domingo, 17 de fevereiro de 2019

O SERMÃO DA MONTANHA

Páginas do Evangelho - Sexto Domingo do Tempo Comum


O chamado 'Sermão da Montanha', conjunto de proposições expostas por Jesus naquele tempo a uma 'grande multidão de gente de toda a Judeia e de Jerusalém, do litoral de Tiro e Sidônia' (Lc 6, 17) contempla, de forma admirável, a síntese do Evangelho e da doutrina cristã como legado do Reino dos Céus aos homens de todos os tempos.

O primado desta herança aos homens de todos os tempos se impôs quando o Senhor, diante da enorme multidão, volveu o seu olhar divino aos Apóstolos, antes de proferir as bem-aventuranças que expressam os preceitos e as virtudes que nos santificam e nos tornam herdeiros do Reino dos Céus. Na prática do amor e na busca da perfeição cristã, eis o legado de nossa santificação: 'Bendito o homem que confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor' (Jr 17, 7).

Essa via de santidade é expressa pelo Senhor sempre em termos da sua concepção oposta: 'Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus!' (Lc 6, 20) versus 'Mas ai de vós, os ricos, porque tendes já a vossa consolação' (Lc 6, 24). 'Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque sereis saciados (Lc 6, 21) versus 'Ai de vós os que estais saciados, porque vireis a ter fome' (Lc 6, 25). 'Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque havereis de rir!' (Lc 6, 21) versus 'Ai de vós, que agora rides, porque tereis luto e lágrimas!' (Lc 6, 25). 'Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos insultarem e amaldiçoarem o vosso nome, por causa do Filho do Homem!' (Lc 6, 22) versus 'Ai de vós quando todos vos elogiam!' (Lc 6, 26).

Com efeito, os caminhos da vida eterna não se conformam aos atalhos do mundo. Como Filhos de Deus, somos, desde agora, peregrinos do Céu mergulhados nas penumbras da fé e nas vertigens das realidades humanas, na certeza confiante do eterno reencontro: 'Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus' (Lc 6, 23).

sábado, 16 de fevereiro de 2019

DAS VERDADEIRAS AMIZADES

Ah! quanto é bom amar já na Terra o que se amará no Céu e aprender a amar aqui estas coisas como as amaremos eternamente na vida futura. Não falo simplesmente do amor cristão, que devemos ao nosso próximo, todo e qualquer que seja, mas aludo à amizade espiritual, pela qual duas, três ou mais pessoas comunicam mutuamente as suas devoções, bons desejos e resoluções por amor de Deus, tornando-se um só coração e uma só alma.

Com toda a razão podem cantar então as palavras de Davi: 'Oh! quão bom e agradável é habitarem juntamente os irmãos!' Sim, Filoteia, porque o bálsamo precioso da devoção está sempre a passar de um coração para o outro através de uma contínua e mútua participação; de tal modo que se pode dizer que Deus lançou sobre esta amizade a sua bênção, por todos os séculos dos séculos.

Todas as outras amizades são como as sombras desta e os seus laços são frágeis como o vidro, ao passo que estes corações ditosos, unidos em espírito de devoção, estão presos por uma corrente toda de ouro. Filoteia, todas as tuas amizades sejam desta natureza, isto é, todas aquelas que dependem da tua livre escolha, porque não deves romper nem negligenciar as que a natureza e outros deveres te obrigam a manter, como em relação aos teus pais, parentes, benfeitores e vizinhos.

Hás de ouvir que não se deve consagrar afeto particular ou amizade a ninguém, porque isto ocupa demais o coração, distrai o espírito e causa ciúmes; mas é um mau conselho, porque, se muitos autores sábios e santos ensinam que as amizades particulares são muito nocivas aos religiosos, não podemos, no entanto, aplicar o mesmo princípio a pessoas que vivem no meio do mundo — e há aqui uma grande diferença.

Num mosteiro onde há fervor, todos visam o mesmo fim, que é a perfeição do seu estado, e por isso a manutenção das amizades particulares não pode ser tolerada aí, para precaver que, procurando alguns em particular o que é comum a todos, passem das particularidades aos partidos. Mas no mundo é necessário que aqueles que se entregam à prática da virtude se unam por uma santa amizade, para mutuamente se animarem e conservarem nesses santos exercícios. Na religião, os caminhos de Deus são fáceis e planos e os que aí vivem se assemelham a viajantes que caminham numa bela planície, sem necessitar de pedir a mão em auxílio. 

Mas os que vivem no meio do mundo, onde há tantas dificuldades a vencer para ir a Deus, parecem-se com os viajantes que andam por caminhos difíceis, escabrosos e escorregadios, precisando sustentar-se uns nos outros para caminhar com mais segurança. Não, no mundo nem todos têm o mesmo fim e o mesmo espírito e daí vem a necessidade desses laços particulares que o Espírito Santo forma e conserva nos corações que lhe querem ser fiéis. Concedo que esta particularidade forme um partido, mas é um partido santo, que somente separa o bem do mal: as ovelhas das cabras, as abelhas dos zangões, separação esta que é absolutamente necessária.

Em verdade não se pode negar que Nosso Senhor amava com um amor mais terno e especial a São João, a Marta, a Madalena e a Lázaro, seu irmão, pois o Evangelho o dá a entender claramente. Sabe-se que São Pedro amava ternamente a São Marcos e a Santa Petronila, como São Paulo ao seu querido Timóteo e a Santa Tecla.

São Gregório Nazianzeno, amigo de São Basílio, fala com muito prazer e ufania da sua íntima amizade, descrevendo-a do modo seguinte: 'Parecia que em nós havia uma só alma, para animar os nossos corpos, e que não se devia mais crer nos que dizem que uma coisa é em si mesma tudo quanto é e não numa outra; estávamos, pois, ambos em um de nós e um no outro. Uma única e a mesma vontade unia-nos nos nossos propósitos de cultivar a virtude, de conformar toda a nossa vida com a esperança do Céu, trabalhando ambos unidos como uma só pessoa, para sair, já antes de morrer, desta Terra perecedora'. Santo Agostinho testemunha que Santo Ambrósio amava a Santa Mônica unicamente devido às raras virtudes que via nela e que ela mesma estimava este santo prelado como um anjo de Deus.

Mas para quê deter-te tanto tempo numa coisa tão clara? São Jerônimo, Santo Agostinho, São Gregório, São Bernardo e todos os grandes servos de Deus tiveram amizades particulares, sem dano algum para a sua santidade. São Paulo, repreendendo os pagãos pela corrupção de suas vidas, acusa-os de gente sem afeto, isto é, sem amizade de qualidade alguma. São Tomás de Aquino reconhecia, com todos os bons filósofos, que a amizade é uma virtude e entende a amizade particular, porque diz expressamente que a verdadeira amizade não pode se estender a muitas pessoas. A perfeição, portanto, não consiste em não ter nenhuma amizade, mas em não ter nenhuma que não seja boa e santa.

(Excertos da obra 'Filoteia ou Introdução à Vida Devota, de São Francisco de Sales)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

A MISSA DOS PRIMEIROS TEMPOS

A Eucaristia, desde os primeiros dias da Igreja, foi de suma importância para os cristãos e centro de todos os seus cultos. A reunião litúrgica, que nos descrevem os Atos dos Apóstolos, era a celebração da Santíssima Eucaristia. Eram cerimônias simples a princípio, que renovavam a última ceia, como o Divino Mestre recomendara aos Apóstolos: 'Fazei isto em memória de mim'.

Aos poucos estas cerimônias eucarísticas, a união dos fiéis com Cristo pela comunhão, receberam maiores solenidades, especialmente na sua preparação que consistiam em preces e súplicas. Textos sublimes do Antigo Testamento, como as preces dos salmos, foram incluídos nas cerimônias eucarísticas, bem como passagens da vida de Nosso Senhor e que se encontram nos Evangelhos. A estas celebrações se deu o nome de Missa. 

Nos tempos mais antigos, em que o grego era língua oficial dos cristãos, estas cerimônias se chamavam Eucaristia, e às vezes 'eulogia', que significa bênção. O nome que prevaleceu nas épocas posteriores foi o de 'Missa'. Estudando os antigos escritos dos Padres da Igreja e vendo as pinturas das catacumbas, podemos ter uma ideia do que consistia a missa nos primeiros tempos cristãos, no fim do século II ou início do século III. 

Estas cerimônias eram celebradas em casas particulares, onde se reuniam os fiéis; muitas destas casas eram doadas às comunidades que as transformavam em igrejas. Estas se tornavam cada vez mais vastas, pois aumentava sempre o número dos fiéis. As igrejas surgiram numerosas pois, durante as perseguições, decretos foram assinados pelos imperadores, para que elas fossem destruídas. Muitas vezes, as missas eram celebradas nas catacumbas, especialmente quando violentas eram as perseguições e lá se refugiavam os fiéis. Também na comemoração de um mártir, nos dias de sua festa, os sacrifícios eucarísticos eram celebrados em seu louvor diante de seu túmulo.

Com maiores solenidades, eram celebradas as missas de domingo, quase sempre à meia noite, terminando ao despontar da alvorada. Ainda hoje se celebram missas à meia noite, como no Natal, relembrando as antigas tradições. A Missa, como ainda hoje, se dividia em duas grandes partes. A primeira podiam assistir os catecúmenos, aqueles que se preparavam para o batismo. O celebrante se conservava voltado para o povo, saudando-o várias vezes, durante a cerimônia. As orações ao pé do altar não existiam e o Introito somente apareceu no século IV, com os cânticos de salmos, enquanto o celebrante se dirigia ao altar. A Missa dos Catecúmenos era de orações e de instrução. 

Pedia-se a Deus pelos catecúmenos, para que suas preces fossem acolhidas e eles instruídos na doutrina e nos mandamentos do Senhor; pedia-se pelos recém batizados, pelos doentes, escravos, pelos mártires que aguardavam o suplício. A estas súplicas feitas pelo diácono, os fiéis respondiam com as palavras gregas que ainda conservamos na missa: Kyrie eleison! Senhor, tende compaixão de nós!

O celebrante, logo depois, recitava a oração da missa na súplica geral por todos, que no final respondiam: 'Amém'. Colocado em lugar mais elevado, o leitor lia para todos trechos do Antigo Testamento, passagens das Epístolas de São Paulo, e de outros apóstolos, dos Padres da Igreja, dos Atos dos Apóstolos, ou narrativas dos mártires. A leitura do Evangelho era feita por um diácono e os fiéis de pé a escutavam atentamente. Terminada a leitura, o celebrante fazia os comentários sobre o trecho lido, ou escolhia um pregador para fazer a homilia.

Assim termina a Missa dos Catecúmenos, que reproduz, por assim dizer, a liturgia das sinagogas. O Credo que era recitado apenas nas profissões de fé ou em alguma outra circunstância, só mais tarde foi introduzido na missa. A segunda parte era a Missa dos Fiéis; os catecúmenos se retiravam da Igreja. A liturgia atual da missa conserva quase todas as cerimônias antigas na preparação e realização do augusto sacrifício.

Na missa dos fiéis, encontram-se as três partes essenciais do sacrifício: o ofertório, a consagração e a comunhão.Antes do ofertório, os fiéis levavam até o altar a matéria do sacrifício: o pão e o vinho. O simbolismo sublime desta cerimônia, em que os fiéis depositam no cibório a hóstia para a sua comunhão, é, como se vê, costume antigo na Igreja, revivido hoje nas Procissões do Ofertório, já comuns em muitos lugares.

Os antigos fiéis, além do pão e vinho para a consagração, ofereciam esmolas para os pobres, viúvas e para as obras de caridade. Os diáconos separavam as ofertas, depositando o vinho e o pão sobre o altar. Pelas orações chamadas secretas, o sacerdote, como ainda hoje, pedia ao Senhor que em troca dos dons terrenos, concedesse ao povo os dons do Céu.

Aproximando-se o momento mais solene de toda a cerimônia, o celebrante convidava os fiéis à piedade e ao fervor: 'Corações ao alto!' 'Temo-los no Senhor!' 'Demos graças a Deus'. 'Isto é digno e justo!' 'Verdadeiramente', continuava o sacerdote, 'é digno e justo que vos rendamos graças, ó Senhor, Santo, Pai Todo Poderoso e Eterno'. O prefácio é um cântico de triunfo e de glória, é um convite à união com as hierarquias dos anjos, para bendizer e louvar a Deus. Termina pelo Sanctus, que é um hino celestial: 'Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos exércitos. Os céus e a terra estão cheios da vossa glória. Hosana no alto dos céus. Bendito seja o que vem em nome do Senhor. Hosana no alto dos céus'. É um cântico sublime que os bem-aventurados cantam no céu, como descreve São João, na visão do Apocalipse.

Pinturas nas catacumbas nos mostram o sacerdote com as mãos estendidas sobre o pão e o vinho para tomar posse sobre a vítima, pronunciando depois as palavras solenes da Consagração, exatamente as mesmas proferidas por Cristo na última ceia. A última parte é a comunhão. O sacerdote, como fez Cristo, parte o pão: é a fração do pão, com que também se designava a missa outrora. A Didaqué nos fala da prece da unidade, que se pronunciava então: 'Assim como este pão estava, nos seus elementos, disperso pelas colinas e se encontra agora reunido, permiti, Senhor, que a nossa Igreja se reúna desde as extremidades da terra...'

A comunhão era dada sob as duas espécies do pão e do vinho. O sacerdote oficiante dava aos fiéis a hóstia sagrada, pronunciando as palavras: Corpus Christi. E o fiel respondia: Amém! O diácono trazia o cálice que contém o precioso sangue: Sanguis Christi calix vitae, e o comungante bebia um pouco. A última prece era o agradecimento a Deus pelas graças e benefícios, pela comunhão recebida. 'Ite, missa est!'

Prostrados os fiéis recebiam a bênção do celebrante e a Missa chegava ao seu final. Assim se celebravam nos primeiros tempos as santas missas, sacrifício único da Nova Lei em que Jesus Cristo, pelo ministério do sacerdote, se oferece e se imola no altar sob as espécies do pão e do vinho, para reconhecer o supremo domínio de Deus e nos serem aplicados os méritos de sua paixão e morte de cruz. Na assistência piedosa à santa missa e na participação ativa dela, encontravam os primeiros cristãos a força que os animava à santidade de vida e ao martírio. Possuíam Cristo em suas almas e nada seria capaz de os perturbar.

A Missa que hoje se celebra é essencialmente a mesma dos primeiros tempos do cristianismo: Renovação do Sacrifício do Calvário. E a liturgia atual conserva as antigas cerimônias, tão ricas em seus simbolismos. Desde a origem da Igreja incessantemente se renova sobre os nossos altares o sacrifício de Cristo, em todas as épocas, do Oriente ao Ocidente, do nascer ao por do sol, santificando as almas e espalhando para toda a humanidade, os frutos abundantes de vida e salvação do Sacrifício do Cordeiro de nossa Redenção.

(Excertos da obra 'As Mais Belas Histórias do Catolicismo', do Cônego Paulo Dilascio)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

HEI DE MORRER UM DIA...

Statutum est hominibus semel mori; post hoc autem iudicium [Está decretado que os homens morram uma só vez, e que depois venha o juízo (Hb 9, 27)].

I. É utilíssimo para a salvação eterna dizermos muitas vezes conosco: 'Hei de morrer um dia'. A Igreja lembra-o todos os anos aos fiéis no dia de Cinzas: Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris [Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó hás de tornar]. Mas no correr do ano a lembrança da morte nos é sugerida frequentíssimas vezes, ora pela vista de um cemitério à beira da estrada, ora pelas campas que vemos nas igrejas, ora pelos defuntos que são levados à sepultura. Os objetos mais preciosos que os anacoretas guardavam nas suas grutas eram uma cruz e uma caveira: a cruz para se lembrarem do amor que nos teve Jesus Cristo e a caveira para não se esquecerem do dia da sua morte. Assim é que perseveraram na sua vida de penitência até ao termo de seus dias. Morrendo pobres no deserto morreram mais contentes do que morrem os monarcas em seus palácios régios.

Finis venit, venit finis [O fim vem, vem o fim!]. Nesta terra uns vivem mais tempo, outros menos; porém, mais cedo ou mais tarde, para cada um chegará o fim da vida, e nesse fim, que será a hora da nossa morte, nada nos dará consolo, senão o termos amado Jesus Cristo e o termos padecido com paciência, por amor dEle, as penalidades desta vida. Então nenhum consolo poderão dar-nos, nem as riquezas adquiridas, nem as dignidades possuídas, nem os prazeres gozados. Todas as grandezas terrestres não somente não consolarão os moribundos, antes lhes causarão aflições. Quanto mais as tiverem procurado, tanto mais lhes aumentará a aflição. Soror Margarida de Santanna, carmelita descalça e filha do imperador Rodolfo II, dizia: 'Para que servirão os reinos do mundo na hora da morte?'

Ah! Meu Deus, dai-me luz e dai-me força para empregar o tempo de vida que me resta em Vos servir e amar! Se tivesse de morrer neste instante, não morreria contente, morreria com grande inquietação. Para que, depois, esperar? Esperarei porventura até que a morte me surpreenda, com grande perigo para a minha eterna salvação? Se nos tempos passados tenho sido tão insensato, não o quero ser mais. Dou-me inteiramente a Vós; aceitai-me e socorrei-me com a vossa graça.

II. Não há que ver; para cada um chegará o fim da vida e, com este fim, o momento que decidirá a nossa eternidade feliz ou infeliz: o momentum a quo pendet aeternitas! [Ó momento do qual depende a eternidade!]. Oxalá, todos pensassem nesse grande momento e nas contas que então deverão dar ao divino Juiz acerca de toda a vida! Decerto não se preocupariam tanto com acumulação de dinheiro nem se afadigariam para serem grandes nesta vida, que deve findar; senão pensariam em tornar-se santos e em ser grandes na vida que nunca mais terá fim.

Se, portanto, temos fé e cremos que há uma morte, um juízo e uma eternidade, procuremos viver tão somente para Deus durante o tempo de vida que ainda nos resta. Por isso, vivamos quais peregrinos nesta terra. Lembrando-nos de que em breve a teremos de deixar. Vivamos sempre com o pensamento fito na morte e nos negócios da vida presente, prefiramos sempre o que, na hora da morte, quiséramos ter feito. As coisas da terra nos deixam ou nós havemos de deixá-las. Escutemos o que nos diz Jesus Cristo: thesaurizate vobis thesauros in coelo, ubi neque aerugo neque tinea demolitur [ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consome a ferrugem nem a traça]. Desprezemos os tesouros terrenos, que não conseguem contentar-nos e em breve perecerão e procuremos ganhar os tesouros celestes, que nos farão felizes e nunca poderão acabar.

Ó meu Senhor, ai de mim que, por amor às coisas deste mundo, Vos tenho tantas vezes virado às costas, a Vós, ó Bem Infinito! Reconheço que fui insensato procurando ganhar no mundo grande reputação e fazer grande fortuna. De hoje em diante não quero para mim outra fortuna senão a de Vos amar e de cumprir em tudo a vossa santa vontade. Ó meu Jesus, arrancai do meu coração o desejo de fazer figura, fazei que eu ame os desprezos e a vida oculta. Dai-me força para me negar tudo o que não Vos agrada. Fazei que aceite com paz as enfermidades, as perseguições e todas as cruzes que me enviardes. Por vosso amor quisera morrer abandonado de todos, assim como Vós morrestes por meu amor. Ó Virgem Santa, as vossas orações me podem fazer achar a verdadeira fortuna, que consiste em amar muito o vosso divino Filho; por favor, rogai por mim, pois em vós confio. 

(Excertos da obra 'Meditações para Todos os Dias e Festas do Ano', Tomo I, de Santo Afonso Maria de Ligório).

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

OREMUS (44)

A sequência destes pensamentos e reflexões são publicados diariamente na Página OREMUS da Biblioteca Digital deste blog.

13 DE FEVEREIRO 

Presbyteri sint ad commiserationem proni [os presbíteros devem ser movidos pela compaixão]

Era o que recomendava São Policarpo, acrescentando: Misericordes erga cunctos, non severi nimium in iudicio, scientes nos omnes debitores esse peccati [misericordiosos com todos, sem serem severos demais nos julgamentos, cientes de que todos nós estamos sob o débito do pecado; trecho da Epístola aos Filipenses, de São Policarpo de Esmirna]. 

A mansidão terá que ser a arma secreta do nosso apostolado. Fugindo à rudeza no falar, à rispidez no trato, o sacerdote será sempre o Bom Samaritano, sem fel nem vinagre, levando consigo o óleo inesgotável da misericórdia e da compreensão. Deus não quis distância entre a sua grandeza e a nossa miséria: Et homo factus est — mitis et humillis corde [E se fez homem — manso e humilde de coração].

Se pela nossa dignidade estamos muito acima dos fiéis, nem por isso precisamos olhar sempre de cima, encerrados na torre inacessível do nosso orgulho e vaidade. Estudamos mais, é certo; mas nem por isso podemos desprezar aqueles que estudaram menos. Temos certamente uma noção mais clara do Bem e do Mal; nem por isso podemos ter sempre uma palavra de crítica, à espera de todos e de tudo. Quanto mais nos julgarmos donos da verdade, tanto mais escravos seremos dos nossos erros. Não podemos fazer uma diferença que só a Deus pertence, scientes nos omnes debitores esse peccati [cientes de que todos nós estamos sob o débito do pecado].

(Oremus — Pensamentos para a Meditação de Todos os Dias, do Pe. Isac Lorena, 1963, com complementos de trechos traduzidos do latim pelo autor do blog)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

SUMA TEOLÓGICA EM FORMA DE CATECISMO (XXV)

XIX

ESPÉCIES DA JUSTIÇA PARTICULAR: JUSTIÇA COMUTATIVA E DISTRIBUTIVA 

Quantas espécies compreende a justiça particular? 
Duas: a distributiva e a comutativa (LXI, 1)*. 

Que entendeis por justiça distributiva? 
A justiça particular que estabelece o equitativo nas relações do grupo ou sociedade com as partes ou indivíduos (Ibid). 

Que entendeis por justiça comutativa? 
A justiça particular que governa as relações entre duas partes na mesma sociedade (Ibid). 

Que espécie de justiça preside às relações dos homens considerados como partes ou indivíduos subordinados ao todo ou sociedade?
A grande virtude da justiça legal (LXI, 1-acl 4). 

XX 

DA RESTITUIÇÃO COMO ATO DE JUSTIÇA COMUTATIVA 

Existe algum ato característico da justiça comutativa? 
Sim, Senhor; a restituição (LXII, 1). 

Que entendeis por esta palavra 'restituição'? 
O ato de restabelecer a igualdade exterior entre os homens, quando algum a quebra, apoderando-se do alheio (Ibid). 

O ato de restituir envolve sempre a reparação de uma injustiça? 
Não, Senhor; porque compreende também o ato de devolver com exatidão e escrúpulo o que em espécie se havia tomado. 

Poderíeis dar-me em poucas palavras as regras essenciais da restituição? 
Ei-las aqui como as dita a equidade natural: a restituição tem por objeto dar ou devolver o que a outro pertence ou que injustamente se lhe tirou. Deve devolver-se o subtraído ou o seu equivalente exato, no estado e forma em que atual ou virtualmente o possuía seu dono, antes do ato que modificou a posse, com mais a obrigação de compensar os estragos e prejuízos que naquele ato, ou em consequência dele, tenham sobrevindo em prejuízo do legítimo possuidor. Está obrigado a restituir o detentor ou causante voluntário da injustiça cometida. Excetuando-se a impossibilidade, deve restituir-se sem demora (LXII, 2, 8). 

XXI 

DA ACEPÇÃO DE PESSOAS: VÍCIO OPOSTO À JUSTIÇA DISTRIBUTIVA — VÍCIOS OPOSTOS À JUSTIÇA COMUTATIVA: DO HOMICÍDIO, DA PENA DE MORTE, MUTILAÇÃO, VERBERAÇÃO E ENCARCERAMENTO 

Entre os vícios opostos à virtude da justiça, há algum particularmente oposto à distributiva? 
Sim, Senhor; a acepção de pessoas (LXIII). 

Que entendeis por acepção de pessoas? 
A injustiça que comete o governante em conceder ou negar mercês e em impor ou isentar de impostos, em atenção às pessoas e não à dignidade e merecimentos que possam fazê-las dignas (LXVIII, 1). 

Quais são os vícios opostos à justiça comutativa? 
São muito numerosos e classificam-se em dois grupos (LXIII-LXXVIII). 

Quais são os que figuram no primeiro grupo? 
Os que prejudicam o próximo contra sua vontade (LXIV-LXVI). 

Poderíeis dizer-me o primeiro deles? 
O primeiro é o homicídio, pecado de ação contra o próximo e que consiste em arrebatar-lhe o maior bem que possui, que é a vida (LXIV). 

É muito grave o pecado de homicídio? 
É o maior dos pecados contra o próximo. 

Nunca é lícito atentar contra a vida do próximo? 
Não, Senhor. 

É a vida do homem um bem que nunca é lícito arrebatar-lhe? 
Nunca, exceto quando por um crime mereça ser privado dela (LIV, 2, 6). 

Quem tem neste caso o direito de a tirar? 
Somente a autoridade pública (Ibid). 

Em que se baseia este direito da autoridade pública? 
Na obrigação que tem de velar pelo bem comum (Ibid). 

Pode erigir o bem comum que se imponha a um homem a pena de morte? 
Sim, Senhor; porque bem pode ocorrer o caso em que não haja outro meio eficaz de por termo à arrogância dos criminosos ou em que a consciência pública exija esta satisfação por alguns crimes odiosos e execráveis (Ibid). 

Logo é o crime a única razão que pode invocar a autoridade pública para impor a pena de morte? 
Sim, Senhor (LIV, 6). 

A razão do bem público não poderia em algum caso justificar a morte do inocente? 
Não, Senhor; porque o bem supremo da sociedade é o bem da virtude (Ibid). 

É lícito aos particulares matar ao injusto agressor em defesa de suas pessoas ou bens? 
Não, Senhor; exceto quando seja necessário para defender a própria vida e a dos seus e não haja nenhum outro meio de repelir a agressão; e ainda neste caso, o que se defende não há de ter intenção de tirar a vida alheia, senão defender a própria (LXIV, 7). 

Quais são os outros pecados contra o próximo? 
Os de mutilação ou atentado contra a integridade; verberação, que consiste em privá-lo do repouso e tranquilidade e o encarceramento ou privação da liberdade (LXV, 1-3). 

Quando são pecaminosos estes atos? 
Quando os impõe quem não tem autoridade sobre o paciente ou se a tem, quando se excede no castigo (Ibid). 

XXII 

DO DIREITO DE PROPRIEDADE E SEUS DEVERES ANEXOS — VIOLAÇÃO DO DIREITO DA PROPRIEDADE: O ROUBO E A RAPINA 

Qual é o maior pecado contra o próximo, depois dos que o prejudicam na sua pessoa? 
Os que lhe ocasionam prejuízo em seus bens. 

Tem o homem direito de possuir alguma coisa como própria? 
Sim, Senhor; tem o direito de propriedade e de administrar suas posses, como melhor entender, sem que os outros possam intrometer-se nos seus negócios ou coagir a sua liberdade de ação (LXVI, 2). 

Em que se funda este direito? 
Na natureza humana porque, sendo o homem um ser racional, criado para viver em sociedade, assim o exige o seu próprio bem, o da família e o da coletividade de que faz parte (LXVI, 1, 2). 

Por que? 
Porque a propriedade é condição necessária para ter independência e liberdade de ação; porque é o meio por excelência para constituir e perpetuar a família e, por último, porque a sociedade obtém grandes benefícios não só porque a propriedade individual evita inumeráveis litígios e desavenças que sobre o uso das coisas possuídas em comum se produziriam, mas também porque os bens serão melhor administrados e gozados em benefício da coletividade. 

O direito de propriedade tem obrigações anexas? 
Sim, Senhor, ei-las em poucas palavras: a primeira obrigação do proprietário é não deixar improdutivos os seus bens. Descontando dos produtos o que necessita para sua vida e decoro seu e de sua família, não lhe é permitido considerar o restante como propriedade privada, excluindo em absoluto de sua participação os demais membros da sociedade; tem, por conseguinte, o dever de justiça social de repartir o supérfluo com a maior equidade possível, principalmente facilitando trabalho e ocupação para o desenvolvimento do bem estar comum e como meio para que todos possam atender às suas necessidades. A razão do bem público autoriza o Estado a tomar da propriedade o que julga necessário e útil com o objetivo de socorrer as necessidades sociais, e neste caso, os súditos estão obrigados, em justiça estrita, a conformar-se e obedecer. As necessidades particulares não impõem ao proprietário deveres tão imperiosos como as públicas e não há nesta matéria lei positiva alguma, cujo cumprimento possa exigir-se por via judicial; porém fica de pé, com toda a sua força e vigor, a lei natural e peca contra ela, faltando à obrigação primária de amar e socorrer ao próximo, quem, possuindo bens supérfluos, se desinteressa da miséria e angustiosa situação do necessitado. Esta obrigação, rigorosa por lei natural, adquire o caráter de dever sagrado em virtude da lei positiva divina, e particularmente da lei evangélica, como se Deus quisesse corroborar, impondo sanção penal, o preceito que gravara nos corações humanos (conforme LXVII, 2-7; XXXII, 5,6). 

Supostas as ditas obrigações, que direitos tem os proprietários? 
Têm direito a que todos respeitem os seus bens e a que ninguém lhes arrebate o domínio legitimo contra a sua vontade (LXVI, 5,8). 

Como se chama o ato de apropriar-se do alheio contra a vontade do proprietário?
Chama-se roubo e rapina (LXVI, 3-4). 

Que entendeis por roubo? 
O ato de tomar o alheio às escondidas do dono (Ibid). 

E o que é a rapina? 
O ato de despojar alguém de alguns dos seus bens, não às escondidas como no roubo, mas ostensiva e violentamente (LXVI. 4). 

Qual dos dois pecados é o mais grave? 
O segundo; todavia, tanto o roubo como a rapina são sempre, por sua natureza, pecados mortais, se não os escusa o pouco valor do objeto roubado (LXVI. 9). 

Logo têm os homens obrigação de abster-se de todo ato que tenha aparência de roubo? 
Sim, Senhor; porque assim o requer o bem da sociedade.

referências aos artigos da obra original

('A Suma Teológica de São Tomás de Aquino em Forma de Catecismo', de R.P. Tomás Pègues, tradução de um sacerdote secular)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

POEMAS PARA REZAR (XXX)


'EU ESTOU COM JESUS AGORA?'

Se Jesus estivesse ao seu lado agora
em sua casa, 
no seu trabalho,
na rua,
em todos os lugares onde você está:

sua casa seria a mesma?
seu cotidiano de trabalho não mudaria?
não seriam outros seus caminhos e ruas?
em quantos destes lugares você iria voltar?

ainda leria os livros e revistas que estão sobre a sua mesa?
assistiria esse programa na TV?
passaria tanto tempo no facebook ou na internet?
seriam longas assim as suas horas de lazer?

quem sabe Ele pudesse rezar em sua companhia,
talvez lhe sussurrar uma confissão tardia,
ou lhe pedir para ver o amor de Deus nos seus filhos,
ou até mesmo querer apenas o seu silêncio.

Se Jesus estivesse ao seu lado agora
em sua casa, 
no seu trabalho,
na rua,
em todos os lugares onde você está:

ele encontraria você bem vestido,
imbuído de humildade e mansidão,
ele poderia chamar você de 'Meu filho!'
e lhe dar um abraço de Pai?

Ou Ele poderia lhe erguer do chão
movido pela misericórdia e pelo perdão
diante do seu coração arrependido
em busca da herança do filho pródigo?

Jesus está ao teu lado agora 
e este agora é toda a sua vida:
Se Jesus está sempre ao seu lado
com um tempo que vale a eternidade,
então viver uma vida de cristão
seria se perguntar a cada hora:
'eu estou com Jesus agora?'
                                                            (Arcos de Pilares)

domingo, 10 de fevereiro de 2019

'AVANÇA PARA ÁGUAS MAIS PROFUNDAS!'

Páginas do Evangelho - Quinto Domingo do Tempo Comum


'Avança para águas mais profundas' (Lc 5,4). A orientação imperativa de Jesus aos pescadores, às margens do Lago de Genesaré, é um clamor que reverbera a todos os homens de todos os tempos. Que os filhos de Deus manifestem, além dos horizontes estreitos de sua religiosidade comum, a vocação de autênticos apóstolos, movidos na plenitude do amor e da generosidade de corações verdadeiramente cristãos. Não nos basta sermos artífices da graça de Deus em nós; neste quinto domingo do Tempo Comum, Jesus nos convoca a sermos missionários das graças de Deus para a salvação de muitos.

Após uma noite de duro trabalho totalmente infrutífero, os pescadores exaustos sabiam e tinham razões mais do que suficientes para julgar que o pedido de Jesus seria inútil. Com toda a experiência acumulada de anos de pesca naquelas águas, da pescaria mais adequada sob a luz noturna, voltar às águas à luz da manhã parecia um despropósito completo. Pedro, no entanto, abre mão do seu conhecimento especializado e do seu juízo dos fatos, em obediência e em generosa confiança às palavras do Mestre: 'Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes' (Lc 5, 5). Naquele pescador de lida bruta, Jesus divisou a alma do verdadeiro apóstolo! E o milagre dos peixes antecipou o milagre da salvação dos homens. 

Quanto trabalho e esforço em vão dispensaram tantos pescadores naquela noite sem resultados... E, certamente, eles eram os mais preparados e os mais qualificados para a tarefa. Não são assim as práticas daqueles que se vêem em suas obras? Que partilham com os outros sua diligência e disponibilidade como senhores dos seus dons? E, por mais que julguemos tais obras meritórias do ponto de vista das concepções humanas, são apenas trabalho e esforço vão de pescadores qualificados e disponíveis. Porque foi o próprio Cristo quem nos alertou: 'Sem mim, nada podeis fazer' (Jo, 15,5). E nada é nada mesmo. Sem a reparação infinita por Jesus Cristo, qualquer atitude nossa, por maior que seja sua relevância e excepcionalidade, torna-se meramente figurativa e essencialmente insignificante, porque moldada na superficialidade dos valores humanos. 

Eis porque se impõe o avanço confiante às águas mais profundas, para ir ao encontro de tantos que estão perdidos no submundo das drogas, do aborto e do hedonismo, nas trevas do pecado, submersos no emaranhado de tantas consciências afastadas de Deus, na miséria do ateísmo e da indiferença religiosa. Em águas profundas, com Cristo, por Cristo e em Cristo, um nosso ato de generosidade confiante é capaz de produzir prodígios, um nosso ato de amor tem o poder de operar milagres! E, feitos apóstolos dos nossos dias, como Pedro e os homens à beira do Lago de Genesaré, poderemos ser também pescadores de homens! E, como eles, seremos aqueles outros que 'levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram a Jesus' (Lc 5,11).

sábado, 9 de fevereiro de 2019

CANÇÕES DE FÁTIMA


Coro do Santuário de Fátima


(vídeo de autoria de Porfírio Lima e disponível no youtube)

01. Ave Maria
02. Hino dos Pastorinhos
03. Senhora, um dia descestes
04. Ave O Theotokos
05. Mater Ecclesiae
06. Magnificat
07. Ó Senhora da Azinheira
08. Ó Santíssima
09. Senhora, nós Vos louvamos
10. Bendizemos o Teu nome
11. Salve, nobre padroeira
12. Sobre os braços da azinheira
13. Senhora nossa, Senhora minha
14. Adeus de Fátima

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

08 DE FEVEREIRO - SANTA JOSEFINA BAKHITA


A primeira santa africana nasceu numa aldeia próxima a Dardur, no Sudão, por volta de 1869 – ela mesma não sabia a data precisa. Raptada por traficantes de escravos aos nove anos de idade, foi trancada inicialmente em um quarto escuro e miserável, depois espancada barbaramente e vendida cinco vezes nos mercados do Sudão, padecendo todo tipo de humilhação e selvageria nas mãos dos seus senhores. Este martírio atroz desde tenra idade roubou-lhe o próprio nome; o nome Bakhita - 'afortunada' em árabe -  foi-lhe dado pelos próprios traficantes.

Mas o pior dos tormentos ainda estava por vir. Comprada por um general turco, foi submetida a sofrimentos inimagináveis a serviço da mãe e da esposa deste homem, que incluíram dezenas de tatuagens no seu corpo abertas por navalha e que lhe legaram 144 cicatrizes e um leve defeito ao caminhar. A descrição destes tormentos foi assim exposta nas palavras da santa:

'Uma mulher habilidosa nesta arte cruel [tatuagem] veio à casa principal... nossa patroa colocou-se atrás de nós, com o chicote nas mãos. A mulher trazia uma vasilha com farinha branca, uma vasilha com sal e uma navalha. Quando terminou de desenhar com a farinha, a mulher pegou da navalha e começou a fazer cortes seguindo o padrão desenhado. O sal foi aplicado em cada ferida... Meu rosto foi poupado, mas 6 desenhos foram feitos em meus seios, e mais 60 em minha barriga e braços. Pensei que fosse morrer, principalmente quando o sal era aplicado nas feridas... foi por milagre de Deus que não morri. Ele havia me destinado para coisas melhores'.

Em 1882, com o retorno do general à Turquia, Bakhita foi comprada pelo cônsul italiano Calixto Legnani que a tratou como serviçal e não como escrava, sem humilhações e castigos. Diante de uma revolução nacionalista no Sudão, o cônsul retornou à itália levando Bakhita consigo, que foi cedida então a amigos do cônsul, o casal Michieli, em cuja casa começou a morar na região do Veneto, tendo por encargo especial os cuidados da filha do casal, a pequena Mimina. Foi nesta família católica que Bakhita conheceu a revelação de Jesus Cristo, sua flagelação e sua morte de cruz. O caminho de Bakhita estava traçado: da conversão à santidade pela via da caridade e do perdão. 

Em 9 de janeiro de 1890, foi batizada e crismada com o nome de Josefina e recebeu a Sagrada Comunhão das mãos do Patriarca de Veneza. Pouco depois, solicitou seu ingresso no Instituto das Filhas da Caridade, fundado por Santa Madalena de Canossa. Em 8 de dezembro de 1896, em Verona, pronunciou os votos finais de religiosa da congregação. A partir de então, por mais de 50 anos, sua vida foi um ato constante de amor a Deus e à caridade para com todos. Além de operosa nos serviços simples como na sacristia e na portaria do convento, realizou várias viagens através da Itália para difundir a sua missão: a libertação dada a ela pelo encontro com Cristo deveria ser compartilhada com o maior número possível de pessoas; a redenção que experimentara não podia ser guardada como posse, mas levada como sinal de esperança para todos.


Em 8 de fevereiro de 1947, após muito sofrimento de doenças como bronquites e pneumonias, a Irmã Josefina faleceu no convento canossiano de Schio, com a idade de 78 anos. Na hora da sua morte, seu semblante pareceu iluminar-se e exclamou com alegria suas últimas palavras 'Como estou contente! Nossa Senhora, Nossa Senhora!' A Irmã Moretta - a Irmã Morena - como era carinhosamente conhecida entregava serenamente a sua alma ao Senhor, rodeada pela comunidade em pranto e em oração. Seu corpo foi enterrado originalmente na capela de uma família de Schio, para um sepultamento definitivo posterior no Templo da Sagrada Família. Quando isso foi finalmente preparado, verificou-se que o corpo de Bakhita estava incorrupto, sendo o mesmo sepultado então sob o altar da igreja do mesmo convento. Em 17 de maio de 1992 foi beatificada e, em 1º de outubro de 2000, foi elevada à honra dos altares e declarada santa pelo Papa João Paulo II.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

PECADOS QUE ATRAEM A IRA DE DEUS

As impurezas e outras injustiças atraem a ira de Deus sobre os homens:

'Mortificai, pois, os vossos membros no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria. Dessas coisas provém a ira de Deus sobre os descrentes. Agora, porém, deixai de lado todas estas coisas: ira, animosidade, maledicência, maldade, palavras torpes da vossa boca, nem vos enganeis uns aos outros' (Cl 3,5-10).

'Despojemo-nos das obras das trevas e vistamo-nos das armas da luz. Comportemo-nos honestamente, como em pleno dia: nada de orgias, nada de bebedeira; nada de desonestidades nem dissoluções…' (Rm 13,12-13).

'Os tíbios, os infiéis, os depravados, os homicidas, os impuros, os maléficos, os idólatras e todos os mentirosos terão como quinhão o tanque ardente de fogo e enxofre' (Ap 21,8). 

'Deus julgará os impuros e os adúlteros' (Hb 13,4).

'Eis que venho em breve, e a minha recompensa está comigo, para dar a cada um conforme as suas obras. Fora os cães (pecadores desavergonhados como cães), os envenenadores, os impudicos, os homicidas, os idólatras e todos aqueles que amam e praticam a mentira (Ap 22, 12-15).

'Em qualquer ordem de coisas, a corrupção do princípio é terrível, porque dela dependem as consequências. Assim, como nos vícios contra a natureza, o homem trabalha contra o que a própria natureza estabeleceu sobre o uso do prazer venéreo, segue-se que um pecado nessa questão é muito grave. Em seguida, vem o incesto, o qual atenta contra o respeito natural que devemos às pessoas próximas a nós. A ordem natural procede de Deus. É por isso que nos pecados contra a natureza, em que a ordem natural é violada, uma injustiça é cometida contra Deus, o controlador da natureza' (São Tomás de Aquino).

'Os delitos contra a natureza são reprováveis e puníveis, sempre e em todos os lugares, assim como o foram os sodomitas. Mesmo que todos os homens tenham cometido esse mal, continuaria a pesar a mesma pena imposta pela lei divina, que não fez os homens para que agissem assim, pois viola-se a familiaridade com Deus, que se mancha, com a perversidade do prazer, a natureza da qual Ele é autor' (Santo Agostinho).

'Não te deitarás com um homem, como se fosse mulher: isso é uma abominação' (Lv 18,22).

'A ira de Deus se manifesta do alto do céu contra toda a impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a verdade,  de modo que não se podem escusar. Porque, conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos… Por isso, Deus os entregou aos desejos dos seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. Por isso, Deus os entregou a paixões vergonhosas: as suas mulheres mudaram as relações naturais em relações contra a natureza. Do mesmo modo também os homens, deixando o uso natural da mulher, arderam em desejos uns para com os outros, cometendo homens com homens a torpeza, e recebendo em seus corpos a paga devida ao seu desvario. Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Deus entregou-os aos sentimentos depravados, e daí o seu procedimento indigno' (São Paulo).

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

COMPÊNDIO DE SÃO JOSÉ (IV)


16. Quem particularmente indicou o Carpinteiro de Nazaré como modelo para os trabalhadores? 

Esta indicação nós a devemos particularmente ao Papa Pio XII, quando instituiu esta festa litúrgica no dia 1º de maio de 1955. O mesmo papa assim se expressou: 'Não houve nenhum homem assim tão próximo ao Redentor pelos vínculos familiares, pela comunhão diária, pela harmonia espiritual e pela vida divina de graça como São José, da estirpe de Davi, mas também um humilde trabalhador'. O Papa João Paulo II evidenciou a missão de José, ou seja, a sua função de Minister Salutis ao afirmar: 'Graças ao banco do trabalho junto ao qual exercia a sua profissão em companhia de Jesus, José aproximou o trabalho humano ao mistério da redenção'. 

17. A condição operária de José foi importante para Jesus na sua qualificação humana? 

A condição operária de José foi aquela que 'personifica o tipo humano, que o próprio Cristo escolheu para qualificar a sua própria posição social de Filius Fabri. Portanto, com José, Jesus assumiu uma qualificação humana e social. Tornando-se civilmente Filho de José (Lc 3,23), Jesus herdou o título real de 'filho de Davi', mas contemporaneamente assumiu também aquela condição profissional que o qualifica como o 'Filho do Carpinteiro' (Mt 13,55). 

18. Como podemos imaginar a vida de José durante a sua adolescência e juventude? 

Uma vida normal conforme viviam os jovens e adolescentes daquela época, ou seja, vivia o dia-a-dia na dedicação ao trabalho, na frequência à sinagoga, na observância das leis e costumes de seu povo e, como qualquer jovem do seu tempo, tinha os seus sonhos, e as suas aspirações de casar-se e de constituir uma família. 

19. Como José e Maria descobriram a vocação matrimonial? 

Afirmamos que tanto José como Maria foram vocacionados por Deus para a preciosa missão de realizar o mistério da Encarnação de Jesus. Jesus, o Filho de Deus, devia, no desígnio de Deus, nascer de uma mulher casada e virgem, ou seja, dentro de uma família. Daqui vemos a necessidade do matrimônio entre José e Maria, justamente para a vinda do Filho de Deus dentro de um contexto matrimonial. Deus, na sua onisciência, concedeu todas as oportunidades para que entre ambos surgisse o amor que leva à concretização da comunhão de vida entre um homem e uma mulher através do matrimônio. Portanto a presença de um na vida do outro na descoberta desta vocação não foi um simples jogo de circunstâncias, mas o resultado de uma preciosa intervenção de Deus e, assim, eles se casaram.

20. Por que frequentemente na arte São José é representado como um velho?

Durante muitos séculos, São José foi visto mais como um servo de Maria do que como seu esposo e a razão desta visão distorcida foi devido à influência dos livros apócrifos, os quais procuraram erroneamente defender a virgindade de Maria, e portanto a concepção virginal de Jesus, vendo em seu esposo um velho de cabeça branca e careca, com uns noventa anos. Um erro imperdoável, pois acreditou-se mais na incapacidade física de José sendo velho, sem a libido, do que nas suas virtudes e na graça de Deus.

Hoje pode-se afirmar com toda segurança que José casou-se com Maria com a idade própria de todos os jovens hebreus quando se casavam, ou seja, entre os dezoito e vinte e quatro anos, conforme os textos rabínicos atestam. Além do mais, Deus quis que seu Filho se inserisse na história humana da maneira mais natural possível, dentro de uma família e com pais que lhe dessem toda assistência, sustento e educação. Ora, se José fosse velho como foi apresentado, como poderia ter a força e a disposição para fugir com Jesus e Maria para o Egito, atravessando o deserto, numa longa caminhada e enfrentando os perigos, a falta de água e o cansaço? Como poderia José ter sustentado Jesus e sua esposa se não tivesse a força juvenil?

('100 Questões sobre a Teologia de São José', do Pe. José Antonio Bertolin, adaptado)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

FOTO DA SEMANA

'A ele foram dados império, glória e realeza, e todos os povos, todas as nações e os povos de todas as línguas serviram-no. Seu domínio será eterno; nunca cessará e o seu reino jamais será destruído' (Dn 7, 14)

domingo, 3 de fevereiro de 2019

O GRANDE MILAGRE DE JESUS EM NAZARÉ

Páginas do Evangelho - Quarto Domingo do Tempo Comum


A dimensão messiânica de Jesus tinha acabado de ser revelada aos moradores da aldeia de Nazaré, onde Jesus vivera até a juventude, como o filho do carpinteiro (evangelho do domingo anterior). Quase ao término do segundo ano de sua pregação pública e após o batismo por João, Jesus retorna às suas origens para proclamar aos seus conterrâneos que Ele é o Messias prometido das Escrituras. E aí vai experimentar, se não pela primeira vez, talvez a rejeição mais dolorosa, pois oriunda daqueles que lhe eram mais próximos, mais conhecidos, que com Ele conviveram cotidianamente por quase trinta anos. 

Jesus havia aberto o livro profético de Isaías nas passagens relativas às previsões messiânicas (Is 61, 1ss). Na sua oratória, embora não se tenha transcrição alguma do conteúdo de sua fala, Jesus certamente teria explicado, com suma riqueza de doutrina e de detalhes, o texto do profeta, como se pode depreender do testemunho do evangelista: 'Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca' (Lc 4,22). À margem o tesouro da doutrina exposta, aquele evento proclamara a chegada do Ungido, do Messias revelado pelos tempos nas Sagradas Escrituras. E a portentosa revelação fôra proclamada pelas palavras finais do Mestre: 'Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabaste de ouvir' (Lc 4, 21).

Mas os seus, ainda que admirados de sua pregação e oratória, não vão entendê-Lo. Eles O têm apenas no espectro da perplexidade e de certa admiração e querem ser testemunhas de desmedidos milagres, de feitos muito mais extraordinários daqueles ocorridos em Cafarnaum e por toda a Galileia. Para os homens de Nazaré daquele tempo, faltou a caridade e sem a caridade (conforme 1 Cor 13, 1-13), tudo se torna incomensuravelmente vão. Jesus foi para eles apenas uma sombra de admiração, tolhida pela incredulidade e covardia de tantos que preferiram, por puro preconceito, perder o convite à plena conversão. Da certeza de que um profeta não é bem recebido em sua terra (Lc 4, 24), Jesus vai revelar publicamente na sinagoga a dureza daqueles corações.

Movidos pelo ódio, e por ódio diabólico, agarraram Jesus não apenas com o intuito de expulsar o filho do carpinteiro da pequena aldeia, mas de matar o Salvador, atirando-o do alto de um precipício às portas da cidade. Dominado pela turba enfurecida e em frenesi para cometer um crime dantesco, Jesus manifestou-lhes certamente o extraordinário milagre que queriam ver. Mais tarde, Jesus iria aceitar com submissão o ódio dos homens na sua Paixão e Morte de cruz. Mas ali, ainda não chegara a sua hora. Sob o influxo de sua divindade, Jesus fez calar naqueles homens todos os espíritos ensandecidos e reduziu à impotência os seus frêmitos de ira e 'passando pelo meio deles, continuou o seu caminho' (Lc 4, 30).