sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

10 MANEIRAS DO CATÓLICO VIVER O 'CARNAVAL DE CRISTO'

1. No silêncio e no anonimato de tua oração fervorosa, aplaque a cólera de Deus contra os homens mergulhados nas desordens e licenciosidades do carnaval.

2. Pratique, de forma anônima e recata, a piedade e a caridade extremadas a muitos de teus próximos, nestes terríveis dias da insensatez humana!

3. Afaste-se completamente de todos os espetáculos, desordens, sensualidades e demais loucuras daqueles que se embriagam dos prazeres do carnaval pela força dos costumes.

4. Reflita, de forma muito especial e reverente, a memória e a paixão do Senhor nestes dias de carnaval.

5. Busque refúgio no escondimento do mundo, com o firme propósito de manifestar a glória de Deus, nestes dias, por meio da tua vida vivida inteiramente na pequenez e na solidão .

6. Visite o Santíssimo Sacramento durante os dias de carnaval e ofereça a tua oferta de desagravo aos pecados cometidos pelos homens ensandecidos de carnaval.

7. Antecipe a tua preparação, com zelo redobrado, de continência e penitência para a Quaresma.

8. Reze, reze muito, reze o tempo inteiro, com a tua oração, o teu silêncio, o teu descanso, o teu trabalho manual, o teu trabalho mental, com as tuas ações pequenas, simples, cotidianas e boas, oferecendo-as a Cristo em reparação às injúrias e loucuras de tantos homens nestes dias de carnaval.

9. Participe de santas missas, de exercícios ou retiros espirituais ou de atos de adoração, e reze particularmente pelos teus irmãos que dissipam a graça de Deus neste tempo de insanidades.

10. 'Abraça a cruz, enterra-a no seu coração... compadeça de mim e participe da minha dor' (Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque).

O VALOR DO SANGUE DE CRISTO

'Queres conhecer o valor do Sangue de Cristo? Voltemos às figuras que profetizaram e recordemos a narrativa do Antigo Testamento: Imolai, diz Moisés, um cordeiro de um ano e assinalai as portas com seu sangue. Que dizes, Moisés? O sangue de um cordeiro tem poder para libertar o homem racional? Certamente, responde ele, não porque é sangue, mas porque prefigura o Sangue do Senhor. Se hoje o inimigo, em vez de sangue simbólico aspergido nos umbrais, vir resplandecer nos lábios dos fiéis, portas dos templos de Cristo, o sangue da nova realidade, fugirá ainda para mais longe.

Queres compreender ainda mais profundamente o valor deste Sangue? Repara donde brotou e qual é a sua fonte. Começou a brotar da cruz, e a sua fonte foi o Lado do Senhor. Estando já morto Jesus, diz o Evangelho, e ainda cravado na cruz, aproximou-se um soldado, trespassou-Lhe o Lado com uma lança e logo saíram água e sangue: água como símbolo do Batismo, sangue como símbolo da Eucaristia. O soldado trespassou o Lado, abriu uma brecha na parede do templo e eu achei um grande tesouro e alegro-me por ter encontrado riquezas admiráveis. Assim aconteceu com aquele cordeiro. Os judeus mataram um cordeiro e eu recebi o fruto do sacrifício.

Do Lado saíram sangue e água. Não quero, estimado leitor, que passes inadvertidamente por tão grande mistério. Falta-me ainda explicar-te outro significado místico. Disse que esta água e este sangue simbolizavam o Batismo e a Eucaristia. Foi deste sacramento que nasceu a Igreja, pelo banho de regeneração do Espírito Santo, isto é, pelo sacramento do Batismo e pela Eucaristia que brotaram do Lado de Cristo, por conseguinte, que se formou a Igreja, como foi do lado de Adão que Eva foi formada.

Por esta razão, a Escritura, falando do primeiro homem, usa a expressão carne da minha carne, osso dos meus ossos, que São Paulo refere, aludindo ao Lado de Cristo. Pois assim como Deus abriu o lado de Adão enquanto ele dormia, assim Cristo nos deu a água e o sangue durante o sono da Sua morte.

Vede como Cristo se uniu à Sua Esposa, vede com que alimento nos sacia. O mesmo alimento nos faz nascer e nos alimenta... Assim como a mulher se sente impulsionada pelo amor natural a alimentar com o próprio leite e o próprio sangue o filho que deu à luz, assim também Cristo alimenta sempre com o Seu Sangue aqueles a quem deu o novo nascimento.' 

(Das Catequeses de São João Crisóstomo, ~350-407)

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

DA EXCELÊNCIA DA ORAÇÃO (SÃO CIPRIANO DE CARTAGO)

Da Excelência da Oração Humilde:

Quem ora, queridíssimos irmãos, não deve ignorar como o publicano e o fariseu oravam no templo. Aquele não levantava descaradamente os olhos ao céu, nem erguia as mãos com insolência, mas implorava o auxílio da misericórdia divina batendo no peito e confessando os seus pecados íntimos. E enquanto o fariseu se comprazia em si mesmo, o publicano que assim rezava mereceu ser santificado, pois não havia posto a esperança da sua salvação na garantia da sua inocência – porque ninguém é inocente – mas na confissão humilde dos seus pecados; e Aquele que perdoa os humildes prestou ouvidos àquele que assim rogava.

Da Excelência da Oração do Pai-Nosso:

Que oração poderia ser mais espiritual do que aquela que nos foi dada por Cristo, que também nos enviou o Espírito Santo? Que súplica poderia ser mais eficaz junto ao Pai do que aquela que saiu da boca do Filho, que é a própria Verdade? Orar de modo diferente daquele que o Senhor nos ensinou não só seria ignorância, mas culpa, uma vez que Ele próprio o afirmou ao dizer: Rejeitais o mandamento de Deus para ater-vos à vossa tradição (Mt 15,6; Mc 7,8).

Portanto, queridíssimos irmãos, oremos como nos ensinou o nosso Mestre, Deus. É-lhe grato e familiar dirigirmo-nos a Ele com as suas próprias palavras, fazermos chegar aos seus ouvidos a oração do próprio Cristo. O Pai há de reconhecer as palavras do seu Filho quando lhe rogarmos com elas; Aquele que habita em nosso peito deve estar também em nossos lábios e como, além disso, Ele é intercessor pelos nossos pecados diante do Pai, convém que nós, pecadores, ao pedirmos perdão dos nossos delitos, nos sirvamos das palavras utilizadas pelo nosso Advogado. Com efeito, se Ele declara que tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá (Jo 16,23), quanto mais eficaz não será a nossa súplica se pedirmos não somente em nome de Cristo, mas valendo-se da sua própria oração?

(Excertos da obra 'De oratione dominica', de São Cipriano, Bispo de Cartago)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

EXISTE (MUITO) PECADO AO SUL DO EQUADOR...

Nestes tempos de licenciosidade e relativismos mórbidos, em que tudo torna-se passível de questionamento geral e corriqueiro, a ideia de impor ou definir limites é irremediavelmente taxada de anacrônica ou obscurantismo 'medieval'. E, neste contexto de um mundo que perdeu completamente a noção do sagrado e do pecado, é perfeitamente compreensível, e até mesmo louvável, que 'não exista pecado ao sul do Equador...'

Neste contexto, o carnaval é o frenesi dos instintos e a apoteose da libertinagem. Mas um católico não poderia objetar que o pecado não está no carnaval, mas na carnavalização dos sentidos? Pode o pecado da ira não estar na ira? Pode o mal esconder-se ambiguamente atrás de algo intrinsecamente neutro? A questão de pecar ou não pecar envolve a relatividade do ato e do fato? De outra forma, as obras do espírito são frutos de suas operações ou, nas palavras de São Tomás de Aquino, operações e obras se correspondem como a edificação de uma casa para a casa edificada (Summa Theologiae).

Nada, absolutamente nada, nos atos humanos ou nas operações do espírito (ideias, juízos, imaginação, raciocínio), podem ser incondicionalmente neutras no âmbito da moral cristã: ou conduzem à maior glória de Deus ou nos afastam inexoravelmente da vida da graça: 'Portanto, quer comais quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus' (I Cor 10, 31). E, assim, como a ira tornada ação, a ira entranhada é também pecado. Expor-se à ocasião do pecado já é pecado. O que se impõe, além disso, é meramente a questão da maior ou menor gravidade de um e de outro pecado.

Se nosso propósito é fazer tudo para a glória de Deus, na edificação cotidiana da casa, o que estaremos fazendo exatamente nestes dias em um bloco de carnaval? Investidos na supressão dos costumes formais, em meio à turba eufórica e excitada, subjugados pela onda avassaladora da licenciosidade dos sentidos? 

Ora, se numa discussão, eu me permito ser dominado pela cólera e, em vez de confrontá-la com a objeção do autocontrole e do discernimento, eu a admito tendo em vista um alardeado controle sobre os meus atos, ainda assim, não passo de um encolerizado pecador. Da mesma forma, ainda que seduzido ou enganado pelos rompantes de se buscar apenas diversão no carnaval, numa festa intrinsecamente contrária à moral cristã, você será apenas mais um folião na legião de pecadores. E, convenhamos que, para um católico, isso não é nada engraçado...  

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O DOM DA FORÇA

O dom de Ciência nos ensina o que devemos fazer e o que devemos evitar para estar de acordo com as intenções de Jesus Cristo, nosso divino Chefe. É preciso agora que o Espírito Santo estabeleça em nós um princípio, do qual possamos tomar a energia que deverá nos sustentar no caminho que Ele acaba de nos mostrar. Devemos, com efeito, contar com obstáculos e o grande número daqueles que sucumbem basta para nos convencer da necessidade de sermos ajudados. O socorro que o Divino Espírito nos comunica é o dom da Força pelo qual, se somos fiéis ao empregá-lo, será possível, e mesmo fácil para nós, triunfar sobre tudo o que possa deter nossa marcha.

Nas dificuldades e nas provações da vida, o homem é tanto levado à fraqueza e ao abatimento, quanto empurrado por um ardor natural, que tem sua fonte no temperamento ou na vaidade. Esta dupla disposição pouco ajudará na vitória dos combates pelos quais a alma deve passar para sua salvação. O Espírito Santo traz então um novo elemento como força sobrenatural, que lhe é tão próprio, que o Salvador, ao instituir seus Sacramentos, estabeleceu dentre estes um que tem por objeto especial nos dar esse Espírito divino como princípio de energia. Está fora de dúvida que tendo de lutar durante esta vida contra o demônio, o mundo e nós mesmos, precisamos de outra coisa para resistir, além da pusilanimidade ou da audácia.

Temos necessidade de um dom que modere em nós o medo e que, ao mesmo tempo, tempere a confiança que seríamos levados a ter em nós mesmos. O homem assim modificado pelo Espírito Santo certamente vencerá, pois a graça substituirá nele a fraqueza da natureza ao mesmo tempo em que corrigirá a impetuosidade. Duas necessidades encontram-se na vida do cristão: a de saber resistir e a de saber suportar. O que poderia se opor às tentações de Satã, se a Força do Divino Espírito não viesse cobri-lo de uma armadura celeste e fortalecer seu braço? O mundo não é também um adversário terrível, se considerarmos o número de vítimas que caem todos os dias pela tirania de suas máximas e de suas pretensões? Qual não deve ser a assistência do Divino Espírito, quando se trata de tornar o cristão invulnerável aos golpes assassinos que fazem tantos estragos à sua volta?

As paixões do coração do homem não são um obstáculo menor à sua salvação e à sua santificação: obstáculo tanto mais temível porque mais íntimo. É preciso que o Espírito Santo transforme o coração, que o leve mesmo a renunciar, quando a luz celeste indique um outro caminho para o qual nos empurra o amor e a busca de nós mesmos. Que força divina não é preciso para 'odiar até a sua própria vida', quando Jesus Cristo o exige, quando se trata de escolher entre dois mestres cujos serviços são incompatíveis?

O Espírito Santo, todos os dias, realiza esses prodígios, por meio do dom que derrama em nós, se não o desprezamos, se não o abafamos com nossa covardia ou com nossa imprudência. Ele ensina ao cristão a dominar suas paixões, a não se deixar conduzir por guias cegos, a não ceder a seus instintos, a não ser, quando são conformes à ordem que Deus estabeleceu. Algumas vezes esse Divino Espírito não pede somente que o cristão resista interiormente aos inimigos de sua alma, mas exige também que proteste abertamente contra o erro e o mal, se o dever de estado ou a posição o reclamam. É aí, então, que é preciso afrontar uma espécie de impopularidade que se associa às vezes ao cristão, e que não deve surpreendê-lo ao lembrar-se das palavras do Apóstolo: 'Se eu fosse agradável aos homens, não seria servidor de Cristo'. Mas o Espírito Santo não falta nunca e quando encontra uma alma resolvida a fazer uso da força divina da qual Ele é a fonte, não somente lhe assegura o triunfo, mas a estabelece numa paz cheia de doçura e de coragem que a leva à vitória sobre as paixões.

Tal é a maneira pela qual o Espírito Santo aplica o dom da Força ao cristão, quando este deve exercer resistência. Dissemos que este precioso Dom trazia ao mesmo tempo a energia necessária para suportar as provações cujo prêmio é a salvação. Há temores que gelam a coragem e podem levar o homem à sua perda. O dom de Força os dissipa, substituindo-os por uma calma e uma segurança que desconcerta a natureza. Vejam os mártires! E não só um São Mauricio, chefe da legião tebana, acostumado às lutas do campo de batalha, mas tantos outros, como Felicidade, mãe de sete filhos;como Perpétua, nobre senhora de Cartago para quem o mundo só tinha favores; como Inês, criança de treze anos, bem como milhares de outras, e digam se o dom da Força é estéril em sacrifícios. O que foi feito do medo da morte, desta morte cujo único pensamento nos acabrunha muitas vezes? E as generosas ofertas de toda uma vida imolada na renúncia e nas privações, a fim de encontrar Jesus sem reserva e de seguir suas pegadas de mais perto? E tantas existências veladas aos olhares distraídos e superficiais dos homens, existências cujo elemento é o sacrifício, onde a serenidade nunca é vencida pela provação, onde a cruz sempre reinante é sempre aceita!

Que troféus para o Espírito de Força! Que dedicação ao dever ele sabe produzir! E se o homem sozinho é pouca coisa, o quanto é engrandecido sob a ação do Espírito Santo! É ainda Ele que ajuda ao cristão a enfrentar a triste tentação do respeito humano, elevando-o acima das considerações mundanas que ditariam uma outra conduta. É Ele que empurra o homem a preferir às honras vãs do mundo, a alegria de não ter violado o mandamento de seu Deus. É esse Espírito de Força que nos faz aceitar as desgraças da fortuna assim como tantos desígnios misericordiosos do céu, que sustentam o cristão na perda dolorosa dos entes queridos, nos sofrimentos físicos que tornariam a vida um fardo, se não soubesse que são visitas do Senhor.

É Ele enfim, como lemos na Vida dos Santos, que se serve das próprias repugnâncias da natureza, para provocar atos heroicos onde a criatura humana parece atravessar os limites de seu ser para elevar-se à ordem dos espíritos impassíveis e glorificados. Espírito de Força, permanecei cada vez mais em nós e salvai- nos da indolência desse século. Em época nenhuma a energia das almas esteve mais enfraquecida, o espírito mundano e diabólico mais triunfante, o sensualismo mais insolente, o orgulho e a independência mais pronunciados. Saber ser forte contra si mesmo é uma raridade que excita o espanto daqueles que o testemunham: como as verdades do Evangelho perderam terreno!

Detende-nos sobre esse declive que nos levaria como a tantos outros, ó Divino Espírito! Deixai que peçamos como São Paulo aos cristãos de Éfeso e que ousemos reclamar de Vossa liberalidade: 'a armadura divina que nos porá em condições de resistir no dia mau e de permanecermos perfeitos em todas as coisas. Cingi nossos rins com a verdade, cobri-nos com a couraça da justiça, dai a nossos pés, como calçados indestrutíveis, o Evangelho da paz; muni-nos com o escudo da fé, contra o qual vem atingir as flechas inflamadas de nosso cruel inimigo. Colocai em nossa cabeça o elmo que é a esperança da salvação e em nossa mão a espada espiritual que é a própria palavra de Deus' e com a ajuda da qual possamos enfrentar, como o Senhor no deserto, todos os nossos adversários. Espírito de Força, fazei que assim seja!

(Excertos da obra 'Os Dons do Espírito Santo', de Dom Prosper Gueranger, Ed. Permanência, 2007)

domingo, 23 de fevereiro de 2014

'SEDE PERFEITOS!'

Páginas do Evangelho - Sétimo Domingo do Tempo Comum


A pregação de Jesus deste domingo é uma complementação direta daquela manifestada no evangelho do domingo passado. Diante das imposições arbitrárias e inconsistentes da lei judaica vigente, Jesus vai propor a mais radical das proposições ao homem pecador: 'sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito!' (Mt 5, 48). A superação das fragilidades e incertezas humanas deve ser, portanto, absoluta: a santificação pessoal se espelha pura e simplesmente na Perfeição de Deus.

Diante o mal generalizado e corrente, o enfrentamento e a oposição cristãs não se compactuam com a lei do talião: 'olho por olho, dente por dente', mas implicam a aceitação das provações humanas, o autocontrole dos instintos, a serenidade das ações e das reações diante da injustiça e do arbítrio: 'se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda!'(Mt 5, 39), e ainda, 'Se alguém te forçar a andar um quilômetro, caminha dois com ele!' (Mt 5, 41). A essência da santificação é não se perder no redemoinho das vertigens humanas, mas seguir, à perfeição, Jesus 'manso e humilde de coração' (Mt 11, 29).

O sinal de distinção da vida cristã é a perfeição da vida em Deus. No seguimento a Cristo, não cabem quaisquer sentimentos de revolta, vingança ou indignação. Não basta amar os que nos amam, porque até os maus fazem isso também. Não basta ser generoso e cordial com os nossos amigos e companheiros, porque os maus também vivem assim. Deus dá o sol e faz cair a chuva sobre os justos e os injustos. A identidade cristã é um libelo contra a ordem humana da condescendência natural: 'Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!' (Mt 5, 44). 

Eis o legado de Cristo aos que somos povo de Deus: 'sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito!' (Mt 5, 48). Nada aquém desse propósito gigantesco e singular, nada de metas sofríveis, nada de caricaturas de uma vida cristã! Eis a nossa missão como filhos de Deus e herdeiros do Céu: trazer e manter nos atos e ações cotidianas o legado batismal da perfeição divina: 'Acaso não sabeis que sois santuários de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós?' (1Cor 3, 16). 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

A ORDENAÇÃO SACERDOTAL

A ordenação sacerdotal, pela qual se transmite a missão, que Cristo confiou aos seus Apóstolos, de ensinar, santificar e governar os fiéis, foi na Igreja Católica, desde o início e sempre, exclusivamente reservada aos homens. Esta tradição foi fielmente mantida também pelas Igrejas Orientais...


... De fato, os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos atestam que este chamamento foi feito segundo o eterno desígnio de Deus: Cristo escolheu os que Ele quis (cfr Mc 3,13-14; Jo 15,16) e fê-lo em união com o Pai, 'pelo Espírito Santo' (At 1,2), depois de passar a noite em oração (cfr Lc 6,12). Portanto, na admissão ao sacerdócio ministerial, a Igreja sempre reconheceu como norma perene o modo de agir do seu Senhor na escolha dos doze homens que Ele colocou como fundamento da sua Igreja (cfr Ap 21,14). Eles, na verdade, não receberam apenas uma função, que poderia depois ser exercida por qualquer membro da Igreja, mas foram especial e intimamente associados à missão do próprio Verbo encarnado (cfr Mt 10,1.7-8; 28,16-20; Mc 3,13-16; 16,14-15). O mesmo fizeram os Apóstolos, quando escolheram os seus colaboradores que lhes sucederiam no ministério. Nessa escolha, estavam incluídos também aqueles que, ao longo da história da Igreja, haveriam de prosseguir a missão dos Apóstolos de representar Cristo Senhor e Redentor...

... Embora a doutrina sobre a ordenação sacerdotal que deve reservar-se somente aos homens, se mantenha na Tradição constante e universal da Igreja e seja firmemente ensinada pelo Magistério nos documentos mais recentes, todavia atualmente em diversos lugares continua-se a retê-la como discutível, ou atribui-se um valor meramente disciplinar à decisão da Igreja de não admitir as mulheres à ordenação sacerdotal.


Portanto, para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos (cfr Lc 22,32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja.

(Excertos da Carta Apostólica 'Ordinatio Sacerdotalis', do Papa João Paulo II, de 1994) 

QUANDO O INFERNO É AQUI...

A professora universitária Célia Pesquero, de 49 anos, deixou nesta quinta-feira a UTI de um hospital em Osasco (Grande São Paulo), após ter sofrido violentas agressões do marido, Edemir de Mattos, de 52 anos, na noite da última segunda-feira. Depois de agredir a mulher, Mattos, que era professor de inglês, se jogou com o filho de seis anos do apartamento em que moravam, no 13º andar do prédio onde moravam. Pai e filho morreram na hora. 

O que se esconde atrás da consciência humana de um pai que esmurra a esposa, rasga a tela de proteção da varanda do seu apartamento localizado  no 13º andar de um prédio, agarra e mantém preso a si o filho de 6 anos, que não se sensibiliza com o choro horrorizado da criança diante da tragédia anunciada e dos insistentes apelos dos vizinhos atordoados da varanda do apartamento ao lado, que sobe até o patamar da mureta de proteção e, ainda mantendo o filho imobilizado contra si, projeta-se com ele no vazio? Nada, coisa alguma da natureza humana pode conceber ou explicar os limites imponderáveis da demência diabólica, tão perto de nós, quando o inferno é aqui... 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

OS NOVÍSSIMOS DO HOMEM (II)

O Terceiro Novíssimo: (i) O PARAÍSO

Depois de entrar na felicidade de Deus, a alma não terá mais nada a sofrer. No paraíso não há doenças, nem pobreza, nem incômodos. Deixam de existir as vicissitudes dos dias e das noites, do frio e do calor; é um dia perpétuo, sempre sereno, primavera perpétua, sempre deliciosa. Não há perseguições nem ciúmes; neste reino de amor, todos os seus habitantes se amam mútua e ternamente, e cada qual é tão feliz da ventura dos outros como da própria. Não há receios, porque a alma, confirmada na graça, já não pode pecar nem perder a Deus. Tudo é novo, tudo consola, tudo satisfaz.

Os olhos deslumbrar-se-ão com a vista desta cidade cuja beleza é perfeita. Que maravilha não nos causaria a vista de uma cidade cujas ruas fossem calçadas de cristal, e cujas casas fossem palácios de prata ornados de cortinados de ouro e de grinaldas de flores de toda espécie. Oh, quanto mais bela ainda é a cidade celeste!

Que delicioso não será ver todos os seus habitantes vestidos com pompa real, porque todos efetivamente são reis, como lhes chama Santo Agostinho: Quot cives, tot reges. Que delicioso não será ver Maria, que parecerá mais bela que todo o paraíso! Que delicioso não será ver o Cordeiro Divino, Jesus, o Esposo das almas! Um dia Santa Teresa viu apenas uma das mãos de Cristo e ficou cheia de admiração à vista de semelhante beleza.

Cheiros suavíssimos, perfumes incomparáveis regalarão o olfato. O ouvido ouvirá arrebatado as harmonias celestes. Um Anjo deixou um dia São Francisco ouvir um único som da música celeste, e o Santo julgou morrer de felicidade. O que não será ouvir todos os Santos e todos os Anjos cantarem em coro os louvores de Deus! O que não será ouvir Maria celebrar as glórias do Altíssimo! A voz de Maria é no Céu, diz São Francisco de Sales, o que é num bosque a do rouxinol, que vence a de todas as outras aves. 

Numa palavra, o paraíso é a reunião de todos os gozos que se podem desejar. Mas essas inefáveis delícias até aqui consideradas são apenas os menores bens do paraíso. O bem, que faz o paraíso, é o Bem Supremo, que é Deus, diz Santo Agostinho. A recompensa que o Senhor nos promete não consiste unicamente nas belezas, nas harmonias, nos outros encantos da bem-aventurada cidade; a recompensa principal é Deus, isto é, consiste em ver Deus face a face e amá-Lo.

Assegura Santo Agostinho que, para os condenados, seria como estar no paraíso se chegassem a ver Deus. E acrescenta que, se fosse dado a uma alma, ao sair desta vida, a escolha de ver a Deus ficando nas penas do inferno, ou ser livre das penas do inferno e ao mesmo tempo privada da vista de Deus, ela preferiria a primeira condição. A felicidade de contemplar com amor a face de Deus, não a podemos conceber neste mundo, mas procuremos avaliá-la, ainda que não seja senão pelos efeitos que conhecemos.

O Terceiro Novíssimo: (ii) O INFERNO

Consideremos a pena dos sentidos. É de fé que existe o inferno. E no centro da Terra se acha esta horrível prisão destinada a punir os que se revoltaram contra Deus. 'O que é o inferno? Um lugar de tormentos' (Lc 16, 28), como lhe chama o mau rico que a ele foi condenado: lugar de tormentos, onde todos os sentidos e todas as faculdades do condenado devem ter o seu tormento próprio, e quanto mais se tiver ofendido a Deus com algum dos sentidos, tanto mais terá a sofrer este mesmo sentido.

A vista será atormentada pelas trevas. De quanta compaixão nos possuiríamos se soubéssemos que existia um infeliz encerrado em escuro cárcere por toda a vida, ou por quarenta ou cinquenta anos! O inferno é um abismo fechado de toda a parte, onde nunca penetrará raio de sol ou de qualquer outra luz. Neste mundo o fogo ilumina; no inferno, deixará de ser luminoso.

Segundo São Basílio, o Senhor separará do fogo a luz, de tal sorte que este fogo arderá sem iluminar, o que Alberto, o Grande, exprime mais brevemente nestes termos: Dividet a calore splendorem [separou do calor a luz]. O fumo que sair dessa fornalha formará o dilúvio de trevas de que fala São Judas Tadeu, e que afligirá os olhos dos condenados. São Tomás diz que os condenados só terão a luz suficiente para serem mais atormentados; a esta sinistra claridade, verão o estado horrendo dos outros réprobos e dos demônios, que tomarão diversas formas para lhes causarem mais horror.

O olfato terá também o seu suplício. Quanto não sofreríamos se nos metêssemos num quarto onde jazesse um cadáver em putrefação! O condenado deve ficar no meio de milhões e milhões de condenados, cheios de vida com relação às penas que sofrem, mas verdadeiros cadáveres quanto ao mau cheiro que exalam.

Diz São Boaventura que o corpo de um condenado, se acaso fosse atirado à Terra, bastaria com sua infecção para fazer morrer todos os homens. E ainda há insensatos que se atrevem a dizer: ‘Se for para o inferno, não me hei de achar só!’ Infelizes! Quantos mais lá encontrarem, tanto mais sofrerão, como assegura São Tomás. Tanto mais se sofrerá, digo eu, por causa da infecção, dos gritos e do aperto, porque os réprobos estarão no inferno tão juntos uns dos outros, como rebanho de ovelhas encerradas no curral durante a tempestade; ou, para melhor dizer, serão como uvas esmagadas no lagar da cólera de Deus.

Daí nasce o suplício da imobilidade: Fiant immobiles quasi a lapis (Ex 15, 16). Pela maneira como o condenado cair no inferno, no último dia, dessa maneira viverá ali constrangidamente, sem nunca mudar de situação, e sem nunca poder mexer pés nem mãos enquanto Deus for Deus.

O ouvido será continuamente atormentado pelos rugidos e queixas desses infelizes desesperados. A este barulho contínuo, os demônios acrescentarão, sem cessar, ruídos pavorosos. Quando desejamos dormir, é com o maior desespero que ouvimos o lastimar contínuo de um doente, o ladrar de um cão ou o choro de uma criança. Qual não será o tormento dos condenados obrigados a ouvir incessantemente, durante toda a eternidade, esses ruídos e clamores insuportáveis!

Pelo que diz respeito ao gosto, sofrer-se-á fome e sede. O condenado sentirá uma fome devoradora, mas nunca terá nem uma só migalha de pão. Além disso, será atormentado de tal sede que nem todas as águas do mundo bastariam para lha apagar. Apesar desta terrível sede, não terá uma só gota. O mau rico pediu-a, mas nunca a obteve e não a obterá nunca, nunca!

(Excertos da obra 'Preparação para a Morte', de Santo Afonso Maria de Ligório)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

OS NOVÍSSIMOS DO HOMEM (I)

O Primeiro Novíssimo: A MORTE

Considerai que sois pó, e que em pó vos haveis de tornar. Virá um dia em que morrereis e sereis lançado à podridão num fosso, onde o vosso único vestido serão os vermes. Tal é a sorte reservada a todos os homens, aos nobres e aos plebeus, aos príncipes e aos vassalos. Logo que a alma saia do corpo com o último suspiro, dirigir-se-á à eternidade e o corpo deverá reduzir-se a pó.

Imaginai que estais vendo uma pessoa que acaba de exalar o último suspiro; considerai esse cadáver deitado ainda no leito, com a cabeça pendida sobre o peito, os cabelos em desalinho banhados ainda nos suores da morte, os olhos encovados, as faces descarnadas, o rosto acinzentado, a língua e os lábios cor de ferro… o corpo frio e pesado. Empalidece e treme quem quer que o vê. Quantas pessoas, à vista de um parente ou de um amigo morto, não mudaram de vida e não deixaram o mundo!

Mais horrível ainda é o cadáver quando principia a corromper-se. Há apenas 24 horas que esse moço morreu, e já o mau cheiro se começa a sentir. É preciso abrir as janelas e queimar incenso; é preciso quanto antes enviar esse corpo à igreja e entregá-lo à terra, com receio de que venha a infeccionar toda a casa. 

No que se tornou esse orgulhoso, esse dissoluto! Ainda há pouco acolhido e desejado nas sociedades, agora objeto de horror e de desgosto para quem o vê! ... Há bem poucos instantes ainda, não se falava senão do seu espírito, da sua polidez, das suas belas maneiras, dos seus bons ditos; mas apenas está morto, já se perdeu a lembrança de tudo isto. 

Pensai bem que, assim como vós fizestes na morte dos vossos amigos, assim os outros agirão convosco. Os vivos entram para aparecer por sua vez na cena, ocupando os bens e os lugares dos mortos, e destes já não se faz ou quase não se faz caso ou menção. 

Na morte é preciso deixar tudo. O irmão de Tomás de Kempis, esse grande servo de Deus, felicitava-se por ter construído uma casa magnífica. Houve porém um amigo que lhe notou um defeito. ‘Onde está?’ – perguntou ele. Respondeu-lhe o amigo: ‘O defeito que lhe acho é terdes vós mandado construir nela uma porta’. ‘O quê! Uma porta? Pois isso é defeito?’. ‘Sim' – acrescentou o amigo – 'porque um dia, por essa porta, devereis sair sem vida, e assim deixar a casa e tudo o mais’.

O Segundo Novíssimo: O JUÍZO PARTICULAR

É sentimento comum entre os teólogos que o Juízo particular se faz logo que o homem expira, e que no próprio lugar onde a alma se separa do corpo, aí é julgada por Jesus Cristo, que não manda ninguém em seu lugar, mas vem Ele mesmo para este fim.

A sua vinda, diz Santo Agostinho, é motivo de alegria para o fiel e de terror para o ímpio. Qual não será o espanto daquele que, vendo pela primeira vez o seu Redentor, o vir indignado! Esta idéia causava tal estremecimento ao Padre Luís Dupont, que fazia tremer consigo a cela. O venerável Padre Juvenal Aucina, ouvindo cantar o Dies Irae (Dia da Ira), pensou no terror que se lhe havia de apoderar da alma quando se apresentasse no dia do Juízo, e resolveu deixar o mundo, o que efetivamente fez. O aspecto do Juiz indignado será o anúncio da condenação. Segundo São Bernardo, será então mais duro sofrimento para a alma ver Jesus Cristo indignado do que estar no inferno.

Têm-se visto criminosos banhados em copioso suor frio na presença de um juiz terrestre. Pison, comparecendo no senado com as insígnias da sua culpa, sentiu tamanha confusão, que a si próprio deu a morte. Que pena não é para um filho ou um vassalo ver seu pai ou o seu príncipe indignados! Que maior mágoa não deve sofrer uma alma à vista de Jesus Cristo, a quem desprezou durante toda a vida! Esse Cordeiro, que a alma via tão manso enquanto estava no mundo, vê-Lo-á agora irritado, sem esperança de jamais O apaziguar. Então pedirá às montanhas que a esmaguem e a furtem das iras do Cordeiro indignado. 

Considerai a Acusação e o Exame. Haverá dois livros: o Evangelho e a Consciência. No Evangelho, ler-se-á o que o culpado devia fazer; na Consciência, o que tiver feito. Na balança da divina justiça não se pesarão as riquezas, nem a dignidade, nem a nobreza das pessoas, mas sim, somente as obras. Diz Daniel: 'Fostes pesado e achado demasiadamente leve'. Vejamos o comentário do Padre Alvarez: 'Não é ouro nem o poder do rei que está na balança, mas unicamente sua pessoa'.

Virão então os acusadores e, em primeiro lugar, o demônio, diz Santo Agostinho. Representará as obrigações em que não nos empenhamos e que deixamos de cumprir, denunciar-nos-á todas as faltas, marcando o dia e o lugar em que as cometemos.

Cornélio a Lapide acrescenta que Deus porá novamente diante dos olhos do pecador os exemplos dos santos, todas as luzes e inspirações com que o favoreceu durante a vida e, além disso, todos os anos que lhe foram concedidos para que os empregasse na prática do bem. Tereis, pois, de dar conta até de cada olhar, diz Santo Anselmo. Assim como se funde o ouro para o separar das escórias, assim são examinadas as boas obras, as confissões, as comunhões etc.

'Com que alegria não recebe a morte o que se acha na graça de Deus e cedo espera ver Jesus Cristo e ouvir-lhe dizer: ‘Bom e fiel servo, recebe hoje a tua recompensa; entra por toda a eternidade na alegria do teu Senhor!’ Que consolação não darão então as penitências, as orações, o desprendimento dos bens terrestres e tudo o que se tiver feito em nome de Deus! Gozará então, o que tiver amado a Deus, o fruto de todas as suas obras.

Persuadido desta verdade, o padre Hipólito Durazzo, da Companhia de Jesus, longe de chorar, mostrava-se alegre todas as vezes que morria algum religioso seu amigo com sinais de salvação. Que absurdo – diz São João Crisóstomo – seria não acreditar na existência do paraíso eterno e chorar o que para ele se dirige.

Que consolação então nos dá especialmente a lembrança das homenagens prestadas à  Mãe de Deus! – tais como rosários, visitas, jejuns do sábado e congregações frequentadas em honra sua. Virgo Fidelis se chama a Maria, e como Ela é fiel em consolar nos últimos momentos os seus servos fiéis!

Conta o Pe. Binet que um piedoso servo da Santa Virgem dizia ao morrer: ‘Se soubésseis o contentamento que, próximo da morte, sentimos na alma por termos procurado servir bem à Santíssima Mãe de Deus durante a nossa vida, ficaríeis admirados e consolados. Eu não posso significar a alegria do coração no momento em que me estais vendo’.

Que alegria também para o que amou a Jesus Cristo, e muitas vezes O visitou no Santíssimo Sacramento e O recebeu na Santa Comunhão, ver entrar no quarto seu Senhor que vem em Viático, para o acompanhar na passagem para a outra vida! Feliz então o que lhe puder dizer como São Felipe Nery: ‘Eis aqui o amor do meu coração, eis aqui o meu amor; dai-me o meu amor!’.

Dirá todavia alguém com receio: ‘Quem sabe a sorte que me está reservada? Quem sabe se por fim terei má morte?’ – A quem fala desta maneira, faço apenas uma simples pergunta: O que é que torna a morte má? O pecado, só o pecado. Logo, é preciso receá-lo unicamente, e não a morte, diz Santo Ambrósio. Quereis não recear a morte? Vivei bem.

O Pe. de la Colombière tinha por moralmente impossível que pudesse padecer morte má o que foi fiel a Deus durante a vida. É o que já tinha dito Santo Agostinho. O que está preparado para morrer não receia a morte, qualquer que seja, ainda que venha de improviso.

E como só podemos gozar a Deus por meio da morte, aconselha São Crisóstomo, que de bom coração ofereçamos a Deus este sacrifício necessário. Compreenda-se bem que aquele que oferece a Deus a sua morte pratica para com Ele o ato de amor mais perfeito possível, pois que, abraçando de bom coração esta morte que agrada a Deus, no tempo e do modo que Deus quer, torna-se semelhante aos Santos Mártires.

(Excertos da obra 'Preparação para a Morte', de Santo Afonso Maria de Ligório)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

VISÕES DO INFERNO (V)


DE SÃO JOÃO BOSCO

Passarão cem anos, mil anos, e o Inferno estará apenas começando; passarão cem mil anos, cem milhões de anos, milhões de milhões de anos e de séculos…e o Inferno estará ainda apenas começando. Se um Anjo anunciasse a um condenado que Deus haveria de livrá-lo do Inferno depois de passar tantos milhões de séculos como gotas de água que há no mar, ou folhas de árvores e grãos de areia no mundo, essa notícia lhe causaria logo um consolo indizível. 'É certo, exclamaria, que é imenso o número de séculos que sofrerei, afinal, haverá um dia em que eles acabarão'. 

Mas, ai! passarão esses milhões de séculos e uma infinidade de outros, e o Inferno estará sempre apenas começando. Cada condenado quereria poder dizer a Deus: 'Senhor, aumentai quanto quiserdes minhas penas, e fazei-me permanecer aqui o tempo que quiserdes, contanto que me deis a esperança de ver este suplício acabar um dia!' Mas não! Esse término e essa esperança jamais chegarão.

Se ao menos o condenado pudesse iludir-se a si mesmo, pensando consigo: 'Quem sabe se Deus algum dia terá piedade de mim e me tirará deste abismo!' Mas, não! Jamais abrigará esta esperança! O condenado terá sempre presente a sentença de sua condenação eterna: 'Estes tormentos, este fogo, estes horríveis gritos, eu os terei para sempre'.

Sempre! verá escrito nas chamas que o devoram. Sempre! na ponta das espadas que o transpassam; Sempre!, nas horríveis fisionomias dos demônios que o atormentam; Sempre!, naquelas portas fechadas que jamais se abrirão para ele! Ó eternidade, ó abismo sem fundo! Ó mar sem limites! Ó caverna sem saída! Quem não tremerá pensando em ti? Ó maldito pecado, que tremendos suplícios preparas para quem te comete! Ah! Basta de pecados, basta de pecados em toda a minha vida!

O que deve encher-te de espanto é pensar que essa horrível fornalha está sempre aberta debaixo de teus pés e que basta um único pecado mortal para cair nela. Compreendes, meu filho, isto que lês? Um pecado que cometes com tanta facilidade merece uma pena eterna. Uma blasfêmia, uma profanação dos dias festivos, um furto, um ódio, uma palavra, um ato, um pensamento obsceno, bastam para condenar-te às penas do Inferno.

Ah! meu filho, ouve atentamente o meu conselho; se a consciência te censura de algum pecado, vai imediatamente confessar-te para principiar logo uma boa vida; põe em prática todos os conselhos do teu confessor e, se for necessário, faz uma confissão geral; promete fugir das ocasiões perigosas, das más companhias, e se Deus te chamar a deixar o mundo, obedece-Lhe com prontidão. Tudo o que se faz para evitar uma eternidade de tormentos é pouco, é nada: 'nenhuma segurança é excessiva quando está em jogo a eternidade', escreveu São Bernardo.

Oh! quantos jovens na flor da idade abandonaram o mundo, a pátria, a família e foram sepultar-se nas grutas e desertos, não vivendo senão de pão e água, às vezes só de algumas raízes!…E tudo isso para evitarem o Inferno! E tu, o que fazes, depois de merecer tantas vezes o Inferno pelo pecado? Lança-te aos pés de teu Deus e diz a Ele: 'Senhor, vede-me pronto a fazer tudo o que quiserdes; já Vos ofendi demais até agora; de hoje em diante não Vos quero mais ofender; enviai-me, se preciso, todos os males nesta vida, desde que possa salvar minha alma.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O DOM DA CIÊNCIA

A alma, estando desligada do mal pelo Temor de Deus e aberta às nobres afeições do dom de Piedade, experimenta a necessidade de saber como evitará aquilo que é objeto de seu temor e como encontrará o que deve amar. O Espírito Santo vem em seu socorro e lhe trás o que deseja, derramando o dom de Ciência. Por este dom precioso a verdade lhe aparece, ela sabe o que Deus pede e o que reprova, o que deve procurar e do que deve fugir. 

Sem a Ciência divina nossa vista corre o risco de perder-se por causa das trevas que muitas vezes obscurecem totalmente, ou em parte, a inteligência do homem. Essas trevas são provenientes, primeiramente, do fundo de nós mesmos, que carrega os traços, bem reais, da decadência do pecado original. São ainda causadas pelos preconceitos e máximas do mundo que enganam diariamente os espíritos que se creem os mais retos. Enfim, a ação de Satã, que é o príncipe das trevas, exerce-se em grande parte com o fim de envolver nossa alma na obscuridade ou perdê-la com a ajuda de luzes falsas.

A fé que nos foi infundida no batismo é a luz de nossa alma. Pelo dom de Ciência, o Espírito Santo produz, na virtude da fé, raios tão vivos, que dissipam todas as trevas. As dúvidas, então, se esclarecem, o erro se desvanece e a verdade aparece com todo seu fulgor. Vemos cada coisa na sua verdadeira claridade que é a claridade da fé. Descobrem-se os deploráveis erros que estão em curso no mundo, que seduzem tão grande número de almas, dois quais, talvez tenhamos sido, nós mesmos, durante muito tempo, vítimas.

O dom de Ciência nos revela o fim que Deus se propôs na criação, aquele fim fora do qual os seres não poderiam encontrar nem o bem nem o repouso. Ensina o uso que devemos fazer das criaturas, que nos são dadas não para tropeço, mas para nos ajudar em nossa marcha para Deus. Sendo-nos, assim, manifestado o segredo da vida, nossa estrada torna-se segura, não hesitamos mais e nos sentimos dispostos a nos retirar de todo caminho que não nos conduza àquele fim.

É esta Ciência, dom do Espírito Santo, que o Apóstolo tem em vista quando, falando aos Cristãos diz: 'Antes éreis trevas; agora sois luz no Senhor: andeis agora como filhos da luz'. Daí vem a firmeza e a segurança da conduta cristã. A experiência pode faltar algumas vezes e o mundo se perturba com o pensamento de dar algum temível passo em falso; mas o mundo não conta com o dom de Ciência. 'O Senhor conduz o justo por vias retas e para assegurar seus passos lhe deu a Ciência dos santos'.

Todos os dias esta lição é dada. O Cristão, por meio da luz sobrenatural, escapa a todos os perigos e, se não tem experiência própria, tem a experiência de Deus. Seja bendito, Divino Espírito, por essa luz que derramais e mantendes em nós com tão amável perseverança. Não permitais que nunca procuremos uma outra. Somente ela nos baste; fora dela só há trevas. Guardai-nos das tristes inconsequências em que muitos se deixam levar imprudentemente, aceitando um dia vossa conduta e depois se entregando às opiniões do mundo; levando uma vida que não satisfaz nem ao mundo nem a Vós.

Precisamos, pois, amar esta Ciência que nos destes para que sejamos salvos; o inimigo de nossas almas inveja em nós essa Ciência salutar; quer substituí-la por suas sombras. Não permitais, Divino Espírito, que ele consiga seu pérfido desígnio e ajudai-nos sempre a discernir o que é verdadeiro do que é falso, o que é justo do que é injusto. Que segundo a palavra de Jesus, nosso olhar seja simples, afim de que nosso corpo, quer dizer o conjunto de nossos atos, de nossos desejos e de nossos pensamentos, esteja na luz; salvai-nos daquele olho que Jesus chama de mau e que torna tenebroso o corpo inteiro.

(Excertos da obra 'Os Dons do Espírito Santo', de Dom Prosper Gueranger, Ed. Permanência, 2007)

domingo, 16 de fevereiro de 2014

'E EU VOS DIGO...'

Páginas do Evangelho - Sexto Domingo do Tempo Comum


Nas palavras: 'Em verdade, Eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra' (Mt 5, 18), Jesus proclama que a Boa Nova do Evangelho trazida à humanidade, como instrumente de resgate e não de abolição à Antiga Lei, está fundada na Verdade Absoluta, imutável no espaço e no tempo, desde os nossos primeiros pais até o último homem da face da terra. O pecado é o mesmo ontem e hoje, e os Dez Mandamentos modelam a história humana na dimensão divina.

A plenitude do exercício do Decálogo é a via de santificação perfeita. O Céu é uma porta aberta para os que se consomem e se alimentam da Verdade de Cristo, emanada da vivência profunda dos valores do Evangelho e não apenas sedimentados no alicerce frágil das exterioridades enormes da antiga Lei Mosaica: 'Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus' (Mt 5, 20). Nesta contextualização, Jesus vai passar dos conceitos formais expressos por 'vós ouvistes...' às premissas mais abrangentes da Nova Lei: 'e eu vos digo...' Assim, do pecado gravíssimo do homicídio formal, Jesus anuncia que na própria ira contra o próximo já se manifesta a gravidade do pecado. O pecado do adultério não se restringe ao ato consumado e definitivo, que era castigado com a morte, mas é igualmente perverso no desejo; o juramento falso é um ato abominável, mas é igualmente pecaminoso o simples juramento sobre qualquer coisa.

Jesus exorta, em todas estas passagens, a se cumprir, em tudo e para todos, a santificação em plenitude, traduzida na observância radical dos seus Mandamentos e na fuga da ocasião de pecado por todos os meios disponíveis, pelos mais extremos possíveis: 'Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o para longe de ti! De fato, é melhor perder um de teus membros, do que todo o teu corpo ser jogado no inferno. Se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a e joga-a para longe de ti! De fato, é melhor perder um dos teus membros, do que todo o teu corpo ir para o inferno' (Mt 5, 29 - 30).

Não ceder ao pecado sob concessão alguma. Não afrontar a graça divina por nenhum propósito humano. A verdadeira santificação exige, portanto, vigilância extrema e oração constante. A superação da fragilidade de nossas limitações implica decisões claras e firmes em favor da pureza evangélica e aos ditames de Cristo, nosso Divino Mestre: 'Seja o vosso ‘sim’: ‘Sim’, e o vosso ‘não’: ‘Não’. Tudo o que for além disso vem do Maligno' (Mt 4, 37).

sábado, 15 de fevereiro de 2014

A ORIGEM DO MAL

Houve uma batalha no céu. Miguel e seus anjos tiveram de combater o Dragão. O Dragão e seus anjos travaram combate,

mas não prevaleceram. E já não houve lugar no céu para eles.

Foi então precipitado o grande Dragão, a primitiva Serpente, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Foi precipitado na terra, e com ele os seus anjos.

(Ap 12, 7 - 9)


palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos:

Filho do homem, entoa um cântico fúnebre sobre o rei de Tiro, e dize-lhe: Eis o que diz o Senhor Javé: Eras um selo de perfeição, cheio de sabedoria, de uma beleza acabada.

Estavas no Éden, jardim de Deus, estavas coberto de gemas diversas: sardônica, topázio e diamante, crisólito, ônix e jaspe, safira, carbúnculo e esmeralda; trabalhados em ouro. Tamborins e flautas, estavam a teu serviço, prontos desde o dia em que foste criado.

Eras um querubim protetor colocado sobre a montanha santa de Deus; passeavas entre as pedras de fogo.

Foste irrepreensível em teu proceder desde o dia em que foste criado, até que a iniquidade apareceu em ti.

No desenvolvimento do teu comércio, encheram-se as tuas entranhas de violência e pecado; por isso eu te bani da montanha de Deus, e te fiz perecer, ó querubim protetor, em meio às pedras de fogo.

Teu coração se inflou de orgulho devido à tua beleza, arruinaste a tua sabedoria, por causa do teu esplendor; precipitei-te em terra, e dei com isso um espetáculo aos reis.

À força de iniquidade e de desonestidade no teu comércio, profanaste os teus santuários; assim, de ti fiz jorrar o fogo que te devorou e te reduzi a cinza sobre a terra aos olhos dos espectadores.

Todos aqueles que te conheciam entre os povos ficaram estupefatos com o teu destino; acabaste sendo um objeto de espanto; foste banido para sempre!

(Ez 28, 11 - 19)

SANTINHOS (I)

'Santinhos' são pequenos cartões impressos que retratam santos, cenas ou pinturas religiosas, produzidos desde época remota e comumente em grandes quantidades, para disseminação da cultura religiosa entre os católicos. São especialmente confeccionados e distribuídos nas festas de devoção de um santo, como pagamento de promessas ou como lembrança da realização de datas festivas e/ou eventos religiosos públicos ou particulares (batismo, primeira comunhão, crisma, etc). As fotos abaixo apresentam alguns exemplos destes 'santinhos'.










quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

OS FILHOS ESQUECIDOS DE MARIA


Depois de termos afirmado mil vezes que a Virgem Santíssima a ninguém deixa de atender, depois de proclamar-Lhe a bondade e o poder, talvez alguém estranhe ser esta leitura consagrada a passar em revista: os que Ela não protege nem auxilia.

Não há, porém, o que estranhar, pois a confiança que elogiamos e recomendamos não é uma confiança qualquer e desarrazoada. Há uma confiança (...) que, em vez de honrar, ofende à Virgem: também vós vos sentiríeis ofendido, insultado, se um vilão contasse convosco para ajudá-lo a realizar um projeto criminoso. Mas para obter de Maria os mais altos favores do céu, será bastante depositarmos nEla uma confiança que se limite a não A desgostar, ou deverá esta confiança satisfazer outras condições importantes? Haverá, porventura, quem, apesar de confiar nEla, nada obtenha da Mãe do céu? Sim, e não são poucos, e são todos os que ficam inertes, hesitantes, mudos em sua fé.

Os inertes

É voz do povo que diz 'para o céu não se vai de carrinho'. Esta locução familiar não passa de eco fiel da sentença mais explícita proferida por Jesus: é estreito o caminho que leva à vida. No entanto, será crível? Há uns tantos que parecem pensar exatamente o contrário e dão a crer que encontraram o bem-aventurado carrinho no qual, sem cansaço nenhum, chegarão lá em cima. Esse automóvel privilegiado seria a confiança em Maria. Não que se suponham autorizados pela confiança na Virgem Santíssima a viver no pecado: não, pelo contrário, detestam-no e dele fogem, sobretudo do pecado mortal; mas, tirando isso, contam que Maria fará todo o resto. Do sério aviso do Espírito Santo: 'afasta-te do mal e faze o bem', cumprem de certo modo a primeira parte e facilmente deixam a Maria a tarefa de cumprir neles a segunda, fazendo-os progredir no bem. Reconhecem que haveria virtudes por adquirir, defeitos por vencer, reformas por fazer na sua vida exterior, no modo de cumprir os deveres mais importantes: mas, para que preocupar-se tanto com isso? Põem a confiança em Maria e lá do céu Ela há de arranjar tudo. E o mais admirável é ver como não raro se queixam de não serem bastante ajudados pela Virgem e amargamente lamentam fazerem tão escassos progressos na virtude.

Não julgueis que sejam poucas essas almas: 'Eis o que geralmente acontece', escreve uma autoridade no assunto, o Pe. Tiago Michel, S.J. [O Desânimo na Trilha da Piedade]: 'uma alma deve lutar para combater seus defeitos, suas más inclinações; pede a Deus que a livre dessa luta e, portanto, o Senhor deve fazer tudo e ela pode ficar descansada. Pretende o milagre operado por Deus em São Paulo. Ouvi-la-eis dizer: ‘se meus defeitos desagradam a Deus, por que não me livra deles? Pois isto não está nas mãos dEle? Por que não endireita as más inclinações do meu coração? Quantos outros transformou!’. E enquanto espera pelo milagre, nada faz para seguir a ordem divina, para tornar-se melhor. É fácil compreender que semelhante disposição não é de molde a atrair as bênçãos e o auxílio de Deus. Quem quer servir o Senhor sem combate e sem violência contra si mesmo, está contraditando a palavra de Jesus'.

Querida alma, acaso estarás reconhecendo teu retrato nestas palavras? Terás também no passado pretendido obter da Virgem Santíssima o milagre de teu adiantamento espiritual sem esforço teu, sem violência contra ti mesmo para te adiantares no bem? Se assim foi, terias de incluir-te no número dos que chamamos inertes, e não seria mais um mistério a teus olhos o pouco fruto colhido. Doravante, desempenha a tua parte, trabalha, sofre, combate e depois confia em Maria. Certamente Ela te ajudará.

Os hesitantes

Consideremos agora a segunda classe dos que a Virgem não ajuda. São os que hesitam e os que duvidam. Confiam na Mãe do céu, pois não, mas de que modo e com que fervor no coração? Não lhes é na verdade a confiança bastante viva, bastante forte para triunfar completamente de todos os obstáculos e dominar todas as insídias do inimigo das almas, o demônio. Este (...) odeia a confiança cristã das almas que, desconfiando totalmente de si, se entregam a Deus e à Mãe do céu, e assim se tornam invencíveis, fortes da própria força de Deus. Bem conhecendo o demônio o poder e a bondade de Maria, sabendo quanto Lhe agrada o apelo de uma alma que a Ela se entrega inteiramente, emprega todos os meios de suscitar nessa alma dúvidas, desconfianças, receios, a fim de impedi-la de recorrer a Maria com toda a confiança. Não conseguirá resultado tão grande quanto deseja? (...) Procurará pelo menos lhe esfriar a confiança, fazê-la duvidar, hesitar, como se tivesse razões para temer que inúteis ou pouco menos lhe sejam as súplicas e as fagueiras esperanças. Admira, pois, que tão débil confiança não mereça ser por Maria recompensada com pronto e solícito auxílio?

Tratemos, portanto, de reagir contra as dúvidas, as hesitações, os receios que em nós há de suscitar o demônio, e em todas as ocasiões lembremo-nos de que Maria é boa e poderosa e, de mais a mais, quer e pode socorrer-nos. De certo modo, a confiança obriga a Virgem a nos abençoar e Ela não é capaz de resistir a uma oração animada por viva e grande fé. Ser mais ou menos rapidamente socorrido dependerá da maior ou menor intensidade da confiança com que nos lançarmos a seus pés ou, ainda melhor, nos seus braços maternais. Por isto, assim resumiremos o que foi dito: mais favores de Maria recebe quem nEla mais vivamente confia.

Os mudos

Falta considerarmos a última classe dos devotos que raramente em si mesmos experimentam os dulcíssimos efeitos da confiança em Maria. São os mudos para o suplicante apelo da oração. Não que dela pretendam descuidar-se inteiramente: na verdade, às vezes dirigem alguma [oração] à Mãe do céu; mas, 'para que insistir tanto?', pensam eles; 'pois Maria não vê as nossas necessidades? Não podemos rezar constantemente: Ela saberá compadecer-se de nós e da mesma forma nos ajudará, pois confiamos nEla'.

A essas almas, que parecem ter esquecido o Evangelho e as vivíssimas exortações à oração que ele contém, dizei que os santos obtinham muito porque muito oravam; dizei que a oração é a chave dos tesouros celestes, o segredo infalível e necessário para obter favores e graças: ouvir-vos-ão encolhendo os ombros e talvez respondam que não são santos nem lhes sobre tempo para empregá-lo assim. Rezar o terço todos os dias? Fazer uma novena de orações, de comunhões, de práticas espirituais? É demais para eles. Visitar uma igreja e aos sábados impor-se uma mortificação, um pequeno sacrifício em honra a Maria? Mas se soubésseis em que condições se acham! Não são freiras ou frades, não vivem num convento, para regular assim a vida. 

E desejaríamos perguntar-lhes então: em que fazeis consistir a vossa devoção, a vossa confiança em Maria? Talvez simplesmente no desejo que tendes de ser socorridos e protegidos por Ela? Onde está, pois, o fervor da oração, a viva expressão de vossos sentimentos de confiança, de amor, de fé na grandeza e na bondade da Virgem? Onde aquele ardor na invocação, a perseverança nas súplicas e nas orações a que Deus e a Mãe do Céu exclusivamente reservam as mais assinaladas graças e os milagres? Não procederam assim os que os obtiveram e os que ainda os obtêm? Não procede assim o pobre mendigo que encontrais na rua e ao qual dais uma esmola? Se, contentando-se com o muito desejar intimamente ser socorrido, não implorasse a compaixão dos transeuntes, quantas vezes à noite regressaria ao tugúrio sem um ceitil! Vós, portanto, que desejais de Maria receber grandes mercês, não vos limiteis, por amor de Deus, a confiar no seu Coração [Imaculado]: fazei alguns pequenos sacrifícios, rezai com fervor e Ela vos atenderá.

(Excertos da obra 'Ó Maria, confio em Vós', do Pe. David Ardito, Edições Paulinas, 1946).

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A BÍBLIA EXPLICADA (X)

O que era o Sinédrio?

O Sinédrio era a Corte Suprema da lei judaica, que tinha a missão de administrar a justiça interpretando e aplicando a Torá, quer oral quer escrita. Ao mesmo tempo, assumia a representação do povo judaico perante a autoridade romana. De acordo com uma antiga tradição, tinha setenta e um membros, herdeiros – segundo se supunha – das tarefas desempenhadas pelos setenta anciãos que ajudavam Moisés na administração da justiça, junto com o próprio Moisés. Desenvolveu-se, integrando representantes da nobreza sacerdotal e das famílias mais notáveis, possivelmente durante o período persa, isto é, a partir do século V-IV a.C. É mencionado pela primeira vez, embora com o nome gerousía (conselho de anciãos), no tempo do rei Antíoco III da Síria (223-187 a.C.). Com o nome de synedrion está testemunhado desde e reinado de Hircano II (63-40 a.C.). Nesses momentos era presidido pelo monarca Asmoneu, que também era sumo sacerdote.

Herodes, o Grande, no começo do seu reinado, mandou executar grande parte dos seus membros –quarenta e cinco, segundo Flávio Josefo (Antiquitates Iudaicae 15, 6) – porque o conselho se tinha atrevido a recordar-lhe os limites em que devia levar a cabo seu poder. Substituiu-os por personagens submissos aos seus desejos. Durante o seu reinado, e depois, no tempo de Arquelau, o Sinédrio teve pouca importância.

Na época dos governadores romanos – também na de Pôncio Pilatos – o Sinédrio exerceu de novo as suas funções judiciais, em processos civis e penais, dentro do território da Judeia. Nesses momentos, as suas relações com a administração romana eram fluidas e o relativo âmbito de autonomia que gozava estava em consonância com a política romana habitual nos territórios conquistados. Contudo, o mais provável é que nesses momentos a potestas gladii, isto é, a capacidade de decretar uma sentença de morte, estaria reservada ao governador romano (praefectus) que, como era habitual nesses momentos, teria recebido do imperador amplos poderes judiciais, e entre eles essa potestade. 

A reunião dos seus membros durante a noite para interrogar Jesus não foi mais do que uma investigação preliminar para delinear as acusações que mereciam a pena capital e apresentá-las contra Jesus, na manhã seguinte, no processo perante o prefeito romano.

Quem foi Caifás?

Caifás (Joseph Caiaphas) foi um sumo sacerdote contemporâneo de Jesus. É citado várias vezes no Novo Testamento (Mt 26,3; 26,57; Lc 3,2; 11,49; 18,13-14; Jo 18, 24.28; At 4,6). O historiador judeu Flávio Josefo disse que Caifás acedeu ao sumo sacerdócio por volta do ano 18, nomeado por Valério Grato, e que foi deposto por Vitélio por volta do ano 36 (Antiquitates Iudaicae, 18.2.2 e 18.4.3). Estava casado com uma filha de Anás. Também segundo Flávio Josefo, Anás tinha sido o sumo sacerdote entre os anos 6 e 15 (Antiquitates Iudaicae, 18.2.1 e 18.2.2). De acordo com estas datas, e com o que assinalam também os evangelhos, Caifás era o sumo sacerdote quando Jesus foi condenado à morte na cruz. 

A sua longa permanência no sumo sacerdócio é um indício muito significativo de que mantinha relações muito cordiais com a administração romana – também durante a administração de Pilatos. Nos escritos de Flávio Josefo, são mencionados em várias ocasiões os insultos de Pilatos à identidade religiosa e nacional dos judeus, e as vozes de personagens concretos que se elevaram protestando contra ele. A ausência do nome de Caifás – que era e o sumo sacerdote precisamente nesse momento – entre aqueles que se queixaram dos abusos de Pilatos, manifesta as boas relações que havia entre ambos. Essa mesma atitude de aproximação e colaboração com a autoridade romana é a que se reflete também no que contam os evangelhos durante o processo de Jesus e a sua condenação à morte na cruz. 

Todos os relatos evangélicos coincidem em afirmar que após o interrogatório de Jesus, os príncipes dos sacerdotes concordaram em entregá-Lo a Pilatos (Mt 27, 1-2; Mc 15, 1; Lc 23, 1 e Jo 18, 28). Para ver como entenderam os primeiros cristãos a morte de Jesus, é significativo o que narra São João no seu evangelho, acerca das deliberações prévias à condenação: 'um deles, chamado Caifás, que era o Sumo Sacerdote naquele ano, disse-lhes: 'Vós não sabeis nada, nem considerais que vos convém que morra um homem pelo povo e que não pereça toda a nação!'. Ora ele não disse isto por si mesmo [assinala o evangelista], mas, como era Sumo Sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela nação, e não somente pela nação, mas também para unir num só corpo os filhos de Deus dispersos' (Jo 11, 49-52). 

Em 1990, apareceram na necrópole de Talpiot em Jerusalém doze ossários, um dos quais com a inscrição Joseph bar Kaiapha, com o mesmo nome que Flávio Josefo atribui a Caifás. Trata-se de ossários do século I, e os restos contidos nesse recipiente podiam muito bem ser os do personagem mencionado nos evangelhos.

(Da obra 'Jesus Cristo e a Igreja' - Universidade de Navarra)