas também seus pecados pessoais, se vivessem, e, com relação aos batizados, ficaria remido não somente o pecado original, mas perdoados também os pecados pessoais futuros, se vivessem. Isso porque não poderiam pecar a não ser quando atingissem a idade da compreensão, mas haveria previsão de que uns fariam penitência e outros, não, e, portanto, de que uns deixariam esta vida batizados e outros sem o batismo. 

Se os pelagianos chegassem a dizer isto, como negam o pecado original, não se empenhariam em buscar para as crianças não sei que lugar de felicidade fora do Reino de Deus, principalmente porque devem ter a convicção de que não podem obter a vida eterna pelo fato de não terem comido a carne e bebido o sangue de Cristo (Jo 6,54). Além disso, carece de validez o batismo conferido aos que não têm nenhum pecado. Diriam talvez que não há pecado original, mas que são batizadas ou não batizadas as crianças que morrem na infância de acordo com seus merecimentos futuros, se vivessem, e, de acordo com os mesmos merecimentos, recebem ou não o corpo e o sangue de Cristo, sem o que não podem obter a vida eterna. 

Além disso, diriam que são batizadas com real remissão dos pecados, embora não tenham pecado algum por herança de Adão, pois são-lhes perdoados os pecados dos quais Deus prevê que fariam penitência. Assim, facilmente levariam avante e provariam sua tese pela qual negam o pecado original e afirmam a concessão da graça de Deus em virtude de nossos merecimentos. Mas como os méritos humanos futuros, que nunca existirão, sem dúvida alguma são nulos, e isto é facílimo perceber, e, por isso, nem mesmo os pelagianos chegaram a dizê-lo, muito menos deviam tê-lo dito esses irmãos nossos. Não é fácil descrever o desagrado que me causa o ver que os pelagianos consideram falsidade e absurdo uma doutrina, enquanto não o consideram esses irmãos, que, pela autoridade católica, condenam conosco o erro dos hereges.

(Excertos da Obra 'Sobre a Justificação dos Santos', de Santo Agostinho)

quinta-feira, 14 de março de 2019

50 JACULATÓRIAS DA ALMA PENITENTE (II)


11. Não entreis, Senhor, em juízo com vosso servo, porque nenhum vivente se justificará diante de Vós. De mil encargos que me fizerdes, não poderei responder a um só. Todo me entrego nos braços de Vossa misericórdia.

12. Que maldade há no mundo tão execrável, que eu não esteja pronto para a cometer? Senhor, amarrai com as cadeias de vosso santo temor as fúrias de minha liberdade porque sou capaz de tornar a Vos crucificar.

13. Isto me pasma, Senhor: como não respeitei a Vossa presença! Como não temi Vossa indignação! Como não me compadeci de Vossas dores! Como pisei o Vosso Sangue! Como não correspondi a tanto amor! Não pode haver maior cegueira.

14. 'Pecaste, alma minha: diz-me, agora, que fruto tiraste do teu pecado? Amaste as criaturas mais que ao Criador: que te ficou rendendo esta desordem? Perda da amizade de Deus e do direito à sua glória, remorso de consciência, costume de tornar a pecar, escravidão ao demônio, reato da culpa, dívida da pena eterna'. Ó quem dera rios de lágrimas nos meus olhos para lamentar tão grave desgraça!

15. Vinde, vinde, Senhor, ao meu coração; formai um azorrague das cordas de Vosso amor e temor e lançai daqui todos os maus afetos que profanam a Vossa casa.

16. Rogo-vos, meu Jesus, por aquele primeiro leite que bebeste nos peitos virginais de Vossa Mãe Santíssima e por aquelas sagradas primícias de Vosso Sangue, que derramastes na Circuncisão, que não permitais que jamais caia de Vossa graça, nem esteja um ponto fora dela.

17. Pequei mais que o número das areias do mar; porém, Senhor, as vossas misericórdias não têm número. Em vós ponho toda a minha esperança: não padecerei confusão eterna.

18. Eu a pecar; Vós, Senhor, a me perdoar; eu a Vos fazer injúrias; Vós a fazer-me benefícios. O certo é, Senhor, que cada um obra como quem é. Bendita seja Vossa paciência, que tanto me esperou.

19. Muito agravado estais de mim e vos sobra razão. Ó quem, para aplacar-Vos, tivera as lágrimas de uma Madalena, as penitências de uma egípcia, os gemidos de um Agostinho, a compunção de um São Pedro!

20. Ah, pecador atrevido e infame! Tu foste o que açoitaste a Jesus, tu o coroaste de espinhos; o que lhe lançaste salivas no rosto, o que o pregaste na Cruz... Como não te confundes?

[Excertos da obra 'Luz e Calor', do Pe. Manuel Bernardes (1644 - 1710)]

quarta-feira, 13 de março de 2019

SOBRE OS JUÍZOS DE DEUS

Amemos, pois, Teótimo, e adoremos em espírito de humildade essa profundeza dos juízos de Deus, a qual, como diz Santo Agostinho (Ep. 105), o santo Apóstolo não descobre, mas admira, quando exclama: 'Ó profundeza dos juízos de Deus!'. 'Quem poderia contar a areia do mar, as gotas da chuva, e medir a largura do abismo?' diz aquele excelente espírito que foi São Gregório de Nazianzo. E quem poderá sondar a profundeza da sabedoria divina, pela qual ela criou todas as coisas, e as modera como quer e entende? Porque, na verdade, basta que, a exemplo do Apóstolo, sem nos determos na dificuldade e obscuridade dela, a admiremos. 

Ó profundeza das riquezas e da sabedoria e da ciência de Deus! Ó como seus juízos são imperscrutáveis, e seus caminhos inacessíveis! quem conheceu o sentimento do Senhor, e quem foi seu conselheiro? (Rm 11, 33-34). Teótimo, as razões da vontade divina não podem ser penetradas pela nossa mente, até que vejamos a face dAquele que atinge de ponta a ponta fortemente e dispõe todas as coisas suavemente, fazendo tudo o que faz com número, peso e medida (Sb 8, 1; 11.21) e ao qual o salmista diz: 'Senhor, tudo fizestes com sabedoria' (Sl 103, 24).

Quantas vezes nos sucede ignorarmos como e por que as próprias obras dos homens se fazem, 'e disso', diz o mesmo santo bispo de Nazianzo, 'o artífice não é ignorante, ainda que nós ignoremos o seu artifício! Assim, por certo, também as coisas deste mundo não são temerária e imprudentemente feitas, ainda que lhes não saibamos as razões'. Se entrarmos na loja de um relojoeiro, acharemos às vezes um relógio que não será maior do que uma laranja, no qual haverá todavia cem ou duzentas peças, das quais umas servirão ao relógio, e as outras ao bater das horas e do despertador; veremos nele rodinhas, das quais umas vão para a direita e as outras para a esquerda; umas rodam por cima e outras por baixo; e o balancim, que, a golpes medidos, vai balançando seu movimento para um lado e para outro; e nós admiramos como a arte soube juntar umas às outras tal quantidade de tão pequenas peças, com uma correspondência tão justa, não sabendo nem para que é que cada peça serve, nem para que efeito é assim feita, se o dono no-lo não disser; e somente em geral sabemos que todas servem para o relógio ou para o toque. 

...

Teótimo, assim vemos nós este universo, e sobretudo a natureza humana, como um relógio, composto de tamanha variedade de ações e de movimentos, que não nos poderíamos furtar à admiração. E bem sabemos em geral que essas peças, diversificadas em tantas sortes, servem todas, ou para fazerem aparecer, como num relógio, a santíssima justiça de Deus, ou para manifestarem a triunfante misericórdia da sua bondade, como por um toque de louvor. Mas conhecer em particular o uso de cada peça, ou como ela é ordenada ao fim geral, ou por que assim é feita não o podemos entender, a não ser que o soberano Obreiro no-lo ensine. Ora, se Ele não nos manifesta Sua arte, é a fim de que O admiremos com mais reverência até que, estando no céu, Ele nos extasie na suavidade da Sua sabedoria, quando na abundância do Seu amor nos descobrir as razões, meios e motivos de tudo o que se houver passado neste mundo em proveito da nossa salvação eterna.

...

Exclamemos, pois, Teótimo, em todas as ocorrências, mas exclamemos com coração todo amoroso para com a Providência sapientíssima, poderosíssima e dulcíssima de nosso Pai eterno: 'Ó profundeza das riquezas, da sabedoria e da ciência de Deus!' (Rm 11, 33). Ó Senhor Jesus, como são excessivas as riquezas da bondade divina! O Seu amor para conosco é um abismo incompreensível: foi por isso que Ele nos preparou uma rica suficiência, ou antes uma rica afluência de meios próprios para nos salvar; e, para no-los aplicar suavemente, Ele usa de uma sabedoria soberana, tendo pela Sua infinita ciência previsto e conhecido tudo o que era requerido para esse efeito. O que podemos temer? Antes, que não devemos esperar, sendo como somos filhos de um Pai tão rico em bondade para nos amar e nos querer salvar, tão sábio para preparar os meios convenientes a isso, e tão prudente para os aplicar, tão bom para os querer, tão clarividente para os ordenar, tão prudente para os executar?

Nunca permitamos aos nossos espíritos esvoaçarem por curiosidade em torno dos juízos divinos; porque, quais pequenas borboletas, nós queimaremos aí nossas asas, e perecemos nesse fogo sagrado. Esses juízos são incompreensíveis (Rm 11, 33) ou, como diz São Gregório Nazianzeno, são imperscrutáveis; quer dizer, não lhes podemos reconhecer e penetrar os motivos. Os caminhos e meios pelos quais Ele os executa e conduz ao fim não podem ser discernidos e reconhecidos e, por melhor sentimento que tenhamos, nós falhamos a cada passo e lhe perdemos o rastro. 

Porque quem pode penetrar o sentido, a inteligência e a intenção de Deus? (Rm 11, 34). Quem foi seu conselheiro para saber os seus projetos e motivos ou quem jamais o preveniu (Rm 11, 35) por algum serviço? Pelo contrário, não é Ele quem nos previne com bênçãos de Sua graça, para nos coroar na felicidade da Sua glória? Ah! Teótimo, todas as coisas são dele (Rm 11, 36), que lhes é o criador; todas as coisas são por Ele, que lhes é o governador; todas as coisas são nEle, que lhes é o protetor. A Ele seja dada honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém. Vamos em paz, Teótimo, pelo caminho do santíssimo amor; porque quem na morte tiver o divino amor, após a morte gozará eternamente do amor.

(Excertos da obra 'Tratado do Amor de Deus', São Francisco de Sales)

terça-feira, 12 de março de 2019

PALAVRAS DE SALVAÇÃO



Ó Santo Espírito da Verdade, nós te suplicamos que ilumines as mentes dos incrédulos que estão em nosso meio, para que seus corações se inclinem para a Tua Palavra e para que creiam no ensinamento da Tua Igreja; dai-lhes coragem para aceitar e professar abertamente a fé; que eles possam entrar em comunhão contigo e com o Pai, através de Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.

(Papa Leão XIII)

segunda-feira, 11 de março de 2019

COMPÊNDIO DE SÃO JOSÉ (VI)


26. Qual o sentido das palavras de Mt 1,18-19? 

Alguns teólogos chegaram a afirmar, com base nestes dois versículos, que Maria tinha conservado silêncio absoluto sobre a sua maternidade divina comunicada pelo Anjo, e assim José não sabia de nada. Antes de tudo, devemos salientar que é ilógico que Maria não tenha comunicado nada a José sobre sua maternidade, mesmo porque uma postura assim não estaria de acordo com a psicologia, visto que sua gravidez provocara sem dúvida consequências que se calaram profundamente em sua existência e em seu ser feminino. Por isso afirmamos que José tomou conhecimento de tudo o que se passava com Maria justamente porque ele era a pessoa de maior confiança dela. 

27. Por que então Mateus descreve que Maria ficou grávida pela ação do Espírito Santo antes de morar com José? 

Analisando superficialmente o versículo 18 do primeiro capítulo deste evangelista, ele deixa entender que Jesus nascerá necessariamente logo depois que foram morar juntos; porém a intenção do evangelista é ressaltar o fato da concepção virginal, de excluir de modo absoluto qualquer participação masculina na concepção de Jesus. Para Mateus o essencial é deixar claro que existia entre ambos um vínculo matrimonial, 'José era seu marido' e a concepção virginal 'ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo'. Basta lembrar que Mateus considera sempre Maria como esposa (1,20-24) e José como esposo (1,16-19). 

28. Como explicamos a intenção de José, 'homem justo', em querer deixar Maria? 

A designação de 'homem justo' aplicada a José indica que sua justiça não se deve porque é um observante da lei, pois de fato a lei mosaica autorizava ao marido, em caso de adultério de sua esposa, dar-lhe o divórcio, o que não é o caso de Maria. Ele se mostra justo não por querer aplicar justiça a uma inocente (no caso Maria, que não tinha cometido adultério), mas ele é justo porque, na sua humildade, sente-se não estar à altura de ser considerado o pai do Menino Deus. Ao conhecer a grande missão que Deus confiara à sua esposa, como Mãe do Messias, ele sentiu-se menor diante daquele misterioso desígnio divino, inexplicável para ele e, por isso, porque era homem justo, decidiu abandonar Maria. Porém, a sua decisão de abandoná-la não foi porque suspeitou algo errado nela e então para não desonrá-la, porque era bom, encontrou a solução de deixá-la. Não foi também porque, diante do mistério da maternidade divina, ele não conseguia compreender e assim, incerto, achou como melhor saída abandoná-la. Mas foi porque, em sua humildade, sentiu-se indigno de compartilhar sua vida ao lado de Maria, achando ser um obstáculo para a ação de Deus sobre ela. 

29. Então qual é a explicação para esse seu pensamento 'deixar Maria'? 

A explicação correta, defendida inclusive por grandes teólogos e santos, é que ele, como todos os que esperavam o Messias, reagiu como os justos da Bíblia diante de Deus que intervém na sua história: como Moisés que tira as sandálias, como Isaías espantado pela visão de Deus, como Isabel que se maravilha e pergunta como é possível a mãe do Salvador pode vir até ela, ou ainda como Pedro, que diante de Jesus, diz: 'Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador'.

30. De Maria Virgem, no texto de Mateus (Mt 1,18-25), temos uma comprovação incontestável, mas como afirmar a virgindade de José? 

Antes de tudo, com Santo Tomás encontramos duas razões para a sua virgindade: 'porque ele não teve nenhuma outra mulher e porque a infidelidade não pode ser atribuída a este santo personagem'. Da mesma forma, sendo a virgindade um dom de Deus (I Cor 7,32), Deus quis conceder-lhe também este dom em vista de sua grande missão. O fato de Deus ter escolhido José como esposo de Maria Virgem, faz com que a presença e a convivência dele com Maria fosse o resultado de uma preciosa intervenção divina. José viveu a sua virgindade ao lado de Maria, compreendendo a missão de sua esposa e, por um especial desígnio de Deus, compartilhou totalmente com ela essa tarefa, vivendo um amor virginal e ao mesmo tempo conjugal.

('100 Questões sobre a Teologia de São José', do Pe. José Antonio Bertolin, adaptado)

domingo, 10 de março de 2019

O JUGO DAS TENTAÇÕES

Páginas do Evangelho - Primeiro Domingo da Quaresma


Se há algo que liga de forma admirável todo o universo da criação é o zelo imposto à fidelidade e à obediência aos desígnios de Deus. O que significa dizer que criatura alguma não perpassou por tais provas de fidelidade sem o jugo das tentações. A primeira prova foi imposta aos anjos e uma miríade deles se condenou. Depois, Adão e Eva sucumbiram à tentação e o pecado deles marcou indelevelmente a história humana. Sob o jugo cotidiano de tentações diversas, todos nós percorremos nosso vale de lágrimas.

Mas Jesus, embora não possuindo a mais remota imperfeição, também foi tentado. E não, uma, duas ou três vezes como nos revelam as Sagradas Escrituras, mas muitas outras vezes naqueles 'quarenta dias no deserto' (Lc 4, 2). Aquele que disse de si 'Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida' (Jo 14,6) foi sempre exemplo. Sabendo de nossas imperfeições e da ação diabólica sobre a natureza humana, Jesus quis mostrar as provas e os riscos de nossa caminhada terrena: seremos tentados, mas temos todos os meios disponíveis para superar a malícia do tentador. Assim, Jesus submeteu-se às tentações do demônio no deserto para 'compadecer-Se de nossas fraquezas' e, em tudo, menos no pecado, assumir incondicionalmente a dimensão do homem.

E este Primeiro Domingo da Quaresma nos lembra as três tentações sofridas por Jesus e descritas nos Evangelhos. Depois de quarenta dias, em jejum e oração, Jesus teve fome. Jesus teve fome, como qualquer ser humano privado de alimento por longo tempo. A manifestação maligna ousou, então, tentar Jesus: diante a suspeição de ser Jesus o Filho de Deus pairava a incontestável condição humana de um homem debilitado pela fome. E, por isso, a primeira tentação tem essa via, em que o vômito maligno titubeia por ânsias de dubiedade: 'Se és Filho de Deus, diz a esta pedra que se converta em pão' (Lc 4,3). Ao que Jesus, citando as Escrituras, responde: 'Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra de Deus' (Lc 4,4), porque Jesus poderia alcançar o seu sustento por vias naturais mas, principalmente, para mostrar a ascensão da vida espiritual sobre a dimensão puramente física. 

A segunda tentação foi a tentativa de idolatria, diante da soberba do poder diabólico, exposta pelo brilho feérico e a falsa concessão de 'todos os reinos do mundo'. Quantos homens não se perdem nessa vereda diante de migalhas de luxo e esplendor mesquinhos? Jesus vai responder ao espírito maligno: 'Adorarás o Senhor teu Deus, e só a Ele servirás' (Lc 4,8). Satanás sentiria reverberar em seus ouvidos a sentença de Miguel: 'Quem, como Deus?'. E chegaria a ousadia satânica a uma terceira tentação, misto de vanglória e desmedido orgulho, ainda mais abominável porque supostamente amparada nos próprios textos das Escrituras: 'Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo! Porque a Escritura diz... Eles te levarão nas mãos para que não tropeces em alguma pedra' (Lc 4, 9.11). Jesus, uma vez mais, se submete ao desvario diabólico, para desmascarar suas ciladas e malícias e reduzi-lo como macaqueador de Deus: 'Não tentarás o senhor teu Deus' (Lc 4,12). A lição do Mestre sobre os benefícios das tentações e das provas humanas torna-se cristalina: não devemos temer o demônio, mas sim, o pecado, pois é o pecado que nos deixa à mercê da ação maligna de todos os demônios.

sábado, 9 de março de 2019

50 JACULATÓRIAS DA ALMA PENITENTE (I)


1. Senhor Deus: eu sou a miséria, a ingratidão, a indignidade; sou um pecador vilíssimo, a quem não devia cobrir o Céu nem sustentar a Terra. Tende misericórdia de mim e salvai-me por amor de vossa bondade.

2. Pai, pequei contra o Céu e em vossa presença; não sou digno de me chamar filho vosso; fazei-me como qualquer de vossos mercenários.

3. Lavai-me, meu Senhor Jesus Cristo, nas correntes de Vosso precioso Sangue e limpai a minha alma das manchas de todo o pecado.

4. Desgarrei-me como ovelha perdida. Que seria de mim, ó bom Pastor, se não me buscásseis e tomásseis sobre os vossos ombros?

5. Eis aqui está à vossa porta o pobre; eis aqui o leproso e cego, e tolhido, e coberto de inumeráveis chagas. Não necessitam de médico os sãos, mas os enfermos; vinde e curai-me com a vossa palavra, para glória de vosso nome.

6. Que seria eu, Senhor, no meio dos meus vícios, e fora de vossa graça, senão um cão morto, coberto das moscas dos demônios, que em minha podridão se cevavam. Vistes minha miséria e vos apiedastes. Destes-me vida e misericórdia. Ó bendito seja tal amor!

7. Inclinai, Senhor, para mim os vossos amorosos olhos e apagai os meus pecados. Concedei-me a graça da renovação de meu espírito com uma vida totalmente conforme à vossa lei.

8. Deus meu; proponho firmemente, com o auxílio de vossa graça, não admitir jamais ofensa vossa. Ó não mais pecar, não mais desprezar vossos preceitos; guardá-los, sim, mais que as meninas dos meus olhos.

9. Senhor: que eu alcance de vós esta mercê; que, no ponto em que certamente hei de cair de vossa graça, antes caia morto de repente; porque viver com injúria vossa pior morte é que a mesma morte e maior desgraça que o inferno.

10. Jesus amorosíssimo, Jesus minha redenção e remédio: de tantas lágrimas que andando neste mundo chorastes, dai-me uma para que amoleça este coração, e o derreta pelos olhos. Dai-me uma lágrima vossa para que eu a apresente a vosso Eterno Pai em remissão dos meus pecados. 

[Excertos da obra 'Luz e Calor', do Pe. Manuel Bernardes (1644 - 1710)]

sexta-feira, 8 de março de 2019

INDULGÊNCIA PLENÁRIA DAS SEXTAS-FEIRAS DA QUARESMA


Indulgência Plenária: rezar com piedosa devoção a oração En ego, o bone et dulcissime Iesu (Eis-me aqui, ó bom e dulcíssimo Jesus!) nas sextas-feiras da Quaresma, diante de uma imagem de Jesus Crucificado e depois da comunhão.

En ego, o bone et dulcissime Iesu, ante conspectum tuum genibus me provolvo, ac maximo animi ardore te oro atque obtestor, ut meum in cor vividos fidei, spei et caritatis sensus, atque veram peccatorum meorum paenitentiam, eaque emendandi firmissimam voluntatem velis imprimere; dum magno animi affectu et dolore tua quinque vulnera mecum ipse considero ac mente contemplor, illud prae oculis habens, quod iam in ore ponebat tuo1 David propheta de te, o bone Iesu: Foderunt manus meas et pedes meos: dinumeraverunt omnia ossa mea. Amen.

Eis-me aqui, ó bom e dulcíssimo Jesus! De joelhos me prostro em vossa presença e vos suplico com todo o fervor de minha alma que vos digneis gravar no meu coração os mais vivos sentimentos de fé, esperança e caridade, verdadeiro arrependimento de meus pecados e firme propósito ele emenda, enquanto vou considerando com vivo afeto e dor as vossas cinco chagas, tendo diante dos olhos aquilo que o profeta Davi já nos fazia dizer, Ó bom Jesus: ‘Transpassaram minhas mãos e meus pés e contaram todos os meus ossos’.

(SI 21,17; cf. Missal Romano, ação de graças depois da missa)

É sempre importante lembrar que a indulgência não é o perdão dos pecados, mas a reparação das penas e danos devidos aos pecados. Para se obter a indulgência plenária é preciso:

1. ter uma disposição interior de afastamento total de todo o pecado, mesmo do pecado venial;
2. ter feito confissão recente;
3. receber a Sagrada Comunhão;
4. rezar em intenção do Santo Padre e da Santa Igreja (orações livres, mas que a Santa Sé recomenda fazer na forma de um 'Pai Nosso' e de uma 'Ave Maria').

quinta-feira, 7 de março de 2019

LADAINHA DA QUARESMA

Oração devocional, de uso restrito para meditação particular, para ser rezada durante a Quaresma, contendo uma série de invocações relacionadas a passagens bíblicas penitenciais do Antigo e do Novo Testamento, particularmente aquelas que fazem referência a súplicas, a obras de mortificação e ao jejum. A postagem inclui a oração em latim precedida pela sua tradução para o português.


Ladainha da Quaresma

Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Pai Santo, ouvi-nos.
Pai de Justiça, atendei-nos.
Deus Pai do céu, tende piedade de nós.
Deus Filho, Redentor do mundo, tende piedade de nós.
Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Deus, (antes de cada invocação):
que não quereis a morte do pecador, mas que se converta e viva, tende piedade de nós.
Que destes a Moisés, depois dele ter jejuado por quarenta dias, as tábuas da Lei no Monte Sinai, tende piedade de nós.
Que, pelo jejum e orações de Moisés, perdoastes os pecados do seu povo, tende piedade de nós.
Que, pelo jejum de Daniel, o preservastes incólume na cova dos leões, tende piedade de nós.
Que poupastes os ninivitas quando jejuaram e clamaram por Vós, tende piedade de nós.
Que livrastes os ninivitas da destruição da sua cidade, quando se arrependeram e fizeram penitência vestidos de saco, cilício e cinza, tende piedade de nós.
Que perdoastes o pecado do rei Davi, quando este confessou o seu pecado e se cingiu com o cilício e se arrependeu, tende piedade de nós.
Que ouvistes e consolastes Judite, quando ela se prostrou diante de Vós, vestindo o cilício e cobrindo a cabeça com cinzas, tende piedade de nós.
Que salvastes a Jonas quando clamou por Vós no ventre da baleia, tende piedade de nós.
Que libertastes Ezequiel do exército dos assírios, quando ele e seu povo jejuaram e se vestiram de sacos e cinzas, tende piedade de nós.
Que concedestes a Ester, enquanto jejuava, que achasse graça aos olhos do rei, tende piedade de nós.
Que libertastes Mardoqueu da forca, quando este clamou pelo Vosso auxílio, vestido de saco e cinza, tende piedade de nós. 
Que intercedestes pelos macabeus enquanto jejuavam, vestidos de saco e cinza, e clamaram por Vós, tende piedade de nós.
Que manifestastes a Ana no templo enquanto jejuava e orava constantemente a Vós, tende piedade de nós. 
Que revelastes muitos mistérios aos Profetas enquanto jejuavam e se afligiam com muitas penitências, tende piedade de nós.
Que ouvistes as preces dos sacerdotes de Israel enquanto se penitenciavam com cilício e oravam e ofereciam sacrifícios pelo seu povo, tende piedade de nós.
Que jejuastes durante quarenta dias e quarenta noites no deserto, tende piedade de nós.
Que instituístes o tempo quaresmal por meio dos Vossos apóstolos, tende piedade de nós.
Que iluminastes Paulo enquanto orava e jejuava por três dias, tende piedade de nós.
Que perdoais os pecados dos homens por causa do seu arrependimento, tende piedade de nós.
Que nos escolhestes e nos temperastes na fornalha da humildade, tende piedade de nós.
Que julgais os Vossos escolhidos como ouro no cadinho, tende piedade de nós.
Que concedeis um tempo e um lugar para o arrependimento dos pecadores, tende piedade de nós.
Que castigais a todo filho de Vossa predileção, tende piedade de nós.
Que desejais que ninguém se perca, mas que volvam a Vós arrependidos, tende piedade de nós.
Que por Vossa graça chamastes Mateus, sentado no posto de coleta de impostos, tende piedade de nós.
Que justificastes o publicano que golpeava o peito em arrependimento, tende piedade de nós.
Que recebestes de forma paternal o filho pródigo que voltou a Vós, tende piedade de nós.
Que fizestes brotar a fonte da água viva para a mulher samaritana, tende piedade de nós.
Que recebia coletores de impostos e pecadores e comia com eles, tende piedade de nós.
Que amastes muito Maria Madalena e a perdoastes de muitos pecados, tende piedade de nós.
Que olhastes com ternura para Pedro, que três vezes Vos negastes, tende piedade de nós.
Que prometestes o Paraíso ao ladrão penitente, tende piedade de nós.
Que nos livrais de nossas iniquidades e pecados, tende piedade de nós.
Que nos clamais por penitência, pela imposição do cilício e pela cabeça coberta com cinzas, para não nos alcançar a Vossa ira santa, tende piedade de nós.
Que tendes misericórdia de todos os que se voltam para Vós em jejum, dor e arrependimento, tende piedade de nós.
Que esqueceis por completo todos os nossos pecados depois que nos arrependemos, tende piedade de nós.

Deus misericordioso e pronto a nos perdoar, tende piedade de nós.
Sede propício, perdoai-nos Senhor.
Sede propício, atendei-nos Senhor.

De todo mal, livrai-nos, Senhor.
De todo pecado, livrai-nos, Senhor.
De todo perigo do corpo e da mente, livrai-nos, Senhor.
De toda malícia e ira, livrai-nos, Senhor.
Dos pecados da carne e dos vícios, livrai-nos, Senhor.
De toda impureza e luxúria, livrai-nos, Senhor.
De todas as disputas e contendas, livrai-nos, Senhor.
De toda negligência e preguiça, livrai-nos, Senhor.
Da impenitência e dureza de coração, livrai-nos, Senhor.
De uma morte súbita e inesperada, livrai-nos, Senhor.
Da condenação eterna, livrai-nos, Senhor.

Pelo Vosso batismo e jejum, livrai-nos, Senhor.
Pelas Vossas três tentações no deserto, livrai-nos, Senhor.
Pela Vossa sede e fome, livrai-nos, Senhor.
Pelos Vossos trabalhos e Vossas dores, livrai-nos, Senhor.
Pela Vossa sentença de morte, livrai-nos, Senhor.
Pelo Vosso sacrifício cruento na Cruz, livrai-nos, Senhor.
No dia do Juízo, livrai-nos, Senhor.

Pecadores que somos, Vos rogamos, ouvi-nos.
Para que sejais misericordioso conosco, Vos rogamos, ouvi-nos.
Para que nos digneis a buscar o verdadeiro arrependimento, Vos rogamos, ouvi-nos.
Para que possamos obter frutos dignos de arrependimento, Vos rogamos, ouvi-nos.
Para que nos digneis lamentar os nossos pecados e buscar a Vossa graça, Vos rogamos, ouvi-nos.
Para que nos digneis pelo jejum purificar a Vossa Igreja e libertá-la de toda iniquidade, Vos rogamos, ouvi-nos.
Para que possamos nos apresentar sempre como um sacrifício vivo, santo e agradável a Vós, Vos rogamos, ouvi-nos.
Para que possamos obter o perdão e a remissão de todos os nossos pecados, Vos rogamos, ouvi-nos.
Para que, por meio das tribulações desta vida, sejamos dignos de alcançar a glória futura, Vos rogamos, ouvi-nos.
Para que Vos digneis acolher as nossas súplicas, Vos rogamos, ouvi-nos.
Filho de Deus, Vos rogamos, ouvi-nos.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, atendei-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.
Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Pai Nosso...
e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.

V. Entre o pórtico e o altar, os sacerdotes, os servos do Senhor, hão de lamentar:
R. Tende piedade de vosso povo, Senhor.
V. Não nos trateis segundo os nossos pecados, 
R. Nem nos castigueis em proporção às nossas faltas.
V. Não leveis em consideração as nossas iniquidades passadas,
R. Nem tomeis tento de nossos pecados.
V. Ajudai-nos, ó Deus nosso Salvador,
R. E livrai-nos em nome da glória do Vosso nome, Senhor.
V. Sede misericordioso diante os nossos pecados, ó Senhor,
R. Em favor do vosso Santo Nome.
V. Ó Senhor, ouvi a minha oração,
R. E chegue a Vós o meu clamor.

Oremos

Ó Deus onipotente e eterno, tende piedade dos que se arrependem sinceramente e Vos imploram o perdão dos seus pecados e que, invocando humildemente o Vosso Santo Nome, prestam penitência das suas faltas; concedei-lhes, nesta Quaresma, as graças necessárias para o perdão dos pecados e a saúde do corpo e da alma e, assim, em nome da recompensa que prometestes, possam ser contados entre Vossos Filhos e alcançarem um dia as eternas bem aventuranças.

Ó Deus, que por Graça suprema criastes o homem e por Graça ainda maior o redimistes, concedei-nos, nós Vos suplicamos, novas graças de mente e coração para resistir às tentações do pecado e Vos servir fielmente. Ouvi com clemência as nossas orações, nós Vos suplicamos, para que sejamos libertados dos pecados que nos afligem, pela glória e misericórdia do Vosso Santo Nome. Como Vossos filhos, nós Vos suplicamos, guardai-nos de todo mal e protegei-nos nas adversidades e dai-nos a graça de Vos servir sempre com zelo e devoção.

Ó Deus, que não desejais a morte, mas o arrependimento dos pecadores, olhai com clemência para a fragilidade da nossa natureza humana e auxiliai, com a Vossa benevolência, os nossos esforços de arrependimento e penitência para alcançarmos, pela Vossa misericórdia, o perdão dos nossos pecados, a perseverança nas nossas ações e o prêmio da felicidade eterna. Amém.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, que vive e reina Convosco na unidade do Espírito Santo, como um só Deus, pelos séculos dos séculos. Amém.

V. Ó Senhor, ouvi a minha oração,
R. E chegue a Vós o meu clamor.
V. Bendigamos ao Senhor.
R. Damos graças a Deus.
V. Que as almas dos fiéis defuntos, por meio da misericórdia de Deus, descansem em paz.
R. Amém.

(tradução do autor do blog)

Litaniae in Quadragesima

Kyrie eleison.
Christe eleison.
Kyrie eleison.
Pater sancte, audi nos.
Pater iuste, exaudi nos.
Pater de caelis Deus, miserere nobis.
Fili, Redemptor mundi Deus, miserere nobis.
Spiritus Sancte Deus, miserere nobis.
Sancta Trinitas, unus Deus, miserere nobis.

Deus, qui non vis mortem peccatoris, sed ut magis convertatur et vivat, miserere nobis.
Qui Moysi quadraginta diebus ieiunanti, legem in monte dedisti, miserere nobis.
Qui precibus Moysis ieiunantis, populi peccata dimisisti, miserere nobis.
Qui Danielem ieiunantem in lacu leonum custodisti, miserere nobis.
Qui Ninivitis ieiunantibus et ad te clamantibus pepercisti, miserere nobis.
Qui Ninivitas in sacco, cinere, et cilicio paenitentes, a subversione urbis liberasti, miserere nobis.
Qui Davidis confitentis, et in cilicio paenitentis peccatum transtulisti, miserere nobis.
Qui Iudith in cilicio, et cinere coram te prostratam exaudisti et confortasti, miserere nobis.
Qui Ionam ex ventre cetis ad te clamantem salvasti, miserere nobis.
Qui Ezechiam cum populo in sacci, cinere, et ieiunio invocantem, ab exercitu Assyriorum liberasti, miserere nobis.
Qui Esther ieiunantem in oculis Regis gratiam invenire fecisti, miserere nobis.
Qui Mardochaeum, in sacco et cinere, te invocantem, a patibulo liberasti, miserere nobis.
Qui Machabaeis ieiunantibus in sacco et cinere ad te clamantibus auxilio fuisti, miserere nobis.
Qui Annae in ieiuniis et obsecrationibus perseveranti, teipsum in templo manifestasti, miserere nobis.
Qui Prophetis ieiunantibus et se affligentibus mysteria multa patefecisti, miserere nobis.
Qui Sacerdotes in ciliciis pro populo deprecantes et sacrificia offerentes exaudisti, miserere nobis.
Qui quadraginta diebus et quadraginta noctibus in deserto ieiunasti, miserere nobis.
Qui per Apostolos tuos quadragesimale ieiunium instituisti, miserere nobis.
Qui Paulum triduo ieiunantem et orantem illuminasti, miserere nobis.
Qui dissimulas peccata hominum propter paenitentiam, miserere nobis.
Qui elegisti nos et excoxisti in camino humiliationis, miserere nobis.
Qui quasi aurum in fornace probas electos tuos, miserere nobis.
Qui das locum et tempus paenitentiae in peccatis, miserere nobis.
Qui flagellas omnem filium, quem recipis et diligis, miserere nobis.
Qui non vis aliquos perire, sed omnes ad paenitentiam reverti, miserere nobis.
Qui Matthaeum in telonio sedentem, tua gratia praevenisti, miserere nobis.
Qui publicanum pectus percutientem, iustificatum abire fecisti, miserere nobis.
Qui filium prodigum ad te revertentem paterne suscepisti, miserere nobis.
Qui mulieri Samaritanae fontem aquae vivae manare fecisti, miserere nobis.
Qui publicanos et peccatores recepisti et cum eis manducasti, miserere nobis.
Qui Mariae Magdalenae multum diligenti, peccata multa dimisisti, miserere nobis.
Qui Petrum ter te negantem, benigne respexisti, miserere nobis.
Qui latronem paenitentem in paradisum suscepisti, miserere nobis.
Qui aufers iniquitatem et scelera atque peccata nostra, miserere nobis.
Qui pro aversione furoris tui nos plangere, ciliciis accingere et cinere conspergere iussisti, miserere nobis.
Qui omnium in ieiunio, fletu, et planctu se ad te convertentium misereris, miserere nobis.
Qui post paenitentiam omnium peccatorum nostrorum non recordaris amplius, miserere nobis.

Deus misericors et praestabilis super malitia, miserere nobis.
Propitius esto, parce nobis, Domine.
Propitius esto, exaudi nos, Domine.

Ab omni malo, libera nos, Domine.
Ab omni peccato, libera nos, Domine.
Ab omni periculo mentis et corporis, libera nos, Domine.
Ab omni malitia et indignatione, libera nos, Domine.
Ab omni crapula et comissatione, libera nos, Domine.
Ab omni impudicitia et turpitudine, libera nos, Domine.
Ab ira, rixa, et omni contentione, libera nos, Domine.
Ab omni negligentia et socordia, libera nos, Domine.
Ab omni impaenitentia et duritia cordis, libera nos, Domine.
A subitanea et improvisa mala morte, libera nos, Domine.
A damnatione perpetua, libera nos, Domine.

Per baptismum et sanctum ieiunium tuum, libera nos, Domine.
Per trinam tentationem tuam, libera nos, Domine.
Per sitim et esuriem tuam, libera nos, Domine.
Per labores et dolores tuos, libera nos, Domine.
Per trinam contra te prolatam mortis sententiam, libera nos, Domine.
Per tremendum et cruentum in cruce sacrificium tuum, libera nos, Domine.
In die irae calamitatis, libera nos, Domine.

Peccatores, te rogamus audi nos.
Ut nobis indulgeas, te rogamus audi nos.
Ut ad veram paenitentiam nos perducere digneris, te rogamus audi nos.
Ut dignos paenitentiae fructus facere possimus, te rogamus audi nos.
Ut peccata nostra digne flere et gratiam tuam consequi mereamur, te rogamus audi nos.
Ut Ecclesiam tuam hoc sacro ieiunio purificare et ab omni nequitia liberare digneris, te rogamus audi nos.
Ut corpora nostra hostiam viventem sanctam tibique placentem semper exhibeamus, te rogamus audi nos.
Ut indulgentiam et remissionem omnium peccatorum nostrorum nobis tribuere digneris, te rogamus audi nos.
Ut per tribulationes huius temporis ad futuram gloriam nos introire concedas, te rogamus audi nos.
Ut nos exaudire digneris, te rogamus audi nos.
Fili Dei, te rogamus audi nos.

Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, parce nobis, Domine.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, exaudi nos, Domine.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis.

Christe, audi nos.
Christe, exaudi nos.
Kyrie eleison.
Christe eleison.
Kyrie eleison.
Pater noster ...
Et ne nos inducas in tentationem. Sed libera nos a malo.

V. Inter vestibulum et altare plorabunt Sacerdotes ministri Domini.
R. Parce Domine, parce populo tuo.
V. Domine non secundum peccata nostra facias nobis,
R. Neque secundum iniquitates nostras retribuas nobis.
V. Domine, ne memineris iniquitatum nostrarum antiquarum,
R. Neque vindictam sumas de peccatis nostris.
V. Adiuva nos, Deus salutaris noster,
R. Et propter gloriam nominis tui, Domine, libera nos.
V. Propitius esto Domine peccatis nostris,
R. Propter nomen sanctum tuum.
V. Domine, exaudi orationem meam,
R. Et clamor meus ad te veniat.

Oremus

Omnipotens sempiterne Deus, parce paenitentibus, propitiare supplicantibus, et largire nobis beneficia misericordiae tuae, ut haec ieiunia sint omnibus nomen tuum invocantibus, et ante conspectum clementiae tuae facinora sua deplorantibus, remedium mentis et corporis, ut quicumque te pro remissione peccatorum suorum invocaverint, corporis et animae sanitatem percipiant, et praemia tibi fideliter servientibus promissa, in aeterna beatitudine consequantur.

Deus, qui hominem mirabiliter creasti, et mirabilius redemisti, da nobis contra oblectamenta peccati, mentis ratione persistere, et maiestati tuae sincero corde servire. Preces populi tui, quaesumus Domine, clementer exaudi, ut qui iuste pro peccatis nostris affligimur, pro tui nominis gloria misericorditer liberemur. Familiam tuam quaesumus, Domine, continua pietate custodi, ut a cunctis adversitatibus te protegente sit libera et in bonis actibus tuo nomini sit devota.

Deus qui non mortem, sed paenitentiam desideras peccatorum, fragilitatem conditionis humanae benignissime respice et conatus nostros benigna pietate prosequere, ut per magnam misericordiam tuam peccatorum nostrorum veniam; in tuo servitio constantiam; et tandem praemia perseverantibus promissa, feliciter consequamur. 

Per Dominum nostrum Iesum Christum, Filium tuum, qui tecum vivit et regnat, in unitate Spiritus Sancti, Deus, per omnia saecula saeculorum. R. Amen.

V. Domine, exaudi orationem meam,
R. Et clamor meus ad te veniat.
V. Benedicamus Domino.
R. Deo gratias.
V. Et fidelium animae per misericordiam Dei requiescant in pace.
R. Amen.