terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

TRÊS REFLEXÕES PARA A QUARESMA 2021 - I

SOBRE O NÚMERO DOS ELEITOS

Pois bem! exclama a razão, poucos serão os eleitos? Perder-se-á eternamente a multidão do gênero humano? Seria frustra para a maioria da humanidade a redenção que o sangue de Jesus Cristo operou? Seria a misericórdia de Deus dalgum modo vencida pela justiça divina? Recolheria ela apenas poucos eleitos e deixaria cair no abismo eterno a avalancha dos condenados?

Assim fala a razão, seguindo o impulso da sensibilidade natural. Ora essa linguagem não é sóbria nem judiciosa. O número dos eleitos é uma questão de fato, sobre que o raciocínio perde todos os direitos. Dá-nos a Sagrada Escritura – expressão do pensamento divino – algum esclarecimento sobre o problema dos destinos humanos? Eis o que se deve buscar com espírito submisso, e uma vez exposta à luz meridiana a resposta da Sagrada Escritura, à razão só lhe cabe inclinar-se e adorar.

Na Sagrada Escritura se encontram a respeito do problema dos eleitos textos concordantes que sempre nos pareceram peremptórios.

Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição e muitos são os que entram por ela. Que estreita é a porta, e que apertado o caminho que conduz à vida, e quão poucos são os que acertam com ele (Mt 7, 13-14).

São muitos os chamados, e poucos os escolhidos (Mt 20, 16 e 22, 14).

E alguém lhe perguntou: 'Senhor, são poucos os que se salvam?' E ele disse-lhes: 'Esforçai-vos por entrar pela porta estreita (da penitência); porque vos digo que muitos procurarão entrar, e não o poderão' (Lc 13, 23-25).

Ao nosso ver, as declarações do Salvador são de uma clareza indubitável. Como negar que não se está falando da salvação das almas? Estão abertos os dois caminhos: o largo que conduz à perdição, e o apertado que conduz à vida. E é com dor que Nosso Senhor atesta, numa concepção abrangente, que muitos caminham no primeiro e poucos seguem o segundo.

E se alguém alegar que a misericórdia divina há de impedir à beira do abismo a maioria dos homens que nele se precipita? Nosso Senhor destroçou essa ilusão, quando à pergunta dos discípulos: 'São poucos os homens que se salvam?', respondeu ele: 'Procurai entrar pela porta estreita; porque, digo-vos, muitos procurarão entrar e não o conseguirão'. Assim quem não se esforça a fim de entrar pela porta estreita, não há de ser um esforço tardio que lhe vai permitir a entrada, ficando deste modo do lado de fora.

Esses textos se nos apresentam – nunca é demais repetir – com tal clareza que nenhuma agudeza os poderia obscurecer. Mas é preciso interpretar a Sagrada Escritura de acordo com o ensinamento da Igreja que, revigorando-se a cada época, constitui a chamada Tradição. Em qualquer ponto em que haja ambiguidade, a Tradição em último caso fixa a doutrina que os fiéis devem considerar de fato como a palavra de Deus. Se o problema é o número dos eleitos – consultemos a Tradição.

Se a voz dos primeiros padres, dos doutores da Igreja, dos escolásticos da Idade Média, dos teólogos e dos célebres pregadores modernos nos declara que os eleitos, i. e. os salvos, são poucos em relação aos condenados, é evidente que o problema está resolvido. A Sagrada Escritura de per si já era bem clara; por seu lado, a Tradição não permite que nos desviemos do sentido óbvio dos textos, por isso estabelece de uma vez para sempre a interpretação e a impõe como regra para os cristãos.

... Os dois caminhos – o largo e o apertado – que Nosso Senhor descreveu no Evangelho reaparecem a todo instante nos escritos da época apostólica. Os antigos autores os simbolizavam na forma da letra Y, que designava uma bifurcação. O documento velhíssimo intitulado Doutrina dos Doze Apóstolos [Didaqué] começa com a parábola dos dois caminhos: o caminho de luz e o de morte e trevas.

Nas homilias atribuídas a São Clemente, lê-se o seguinte: Existem dois caminhos. Um é o caminho dos que perecem: ele é largo e plano, e nele nos perdemos sem cansaço; o outro é o caminho dos salvos: ele é estreito e acidentado, e com muito trabalho nos conduz à salvação.(Hom. VII)

A epístola atribuída a São Barnabé contém o mesmo ensinamento: Há dois caminhos: um de luz e outro de trevas. Grande é a diferença entre eles. O primeiro está marginado pelos anjos de Deus, e o segundo pelos anjos de satã. O autor descreve as obras opostas pelas quais se vão a um ou a outro caminho. Ele chama claramente o segundo de 'o caminho da morte eterna e do suplício infindo' (II Pars. C. XVIII.)

A parábola dos dois caminhos estava de tal forma gravada no espírito dos herdeiros imediatos da Tradição Apostólica que Clemente de Alexandria a insere logo no início de sua obra: Um é apertado, porque o encurtaram os mandamentos e as proibições; o outro é largo e espaçoso, porque nele se dá plena liberdade à voluptuosidade e à cólera. Pitágoras aqui nos proíbe de seguir o sentimento da multidão que, segundo ele, é amiúde temerário e absurdo (Strom., lib. V, c. 5) .

Orígenes não é menos claro ao explicar os dois caminhos e o pequeno número relativo de cristãos verdadeiros. Agora que nos multiplicamos, tornou-se difícil que todos sejamos verdadeiramente bons, e impossível que a palavra de Jesus – muitos serão chamados, e poucos os escolhidos – não se cumpra: dentre as pessoas que professam a fé cristã, poucas encontramos que tenham verdadeira fé e sejam dignas da beatitude (Hom. IV. in Jer.).

Até o poeta semi-cristão Ausônio menciona duas vezes em seus versos a letra simbólica Y, e descreve as duas rotas em que se abre esta bifurcação. Escreveu Lactâncio, para instrução do imperador Constantino, um tratado inteiro sobre os dois caminhos que, à semelhança da letra Y, representam o curso bifurcado das vidas humanas. Um braço dobra para o oriente e indica a boa vida; o outro para o ocidente e indica a vida má; só quem segue a justiça e a verdade há de receber a recompensa imortal e entrará na posse da luz eterna. Ora, segundo o Salvador, o número dos que caminham nesta direção é pequeno (Inst., lib. VI, c. 3). São Jerônimo menciona essa obra de Lactâncio, e também se serve do simbolismo da letra Y, 'que, observa ele, representa uma bifurcação da vida, que se orienta à direta ou à esquerda' (Epist. LVXI ad Pam., CVII ad Laet).

Nós como que amontoamos estes textos concordantes dos primeiros Padres, a fim de deixar claro que o pensamento deles estava mui apegado às palavras de Nosso Senhor, às quais consideravam as mais austeras e práticas; não tinham eles dúvidas de que tais palavras indicavam manifestamente a salvação ou a perdição das almas. Que respondem os modernos, segundo os quais essa célebre passagem do Salvador aludiria tão-somente ao reduzido número de judeus que aceitariam o ensinamento e entrariam na Igreja? Não era este o entendimento dos antigos Padres, que enxergavam nesta doutrina a apreciação do Salvador relativa aos caminhos opostos da vida humana; portanto, essas palavras ainda são atuais. Agora vamos apresentar citações taxativas dos Padres sobre o pequeno número dos eleitos.

Tertuliano: 'Nem todos são salvos, apenas uns poucos judeus e cristãos'

Santo Irineu: 'Tanto hoje em dia quanto no tempo do Antigo Testamento, Deus não se agrada do grande número: muitos serão os chamados mas poucos os escolhidos' (Contra haer., c. XXXVI.)

Santo Hilário: 'Toda carne será julgada; bem-aventurado serão os escolhidos, pois segundo o Evangelho muitos serão os chamados mas poucos os escolhidos' (Enar. in Psal., LXIV.)

São Basílio faz uma exortação sobre o comportamento do religioso: 'Fica ao lado dos poucos. O bem é raro: apenas uns poucos entram no reino dos céus. Não acredites que quem habita nas celas está salvo, a despeito da boa ou má vida que leva' (Sermão da renúncia do século; PG 31, 646.)

Santo Efrém comenta no mesmo sentido sobre a porta estreita e o caminho apertado. São Gregório Nazianzeno chama aqueles que se perdem de poeira infinita, em comparação com os vasos de eleição. (Sermão 42 para 150 bispos; PG 36, 467). Santo Ambrósio, à pergunta do salmo 'Senhor, quem habitará em vosso tabernáculo, quem repousará na vossa montanha santa?', responde: 'Alguém será, mas poucos; non utique nullus, sed rarus' (In Apol. pro Davide, c. IX.)

Ao pregar para o povo de Antioquia, exclamava São João Crisóstomo: Quantos pensais que se irão salvar nesta cidade nossa? O que vou dizer é doloroso, mas ainda assim vou dizê-lo. Entre tantos milhares de pessoas, não haverá cem que serão salvas; e mesmo assim não estou certo desse número: a perversidade é muita entre os moços, e muita a negligência entre os velhos. (Homilia 24 acerca dos Atos dos Apóstolos; PG 60, 189)

... De acordo com a palavra do Salvador, haverá tanta penúria de santos – muitos serão os chamados, mas poucos os escolhidos – que seu minguado número é comparado às raríssimas oliveiras que ficam de pé após serem sacudidas e colhidas: ou então aos cachos, ou antes, aos bagos espalhados que os pobres se põem a catar depois da vindima (In Isai., c. XXIV, 13-14; PL 24, 294.)

Mais adiante vamos transcrever longos trechos de Santo Agostinho a respeito do número dos salvos. Por enquanto nos basta a transcrição da passagem seguinte, que é mui significativa: Decerto são poucos os que se salvam. Recordai-vos da pergunta que está nos Evangelhos: 'Senhor, são poucos os que se salvam?' Que respondeu o Senhor? Ele não disse: não vos amofineis, pois os salvos são muitos! Não, ele não disse isso. E o que foi que disse? 'Esforçai-vos por entrar pela porta estreita'. Ao falar assim, confirma o que se acabou de escutar. São poucos os que passam pela porta estreita. Mais ainda, disse ele: 'Estreita é a porta e apertado o caminho da vida e raros os que acertam com ele'. De que nos serve desfrutar com as multidões? Escutai-me, vós que sois poucos. Sois muito inclinados a me escutar, mas pouco a me obedecer. Eu vos peneiro e cato os grãos de trigo, mas é raro enxergar algum grão quando bate o vento: no entanto, toda a palha é vã. São poucos os que se salvam, se comparados aos muitos que perecem (Sermão 106, ou De Verbis Domini 32; PL 38, 641-642.)

São Leão Magno explica também – e sem hesitar – a parábola do Senhor acerca dos dois caminhos, e da imensidão daqueles que se perdem eternamente: Enquanto a multidão frequenta o caminho largo que conduz à morte, nas sendas da salvação só vemos as raras pegadas dos poucos que nele entram. (Sermão 49, c.2; PL 54, 302.). São Gregório Magno, entre outras passagens típicas, nos proporciona este fragmento dum sermão dirigido ao povo: Muitos vêm até a fé, mas poucos vão até o reino dos céus. Estais reunidos aqui em grande número para a presente solenidade; lotais o recinto desta igreja: quem sabe quão poucos dentre vós são os escolhidos de Deus? (Homilia sobre o Evangelho 19, pár.5; PL 76, 1157.)

Ainda há necessidade de citar os últimos Padres da Igreja, os doutores São Beda o Venerável, São Pedro Damião, Santo Anselmo e São Bernardo? Neles se encontra exatamente a mesma linguagem e maneira de interpretar a Santa Escritura. Santo Anselmo em particular é bem instrutivo; escreve ele aos seus discípulos Odão e Lanzão: Estamos certos de que entre os muitos chamados existem poucos escolhidos, pois a Verdade assim o disse; mas quão poucos, nós não temos certeza, pois a Verdade não o disse. Por isso quem não viva ao estilo do pequeno número, quem não se corrija e se ponha de par com o pequeno número, esteja certo da condenação. Quanto a quem esteja com o pequeno número, não se sinta seguro da eleição, uma vez que ninguém sabe ao certo se faz ou não parte do número dos escolhidos, embora sua vida já se assemelhe à do pequeno número e difira da vida da multidão dos chamados (Epist. II, lib. I; PL 158, 1065.)

Conclusão: em qualquer estado, esforcemo-nos para ficar cada vez mais seguros da eleição. Nesses mesmos termos escreve o santo doutor à condessa Ida (Epist., XVIII, libr. III; PL 159, 43). Era-lhe muito cara essa recomendação, que lhe parecia importantíssima. Assim são unânimes os Padres: unânimes acerca da afirmação do pequeno número dos eleitos e do grande número dos condenados; unânimes na interpretação dos textos da Santa Escritura em torno do assunto.

Para eles a sentença escriturária 'Muitos serão os chamados, mas poucos os escolhidos' dirige-se ao pequeno número dos salvos; para eles não existe a fantasiosa distinção entre escolhidos e salvos; no ensinamento deles ambos os termos são idênticos. Para eles os dois caminhos, o caminho largo e o caminho apertado, são os caminhos que conduzem os homens à perdição eterna ou à salvação eterna; para eles a resposta de Nosso Senhor à pergunta: 'São poucos os homens que se salvam?' é sem dúvida afirmativa.

Nunca os Padres tiveram contato com as explicações ambíguas e enviesadas de alguns modernos, segundo as quais – como já dissemos – Nosso Senhor simplesmente aludira ao estado do judaísmo coetâneo e ao ingresso dos judeus na Igreja que Ele fundara. Longe de pensar que esses textos já se não aplicam a nós – o que seria aborrecer e destruir a virtude da Palavra Divina, que pertence a todos os tempos e lugares – ensinaram os Padres que eles se dirigem a todos nós, conforme a intenção do Salvador, que era indicar as precondições da salvação; logo devemos tê-los sempre diante dos olhos e meditá-los.

Por conseguinte, não hesitavam em pregar às gentes o número relativamente pequeno dos eleitos, i. e., dos salvos. Propunham-se, deste modo, a inspirar nos ouvintes um temor salvífico. Diziam: 'Rompei com o mundo, separai-vos da multidão para não perecer com ela, que caminha para a perdição por caminhos licenciosos; esforçai-vos para chegar à vida pelo caminho do sacrifício'. Quem ousaria ir contra uma linguagem diametralmente oposta à dos Padres da Igreja?

(Pe. Bernard Marechaux, excertos de artigo publicado originalmente no site Permanência)

Observação (do autor do blog): são palavras duras e, mais que duras, verdadeiras e amparadas pela mais sólida Tradição da Igreja. Ai dos homens que serão julgados pela justiça divina! Existe, diante de tudo isso, uma opção, uma opção a ser adotada como regra de vida: colocar a disposição completa de nossas vidas aos cuidados e proteção da misericórdia infinita do Coração de Jesus, sob a intercessão diária e constante da Virgem Santíssima. Esse é o caminho seguro, mais fácil e mais confiável de todos para entrar pela porta estreita. E oração, muita oração, pelos que não trilham estes caminhos!

QUARESMA 2021

Amanhã tem início a Quaresma de 2021, marcada e inserida em tempos particularmente difíceis e angustiantes para a humanidade. Eis o tempo da conversão, eis o tempo precioso e uma oportunidade única para uma verdadeira conversão e para uma vivência segura e consciente da nossa fé cristã. O blog apresenta nesta semana três profundas reflexões sobre este período singular, profundamente distintas do arrazoado ecumênico atual que tanto camufla e entorpece a doce doutrina de Cristo. Na aba lateral, são indicadas várias outras reflexões que são bastante características para este período de oração e  penitência, listadas sob o título 'Leituras para os Tempos da Quaresma'. Boas leituras e ótimas reflexões a todos para que sejamos cristãos autênticos e fieis servidores da Santa Igreja de Cristo!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

HISTÓRIAS QUE OUVI CONTAR (XXI)

Eis a visão que tive em Matspo naquele crepúsculo inglório: pensei ter visto milhares e milhares - milhões de milhões - de formigas movendo como um organismo único e flexível sobre uma encosta gigantesca. O exército colossal de formigas se arremetia sobre uma planície aberta ao pé da encosta, enquanto se nutria e continuava, sem lacuna alguma, de novas frentes tremendas que afluíam e se projetavam, em hordas repentinas e sucessivas, sobre o alto da colina que engolia por completo o horizonte. Não havia céu, nem sol, nem nuvens, nem terra: apenas a dimensão ilimitada da visão única diante dos meus olhos, como uma visão apocalíptica do nada.

Estava eu em algum ponto indefinido e a tal distância da colina que me era impossível discernir quaisquer elementos ou especificidades da visão: tudo era um borrão cinematográfico onde a única percepção possível era a de um movimento singular e absolutamente regular de uma massa que nascia, deslizava e se espraiava numa avalanche controlada e que avançava em velocidade incalculável em minha direção. Não se viam formigas, nem grupos de formigas, nem divisões formadas por formigas; o que se via era o todo como se não houvesse partes e nem frações movendo como um organismo em tsunami diante dos meus olhos petrificados nas órbitas. 

Havia alguma coisa - ou alguém? - ao meu lado, um pouco atrás de mim, e essa sensação era tão forte e tão sensível quanto a própria visão. Mas, como meus olhos, meu corpo estava imobilizado de qualquer vontade ou reação. Meu corpo se resumia nos meus olhos fixados na avalanche desmedida que se empurrava contra mim num cenário descomunal: sem saídas, sem rotas de fuga, sem alternativa alguma, sem refúgio possível, sem uma mínima possibilidade de me curvar, virar, deitar, correr ou fugir. E aquilo vinha, em velocidade inimaginável, diretamente na minha direção. 

Eu e meu corpo morto tínhamos apenas uma posse: a visão do infinito contra um ponto no vazio. E ainda mais, a certeza de algo ou alguém do meu lado, cuja presença me era óbvia e sensível, mas cujo significado não detinha qualquer explicação ou percepção. A nuvem começou a ter então espasmos de sombras, o volume passou a assumir contornos finitos e ovalados. E eu comecei a ter as dores do parto medonho do medo. Aquilo era muito além do pesadelo mais tenebroso que ousasse imaginar.

Minhas retinas gemeram de pavor quando simplesmente compreendi que as formas em movimento - as milhões de formas em movimento ordenado - não eram formigas! Não eram formigas e nem eram bandos ou manadas de animais desembestados em fúria colina abaixo: eram... fetos! Fetos, milhões e milhões de fetos, unidos como organismo vivo numa procissão horripilante. Milhões de fetos abortados, milhões de fetos que nunca nasceram, milhões e milhões de fetos que foram criados mas que nunca viveram. Eu sabia tudo sobre eles, como médico; eles sabiam tudo sobre mim, como vítimas das dezenas e dezenas de abortos que fizera. 

A multidão dos não nascidos agora transformada num plasma vivo de extensão infinita vinha sobre mim, com um juízo mais pesado que montanhas de chumbo. E agora eu percebia que não havia alguém apenas do meu lado mas, ainda que não pudesse me virar, pressenti a multidão de homens e mulheres atrás de mim, enfileirados como estátuas preenchidas de vazio e de pavor, todos vivos apenas para a visão dos mortos. E, mais do que nunca, com o brilho do cristal de maior pureza, tive a certeza absoluta de que havia uma encosta íngreme atrás de mim e um abismo sem fim ao final da encosta. E que aquele abismo seria preenchido por estátuas de vazio e de pavor.  

('Histórias que Ouvi Contar' são crônicas do autor deste blog)

domingo, 14 de fevereiro de 2021

EVANGELHO DE DOMINGO

  

'Sois, Senhor, para mim, alegria e refúgio' (Sl 31)

 14/02/2021 - Sexto Domingo do Tempo Comum

12. 'EU QUERO, FICA CURADO!'


No tempo de Jesus, os leprosos eram tomados como homens ímpios e imundos; a terrível doença era a simples manifestação externa de pecados gravíssimos ocultos. A exclusão social os exilava em grupos fora das cidades; o temor e o desprezo dos homens acompanhavam as suas chagas visíveis e outras muito piores que não se revelavam fisicamente. As vestes imundas tentavam esconder a lepra do corpo, que devia ser proclamada, em altos brados, a todos os passantes: 'Impuro, impuro!' Um leproso, porém, ousou sobrepor a sua fé a todos os ditames e regulações extremas da lei vigente e vai ao encontro de Jesus e O interpela em súplica confiante: 'Se queres, tens o poder de curar-me' (Mc 1, 40).

Reconhecido de suas misérias e limitações, a fé daquele homem expressa-se em fluxos de humildade e resignação. Mas vai muito além disso; libertando-se das amarras de sua triste e perversa condição humana, manifesta publicamente a sua crença confiante na autoridade e na misericórdia de Jesus, não apenas para afastar os males, mas para fazer milagres para suprimi-los. Aquele homem crê profundamente que Jesus tem o poder divino de fazer a cura impensável e, nessa crença, modela uma das mais belas profissões de fé descritas nos Evangelhos: 'Se queres, tens o poder de curar-me' (Mc 1, 40).

Jesus, movido de compaixão, determinou prontamente: 'Eu quero: fica curado!' (Mc 1, 41). Jesus demonstra, assim, o poder extremado da graça em reação a uma oração fervorosa e confiante. Mas, a ação de Jesus vai além das primeiras aparências pois, ao tocar aquele homem, a lepra já havia desaparecido. Jesus não toca apenas um corpo livre das chagas e sequelas de uma doença repulsiva, mas a alma purificada de um homem livre da doença do pecado. As multidões que cercam Jesus buscam, em maior grau, os fatos que lhes sensibilizam os instintos. Mas a glória de Deus é manifestada ali muito além das coisas sensíveis.

É o pecado que inocula uma lepra na alma e a priva da graça santificante, das virtudes e dos bens espirituais e, assim, a exclui, não por um tempo da sociedade dos homens, mas da herança eterna das bem aventuranças de Deus. É a cura da alma que nos deve forjar a ousadia da fé ao irmos ao encontro de Jesus pelos caminhos da vida. Que, a exemplo do leproso, a nossa fé possa superar, então, a barreira dos instintos e suplicar a Deus, mais do que tudo, a cura espiritual, para que sejamos homens limpos e santos na peregrinação dos eleitos à pátria celeste.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

O MILAGRE DA EVACUAÇÃO DE DUNQUERQUE

A Evacuação de Dunquerque constitui um dos grandes eventos épicos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial. A França foi ocupada numa operação blitzkrieg [guerra-relâmpago] das divisões alemãs no início de maio de 1940, através da fronteira com a Bélgica. Na invasão, os alemães imprimiram derrotas avassaladoras sobre as tropas aliadas em batalhas sucessivas, que permitiram um avanço muito rápido do exército alemão pelo norte da França e que culminou na conquista de todos os portos ao longo do Canal da Mancha. Acuados e empurrados pelo exército alemão, as tropas aliadas se entrincheiraram no porto de Dunquerque, ao longo de uma estreita faixa de mar separando o continente e a Inglaterra, como único e último refúgio disponível contra a morte ou captura pelo inimigo.


Em pouco tempo, um contingente gigantesco de tropas aliadas (formado basicamente por soldados britânicos e franceses) ficou encurralado na praia de Dunquerque e a operação de resgate e evacuação desse exército ficou conhecida como 'Operação Dínamo', que mobilizou inicialmente grandes navios e contratorpedeiros que, em função do grande porte, não tinham como acessar a praia para efetuar o resgate dos soldados e tiveram, então, que permanecer em compasso de espera em alto mar. Centenas de embarcações menores (essencialmente barcos civis) foram mobilizadas em tempo recorde para a transferência dos soldados da praia até os navios ancorados em alto mar. No período entre 26 de maio e 04 de junho de 1940, cerca de 340.000 soldados (de um total estimado de 400.000 homens) atravessaram o canal e chegaram em segurança à Inglaterra.


A questão clássica colocada pelos registros históricos do evento, muitas vezes abordada pelo contexto de um 'milagre', é como tal travessia de magnitude tão extremada foi possível. Os soldados amontoados na praia, as pequenas embarcações e os grandes navios ancorados em alto mar constituíam alvos frágeis e completamente desprotegidos contra os ataques da Luftwaffe, a força aérea de Hitler. Por que essa operação de fuga não redundou então num massacre completo?


A resposta dos registros históricos é absolutamente simplista: 'porque Hitler evitou isso mandando abortar a ofensiva aérea e o avanço dos panzers [tanques de guerra alemães], mesmo contra a opinião de muitos dos seus oficiais'. Dez de dez descrições atuais sobre o tema limitam-se a explicar o imponderável com essa justificativa insossa. A obra 'Dunkirk - A História Real por trás do Filme' (2017), de autoria de Joshua Levine, que aborda o evento à luz das filmagens de 'Dunkirk' (2017), filme dirigido por Cristopher Nolan, desmistifica esse cenário e joga por terra a teoria insossa de uma 'ponte dourada' para garantir a evacuação em massa dos soldados aliados:

'Ao longo dos anos, tem-se argumentado que a principal motivação de Hitler para deter os panzers era fornecer à BEF [Força Expedicionária Britânica] uma 'ponte dourada' para retornar em segurança para a Inglaterra. Que, em outras palavras, ele estava interessado em deixar a BEF escapar. Ninguém discutiu isso com mais insistência do que o próprio Hitler, depois que a maioria dos britânicos já tinha escapado. O chefe de gabinete de Rundstedt também fez essa afirmação depois da guerra. Ambos tiveram suas razões; Hitler para justificar seu erro de julgamento, o assessor de Rundstedt para isentar a si e a seu chefe. Não havia ponte dourada. A teoria é falsa e é um insulto aos soldados que escaparam e àqueles que os trouxeram para casa... dos cerca de novecentos navios e embarcações envolvidos na evacuação final, mais de um terço foram afundados ou danificados por bombas, minas, torpedos ou projéteis. Além disso, cerca de 3.500 soldados britânicos, marinheiros e civis foram mortos no mar ou nas praias entre 26 de maio e 4 de junho. Muitos mais foram mortos no perímetro de Dunkirk [transcrição do nome do porto para o inglês] pelas tropas de Hitler, que atacaram ferozmente. Afinal, que maneira melhor para forçar a mesa de negociações do que destruir um exército? Nenhum desses fatores sugere a existência de uma ponte dourada... Um relato sobre um navio-hospital sendo metralhado enquanto ajudava um aviador abatido é suficiente para dissipar qualquer suspeita de que Hitler estava permitindo que os britânicos escapassem. Histórias como essa deixam pouca evidência de pontes douradas sendo construídas em maio e junho de 1940'.

Se a explicação para um evento tão singular e extraordinário não é essa abordagem simplista e insossa, quais fatos realmente induziram a epopeia da evacuação de Dunquerque? A mesma obra dá pistas interessantes sobre fatos pouco conhecidos da Operação Dínamo, e sistematicamente não contemplados pelos registros históricos oficiais, pelas transcrições seguintes: 

'Estive no canal da Mancha, e é um braço de mar difícil. Para mim, o primeiro milagre de Dunkirk foi o clima. O que tornou tudo possível foi essa ridícula aparência de mar calmo, como o Canal nunca é. Não foi tão absurdo Hitler acreditar que a evacuação não teria como ser bem-sucedida: quem poderia esperar que alguém fosse conseguir atravessar o canal em um barco a remo?' [Joshua Levine, autor do livro].

Durante a filmagem, uma tempestade danificou o molhe reconstruído [especialmente para o filme] e arrancou a passarela de madeira no topo. 'O mar é poderoso'', contou Nathan [Nathan Crowley, produtor de design do filme], 'foi o que descobrimos. Foi uma grande preocupação'. Nosso engenheiro da Warner Brothers disse: 'É uma estrutura incrível, mais forte do que a maioria dos cais permanentes em que já estive'. Mas, como era uma estrutura aberta, as ondas bateram embaixo e arrebentaram as tábuas'...Chris [Cristopher Nolan, diretor do filme] e sua equipe não tiveram o bom tempo milagroso da evacuação, mas, se não ficaram satisfeitos historicamente, conseguiram satisfação artística: 'Tempo ruim fica muito melhor no filme', explicou Nathan, 'ter o sol no cinema não é bom, embora fosse mais historicamente verdadeiro'. 

A Luftwaffe, que foi impedida pelas condições climáticas naquele 28 de maio, também saiu prejudicada na manhã seguinte, cheia de nuvens baixas. Goering [Hermann Göring, comandante da Luftwaffe] ficou furioso mas, apesar de todo o seu poder, não conseguia fazer retroceder as nuvens. Entretanto, uma melhora no clima, ao meio-dia, permitiu que os alemães lançassem ataques maciços consecutivos, dois dos quais não encontraram resistência. Foi o dia em que o Crested Eagle afundou, bem como muitos outros navios, e o molhe foi erroneamente abandonado durante várias horas...


Por outro lado, 'na maior parte do tempo, nuvens baixas e chuvas tempestuosas ocasionais davam aos Aliados cobertura contra ataques aéreos alemães. Dos nove dias de evacuação, a Luftwaffe teve apenas dois dias e meio de condições claras de voo. O clima também desempenhou um papel importante nas operações marítimas, com ventos fracos que proporcionaram mar calmo ao longo do Canal, crucial para os pequenos barcos em particular'*. 

* (Weather eye: Low cloud and light winds aided Dunkirk evacuation, The Times, 26/05/2020)

O fato singular e extraordinário da evacuação de Dunquerque foi o clima - o bom tempo milagroso - que permitiu o mar calmo, o tráfego controlado e ordenado de centenas de pequenas, médias e grandes embarcações apinhadas de homens e na direção segura de uma mesma rota, enquanto, ao mesmo tempo, uma barreira de nuvens espessas e baixas impediu a ofensiva alemã em grande parte do tempo em que ocorreu o resgate por mar de milhares de homens. O Milagre de Dunquerque não foi obra da vontade de um genocida mas a intervenção direta da Providência Divina para fazer nascer ali o farol que iluminaria a Inglaterra e a resistência aliada para, mais tarde, derrotar definitivamente Hitler e o odioso regime nazista.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

TESOURO DE EXEMPLOS (49/51)


49. OS DOIS SOLDADOS

Foi na guerra de 1914-18. Um soldado francês narra o seguinte fato: 'Nunca me esquecerei de um episódio, que eu mesmo presenciei. Atacamos à tarde; depois de algumas oscilações, penetramos na trincheira inimiga, onde jaziam cadáveres horrendamente massacrados pelos canhões.

No momento do novo ataque, uma metralhadora inimiga camuflada abateu alguns dos nossos; eu fui um deles. Passados os primeiros instantes de terrível impressão pelo ferimento recebido, olhei ao redor. Dois soldados jaziam por terra agonizantes: um alemão, bávaro, louro e muito moço, com o ventre dilacerado e, ao lado dele, um francês, igualmente jovem. Ambos manifestavam já a palidez da morte; a minha maior dor era de não poder mover-me para socorrer ou ao menos suavizar a morte do meu camarada.

Foi quando o francês, com supremo esforço, procurou com a mão alguma coisa que estava sobre o peito, debaixo do capote. E tirou um pequeno crucifixo que levou aos lábios; depois, com voz fraca, mas ainda clara, rezou: Ave, Maria...

Vi então outra coisa. O alemão, que até aquele momento não dera sinal de vida, abriu os olhos azuis e meio apagados, virou a cabeça para o francês e respondeu: Santa Maria Mãe de Deus... O francês, um tanto, surpreendido, olhou para o seu vizinho; seus olhares encontraram-se; o francês apresentou o crucifixo ao bávaro, que o beijou; apertaram-se as mãos num frêmito de amor a Deus e à pátria; seus olhos fecharam-se, e o espírito desprendeu-se do corpo, enquanto o sol os iluminava através de purpúreas nuvens... Amém, disse em seguida, e fiz o sinal da cruz'.

50. O SORRISO DA IMACULADA

Quatro anos após a definição do dogma da Imaculada Conceição, Nossa Senhora se dignou baixar à terra para confirmar de um modo estupendo a declaração do Papa Pio IX, de santa memória. Foi em Lourdes, na França, que Nossa Senhora apareceu repetidas vezes à inocente Bernadete e, na última aparição, disse: 'Eu sou a Imaculada Conceição'. Quem refere o seguinte episódio não é nenhum devoto, nem sequer bom cristão. Ele escreve: 

'Quando já se falava muito das aparições de Lourdes, achava-me em Cauterets, povoação próxima de Lourdes, mais para distrair-me do que para curar-me. Achei graça ao ouvir que a Virgem sorrira para Bernadete e resolvi ir a Lourdes para ver a Vidente e surpreendê-la na mentira. Fui a casa dos Soubirous e encontrei Bernadete sentada à porta cerzindo umas meias. Pareceu-me o seu rosto bastante vulgar; apresentava sinais de enfermidade crônica ao par de muita doçura. A instâncias minhas contou-me as aparições com toda a simplicidade e convicção.

➖ Mas é verdade que a Virgem sorriu?
➖ Sim, sorriu.
➖ E como sorria?
A menina olhou-me com ar de espanto, e disse:
➖ Mas, senhor, seria preciso ser gente do céu para repetir aquele sorriso.
➖ Não o poderia repetir para mim? Sou incrédulo e não creio nas aparições.

O rosto de Bernadete tornou-se triste e severo.
➖ Então julga o senhor que menti?

Senti-me vencido. Não, aquela menina tão cândida não podia mentir. Ia pedir-lhe desculpas, quando ela acrescentou:
➖ Bem; se o senhor é um pecador, tentarei imitar o sorriso de Nossa Senhora.

A menina ergueu-se lentamente, juntou as mãos e um reflexo celeste iluminou seu rosto. Um sorriso divino, que jamais vi em lábios mortais, encantou os meus olhos. Sorria ainda, quando caí de joelhos, vencido pelo sorriso da Imaculada nos lábios da ditosa vidente. Desde aquele dia nunca mais se me apagou da imaginação aquele sorriso divino. Passaram-se muitos anos, mas a sua recordação enxugou-me muitas lágrimas ao perder a minha esposa e minhas duas filhas. Parece-me estar só no mundo e vivo do sorriso da Virgem'.

51. NÃO IREI DORMIR EM PECADO

Quando fez a sua primeira comunhão, tomou um menino a resolução de nunca ir dormir em pecado mortal na consciência. O seu propósito era: 'se tivesse a desgraça de cair em falta grave, irei confessar-me no mesmo dia e não irei para a cama antes de me haver conciliado com Deus'. Alguns meses mais tarde teve a fraqueza de cometer um tal pecado. Era sábado, fazia mau tempo e a igreja era distante. Ele dizia:
➖ Amanhã, quando for à missa, procurarei o confessor e me confessarei.

Lembrou-se, porém, de sua promessa e uma voz interior lhe diz:
➖ Faze o que prometeste, vai te confessar...

Contudo, não se resolvia ir e, nessa luta, ajoelhou-se e implorou o auxílio de Nossa Senhora, rezando uma Ave-Maria para que lhe fizesse conhecer a vontade de Deus. Apenas terminara a sua oração, sentiu-se mais vivamente impelido a ir confessar-se imediatamente. Levantou-se, correu à igreja e confessou-se.

De volta encontra-se com sua madrinha, que lhe pergunta de onde vem.
➖ Acabo de confessar-me, diz com rosto alegre e feliz: cometi um pecado e não quis ir dormir sem alcançar o perdão; agora, sim, tendo recuperado a graça de Deus, posso dormir tranquilo...

Sua mãe tinha o costume de deixá-lo dormir um pouco mais aos domingos; por isso não foi despertá-lo cedo. Às sete horas bate à porta, chama-o pelo nome. Não tem resposta. Passa um quarto de hora e o menino não aparece. Chama-o de novo, mas sem resultado algum. Inquieta, abre a porta, abeira-se da cama onde o filho jaz imóvel; pega-lhe, está fria; fixa-o um instante, dá um grito e desmaia. O menino estava morto! E se não tivesse ido confessar-se?

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)

ver PÁGINA: TESOURO DE EXEMPLOS

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

CAMPANHA DA ANTI-FRATERNIDADE 2021

 'por falta de pastor foram minhas ovelhas entregues à pilhagem, e serviram de pasto às feras, pois os meus pastores não têm o mínimo cuidado com elas' (Ez 34, 8)

(como a idolatria do ecumenismo pode não ter preço e nem limites)

De acordo com a ciência, a competência e o prestígio de que gozam, [os leigos] têm o direito e, às vezes, até o dever de manifestar aos pastores sagrados a própria opinião sobre o que afeta o bem da Igreja e, ressalvando a integridade da fé e dos costumes e a reverência para com os pastores, e levando em conta a utilidade comum e a dignidade das pessoas, deem a conhecer essa sua opinião também aos outros fiéis (CIC §907).

Neste contexto de reverência e dever moral, é impossível não contestar veementemente o documento base dessa já famigerada CF 2021, pelo que apresenta de erros doutrinários, conteúdo ideológico francamente oposto aos valores autênticos da fé cristã, conivência com absurdas e inaceitáveis proposições de relativismo moral de toda ordem e incensado pela heresia escancarada do irenismo [filosofia de união dos credos cristãos baseada numa moral pacifista de caráter geral e abrangente].

Uma pergunta crucial é saber exatamente o que faz a Igreja Católica estar metida nessa aberração chamada CONIC (Conselho Nacional de Igrejas do Brasil), cujos dirigentes são todos membros de outros credos cristãos, para promover campanhas de fraternidade ecumênicas com o intuito de 'valorizar o que cada Igreja tem de bom'? [a própria Nota Oficial emitida pela CNBB reconhece que o documento teve que ser escrito pelo 'modo ecumênico' e não pelo 'modo católico' para atender os parceiros do tal CONIC]. 'Valorizar o que cada Igreja tem de bom' significa ficar sempre refém de um texto-base que promove exatamente os valores que buscam denegrir e destruir a Igreja de Cristo? Valorizar, em nome desse ecumenismo absurdo e tolo, significa se comportar formalmente como os novos vendilhões do templo? 

Segundo o texto base, a CF 2021 convida 'comunidades de fé e pessoas de boa vontade para pensar, avaliar e identificar caminhos para a superação das polarizações e das violências que marcam o mundo atual'. Seria belo se não fosse trágico e caricato. Propõe-se, portanto, a superação de polarizações e violências impondo aos católicos, por princípio, a violação brutal de princípios autênticos da ÚNICA fé cristã verdadeira?

'Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor' significa o compartilhamento de todos numa unidade de amor que assume como premissa a exclusão peremptória do nome da Mãe de Deus de qualquer referência no texto-base? E acham mesmo que, fazendo tais concessões aos inimigos da Igreja e compartilhando com eles essa afronta a Deus, os católicos vão encontrar realmente numa iniciativa dessas a paz de Cristo? Pode ser até uma CF ecumênica [irênica], mas que na verdade constitui, por tudo que representa de negativo, uma autêntica campanha da anti-fraternidade para e com os próprios católicos. Que Deus nos valha!