quarta-feira, 29 de abril de 2020

A VIDA OCULTA EM DEUS: A HUMILDADE


38. A verdadeira paz só se encontra na humildade. Despreze-se com sinceridade diante de Deus e faça isso cada vez mais. Pelo menos tente fazer isso e verá os resultados. Se você for capaz de amar (por um ato de vontade) a humilhação e a contradição, terá dado um grande passo em direção a Deus. Aceite com franqueza e sem discussões internas ou externas as pequenas humilhações diárias. Faça isso: custa apenas dar o primeiro passo. Assim, o hábito pode fincar raízes e, então, que alegria e que paz!

39. Amar ser humilhado e ser considerado ninguém é uma graça. Peça isso sempre, mas com tranquilidade.

40.  Na prática, reconhecer que não se está com a razão é perder pouco e ganhar muito.

41. Aceite humildemente não agradar a todos; querer o contrário seria querer o impossível.

42. Cuide da sua necessidade de criticar e contradizer os outros para melhor se afirmar diante de si mesmo. Procura definir os seus sentimentos com simplicidade, precisão, clareza e brevidade; depois mantenha-se sereno e reze.

43. Esforce-se sempre ainda que pareça que os seus esforços sejam inúteis. Deus quer o seu esforço pessoal para poder recompensá-lo. Permita que o seu fracasso, aparente ou real, o humilhe. Você precisa da humilhação como um freio. Quanto mais doloroso for, mais necessário é para você. Nada nos resguarda mais do que a humilhação e nada nos humilha mais como os nossos defeitos.

44. Ame as suas imperfeições. Elas o humilham e fornecem a matéria-prima para os seus esforços. Mas corrija-as também. Lembre-se do provérbio: 'quem ama bem, castiga bem'. E não traduza 'bem' por 'muito'. Dê a essa palavra todo o seu senso de restrição, prudência e firmeza, mas não rigidez excessiva. Considere os seus defeitos como uma mina inesgotável de mérito e humilhação e, nesse sentido, seria de se lamentar não ter defeitos. 

45. Se alguém nos julgasse como nós nos conhecemos, isso nos faria sofrer muito. Mais ainda, se nos fizesse saber o que pensa de nós. Nada nos machucaria mais, por miseráveis que julgássemos ser, do que um simples olhar de alguém que nos visse sob a nossa própria medida e, portanto, com desprezo. 
É como se sentir um ferro em brasas, como uma queimadura ardente, porque o egoísmo nos consome. Existem almas que não conseguem superar as consequências de uma falta cometida e do desprezo que a mesma produz. Quão habilidosos somos nós em responder às críticas e quantas precauções tomamos para evitar a menor humilhação! Mas nada é tão contrário à paz como isso. Existe paz quando você não pode tolerar a menor falta de consideração? Deus nunca haverá de conceder as suas graças a uma alma que se prostra preocupada diante de meras opiniões humanas que, na grande maioria das vezes, mostram-se equivocadas: busca-se então um bem que Deus não proverá. É a Deus quem devemos agradar, para que Ele nos olhe benignamente a cada dia; e não aos homens, buscando obter uma boa impressão a nosso respeito às custas de nossos dons naturais e mesmo de graças sobrenaturais. A vaidade espiritual é a pior de todas as vaidades e isso é prova concreta que estas graças não procedem de Deus ou de que Ele não as concederá mais. Porque é impossível entrar assim no seu Reino.

46. Trata-se, portanto, de praticar a humildade na medida em que ela realmente existe na alma, para praticá-la, desenvolvê-la, criar raízes e progredir. O que temos que encontrar, então, é a fórmula simples e única que traduz o ato e a origem da humilhação. Se, por exemplo, ao quebrar um copo sobre a mesa, em vez de dizer: 'Como sou desajeitado, sempre fazendo isso!' ou 'o copo escorregou das minhas mãos...' ou variantes assim, diga apenas: 'eu quebrei o copo'. Pronto; num sentido direto, simples e objetivo, sem buscar minimizar ou escamotear o constrangimento do ato. E, outras vezes, é melhor não dizer nada, deixando o silêncio traduzir as verdadeiras disposições de sua alma.

47. Não tente fazer florescer sentimentos de humildade dentro de você, mas 'exercite-se' nesta disposição, a menos que se entenda por 'sentimentos' coisas como gostos não sensíveis, disposições da alma ou atitudes espirituais.

48. Ó como estaríamos dispostos a receber as graças de Deus se tivéssemos um julgamento correto e exato sobre nós mesmos e sobre as nossas verdadeiras qualidades, reconhecendo-as sem exagero e vendo nelas tão somente uma concessão divina; e, mais ainda, um julgamento assim sobre os nossos muitos e verdadeiros defeitos e misérias, sem os exagerar também, mas vendo-os à luz de Deus! Nesse sentido, o orgulho seria impossível. Os santos viviam nessa luz e, por isso, pequenas faltas que nos parecem triviais mostravam-se enormes para eles, por causa da medida precisa que tinham da santidade de Deus e do profundo horror divino às nossas menores imperfeições. E, uma vez iluminados de maneira extraordinária, a humildade legou a eles contemplar de tal modo a própria miséria que, por  se depreciarem tanto diante dela e com julgamentos tão severos sobre si mesmos, tais considerações podem nos parecer surpreendentes.

(Excertos da obra 'A Vida Oculta em Deus', de Robert de Langeac; Parte I -  O Esforço da Alma; tradução do autor do blog)