terça-feira, 30 de novembro de 2021

SOBRE A INTERCESSÃO DE NOSSA SENHORA

'Quisera eu viver nos tempos do Anticristo' - escrevia a pequena Teresa em seu leito de agonia. Não há dúvida de que a carmelita que se ofereceu como vítima de um holocausto ao Amor Misericordioso intercederá por nós quando surgir o Anticristo, nem há dúvida que já está intercedendo especialmente em nosso tempo, em que os precursores do Anticristo se introduziram no seio da Igreja. Também não há dúvida de que sua oração está unida com a súplica infinitamente mais poderosa da Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus. Aquela que esmaga a cabeça do dragão infernal em sua Imaculada Conceição e sua maternidade virginal, a que foi glorificada de corpo e alma e que reina no céu com seu Filho. Ela domina como soberana todos os tempos de nossa história e, particularmente, os momentos mais tremendos para as almas, a saber, os da vinda do Anticristo e aqueles em que seus diabólicos precursores prepararão esta vinda.

Maria se manifesta não somente como Virgem Poderosa e consoladora nos momentos de angústia para a cidade terrestre e a vida corporal, mas se mostra, sobretudo, como Virgem auxiliadora, forte como um exército em ordem de batalha, em tempos de devastação da Santa Igreja e de agonia espiritual de seus filhos. Ela é a rainha da história do gênero humano, não somente para os tempos de angústia, mas também para os tempos do Apocalipse.

A Primeira Guerra Mundial foi um desses tempos de angústia: matanças de ofensivas mal preparadas, derrota implacável sob um furacão de ferro e fogo... Quantos homens ao apertarem seus cintos saíam com a terrível certeza de perecer neste tornado alucinante sem nunca ver a vitória; mesmo às vezes, e isso era o mais atormentador, as dúvidas lhes vinham à mente a respeito do valor de seus chefes e a prudência em suas ordens. Mas, no final, em um ponto eles não tinham dúvidas e essa questão superava todas: a da autoridade espiritual. O capelão que auxiliava esses homens a serviço da pátria até sua morte era absolutamente firme em todos os artigos da fé e nunca teria pensado em adaptar pastoralmente a Santa Missa. Celebrava o Santo Sacrifício da Missa segundo o rito e as palavras antigas; celebrava com uma piedade muito mais profunda, que o sacerdote sem armas e seus paroquianos armados, poderiam ser chamados a unir, de um momento a outro, seu sacrifício de pobres pecadores com o único sacrifício do Filho de Deus que tira os pecados do mundo.

A mesma fidelidade do capelão se fundava tranquilamente na fidelidade da autoridade hierárquica que conservava e defendia a doutrina católica e o culto tradicional e não hesitava em apartar da comunhão católica os hereges e traidores. Depois, em poucos instantes talvez, na frente de batalha, os corpos iam ser esmagados, mutilados em um horror sem nome, talvez se sufocariam inexoravelmente e se asfixiariam lentamente em meio a uma camada de gás. Mas, apesar do suplício dos corpos, as almas permaneceriam intactas, sua serenidade inalterada, seu interior preservado, e o mais negro de todos os demônios, o das supremas mentiras, não deixaria escutar os seus sarcasmos. A alma não ficaria abandonada aos ataques traiçoeiros, covardemente tolerada dos pseudoprofetas da pseudoIgreja; apesar do suplício dos corpos, a alma voaria do local de uma fé protegida ao recinto luminoso da visão beatífica no paraíso.

A Primeira Guerra Mundial foi um tempo de angústia. Mas agora, entramos em um tempo do Apocalipse. Todavia, sem dúvida, ainda não chegamos ao furacão de fogo que enlouquece os corpos, mas já presenciamos a agonia das almas, porque a autoridade espiritual parece já não querer defendê-las e se desinteressa da verdade da doutrina como da integridade do culto, ao não condenar ostensivamente os culpáveis. Eis aqui a agonia das almas na Santa Igreja, solapada desde o interior por traidores e hereges ainda não exilados.

Na história, houve outros tempos do Apocalipse. Lembremo-nos, por exemplo, dos interrogatórios à Santa Joana d’Arc, privada dos sacramentos por homens da Igreja, relegada ao fundo de um calabouço escuro, sob a guarda de horríveis carcereiros. Mas as vitórias da graça sempre selam os tempos do Apocalipse. Porque embora as bestas do Apocalipse adentrem até a cidade santa e a coloquem em grande perigo, a Igreja não deixa de ser Igreja, cidade muito amada, inexpugnável para o demônio e seus asseclas, cidade pura e imaculada cuja Rainha é Nossa Senhora.

Ela, a Rainha Imaculada, é a que abreviará os sinistros anos do Anticristo através de Jesus Cristo, seu Filho. E ainda, mais do que nunca, ela nos obterá durante esse tempo a graça de perseverar e nos santificar. Ela nos preservará a parte da autoridade espiritual legítima que absolutamente precisamos. Sua presença no Calvário, em pé próxima da cruz, nos anuncia isso infalivelmente. Ela estava de pé próxima da cruz de seu Filho, o próprio Filho de Deus, para unir-se mais perfeitamente ao seu Sacrifício redentor e merecer toda a graça para seus filhos adotivos. 

Toda a graça: a graça para enfrentar-nos as tentações e tribulações semeadas até nas vidas mais unidas; mas também a graça de perseverar, de voltar a levantar-se e santificar-se nas piores provas, provas de exaustão do corpo e as provas mais negras da agonia da alma, tempos em que a cidade carnal é invadida e os tempos em que a Igreja de Jesus Cristo deve resistir a auto-destruição. Ao estar em pé próxima da cruz de seu Filho, a Virgem Maria, cuja alma foi trespassada por uma espada de dor, a divina Virgem exausta e atônita como nenhuma criatura nunca será, nos dará a entender, sem dúvida, que será capaz de sustentar os redimidos nas provações mais terríveis com uma intercessão materna, de toda pura e poderosa. Esta Virgem muito doce e Rainha dos mártires nos persuade de que a vitória está oculta na própria Cruz e que muito depressa se manifestará; a brilhante manhã da Ressurreição logo surgirá sobre o dia sem fim da Igreja triunfante.

Na Igreja de Jesus, presa do modernismo até em sua cabeça, o sofrimento das almas e a queimadura do escândalo alcançam uma intensidade comovente. Tal drama é sem precedentes, mas a graça do Filho de Deus Redentor é mais profunda do que este drama. E nada interrompe a intercessão do Imaculado Coração de Maria, que alcança toda a graça. Nas almas mais abatidas e mais próximas da morte, a Virgem Maria intervém dia e noite para colocar fim, misteriosamente, a este drama e também misteriosamente romper as cadeias que o demônio acreditava ser inquebráveis: Solve vincla reis - Aos réus desata os grilhões.

Todos nós, a quem Nosso Senhor Jesus Cristo, por uma marca especial de honra, chama à fidelidade em meio a novos perigos e em uma forma de luta que nunca havíamos experimentado – luta contra os precursores do Anticristo infiltrados na Igreja – voltemos ao essencial: nossa fé. Lembremo-nos que cremos na divindade de Jesus, na maternidade divina e na maternidade espiritual de Maria Imaculada. Consideremos um pouco a plenitude de graça e sabedoria escondida no coração do Filho de Deus feito homem e que flui eficazmente em todos aqueles que creem. Consideremos também a plenitude de doçura e da intercessão que é privilégio exclusivo do Imaculado Coração de Maria. Rezemos como as crianças a Nossa Senhora e façamos a experiência inefável que os tempos do Anticristo são tempos de vitória: vitória da Redenção plena de Jesus Cristo e da intercessão soberana de Maria.

(Artigo do Pe. Roger Thomas Calmel, dominicano francês, 1975)

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

O DOGMA DO PURGATÓRIO (XX)

 

Capítulo XX

Diversidade das Dores - Rei Sancho e Rainha Guda - Santa Lidwina e a a Alma Transpassada - Santa Margarida Maria e o Leito de Fogo

Segundo os santos, existe uma grande diversidade nos tormentos das penas do Purgatório. Embora o fogo seja o principal instrumento de tormento, há também o tormento do frio, o tormento imposto aos membros e o tormento aplicado aos diferentes sentidos do corpo humano. Esta diversidade de sofrimentos parece corresponder à natureza dos pecados, cada um dos quais exige o seu próprio castigo, segundo estas palavras: Quia per quce peccat quis, per hcec et torquetur - 'Pelas mesmas coisas que se peca, se é atormentado' (Sb 11,17). Acolhe ser assim em relação aos castigos, uma vez que a mesma diversidade existe em relação á concessão das recompensas. No Céu cada um recebe segundo as suas obras e, como diz o Venerável Beda, cada um recebe a sua coroa e o seu manto de glória. Enquanto que, para o mártir, tem o esplendor da púrpura, para o confessor, possui o brilho de uma alvura deslumbrante.

O historiador João Vasquez, em crônica do ano 940, relata como Sancho, Rei de Leão, apareceu à Rainha Guda, sua esposa, e pela piedade dela, foi libertado do Purgatório. Sancho, que levara uma vida verdadeiramente cristã, foi envenenado por um de seus súditos. Após a sua morte, a Rainha Guda passou seu tempo orando e intercedendo por orações em intenção da alma do rei. Não contente por ter oferecido muitas missas nessa intenção, para que pudesse chorar e velar perto dos queridos restos mortais, a rainha tomou o véu no convento de Castela, onde o corpo de seu marido havia sido sepultado. Num sábado, enquanto rezava aos pés da Santíssima Virgem, recomendando-lhe a alma do seu falecido marido, Sancho apareceu-lhe - mas em que condições! Bom Deus! Ele estava vestido com roupas de luto e usava uma fileira dupla de correntes em brasa em volta da cintura. Depois de agradecer a sua piedosa viúva por seus sufrágios, ele a conjurou para continuar no seu trabalho de caridade. 'Ah! se você soubesse, Guda, o que eu sofro' - disse a ela - 'você faria ainda mais'. No abismo de graças da Divina Misericórdia, eu te conjuro: ajude-me, querida Guda; ajude-me, pois sou devorado por essas chamas'. 

A Rainha redobrou então as suas orações e boas obras; distribuiu esmolas entre os pobres, fez com que fossem celebradas missas em todas as partes do país e deu ao convento um magnífico ornamento para ser usado no altar. Ao final de quarenta dias, o rei lhe apareceu novamente. Ele havia sido aliviado do cinturão ardente e de todos os seus outros sofrimentos. No lugar de suas vestes de luto, usava agora um manto de alvura deslumbrante, adornado com o ornamento que Guda dera ao convento. 'Eis-me aqui, querida Guda' - disse ele - 'graças às suas orações, fui libertado de todos os meus sofrimentos. Que você seja abençoada para sempre. Persevere em sua santificação; medite frequentemente sobre a severidade das dores da outra vida e sobre as alegrias do Paraíso, onde estarei à sua espera'. Com essas palavras, desapareceu, deixando a piedosa Guda envolta em profunda consolação.

Um dia, uma mulher, bastante desconsolada, foi dizer a Santa Lidwina que havia perdido o irmão. 'Meu irmão acabou de falecer', disse ela, 'e venho recomendar a sua pobre alma à sua instituição de caridade. Ofereça a Deus por ele algumas orações e uma parte dos seus sofrimentos devidos à sua doença'.  A santa doente prometeu a ela de rezar pelo irmão e, algum tempo depois, em um de seus frequentes êxtases, foi conduzida por seu anjo da guarda às masmorras subterrâneas, onde viu com extrema compaixão os tormentos das pobres almas mergulhadas nas chamas. Uma delas em particular atraiu a sua atenção. Ela a viu atravessada por vergas de ferro. Seu anjo disse a ela que era a alma do irmão falecido da mulher que lhe havia pedido orações. 'Se você' - acrescentou o anjo - 'quiser pedir qualquer graça em seu favor, isto não será recusada a você'. 'Eu peço então' - respondeu - 'que ele seja libertado daqueles horríveis ferros que o transpassam'. Imediatamente ela os viu retirados do pobre sofredor, que então foi removido desta prisão especial e colocado naquela ocupada pelas almas que não haviam incorrido em nenhum tormento particular. 

A irmã do defunto retornou pouco depois junto a Santa Lidwina, que a fez conhecer a condição de seu irmão falecido e exortou-a a ajudá-lo, multiplicando as suas orações e esmolas pelo repouso de sua alma. Ela mesma ofereceu a Deus as suas súplicas e sofrimentos, até que finalmente a alma dele foi libertada (Vida de Santa Lidwina). 

Lemos na Vida da Bem-aventurada Margarida Maria que uma alma foi submetida em um leito de tormentos por causa da sua indolência durante a vida; ao mesmo tempo, foi submetida a um tormento particular em seu coração, por causa de certos sentimentos perversos e em sua língua, como punição por suas palavras pouco caridosas. Além disso, ela teve que suportar uma dor terrível de natureza totalmente diferente, causada nem pelo fogo nem pelo ferro, mas pela visão de uma alma condenada. 

Vejamos como a Beata Margarida* o descreve em seus escritos. 'Eu vi em um sonho' - diz ela - 'uma de nossas irmãs que havia morrido algum tempo antes. Ela me disse que sofreu muito no Purgatório, mas que Deus infligiu a ela um sofrimento que superava todas as outras dores, mostrando-lhe um de seus parentes próximos precipitado no Inferno. Com essas palavras, acordei e senti como se meu corpo estivesse machucado da cabeça aos pés, de forma que era com dificuldade que eu conseguia me mover. Como não devemos acreditar nos sonhos, não dei muita atenção a este, mas a alma da religiosa me forçou a considerá-lo apesar de tudo. A partir daquele momento, não me deu descanso e dizia-me incessantemente: 'Reze a Deus por mim; ofereça a Ele os seus sofrimentos unidos aos de Jesus Cristo, para aliviar os meus; me dê tudo o que você fizer até a primeira sexta-feira de maio, quando você, por favor, comungue em minha intenção'. Fiz assim, com a permissão da minha Superiora.

Nesse ínterim, a dor que essa alma sofredora me causou aumentou a tal ponto que não pude encontrar conforto nem repouso. A obediência obrigou-me a buscar um pouco de descanso em minha cama; mas mal havia repousado, ela pareceu aproximar-se de mim, dizendo: 'Você reclina-se à vontade em sua cama; olha aquela em que me deito e onde suporto sofrimentos intoleráveis'. ' Eu vi aquele leito de fogo e só de pensar nisso estremeço. A parte superior e inferior eram de pontas agudas e flamejantes que perfuravam a carne. Ela me disse então que isso se devia à sua preguiça e negligência na observância das regras. 'Meu coração está dilacerado' - ela continuou - 'e me causa os mais terríveis sofrimentos por meus pensamentos de desaprovação e crítica aos meus superiores. Minha língua é devorada por vermes e, por assim dizer, arrancada de minha boca continuamente, pelas palavras que proferi contra a caridade e minha pouca consideração pela regra do silêncio. Ah! Oxalá todas as almas consagradas a Deus me vissem nestes tormentos. Se eu pudesse mostrar a eles o que está preparado para aqueles que vivem negligentemente sua vocação, seu zelo e fervor seriam inteiramente renovados e eles evitariam aquelas faltas que agora me fazem sofrer tanto'.'

Diante dessa visão, derreti-me em lágrimas. 'Ai de mim!' - disse ela - 'um dia passado por toda a comunidade em observância exata iria curar minha boca ressecada; outro, vivido na prática da santa caridade, curaria minha língua; e um terceiro, passado sem qualquer murmúrio ou desaprovação aos superiores, curaria meu coração machucado; mas ninguém pensa em me aliviar'. Depois de ter oferecido a Comunhão que ela me pediu, ela me disse que os terríveis tormentos haviam diminuído muito, mas ela ainda tinha que permanecer muito tempo no Purgatório, condenada a sofrer as dores por aquelas almas que viveram mornas ao serviço de Deus. 'Quanto a mim' - acrescenta a bem-aventurada Margarida Maria - 'descobri que estava livre de meus sofrimentos que, como ela me havia dito, não diminuiriam a menos que ela própria fosse aliviada' (Languet, Vida da B. Margarida).

* canonizada em 13 de maio de 1920.

Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', 342p., do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog)

domingo, 28 de novembro de 2021

EVANGELHO DO DOMINGO

'Senhor meu Deus, a Vós elevo a minha alma!' (Sl 24)

 28/11/2021 - Primeiro Domingo do Advento

1. 'FICAI ATENTOS PARA FICARDES DE PÉ' 


Hoje começa um novo ano litúrgico da Santa Igreja com o Tempo do Advento, período que os cristãos são conclamados a viver em plenitude as graças da expectativa, da conversão e da esperança, à espera do Senhor Que Vem. O Ano Litúrgico 2021-2022 é o Ano C, no qual os exemplos e ensinamentos de Jesus Cristo são proclamados a cada domingo pelas leituras do Evangelho de São Lucas.

O Tempo do Advento compõe-se de um período de quatro semanas, representando os séculos de espera da humanidade pela vinda do Redentor. A primeira semana é dedicada aos Novíssimos do homem e à segunda vinda de Nosso Senhor. A segunda e a terceira semanas são dedicadas ao Precursor João Batista e a quarta semana, à preparação para o nascimento já próximo do Salvador (no Natal). Nesse período, a liturgia se reveste de austeridade, utilizando-se de paramentos roxos, retirando as flores de ornamentação das igrejas e omitindo-se o canto do Glória durante a Santa Missa.

Assim, o novo ano litúrgico começa com o anúncio por Jesus de sua Segunda Vinda gloriosa aos homens dos tempos finais: 'eles verão o Filho do Homem, vindo numa nuvem com grande poder e glória' (Lc 21, 27), manifestação que será precedida por eventos portentosos: 'Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra, as nações ficarão angustiadas, com pavor do barulho do mar e das ondas. Os homens vão desmaiar de medo, só em pensar no que vai acontecer ao mundo, porque as forças do céu serão abaladas' (Lc 21, 25 - 26). Jesus exorta, então, a todos os seus discípulos (os Apóstolos e os homens em geral) sobre a necessidade da estrita vigilância, na oração constante e na confiança de uma vida de plenitude cristã, diante das coisas do mundo, que passam e repassam no cotidiano de nossas vidas, mas que não têm valores de eternidade: 'Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra' (Lc 21, 34 - 35).

Vigiar significa essencialmente não pecar, não ofender a Santidade de Deus com as misérias e as fragilidades humanas, não conspurcar a Infinita Pureza da alma, que nos foi legada um dia, com a lama dos prazeres, frivolidades e maldades de uma vida profanada pelos valores do mundo. Porque haverá o dia do juízo, no qual os homens serão levados ou deixados para trás: ''ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem' (Lc 21, 36). Vigiar é viver na confiança absoluta aos ditames de Divina Providência: 'levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima' (Lc 21, 28). Vigiar é estar preparado para que sejam santos todos os dias de nossa vida para que Deus escolha, dentre eles, o mais belo, para receber de volta as almas vigilantes que Ele próprio desenhou para a eternidade.

sábado, 27 de novembro de 2021

ANO LITÚRGICO 2021 - 2022

Ano Litúrgico 2021-2022, de acordo com o rito católico romano, vai desde o primeiro domingo do Advento (28/11/2021) até a última semana do Tempo Comum, iniciada no domingo da Festa de Cristo Rei (20/11/2022), durante o qual a Igreja celebra todo o mistério de Cristo, desde o nascimento até a sua segunda vinda. O Ano Litúrgico 2021-2022 é o Ano C, no qual os exemplos e ensinamentos de Jesus Cristo são proclamados a cada domingo pelas leituras principais retiradas do Evangelho de São Lucas, com exceção de ocasiões especiais (as chamadas Festas e Solenidades do rito litúrgico) quando são utilizadas leituras específicas do Evangelho de São João. 

O ano litúrgico compreende dois tempos distintos: os chamados tempos fortes que incluem Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, durante os quais certos mistérios particulares da obra redentora e salvífica de Cristo são celebrados e o chamado Tempo Comum, no qual celebramos o Mistério de Cristo em sua totalidade, ou seja, encarnação, vida, morte, ressurreição e ascensão do Senhor. 

O Tempo Comum é subdividido em duas partes. A primeira parte começa no dia seguinte à festa do Batismo de Jesus e vai até a terça-feira antes da Quarta-feira de Cinzas, quando tem início a Quaresma. A segunda parte do Tempo Comum recomeça na segunda-feira depois de Pentecostes e se estende até o sábado que antecede o primeiro domingo do Advento, quando tem início um novo Ano Litúrgico, compreendendo sempre um período de 33 ou 34 semanas.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

O ESPÍRITO DA CRUZ


O espírito da Cruz é uma participação do próprio espírito de Nosso Senhor levando a sua Cruz, pregado à Cruz, morrendo na Cruz. Nosso Senhor amava a sua Cruz, desejava-a. Que pensava Ele levando a sua Cruz, morrendo na Cruz? Há aí grandes mistérios: quando se tem o espírito da Cruz, entra-se na inteligência destes mistérios. Existem poucos cristãos com o espírito da Cruz, vêm-se as coisas de modo diferente do comum dos homens.

O espírito da Cruz ensina a paciência; ensina a amar o sofrimento, a fazer sacrifícios. Quando se tem o espírito da Cruz, é-se paciente, ama-se o sofrimento, fazem-se generosamente os sacrifícios que o Bom Deus nos pede. Quer-se a vontade de Deus, e ama-se; acha-se bom o que Ele nos pede.

Os santos queixavam-se muito a Deus que Ele não lhes dava bastante sofrimento; desejavam sofrer. Por quê? Porque no sofrimento se pareciam mais com Nosso Senhor. Na vida de Santa Isabel da Hungria, é dito que, depois de a terem despojado de todos os seus bens, ainda a expulsaram de casa: quando viu que nada mais possuía, foi aos Frades Menores mandar cantar um Te Deum para agradecer a Deus por lhe ter tirado tudo. Tinha o espírito da Cruz.

A Imitação diz alguma coisa do que faz o espírito da Cruz: ama mais ter menos do que mais, ama mais estar em baixo do que em cima. Ama ser desprezado. É isto o espírito da Cruz; é muito raro. 

Não se tem comumente o espírito da Cruz. Assim que se tem algum sofrimento, depressa se diz: 'Meu Deus, livrai-me disto, livrai-me disto'; faz-se novenas para se ficar livre. É preciso amar um pouco mais o sofrimento, e não pedir tão depressa para se ver livre dele. Se tivésseis o espírito da Cruz, veríamos muitas coisas que não vemos; e há as que vemos, que talvez não víssemos.

É preciso ter um pouco mais do espírito da Cruz; é preciso pedi-lo. Tratemos de amar a Cruz, de amar a vontade de Deus.

(Pe. Emmanuel-André)

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

UNA, SANTA, CATÓLICA E APOSTÓLICA

 

Santa Igreja, Romana, Católica: una, excelsa, divina, imortal. Que conservas a fé apostólica e as promessas da vida eterna!



Nós te amamos! Nós somos teus filhos! Em teu seio queremos viver. E, da luz que nos dás entre os brilhos, nos teus braços maternos morrer!

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

O NÚMERO DOS PECADOS QUE CONDENAM...

A misericórdia de Deus é infinita; mas apesar desta misericórdia, quantos não se condenam todos os dias! Deus cura ao que tem boa vontade. Perdoa os pecados, mas não pode perdoar a vontade de pecar. A medida dos pecados que Deus quer perdoar não é igual para todos. A um perdoa Deus cem pecados, a outro mil; aquele outro, porém, será condenado ao inferno depois do segundo pecado.

Quantos não há que o Senhor condenou logo depois da primeira queda! Refere São Gregório que um menino de cinco anos foi lançado no inferno quando dizia uma blasfêmia. A Santíssima Virgem revelou à serva de Deus Benedita de Florença, que o primeiro pecado foi a condenação de uma menina de doze anos. A mesma desgraça aconteceu a um menino de oito anos, que morreu e foi condenado logo depois do primeiro pecado. Lemos no Evangelho de São Mateus, que o Senhor, achando estéril uma figueira, cujos frutos procurava colher pela primeira vez, a amaldiçoou imediatamente, e que a árvore secou.

Por acaso algum temerário pode atrever a perguntar a Deus por que quer perdoar três pecados e não quatro? Neste ponto é preciso adorar os juízos divinos e dizer com o Apóstolo: Quam incomprehensibilia sunt iudicia eius, et investigabiles viae eius! – 'Quão incompreensíveis são os seus juízos, e imperscrutáveis os seus caminhos!' (Rm 11, 33). Replica talvez o pecador obstinado: Tantas vezes ofendi a Deus, e cada vez Deus me perdoou; por isso confio em que me perdoará mais este pecado. Respondo-lhe, todavia: porque não te castigou Deus até agora, segue-se que será sempre assim? Encher-se-á a medida e então virá o castigo. Ne dicas, peccavi, et quid accidit mihi triste? – 'Não digas' - avisa o Senhor - 'tenho cometido tantos pecados e Deus nunca me castigou' porque Altissimus enim est patiens redditor – 'O Altíssimo é um juiz paciente' (Ecl 5, 4). Quer dizer que virá um dia em que pagarás tudo, e quanto maior tiver sido a misericórdia, tanto maior será o castigo.

Afirma São Crisóstomo que há mais para receiar, quando Deus atura um pecador obstinado, do que quando o castiga sem detença. Com efeito, observa São Gregório, aqueles que Deus espera com mais paciência, são castigados depois com tanto mais rigor, se permanecem na sua ingratidão. Muitas vezes acontece, acrescenta o santo, que os que foram tolerados por mais longo tempo, morrem de improviso, sem terem tempo de se converter. Quanto mais Deus te houver favorecido com suas luzes, tanto maior será a tua obcecação e a tua obstinação no pecado.

É bem terrível a ameaça que o Senhor dirige aos que são surdos aos seus convites: 'Recusastes obedecer à minha voz; pois bem, eu também me rirei quando morrerdes' – Quia vocavi, et renuistis … ego quoque in interitu vestro ridebo (Pv 1, 24.26). Notem-se bem estas duas palavras: ego quoque (eu também); significam que, assim como o pecador zombou de Deus, confessando-se, prometendo e traindo-o sempre, assim o Senhor zombará dele na hora da morte. Além disso diz o Sábio: 'O imprudente que recai na sua loucura é como o cão que torna outra vez ao que tinha vomitado' (Pv 26, 11). O que Deniz, o Cartucho, explica dizendo: 'Assim como se sente náusea e horror em presença de um cão que devora o que tinha vomitado, assim Deus detesta ao que volta aos seus pecados, que na confissão tinha abominado'.

Meu Deus, eis-me aqui a vossos pés: eu sou esse animal nojento que de novo se pôs a comer os frutos que primeiro detestara. Não mereço misericórdia, Redentor meu; mas o sangue que derramastes por mim, me anima e obriga a esperar. Quantas vezes Vos ofendi e quantas vezes me perdoastes! Prometera não Vos ofender mais, e depois voltei ao que tinha vomitado, e Vós tornastes a perdoar-me. Esperarei porventura até que me mandeis ao inferno? Ou que me entregueis ao poder de meu pecado, desgraça maior ainda do que o próprio inferno? Não, meu Deus, quero emendar-me, e para Vos ser fiel, quero depositar em Vós toda a minha confiança; nas tentações quero sempre e imediatamente recorrer a Vós.

No passado fiei-me em minhas promessas e resoluções e descurei recomendar-me a Vós nas tentações. Daí proveio a minha ruína. De hoje em diante sereis Vós a minha esperança e a minha força e assim poderei tudo: Omnia possum in eo qui me confortat – 'Tudo posso naquele que me fortalece' (Fp 4,13). Concedei-me, pois, ó meu Jesus, pelos vossos merecimentos, a graça de me recomendar sempre a Vós e de implorar o vosso auxílio em todas as minhas necessidades. Amo-Vos, ó soberano Bem, digno de ser amado sobre todos os bens. Só a Vós quero amar, mas para isso deveis me ajudar. Vós também deveis auxiliar-me com a vossa intercessão, ó minha Mãe Maria. Guardai-me debaixo de vosso manto, e fazei que chame por vós em todas as tentações. O vosso nome será a minha defesa. 

(Excertos da obra 'Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano' - Tomo III, de Santo Afonso Maria de Ligório)

terça-feira, 23 de novembro de 2021

TESOURO DE EXEMPLOS (113/115)


113. É DEUS QUEM ME FALA

Certamente já ouviste falar de Donosco Cortês. Foi um dos maiores e mais vigorosos pensadores do século XIX; o mais famoso orador espanhol do seu tempo, considerado o mestre do pensamento e a glória da eloquência parlamentar. Era embaixador da Espanha em Paris. Todos os domingos e dias de preceito abandonava o bulício daquela capital e ia assistir à missa na pobre igreja de uma aldeia vizinha. Ajoelhava-se no chão, rezava como um santo, ouvia com toda a atenção o santo sacrifício.

Depois do Evangelho, o vigário daquela paróquia voltava-se para os assistentes e fazia a sua prática ou homilia. Donoso Cortês era quem o ouvia com maior atenção e reverência.
➖ Donoso - dizia-lhe um amigo - se sabes mais que esse padre, se és maior orador do que ele, por que o ouves?
O grande Donoso respondeu:
➖ Pode ser que eu saiba mais e talvez possua mais eloquência; mas ele tem uma coisa que eu não tenho: é o representante da autoridade e da palavra de Deus. Quando ele fala, é Deus quem fala; e suas palavras sempre têm o segredo de comover-me e tornar-me melhor. E é isso que procuro.

A exemplo desse grande cristão, abandonai os cuidados da vida; deixai por algumas horas as ocupações deste mundo; correi à casa de Deus para ouvir a doutrina da salvação e para salvar a vossa alma!

114. O CORAÇÃO DE OURO

O moderno e famoso escritor Tihamér Toth narra a seguinte curiosidade. Havia em uma cidade (não revela o nome) um senhor cuja fé não devia ser lá muito profunda. Profundo, sim, e ridículo era o conceito que tinha das superstições. A todo o transe havia de levar consigo algum amuleto ou talismã. Pensava que somente assim podia ser feliz.

Entrou numa joalheria. Pôs-se a contemplar os diferentes talismãs usados pela gente supersticiosa de nossos dias: uma ferradurinha com diamantes, uma estrela de ouro, um corcundinha, um elefante de marfim e outros muitos. Contemplou-os demoradamente aquele senhor, mas nenhum daqueles objetos lhe agradou. Voltando-se para o joalheiro, disse:
➖ Não teria um coração de ouro? Creio que isso seria minha felicidade.
➖ Não tenho, respondeu o outro. Isso já não se usa, está fora de moda. Talvez em outra casa o senhor encontre.

E o homem percorreu pacientemente uma, duas, três casas. Os amuletos eram muitos e muito variados, mas todos os joalheiros lhe diziam a mesma coisa: o coração de ouro está fora de moda, já passou sua época. E, afinal, quem manda no comércio é a moda!
Desconsolado saía aquele senhor da última casa. Não encontrara o coração de ouro que lhe poderia trazer a felicidade...
➖Amigo - disse-lhe o dono da última casa, acompanhando-o até à porta - vá a uma casa de antiguidades e talvez lá encontre o coraçãozinho de ouro que procura.

E o homem lá se foi... Caro leitor, o coraçãozinho de ouro já não se usa, está fora de moda e, contudo, para seres feliz e para fazeres felizes aos outros só precisarias disso, que, desgraçadamente, não se encontra: um coração de ouro. Como seríamos felizes, como viveríamos em paz, se todos levássemos, aqui dentro do peito, um coração de ouro, um coração cheio de caridade para com Deus e para com o próximo...

115. O TIO PEDRO ASSISTE ÀS MISSÕES

O ano era 1909. Cedinho foi o missionário à pequenina igreja da vila. A porta ainda estava fechada; mas quem estava ali com a sua lanterninha na mão era o tio Pedro: homem muito conhecido em todo o município por sua fé robusta e sua vigorosa velhice. Entre o missionário e o bom roceiro travou-se logo uma animada conversa.
➖ Quantos anos tem, tio Pedro?
➖ Passei dos oitenta, 'seu' missionário.
➖ Tem assistido às santas missões?
➖ Os senhores já pregaram quatro nesta comarca. Assisti a todas; não perdi nem um sermão e não faltei a nenhum catecismo, porque sempre se aprende alguma coisa.
➖ Muito bem, tio Pedro, bravo; e sua casa, quanto dista daqui?
➖ Quase nada: uns dois quilômetros.
➖ E o senhor vem aqui todas as manhãs?
➖ Todas. Acendo a minha lanterninha e toco para a missão.
➖ Pois olhe, tio Pedro, não faça isso. O caminho é péssimo e o senhor já não é uma criança. Pode acontecer-lhe algum desastre, uma queda por exemplo, e ficamos sem o tio Pedro.
➖ Não se preocupe, 'seu' missionário. Quando saio de casa, digo ao meu Anjo da Guarda: 'Meu santo Anjo, cuida do tio Pedro, que já está velho, a fim de que não lhe aconteça nada'. E até hoje, graças ao meu Anjo, nada me aconteceu.
➖ Ótimo, tio Pedro; mas, seja como for, não venha. Já assistiu a quatro missões, fique em casa.

Ao ouvir essas palavras, tio Pedro ergueu-se, pôs-se de pé direitinho, e disse:
➖ Senhor Padre, não me diga isso nem por brincadeira. Das coisas de Deus não se deve perder nem uma migalha!
E, com efeito, não perdeu nenhuma migalha daquelas santas missões. Assistiu a todos os sermões com o fervor e a piedade de um santo. Ó se todos tivessem uma fé viva como o tio Pedro!

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

PALAVRAS DE SALVAÇÃO

O que Cristo fez e ensinou foi a vontade de Deus: a humildade na conduta, a firmeza na fé, a contenção nas palavras, a justiça nas ações, a misericórdia nas obras, a retidão nos costumes; ser incapaz de fazer o mal, mas poder tolerá-lo quando se é vítima dele; manter a paz com os irmãos; querer ao Senhor de todo o coração; amar nele o Pai e temer a Deus. Não por nada à frente de Cristo, pois Ele próprio nada pôs à nossa frente; ligarmo-nos inabalavelmente ao seu amor; abraçar com força e confiança a própria cruz; quando for preciso, lutar pelo seu nome e pela sua honra, mostrar constância na nossa profissão de fé; sob tortura, mostrar essa confiança que sustenta o nosso combate e, na morte, essa perseverança que nos faz alcançar a coroa. Querer ser herdeiro com Cristo, é nisso que consiste obedecer aos preceitos de Deus. É nisso que consiste cumprir a vontade do Pai.

(São Cipriano)

domingo, 21 de novembro de 2021

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'Deus é Rei e se vestiu de majestade, glória ao Senhor!' (Sl 92)

 21/11/2021 - Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo

52. JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO 


Jesus Cristo é o Rei do Universo. Como Filho Unigênito de Deus, Ele é o herdeiro universal de toda a criação, senhor supremo e absoluto de toda criatura e de toda a existência de qualquer criatura, no céu, na terra e abaixo da terra. A realeza de Cristo abrange, portanto, a totalidade do gênero humano, como expresso nas palavras do Papa Leão XIII: 'Seu império não abrange tão só as nações católicas ou os cristãos batizados, que juridicamente pertencem à Igreja, ainda quando dela separados por opiniões errôneas ou pelo cisma: estende-se igualmente e sem exceções aos homens todos, mesmo alheios à fé cristã, de modo que o império de Cristo Jesus abarca, em todo rigor da verdade, o gênero humano inteiro' (Encíclica Annum Sacrum, 1899).

E, neste sentido, o domínio do seu reinado é universal e sua autoridade é suprema e absoluta. Cristo é, pois, a fonte única de salvação tanto para as nações como para todos os indivíduos. 'Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam; seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá' (Dn 7,14). O livre-arbítrio permite ao ser humano optar pela rebeldia e soberba de elevar a criatura sobre o Criador, mas os frutos de tal loucura é a condenação eterna.

A realeza de Cristo é, entretanto, principalmente interna e de natureza espiritual. Provam-no com toda evidência as palavras da Escritura e, em muitas circunstâncias, o proceder do próprio Salvador. Quando os judeus, e até os Apóstolos, erradamente imaginavam que o Messias libertaria seu povo para restaurar o reino de Israel, Jesus desfez o erro e dissipou a ilusória esperança. Quando, tomada de entusiasmo, a turba, que O cerca O quer proclamar rei, com a fuga furta-se o Senhor a estas honras, e oculta-se. Mais tarde, perante o governador romano, declara que seu reino 'não é deste mundo' (Jo 18,36). Neste reino, tal como no-lo descreve o Evangelho, é pela penitência que devem os homens entrar. Ninguém, com efeito, pode nele ser admitido sem a fé e o batismo; mas o batismo, conquanto seja um rito exterior, figura e realiza uma regeneração interna. Este reino opõe-se ao reino de Satanás e ao poder das trevas; de seus adeptos exige o desprendimento não só das riquezas e dos bens terrestres, como ainda a mansidão, a fome e sede da justiça, a abnegação de si mesmo, para carregar com a cruz. Foi para adquirir a Igreja que Cristo, enquanto 'Redentor', verteu o seu sangue; para isto é, que, enquanto 'Sacerdote', se ofereceu e de contínuo se oferece como vítima. Quem não vê, em consequência, que sua realeza deve ser de índole toda espiritual? (Encíclica Quas Primas de Pio XI, 1925).

O próprio Jesus proclama a sua plena realeza: 'Eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz' (Jo 18,37). Cristo Rei - o Caminho, a Verdade e a Vida - se manifesta por inteiro pela sua Santa Igreja e, por meio dela, e por sua paixão, morte e ressurreição, atrai para si a humanidade inteira, libertada do pecado e da morte, que será o último adversário a ser vencido. E quando voltar, virá com as nuvens 'e todos os olhos o verão' (Ap 1,7) para separar o joio do trigo, as ovelhas e o cabritos, uns para a glória eterna e outros para a danação eterna.

INDULGÊNCIA PLENÁRIA DO DOMINGO DE CRISTO REI

Hoje, dia da solenidade de Cristo Rei, recebe Indulgência Plenária todo fiel* que recitar, publicamente e com piedosa devoção, o ato de consagração do gênero humano a Jesus Cristo Rei

   Dulcíssimo Jesus, Redentor do gênero humano, lançai sobre nós que humildemente estamos prostrados na vossa presença, os vossos olhares. Nós somos e queremos ser vossos; e, a fim de podermos viver mais intimamente unidos a vós, cada um de nós se consagra, espontaneamente, neste dia, ao vosso sacratíssimo Coração. Muitos há que nunca vos conheceram; muitos, desprezando os vossos mandamentos, vos renegaram.

   Benigníssimo Jesus, tende piedade de uns e de outros e trazei-os todos ao vosso Sagrado Coração. Senhor, sede rei não somente dos fiéis, que nunca de vós se afastaram, mas também dos filhos pródigos, que vos abandonaram; fazei que estes tornem, quanto antes, à casa paterna, para não perecerem de miséria e de fome. Sede rei dos que vivem iludidos no erro, ou separados de vós pela discórdia; trazei-os ao porto da verdade e à unidade da fé, a fim de que, em breve, haja um só rebanho e um só pastor.

    Senhor, conservai incólume a vossa Igreja, e dai-lhe uma liberdade segura e sem peias; concedei ordem e paz a todos os povos; fazei que, de um polo a outro do mundo, ressoe uma só voz: louvado seja o coração divino, que nos trouxe a salvação; honra e glória a ele, por todos os séculos. Amém.

*Para que alguém seja capaz de lucrar indulgências, deve ser batizado, não estar excomungado e encontrar-se em estado de graça, pelo menos no fim das obras prescritas. O fiel deve também ter intenção, ao menos geral, de ganhar a indulgência e cumprir as ações prescritas, no tempo determinado e no modo devido, segundo o teor da concessãoA indulgência plenária só se pode ganhar uma vez ao dia. 

sábado, 20 de novembro de 2021

SOBRE O DISCERNIMENTO E AS BOAS OBRAS

O que desejo do homem, como frutos da ação, é que prove suas virtudes na hora oportuna. Talvez ainda te recordes! Quando, há muito tempo, desejavas fazer grandes penitências por minha causa e perguntavas: 'Que mortificações eu poderia fazer por ti?', eu te respondi no pensamento: 'Sou aquele que gosta de poucas palavras e de muitas ações'.

Então era minha intenção mostrar-te que não me comprazo no homem que apenas me chama por palavras: 'Senhor, Senhor, gostaria de fazer algo por ti', ou naquele que pretende mortificar o corpo com muitas macerações, mas sem destruir a vontade própria. Queria dizer-te que desejo ações varonis e pacientes, bem como as virtudes internas, de que falei acima, as quais são todas elas operativas e produtoras de bons frutos na graça. 

Ações baseadas em outros princípios constituem para mim meras palavras, realizações passageiras. Eu, qual ser infinito, quero ações infinitas, amor infinito. Desejo que as mortificações e demais exercícios corporais sejam considerados como meios, não como fins. Se neles repousar o inteiro afeto da pessoa, ser-me-ia dado algo de finito, à semelhança de uma palavra que, ao sair da boca, já não existe, quando é pronunciada sem amor. Só o amor produz e revela a virtude!

Quando uma ação, que chamei com o nome de 'palavra', está embebida de caridade, então me agrada; já não se apresenta sozinha, mas acompanhada de discernimento verdadeiro, isto é, como ato que é meio para se atingir um objetivo superior. Não é exato olhar a penitência ou qualquer ato externo como base e finalidade principal; são obras limitadas, seja porque praticadas durante esta vida passageira, seja porque um dia a pessoa terá que deixá-las por resolução pessoal ou por ordem alheia. Umas vezes a abandonará o homem coagido pela impossibilidade de continuar o que começou, e isto acontece em situações diversas; outras vezes por obediência à ordem do superior. Aliás, neste caso, se as continuar, não terá merecimento algum e cometerá até uma falta.

Como percebes, as mortificações são coisas finitas e como tais hão de ser praticadas. São meios, não finalidade. Quem as assume como finalidade, sentir-se-á vazio quando tiver de abandoná-las. Foi quanto ensinou o glorioso apóstolo Paulo ao vos convidar em sua carta (Cl 3,5) a mortificar o corpo e a destruir a vontade própria, ou seja, a refrear o corpo mortificando a carne, quando ela se opõe ao espírito.

A vontade própria deve ser destruída e submetida à minha. Tal coisa é feita pela virtude do discernimento, como expliquei antes, com o desprezo do pecado e da sensualidade, por efeito do autoconhecimento. Eis a espada que mata e corta todo egoísmo; eis os servidores que não me apresentam somente 'palavras', mas ações. Eles formam o meu prazer. É em tal sentido que afirmava eu que desejo poucas palavras e muitas ações!

Ao dizer muitas, não me refiro à quantidade. É o desejo da alma, alicerçado no amor que vivifica as virtudes, que há de atingir o infinito. Também não quis manifestar desprezo pela palavra! Apenas afirmei que desejava 'poucas palavras', a indicar que todas as ações externas são finitas. Indiquei-as com o termo poucas, mas elas bem que me agradam quando são feitas como meios para adquirir a virtude, sem a conotação de objetivo principal.

Não se deve considerar como mais perfeito o grande penitente que aflige o seu corpo, ao fazer a comparação com alguém que se mortifica menos. Como já disse, seu merecimento não está nisso. Se assim fosse, mal estaria quem por razões legítimas não pode fazer atos de penitência externa e vive unicamente na prática do amor, sob a luz do discernimento, sem poder agir diversamente. O discernimento leva o homem a amar-me sem limites, sem restrições, já que sou a Verdade suma e eterna. É relativamente ao amor ao próximo que o discernimento impõe limites e formas de amar.

Ao brotar da caridade, o discernimento faz amar o próximo ordenadamente. Pela caridade exercida com retidão, ninguém pode pecar, prejudicando-se sob pretexto de ser útil aos outros. Não seria caridade com discernimento se alguém cometesse um só pecado para salvar o mundo inteiro do inferno ou para adquirir um grande ato de virtude. Seria falta de discernimento, pois é ilícito fazer uma grande ação virtuosa ou beneficente através de um ato pecaminoso.

O verdadeiro discernimento ordena-se da seguinte forma: faz o homem orientar todas as suas faculdades a me servirem com virilidade e solicitude; amar o próximo realmente, mesmo sacrificando mil vezes a vida corporal, se fosse possível, para a salvação alheia; suportar dificuldades e aflições para que o outro possua a vida da graça; colocar os seus bens materiais a serviço do outro. Eis quanto realiza o discernimento na medida em que procede do amor.

Compreendes, assim, que o homem que deseja ter a graça, com discernimento tributar-me-á amor infinito, sem restrições; quanto ao próximo, ter-lhe-á juntamente com esse amor infinito uma caridade ordenada, não se prejudicando com pecados sob pretexto de ajudá-lo. A esse respeito vos advertiu São Paulo (1Cor 13,1ss), que a caridade deve começar por si mesmo, pois de outra forma não seria de perfeita utilidade para os demais.

No caso de imperfeição interior, imperfeitas serão as obras feitas para si e para o próximo. Não é certo que alguém para salvar pessoas finitas e criadas por mim, viesse a ofender-me enquanto Bem infinito. Seria mais grave e de maiores proporções a culpa que o efeito decorrente. Por motivo algum, portanto, deves cometer o pecado. Sabe disto a caridade verdadeira, a qual possui a iluminação do discernimento santo.

O discernimento é uma luz que dissolve a escuridão, afasta a ignorância e alimenta as virtudes, bem como as ações externas que conduzem à virtude. Ele constitui uma atitude prudente que não padece enganos, uma atitude perseverante que não pode ser vencida. O discernimento estende-se do céu à terra, isto é, do conhecimento do meu ser até o conhecimento do próprio ser, do meu amor ao amor pelo próximo. E sempre com humildade. Prudentemente ele evita e sai ileso de todos os laços do demônio e dos homens. Sem outras armas além da paciência, ele superou o demônio. Mediante essa doce e gloriosa iluminação, a carne reconheceu a própria fraqueza; desprezou-se; venceu o mundo; submeteu-o a um amor maior; envileceu-o; como senhor, dele fez caçoada!

Devido ao discernimento, os seguidores do mundo são incapazes de destruir as virtudes internas; ao contrário, suas perseguições até as fazem aumentar, servindo-lhes de prova. Como indiquei, as virtudes são concebidas interiormente no amor e depois se revelam, exteriorizam-se através do próximo. Assim, se as virtudes não se mostrarem, agindo exteriormente no tempo da perseguição, é sinal de que não se tratava de verdadeira virtude interna.

Já disse e expliquei que uma virtude não será perfeita, nem frutificará, senão em benefício dos homens. Acontece como para a mulher que concebeu um filho; enquanto não der à luz a criança, de modo que a veja a sociedade, seu marido não dirá que tem um filho. Sucede o mesmo comigo, esposo da alma; até que a pessoa não exteriorize sua virtude no amor do homem, revelando-a de acordo com as urgências em geral ou em particular, afirmo que na realidade não é interiormente virtuosa. O mesmo afirmo quanto aos vícios, pois todos eles são cometidos contra os homens.

(Excertos da obra 'O Diálogo', de Santa Catarina de Sena)

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

O SANTO ROSÁRIO EM LATIM


🙏 Orationes ab Inítio Rosarii Dicendæ (Orações para Iniciar o Rosário)

Per signum Sanctæ Crucis ✠ de inímicis nostris ✠ líbera nos, Deus noster ✠. 
In nómine Patris, et † Fílii, et Spíritus Sancti. Amen.

Confíteor (Confissão)

Confíteor Deo omnipoténti, beátæ Maríæ semper Vírgini, beáto Michaéli Archángelo, beáto Joánni Baptístæ, sanctis Apóstolis Petro et Paulo, ómnibus Sanctis, et tibi, pater: quia peccávi nimis cogitatióne, verbo et opere: mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa. Ideo precor beátam Maríam semper Vírginem, beátum Michaélem Archángelum, beátum Joánnem Baptístam, sanctos Apóstolos Petrum et Paulum, omnes Sanctos, et te, pater, orare pro me ad Dóminum, Deum nostrum. Amen.

Sýmbolum Apostolórum (Credo dos Apóstolos)

Credo in Deum, Patrem omnipoténtem, Creatórem cœli et terræ. Et in Jesum Christum, Fílium ejus únicum, Dóminum nostrum: qui concéptus est de Spíritu Sancto, natus ex María Vírgine, passus sub Póntio Piláto, crucifíxus, mórtuus, et sepúltus: descéndit ad ínferos; tértia die resurréxit a mórtuis; ascéndit ad cœlos; sedet ad déxteram Dei Patris omnipoténtis: inde ventúrus est judicáre vivos et mórtuos. Credo in Spíritum Sanctum, sanctam Ecclésiam cathólicam, Sanctórum communiónem, remissiónem peccatórum, carnis resurrectiónem, vitam ætérnam. Amen.

1 Pater Noster

Pater noster, qui es in cœlis, sanctificétur nomen tuum: advéniat regnum tuum: fiat volúntas tua, sicut in cœlo et in terra. Panem nostrum quotidiánum da nobis hódie: et dimítte nobis débita nostra, sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris: et ne nos indúcas in tentatiónem: sed líbera nos a malo. Amen.

3 Ave María

Ave María, grátia plena; Dóminus tecum: benedícta tu in muliéribus, et benedíctus fructus ventris tui Jesus. Sancta María, Mater Dei, ora pro nobis peccatóribus, nunc et in hora mortis nostræ. Amen.

Gloria

Glória Patri, et Fílio, et Spirítui Sancto. Sicut erat in princípio, et nunc, et semper, et in sǽcula sæculórum. Amen.

Orátio Fátima

O mi Jesu, dimítte nobis, líbera nos ab ígne inférni, allévá ánimas Purgatórii, præsértim illas quæ máxime relíctæ sunt.

🙏 Meditationes Rosarii (Meditações do Rosário)

I. Mystéria Gaudiósa (Mistérios Gozosos- segundas e quintas)

Primo, Beátæ Maríæ Vírginis anuntiatiónem contemplámur, et humílitas pétitur (Pater Noster, 10 Ave María, Gloria et Oratio Fatima).
Secúndo, Beátæ Maríæ Vírginis visitatiónem contemplámur, et cháritas ad fratres pétitur (Pater Noster, 10 Ave María, Gloria et Oratio Fatima).
Tértio, Dómini Nostri Jesu Christi nativitátem contemplámur, et paupertátis spíritus pétitur (Pater Noster, 10 Ave María, Gloria et Oratio Fatima).
Quárto, Dómini Nostri Jesu Christi presentatiónem in templo contemplámur, et obediéntia pétitur (Pater Noster, 10 Ave María, Gloria et Oratio Fatima).
Quínto, Dómini Nostri Jesu Christi inventiónem in templo contemplámur, et Deum inquæréndi volúntas pétitur. (Pater Noster, 10 Ave María, Gloria et Oratio Fatima).

II. Mystéria Dolorósa (Mistérios Dolorosos - terças e sextas)

Primo, Dómini Nostri Jesu Christi oratiónem in horto contemplámur, et dolor pro peccátis nostris pétitur (Pater Noster, 10 Ave María, Gloria et Oratio Fatima).
Secúndo, Dómini Nostri Jesu Christi flagellatiónem contemplámur, et córporum nostrórum mortificátio pétitur (Pater Noster, 10 Ave María, Gloria et Oratio Fatima).
Tértio, Dómini Nostri Jesu Christi spinis coronatiónem contemplámur, et supérbiæ mortificátio pétitur (Pater Noster, 10 Ave María, Gloria et Oratio Fatima).
Quárto, Dómini Nostri Jesu Christi crucis bajulatiónem contemplámur, et patiéntia in tribulatiónibus pétitur (Pater Noster, 10 Ave María, Gloria et Oratio Fatima).
Quínto, Dómini Nostri Jesu Christi crucifixiónem et mortem contemplámur, et sui ipsíus donum ad animárum redemptiónem pétitur (Pater Noster, 10 Ave María, Gloria et Oratio Fatima).

III. Mystéria gloriósa (Mistérios Gloriosos- quatas, sábados e domingos)

Primo, Dómini Nostri Jesu Christi resurrectiónem contemplámur, et fides pétitur (Pater Noster, 10 Ave María, Gloria et Oratio Fatima).
Secúndo, Dómini Nostri Jesu Christi in cœlum ascensiónem contemplámur, et spes pétitur (Pater Noster, 10 Ave María, Gloria et Oratio Fatima).
Tértio, Spíritus Sancti descensiónem contemplámur, et cháritas ad Deum pétitur (Pater Noster, 10 Ave María, Gloria et Oratio Fatima).
Quárto, Beátæ Maríæ Vírginis in cœlum assumptiónem contemplámur, et bene moriéndi grátia pétitur (Pater Noster, 10 Ave María, Gloria et Oratio Fatima).
Quínto, Beátæ Maríæ Vírginis coronatiónem contemplámur, et fidúcia in María Regína Nostra pétitur (Pater Noster, 10 Ave María, Gloria et Oratio Fatima).


🙏 Orationes ad Finem Rosarii Dicendæ (Orações para Terminar o Rosário)

Memoráre (Lembrai-Vos)

Memoráre, O piíssima Virgo María, non esse auditum a sǽculo, quémquam ad tua curréntem præsídia, tua implorántem auxília, tua peténtem suffrágia, esse derelíctum. Ego tali animátus confidéntia, ad te, Virgo Vírginum, Mater, curro, ad te vénio, coram te gemens peccátor assísto. Noli, Mater Verbi, verba mea despícere; sed áudi propítia et exáudi. Amen.

Sub tuum præsídium (Sob Vosso Amparo)

Sub tuum præsídium confúgimus, sancta Dei Génetrix; nostras deprecatiónes ne despícias in necessitátibus; sed a perículis cunctis líbera nos semper, Virgo gloriósa et benedícta. Amen.

Magníficat

Magníficat †ánima mea Dóminum. Et exsultávit spíritus meus: in Deo, salutári meo. Quia respéxit humilitátem ancíllæ suæ: ecce enim ex hoc beátam me dicent omnes generatiónes. Quia fecit mihi magna, qui potens est: et sanctum nomen ejus. Et misericórdia ejus, a progénie in progénies: timéntibus eum. Fecit poténtiam in bráchio suo: dispérsit supérbos mente cordis sui. Depósuit poténtes de sede: et exaltávit húmiles. Esuriéntes implévit bonis: et dívites dimísit inánes. Suscépit Ísraël púerum suum: recordátus misericórdiæ suæ. Sicut locútus est ad patres nostros: Ábraham, et sémini ejus in sǽcula.

Glória Patri, et Fílio, et Spirítui Sancto. Sicut erat in princípio, et nunc, et semper, et in sǽcula sæculórum. Amen.

Salve Regina (Salve Rainha)

Salve Regína, Mater misericórdiæ, vita, dulcédo, et spes nostra, salve. Ad te clamámus éxsules fílii Evæ. Ad te suspirámus, geméntes et fléntes in hac lacrimárum valle. Eja, ergo, Advocáta nostra, illos tuos misericórdes óculos ad nos convérte. Et Jesum, benedíctum fructum ventris tui, nobis post hoc exílium osténde. O clemens, O pia, O dulcis Virgo María. Amen.

℣. Ora pro nobis, Sancta Dei Génetrix.
℞. Ut digni efficiámur promissiónibus Christi.

Orémus

Deus, cujus Unigénitus per vitam, mortem et resurrectiónem suam nobis salútis ætérnæ prǽmia comparávit: concéde, quǽsumus; ut, hæc mystéria sacratíssimo beátæ Maríæ Vírginis Rosário recoléntes, et imitémur, quod cóntinent, et quod promíttunt, assequámur. Per eundem Christum Dóminum nostrum. Amen.

Litaníæ Lauretanæ 


℣. Kýrie, eléison.
℞. Kýrie, eléison.
℣. Christe, eléison.
℞. Christe, eléison.
℣. Kýrie, eléison.
℞. Kýrie, eléison.

℣. Christe, audi nos.
℞. Christe, audi nos.
℣. Christe, exáudi nos.
℞. Christe, exáudi nos.

℣. Pater de cœlis Deus,
℞. Miserére nobis.
℣. Fílii Redemptor mundi Deus,
℞. Miserére nobis.
℣. Spíritus Sancte Deus,
℞. Miserére nobis.
℣. Sancta Trinitas, unus Deus,
℞. Miserére nobis.

℣. Sancta María,
℞. Ora pro nobis.
℣. Sancta Dei Genétrix,
℞. Ora pro nobis.
℣. Sancta Virgo vírginum,
℞. Ora pro nobis.
℣. Mater Christi,
℞. Ora pro nobis.
℣. Mater Ecclésiæ,
℞. Ora pro nobis.
℣. Mater Divínæ grátiæ,
℞. Ora pro nobis.
℣. Mater puríssima,
℞. Ora pro nobis.
℣. Mater castíssima,
℞. Ora pro nobis.
℣. Mater invioláta,
℞. Ora pro nobis.
℣. Mater intemeráta,
℞. Ora pro nobis.
℣. Mater amábilis,
℞. Ora pro nobis.
℣. Mater admirábilis,
℞. Ora pro nobis.
℣. Mater boni Consílii,
℞. Ora pro nobis.
℣. Mater Creatóris,
℞. Ora pro nobis.
℣. Mater Salvatóris,
℞. Ora pro nobis.
℣. Mater Eucharistíæ,
℞. Ora pro nobis.
℣. Virgo prudentíssima,
℞. Ora pro nobis.
℣. Virgo veneránda,
℞. Ora pro nobis.
℣. Virgo prædicánda,
℞. Ora pro nobis.
℣. Virgo humílima.
℞. Ora pro nobis.
℣. Virgo potens,
℞. Ora pro nobis.
℣. Virgo clemens,
℞. Ora pro nobis.
℣. Virgo fidélis,
℞. Ora pro nobis.
℣. Spéculum justítiæ,
℞. Ora pro nobis.
℣. Sedes sapiéntiæ,
℞. Ora pro nobis.
℣. Causa nostræ lætítiæ
℞. Ora pro nobis.
℣. Vas spirituále,
℞. Ora pro nobis.
℣. Vas honorábile,
℞. Ora pro nobis.
℣. Vas insígne devotiónis,
℞. Ora pro nobis.
℣. Rosa mýstica,
℞. Ora pro nobis.
℣. Turris Davídica,
℞. Ora pro nobis.
℣. Turris ebúrnea,
℞. Ora pro nobis.
℣. Domus áurea,
℞. Ora pro nobis.
℣. Fœ́deris arca,
℞. Ora pro nobis.
℣. Jánua cœli,
℞. Ora pro nobis.
℣. Stella matutína,
℞. Ora pro nobis.
℣. Salvatiónis arca,
℞. Ora pro nobis.
℣. Mýstica cívitas Dei,
℞. Ora pro nobis.
℣. Adorátrix perpétuam Jesus Eucharistíæ.
℞. Ora pro nobis.
℣. Salus infirmórum,
℞. Ora pro nobis.
℣. Refúgium peccatórum,
℞. Ora pro nobis.
℣. Consolátrix afflictórum,
℞. Ora pro nobis.
℣. Auxílium Christianórum,
℞. Ora pro nobis.
℣. Corredemptóra humáni géneris.
℞. Ora pro nobis.
℣. Mediátrix ómnia gratiárum.
℞. Ora pro nobis.
℣. Terror dæmónium,
℞. Ora pro nobis.
℣. Exterminátrix ómnia heresíæ.
℞. Ora pro nobis.
℣. Regína Immaculáta,
℞. Ora pro nobis.
℣. Regína Angelórum,
℞. Ora pro nobis.
℣. Regína Patriarchárum,
℞. Ora pro nobis.
℣. Regína Prophetárum,
℞. Ora pro nobis.
℣. Regína Apostolórum,
℞. Ora pro nobis.
℣. Regína Mártyrum,
℞. Ora pro nobis.
℣. Regína Confessórum,
℞. Ora pro nobis.
℣. Regína Vírginum,
℞. Ora pro nobis.
℣. Regína Sanctórum ómnium,
℞. Ora pro nobis.
℣. Regína sine labe origináli concépta,
℞. Ora pro nobis.
℣. Regína in cœlum assúmpta,
℞. Ora pro nobis.
℣. Regína Sanctíssimi Rosárii,
℞. Ora pro nobis.
℣. Regína clérici,
℞. Ora pro nobis.
℣. Regína Ecclésiæ,
℞. Ora pro nobis.
℣. Regína famíliæ,
℞. Ora pro nobis.
℣. Regína pacis,
℞. Ora pro nobis.

℣. Agnus Dei, qui tollis peccáta mundi.
℞. Párce nobis, Dómine.
℣. Agnus Dei, qui tollis peccáta mundi.
℞. Exáudi nos, Dómine.
℣. Agnus Dei, qui tollis peccáta mundi.
℞. Miserére nobis.

℣. Ora pro nobis, Sancta Dei Génetrix,
℞. Ut digni efficiámur promissiónibus Christi.

Orémus:
Concéde nos fámulos tuos, quǽsumus, Dómine Deus, perpétua mentis et córporis sanitáte gaudére: et, gloriósa beátæ Maríæ semper Vírginis intercessióne, a præsénti liberári tristítia, et ætérna pérfrui lætítia. Per Christum Dóminum nostrum. Amen.

In nómine Patris, † et Fílii, et Spíritus Sancti. Amen.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

A VIDA OCULTA EM DEUS: REALIDADE DA POSSE DE DEUS


O que temos que repetir muitas vezes, embora seja surpreendente e, à primeira vista, até mesmo intrigante, é que essa posse de Deus pela alma é a coisa mais real que existe no mundo. Existem algumas almas que podem dizer verdadeiramente: 'Deus está em mim'. E não há nenhum exagero ou ilusão nisso. Essa fala é a expressão fiel da realidade. É verdade que essa posse de Deus tem graus muito diferentes. Mas há um pano de fundo comum a todos eles, bem traduzido pelo Cântico dos Cânticos: 'Meu bem amado é meu'. Antes, a alma interior desejava a Deus. Procurava, escutava, vislumbrava a sua presença e tinha até a percepção de estar muito perto dEle  e Ele muito perto dela, no mais íntimo de si mesma. Mas entre buscar a Deus e depois encontrá-lo e, acima de tudo, possuí-lo, existe um abismo. São coisas muito diferentes, e essa diferença que existe entre estas coisas é tudo.

Se Deus está na alma, a alma também está em Deus. A alma se entrega, Deus a aceita, toma posse dela e a alma interior tem a percepção dessa realidade. A alma não perde nem a sua natureza e nem a sua personalidade. Entretanto, não mais se pertence. Ela cedeu de bom grado os seus direitos de propriedade, e outro a exerce em seu lugar. E esse outro é o próprio Deus e essa doação, longe de empobrecê-la, enriquece ainda mais a alma, que passa a produzir frutos de que não julgava ser capaz. Ela os saboreia então à vontade e experimenta neles um sabor de eternidade. Mas, acima de tudo, experimenta uma sensação de libertação total, de verdadeira liberdade, que a consome em êxtases de alegria. Esta é a liberdade dos filhos de Deus. Sofremos tanto porque queremos pertencer sempre a nós mesmos! Somos verdadeiramente felizes quando somos inteiramente de Deus: Eu vivo pelo meu Bem Amado, e o meu Bem Amado é meu.

Quanto mais Deus me possui, mais tenho Deus em mim. Todas as suas riquezas me pertencem. Eu compartilho de sua ciência, de sua sabedoria, do seu poder, de sua bondade. Ninguém pode entender essa misteriosa comunidade de posses. É uma espécie de igualdade ou, melhor ainda, de unidade e a alma percebe muito claramente a sua inserção divina. Está imersa em Deus, é Deus no sentido do que isso seria possível para uma pobre criatura humana. E não contente em fazê-la comungar assim da sua natureza e da sua vida íntima, Deus a faz participar em certos momentos do governo do mundo. O conselho que reúne a Divina Trindade celebra-se também nela e a alma dele compartilha enlevada de muda admiração.

(Excertos da obra 'A Vida Oculta em Deus', de Robert de Langeac; Parte III - A União com Deus; tradução do autor do blog)