terça-feira, 23 de julho de 2024

MUITO FAZ AQUELE QUE MUITO AMA

 


1. Por nenhuma coisa do mundo, nem por amor de pessoa alguma, se deve praticar qualquer mal; mas, em prol de algum necessitado, pode-se, às vezes, omitir uma boa obra, ou trocá-la por outra melhor. Desta sorte, a boa obra não se perde, mas se converte em outra melhor. Sem a caridade, nada vale a obra exterior; tudo, porém, que da caridade procede, por insignificante e desprezível que seja, produz abundantes frutos, porque Deus não atende tanto à obra, como à intenção com que a fazemos.

2. Muito faz aquele que muito ama. Muito faz quem bem faz o que faz. Bem faz quem serve mais ao bem comum que à sua própria vontade. Muitas vezes parece caridade o que é mero amor-próprio, porque raras vezes nos deixa a inclinação natural, a própria vontade, a esperança da recompensa, o nosso interesse.

3. Aquele que tem verdadeira e perfeita caridade em nada se busca a si mesmo, mas deseja que tudo se faça para a glória de Deus. De ninguém tem inveja, porque não deseja proveito algum pessoal, nem busca sua felicidade em si, mas procura sobre todas as coisas ter alegria e felicidade em Deus. Não atribui bem algum à criatura, mas refere tudo a Deus, como à fonte de que tudo procede, e em que, como em fim último, acham todos os santos o deleitoso repousar. Oh! Quem tivera só uma centelha de verdadeira caridade logo compreenderia a vaidade de todas as coisas terrenas!

(Da Imitação de Cristo, de Thomas de Kempis)

segunda-feira, 22 de julho de 2024

PALAVRAS ETERNAS (XIX)


'Como podes amar ao Senhor se amas a farsa e o vinho, as pompas do mundo e as suas vaidades enganosas? Aprende a não amar para que aprendas a amar; afasta-te, para poderes acercar-te; esvazia-te, para que possas encher-te da verdade'.

(Santo Agostinho)

domingo, 21 de julho de 2024

EVANGELHO DO DOMINGO

  

'O Senhor é o pastor que me conduz: felicidade e todo bem hão de seguir-me!' (Sl 22)

Primeira Leitura (Jr 23,1-6) - Segunda Leitura (Ef 2,13-18) -  Evangelho (Mc 6,30-34)

  21/07/2024 - DÉCIMO SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

33. A DUALIDADE DA GRAÇA


O Evangelho deste domingo reflete as dimensões opostas da vida cristã em comunidade e em isolamento, feitas das santas alegrias do convívio social ou moldadas pelas graças do recolhimento absoluto, tangidas pelo frenesi de multidões em marcha ou pelo silêncio contemplativo dos claustros mais inacessíveis. Como nos são diversos os desígnios do Senhor! Quão diversos são os caminhos e os meios que imprimem a santidade no coração e na alma daqueles que buscam sinceramente a Deus!

Os Apóstolos haviam sido enviados por Jesus em missão, 'dois a dois' (Mc 6,7), com a recomendação expressa de levarem muito pouca coisa: 'nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura' e nem 'duas túnicas' (Mc 6, 8 - 9) e providos pela graça do dom da cura e do 'poder sobre os espíritos impuros' (Mc 6, 7). E estes homens, pescadores sem erudição, sem alforge e sem preparos retóricos, cumpriram, com coragem heróica e humildade santa, os ditames proclamados pelo Mestre: levar a Boa Nova a todos os povos e a todas as nações! E, na santa alegria da primeira missão apostólica cumprida, retornam agora ao convívio do Senhor e, cheios de júbilo, 'contaram tudo o que haviam feito e ensinado' (Mc 6, 30).

No convívio do Senhor! Na santa alegria do convívio do Senhor e dos demais Apóstolos, as primícias da Igreja são matizadas naqueles tempos pioneiros da evangelização universal. Uma comunidade viva, moldada pelos princípios das sólidas virtudes da humildade, do despojamento, da fraternidade e da partilha. Uma comunidade que crescia, que exigia novas pregações, que demandava zelo e tempo... Jesus, então, chama os seus discípulos: 'Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco' (Mc 6, 31). No meio da multidão, Jesus os exorta a viver a outra dimensão da realidade cristã, moldada pelo anonimato, pelo silêncio e pela solidão com Deus.

Nesse encontro pessoal com Deus, Jesus nos ensina a buscar a barca, os montes ou o deserto. Sim, na busca de uma maior intimidade com as coisas sobrenaturais, impõe-se afastar do burburinho e da agitação do mundo, para se mergulhar a alma no repouso físico e na contemplação do espírito. Eis, assim, a síntese da perfeição cristã, que associa ação e contemplação, convívio fraterno e recolhimento interior! E, como um círculo de perfeição, refaz-se em seguida a dualidade da graça: as multidões acercam-se uma vez mais do Mestre e este, movido pela compaixão, cerne da verdadeira devoção cristã, recomeça a sua pregação divina 'porque eram como ovelhas sem pastor' (Mc 30, 34).

sábado, 20 de julho de 2024

O DOGMA DO PURGATÓRIO (LXXXV)

 

Capítulo LXXXV

Razões e Recompensas pela Devoção às Santas Almas - Santo Ambrósio - São João da Cruz: Dar Esmolas por Amor de Si Mesmo - Santa Brígida e o Beato Pedro Lefevre

Acabamos de ver como a caridade para com as almas dos falecidos é santa e meritória diante de Deus - sancta cogitatio. Resta mostrar como é salutar, ao mesmo tempo, para nós mesmos - salubris cogitatio. Se a excelência da obra em si mesma é um incentivo tão poderoso, as preciosas vantagens que dela derivam não são menos estimulantes. Consistem, por um lado, nas graças que recebemos em recompensa da nossa generosidade e, por outro, no fervor cristão que esta boa obra nos inspira. 'Bem aventurados' - disse o nosso Salvador - 'os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia' (Mt 5,7); 'Feliz quem se lembra do necessitado e do pobre, porque no dia da desgraça o Senhor o salvará' (Sl 40,2); 'Todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes' (Mt 25, 40); 'O Senhor use convosco de misericórdia, como vós usastes com os que morreram' (Rt 1,8). Todas estas diferentes frases exprimem, no seu sentido mais forte, a caridade para com os defuntos.

Tudo o que oferecemos a Deus pela caridade para com os mortos - diz Santo Ambrósio no seu Livro dos Ofícios - transforma-se em mérito para nós e nos reverte centuplicado depois da nossa morte -  Omne quod defunctis impenditur, in nostrum tandem meritum commutatur, et illud post mortem centuplum recipimus duplicatum. Podemos dizer que o espírito da Igreja e os argumentos dos doutores e dos santos, estão expressos nestas palavras: 'O que fizerdes pelos mortos, fazeis de modo excelente por vós mesmos'. A razão disto é que esta obra de misericórdia nos será revertida centuplicada, no tempo da alição. Podemos aplicar aqui as célebres palavras de São João de Deus quando pediu aos habitantes de Granada que lhe dessem uma esmola por amor de si mesmos. Para prover às necessidades dos doentes que acolhia no seu hospital, o caridoso santo percorria as ruas de Granada, gritando: 'Dai esmolas, meus irmãos, dai esmolas por amor de vós mesmos'.

As pessoas ficavam espantadas com esta nova forma de expressão porque sempre tinham estado habituadas a ouvir: esmola por amor de Deus. 'Por que' - perguntaram ao santo - 'nos pedes que demos esmola por amor de nós mesmos?' Ao que ele espondeu: 'Porque este é o grande meio de redimir os vossos pecados, conforme as palavras do Profeta: redime os teus pecados com esmolas e as tuas iniquidades com obras de misericórdia para com os pobres' (Dn 4,24). Dando esmolas, trabalhais no vosso próprio interesse, pois assim diminuís os terríveis castigos que os vossos pecados mereceram. Não devemos concluir que tudo isso se aplica também às esmolas dadas às almas do Purgatório? Ajudá-las é preservar-nos das terríveis expiações a que de outro modo não poderíamos fugir. Podemos, pois, clamar com São João de Deus: 'Dai-lhes a esmola dos vossos sufrágios; assisti-as por amor de vós mesmos'. A generosidade para com os falecidos é sempre retribuída; encontra a sua recompensa em toda a espécie de graças, cuja fonte é a gratidão das almas santas e a de Nosso Senhor, que considera como feito a si mesmo tudo o que fazemos pelas almas penitentes.

Santa Brígida declara nas suas Revelações - e o seu testemunho é citado por Bento XII (Serm. 4, 12) - que ela ouviu uma voz das profundezas das chamas do Purgatório pronunciando estas palavras: 'Sejam bem aventurados e sejam recompensados os que nos aliviam nestas dores!' E em uma outra ocasião: 'Ó Senhor Deus, mostrai o vosso poder onipotente em recompensar cem vezes mais aqueles que nos ajudam com os seus sufrágios, e fazei brilhar sobre nós os raios da luz divina'. Em outra visão, a santa ouviu a voz de um anjo que dizia: 'Abençoados sejam na terra aqueles que, pelas suas orações e boas obras, aprestam-se em auxílio das pobres almas sofredoras!"

O Beato Pedro Lefevre, da Companhia de Jesus, tão conhecido pela sua devoção para com os santos anjos, tinha também uma devoção especial para com as almas do Purgatório. 'Essas almas' - dizia ele - 'têm anelos de caridade que estão sempre dirigidos para aqueles que ainda caminham entre os perigos desta vida; elas estão cheias de gratidão para com aqueles que as ajudam. Elas podem rezar por nós e oferecer os seus tormentos a Deus em nosso favor'. É uma excelente prática invocar as almas do Purgatório para que possamos obter de Deus, por sua intercessão, um verdadeiro conhecimento dos nossos pecados e uma perfeita contrição por eles, fervor no exercício das boas obras, cuidado em produzir frutos dignos de penitência e, em geral, praticar todas as virtudes, cuja ausência foi a causa dos seus atuais e terríveis castigos.

Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog

sexta-feira, 19 de julho de 2024

PALAVRAS DE SALVAÇÃO

Dou-te a conhecer os cinco caminhos da conversão: o primeiro é o arrependimento pelos nossos pecados; depois, o perdão concedido às ofensas do próximo; o terceiro consiste na oração; o quarto, na esmola; o quinto, na humildade. Não fiques, pois, inativo, mas toma cada dia todos estes caminhos. São caminhos fáceis e não podes apresentar como pretexto a tua miséria. Pois, mesmo que vivas na maior pobreza, podes abandonar a cólera, praticar a humildade, rezar assiduamente e arrepender-te dos teus pecados...Esta é a maneira de curarmos as nossas feridas: apliquemos, pois, estes remédios. Tendo retomado a saúde da alma, aproximar-nos-emos da mesa santa e, com muita glória, iremos ao encontro do Rei da glória, Cristo. Ganhemos os bens eternos pela graça, a bondade e a misericórdia de Jesus Cristo Nosso Senhor.

(São João Crisóstomo)

quinta-feira, 18 de julho de 2024

TESOURO DE EXEMPLOS (351/355)

 

351. MÃES BOAS, FILHOS SANTOS

Vão aqui alguns exemplos mais conhecidos: Santo Agostinho, filho de Santa Mônica; São João Crisóstomo, filho de Santa Antusa; São Gregório Magno, filho de Santa Silvia; São Basílio, São Gregório Nisseno, São Pedro de Sebaste e Santa Macrina, filhos de Santa Emélia; São Bento, filho de Santa Nona; São Bernardo, filho de Santa Alata; São Domingos de Gusmão, filho de Santa Joana de Aza; Santa Catarina de Suécia, filha de Santa Brígida...

352. VIRTUDE DA ÁGUA BENTA

Evélia, nobre dama de Antioquia, recorreu a São João Crisóstomo, pedindo-lhe que rogasse por um filho seu enfermo, o último que lhe restava de quatro que tivera. Foi o santo à casa daquela senhora, deu uma benção ao enfermo e aspergiu-o com água benta. A graça da cura não se fez esperar.

353. AS VELAS NO DIA DE SÃO BRÁS

São Brás primeiro foi médico e depois bispo. Certo dia apresentou-se-lhe uma mulher com um menino que tinha uma espinha de peixe atravessada na garganta e que se achava em perigo de vida. O santo colocou sobre o pescoço do menino duas velas em forma de cruz e deu-lhe uma benção. Saltou fora a espinha e o menino salvou-se. Em memória desse fato benzem-se, na festa de São Brás, velas apropriadas para nos preservar da dor de garganta e do engasgo.

354. VIRTUDE DA MEDALHA MILAGROSA

Um rapaz de vida selvagem e escandalosa, em abril de 1904, entrou no hospital de Lérida ferido por duas punhaladas. Seu nome era Libório Menasil, mais conhecido pela alcunha de 'o demônio'. No hospital blasfemava continuamente, insultava as Irmãs e escandalizava a todos; quis mesmo agredir a Irmã porque esta lhe falou de Deus. Apesar de tudo, puseram-lhe dissimuladamente uma medalha milagrosa debaixo do travesseiro e começaram a orar por ele na capela. Pouco depois 'o demônio' pedia um sacerdote, confessava-se com grande arrependimento e pedia a todos perdão pelos escândalos dados.

355. POR QUE ME CONDENASTE?

Um santo teve uma visão, na qual viu como Satanás, de pé diante de Deus, dizia-lhe: 'Por que me condenaste por um só pecado que cometi, e ao contrário salvas a tantos que te ofenderam milhares de vezes?'
E Deus respondeu: 'Porque o homem me pede perdão e tu, nunca. O homem se confessa e tu, não'.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)

quarta-feira, 17 de julho de 2024

ORAÇÃO PELA CONVERSÃO DIÁRIA


Meu Senhor Jesus, cujo amor por mim foi suficientemente grande para vos fazer descer do céu para me salvar, mostrai-me o meu pecado, manifestai-me a minha indignidade, ensinai-me a arrepender-me sinceramente e perdoai-me na vossa misericórdia. Eu vos peço, meu querido Salvador, que tomeis posse da minha pessoa. Só o vosso perdão o pode fazer; não posso salvar-me sozinho; não sou capaz de recuperar o que perdi.

Sem Vós, não posso voltar-me para Vós, nem vos agradar. Se contar apenas com as minhas forças, irei de mal a pior e, fraquejando completamente, vou vos perder por negligência. Serei o centro de mim mesmo em vez de o fazer por Vós. Adorarei qualquer ídolo moldado por mim, em vez de vos adorar, o único verdadeiro Deus, o meu Criador, se não o impedirdes com a vossa graça.

Meu senhor e meu Deus, escutai-me! Já vivi o suficiente neste estado a vagar indeciso e sem rumo; quero ser um vosso fiel servidor, não quero pecar mais. Sede misericordioso para comigo, fazei com que me seja possível, pela vossa graça, tornar-me aquele que deveria ser diante de Vós.

(Santo John Henry Newman)