quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

20 DE FEVEREIRO - SANTOS JACINTA E FRANCISCO MARTO


Jacinta contava apenas sete anos e Francisco apenas nove quando tiveram, juntamente com Lúcia (à época, com 10 anos) as visões de Nossa Senhora em Fátima. Depois da visão do inferno, Nossa Senhora pediu a ambos orações e sacrifícios pela conversão dos pecadores, e as duas crianças passaram a se esmerar para o pleno cumprimento destas práticas desde então e citam-se inúmeros exemplos de mortificação dados por eles em diversas ocasiões. Em 1918, foram vitimados pela terrível gripe pneumônica que assolou toda a Europa. Durante meses, em meio a internações e operações diversas, os dois irmãos sofreram com grande resignação. 

Em janeiro de 1919, a Santíssima Virgem apareceu-lhes para dar uma surpreendente notícia e convidar Jacinta ao holocausto completo: 'Nossa Senhora veio nos ver e disse que vem buscar o Francisco muito breve para o Céu. E a mim, perguntou-me se queria ainda converter mais pecadores. Disse-lhe que sim. Disse-me que iria para um hospital, que lá sofreria muito; que sofresse pela conversão dos pecadores, em reparação dos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria e por amor de Jesus.' Francisco morreria em 04/04/1919. Jacinta, internada em um hospital de Lisboa, padeceu com serenidade os tormentos finais da sua enfermidade, até falecer em 20 de fevereiro de 1920.


Se é verdade que São Domingos Sávio morreu aos 15 anos e Santa Maria Goretti aos onze, é possível que crianças em tal tenra idade sejam capazes de viver e praticar a virtude com zelo heroico e, assim, alcançarem o cimo da santificação? A resposta é sim e este sim se aplica aos pequenos videntes de Fátima. A 22 de junho de 1999, foi aprovado um milagre de cura pela intercessão de Francisco e de Jacinta, abrindo-se, assim, o caminho da beatificação de ambos por meio de um único processo que culminou com a beatificação dos videntes em Fátima, em 13 de maio de 2000, ano jubilar, pelo Papa João Paulo II. 

Com a confirmação de um segundo milagre em março de 1917, considerado como resultado da intercessão direta dos videntes de Fátima e que envolveu a cura inexplicável de uma criança brasileira vítima de grave acidente com traumatismo crânio-encefálico (evento ocorrido em 2013), cumpriu-se a exigência complementar para a canonização das duas crianças, evento que ocorreu finalmente na data do centenário das aparições, em 13 de maio de 2017. Nesta data histórica, Francisco e Jacinta Marto foram declarados os santos não-mártires mais jovens da Igreja Católica.


Santa Jacinta Marto, rogai por nós!

São Francisco Marto, rogai por nós!

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

BREVIÁRIO DIGITAL (LXIII) - ILUSTRAÇÕES DE NADAL (XI)

Paterfamilias plantat vineam, & locat agricolis

91. Evangelho (Mt 21, Mc 12, Lc 20): Um pai de família planta e arrenda a sua vinha a lavradores

Extra vineam Filium occidunt

92. Evangelho (Mt 21, Mc 12, Lc 20): O filho do dono da vinha é morto pelos lavradores

Facit Rex nuptias Filio

93. Evangelho (Mt 22): Um rei celebra as bodas do seu filho

De soluendo tributo

94. Evangelho (Mt 22, Mc 12, Lc 20): Pagar os tributos (dar a César o que é de César)

De primo mandato interrogatur IESVS

95. Evangelho (Mt 22, Mc 12, Lc 20): Jesus é interrogado sobre o Primeiro Mandamento

Quomodo credendum docentibus Pharisaeis, & Scribis

96. Evangelho (Mt 23, Mc 12, Lc 20): Jesus ensina como lidar com os escribas e os fariseus

De Antichristo

97. Evangelho (Mt 24, Mc 13, Lc 21): Sobre o Anticristo

Quae Iudicium vniuersale proxime praecedent

98. Evangelho (Mt 24, Mc 13, Lc 21): O que acontece antes do Juízo Universal

Iudicium vniuersale

99. Evangelho (Mt 25): O Juízo Universal

Coena legalis

100. Evangelho (Mt 26, Mc 14, Lc 22, Jo 13): Preparação para a Última Ceia

domingo, 18 de fevereiro de 2018

O RETIRO NO DESERTO

Páginas do Evangelho - Primeiro Domingo da Quaresma


Jesus acabara de se submeter ao batismo nas águas do Jordão, evento que deflagara, então, pela manifestação expressa nas palavras do Pai e pela ação do Espírito Santo descido do céu na forma de uma pomba, o início do tempo de sua pregação pública, na investidura messiânica do Filho de Deus Vivo. E, diante desta missão portentosa, a primeira medida do Espírito Santo é conduzir Jesus ao deserto, para um tempo singular de devoção, oração e profundo recolhimento interior, na consumação da alma elevada à divina perfeição.  

Neste Primeiro Domingo da Quaresma, o Evangelho nos invoca a começar também esse tempo de jejuns e penitência seguindo o exemplo de Jesus, com um retiro no deserto. O deserto para nós representa um lugar de provação, de tentação e de exílio; afastados do cotidiano do mundo, somos desafiados a viver um tempo singular de conscientização e de reflexão sobre a limitação dos valores mundanos e da preparação de almas perseverantes na superação destes limites e indo mais além, para águas mais profundas, na busca dos valores da graça santificante que nos forjam herdeiros dos Céus.

Ir ao deserto afastado do mundo não implica se esconder do mundo. Jesus 'ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás. Vivia entre animais selvagens, e os anjos o serviam' (Mc 1, 13). Quarenta dias é o tempo bíblico de referência para tempos de grande provação; as tentações de satanás no deserto repetem as tentações que nos são impostas pelo demônio durante toda a nossa vida, até no momento da morte; a vida entre animais selvagens caracteriza uma vida no exílio, longe do cotidiano do mundo.

Estar no deserto não significa um isolamento da alma. Deus está presente em nós em todos os momentos, com as graças necessárias para a plena superação de todas as provações, tentações e abatimentos da caminhada e, por isso, 'os anjos o serviam' (Mc 1, 13). Encerrado o tempo de vigília e de preparação no deserto e dado o sinal final da Providência Divina, pela prisão de João Batista, o Antigo Testamento torna-se passado de vez e tem início a pregação da Boa Nova para a salvação da humanidade, evocada com os próprios termos com que o Precursor anunciara os tempos da redenção (conforme Mt 3, 1-2): 'O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!' (Mc 1, 15).

18 DE FEVEREIRO - SANTA BERNADETTE SOUBIROUS


Bernadette Soubirous nasceu em Lourdes, região montanhosa dos Pirineus, a 7 de janeiro de 1844. Após as aparições de Nossa Senhora em Lourdes, Bernadette foi admitida na Comunidade de Filhas da Caridade de Nevers: em julho de 1866 começou seu noviciado e, em 22 de setembro de 1878, pronunciou seus votos. Faleceu no dia 16 de Abril de 1879, com a idade de 35 anos, após uma longa e dolorosa enfermidade. Trinta anos após sua morte, em 22 de setembro de 1909, seu corpo foi exumado e encontrado em perfeito estado de conservação. Alguns anos depois, em 13 de abril de 1925, pouco antes de sua beatificação, efetuada em 12 de junho de 1925, foi feito um segundo reconhecimento do corpo, que continuava intacto. 

Bernadette foi canonizada pelo Papa Pio XI em 8 de dezembro de 1933. Seu corpo incorrupto é mantido em uma urna de cristal desde 3 de agosto de 1925 e pode ser visitado ainda hoje na Igreja de Saint Gildard em Nevers. A festividade da santa se celebra no dia 16 de abril, data de sua morte. Na França (e no Brasil), é celebrada no dia 18 de fevereiro. A festa de Nossa Senhora de Lourdes é celebrada no dia de sua primeira aparição, 11 de fevereiro.

Santa Bernadette, rogai por nós!



sábado, 17 de fevereiro de 2018

AS CINCO PRÁTICAS DA QUARESMA


'Voltai para mim de todo o coração, fazendo jejuns, chorando e batendo no peito! Rasgai vossos corações, não as roupas!' (Jl 2, 12 -13)

Assim diz o Senhor, pela boca do profeta Joel: 'Voltai para mim de todo o coração'... com apelos de conversão e penitência! A Quaresma é para ser vivida no coração, mas não no nosso coração cotidiano, emotivo, superficial e vazio, submerso nas preocupações da vida e nas tribulações diárias de nossa rotina. Não, o nosso coração para Deus neste tempo de graças extremadas deve ser um coração quebrado, partido, rasgado, desfigurado... 'Rasgai os vossos corações'... somente assim, em corações rasgados para o mundo, flagelados pela contrição sincera, machucados pela dor do arrependimento, o Senhor pode entrar e habitar com alegria, porque são estes corações que se mais se assemelham ao Sagrado Coração de Jesus no Calvário.

'Voltai para mim de todo o coração'... neste tempo  de Quaresma, é esse o apaixonado apelo do Senhor: afastai-vos do mundo e dai-Me os vossos corações partidos, sofridos, amargurados e Eu farei habitar neles a minha Santa Alegria. Entregar nossos corações feridos e quebrados significa experimentarmos plenamente os frutos da mortificação, da contrição e da conversão sincera. E para isso, temos cinco práticas ou preceitos tradicionalmente vividos no tempo quaresmal: jejum e abstinência, esmola, silêncio, vigília e aumento do tempo dedicado à leitura orante da Bíblia (lectio divina). Estes são os meios que a Tradição da Igreja nos revela como experimentados e verdadeiramente eficazes para se entregar o coração - de todo o coração - à graça de Deus.

1. Jejum e Abstinência 

O jejum (a privação da alimentação) e a abstinência (não fazer uso de certos alimentos) constituem a primeira pancada para quebrar a crosta endurecida do nosso coração. Não implicam golpes de aríete (jejuns extraordinários, proezas desmedidas), mas tão somente uma série de pequenos impactos, contínuos e duradouros (condizente com o estado de saúde de cada um), que estimulem a nossa vulnerabilidade e fraqueza diante da fome, da sede ou da insaciedade, limitações e vazios que somente Deus nos pode prover. Ambos têm uma conotação essencialmente eucarística: 'Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome, e quem crê em mim nunca mais terá sede' (Jo 6, 35).

2. Esmola 

A esmola é a dádiva ao outro sem a imposição de recursos de favor ou gratidão. O fruto da esmola é a alegria espiritual, que rasga o nosso coração por dentro para abrir o coração do outro. E, assim, abrimos o coração a Cristo. A esmola rompe o escândalo do instinto do acúmulo, que nos leva a guardar para ninguém o que aos outros pertence. O supérfluo que entulha nossos armários e casas rouba que outro possa ter o necessário e é uma afronta à Providência Divina, pois o Senhor enche de bens os famintos e manda embora os ricos de mãos vazias (Lc 1, 53).

3. Silêncio 

O silêncio é a arma predileta de Deus para romper os corações mais endurecidos. Fique em silêncio, viva o silêncio no tempo quaresmal. O silêncio evita o pecado. Mais ainda, diante do teu silêncio, a Palavra de Deus vai romper as muralhas e chegar às masmorras mais escondidas do teu pobre coração porque 'a palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante que qualquer espada de dois gumes. Penetra até dividir alma e espírito, articulações e medulas. Julga os pensamentos e as intenções do coração' (Hb 4, 12).

4. Vigília

A vigília é o seu tempo sozinho com Deus. O sacrifício do nosso tempo para Deus é uma oferta de todo o coração, que nos libera da escravidão de tanto tempo perdido em coisas sem sentido e fúteis. A vigília implode o nosso coração eivado de preocupações cotidianas e submerso na posse de um tempo que está sempre aquém do que precisamos. Somos possessivos do nosso tempo e, ainda assim, perdemos tempo o tempo todo. Uma vez livres da sofreguidão do nosso tempo e na presença de Deus, experimentamos na vigília ao Senhor, mais do que apenas um pouco de tempo, a doação da nossa própria vida.

5. Leitura Orante da Bíblia

É a prática que complementa todas as outras e, sem a qual, as outras não podem dar frutos. Sem a leitura orante da Bíblia, o jejum perde o sentido, a esmola fica sempre para depois, o silêncio nos inquieta e a vigília tende a ser pesada e desconfortável. A lectio divina é o fundamento de todas as outras formas de oração. Com ela, podemos percorrer com maior proveito o caminho da Cruz, adorar com santa alegria o Senhor no Santíssimo Sacramento e invocar Nossa Senhora como advogada e medianeira na nossa entrega a Deus de todo o coração. 

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

ORAÇÃO PELOS SACERDOTES

Ó meu Jesus amado, 
Eu vos ofereço a pobreza dos Vossos sacerdotes, para que se enriqueçam; 
os corações vazios dos Vossos sacerdotes, para que Vós os encheis do Vosso amor, 
a frieza dos Vossos sacerdotes, para que se tornem fornalhas ardentes.

Eu Vos ofereço a solidão dos Vossos sacerdotes, para que sejam abraçados; 
Eu Vos ofereço as dores dos Vossos sacerdotes, para que sejam consolados; 
Eu Vos ofereço as doenças dos Vossos sacerdotes, para que sejam curados.

Eu Vos ofereço as impurezas dos Vossos sacerdotes, para que fiquem limpos; 
Eu Vos ofereço a nudez dos Vossos sacerdotes, para que sejam revestidos por Vós; 
Eu Vos ofereço a surdez dos Vossos sacerdotes, para que possam ouvir a Vossa Voz.

Eu Vos ofereço as quedas dos Vossos sacerdotes, para que sejam levantados; 
Eu Vos ofereço as vaidades dos Vossos sacerdotes, para que sejam crucificados Convosco;
Eu Vos ofereço a pequenez dos Vossos sacerdotes, para que se tornem santos.

Eu Vos ofereço a escuridão dos Vossos sacerdotes, para que recebam a Vossa luz;
Eu Vos ofereço a amargura dos Vossos sacerdotes, para que aprendam a Vossa Doçura; 
Eu Vos ofereço as lutas dos Vossos sacerdotes, para que eles experimentem a Vossa Glória.

Eu Vos ofereço a cegueira dos Vossos sacerdotes, para que tenham a Plena Visão; 
Eu Vos ofereço o cansaço dos Vossos sacerdotes para que descansem no Vosso Coração; 
Eu Vos ofereço a sede dos Vossos sacerdotes, para que se saciem na Fonte da Água Viva.

Eu Vos ofereço os medos dos Vossos sacerdotes, para que armem de toda a confiança; 
Eu Vos ofereço as dúvidas dos Vossos sacerdotes, para que sejam fortalecidos na fé; 
Eu Vos ofereço o desânimo dos Vossos sacerdotes, para que sejam infundidos de esperança.

Eu Vos ofereço a tristeza dos Vossos sacerdotes, que que sejais para eles a Santa Alegria; 
Eu Vos ofereço todos os Vossos sacerdotes, especialmente aqueles que estão em sua última agonia, aqueles que estão trancados em combate espiritual e aqueles que estão tentados a pecar contra a fé e contra a esperança, para que sejam perseverantes até o fim; 
Eu Vos ofereço a morte dos Vossos sacerdotes, para que sejam Vossos Filhos muito amados por toda a eternidade; 
Eu Vos ofereço todos os sacerdotes, particularmente aqueles para quem a Vossa Presença no Santíssimo Sacramento tornou-se apenas uma questão de rotina, tibieza e indiferença, para que sejam cobertos pela Vossa Infinita Misericórdia.

Jesus, Jesus Amado, tende misericórdia dos Vossos sacerdotes obscurecidos na tibieza, na frialdade dos corações vazios, reféns das seduções do mundo, da letargia da carne e das tentações do demônio, tomai-os para Vós como propriedade Vossa e não permitis que se percam estes Vossos Filhos que para Vós criastes com tanto amor.

(Tradução livre pelo autor do blog da oração 'Praying for Priests', publicada originalmente no blog Vultus Christi)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

QUARTA DE CINZAS


Memento, homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris

'Lembra-te, homem, que és pó e ao pó retornarás!' (Gn 3,19). A Quarta-Feira de Cinzas é o primeiro dia do tempo da Quaresma, quarenta dias antes da Páscoa. Neste dia por excelência refletimos sobre a nossa condição mortal nesta vida e a eternidade de nossas almas na vida futura. Num tempo em que se valoriza tanto a dimensão física, a beleza do corpo, a imposição das cinzas nos desvela a dura realidade do nosso corpo mortal: apenas pó que há de se consumir em cinzas.

Esse dia dá início, portanto,  a um tempo de profunda meditação sobre a nossa condição humana diante da grandeza e misericórdia de Deus. Tempo para fazer da nossa absurda fragilidade, sustentáculos da verdade e da fé; tempo para fazer de nossa pequenez e miséria, um templo de oração e um arcabouço de graças; tempo para transformar a argila pálida de nossos feitos e conquistas, em patamares seguros para a glória de Deus. Um tempo de oração, jejum e caridade. Um tempo de oração, desagravo, conversão, reparação. E um tempo de penitência, penitência, penitência...

A penitência é traduzida por atos de mortificação, seja na caridade silenciosa de um pequeno gesto, seja na determinação silenciosa de um pequeno 'não!' Pequenos gestos: uma visita a um amigo doente, uma palavra de conforto a quem padece ausências, um bom dia ainda nunca ofertado; ou um pequeno 'não': à abstinência de carne ou refrigerante ou ao fumo; abrir mão de ter sempre a última resposta ou para aquela hora a mais de sono; simplesmente dizer não a um livro, a uma música, a uma revista, a um programa de televisão. 

Propague o silêncio, sirva-se da modéstia; invista no anonimato, não se ensoberbeça, pratique a tolerância, estanque a frivolidade, consuma-se na obediência. Lembra-te que és pó e todas as tuas ações, aspirações e pensamentos vão reverberar em ti as glórias de Deus.

Abre-se hoje o Tempo da Quaresma: 'convertei-vos e crede no Evangelho'. Pois é no Evangelho (Mt 6, 1-6.16-18) que Jesus nos dá os instrumentos para a realização de uma autêntica renovação interior: oração, jejum e caridade. Com estas três práticas fundamentais, o tempo de penitência da quaresma é convertido em caminho de santificação ao encontro de Jesus Ressuscitado que vem, na Festa da Páscoa.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

'É A VOSSA FACE, Ó SENHOR, QUE EU BUSCO'


'É a Vossa face, ó Senhor, que eu busco' (Sl 26,8)

Não seria este um belo propósito de viver a Quaresma deste ano de 2018: buscar, contemplar e adorar a Sagrada Face de Cristo? A Sagrada Face escondida e revelada nas Sagradas Escrituras, a Sagrada Face escondida e revelada na Santíssima Eucaristia, a Sagrada Face escondida e revelada na pessoa do nosso próximo; a Sagrada Face escondida e reveladora da agonia, paixão e morte do Senhor; a Sagrada Face escondida e reveladora da infinita glória de Deus? Que seja este o nosso firme propósito nesta Quaresma: buscar no outro e em todos a Sagrada Face de Cristo para sermos transformados verdadeiramente em Cristo: na face, no coração, e na nossa alma...

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O PECADO DO ESCÂNDALO

(Cornelius a Lapide, 1597 - 1637)

O escândalo

O escândalo, diz Santo Tomás, é uma palavra ou uma ação que carece de retidão e que causa a ruína do próximo. O escandaloso é um homem pernicioso, diz a Escritura, que se insinua com palavras pérfidas, fomenta o mal em seu coração depravado e semeia a discórdia o tempo todo (Pv 3, 13-15). O escandaloso, diz São Efrém, perde a fé, cai nos vícios, despreza os sacramentos, zomba do inferno e nunca se ocupa das coisas de Deus (Sermão IV).

A gravidade do pecado do escândalo

Ai do mundo por causa de seus escândalos! Ai do homem que causa o escândalo!, diz Jesus Cristo (Mt 18,7). A Sagrada Escritura normalmente não fala nestes termos, exceto quando se trata de um pecado muito grave. Nosso Senhor Jesus Cristo referiu-se ao escândalo como um grande pecado, quando disse: 'se alguém fizer cair em pecado um destes pequenos que creem em mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço a mó de um moinho e o lançassem no fundo do mar' (Mt 18, 6).

Os homens maus, diz São Paulo, e os homens ímpios irão de mal a pior, errando e fazendo outros errar (II Tm 3,13). 'O escandaloso se prostituiu para fazer o mal', diz a Escritura (III Rs 21,20). 'Ele se vendeu para ser escravo do pecado', diz São Paulo (Rm 7,14). 'O escandaloso é, para os outros, um princípio de ruína; come e bebe a iniquidade e a devora... e alcança os últimos limites do mal', diz o profeta Malaquias (Ml 1, 4).

O escândalo é um pecado monstruoso contra Deus, contra o próximo e contra aquele que o comete; subtrai a glória de Deus, rouba a alma do próximo e fecha as portas do céu ao escandaloso. Crime tremendo; que crime pode ser maior do que matar uma alma? Crime diabólico portanto, porque o demônio foi homicida desde o princípio, diz Jesus Cristo (Jo 8,44). Crime contra o Espírito Santo porque ataca diretamente a caridade e o Espírito Santo é a própria caridade... crime essencialmente oposto à obra da Redenção. Jesus Cristo morreu para salvar as almas e as vidas escandalosas vivem para matá-las... 

O crime de escândalo é um pecado direto contra o próprio Jesus Cristo, como confirmado pelo apóstolo: 'pecando vós contra os irmãos e ferindo sua débil consciência, pecais contra Cristo' (I Cor 8,13). As palavras de São Paulo dirigidas ao mágico Elimas podem ser aplicadas aos escandalosos: 'Filho do demônio, cheio de todo engano e de toda astúcia, inimigo de toda justiça, não cessas de perverter os caminhos retos do Senhor!' (At 13, 10).

A perversão do escândalo

A respeito dos homens que induzem o escândalo, as Sagradas Escrituras fazem muitas referências, descrevendo-os como sendo a antiga serpente que seduz com promessas enganosas, como a serpente escondida na relva, como o leão que espreita a sua presa. 'Os escandalosos desvelam-se na capacidade para fazer o mal, para fazer a todos cair no mal', diz o profeta Isaías (Is 29,21). 'Eles se regozijam quando praticam o mal', dizem os provérbios, 'e tremem de alegria na iniquidade' (Pv 2,14). 'Sua única ocupação é levar o próximo à perdição' (Jr 4,4).

'O escandaloso', diz São Agostinho, 'tem vergonha da modéstia e se vangloria de que não a conhece'. 'Os escandalosos se perverteram', diz o salmista, 'e se entregam a pensamentos abomináveis' ​​(Sl 13, 1). 'O seu coração é um abismo de corrupção, cheio de vermes e de tudo o mais que haja de tão asqueroso' (Sl 53,26). São João Crisóstomo chama aos escandalosos de bestas ferozes e carnívoras. 

Os escandalosos são lobos - diz São Gregório - que não deixam de devorar diariamente, nem os corpos, mas as almas (Homil). 'Considere' - diz em outra ocasião São João Crisóstomo -  este [o escandaloso] como um novo Herodes, dedicado a promover horrores sobre horrores, homicídios sobre homicídios, precipitando-se furiosamente sobre todos os excessos e possuído por demônios, cheio de raiva, fúria e inveja, quebrando todas as regras e destilando toda a sua raiva contra inocentes' (Homil. in Math.).

'Aquilo que os hereges fazem com seu ensino adúltero' - diz São Bernardo - 'o escandaloso faz com os seus maus exemplos e o mal que eles fazem é maior que os estragos dos hereges, assim como as ações são superiores às palavras' (Lib.consid.). Que crime maior pode haver do que vir a perder uma alma feita à imagem de Deus, criada para uma ditosa imortalidade, e resgatada com o sangue de Jesus Cristo? ... é um sacrilégio horrível, que parece muito mais iníquo que o crime daqueles que puseram suas iníquas mãos sobre o Senhor de Majestade (Serm. de Convers. S. Pauli).

Os maus exemplos dos grandes, daqueles que são constituídos em autoridade, excitam e inflamam para o mal: fazem com que os demais se sintam no direito de praticar o mal também. Desgraçados aqueles que, elevados ao governo dos outros, dão escândalo! Os magistrados, os juízes, os pastores, os pais e as mães, os patrões e os superiores, os preceptores e as preceptoras, devem dar especialmente o bom exemplo, sob pena de responder pelas almas que lhes foram submetidas.

Os vários tipos do escândalo

1. Escândalo pelas palavras: assim como um vaso impuro expande um odor infecto, a alma corrompida manifesta com seus discursos a corrupção que contém, macula aqueles que ouvem os seus propósitos e os torna culpados e maus. 'Sua garganta', diz o salmista, 'é um sepulcro aberto' (Sl 5, 11) e 'sua língua é como uma flecha penetrante' (Sl 9,8).

2. Escândalo pelos olhos. Todas as paixões estão pintadas em seus olhos e eles se comunicam por este meio. Milhões de almas estão no inferno por causa de olhares pecaminosos, que foram para os outros motivo de queda.

3. Escândalo pelos escritos. Os livros imorais, tanto contra a religião como os bons costumes, as músicas profanas, os artigos irreligiosos, mentirosos e blasfemos, as peças e filmes obscenos, as pinturas vulgares, as estátuas indecentes, etc., são exemplos de deploráveis escândalos.

4. Escândalo de ações: expresso pelo mau exemplo dado com atos de impureza, embriaguez, raiva, vingança, etc.

5. Escândalo de omissão: orações descuidadas, sacramentos e ritos litúrgicos aplicados de forma negligenciada; escândalos de omissão, indiferença e de preguiça...

Evitar o escândalo e os homens do escândalo

'Não dê a ninguém qualquer motivo de escândalo', diz o grande apóstolo (II Cr 6,3). 'Que nenhum discurso maligno saia da sua boca, mas senão aquilo que seja bom para aumentar a fé e dar graça ou inspirar misericórdia aos ouvintes', diz o apóstolo (Ef 4,29). Devemos agir sem cessar para que todo o nosso comportamento seja para os outros um exemplo contínuo.

Um pouco de levedura faz fermentar toda a massa, diz São Paulo (I Cr 5,6). O ar empesteado ataca toda a multidão, uma enfermidade contagiosa propaga-se a todos; o escândalo é um odor mortífero, cujas emanações acercam-se de todos e muito longe. Como disse Jesus: 'Ai do mundo por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis, mas ai do homem que os causa! Por isso, se tua mão ou teu pé te fazem cair em pecado, corta-os e lança-os longe de ti: é melhor para ti entrares na vida coxo ou manco que, tendo dois pés e duas mãos, seres lançado no fogo eterno. Se teu olho te leva ao pecado, arranca-o e lança-o longe de ti: é melhor para ti entrares na vida cego de um olho que seres jogado com teus dois olhos no fogo da geena' (Mt 18, 7-9). 

Por isso, afastai-vos de um amigo, vizinho ou de qualquer um que vos escandalize e ainda que estas pessoas vos fossem tão necessárias como as mãos, os pés ou os olhos, cortai, separai e arrancai-as de vós, rompendo toda afeição e qualquer laço de interação com elas. 'Feliz o homem', diz o salmista, 'que não se deixa levar pelos conselhos dos perversos, nem se detém no caminho dos pecadores' (Sl 1,1).

(Cornelius a Lapide, 'Comentário sobre a Sagrada Escritura', adaptação e tradução do autor do blog)

domingo, 11 de fevereiro de 2018

'EU QUERO, FICA CURADO!'

Páginas do Evangelho - Sexto Domingo do Tempo Comum


No tempo de Jesus, os leprosos eram tomados como homens ímpios e imundos; a terrível doença era a simples manifestação externa de pecados gravíssimos ocultos. A exclusão social os exilava em grupos fora das cidades; o temor e o desprezo dos homens acompanhavam as suas chagas visíveis e outras muito piores que não se revelavam fisicamente. As vestes imundas tentavam esconder a lepra do corpo, que devia ser proclamada, em altos brados, a todos os passantes: 'Impuro, impuro!' Um leproso, porém, ousou sobrepor a sua fé a todos os ditames e regulações extremas da lei vigente e vai ao encontro de Jesus e O interpela em súplica confiante: 'Se queres, tens o poder de curar-me' (Mc 1, 40).

Reconhecido de suas misérias e limitações, a fé daquele homem expressa-se em fluxos de humildade e resignação. Mas vai muito além disso; libertando-se das amarras de sua triste e perversa condição humana, manifesta publicamente a sua crença confiante na autoridade e na misericórdia de Jesus, não apenas para afastar os males, mas para fazer milagres para suprimi-los. Aquele homem crê profundamente que Jesus tem o poder divino de fazer a cura impensável e, nessa crença, modela uma das mais belas profissões de fé descritas nos Evangelhos: 'Se queres, tens o poder de curar-me' (Mc 1, 40).

Jesus, movido de compaixão, determinou prontamente: 'Eu quero: fica curado!' (Mc 1, 41). Jesus demonstra, assim, o poder extremado da graça em reação a uma oração fervorosa e confiante. Mas, a ação de Jesus vai além das primeiras aparências pois, ao tocar aquele homem, a lepra já havia desaparecido. Jesus não toca apenas um corpo livre das chagas e sequelas de uma doença repulsiva, mas a alma purificada de um homem livre da doença do pecado. As multidões que cercam Jesus buscam, em maior grau, os fatos que lhes sensibilizam os instintos. Mas a glória de Deus é manifestada ali muito além das coisas sensíveis. 

É o pecado que inocula uma lepra na alma e a priva da graça santificante, das virtudes e dos bens espirituais e, assim, a exclui, não por um tempo da sociedade dos homens, mas da herança eterna das bem aventuranças de Deus. É a cura da alma que nos deve forjar a ousadia da fé ao irmos ao encontro de Jesus pelos caminhos da vida. Que, a exemplo do leproso, a nossa fé possa superar, então, a barreira dos instintos e suplicar a Deus, mais do que tudo, a cura espiritual, para que sejamos homens limpos e santos na peregrinação dos eleitos à pátria celeste.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

EXISTE (MUITO) PECADO AO SUL DO EQUADOR...

ARQUIVOS DO SENDARIUM
(publicado originalmente no blog em 25/02/2014)

Nestes tempos de licenciosidade e relativismos mórbidos, em que tudo torna-se passível de questionamento geral e corriqueiro, a ideia de impor ou definir limites é irremediavelmente taxada de anacrônica ou obscurantismo 'medieval'. E, neste contexto de um mundo que perdeu completamente a noção do sagrado e do pecado, é perfeitamente compreensível, e até mesmo louvável, que 'não exista pecado ao sul do Equador...'

Neste contexto, o carnaval é o frenesi dos instintos e a apoteose da libertinagem. Mas um católico não poderia objetar que o pecado não está no carnaval, mas na carnavalização dos sentidos? Pode o pecado da ira não estar na ira? Pode o mal esconder-se ambiguamente atrás de algo intrinsecamente neutro? A questão de pecar ou não pecar envolve a relatividade do ato e do fato? De outra forma, as obras do espírito são frutos de suas operações ou, nas palavras de São Tomás de Aquino, operações e obras se correspondem como a edificação de uma casa para a casa edificada (Summa Theologiae).

Nada, absolutamente nada, nos atos humanos ou nas operações do espírito (ideias, juízos, imaginação, raciocínio), podem ser incondicionalmente neutras no âmbito da moral cristã: ou conduzem à maior glória de Deus ou nos afastam inexoravelmente da vida da graça: 'Portanto, quer comais quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus' (I Cor 10, 31). E, assim, como a ira tornada ação, a ira entranhada é também pecado. Expor-se à ocasião do pecado já é pecado. O que se impõe, além disso, é meramente a questão da maior ou menor gravidade de um e de outro pecado.

Se nosso propósito é fazer tudo para a glória de Deus, na edificação cotidiana da casa, o que estaremos fazendo exatamente nestes dias em um bloco de carnaval? Investidos na supressão dos costumes formais, em meio à turba eufórica e excitada, subjugados pela onda avassaladora da licenciosidade dos sentidos? 

Ora, se numa discussão, eu me permito ser dominado pela cólera e, em vez de confrontá-la com a objeção do autocontrole e do discernimento, eu a admito tendo em vista um alardeado controle sobre os meus atos, ainda assim, não passo de um encolerizado pecador. Da mesma forma, ainda que seduzido ou enganado pelos rompantes de se buscar apenas diversão no carnaval, numa festa intrinsecamente contrária à moral cristã, você será apenas mais um folião na legião de pecadores. E, convenhamos que, para um católico, isso não é nada engraçado...

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

SUMA TEOLÓGICA EM FORMA DE CATECISMO (VII)

XXI

AÇÃO DAS CRIATURAS NO GOVERNO DO MUNDO: ORDEM DO UNIVERSO

Podem as criaturas exercer o influxo de umas nas outras para efetuar as mudanças e alterações que se observam no mundo?
Sim, Senhor; e neste mútuo influxo se funda a ordem do universo (XLVII, 3)*.

Estão reguladas estas ações pelas leis da Providência divina?
Sim, Senhor; e de modo especialíssimo (CIII, 6).

Por que?
Porque são o meio ou instrumento de que Deus se utiliza para conduzir as criaturas em conjunto ao fim que lhes assinalou (Ibid).

Pode Deus prescindir do concurso das criaturas no governo do mundo?
Sem dúvida alguma pode, porém foi melhor que as utilizasse, pois deste modo Ele aparece maior e a criatura, mais enobrecida e perfeita.

Por que ganham as criaturas em nobreza e perfeição?
Porque concorrem com a ação soberana de Deus, na obra de guiar os seres ao seu fim último (CIII, 6-3).

Por que Deus aparece maior?
Porque manifesta-se nEle sinal de grandeza e poderio soberano o ter a seu serviço uma legião de ministros que executem submissos os seus mandatos (Ibid).

Logo, quando as criaturas exercem mútuo influxo limitam-se a cumprir as ordens absolutas de Deus?
Sim, Senhor; porque é impossível que executem atos não previstos, nem ordenados no plano da Providência Divina (Ibid).

É possível que a atuação da criatura, obrando como instrumento de Deus no governo do mundo, perturbe ou contrarie o plano divino?
Não, Senhor; porque quaisquer que sejam os seus atos, ordenados estão por Deus, para o bem do universo (CIII, 8, ad 1).

Podem, não obstante isto, ser causa de algum mal particular?
Sim, Senhor; podem ocasionar alguns males físicos e até morais, porque, em determinadas ocasiões, umas vezes perturbam a ordem inferior de um grupo de seres e outras vezes impedem alguma manifestação secundária do poder e da vontade de Deus.

Ferem estes males particulares a ordem estabelecida no plano divino?
Considerando o plano em conjunto, não Senhor.

Por que?

Porque o soberano poder de Deus é tal, que se utiliza do mal particular, e depois de o ter subordinado a um fim mais elevado, ele vai contribuir para o bem universal (Ibid, XIX, 6; XXIII 5 ad 3).

Logo, não há ação das criaturas que não esteja maravilhosamente disposta, para cooperar, sob a direção suprema de Deus, para o bem do universo?

Não, Senhor; e se alguma coisa aparece prejudicial ou deslocada num plano inferior, considerado de um ponto de vista mais alto, ela tem sempre a razão suficiente, sapientíssima e profundíssima.

Pode o homem, neste mundo, abranger e compreender a maravilhosa grandeza e harmonia do plano divino?
Não, Senhor; porque necessitaria conhecer todas as criaturas, assim como os incontáveis segredos do plano divino.

Onde as compreenderá?
Somente no céu.

XXII

AÇÃO DOS ANJOS NO GOVERNO DO MUNDO - ORDENS E HIERARQUIAS ANGÉLICAS

Atuam também umas criaturas sobre as outras no mundo dos espíritos?
Sim, Senhor.

Como se chama este influxo?
Chama-se iluminação (CVI, 1).

Por que?
Porque um espírito puro influi no outro para transmitir-lhe a iluminação que recebe de Deus, relacionada com o governo do mundo (Ibid).

Logo, a iluminação, que procede de Deus, comunica-se aos espíritos, ordenada e gradualmente?
Comunica-se com graduação e ordem maravilhosa.

Que entendeis, quando afirmais que se comunica com graduação e ordem maravilhosa?
Que Deus a comunica diretamente aos que estão mais próximos dEle, e estes aos demais anjos, porém com ordem tão severa que a iluminação dos primeiros só pode chegar aos últimos por ação dos intermediários (CVI, 3).

Logo há anjos superiores, intermediários e últimos na ordem estabelecida para se comunicarem entre si as iluminações que emanam de Deus?
Sim, Senhor (CVIII, 2).

Podereis esclarecer com um exemplo em que consiste esta subordinação?
Poderíamos compará-la a um rio que, em vistosas cascatas, se precipita de rocha em rocha, alimentando o seu curso, sem cessar, com as águas de um lago, situado no alto da montanha.

Há, em cada uma das ditas categorias angélicas, diversos agrupamentos?
Sim, Senhor (CVIII).

De quantas classes são?
De duas classes.

Que nome têm?
Chamam-se Hierarquias e Ordens Angélicas (Ibid).

Que significa o nome de Hierarquia?
Hierarquia é uma palavra derivada do grego que significa 'Principado Sagrado'.

Que coisas se expressam com a palavra Principado?
Duas: O príncipe e a multidão a ele subordinada (Ibid).

Qual é, pois, o significado completo da expressão 'Principado Sagrado'?
Significa e designa o conjunto de todas as criaturas racionais, chamadas a participar das coisas santas, debaixo do governo único de Deus, Rei dos Reis e Príncipe Soberano (Ibid).

Logo, só há uma hierarquia e um principado sagrado no mundo?
Considerado por parte de Deus, Rei Soberano de todas as criaturas racionais por Ele regidas, só há uma hierarquia ou principado sagrado, que compreende os anjos e os homens (Ibid).

Por que, pois, e em que sentido, se fala das hierarquias no plural e especialmente no mundo dos espíritos puros ou anjos?
Porque, atendendo aos súbditos, classificam-se os principados segundo os diversos modos como o príncipe os governa (Ibid).

Poderíeis elucidá-lo com um exemplo?
Sim, Senhor; debaixo do cetro de um monarca pode haver cidades e províncias regidas sob diversas leis e diferentes ministros (ibid).

São os homens da mesma hierarquia que os anjos?
Enquanto vivem neste mundo, não, Senhor (Ibid).

Por que dizeis 'enquanto vivem neste mundo'?
Porque no céu serão admitidos nas hierarquias angélicas (CVIII, 8).

Logo, há várias hierarquias angélicas?
Sim, Senhor (CVIII, 8).

Quantas são?
São três (Ibid).

Em que se distinguem?
Na forma diversa de conhecer a razão das coisas concernentes ao governo divino (Ibid).

Como as conhecem os da primeira hierarquia?
Com a iluminação direta procedente do mesmo Deus.

Que se segue daqui?

Segue-se que os anjos da primeira hierarquia são os mais próximos de Deus e, portanto, as ordens desta hierarquia tomam os seus nomes de algum ministério que tenha por objeto o mesmo Deus (CVIII, 1,6).

Como conhecem os anjos da segunda hierarquia a razão das decisões concernentes ao governo do mundo?
Nas suas causas universais criadas (Ibid).

Que se deduz deste princípio?
Que os anjos da segunda hierarquia as conhecem, mediante a iluminação dos da primeira e suas ordens tomam o nome de algum ministério que tenha por objeto o conjunto de todas as criaturas (ibid).

Como as conhecem os anjos da terceira hierarquia?
Enquanto são executivas e dependem de suas causas próximas (Ibid).

Que se deduz deste modo de conhecer?
Que os anjos da última hierarquia recebem as ordens divinas tão concretas e particularizadas como é necessário para comunicá-las às nossas inteligências e as suas ordens recebem denominação de atos limitados a um homem, como os anjos da guarda, ou a uma província, como os principados (CVIII, 6).

Podereis esclarecer a doutrina exposta com uma comparação?
Com a seguinte: nas cortes dos reis há assessores e conselheiros áulicos que assistem à pessoa do monarca; há secretários da real cúria e despacho a cujas secretarias vêm ter os negócios gerais de todo o reino: há, por fim. governadores e prepostos nas diversas províncias e nos diversos ramos da administração.

São as ordens angélicas distintas das hierarquias?
Sim, Senhor (CVIII, 2).

Em que se distinguem?
Em que as hierarquias se integram com diversas multidões de anjos que formam diferentes principados. debaixo do governo divino, e as ordens constituem classes distintas dentro das multidões que formam uma mesma hierarquia (Ibid).

Quantas ordens há em cada hierarquia?
Há três (Ibid).

Por que?
Porque é uma semelhança do que se passa entre os homens, onde se agrupam as classes sociais em aristocracia, classe média e povo inferior (Ibid).

Logo, em cada hierarquia, há anjos superiores, médios e inferiores?
Sim, Senhor e a estas categorias chamamos ordens angélicas (Ibid).

Logo, são nove as ordens angélicas?
As principais são nove (CVIII, 5, 6).

Por que dizeis 'as principais'?
Porque em cada ordem há infinitas sub-ordens, visto que cada anjo tem a sua categoria e ofício particular, ainda que nos não é dado conhecê-las neste mundo (CVIII, 3).

Ordem é o mesmo que coro angélico?
Sim, Senhor.

Por que se dá o nome de coros às ordens angélicas?
Porque, cumprindo as diversas ordens a missão que Deus lhes confia no governo do mundo, formam grupos harmônicos, onde maravilhosamente se retrata a glória divina.

Que nome têm as ordens angélicas?
Enumerados, em ordem descendente, chamam-se: Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Virtudes, Potestades, Principados, Arcanjos e Anjos (CVIII, 5).

Há ordens ou classes entre os demônios?
Sim, Senhor; porque a ordem angélica depende da natureza de cada anjo, e esta permaneceu nos demônios.

Logo, há subordinação entre eles, como a havia antes da queda?
Sim, Senhor.

Algum dos demônios utiliza esta superioridade para praticar o bem?
Nunca, sempre para praticar o mal (CIX, 3).

Não existe, portanto, iluminação entre os demônios?
Não, Senhor, por isso que seu reino é chamado de império das trevas.

referências aos artigos da obra original

('A Suma Teológica de São Tomás de Aquino em Forma de Catecismo', de R.P. Tomás Pègues, tradução de um sacerdote secular).