quinta-feira, 31 de maio de 2018

CORPUS CHRISTI


Corpus Christi, expressão latina que significa Corpo de Cristo, é uma festa litúrgica da Igreja sempre celebrada na quinta–feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, que acontece no domingo seguinte ao de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa. Abaixo, duas orações características desta data litúrgica:

Anima Christi

Anima Christi, sanctifica me.
Corpus Christi, salva me.
Sanguis Christi, inebria me.
Aqua lateris Christi, lava me.
Passio Christi, conforta me.
O bone Iesu, exaudi me.
Intra tua vulnera absconde me.
Ne permittas me separari a te.
Ab hoste maligno defende me.
In hora mortis meæ voca me.
Et iube me venire ad te,
ut cum Sanctis tuis laudem te
in sæcula sæculorum. 
Amen.


Tantum Ergo
Tantum ergo Sacramentum 
Veneremur cernui:
Et antiquum documentum 
Novo cedat ritui: 
Praestet fides supplementum 
Sensuum defectui. 
Genitori, Genitoque 
Laus et iubilatio, 
Salus, honor, virtus quoque 
Sit et benedictio: 
Procedenti ab utroque 
Compar sit laudatio. 
Amen.

CORPUS CHRISTI 2018



O pão é pão e o vinho é vinho
como frutos do homem em oração;
é o que trazemos, é tudo o que temos,
como oferendas da nossa devoção. 

Não é mais pão, nem é mais vinho
quando espécies na consagração;
alma e divindade que se reconciliam
a cada missa, em cada comunhão.

Ainda é pão e ainda é vinho
muito mais que vinho, muito mais que pão;
o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo
 é o alimento da nossa salvação.

(Arcos de Pilares)

quarta-feira, 30 de maio de 2018

INDULGÊNCIAS DO DIA DA SOLENIDADE DE CORPUS CHRISTI


Amanhã, dia da solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, o católico pode ser contemplado com as seguintes indulgências:

(i) Indulgência parcial: rezar, com piedosa devoção, a oração 'Alma de Cristo':

Alma de Cristo, santificai-me.
Corpo de Cristo, salvai-me.
Sangue de Cristo, inebriai-me.
Água do lado de Cristo, lavai-me.
Paixão de Cristo, confortai-me.
Ó bom Jesus, ouvi-me.
Dentro de vossa chagas, escondei-me.
Não permitais que eu me separe de vós.
Do espírito maligno, defendei-me.
Na hora da morte chamai-me e
mandai-me ir para vós,
para que com vossos Santos vos louve
por todos os séculos dos séculos.
Amém. 

(ii) Indulgência plenária: rezar, com piedosa devoção, a oração 'Tantum Ergo' ou 'Tão sublime Sacramento':

Tão sublime sacramento
vamos todos adorar,
pois um Novo testamento
vem o antigo suplantar!
Seja a fé nosso argumento
se o sentido nos faltar.
Ao eterno Pai cantemos
e a Jesus, o Salvador,
igual honra tributemos,
ao Espírito de amor.
Nossos hinos cantaremos,
chegue aos céus nosso louvor.
Amém.

Do céu lhes deste o pão,
Que contém todo o sabor.

Oremos: Senhor Jesus Cristo, neste admirável Sacramento, nos deixastes o memorial da vossa Paixão. Dai-nos venerar com tão grande amor o mistério do vosso corpo e do vosso sangue, que possamos colher continuamente os frutos da vossa redenção. Vós que viveis e reinais para sempre. Amém.

30 DE MAIO - SANTA JOANA D'ARC


Jeanne D'Arc nasceu em 6 de janeiro de 1412, na aldeia de Domrémy-la-Pucelle (na região da Lorena francesa). Descendente de camponeses analfabetos, apresentou-se, ainda adolescente e em trajes masculinos diante do rei da França Carlos VII, como a enviada por Deus para comandar as tropas francesas para a libertação da cidade de Orleans, então dominada pelos ingleses (os monarcas ingleses dominavam desde o século XI vários territórios franceses e a chamada Guerra dos Cem Anos, que durou na verdade 116 anos (1337 - 1453), foi o conflito sangrento travado entre os dois países, movidos pelo desejo francês de recuperar os territórios perdidos para a Inglaterra). Em face de vários eventos sobrenaturais, tal missão foi concedida e Orleans foi libertada em 9 de maio de 1429. Esta vitória recendeu a esperança das tropas francesas que conseguiram, em seguida, a retomada de vários outros territórios e que culminou com a coroação do rei francês em Reims, em 17 de julho de 1429. 

(coroação do rei Carlos VII e Joana D'Arc à frente das tropas francesas)

No dia 23 de maio de 1430, em Compiègne, Joana D' Arc foi aprisionada e vendida aos ingleses, a preço de ouro. Presa em Rouen, foi julgada numa farsa de processo e condenada à morte na fogueira por heresia. Foi queimada viva em 30 de maio de 1431, com apenas 19 anos de idade, após ter recebido os sacramentos da confissão e da comunhão. Suas cinzas (além do coração que, ao contrário do resto do corpo, permaneceu intacto e cheio de sangue) foram lançadas no Rio Sena, por ordem dos ingleses, para evitar quaisquer cultos futuros de suas relíquias. A revisão da condenação e a invalidação do processo que a julgou ocorreram já na época do Papa Calisto III (1455-1458), mas somente quase quinhentos anos depois, em 1920, é que Joana d'Arc foi canonizada pelo Papa Bento XV e hoje é venerada como a santa padroeira da França.

terça-feira, 29 de maio de 2018

A ALMA FRUSTRADA DO HOMEM MODERNO

O homem moderno não é mais uma unidade, mas um molho confuso de complexos e nervos. Acha-se tão desassociado, tão alienado de si mesmo, que se vê menos como uma personalidade do que como um campo de batalha, onde uma guerra civil se trava raivosa entre mil e uma antagônicas lealdades. Não há um propósito único, a todos os respeitos, em sua vida. Sua alma pode ser comparada a uma jaula na qual numerosas feras, cada qual buscando a sua própria presa, combatem umas com as outras. Pode ser ainda comparado a um rádio ligado para várias estações. Em vez de ouvir alguma delas claramente, recebe apenas uma estática intolerável.

Se a alma frustrada é educada, possui um verniz de desconexos pedaços de informação, sem a filosofia que os unifique. Por isso a alma frustrada pode dizer a si mesma: 'Penso às vezes que há dois egos em mim: uma alma viva e um doutor em filosofia'. Tal homem projeta sua própria confusão mental no mundo exterior e conclui que, visto não conhecer a verdade, ninguém pode conhecê-la. Seu próprio ceticismo (que ele torna universal como filosofia da vida) o repele cada vez mais para aquelas forças que rastejam nas escuras e úmidas cavernas de seu inconsciente. 

Muda sua filosofia, como muda de roupa. Na segunda-feira, assenta os trilhos do materialismo; na terça, lê um livro afamado, arranca os velhos trilhos e assenta os novos de um idealista; na quarta, sua nova estrada é comunista; na quinta, os novos trilhos do liberalismo são colocados; na sexta, ouve uma irradiação e decide viajar sobre trilhos freudianos; no sábado, toma uma demorada bebida para esquecer sua viagem e, no domingo, fica a matutar na tolice do povo em ir à igreja. Cada dia tem ele novo ídolo, cada semana, novo capricho. Sua autoridade é a opinião pública. Quando esta muda, sua frustrada alma muda com ela. Não há ideal fixo, grande paixão, mas apenas uma fria indiferença pelo resto do mundo. Vivendo num estado contínuo de referência a si próprio, os egos de sua conversa se repetem com crescente frequência, ao achar que todos os seus semelhantes se tornam cada vez mais enfadonhos por insistirem em falar a respeito de si mesmos, em vez de falar a respeito dele.

Isolamento do próximo - esta característica revela-se não só pelas duas guerras mundiais, num espaço de vinte e um anos, e pela constante ameaça de uma terceira; não só pelo aumento do conflito de classes e do egoísmo no qual cada homem procura apenas a sua satisfação; mas também pela quebra do homem com a tradição e a herança acumulada dos séculos. A revolta da criança moderna contra seus pais é uma miniatura da revolta do mundo moderno contra a memória de 2000 anos de cultura cristã e das grandes culturas hebraica, grega e romana que os precederam. 

Qualquer respeito por essa tradição é chamado de 'reacionário', dando em resultado haver-se a alma moderna transformado em uma mentalidade comentadora que julga o ontem pelo hoje e o hoje pelo amanhã. Nada é mais trágico para um indivíduo que foi sábio outrora, do que perder sua memória e nada é mais trágico para uma civilização do que a perda de sua tradição. A alma moderna, que não pode viver consigo mesma, não pode viver com seus semelhantes. Um homem, que não está em paz consigo mesmo, não estará em paz com seu irmão. As guerras mundiais não passam de sinais macrocósmicos das guerras psíquicas que se travam no íntimo das turvas almas microcósmicas. Se já não houvesse batalhas em milhões de corações, nenhuma haveria nos campos de batalha do mundo.

Numa alma alienada de si mesma, logo a desordem se segue. Uma alma que mantém uma luta dentro de si mesma, em breve manterá luta fora de si mesma contra outras. Uma vez que um homem deixa de ser prestativo ao seu vizinho, começa a tornar-se uma carga para este. Basta um passo, de recusar a viver com os outros, para recusar a viver para os outros. Quando Adão pecou, acusou Eva, e quando Caim assassinou Abel, fez a pergunta antissocial: 'Serei o guardião de meu irmão?' (Gn 4,9.) Quando Pedro pecou, saiu sozinho e chorou amargamente. O pecado de orgulho de Babel terminou em uma confusão de línguas que tornou impossível a manutenção da convivência.

Nosso ódio pessoal de nós mesmos sempre se torna ódio ao próximo. Talvez seja esta uma das razões da atração básica do comunismo, com sua filosofia da luta de classes. O comunismo possui especial afinidade pelas almas que já têm uma luta travada dentro de si mesmas. Associada a este conflito íntimo, existe uma tendência a tornar-se hipercrítico: as almas infelizes quase sempre censuram os outros, que não a si mesmas, por suas misérias. Fechadas dentro de si mesmas, estão necessariamente fechadas para os outros, exceto para criticá-los. 

Desde que a essência do pecado é a oposição à vontade de Deus, segue-se que o pecado de um indivíduo é forçado a opor-se a qualquer outro indivíduo, cuja vontade esteja em harmonia com a vontade de Deus. O afastamento do próximo que daí resulta é intensificado, quando se começa a viver só para este mundo. Então os bens do vizinho são olhados como algo que foi injustamente arrebatado da gente. Uma vez que o material se torna o alvo da vida, nasce uma sociedade de conflitos. Como disse Shelley: 'O acúmulo de matéria da vida externa excedeu a quantidade de força para assimilá-la às leis internas de nossa natureza'.

A matéria divide, assim como o espírito une. Divida uma maçã em quatro partes e sempre haverá possibilidade de uma questão para saber a quem deve caber a parte maior. Mas se quatro homens aprendem uma oração, nenhum deles priva o outro de possuí-la, tornando-se a oração a base de sua unidade. Quando o objetivo de uma civilização consiste, não na união com o Pai Celestial, mas na aquisição de coisas materiais, há um aumento nas potencialidades da inveja, da cobiça e da guerra. Divididos, os homens procuram então um ditador que os ajunte, não na unidade do amor, mas na falsa unidade dos três pês – poder, polícia e política.

(Excertos da obra 'A paz da Alma' do venerável Fulton Sheen)

segunda-feira, 28 de maio de 2018

CATEQUESES SOBRE O BATISMO (IV)


Catequeses Mistagógicas ('de Formação') para Recém-Batizados

(São Cirilo de Jerusalém)

Quarta Catequese: Presença Real de Cristo na Eucaristia

1. Este ensinamento do bem-aventurado Paulo foi estabelecido como suficiente para vos assegurar acerca dos divinos mistérios, dos quais tendo sido julgados dignos, vos tornastes concorpóreos e consanguíneos com Cristo. O próprio Paulo proclama precisamente: 'Na noite em que foi entregue, Nosso Senhor Jesus Cristo, tomando o pão e depois de ter dado graças, partiu-o e o deu a seus discípulos, dizendo: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E tomando o cálice e tendo dado graças, disse: Tomai, bebei, isto é o meu sangue' (Mt 26,26).

2. Se ele em pessoa declarou e disse do pão: 'Isto é o meu corpo', quem se atreveria a duvidar doravante? E quando ele afirma categoricamente e diz: 'Isto é o meu sangue', quem duvidaria dizendo não ser seu sangue? Outrora, em Caná da Galileia, por própria autoridade, transformou a água em vinho. Não será digno de fé quando transforma o vinho em sangue? Convidado às bodas corporais, realizou, este milagre maravilhoso. Aos companheiros do esposo não se concederá, com muito mais razão, a alegria de desfrutar do seu corpo e sangue?

3. Portanto, com toda certeza recebemo-los como corpo e sangue de Cristo. Em forma de pão te é dado o corpo e, em forma de vinho, o sangue, para que te tornes, tomando o corpo e o sangue de Cristo, concorpóreo e consanguíneo com Cristo. Assim nos tornamos portadores de Cristo (cristóforos), sendo nossos membros penetrados por seu corpo e sangue. Desse modo, como diz o bem-aventurado Pedro, 'tornamo-nos participes da natureza divina'.

4. Falando, outrora, aos judeus Cristo dizia: 'Se não comerdes minha carne e não beberdes meu sangue, não tereis a vida em vós' (Jo 6,53). Como não entendessem espiritualmente o que era dito, escandalizados, se retiraram, imaginando que o Salvador os incitava a comer carne humana.

5. Também no Antigo Testamento havia pães de proposição. Mas esses pães, por pertencerem à antiga aliança, tiveram fim. Na nova aliança o pão celeste e o cálice de salvação santificam a alma e o corpo. Pois, como o pão se adequa ao corpo, assim o Verbo se harmoniza com a alma.

6. Não consideres, portanto, o pão e o vinho como simples elementos. São, conforme a afirmação do Mestre, corpo e sangue. Se os sentidos isto te sugerem, a fé te confirma. Não julgues o que se propõe segundo o gosto, mas pela fé tem firme certeza de que foste julgado digno do corpo e sangue de Cristo.

7. O bem-aventurado Davi te anuncia a força [deste mistério] dizendo: 'Preparaste para mim a mesa à vista de meus inimigos' (Sl 22, 5). Com isso ele quer dizer: Antes de tua vinda os demônios preparavam para os homens uma mesa contaminada e manchada, cheia de poder diabólico. Mas depois de tua vinda, ó Senhor, tu preparaste diante de mim uma mesa. Quando o homem diz a Deus: Tu preparaste diante de mim uma mesa, que outra coisa quer ele insinuar, senão a mística e espiritual mesa, que Deus nos preparou em oposição ao adversário, isto é, em oposição ao demônio? Sim, é isso mesmo. Pois a primeira mesa tinha comunhão com os demônios, essa, ao contrário, comunhão com Deus. 'Ungiste de óleo minha cabeça' (Sl 23, 5). Com o óleo te ungiu a cabeça, sobre a fronte, pelo sinal que tens de Deus, a fim de que te tornes assinalado santo de Deus. 'E teu cálice inebria-me como o melhor' (Sl 23,5). Vês aqui mencionado o cálice que Jesus tomou em suas mãos e sobre o qual rendeu graças dizendo: 'Este é o meu sangue, que é derramado por todos, em remissão dos pecados' (Mc 14,24-25).

8. Por isso também Salomão, aludindo a essa graça, disse: 'Vem, come teu pão na alegria' (Ec 9,7), o pão espiritual. Vem designa o apelo salutar e que faz bem-aventurado. 'E bebe, de bom coração, teu vinho' (Ec 9,7), o vinho espiritual. Derrama o óleo sobre tua cabeça (vês aqui mais uma alusão à unção mística?) Traja sempre vestes brancas, já que Deus sempre favorece as tuas obras (Ec 9,8). Pois agora Deus se agradou de tuas obras. Antes de te aproximares da graça eram tuas obras vaidade das vaidades. Todavia agora, tendo despido as velhas vestes e revestido espiritualmente a veste branca, é necessário estar sempre vestido de branco. Não dizemos isso absolutamente porque é preciso estar trajado de branco, mas porque deves, em realidade, revestir a veste branca, brilhante e espiritual, a fim de dizeres como o bem-aventurado Isaías: 'Com grande alegria me rejubilei no Senhor, porque me fez revestir a vestimenta da salvação e me cobriu com a túnica da alegria' (Is 61,10).

9. Tendo aprendido e estando seguro de que o que parece pão não é pão, ainda que pareça pelo gosto, mas o corpo de Cristo, e o que parece vinho não é vinho, mesmo que o gosto o queira, mas o sangue de Cristo e porque sobre isto dizia vibrando Davi: 'O pão fortalece o coração do homem, para que no óleo se regozije o semblante' (Sl 104,15) fortalece o teu coração, tomando este pão como espiritual e regozije-se o semblante de tua alma. Oxalá, tendo a face descoberta, em consciência pura, contempleis a glória do Senhor, para ir de glória em glória, em Cristo Jesus Senhor Nosso, a quem a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

('Quarta Catequese Mistagógica aos Recém-iluminados', de São Cirilo de Jerusalém, século IV)

A REALIDADE OU A MERA INSANIDADE?


Falta combustível
falta gás
faltam frutas e verduras
começa a faltar carne
e vai faltar pão.

Deus nunca há de nos faltar.
Mas o que falta mesmo 
e parece que vai faltar sempre 
é a vergonha...

domingo, 27 de maio de 2018

ABERRAÇÕES LITÚRGICAS (IX)

'Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!' (Mt 18,7)


No domingo passado - domingo de Pentecostes - o padre João Batista de Almeida, Reitor do Santuário Nacional de Aparecida, celebrou no Santuário uma missa especial (mais uma daquelas 'missas especiais') e dirigida a uma 'romaria' organizada pelo Partido dos Trabalhadores, em favor da libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O que já seria um escárnio ao rito litúrgico, tornou-se um escândalo público. Durante as orações pela comunidade, um leitor fez a seguinte intenção explícita: 'Pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para que Nossa Senhora Aparecida o abençoe e dê muitas forças e se faça a verdadeira justiça para que o quanto antes ele possa estar entre nós, construindo com o nosso povo um projeto de país que semeie a justiça e a fraternidade, rezemos ao senhor...'. E os 'crentes' fervorosos da 'romaria' organizada pelo Partido dos Trabalhadores, de camisetas vermelhas estampando a imagem de Lula (e vermelha é a cor da liturgia de Pentecostes), entre palmas e aclamações, responderam em uníssono: 'Envia o teu espírito, Senhor, e renova a face da terra'. Um Pentecostes aviltado; uma conclamação blasfema ao Espírito Santo. Tristes tempos, pobres padres, falsa Igreja de Cristo.

Que os responsáveis pelo Santuário de Aparecida não se preocupem em pedir perdão 'pela dor que geraram à Mãe Igreja, aos fiéis e às pessoas de boa vontade', como fizeram em nota formal. Que se preocupem (e muito!) pelas suas pobres almas e em prestar contas ao Pai por um pecado de escândalo público, notório, e sacrílego. Porque ai do homem por quem vier o escândalo; ai do sacerdote que profana a Santa Missa com marolinhas ideológicas, ai do religioso que invoca a Santa Mãe de Deus para prover de bênçãos lobos em pele de ovelhas, ai da Igreja que se verga servilmente às estultices deste mundo. 

P.S.: Muitas vezes lamentamos o abuso e os desvios litúrgicos da Santa Missa cometidos por alguns padres e esquecemos daquelas que são celebradas por sacerdotes dedicados e no rigor litúrgico devido. Que Deus os ilumine sempre! E que Jesus e Maria nos possam legar sempre sacerdotes bons e fieis ao Evangelho, Sagradas Eucaristias e Santas Missas!  

GLÓRIA AO PAI, AO FILHO E AO ESPÍRITO SANTO

Páginas do Evangelho - Domingo da Festa Litúrgica da Santíssima Trindade


O mistério da Santíssima Trindade é um mistério de conhecimento e de amor. Pois, desde toda a eternidade, o Pai, conhecendo-se a Si mesmo com conhecimento infinito de sua essência divina, por amor gera o Filho, Segunda Pessoa da Trindade Santa. E esse elo de amor infinito que une Pai e Filho num mistério insondável à natureza humana se manifesta pela ação do Espírito Santo, que é o amor de Deus por si mesmo. Trindade Una, Três Pessoas em um só Deus.

Mistério dado ao homem pelas revelações do próprio Jesus, posto que não seria capaz de percepção e compreensão apenas pela razão natural, uma vez inacessível à inteligência humana: 'Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra. Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo' (Mt 28, 18 - 20). Mistério também revelado em sua extraordinária natureza, em outras palavras de Cristo nos Evangelhos: 'Em verdade, em verdade vos digo: O Filho não pode de si mesmo fazer coisa alguma, mas somente o que vir fazer o Pai; porque tudo o que fizer o Pai, o faz igualmente o Filho. Porque o Pai ama o Filho, e mostra-lhe tudo o que ele faz' (Jo 5, 19-20) ou ainda 'Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai; nem alguém conhece o Pai senão o Filho' (Mt 11, 27). 

Nosso Senhor Jesus Cristo é o Verbo de Deus feito homem, sob duas naturezas: a natureza divina e a natureza humana: 'Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele' (Jo 3, 16 - 17). Enquanto homem, Jesus teve as três potências da alma humana: inteligência, vontade e sensibilidade; enquanto Deus, Jesus foi consubstancial ao Pai, possuindo inteligência e vontade divinas.

'Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo'. Glórias sejam dadas à Santíssima Trindade: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Neste domingo da Santíssima Trindade, a Igreja exalta e ratifica aos cristãos o  maior dos mistérios de Deus, proclamado e revelado aos homens: O Pai está todo inteiro no Filho, todo inteiro no Espírito Santo; o Filho está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Espírito Santo; o Espírito Santo está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Filho (Conselho de Florença, 1442).

sábado, 26 de maio de 2018

sexta-feira, 25 de maio de 2018

QUARENTENÁRIO DA SANTIDADE


(Quarenta chamadas ou instruções para se alcançar a santidade)

O conhecimento de Deus

1. Quando nos é dito que Jesus é seu Filho bem-amado, o Pai nos revela sua Vida; e quando nós cremos nesta revelação, nós participamos do conhecimento do próprio Deus (Cristo em Seus Mistérios, 1919, p.504)

A adoção filial

2. O Santo, o mais elevado nos céus é aquele que, aqui em baixo, foi mais perfeitamente criança de Deus, que fez frutificar abundantemente nele a graça de sua adoção sobrenatural em Jesus Cristo (Cristo em Seus Mistérios, 1919, p.375)

3. É para todas as crianças a adoção, para todos aqueles que são os irmãos de Jesus pela graça santificante, que o Espírito Santo foi dado. E porque este dom é divino e contêm todos os dons mais preciosos de vida e de santidade, sua efusão em nós é 'uma fonte de alegria que preenche o mundo inteiro' (Cristo em Seus Mistérios, 1919, p.574)

4. Seremos santos se formos 'crianças de Deus' e se vivermos como verdadeiras 'crianças' do Pai Celeste, dignas de nossa adoção sobrenatural (Cristo em Seus Mistérios, 1919, p.60)

O Espírito forma Jesus em nós 

5. Pela sua ação infinitamente delicada e soberanamente eficaz, o Espírito Santo forma Jesus em nós (Cristo em Seus Mistérios, 1919, p.575)

A humanidade de Jesus

6. Quando assistimos com espírito de fé a esta cena deliciosa de Betânia, sentimos em nossos corações que Jesus é verdadeiramente um de nós. Deus vivo por nós, em nós, conosco (Cristo em Seus Mistérios, 1919, p.492)

A humanidade de Jesus como uma Via

7. A Santa Humanidade de Jesus é a 'Via'. Sua potência para nos unir ao Verbo é infinita. Sejamos santos para a sua glória (Um Mestre da Vida Espiritual, Thibaut*, 1932, p.372)

A união do Cristo e a Fé

8. Quando se tem uma fé viva no Cristo, não se tem medo nem das dificuldades, nem das contradições, porque se sabe que o Cristo habita em nós pela fé e que nos apoiamos sobre Ele (O Cristo, Ideal do Monge, 1922, p.707)

A imitação do Cristo

9. A Vida espiritual consiste, sobretudo, em contemplar o Cristo para reproduzir em nós seu estado de Filho de Deus e suas Virtudes (O Cristo, Vida da Alma, 1917, p.85)

10. O Cristo é mais que um modelo, mais que um pontífice que nos obteve a graça de imitá-lO; é aquele que, por seu Espírito, age no íntimo da alma para nos ajudar a imitá-lo (O Cristo, Vida da Alma, 1917, p.85)

11. O Cristo é o modelo perfeito de nossa santidade. Deus encontra nEle todas as suas delícias. Ele as encontra em nós segundo o grau de nossa semelhança com Jesus (A união com Deus, Thibaut*, 1938, p.42)

O discípulo, outro Cristo: morto e ressuscitado

12. Tornar-se discípulo de Jesus na fonte sagrada, por um ato que simbolize sua morte e sua ressurreição: devemos reproduzir esta morte e esta ressurreição durante os dias que temos de passar aqui embaixo (O Cristo, Vida da Alma, 1917, p.158)

A união ao Cristo pela Eucaristia

13. É o sonho da alma de ser um com Aquele que ela ama. A comunhão, na qual a alma recebe o Cristo, realiza este sonho, transformando pouco a pouco a alma no Cristo (O Cristo, Vida da Alma, 1917, p.249)

14. Se o quisermos, a mudança admirável ainda continua, pois é também por Sua Humanidade que na Mesa Santa, o Cristo nos infunde a Vida divina. É comendo sua Carne e bebendo seu Sangue, nos unindo à Sua Humanidade, que chegamos à própria fonte da Vida eterna (Cristo em Seus Mistérios, 1919, p.429)

A Eucaristia compartilhada e o próximo

15. Quando comungamos, devemos sempre estar prontos a abraçar numa mesma caridade o Cristo e tudo é a Ele unido; pois a medida da doação do Cristo às nossas almas é aquela de nossa própria doação aos nossos irmãos (Cristo, Ideal do Monge, 1922, p.961)

16. Não tenho medo de dizer que uma alma que se entrega sobrenaturalmente, sem reservas, ao Cristo na pessoa do próximo, ama muito o Cristo e é por Ele infinitamente amada; ela fará grandes progressos na união com Nosso Senhor (Cristo, Vida da Alma, 1917, p.306)

17. O Cristo se tornou próximo, ou melhor, nosso próximo; é o Cristo que se apresenta a nós sob tal ou tal forma (O Cristo, Vida da Alma, 1917, p.304)

O amor

18. A Via mais certa, a mais curta, a mais luminosa, a mais doce também, é a Via do Amor. Mas, para andar nesta Via, é necessária uma coerência muito grande (A União com Deus, Thibaut*, 1938, p.20-21)

19. O amor é o que mede, em última instância, o valor de todos os nossos atos, mesmo os mais ordinários (Cristo, Ideal do Monge, 1922, p.737)

20. Tudo aquilo que Deus faz por nós tem o amor como motivação. O amor está no fundo da criação e de todos os mistérios da Redenção (Cristo, Ideal do Monge, 1922, p.931)

21. Nosso amor deve ser sobrenatural; a Verdadeira caridade é o amor de Deus que inclui num mesmo abraço, Deus e tudo o que está unido a Ele (Cristo, Vida da Alma, 1917, p.309)

22. Se entregar ao próximo, ou melhor, se entregar ao Cristo na pessoa de seus membros, é a Verdadeira prova de amor (A União com Deus, Thibaut*, 1938, p.256)

A espiritualidade beneditina e o Evangelho

23. A espiritualidade de São Bento procede diretamente do Evangelho; é isto que dá a ela este selo de grandeza e de simplicidade, de força e de suavidade que a caracteriza acima de tudo (Cristo, Ideal do Monge, 1922, p.725)

A Lectio Divina e o Evangelho

24. O conhecimento de Jesus e de seus estados se apoiam no Evangelho. Feliz a alma que se abre a cada dia! Ela bebe da própria fonte das águas vivas (Cristo em Seus Mistérios, 1919, p.352-353)

A oração

25. A oração é como uma expressão de nossa vida íntima de ‘crianças’ de Deus, o fruto de nossa filiação divina no Cristo, desenvolvimento espontâneo dos dons do Espírito Santo (Cristo, Vida da Alma, 1917, p.282)

26. Quando a graça e o amor ocupam toda nossa Vida, toda a nossa existência é como um hino perpétuo à glória do Pai celeste (Cristo, Vida da Alma, 1917, p.222)

A humildade

27. A humildade é a confissão prática e contínua de nossa miséria, e esta confissão atrai a atenção de Deus (Cristo, Vida da Alma, 1917, p.799)

28. A verdadeira humildade não nega os dons de Deus; ela os utiliza, mas ela os devolve com toda a glória Àquele que os cedeu (Cristo, Ideal do Monge, 1922, p.818)

O perdão, a pobreza, a fraqueza

29. Quanto mais nos empobrecemos, mais as riquezas inefáveis do Cristo encontram seu lugar em nós. Nossa miséria conhecida e confessada atrai generosidade (A União com Deus, Thibaut*, 1938, p.156)

30. Nada desarma a justiça de Deus a nosso respeito como a misericórdia que temos pelos outros (A União com Deus, Thibaut*, 1938, p.182)

31. Somos miseráveis e nossas misérias unidas àquelas de Jesus gritam ao nosso Pai celeste (A União com Deus, Thibaut*, 1938, p.111).

32. Adoro pensar após a comunhão que o Verbo eterno que está ‘no seio do Pai’ está igualmente em mim ‘no seio de um pecador’. Tal pensamento desencadeia em mim adoração e ação de graças (Um Mestre da Vida Espiritual, Thibaut*, 1932, p.412)

A santidade

33. Ninguém pode dizer: a santidade não é para mim. O que pode torná-la impossível? Deus a deseja para nós (Cristo, Ideal do Monge, 1922, p.617)

34. Para nós é uma ambição legítima tender com todas as nossas forças na busca por esta glória que Deus colocou em nossa santidade (Cristo em Seus Mistérios, 1919, p.608)

Maria

35. Maria participa de alguma forma, na autoridade do Pai eterno sobre a humanidade de ser Filho. Jesus poderia dizer de Sua Mãe o que ele disse de seu Pai dos Céus: 'Cumpro sempre o que Lhe agrada' (Cristo, Vida da Alma, 1917, p.317).

36. Vejo hoje que Maria foi perfeita em sua fé sublime aos pés da Cruz. Oh! Que Ela nos obtenha esta graça, símbolo de uma fé perfeita, mesmo na nudez da provação! (Um Mestre da Vida Espiritual, Thibaut*, 1932, p.397)

37. Devemos ser como Jesus 'Filhos de Deus' e 'Filhos de Maria'. Se nós queremos reproduzir sua imagem em nós, devemos ter esta dupla qualidade (Cristo, Vida da Alma, 1917, p.313)

38. Que pediremos nós a Maria? Senão, antes de tudo e acima de tudo, que Ela forme Jesus em nós, nos comunicando sua fé e o seu amor? (Cristo, Vida da Alma, 1917, p.324)

39. Os que não conhecem a Virgem, os que não a tem pela Mãe de Jesus um amor verdadeiro, arriscam a não compreender frutuosamente os mistérios da humanidade do Cristo (Cristo em Seus Mistérios, 1919, p.444)

Consagração à Trindade Santa 

40. Ó Pai eterno, prostrados em humilde adoração aos vossos pés, nós consagramos todo nosso ser à glória de vosso Filho Jesus, o Verbo encarnado. Vós o constituístes Rei de nossas almas; submeta a Ele nossas almas, nossos corações, nossos corpos, e que nada em nós não se mova sem a sua ordenação, sem sua inspiração. Que unidos a Ele, nós sejamos levados ao vosso Seio e consumidos na unidade de vosso Amor. 

Ó Jesus, nos una a vós na vossa vida toda santa, toda consagrada ao vosso Pai e às almas. Seja a nossa sabedoria, nossa justiça, nossa santificação, nossa Redenção, nosso tudo. Santificai-nos na verdade. Santo Espírito, Amor do Pai e do Filho, estabeleça-vos como uma fornalha de amor no centro de nossos corações e elevai sempre - como chamas ardentes - nossos pensamentos, nossas ações e nossas afeições, para o alto; até o interior do Seio do Pai. Que a nossa vida inteira seja uma Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Ó Maria, Mãe do Cristo, Mãe do Santo Amor, conformai-nos vós mesma segundo o coração de vosso Filho (Consagração de Dom Columba Marmion à Trindade Santa, em 25 de dezembro de 1908).

* Dom Raymond Thibault foi secretário de Dom Columba Marmion e reuniu os seus escritos, homilias e pregações em três obras: 'Cristo, Vida da Alma' (1917); 'Cristo em seus Mistérios' (1919) e 'Cristo, Ideal dos Monges' (1922). 'Um Mestre da Vida Espiritual' (1932) e 'A União com Deus' (1938) são obras de sua autoria sobre Marmion.

(Quarenta chamadas ou instruções para se alcançar a santidade, extraídas dos escritos do Beato Columba Marmion (1858 - 1923), abade irlandês do Mosteiro de Maredsous, na Bélgica e beatificado pelo papa João Paulo II em 3 de setembro de 2000)

quinta-feira, 24 de maio de 2018

CATEQUESES SOBRE O BATISMO (III)


Catequeses Mistagógicas ('de Formação') para Recém-Batizados

(São Cirilo de Jerusalém)

Terceira Catequese: A Unção dos Óleos no Batismo

1. Batizados em Cristo e dele revestidos, vos tornastes conformes ao Filho de Deus. Em verdade, Deus, predestinando-nos à adoção de filhos, nos fez conformes ao corpo glorioso de Cristo. Feitos, pois, partícipes de Cristo, não sem razão, sois chamados cristos e é de vós que Deus disse: 'Não ouseis tocar nos que me são consagrados' (Sl 104,15). Ora, vós vos tornastes cristos, recebendo o sinal do Espírito Santo, e tudo se cumpriu em vós em imagem, pois sois imagens de Cristo. Ele, quando banhado no rio Jordão e comunicando às águas a força da divindade, delas saiu e se produziu sobre ele a vinda substancial do Espírito Santo, pousando igual sobre igual. Também a vós, ao sairdes das águas sagradas da piscina, se concede a unção, figura daquela com que Cristo foi ungido. Refiro-me ao Espírito Santo, do qual o bem-aventurado Isaías, na profecia a respeito dele, disse, na pessoa do Senhor: 'O espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor consagrou-me pela unção' (Is 61,1).

2. Na verdade, Cristo não foi ungido com óleo ou unguento material por um homem. Mas foi o Pai que, estabelecendo-o com antecedência como Salvador de todo o universo, o ungiu com o Espírito Santo, conforme está dito: 'Jesus de Nazaré, a quem Deus ungiu com o Espírito Santo' (Lc 4,18). E o profeta Davi exclamou: 'Vosso trono, ó Deus, é eterno, de equidade é vosso cetro real. Amais a justiça e detestais o mal, pelo que o Senhor, vosso Deus, vos ungiu com óleo de alegria, preferindo-vos aos vossos iguais' (Sl 44,7-8). E como Cristo foi verdadeiramente crucificado e sepultado e ressuscitou, e vós, pelo batismo, fostes, por semelhança, tidos por dignos de com ele ser crucificados, sepultados e ressuscitados, assim também na unção do crisma. Ele foi ungido com o óleo espiritual da alegria, isto é, com o Espírito Santo, chamado óleo de alegria, por ser causa da alegria espiritual. Vós fostes ungidos com o óleo, feitos, partícipes e companheiros de Cristo.

3. Vê, porém, que não imagines ser um simples unguento. Pois, como o pão da Eucaristia, depois de epiclese do Espírito Santo, já não é simples pão, mas o corpo de Cristo, assim também este santo unguento, com a epiclese, já não é puro e simples unguento, mas é dom de Cristo e obra do Espírito Santo, pela presença de sua divindade. Com ele se unge simbolicamente tua fronte e os outros sentidos. Se, por um lado, o corpo é ungido com o unguento sensível, por outro, a alma é santificada pelo santo e vivificado Espírito.

4. E primeiro sois ungidos na fronte para serdes libertados da vergonha que o primeiro homem transgressor levou por toda parte e para que, de face descoberta, contempleis a glória do Senhor. Depois nos ouvidos, para terdes ouvidos conforme disse Isaías: 'o Senhor Deus abriu-me o ouvido' (Is 50,4) e o Senhor no Evangelho: 'Quem tem ouvidos para ouvir que ouça' (Lc 8,8). Em seguida nas narinas, para que, ao receberdes este divino unguento, possais dizer: 'Somos para Deus o perfume de Cristo entre os que se salvam' (Hb 2,15). Depois no peito, a fim de que atender o pedido: 'revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio' (Ef 6,11). Como na verdade o Salvador, após seu batismo e a descida do Espírito Santo, saiu a combater o adversário, assim também vós, depois do santo batismo e da mística unção, revestidos da armadura do Espírito Santo, resistis à força inimiga e a venceis dizendo: 'Tudo posso naquele que me conforta, Cristo'.

5. Feitos dignos desta santa unção, sois chamados cristãos. Assim, pela regeneração, mostra ser de direito o nome [de cristãos]. Antes, pois, de serdes declarados dignos do batismo e da graça do Espírito Santo, não éreis dignos deste nome, mas estáveis a caminho de serdes cristãos.

6. É necessário que saibais que há ó símbolo desta unção na Escritura Antiga. E na verdade, quando Moisés comunicou ao irmão a ordem de Deus e o estabeleceu sumo sacerdote, depois de lavar-se com água, o ungiu e foi ele chamado Cristo, em virtude, evidentemente, da unção figurativa. Do mesmo modo, o sumo sacerdote, ao elevar Salomão à dignidade de rei, o ungiu, depois de lavar-se no Gion. Mas essas coisas lhes aconteceram em figura. A vós, porém, não em figura, mas, em verdade. Isso, já que o começo de vossa salvação remonta àquele que foi ungido pelo Espírito Santo. Cristo é realmente as primícias, e vós sois a massa: mas se as primícias são santas, é evidente que a santidade também passa à massa.

7. Guardai imaculada esta unção: ensinar-vos-á todas as coisas, se permanecer em vós, como ouvistes há pouco dizer o bem-aventurado João, explicando muitas coisas sobre a unção. Esta unção é a salvaguarda espiritual do corpo e a salvação da alma. Foi isto que desde tempos antigos o santo Isaías profetizou, dizendo: 'o Senhor dos exércitos dará nesta montanha para todos os povos um banquete' (Is 25, 6). Por montanha ele designa a Igreja, como outras vezes quando diz: 'E nos últimos dias será visível a montanha do Senhor. Beberão vinho, beberão a alegria, serão ungidos de unguento'. E para que mais te assegures, ouve o que diz sobre este unguento em sentido místico: 'Transmite tudo isso às nações, pois o desígnio do Senhor se estende sobre todos os povos. Assim, pois, ungidos com este santo crisma, guardai-o sem mancha e irrepreensível em vós, progredindo em boas obras e tornando-vos agradáveis ao autor de nossa salvação, Cristo Jesus, a quem a glória pelos séculos dos séculos. Amém'.

('Terceira Catequese Mistagógica aos Recém-iluminados', de São Cirilo de Jerusalém, século IV)

quarta-feira, 23 de maio de 2018

A SANTIDADE DA CONVIVÊNCIA DIFÍCIL

'Há na comunidade uma irmã que tem o talento de me desagradar em todas as coisas; os seus modos, as suas palavras, o seu caráter eram-me muito desagradáveis. No entanto é uma santa religiosa que deve ser muito agradável ao bom Deus; assim, não querendo ceder à antipatia natural que sentia, disse a mim própria que a caridade não devia ser composta por sentimentos, mas por obras. 

Decidi então fazer por esta irmã aquilo que faria pela pessoa que mais amasse. Cada vez que a encontrava rezava ao Senhor por ela, oferecendo-lhe todas as suas virtudes e méritos. Sentia que isso agradava a Jesus, pois não existe artista que não goste de receber louvores pelas suas obras e Jesus, o artista das almas, fica feliz quando não nos detemos no exterior mas, penetrando até ao santuário íntimo que Ele escolheu para morar, admiramos a sua beleza. Não me contentava em rezar muito pela irmã que me suscitava tantos combates, obrigava-me a fazer-lhe todos os favores possíveis e, quando tinha a tentação de lhe responder de modo desagradável, contentava-me em lhe fazer o meu sorriso mais amável e fazia por desviar a conversa. 

E também muitas vezes, tendo algumas relações de trabalho com essa irmã, quando os embates eram demasiado violentos, fugia como um desertor. Como ela ignorava totalmente o que eu sentia por ela, nunca desconfiou dos motivos da minha conduta e continua persuadida de que o seu caráter me agrada. Um dia, no recreio, disse-me mais ou menos estas palavras com um ar muito contente: 'Pode dizer-me, irmã Teresa do Menino Jesus, o que a atrai tanto em mim, pois de cada vez que olha para mim vejo-a sorrir?' Ah, o que me atraía nela era Jesus, escondido no fundo da sua alma, pois Jesus torna doces as coisas mais amargas'.

(Santa Teresa de Lisieux)

terça-feira, 22 de maio de 2018

DA VIDA ESPIRITUAL (96)


Qual é o valor do ouro escondido no fundo da terra? De que vale ser ouro se ouro realmente não pode ser, uma vez enterrado como um inútil tesouro? A virtude vale muito mais que o ouro, mas a virtude escondida é também um tesouro inútil. De que adianta a virtude manter-se enterrada no coração humano e não brilhar muito mais que o ouro? 

O ouro escondido na terra precisa ser escavado, moído, tratado e fundido, para virar ouro de verdade. A virtude também precisa ser achada, vivida, cuidada e igualmente polida. No cadinho de metal, o ouro é finalmente ouro ao ser tocado pelo fogo. No cadinho da alma, a virtude é finalmente virtude ao ser incensada pelo fogo da caridade. Porque a caridade é a mãe de todas as virtudes.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

CATEQUESES SOBRE O BATISMO (II)


Catequeses Mistagógicas ('de Formação') para Recém-Batizados

(São Cirilo de Jerusalém)

Segunda Catequese: A Celebração do Batismo

1. Úteis vos são as cotidianas mistagogias e os novos ensinamentos que vos anunciam novas realidades, e isto tanto mais a vós que fostes renovados do passado para a novidade. Por isso é necessário que vos proponha o que se segue à instrução mistagógica anterior, a fim de que compreendais a significação simbólica do que foi realizado por vós no interior do edifício.

2. Logo que entrastes, despistes a túnica. E isto era imagem do despojamento do velho homem com suas obras. Despidos, estáveis nus, imitando também nisso a Cristo, nu sobre a cruz. Por sua nudez despojou os principados e as potestades e no lenho triunfou corajosamente sobre eles. As forças inimigas habitavam em vossos membros. Agora já não vos é permitido trazer aquela velha túnica, digo, não esta túnica visível, mas o homem velho corrompido pelas concupiscências falazes. Oxalá a alma, uma vez despojada dele, jamais torne a vesti-la, mas possa dizer com a esposa de Cristo, no Cântico dos Cânticos: 'Tirei minha túnica, como irei revesti-la?'. Ó maravilha, estáveis nus à vista de todos e não vos envergonhastes. Em verdade éreis imagem do primeiro homem Adão, que no paraíso andava nu e não se envergonhava.

3. Depois de despidos, fostes ungidos com óleo desde o alto da cabeça até os pés. Assim, vos tornastes participantes da oliveira cultivada, Jesus Cristo. Cortados da oliveira bravia, fostes enxertados na oliveira cultivada e vos tornastes participantes da abundância da verdadeira oliveira. O óleo era símbolo, pois, da participação da riqueza de Cristo. Afugenta toda presença das forças adversas. Como a insuflação dos santos e a invocação do nome de Deus, qual chama impetuosa, queima e expele os demônios, assim este óleo recebe, pela invocação de Deus e pela prece, uma tal força que, queimando, não só apaga os vestígios dos pecados, mas ainda põe em fuga as forças invisíveis do maligno.

4. Depois disto fostes conduzidos pela mão à santa piscina do divino batismo, como Cristo da cruz ao sepulcro que está à vossa frente. E cada qual foi perguntado se cria no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. E fizestes a profissão de fé, e fostes imersos três vezes na água e em seguida emergistes, significando também com isto, simbolicamente, o sepultamento de três dias de Cristo. E assim como nosso Salvador passou três dias e três noites no coração da terra, do mesmo modo vós, com a primeira imersão, imitastes o primeiro dia de Cristo na terra, e com a imersão, a noite. Como aquele que está na noite nada enxerga e ao contrário o que está no dia tudo enxerga na luz, assim vós na imersão, como na noite, nada enxergastes; mas na emersão, de novo vos encontrastes no dia. E no mesmo momento morrestes e nascestes. Esta água salutar tanto foi vosso sepulcro como vossa mãe. E o que Salomão disse em outras circunstâncias, sem dúvida, pode ser adaptado a vós: 'Há tempo para nascer e tempo para morrer' (Ec 3,2). Mas para vós foi o inverso: tempo para morrer e tempo para nascer. Um só tempo produziu ambos os efeitos e o vosso nascimento ocorre com vossa morte.

5. Oh! fato estranho e paradoxal! Não morremos em verdade, não fomos sepultados em verdade, não fomos crucificados e ressuscitados em verdade. A imitação é uma imagem; a salvação, uma verdade. Cristo foi crucificado, sepultado e verdadeiramente ressuscitou. Todas estas coisas nos foram agraciadas a fim de que, participando por imitação de seus sofrimentos, em verdade logremos a salvação. Oh! amor sem medida! Cristo recebeu em suas mãos imaculadas os pregos e padeceu, e a mim, sem sofrimento e sem pena, concede graciosamente por esta participação a salvação.

6. Ninguém, pois, creia que o batismo só obtém a remissão dos pecados, como o batismo de João só conferia o perdão dos pecados. Também nos concede a graça da adoção de filhos. Mas nós sabemos, com precisão, que como é purificação dos pecados e prodigalizador do dom do Espírito Santo, é também figura da Paixão de Cristo. Por isso clama a propósito Paulo, dizendo: 'Ou ignorais que todos nós, que fomos batizados para Cristo Jesus, fomos batizados para [participar da] sua morte? Com ele fomos sepultados pelo batismo' (Rm 6,3). Talvez dissesse estas coisas por causa de alguns, dispostos a ver o batismo como prodigalizador da remissão dos pecados e da adoção, mas não como participação, por imitação, dos verdadeiros sofrimentos de Cristo.

7. Para que aprendêssemos que tudo o que Cristo tomou sobre si foi por nós e pela nossa salvação, tudo sofrendo em verdade e não em aparência e para que nos tornássemos participantes dos seus sofrimentos, exclamava veementemente Paulo: 'Se fomos plantados com [Ele] pela semelhança de sua morte, também o seremos pela semelhança de sua ressurreição' (Rm 6,5). Boa é a expressão 'plantados com Ele'. Logo que foi plantada a verdadeira vida, nós também pela participação do batismo da sua morte 'fomos plantados'. Fixa a mente com toda a atenção nas palavras do Apóstolo. Não disse: Fomos plantados com Ele pela morte, mas, pela semelhança da morte. Deveras, houve em Cristo uma morte real, pois a alma se separou do corpo. Houve verdadeiramente sepultamento, pois seu corpo sagrado foi envolvido em lençol limpo e foi verdadeiro tudo o que nele ocorreu. Para nós há a semelhança da morte e dos sofrimentos. Quando se trata da salvação, porém, não é semelhança e sim realidade.

8. Todas estas coisas foram ensinadas suficientemente: retende tudo em vossa memória, rogo-vos, para que eu, ainda que indigno, possa dizer-vos: 'Amo-vos porque sempre vos lembrais de mim e conservais as tradições que vos transmiti'. Ademais, poderoso é Deus que de mortos vos fez vivos, para conceder-vos que andeis em novidade de vida. A Ele a glória e o poder, agora e pelos séculos. Amém.

('Segunda Catequese Mistagógica aos Recém-iluminados', de São Cirilo de Jerusalém, século IV)