segunda-feira, 27 de março de 2023

DIÁRIO DA QUARESMA 2023 - DIA XXXII

   

Trigésimo Segundo Dia

A Cruz nos ensina a olhar com vivo interesse tudo o que envolve o nosso próximo. A Cruz nos ensina a nos despojar de todo espírito de egoísmo.

Propósito do DiaMeditar sobre estes dois pontos relativos à satisfação devida a Deus pelos pecados cometidos, nesta quinta semana da Quaresma, com base nessa Leitura Espiritual e escolher uma destas práticas (que pode ser nova ou repetida de dia anterior ou adotando-se qualquer outra que julgar mais conveniente) para viver esta Quaresma no dia de amanhã.

IMAGEM DA SEMANA

domingo, 26 de março de 2023

DIÁRIO DA QUARESMA 2023 - DIA XXXI

     

Trigésimo Primeiro Dia

'Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais' (Jo 11, 25,26). 'Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?' (Jo 11, 40).

Propósito do Dia: Meditar sobre a necessidade de uma fé pura e confiante em Deus capaz de superar todas as provações desta vida (meditação interior e pessoal) e escolher uma destas práticas (ou qualquer outra que julgar mais conveniente) para viver esta Quaresma no dia de amanhã.

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'No Senhor, toda graça e redenção!(Sl 129)

Primeira Leitura (Ez 37,12-14) - Segunda Leitura (Rm 8,8-11)  -  Evang (Jo 11,3-7.17.20-27.33b-45)

 26/03/2023 - Quinto Domingo da Quaresma 

18. 'EU SOU A RESSUREIÇÃO E A VIDA'


Há tantas belas lições a serem consideradas no Evangelho deste Quinto Domingo da Quaresma! Tomemos algumas delas e situemos no tempo e no espaço o desenrolar dos acontecimentos deste evento extraordinário da ressurreição de Lázaro: 'Lázaro, vem para fora!' (Jo 11, 43). Jesus frequentava, com alguma periodicidade, a propriedade dos irmãos, Lázaro, Marta e Maria, e sentia por eles especial predileção. E, diante da doença do irmão e das súplicas das duas irmãs, aparentemente vai ser movido por uma indiferença inexplicável: 'Quando ouviu que este estava doente, Jesus ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava' (Jo 11,6). E, que assombro não teria tomado Marta e Maria diante da morte do irmão e da resposta de Jesus aos enviados delas: 'Esta doença não leva à morte; ela serve para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela' (Jo 11, 4).

As nossas aflições e sofrimentos expressam em nós e por nós a manifestação da glória de Deus. Como almas aflitas, imploramos a misericórdia de Deus diante do infortúnio, da doença, do sofrimento, da dor. Como Marta e como Maria. A resposta de Deus não segue a direção do apelo humano; reverbera nos Céus e encontra eco nos imponderáveis desígnios de Deus que paga um bem com bem infinito, confiança com graças infinitas, a oração contrita e humilde com infinita misericórdia! Jesus não vai apenas curar a doença de Lázaro, vai ressuscitá-lo e, com isso, converter muitos outros e torná-lo, assim, muito acima da doença, um instrumento maior da glória de Deus.

Nossa oração de aflitiva comoção deve ser humilde, confiante, perseverante, fervorosamente despojada na misericórdia do Pai. Como Marta e Maria, podemos ficar sucumbidos pela dúvida e pela inquietação diante o sofrimento: 'Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido' (Jo 11, 21). E comovido profundamente e movido de compaixão, 'Jesus chorou' (Jo 11, 35). Nesta pequena oração do Evangelho, perpassa todo o amor do Coração de Infinita Misericórdia de Nosso Senhor. Jesus chora e se comove com Lázaro, Jesus chora e se comove com todos os seus filhos, e será capaz de operar portentosos milagres para buscar, seja onde for, uma ovelha perdida.

Quando Lázaro sai do túmulo, não é o Lázaro enterrado há quatro dias, uma vez que totalmente enfaixado e sem possibilidade humana de se locomover por si mesmo. Lázaro se move pela glória de Deus, Lázaro retorna da morte para a glória de Deus. E muitos homens de todos os tempos (não todos, pela inacreditável soberba humana) creram para a glória de Deus, manifestada por Jesus naquele dia com palavras de vida eterna: 'Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais' (Jo 11, 25 - 26).

sábado, 25 de março de 2023

GLÓRIAS DE MARIA - A ANUNCIAÇÃO DO SENHOR

 

'Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!' (Lc 1, 28). A saudação do Anjo Gabriel é dirigida àquela que levou à perfeição nesta terra o amor de Deus. Cheia de graça Maria está desde a sua concepção, cheia de graça Maria passou cada momento de sua vida, cheia de graça Maria praticou cada ação ou pensamento nesta terra. Cheia de graça está, portanto, Maria diante a saudação do Anjo, como templo de santidade e da ciência infusa de todas as virtudes, dons e graças possíveis e imagináveis à natureza humana.

E Maria de todas as graças perturbou-se. As revelações do Anjo, provavelmente muito mais detalhadas que as palavras transcritas nos textos bíblicos, colocava Maria no centro de todas as profecias messiânicas que ela tanto conhecia e em nome das quais tantas orações e súplicas já teria feito a Deus. Num relance, percebeu a extraordinária manifestação daquela revelação angélica, que descortinava séculos de profecias, que inseria naquele lugar e naquele tempo a Natividade de Deus, que a tornava a co-redentora da humanidade, a bendita entre todas as mulheres, a Mãe de Deus: 'Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi' (Lc 1, 31 - 32).

E Maria de todas as graças perturbou-se. Diante do extraordinário mistério da graça e dos desígnios extremos da Providência, a Virgem de toda pureza e castidade e obra prima do Espírito Santo, se inquieta: 'Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?' (Lc 1, 34). A virgindade de Maria é o relicário de Deus. No imaculado corpo de Maria, o Espírito de Deus há de projetar a sua luz, cuja sombra faz nascer o Verbo encarnado. E o Anjo, mensageiro das coisas impossíveis e triviais para Deus, revela ainda a Maria a graça da gravidez tardia de Isabel, no 'sexto mês daquela que era considerada estéril' (Lc 1, 36).

E a Virgem de Nazaré, antes de ser a Mãe, oferece-se como serva e escrava do seu Senhor e do seu Deus: 'Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!' (Lc 1, 38). O Céu e a terra, as miríades dos anjos e dos homens de todos os tempos, hão de bendizer e louvar a glória daquele dia e a consumação daquele 'Fiat!' Sim, porque naquele momento, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro se fez, então, carne na carne de Maria e se fez carne a Nossa Salvação.

Obs.: Dia não incluído no Diário da Quaresma 2023, ver postagem aqui.

ORAÇÃO: 25 DE MARÇO DA DIVINA INFÂNCIA

 

A JESUS, REI DE AMOR 

O Filho de Deus quis se mostrar aos homens sob a forma de um gracioso menino, a fim de ganhar mais depressa e fortemente os seus corações. Os meninos são de si mesmos amáveis e inspiram sentimentos de ternura a quem quer que os olhe. O Verbo divino se fez então ver nesta doce condição de menino, para obter o amor de todos os homens. Verbo divino, feito homem pelo meu amor, ainda que vos veja tão humilhado e sob a forma de um menino, contudo vos confesso e vos reconheço como meu Senhor e meu Rei, mas Rei de amor. 

Amadíssimo Salvador meu, pois é para reinardes nos nossos corações que viestes ao mundo revestir-vos da nossa miserável carne, vinde estabelecer o vosso reino no meu coração, que outrora pertencia aos vossos inimigos, mas é vosso agora, disto tenho confiança e quero que ora em diante sejais o meu único senhor. Pela força das armas reinam os outros reis, mas vós só pela força do amor quereis reinar: eis porque não vindes ao mundo com pompa majestosa, vestido de púrpura e ouro, ornado de cetro e coroa e nem cercado de soldados; vindes nascer num estábulo, pobre, desamparado, e quereis começar a reinar assim nos nossos corações. 

Ah! meu Rei menino, como pude revoltar-me tantas vezes contra vós, ficar tanto tempo inimigo vosso? O' meu Rei , meu doce Jesus, que tão amável e amante sois, tomai posse da minha alma que sem reservas vos dou. Dignai-vos de recebê-la para sempre ao vosso serviço e fazei que ela vos sirva somente por amor: a vossa majestade merece ser temida, mas a vossa bondade ainda mais merece ser amada. O' Rei do meu coração, sois vós e sereis sempre meu único amor. Amadíssima Soberana minha, augusta Maria, a vós pertence obter-me a graça de ser fiel a este Rei menino, tão querido da minha alma.


(A Divina Infância de Jesus, celebrada a cada dia 25 do mês, por Santo Afonso Maria de Ligório)

sexta-feira, 24 de março de 2023

DIÁRIO DA QUARESMA 2023 - DIA XXX

    

Trigésimo Dia

Ó Maria, Mãe Piedosa, vós que sustentastes e acalentastes nos braços o corpo do vosso Filho acolhei-nos quando formos surpreendidos pela dor e pelos sofrimentos. Não permitais que sejamos dominados pelo medo, mas renovai-nos a cada dia na esperança e na fé.

Propósito do Dia: Meditar sobre a Sexta Dor de Nossa Senhora - A Lançada e a Descida da Cruz e escolher uma destas práticas (que pode ser nova ou repetida de dia anterior ou adotando-se qualquer outra que julgar mais conveniente) para viver esta Quaresma no dia de  amanhã.

TESOURO DE EXEMPLOS (210/212)

 

210. UM TRABALHO DESTRUÍDO, OUTRO RECOMPENSADO

A natureza é mestra do homem. Há dois insetos muito laboriosos: a aranha e a abelha. A aranha trabalha de manhã e de noite, estende sua teia sutil e anda sem descanso de um fio a outro. Alarga, une, cruza os fios e forma polígonos concêntricos. A abelha, ao contrário, vai de flor em flor, liba o néctar, transformando-o, ao chegar à colmeia, em dulcíssimo mel. Passa o dono da casa e, com a vassoura, destrói furioso o trabalho da aranha; diante do favo de mel, fabricado pela abelha, porém, pára e sorri contente.

Assim é no mundo: todos trabalhamos, uns segundo a palavra de Deus e outros, segundo a palavra do demônio. Mas quando Nosso Senhor passar, destruirá a obra destes e recompensará a daqueles.

211. A ALMA OCIOSA NÃO ENTRARÁ NO CÉU

Como é triste ver um cadáver, frio, inerte, estendido numa cama! Aqueles olhos outrora brilhantes, agora não se movem mais, estão apagados para sempre. Os lábios, antes abertos aos sorrisos e às mais doces expressões do coração, agora estão cerrados e imóveis para sempre. Mais alguns dias e aquele corpo será reduzido a um punhado de pó que o vento poderá espalhar.

Ora, o apóstolo São Tiago diz que, se a nossa fé não estiver acompanhada de boas obras, também ela estará morta (Tg 2, 26). É um corpo que tem todos os meios para agir, para trabalhar, para mover-se... mas não faz nada. Mas, então, que aproveitam os olhos, se não veem? Para que servem os lábios, se não falam? Para que as mãos, se não apalpam?

Façamos o bem enquanto temos tempo, pois como o corpo acaba numa cova, como a planta infrutuosa é cortada e lançada no fogo, do mesmo modo a alma ociosa cairá no inferno. No reino do céu entra somente quem faz a vontade do Pai celeste.

212. QUEM SE HUMILHA...

Quando Santo Hilário chegou, o Concílio já havia começado e os demais bispos estavam reunidos em assembleia. O santo entrou. Todos ocupavam solenemente seus altos assentos e ninguém se moveu, ninguém se levantou para oferecer-lhe o lugar. Então o santo bispo, que se tinha por indigno de estar ao lado dos outros, assentou-se no chão, dizendo humildemente a palavra do profeta: Domini est terra - a terra é de Deus. 

No momento em que o corpo de Santo Hilário, ao assentar-se, tocou a terra, esta ergueu-se de tal modo que colocou o santo à mesma altura dos outros bispos; e todos, vendo o exemplo e o milagre, lembraram se das palavras de Cristo Senhor Nosso: Qui se himiliat exaltabitur - aquele que se humilha será exaltado.

Não nos queixemos se outros nos estimam pouco ou só nos deixam o último posto, ou nos negam aquele pouco mérito que poderíamos ter. Deus saberá exaltar-nos no paraíso.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)

quinta-feira, 23 de março de 2023

DIÁRIO DA QUARESMA 2023 - DIA XXIX

   

Vigésimo Nono Dia

Ó Maria, Mãe Consoladora, vós que permanecestes aos pés da cruz, quando Cristo suportava em sua carne o dramático encontro entre o pecado do mundo e a misericórdia divina, ensinai-nos a percorrer a estrada do amor até o fim. Concedei a carícia da vossa consolação materna aos homens e mulheres deste mundo que, na hora suprema da nova criação, vos foram entregues como filhos e filhas.

Propósito do Dia: Meditar sobre a Quinta Dor de Nossa Senhora - A Morte de Jesus e escolher uma destas práticas (que pode ser nova ou repetida de dia anterior ou adotando-se qualquer outra que julgar mais conveniente) para viver esta Quaresma no dia de  amanhã.

OS GRANDES DOCUMENTOS DA IGREJA (XVIII)

Carta Encíclica CASTI CONNUBII 
 [31 de dezembro de 1930]

Papa Pio XI (1922 - 1939)

sobre o matrimônio cristão


1. Quão grande seja a dignidade da casta união conjugal, podemos principalmente reconhecê-lo, Veneráveis Irmãos, pelo fato de Cristo, Nosso Senhor, Filho do Pai Eterno, tendo tornado a carne do homem decaído, não só ter incluído, de forma particular, o matrimônio — princípio e fundamento da sociedade doméstica e até de toda a sociedade humana — naquele desígnio de amor por que realizou a universal restauração do gênero humano; mas, depois de o ter reintegrado na pureza primitiva de sua divina instituição, tê-lo elevado à dignidade de verdadeiro e 'grande' (Ef 5, 32) sacramento da Nova Lei, confiando, por isso, toda a sua disciplina e cuidado à Igreja, sua Esposa.

2. Para que, todavia, esta renovação do matrimônio produza, em todos os povos do mundo inteiro e de todos os tempos, os seus desejados frutos, é preciso primeiro que as inteligências humanas se esclareçam acerca da verdadeira doutrina de Cristo a respeito do matrimônio; e convém ainda que os esposos cristãos, fortificada a fraqueza da sua vontade pela graça interior de Deus, façam concordar todo o seu modo de pensar e de proceder com essa puríssima lei de Cristo, pela qual assegurarão a si próprios e à sua família a verdadeira felicidade a paz.

3. Mas, ao contrário, quando desta Sé Apostólica, como de um observatório, olhamos à nossa volta, verificamos na maior parte dos homens, com o esquecimento desta obra divina de restauração, a ignorância total da altíssima santidade do matrimônio cristão. Vós o verificais, tão bem como nós, Veneráveis Irmãos, e o deplorais conosco. Desconhecem essa santidade, ou a negam impudentemente ou ainda, apoiando-se nos princípios falsos de uma moralidade nova e absolutamente perversa, a calcam aos pés. Esses erros perniciosíssimos e esses costumes depravados começaram a espalhar-se até entre os fiéis e pouco a pouco, de dia para dia, tendem a insinuar-se no meio deles; por isso, em razão da nossa missão de Vigário de Cristo na terra, de Supremo Pastor e Mestre, julgamos que nos compete levantar a nossa voz apostólica para afastarmos dos pascigos envenenados as ovelhas que nos foram confiadas, e, tanto quanto em nós caiba, conservá-las imunes.

Divisão da Encíclica

4. Resolvemos, pois, falar-vos, Veneráveis Irmãos, e, por meio de vós, a toda a Igreja de Cristo e até a todo o gênero humano, a respeito da natureza do matrimônio cristão, da sua dignidade, das vantagens a benefícios que dele dimanam para a família e para a própria sociedade humana; dos gravíssimos erros contrários a esta parte da doutrina evangélica, dos vícios contrários à vida conjugal, e, enfim, dos principais remédios que é mister empregar, seguindo os passos do nosso predecessor de feliz memória, Leão XIII, cuja Carta Encíclica Arcanum (Enc. Arcanum Divinae Sapientiae), acerca do matrimônio cristão, publicada há 50 anos, fazemos nossa e confirmamos pela presente Encíclica; e declaramos que, se expomos mais largamente alguns pontos de acordo com as condições e necessidades da nossa época, aquela Encíclica não só não se tornou obsoleta mas conserva o seu pleno vigor.

Os supremos princípios

5. E, para tomarmos como ponto de partida aquela mesma Encíclica, que é quase toda consagrada a provar a divina instituição do matrimônio, a sua dignidade de sacramento e a sua inquebrantável perpetuidade, lembremos em primeiro lugar o fundamento que permanece intacto e inviolável: o matrimônio não foi instituído nem restaurado pelos homens, mas por Deus; não foi pelos homens, mas pelo restaurador da própria natureza, Cristo Nosso Senhor, que o matrimônio foi resguardado por lei, confirmado e elevado; por isso essas leis não podem depender em nada das vontades humanas nem sujeitar-se a nenhuma convenção contrária dos próprios esposos. É esta a doutrina da Sagrada Escritura (Gn 1, 27-28; 2, 22-23; Mt 19, 3 e seg.; Ef 5, 23--); é esta a constante e universal tradição da Igreja, esta a definição solene do Sagrado Concílio de Trento, que, tomando as próprias palavras da Sagrada Escritura, proclama e confirma que a perpetuidade e a indissolubilidade do matrimônio, bem como a sua unidade e imutabilidade, provêm de Deus, seu autor (Conc. Trid. sess. 24).

6. Mas, embora o matrimônio por sua própria natureza seja de instituição divina, também a vontade humana tem nele a sua parte, e parte notabilíssima; pois que, enquanto é a união conjugal de determinado homem e de determinada mulher, não nasce senão do livre consentimento de cada um dos esposos: este ato livre da vontade por que cada uma das partes entrega e recebe o direito próprio do matrimônio (cf Cod. Iur. Can. c. 1081, § 2) é tão necessário para constituir um verdadeiro matrimônio, que nenhum poder humano o pode suprir (cf Cod. Iur. Can. c. 1081, § 1). Esta liberdade, todavia, diz respeito a um ponto somente, que é o de saber se os contraentes efetivamente querem ou não contrair matrimônio e se o querem com tal pessoa; mas a natureza do matrimônio está absolutamente subtraída à liberdade do homem, de modo que, desde que alguém o tenha contraído, se encontra sujeito às suas leis divinas e às suas propriedades essenciais. O Doutor Angélico, dissertando acerca da fidelidade conjugal e da prole, diz: 'No matrimônio estas coisas derivam do próprio contrato conjugal, de tal modo que, se no consentimento que produz o matrimônio se formulasse uma condição que lhe fosse contrária, não haveria verdadeiro matrimônio' (Sum. Theol. part. III, Suplem., q. XLIX, art. 3.º).

7. A união conjugal é, pois, acima de tudo, um acordo mais estreito que o dos corpos; não é um atrativo sensível nem uma inclinação dos corações o que a determina, mas uma decisão deliberada e firme das vontades: e desta conjunção dos espíritos, por determinação de Deus, nasce um vínculo sagrado e inviolável.

8. Esta natureza própria e especial do contrato o torna irredutivelmente diferente das relações que têm entre si os simples animais, sob o único impulso de um cego instinto natural, em que não existe nenhuma razão nem vontade deliberada; torna-o totalmente diferente, também, dessas uniões humanas irregulares, realizadas fora de qualquer vinculo verdadeiro e honesto por vontades destituídas de qualquer direito de convívio doméstico.

9. Em virtude disto, claro está que a autoridade legítima tem o direito e até o dever de proibir, impedir e punir as uniões vergonhosas que repugnam à razão e à natureza; mas, como se trata de algo que resulta da própria natureza humana, não é menos certa aquela própria advertência, dada pelo nosso predecessor Leão XIII, de feliz memória (Enc. Rerum Novarum, 15 de maio de 1891): 'Na escolha do gênero de vida, não há dúvida de que todos têm liberdade plena e inteira ou de seguir o conselho de Jesus Cristo relativo à virgindade, ou de se ligar pelo vínculo matrimonial. Nenhuma lei humana poderia tirar ao homem o direito natural a primordial do casamento ou limitar de qualquer modo aquilo que é a própria causa da união conjugal, estabelecida desde o princípio pela autoridade de Deus - crescite et multiplicamini (Gn 1, 28).

10. Por isso, a união santa do verdadeiro casamento é constituída, ao mesmo tempo, pela vontade divina e humana: de Deus vem a própria instituição do matrimônio, os seus fins, as suas leis e os seus bens; com o auxílio e coadjuvação de Deus, é aos homens, mediante o dom generoso que uma criatura humana faz a outra da sua própria pessoa, por todo o tempo da sua vida, que se deve qualquer matrimônio particular, com os deveres e benefícios estabelecidos por Deus.

I. OS BENS DO MATRIMÔNIO CRISTÃO

11. No momento em que nos preparamos para expor quais e quão grandes sejam estes bens divinamente concedidos ao verdadeiro matrimônio, acodem-nos à mente, Veneráveis Irmãos, as palavras daquele preclaríssimo doutor da Igreja, que recentemente comemoramos com a Encíclica Ad Salutem, no XV centenário de sua morte [Enc. Ad salutem, 20 de abril de 1930]: 'São todos estes os bens' - diz Santo Agostinho - 'por causa dos quais as núpcias são boas: a prole, a fidelidade, o sacramento' (Santo Agost. De bono conj. c. XXIV, n. 32). Que com bom direito se pode afirmar conterem estes três pontos um esplêndido compêndio de toda a doutrina acerca do matrimônio cristão, declara-o eloquentemente o mesmo santo, ao dizer: 'Na fidelidade, tem-se em vista que, fora do vínculo conjugal, não haja união com outro ou com outra: na prole, que esta se acolha amorosamente, se sustente com solicitude, se eduque religiosamente; com o sacramento, enfim, que não se rompa a vida comum, e que aquele ou aquela que se separa não se junte a outrem nem mesmo por causa dos filhos. É esta como que a regra das núpcias, na qual se enobrece a fecundidade da incontinência' (S. Agost. De Gen. ad lit., livro IX., cap. VII; n. 12).

O primeiro bem: os filhos

12. Entre os benefícios do matrimônio ocupa, portanto, o primeiro lugar a prole. Em verdade, o próprio Criador do gênero humano, o qual, em sua bondade, quis servir-se do ministério dos homens para a propagação da vida, nos deu este ensino quando, no paraíso terrestre, instituindo o matrimônio, disse aos nossos primeiros pais e, neles, a todos os futuros esposos: 'crescei a multiplicai-vos e enchei a terra' (Gn 1, 28). Esta mesma verdade a deduz brilhantemente Santo Agostinho das palavras do Apóstolo São Paulo a Timóteo (1Tm 5, 14), dizendo: 'que a procriação dos filhos seja a razão do matrimônio o Apóstolo o testemunha nestes termos: eu quero que as jovens se casem. E, como se lhe dissessem: mas por quê?, logo acrescenta: para procriarem filhos, para serem mães de família' (S. Agost. De bono conj. cap. XXIV, n. 32).

13. Para apreciar a grandeza deste benefício de Deus e a excelência do matrimônio, basta considerar a dignidade do homem e a sublimidade do seu fim. Na verdade, o homem ultrapassa todas as outras criaturas visíveis, já pela excelência de sua natureza racional. Mas acresce que, se Deus quis as gerações dos homens, não foi somente para que eles existissem e enchessem a terra, mas para que honrassem a Deus, o conhecessem, o amassem e o gozassem eternamente no Céu; em consequência da admirável elevação do homem, feito por Deus à ordem sobrenatural, este fim ultrapassa tudo o que 'os olhos veem, os ouvidos ouvem e o coração do homem pode conceber' (cf 1Co 2, 9). Por isso se vê facilmente quão grande dom da bondade divina e que precioso fruto do matrimônio é a prole, nascida pela virtude onipotente de Deus e com a cooperação dos esposos.

Concidadãos dos santos, familiares de Deus

14. Os pais cristãos compreenderão, além disso, que não são destinados só a propagar e conservar na terra o gênero humano e não só também a formar quaisquer adoradores do verdadeiro Deus, mas a dar filhos à Igreja, a procriar concidadãos dos santos e familiares de Deus (Ef 2, 19), a fim de que o povo dedicado ao culto do nosso Deus e Salvador cresça cada vez mais, de dia para dia. E, embora os cônjuges cristãos, conquanto sejam santificados eles próprios, não possam transmitir a sua santificação aos filhos, porque a geração natural da vida se tornou, ao contrário, caminho de morte, pelo qual passa à prole o pecado original, eles participam, todavia, de algum modo, da condição da primeira união no paraíso terrestre, cabendo-lhes oferecer a sua prole à Igreja, a fim de que esta mãe fecundíssima de filhos de Deus a regenere pela água purificadora do batismo para a justiça sobrenatural e a torne prole de membros de Cristo, participantes da glória, à qual todos aspiramos do íntimo do coração.

15. Se uma mãe verdadeiramente cristã meditar nestas coisas, compreenderá certamente que se lhe aplicam, no sentido mais alto e cheio de consolação, estas palavras do Nosso Redentor: 'A mulher... quando deu à luz uma criança, já não recorda os seus sofrimentos, pela alegria que sente porque um homem veio ao mundo' (Jo 16, 21); tornando-se superior a todas as dores, a todos os cuidados, a todos os encargos da maternidade, muito mais justa e santamente do que aquela matrona romana, mãe dos Gracos, gloriar-se-á no Senhor de uma florescentíssima coroa de filhos. Ambos os cônjuges olharão estes filhos, recebidos das mãos de Deus, com alvoroço e reconhecimento, como a um talento que lhes foi confiado por Deus, não já para o empregar somente no seu próprio interesse ou no da pátria terrestre, mas para os restituir depois, com o seu fruto, no dia do Juízo Final.

A educação cristã

16. O bem dos filhos não termina certamente no benefício da procriação; é preciso que se lhe junte outro, que consiste na devida educação da prole. Apesar de toda a sua sabedoria, Deus teria provido deficientemente a sorte dos filhos e de todo o gênero humano se àqueles a quem deu o poder e o direito de gerar não tivesse dado também o dever e o direito de educar. Ninguém efetivamente pode ignorar que o filho não pode bastar-se e prover-se a si mesmo, nem sequer no que respeita à vida natural nem, muito menos, no que se refere à vida sobrenatural, mas precisa por muitos anos do auxílio de outrem, de formação a educação. É, aliás, evidente que, conforme as exigências da natureza e a ordem divina, este dever e direito de educação da prole pertence em primeiro lugar àqueles que começaram pela geração a obra da natureza e aos quais é proibido expor a que se perca a obra começada, deixando-a imperfeita. Ora, a esta tão necessária educação dos filhos provê do melhor modo possível o matrimônio em que, estando os pais ligados entre si por vínculo indissolúvel, sempre se coadjuvem e auxiliem mutuamente.

17. Mas, tendo já tratado longamente em outro lugar da Educação Cristã da juventude (Enc. Divini illius Magistri, 31 de dezembro de 1929), podemos resumir tudo isto, repetindo as palavras de Santo Agostinho: 'a prole... seja recebida com amor e seja educada religiosamente' (Santo Agostinho, De Gen. ad litt., livro IX, cap. 7, n. 12), o que está também sucintamente expresso no Código de Direito Canônico: 'o fim primário do matrimônio é a procriação e educação da prole' (C. J. C. c. 1018, § 1).

18. Nem se deve passar em silêncio que, sendo de tanta dignidade e de tanta importância ambos os deveres confiados aos pais para o bem dos filhos, qualquer honesto uso da faculdade dada por Deus para a geração de uma nova vida, segundo a ordem do Criador e da própria lei natural, é exclusivo direito a prerrogativa do matrimônio e deve manter-se absolutamente dentro dos limites sagrados do casamento.

Segundo bem: a fidelidade conjugal

19. O segundo bem do matrimônio, mencionado por Santo Agostinho, como dissemos, é o bem da Fé, que é a mútua fidelidade dos cônjuges no cumprimento do contrato matrimonial, de sorte que tudo o que compete, por este contrato, sancionado pela lei divina, só ao cônjuge, não lhe seja negado nem permitido a terceira pessoa; e que nem ao próprio cônjuge seja concedido aquilo que não se pode conceder, por contrário às leis e direitos divinos e inconciliável com a fidelidade conjugal.

Unidade absoluta

20. Esta fidelidade, portanto, exige em primeiro lugar a unidade absoluta do casamento que o próprio Criador esboçou no matrimônio dos nossos primeiros pais, não querendo que ele fosse senão entre um só homem e uma só mulher. E, embora depois Deus, supremo Legislador, alargasse por algum tempo esta primeira lei, é indubitável que a Lei Evangélica restabeleceu plenamente a antiga e perfeita unidade, ab-rogando qualquer dispensa, o que claramente mostram as palavras de Jesus Cristo e a doutrina e a prática constante da Igreja. Com bom direito declarou, pois, solenemente o Sagrado Concílio de Trento: 'Cristo Nosso Senhor ensinou mais claramente que por este vínculo se unem só duas pessoas, quando disse: não são, pois, já duas, mas uma só carne' (Conc. Trident., sess. XXIV).

Fidelidade da castidade

21. E Nosso Senhor Jesus Cristo não quis somente proibir qualquer forma do que se chama poligamia e poliandria, quer sucessiva, quer simultânea, ou qualquer outra ação externa desonesta, mas ainda, para assegurar completamente a inviolabilidade do santuário sagrado da família, proibiu os próprios pensamentos voluntários e desejos de tais coisas: 'Mas eu vos digo que todo aquele que vir uma mulher com olhos de concupiscência já cometeu adultério com ela no seu coração' (Mt 5, 28). E estas palavras de Cristo não podem ser anuladas nem sequer pelo consentimento do outro cônjuge, porque representam a própria lei de Deus e da natureza, que nenhuma vontade humana pode destruir ou modificar (Confr. Decr. S. Ofício, 2 de março de 1679, prop. 50).

22. E até, para que o bem da fidelidade resplandeça com todo o seu brilho, as próprias manifestações mútuas de familiaridade entre os cônjuges devem ser caracterizadas pela castidade, de sorte que os cônjuges se comportem em tudo segundo a lei divina e natural e procurem seguir sempre a vontade do seu sapientíssimo Criador, com grande reverência para com a obra de Deus.

Amor conjugal e auxílio mútuo

23. Esta fidelidade da castidade, como lhe chama admiravelmente Santo Agostinho, resultará mais fácil e até muito mais agradável e nobre por outra consideração importantíssima: a do amor conjugal, que penetra todos os deveres da vida familiar e que tem no matrimônio cristão como que o primado da nobreza. Requer, além disso, a fidelidade do matrimônio que marido e a mulher estejam entre si unidos por um amor especial, santo e puro, e que não se amem um ao outro como os adúlteros, mas do mesmo modo que Cristo amou a Igreja; porque o Apóstolo prescreveu esta regra quando disse: 'Homens, amai vossas mulheres como Cristo amou a Igreja' (Ef 5, 25; cf Col. 3, 19); certamente Ele a amou com aquela sua caridade infinita, não por vantagem própria, mas propondo-se unicamente à utilidade da Esposa (Catec. Rom., II, cap. VIII, q. 24). Falamos, pois, de um amor fundado já não somente na inclinação dos sentidos, que em breve se desvanece, nem também somente nas palavras afetuosas, mas no íntimo afeto da alma, manifestado ainda exteriormente, porque o amor se prova com obras (cf São Greg. M., Homil. XXX in Evang. Jo 14, 23-31, n. 1). Esta ação na sociedade doméstica não compreende somente o auxílio mútuo, mas deve estender-se também, ou melhor, visar sobretudo a que os cônjuges se auxiliem entre si por uma formação e perfeição interior cada vez melhores, de modo que na sua união de vida progridam cada vez mais na virtude, principalmente na verdadeira caridade para com Deus e para com o próximo, essa caridade que 'resume toda a lei e os profetas' (Mt 22, 40). Em suma, todos podem e devem, seja qual for a sua condição e o honesto modo de vida que tenham escolhido, imitar o modelo perfeitíssimo de toda a santidade, proposto por Deus aos homens, que é Nosso Senhor Jesus Cristo, e com o auxílio de Deus chegar ao cume da perfeição cristã, como o provam os exemplos de muitos santos.

24. Esta mútua formação interior dos cônjuges, com a assídua aplicação em se aperfeiçoarem reciprocamente, pode dizer-se com toda a verdade, como ensina o Catecismo Romano (p. II, cap. VIII, q. 13), causa e razão primária do matrimônio, não se considerando já por matrimônio, no sentido mais restrito, a instituição destinada à legítima procriação e educação dos filhos, mas, no sentido mais lato, a comunidade, a intimidade e a sociedade de uma vida inteira. 

A ordem no amor

25. Com este mesmo amor se devem conciliar tanto os outros direitos como os outros deveres do matrimônio, de modo que sirva não só como lei de justiça mas também como norma de caridade aquela palavra do Apóstolo: 'O marido dê à mulher aquilo que lhe é devido; igualmente a mulher ao marido' (1Cor 7, 3).

26. Ligada, enfim, com o vínculo desta caridade a sociedade doméstica, florescerá necessariamente aquilo que Santo Agostinho chama a ordem do amor. Essa ordem implica de um lado a superioridade do marido sobre a mulher e os filhos, e de outro a pronta sujeição e obediência da mulher, não pela violência, mas como a recomenda o Apóstolo com estas palavras: 'Sujeitem-se as mulheres aos seus maridos como ao Senhor; porque o homem é cabeça da mulher, como Cristo é cabeça da Igreja' (Ef 5, 22-23).

27. Tal sujeição não nega nem tira à mulher a liberdade a que tem pleno direito, quer pela nobreza da personalidade humana, quer pela missão nobilíssima de esposa, mãe e companheira, nem a obriga a condescender com todos os caprichos do homem, quando não conformes à própria razão ou à dignidade da esposa, nem exige enfim que a mulher se equipare às pessoas que se chamam em direito 'menores', às quais, por falta de maior madureza de juízo ou por inexperiência das coisas humanas, não se costuma conceder o livre exercício dos seus direitos; mas proíbe essa licença exagerada que despreza o bem da família, proíbe que no corpo desta família se separe o coração da cabeça, com grande detrimento de todo o corpo e perigo próximo de ruína. Se efetivamente o homem é a cabeça, a mulher é o coração; e, se ele tem o primado do governo, também a ela pode e deve atribuir-se como coisa sua o primado do amor.

Hierarquia doméstica

28. O grau e o modo desta sujeição da mulher ao marido pode variar segundo a variedade das pessoas, dos lugares a dos tempos; e até, se o homem menosprezar o seu dever, compete à mulher supri-lo na direção da família. Mas em nenhum tempo e lugar é lícito subverter ou prejudicar a estrutura essencial da própria família e a sua lei firmemente estabelecida por Deus.

29. Da observância desta ordem entre o marido e a mulher já falou com muita sabedoria o nosso predecessor Leão XIII, de feliz memória, na Encíclica que já recordamos acerca do Matrimônio Cristão: 'O marido é o chefe da família e a cabeça da mulher; e esta, portanto, porque é carne da sua carne e osso dos seus ossos, não deve sujeitar-se a obedecer ao marido como escrava, mas como companheira, isto é, de tal modo que a sujeição que lhe presta não seja destituída de decoro nem de dignidade. Naquele que governa e naquela que obedece, reproduzindo nele a imagem de Cristo e nela a da Igreja, seja, pois, a caridade divina a perpétua reguladora dos seus deveres' (Enc. Arcanum, 10 de fev. de 1880).

30. São estas, portanto, as virtudes que se compreendem no bem da fidelidade: unidade, castidade, caridade, nobre e digna obediência; palavras que querem dizer outras tantas vantagens dos cônjuges e do seu casamento, enquanto asseguram ou promovem a paz, a dignidade e a felicidade do matrimônio. Não admira, pois, que esta fidelidade seja sempre considerada entre os insignes benefícios próprios do matrimônio.

O terceiro bem: o sacramento

31. Entretanto, o conjunto de tantos benefícios completa-se e coroa-se por este bem do matrimônio cristão a que chamamos, com a palavra de Santo Agostinho, 'sacramento', o qual significa a indissolubilidade do vínculo e também a elevação e consagração que Jesus Cristo fez do contrato como sinal eficaz da graça.

A Indissolubilidade

32. E, antes de mais nada, no que respeita à indissolubilidade do contrato nupcial, o próprio Cristo nele insiste, dizendo: 'Não separe o homem aquilo que Deus uniu' (Mt 19, 6); e 'Todo aquele que abandona a sua mulher e toma outra comete adultério; e todo aquele que toma a mulher abandonada pelo marido comete adultério' (Lc 16, 18).

33. Nesta indissolubilidade coloca Santo Agostinho, em termos claros, aquilo a que ele chama o bem do sacramento, com estas claras palavras: 'Por sacramento, pois, se entende que o matrimônio seja indissolúvel e que o repudiado ou a repudiada não se una a outrem, nem sequer por causa dos filhos'. (S. Agost., De Gen. ad litt., liv. IX, c. 7, n. 12).

34. Esta inviolável firmeza, embora não pertença a cada matrimônio com a mesma medida de perfeição, cabe, todavia, a todos os verdadeiros matrimônios, porque a palavra do Senhor: 'Não separe o homem aquilo que Deus uniu', tendo sido pronunciada a propósito do matrimônio dos primeiros progenitores, protótipo de qualquer outro matrimônio futuro, deve necessariamente abranger de modo absoluto todos os verdadeiros matrimônios. Se, antes de Cristo, a sublimidade e severidade da lei primitiva fora um pouco atenuada e Moisés permitira a alguns membros do próprio povo de Deus, em virtude da dureza de seus corações, dar o libelo de repúdio por determinados motivos, Jesus Cristo, pelo seu poder de Legislador supremo, revogou essa permissão de maior liberdade e reintegrou no seu pleno vigor a lei primitiva por estas palavras que nunca mais se poderão esquecer: 'Não separe o homem aquilo que Deus uniu'. Muito sabiamente, pois, respondia um nosso predecessor de feliz memória, Pio VI, ao Bispo de Éger nos seguintes termos: 'Por isso se vê claramente que o matrimônio, ainda no estado de natureza e certamente muito antes de ter sido elevado à dignidade de sacramento propriamente dito, importava consigo, pela sua divina instituição, a perpetuidade e a indissolubilidade do vínculo, de modo que não pudesse ser dissolvido depois por nenhuma lei civil. É por isso que, embora o casamento possa existir sem o sacramento, como entre os infiéis, ainda nesse matrimônio deve, todavia, existir e certamente existe aquele vínculo perpétuo, que desde a primeira origem é tão inerente ao matrimônio, que não está sujeito a nenhum poder civil. Por isso, qualquer matrimônio que se diga contraído ou está contraído de modo que seja um verdadeiro matrimônio, e neste caso terá anexo esse vínculo que por direito divino é inerente a qualquer verdadeiro matrimônio; ou então se supõe contraído sem esse vínculo perpétuo, e neste caso não é matrimônio mas união ilícita, contrária pelo seu objeto à lei divina, e que, por isso, não se pode licitamente contrair nem manter' (Pio VI, Rescript. ad Episc. Agriens., 11 de julho de 1789).

Exceções da indissolubilidade

35. Se esta indissolubilidade parece sofrer alguma exceção, embora raríssima, como em certos matrimônios naturais, contraídos somente entre os infiéis, ou entre fiéis em matrimônios ratos [devidamente celebrados] mas não consumados, tal exceção não depende da vontade dos homens, mas sim do direito divino, de que é única guarda e intérprete a Igreja de Cristo. Mas tal faculdade nunca poderá aplicar-se por nenhum motivo ao matrimônio cristão rato [devidamente celebrado] e consumado. Neste, efetivamente, assim como o vínculo conjugal obtém a plena perfeição, também resplandece por vontade de Deus a máxima estabilidade e indissolubilidade, que nenhuma autoridade humana poderá abalar.

A íntima razão da indissolubilidade

36. Se quisermos perscrutar reverentemente a íntima razão desta vontade divina, facilmente a encontraremos, Veneráveis Irmãos, naquela significação mística do matrimônio cristão, que plena e perfeitamente se verifica no matrimônio consumado entre os fiéis. De fato, o matrimônio dos cristãos, segundo o testemunho do Apóstolo, na sua epístola aos Efésios, a que no princípio nos referimos (Ef 5, 32), representa a união perfeitíssima de Cristo com a Igreja: 'É grande este sacramento, mas, digo, em Cristo e na Igreja'; esta união nunca poderá dissolver-se por nenhuma separação, enquanto viver Cristo e por ele a Igreja. Claramente ensina Santo Agostinho com estas palavras: 'Em Cristo e na Igreja garantiu-se efetivamente isto: que o vivo não se separe eternamente do vivo por nenhum divórcio. Tão zelosa é a observância deste sacramento na cidade de nosso Deus... isto é, na Igreja de Cristo... que, quando, para ter filhos, ou as mulheres tomam marido ou os homens tomam mulher, não é lícito abandonar a mulher estéril para tomar outra fecunda. Se algum faz isto, é réu de adultério, não pela lei deste século (em que, mediante o repúdio, se concede contrair matrimônio com outra, sem considerar isso como crime, o que, segundo o testemunho do Senhor, o Santo Moisés permitiu aos Israelitas, por causa da dureza dos seus corações) — mas pela lei do Evangelho, assim como também é ré de adultério a mulher que se casar com outro' (Santo Agostinho, De nupt. et concup., livro I, cap. 10).

As vantagens da indissolubilidade

37. Quantas e quão grandes vantagens derivam da indissolubilidade do matrimônio, facilmente o entende todo aquele que refletir um instante quer no bem dos próprios cônjuges e dos filhos, quer na salvação de toda a sociedade humana. Em primeiro lugar, os cônjuges têm na estabilidade absoluta do vínculo aquele sinal certo de perenidade que é exigido por sua natureza pela generosa doação de toda a pessoa e pela íntima união dos corações, visto que a verdadeira caridade não conhece limites (1 Cor 13, 8). Ela constitui, além disso, pela castidade fiel, um sólido baluarte de defesa contra as tentações de infidelidade, quer internas, quer externas, se elas sobrevierem; excluindo qualquer ansiedade ou terror de que, pela adversidade ou velhice, o outro cônjuge se afaste, estabelece-lhe uma tranquilidade segura. Concorre igualmente para aumentar a dignidade dos cônjuges e o seu mútuo auxílio, da maneira mais oportuna, recordando-lhes o pensamento do vínculo indissolúvel que não com vistas a interesses caducos nem para satisfação dos prazeres, mas para cooperarem juntamente na consecução de bens mais altos e eternos, é que eles contraíram o pacto nupcial que só a morte poderá dissolver. Admiravelmente ainda, a estabilidade do matrimônio provê ao cuidado e educação dos filhos, obra de longos anos, cheia de graves deveres e de fadigas, que mais facilmente poderão realizar os pais unindo suas forças. E não são menores os benefícios que dela dimanam para toda a sociedade. De fato, a experiência ensina que concorre imensamente para a honestidade de vida em geral e para a integridade dos costumes a inquebrantável estabilidade dos matrimônios e que a estrita observância dessa ordem assegura a felicidade e a salvação do Estado. E que o Estado será o que forem as famílias e o que forem os homens de que se compõe, como o corpo de membros. Donde vem que todos os que defendem energicamente a inviolável estabilidade do matrimônio se tornam altamente beneméritos quer do bem privado dos esposos e de seus filhos, quer do bem público da sociedade humana.

A graça sacramental

38. Mas neste benefício do sacramento, além das vantagens da inviolável estabilidade, se contêm ainda outras, mais excelentes, admiravelmente designadas no próprio vocábulo de sacramento; para os cristãos, esta palavra não é vã e vazia de sentido, porque sabem que Cristo, instituidor e aperfeiçoador dos veneráveis sacramentos (Conc. Trid. Sess. XXIV), ao elevar à dignidade de verdadeiro e real sacramento da Nova Lei o matrimônio dos seus fiéis, o tornou, de fato, sinal e fonte daquela especial graça interior por que 'eleva o amor natural à maior perfeição, confirma a sua indissolúvel unidade e santifica os próprios cônjuges' (Conc. Trid. Sess. XXIV).

39. Visto que Cristo estabeleceu ainda que o válido consentimento matrimonial entre os fiéis fosse o sinal da graça, daí deriva que o caráter de sacramento está tão intimamente anexo ao matrimônio cristão que, entre os batizados, não pode haver matrimônio 'que não seja ao mesmo tempo sacramento' (Cod. Jur. Can. c. 1012).

Outros dons especiais

40. Por isso, quando os fiéis prestam esse consentimento sinceramente, abrem para si mesmos o tesouro da graça sacramental, onde podem haurir as forças sobrenaturais para cumprir a sua missão e os seus deveres fielmente e santamente, com perseverança, até a morte.

41. É que este sacramento, naqueles que não lhe opõem obstáculo positivo, não só aumenta o princípio de vida sobrenatural, isto é, a graça santificante, mas lhes acrescenta, ainda, outros dons especiais, disposições e germes de graça; aumenta e aperfeiçoa as forças da natureza, a fim de que os cônjuges possam não só compreender bem mas sentir intimamente, apreciar com firme convicção e resoluta vontade, e praticar tudo o que se refere ao estado conjugal e aos seus fins e deveres; para tal efeito confere-lhes, enfim, direito ao auxílio da graça todas as vezes que dele precisam para cumprir as obrigações deste estado.

Cooperação generosa

42. Assim como é lei da providência divina, na ordem sobrenatural, que o homem não colha o fruto completo dos sacramentos, recebidos depois do uso da razão, se não cooperar com a graça, assim também a graça própria do matrimônio permaneceria em grande parte talento inútil sepultado na terra se os cônjuges não aproveitassem as forças sobrenaturais, cuidando de cultivar e fazer frutificar as preciosas sementes da graça. Mas, se, ao contrário, se esforçam quanto podem por ser dóceis à graça, poderão suportar os encargos do seu próprio estado, cumprir os deveres e sentir-se-ão, por virtude de tão grande sacramento, fortificados, santificados e como que consagrados. Porque, como ensina Santo Agostinho, assim como pelo Batismo e pela Ordem o homem é designado e ajudado ou para levar uma vida cristã ou para exercer o ministério sacerdotal, e nunca lhe poderá faltar o auxílio sacramental, assim também (ainda que sem o caráter sacramental) os fiéis, unidos uma vez pelo vínculo do sacramento do matrimônio, nunca mais poderão ser privados do seu auxílio e do seu laço. E até, como afirma o mesmo Santo Doutor, esse vínculo sagrado o levarão consigo, ainda quando caídos em adultério, embora não já para glória da graça, mas para castigo da culpa, 'do mesmo modo que a alma do apóstata, quebrando a união com Cristo, ainda depois de perdida a fé, não perde o sacramento da fé recebido na água da regeneração' (S. Agostinho, De nupt. et concup., livro I, cap. 10).

Imagem de uma união divina

43. Que os esposos, pois, não presos mas adornados pela cadeia áurea do sacramento, não entravados mas fortalecidos por ele, empreguem todos os seus esforços a fim de que sua união, não só pela força e significação do sacramento mas também por seu espírito e por seus costumes, sempre seja e permaneça imagem viva da união fecundíssima de Cristo com a Igreja, que é certamente mistério venerando de perfeitíssima caridade.

44. Se se considerarem todas estas coisas, Veneráveis Irmãos, com ponderação e fé viva; se estes preciosos bens do matrimônio - a prole, a fidelidade e o sacramento - forem postos na devida luz, ninguém poderá deixar de admirar a sabedoria, a santidade e a bondade divina que tão abundantemente providenciou que ao mesmo tempo se mantivesse a dignidade e a felicidade dos cônjuges e se obtivesse a conservação e propagação do gênero humano, somente pela casta e sagrada união do vínculo nupcial.

quarta-feira, 22 de março de 2023

DIÁRIO DA QUARESMA 2023 - DIA XXVIII

   

Vigésimo Oitavo Dia

A penitência ou contrição pode ser considerada como um sacramento ou como virtude ou ato de virtude e consiste em sentir sincera dor pelos pecados cometidos, manifestando-se adotar então uma firme determinação de não cometê-los mais. Eis o fundamento da penitência: dor do pecado e o propósito de não mais pecar.

Propósito do Dia: Rezar o Salmo Penitencial CI dado abaixo e escolher uma destas práticas (que pode ser nova ou repetida de dia anterior ou adotando-se qualquer outra que julgar mais conveniente) para viver esta Quaresma no dia de  amanhã.

Salmo CI

Prece de um aflito que desabafa sua angústia diante do Senhor.
Senhor, ouvi a minha oração, e chegue até vós o meu clamor.
Não oculteis de mim a vossa face no dia de minha angústia. Inclinai para mim o vosso ouvido. 
Quando vos invocar, acudi-me prontamente,
porque meus dias se dissipam como a fumaça, e como um tição consomem-se os meus ossos.
Queimando como erva, meu coração murcha, até me esqueço de comer meu pão.
A violência de meus gemidos faz com que se me peguem à pele os ossos.
Assemelho-me ao pelicano do deserto, sou como a coruja nas ruínas.
Perdi o sono e gemo, como pássaro solitário no telhado.
Insultam-me continuamente os inimigos, em seu furor me atiram imprecações.
Como cinza do mesmo modo que pão, lágrimas se misturam à minha bebida,
devido à vossa cólera indignada, pois me tomastes para me lançar ao longe.
Os meus dias se esvaecem como a sombra da noite e me vou murchando como a relva.
Vós, porém, Senhor, sois eterno, e vosso nome subsiste em todas as gerações.
Levantai-vos, pois, e sede propício a Sião; é tempo de compadecer-vos dela, chegou a hora...
porque vossos servos têm amor aos seus escombros e se condoem de suas ruínas.
E as nações pagãs reverenciarão o vosso nome, Senhor, e os reis da terra prestarão homenagens à vossa glória.
Quando o Senhor tiver reconstruído Sião, e aparecido em sua glória,
quando ele aceitar a oração dos desvalidos e não mais rejeitar as suas súplicas,
escrevam-se estes fatos para a geração futura, e louve o Senhor o povo que há de vir,
porque o Senhor olhou do alto de seu santuário, do céu ele contemplou a terra;
para escutar os gemidos dos cativos, para livrar da morte os condenados;
para que seja aclamado em Sião o nome do Senhor, e em Jerusalém o seu louvor,
no dia em que se hão de reunir os povos, e os reinos para servir o Senhor.
Deus esgotou-me as forças no meio do caminho, abreviou-me os dias.
Meu Deus, peço, não me leveis no meio da minha vida, vós cujos anos são eternos.
No começo criastes a terra, e o céu é obra de vossas mãos.
Um e outro passarão, enquanto vós ficareis. Tudo se acaba pelo uso como um traje. Como uma veste, vós os substituís e eles hão de sumir.
Mas vós permaneceis o mesmo e vossos anos não têm fim.
Os filhos de vossos servos habitarão seguros, e sua posteridade se perpetuará diante de vós.

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre. Amém. 

DOUTORES DA IGREJA (VI)

 6. São Basílio Magno, Bispo (†379)

Doutor do Monaquismo Oriental

Concessão do título: 1568 - Papa Pio V
(como um dos primeiros 4 Grandes Doutores do Oriente)
Celebração: 02 de janeiro (Memória Obrigatória)
Obras e Escritos  
  • De Spiritu Sancto - Sobre o Espírito Santo
  • Contra Eunômio [contra o anomoeanismo]
  • Ad adolescentes - Aos Homens Jovens
  • In Hexaemeron - Nove Homilias Quaresmais
  • Regras Monásticas [Maiores e Menores]
  • Homilias sobre os Salmos 
  • Outros Sermões e Cartas

terça-feira, 21 de março de 2023

DIÁRIO DA QUARESMA 2023 - DIA XXVII

  

Vigésimo Sétimo Dia

A importância da satisfação pelo pecado cometido, mesmo depois de perdoado. Medida da satisfação pelo pecado perdoado. Modos de prestar satisfação a Deus pelos pecados cometidos.

Propósito do DiaMeditar sobre estes três pontos relativos à satisfação devida a Deus pelos pecados cometidos, nesta quarta semana da Quaresma, com base nessa Leitura Espiritual e escolher uma destas práticas (que pode ser nova ou repetida de dia anterior ou adotando-se qualquer outra que julgar mais conveniente) para viver esta Quaresma no dia de amanhã.

SERMÃO SOBRE A CEGUEIRA


Oh quem me dera tivesse agora neste auditório o mundo todo! Quem me dera que me ouvisse agora Espanha, que me ouvisse a França, que me ouvisse a Alemanha, que me ouvisse a mesma Roma! Príncipes, reis, imperadores, monarcas do mundo, vedes a ruína dos vossos reinos, vedes as aflições, e misérias dos vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou vedes, ou não o vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se não o remediais, como o vedes? Estais cegos. 

Príncipes eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó prelados que estais em seu lugar, vedes as calamidades universais, e particulares da Igreja, vedes os destroços da Fé, vedes o descaimento da Religião, vedes o desprezo das Leis Divinas, vedes a irreverência dos lugares sagrados, vedes o abuso dos costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escândalos, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta de doutrina sã, vedes a condenação, e perda de tantas almas dentro, e fora da Cristandade? Ou o vedes, ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se não o remediais, como o vedes? Estais cegos. 

Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra, vedes as obrigações que se descarregam sobre o vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre vossas consciências, vedes as desatenções do governo, vedes as injustiças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes os respeitos, vedes as potências dos grandes, e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores, e gemidos de todos? Ou o vedes, ou o não vedes? Se o vedes, como não remediais? E se não o remediais, como o vedes? Estais cegos. 

Pais de família, que tendes casa, mulher, filhos, criados, vedes o desconcerto, e descaminho das vossas famílias, vedes a vaidade da mulher, vedes o pouco recolhimento das filhas, vedes a liberdade, e más companhias dos filhos, vedes a soltura, e descomedimento dos criados, vedes como vivem, vedes o que fazem, e o que se atrevem a fazer, fiados muitas vezes na vossa dissimulação, no vosso consentimento, e na sombra do vosso poder? Ou o vedes, ou o não vedes? Se o vedes, como não remediais? E se não o remediais, como o vedes? Estais cegos. 

Finalmente, homem cristão, de qualquer estado, e de qualquer condição que sejas: vês a Fé e o caráter que recebeste no batismo, vês a obrigação da Lei que professas, vês o estado em que vives há tantos anos, vês os encargos da tua consciência, vês as restituições que deves, vês a ocasião de que não te apartas, vês o perigo da tua alma, e de tua salvação, vês que estás atualmente em pecado mortal, vês que se te toma a morte nesse estado, que te condenas sem remédio; vês que, se te condenas, hás de arder no inferno, enquanto Deus for Deus, e que hás de carecer do mesmo Deus por toda a eternidade? 

Ou vemos tudo isto, cristãos, ou não o vemos? Se o não vemos, como somos tão cegos? E se o vemos, como o não remediamos? Fazemos conta de o remediar alguma hora, quando há de ser esta hora? Ninguém haverá tão ímpio, tão bárbaro, tão blasfemo, que diga que não. Pois se o havemos de remediar alguma hora, quando há de ser esta hora? Na hora da morte? Na última velhice? Essa é a conta que lhe fizeram todos os que estão no inferno, e lá estão, e lá estarão para sempre. E será bem que façamos nós também a mesma conta, e que nos vamos após eles? Não, não, não queiramos tanto mal a nossa alma. Pois se algum dia há de ser, se algum dia havemos de abrir os olhos, se algum dia nos havemos de resolver, porque não será neste dia?

Ah Senhor, que não quero persuadir aos homens, nem a mim (pois somos tão cegos), a Vós me quero tornar. Não olheis, Senhor, para as nossas cegueiras; lembrai-Vos dos Vossos olhos, lembrai-Vos do que eles fizeram hoje em Jerusalém. Ao menos um cego saia hoje daqui alumiado. Ponde em nós esses olhos piedosos; ponde em nós esses olhos misericordiosos; ponde em nós esses olhos onipotentes. Penetrai, e abrandai com eles a dureza destes corações: rasgai, e alumiai a cegueira destes olhos; para que vejam o estado miserável de suas almas; para que vejam quanto lhes merece essa Cruz, e essas chagas; e para que lançando-nos todos aos Vossos pés, como hoje fez o cego, arrependidos com uma firmíssima resolução de nossos pecados, nos façamos dignos de ser alumiados por Vossa Graça e Vos ver eternamente na Glória.

('Sermão da Quinta Quarta-Feira da Quaresma', do Pe. Antônio Vieira, pregado na Igreja da Misericórdia de Lisboa, no ano de 1669)

segunda-feira, 20 de março de 2023

SÃO JOSÉ, SANTO DE TODAS AS CAUSAS


'Tomei por advogado e senhor ao glorioso São José e me encomendei muito a ele. Vi com clareza que, tanto desta necessidade como de outras maiores, de perder a fama e a alma, esse pai e senhor meu me livrou melhor do que aquilo que eu sabia pedir. Não me lembro até hoje de haver-lhe suplicado nada que não me tenha concedido. É coisa que espanta as grandes mercês que me fez Deus por meio deste bem-aventurado santo, e dos perigos de que me livrou, tanto de corpo como de alma; que a outros santos parece que lhes deu o Senhor graça para socorrer em uma necessidade; mas a este glorioso santo tenho experiência de que socorre em todas, e quer o Senhor nos dar a entender, que assim como a ele esteve submetido na terra, pois como tinha nome de pai, sendo guardião nele podia mandar; assim no céu faz o quanto lhe pede'.

(Santa Teresa de Ávila)

Obs.: Dia não incluído no Diário da Quaresma 2023, ver postagem aqui.