terça-feira, 31 de março de 2020

DA VIDA ESPIRITUAL (102)

Eis que o mundo enfrenta agora período de extraordinária turbação. E tombas então diante da provação, vencido pelo isolamento e pela sensação de fragilidade extrema? Mas foi preciso o mundo parar para que soubesses disso? Somos apenas fragilidades e miudezas cercadas e tangidas pela misericórdia de Deus, mas valemos mais, muito mais, que milhares de estrelas ou de grãos de areia reunidos. Que o teu isolamento seja oração. Que o teu silêncio seja oração. Que a tua enorme percepção de fragilidade seja oração. Não apenas pelos milhares que sofrem e que morrem sem ar em hospitais que se assemelham a acampamentos de guerra, mas pelos que não se vergam pelo jugo suave da fé e não respiram as infinitas graças que Deus nos distribui cotidianamente. Que o teu isolamento físico seja dor, sofrimento e recolhimento para a maior glória de Deus. E que seja principalmente oração, suave e perseverante, pela tua família e pela cura definitiva de tantos dos teus irmãos que, isolados espiritualmente, vivem desprotegidos da fé num mundo sem Deus.

BREVIÁRIO DIGITAL - A BÍBLIA ILUSTRADA (V)

(The Bible in Pictures, 1922, versão em português pelo autor do blog)

domingo, 29 de março de 2020

PÁGINAS COMENTADAS DOS EVANGELHOS DOS DOMINGOS


'Se Cristo está em vós, embora vosso corpo esteja ferido de morte por causa do pecado, vosso espírito está cheio de vida, graças à justiça. E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos mora em vós, então aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós' (Rm 8, 10-11)

sábado, 28 de março de 2020

SUMA TEOLÓGICA EM FORMA DE CATECISMO (XLVIII)

XXXIX

DA PARTE QUE O PENITENTE TOMA NO SACRAMENTO DA PENITÊNCIA; DA CONTRIÇÃO, CONFISSÃO E SATISFAÇÃO

Contribui o penitente para produzir os efeitos deste sacramento?
Sim, senhor; porque os atos por ele executados fazem parte do sacramento.

Por que?
Porque constituem a matéria, assim como os atos do ministro a forma (XC, 1)*.

Que atos do penitente constituem a matéria do sacramento?
Os de contrição, confissão e satisfação (XC, 2).

Por que são necessários estes três atos para constituir a matéria do sacramento?
Porque é sacramento de reconciliação do homem ofensor com Deus ofendido. Requer-se, para uma reconciliação desta natureza, que o homem ofereça e Deus uma compensação suficiente, a fim de que Deus esqueça a ofensa e fique saldada a injustiça; e, para consegui-lo, são necessárias três coisas: que o pecador esteja disposto a satisfazer pela forma que Deus determine; que se apresente ao confessor, lugar-tenente de Deus para conhecer as condições que Ele lhe impõe e que as aceite sem reservas e as cumpra lealmente. A contrição, a confissão e a satisfação coordenam-se no sentido do reto cumprimento destas três condições (Ibid).

Há verdadeiro sacramento se falta algum destes atos?
Sem alguma manifestação exterior dos três, não, senhor; porém, pode havê-lo, sem contrição interior e sem satisfação, ainda que não produza fruto atual (XC,3).

Que entendeis por contrição?
A dor sobrenatural que invade o espírito do pecador quando serenamente pensa em suas culpas, dor que o amargura e lhe faz detestável o prazer do pecado e lhe arranca a resolução de prostrar-se aos pés do sacerdote, ministro do Senhor, confessar-se, aceitar a satisfação que ele lhe imponha e cumpri-la escrupulosamente (Suplemento, I, 1).

Que se requer para que a dor seja sobrenatural?
Que a sua causa e motivo o sejam; começa pelo temor aos castigos que, conforme o que ensina a fé, impõe Deus justamente indignado pelos pecados dos homens, temor misturado com a esperança de conseguir perdão, mediante a penitência, e mais tarde se converte em ódio e detestação ao pecado, porque dá morte à alma, privando-a da graça, e sobretudo, por ser ofensa a Deus, bem e objeto supremo do amor (I, 1, 2).

Haverá contrição quando se detesta o pecado exclusivamente por temor à pena de sentido, inevitável neste mundo ou no outro?
Não, senhor; para que exista verdadeira contrição é necessário detestar o pecado ou pelos grandes prejuízos que acarreta à alma ou porque nos priva do amor de Deus e do direito de possuí-lo, mediante a graça neste mundo, e da glória do céu (I, 2).

Que nome tem a dor sobrenatural fundada no primeiro motivo?
Chama-se atrição (I, 2 ad 2).

Logo, a atrição se distingue da contrição pelas razões e motivos em que cada uma se funda?
Sim, senhor; porque na atrição a dor é resultado de um temor servil e a contrição baseia-se no temor filial (Ibid).

Basta a dor de atrição para alcançar o perdão dos pecados no sacramento da penitência?
É suficiente para nos aproximarmos dele, porém, no momento de receber a absolvição e com ela a graça, à dor de atrição sucede a da verdadeira contrição (I, 3; XVIII, 1).

É necessário condoer-se e arrepender-se de todos e cada um dos pecados cometidos?
Quando o pecador se dispõe a receber o sacramento, deve arrepender-se e conceber dor de cada pecado em particular, especialmente se são mortais; porém, quando a dor está já informada pela graça, basta que se arrependa de todos em conjunto, pela razão comum de ofensa feita a Deus (II, 3, 6).

Poderíeis ensinar-me alguma fórmula para exercitar-me em atos de contrição?
Sim, senhor; eis aqui uma: 'Pesa-me e arrependo-me, Deus e Senhor meu, de haver cometido tantos pecados que me mereceram a vossa inimizade e justa indignação, privando-me da vossa graça e paralisando em mim o exercício das virtudes, porque eram ofensas dirigidas a Vós, Bem Infinito; tende misericórdia de mim, perdoai-me; infundi-me de novo a vossa graça, na qual desejo e quero viver e morrer; de vossas mãos aceito a morte com todas as suas enfermidades, dores e padecimentos, e os uno aos da paixão e morte de Jesus Cristo, meu divino Salvador, em satisfação de minhas culpas e pecados'.

Que deve fazer o pecador arrependido e pesaroso das suas culpas para obter o perdão?
Estar pronto e disposto a confessá-las a um sacerdote, se a isso o obriga algum preceito da Igreja ou as circunstâncias em que se ache (VI, 1-5).

Quando obriga a Igreja a confessar?
Uma vez, pelo menos, ao ano, e com preferência no tempo pascal, porque então obriga também o preceito da comunhão e ninguém que tenha consciência de pecado mortal deve recebê-la sem se confessar (VI, 5; Código, c. 906).

Por que é a confissão parte do sacramento da penitência?
Por ser o único meio com que o confessor pode julgar, com conhecimento de causa, sobre as disposições do penitente para receber a absolvição e decretar, em nome de Deus, a pena satisfatória que há de cumprir, como justa compensação para recuperar a graça (VI, 1).

Como há de ser a confissão para que o sacramento seja válido?
É necessário que o penitente manifeste, quanto seja possível, o número e espécie dos pecados mortais e que o faça com o fim de receber a absolvição sacramental (IX, 2).

Perdoam-se no sacramento da penitência os pecados confessados sem dor de contrição nem de atrição?
Não, senhor; porém a confissão, enquanto relaciona um penitente com o sacerdote, pode existir ainda naquele que não tem contrição; permanece, não obstante isto, a obrigação de manifestar na confissão seguinte aquela falta de dor (Ibid).

Se o penitente, involuntariamente, se esquece de algum pecado grave, tem obrigação de manifestá-lo na confissão seguinte?
Sim, senhor; porque estamos obrigados a submeter ao poder das chaves todos os pecados mortais (IX, 2).

Em nome de quem recebe o sacerdote a confissão?
Em nome e lugar de Deus, de sorte que, exceto no ato de exercer esta função do seu ministério, não tem capacidade para ouvi-la e nem para manifestar coisa alguma com ela relacionada (XI, 1-5).

Que deve fazer o penitente depois de se confessar?
Cumprir com esmero o castigo satisfatório que, como condição para recuperar a amizade de Deus, e em seu nome, lhe imponha o sacerdote (XII, 1, 3).

A quantos grupos podem reduzir-se as penitências satisfatórias?
A três: esmola, jejum e oração, porque para satisfazer a Deus, justo é sacrificar alguns bens em sua honra. Três classes de bens possuímos: os da fortuna, os do corpo e os da alma. O sacrifício dos primeiros recebe o nome geral de esmola, o dos segundos, o de jejum e o dos terceiros, de oração (XV, 3).

Perde-se a graça recebida na absolvição, caso se não cumpra a penitência sacramental?
Não, senhor; quer seja por esquecimento quer seja por negligência, exceto quando se deixa de cumprir por desprezo ao sacramento; fica, porém, de pé a obrigação de sofrer, neste mundo ou no outro, a pena temporal devida pelos pecados e, além disso, não se recebe o aumento de graças, vinculado ao cumprimento da penitência.

XL

DO MINISTRO DO SACRAMENTO DA PENITÊNCIA: DA ABSOLVIÇÃO, INDULGÊNCIAS, COMUNHÃO DOS SANTOS E EXCOMUNHÃO

Que entendeis por poder das chaves?
A faculdade ou poder de abrir as portas do céu, tirando de permeio o pecado e a pena por ele devida, únicos obstáculos que as mantêm fechadas (XVII, 1).

Em quem reside este poder?
Primeiramente na Santíssima Trindade; depois, na humanidade de Jesus Cristo, pelos méritos da sua paixão; e suposto que a eficácia e virtude da paixão se comunica aos sacramentos, que são como canais por onde flui à alma a graça divina, segue-se que os ministros da Igreja, dispensadores dos sacramentos, são depositários, por delegação de Cristo, do poder das chaves (Ibid).

Como se exerce o poder das chaves no sacramento da penitência?
Pelo ato do ministro, quando julga do estado do pecador, absolvendo-o, depois de lhe impor a penitência ou negando-lhe a absolvição (XVII, 2).

Logo, o sacramento da penitência produz o efeito vinculado ao poder das chaves, por virtude da absolvição, e no momento em que o sacerdote a dá?
Sim, senhor; e sem ela, nem existiria sacramento e nem, por conseguinte, produziria efeito algum (X, 1, 2; XVIII, 1).

Quais são os depositários do poder das chaves?
Só os sacerdotes validamente ordenados, segundo o rito da Igreja Católica, têm o poder de abrir as portas do céu, perdoando os pecados mortais no tribunal da penitência (XIX, 9).

Basta que o sacerdote esteja validamente ordenado para que possa exercer o poder das chaves com todos os batizados que desejem receber o sacramento da penitência?
Não, senhor; é necessário, além disso, que esteja aprovado pela Igreja para ouvir confissões e que tenha jurisdição sobre o penitente (XX, 1-3).

Praticamente pode o sacerdote absolver a quantos se aproximem do tribunal da penitência, na localidade em que tenha faculdades para confessar?
Sim, senhor; exceto quando o penitente se acusa de pecados reservados ao superior.

Tem a Igreja, em virtude do poder das chaves, algum outro meio, distinto da absolvição e imposição da penitência sacramental, para perdoar a pena devida pelos pecadores?
Sim, senhor; tem a admirável faculdade de conceder indulgências (XXV, 1).

Em que consiste?
Em poder tirar do inesgotável tesouro, formado pelos méritos e valor satisfatório das obras de Jesus Cristo, da Santíssima Virgem e de todos os santos, o que for necessário para satisfazer, no todo ou em parte, à justiça divina, pela pena que neste mundo ou no outro, deve sofrer o pecador, uma vez perdoada a sua culpa, e de aplicar estes méritos a determinados indivíduos, livrando-os assim do merecido e inevitável castigo temporal (Ibid).

Que condições se requerem para que se lucre o efeito das indulgências?
São três: autoridade competente de quem as concede, estado de graça de quem se disponha a ganhá-las e motivo ou razão suficiente para concedê-las, que pode ser qualquer obra que redunde em honra de Deus e em utilidade da Igreja, como práticas piedosas, obras de zelo e apostolado, esmolas, etc.

Logo, são estas práticas o preço com que a Igreja taxa e concede as indulgências?
De modo algum, pois a indulgência não é indulto que se obtém por permuta com obras satisfatórias equivalentes; é uma transferência do valor satisfatório das boas obras de uns indivíduos em favor de outros, se estes cumprem certas condições que a Igreja impõe, transferência feita em virtude da comunhão dos santos e com o consentimento dos primeiros (XXV, 2).

Beneficiam-se delas somente quem cumpre as condições prescritas para ganhá-las?
Podem aproveitar às almas do purgatório, quando a Igreja assim o concede (XVII, 3 ad 2; Código, c. 930).

Quem pode concedê-las?
Somente aquele que, em virtude do supremo poder de ligar e desligar, em todos os assuntos espirituais dos fiéis, é depositário e administrador do tesouro formado pelos méritos de Jesus Cristo e dos santos, isto é, o Soberano Pontífice. Sem embargo disso, dentro dos limites fixados pelo supremo hierarca, podem também os bispos concedê-las aos seus súditos, considerando que são juízes ordinários das diversas igrejas e compartilham com o Soberano Pontífice das fadigas e solicitude pastorais (XVII, 1,3).

Que consequências práticas se deduzem da doutrina que acabamos de expor?
Se atentamente pensarmos na faculdade de conceder indulgências, no poder das chaves, no sacramento da penitência, e, em geral, no maravilhoso poder que tem a Igreja Católica de tomar e aplicar a cada um dos seus membros, os méritos da paixão do Redentor, deduziremos que o maior benefício que o homem pode receber neste mundo é o de ser admitido na Igreja Católica e gozar a plenitude dos direitos que o batismo confere, vivendo em comunhão perfeita com todos os seus membros e com o seu chefe supremo, o Pontífice Romano, único depositário do tesouro de graças sobrenaturais que constitui a herança dos membros de Cristo.

Pode dar-se o caso de que alguém, incorporado à Igreja Católica pelo batismo, não participe de todos os seus direitos e privilégios?
Sim, senhor; todos aqueles sobre quem haja recaído alguma censura eclesiástica e, em especial, a mais temível de todas, a excomunhão (XXI, 1, 2).

Os hereges e os cismáticos estão excomungados?
Sim, Senhor; e, por consequência, não têm parte na comunhão dos santos. 

Logo, só os batizados, sujeitos ao Pontífice Romano e isentos de censuras, têm pleno gozo dos direitos de católicos?
Sim, senhor; e, além disso, para obterem os benefícios das indulgências, devem estar em perfeita comunhão com os santos, pela graça e pela caridade.

Em que consiste o que vós chamais perfeita comunhão com os santos?
Em que todos os membros do corpo místico de Jesus Cristo, os que vivem neste mundo, os que expiam as suas faltas no purgatório e os que no céu já receberam a recompensa, vivem em estreita união e participação comum dos bens conducentes à felicidade eterna, mediante a hierarquia da Igreja visível, cuja alma é o espírito de Deus.

referências aos artigos da obra original

('A Suma Teológica de São Tomás de Aquino em Forma de Catecismo', de R.P. Tomás Pègues, tradução de um sacerdote secular)

sexta-feira, 27 de março de 2020

HOJE: INDULGÊNCIA PLENÁRIA URBI ET ORBI

Hoje, às 14h (ou 18h no horário italiano), o Santo Padre proclamará do patamar da Basílica de São Pedro e diante a praça vazia, em caráter extraordinário, a bênção eucarística Urbi et Orbi, com a possibilidade de se conceder, portanto, a indulgência plenária a todos que, à distância e por meio dos diferentes meios de comunicação, estiverem unidos ao papa neste evento especial, que deverá ter uma duração aproximada de uma hora.



Diante da ameaça mortal do coronavírus em todo o mundo, a Igreja proclamou na última sexta-feira (dia 20/03) uma concessão geral e extraordinária da Indulgência Plenária para todos os fiéis enfermos, bem como para os profissionais de saúde, familiares e para os católicos em geral, segundo Decreto da Penitenciaria Apostólica e assinado pelo cardeal Mauro Piacenza e pelo mons. Krzysztof Nykiel. O próprio decreto considera ainda a possibilidade de concessão da absolvição coletiva sem uma prévia confissão individual.

Para se obter a Indulgência plenária, os doentes de coronavírus, os que se encontram em condições de quarentena, os profissionais de saúde e os familiares expostos ao risco de contágio com quem foi infectado pelo vírus, poderão simplesmente recitar o Credo, o Pai-Nosso ou uma oração a Nossa Senhora. Os demais fieis poderão escolher entre várias opções: visitar o Santíssimo Sacramento, fazer a adoração eucarística, ler as Sagradas Escrituras por pelo menos meia hora, rezar o Terço (ou o Terço da Divina Misericórdia) ou fazer a Via-Sacra, com súplicas a Deus pela cessação da epidemia, o alívio para os doentes e a salvação eterna daqueles a quem o Senhor chamou a si. E, como alternativa geral e universal aos fieis da Igreja, obter a Indulgência Plenária hoje às 14h, juntando-se as orações de todo o povo de Deus à do Santo Padre no Vaticano. 

Você pode acompanhar o evento e participar da oração do Santo Padre aqui:

quinta-feira, 26 de março de 2020

A VIDA OCULTA EM DEUS: MORTIFICAÇÃO DO CORAÇÃO


27. Dai o vosso coração a Jesus cada vez mais. Não espereis fazer isso para quando fordes perfeito. Não; dai-o a Ele agora. Não busqueis voluntariamente nenhuma consolação. Deus, que nos conhece e que se desvela por nós, há de nos dar o que precisamos in tempore oportuno [no momento oportuno].

28. O Bom Deus não quer que procureis e que conheceis ser amado. Ele vos concederá isso sim, afinal, mas somente quando não mais o desejais. Enquanto isso, Ele quer que busqueis somente a Ele, sempre, em todos os lugares e em tudo, particularmente na humilhação.

29. Não procureis anelos sensíveis, que não são sólidos. Somos constituídos por uma parte espiritual e uma parte sensível, mas o que acontece na segunda é de uma ordem bem inferior e, em termos práticos, nem deveria contar. Como Deus é espírito, só o que é espiritual deve importar. Se o que disserdes a Ele não lhe parecer nada, pouco importa. Persevere, pois o que importa realmente é Ele estar contente.

30. É preciso temer as emoções sensíveis no caminho da vida espiritual porque elas inibem mudanças. Acredita-se numa dada virtude e, assim, apega-se a ela simplesmente por isso ser agradável. Não as peçais e nem as desejais para que nunca vos apegueis a elas. O amor sensível provém do conhecimento sensível. Se pudésseis compreender a diferença entre o amor natural, mesmo a Jesus, e o amor sobrenatural, o verdadeiro amor da caridade! Suponha que uma alma que, sem ter recebido a graça, tenha  amado Nosso Senhor na terra apenas por isso ser bom e belo... Isso assume uma ordem diferente. O caráter sensível deve ser mortificado e eliminado, para dar lugar ao espiritual. Veja o exemplo de São João da Cruz: ele não apenas quis renunciar ao que era sensível, mas também às próprias alegrias dos anelos espirituais. Na terra, não há proporção entre o nosso conhecimento e o nosso amor. É por isso que se pode amar mais do que se conhece. Basta-nos saber que Deus é infinitamente bom e que se ama Deus quando se faz a sua Vontade. O conhecimento sensível é secundário, mas podemos imaginar Nosso Senhor desta ou daquela maneira e isso depende da nossa imaginação. Quanto ao conhecimento intelectual, São João da Cruz diz, e é verdade, que nós não temos nada além do que uma ideia difusa de Deus; mas enquanto Deus não nos dá luzes infusas, temos que nos ater a essa ideia geral, mesmo sabendo que é bastante grosseira porque, afinal, não somos espíritos puros.

(Excertos da obra 'A Vida Oculta em Deus', de Robert de Langeac; Parte I -  O Esforço da Alma; tradução do autor do blog)

A SAGRADA FACE DE CRISTO (III)

quarta-feira, 25 de março de 2020

PALAVRAS ETERNAS (V)


'Ó tu mortal que me vês  
repara bem como estou:  
eu já fui o que tu és  
e tu serás o que eu sou'

(antiga inscrição de portadas e lápides, cuja origem são versos de poema de autor desconhecido)

Em solitária morada,
onde a humana voz não soa,
e onde o terreno povoa
mata de escura ramada,
feia caveira mirrada
o acaso encontrar me fez;
cresce o susto, a palidez,
quando ela me diz e grita:
'Pára um pouco e medita
Ó tu mortal, que me vês!'

Imóvel então ficando,
sem reação lhe obedeci;
e com violência senti
o coração palpitando;
com meus olhos se fechando
frio suor me banhou;
quando de novo ela clamou:
'Não feches teus olhos, não
e presta-me toda atenção;
repara bem como estou.

Em duro espasmo me abraço,
mal podendo respirar
porque sentindo apertar
na garganta o curto espaço;
e por estranho embaraço
imóveis ficam os meus pés!
Ela fala uma terceira vez:
'Ó desengano fatal!
Eu também já fui racional
eu já fui o que tu és!'

Vendo assim de tão perto
tudo o que um dia foi meu,
os olhos levanto ao céu
sozinho em meio ao deserto.
E ela diz então: 'Deste decreto,
o Deus que tudo criou,
nenhum mortal isentou,
sem condição e nem idade:
ou mais cedo ou mais tarde
tu serás o que eu sou!'

terça-feira, 24 de março de 2020

BREVIÁRIO DIGITAL - ILUSTRAÇÕES DE DORÉ (X)

PARTE X (1Cr 10 - Esd 9)

  
  [Os homens de Jabes de Galaad resgatam os corpos de Saul e dos seus filhos  (ICr 10,11-12)]

   [Deus castiga Israel com a peste mas não destrói Jerusalém (ICr 21,14-15)]

   [Salomão recebe a rainha de Sabá (IICr 9,1)]


  [Salomão em idade avançada (IICr 9,30)]


   
 [O massacre geral entre os amonitas e os moabitas (IICr 20,23-24)]

  [A morte de Atalia (IICr 23,15)]
  [O rei Ciro devolve todos os bens roubados do Templo de Jerusalém (Esd 1,7-11)]

  [Os alicerces da reconstrução do Templo de Jerusalém (Esd 3,12)]

  [Artaxerxes liberta o povo de Israel para retornar a Jerusalém (Esd 7,13)]

 [Esdras faz uma oração de súplica a Deus (Esd 9,5)]

segunda-feira, 23 de março de 2020

O SINAL DA CRUZ (VIII/Final)


In hoc Signo vinces - 'Por este Sinal vencerás'

VIII/Final

Resta-nos, pois, praticar com resolução, muitas vezes e bem, o Sinal da Cruz. Fazendo-o, temos atrás de nós, à nossa volta e conosco, todos os homens e os grandes homens de todos os séculos, do Oriente e do Ocidente, enfim toda a imortal nação católica, o apuro da humanidade. Não o fazendo, temos atrás de nós, à nossa volta e conosco, os hereges, os incrédulos, os ignorantes e os brutos... grandes e pequenos. Fazendo o Sinal da Cruz, nós nos cobrimos, e também às demais criaturas, com uma defesa invencível. Não o fazendo, nos desarmamos, e também às demais criaturas, e ficamos expostos aos maiores perigos.

O homem e o mundo vivem recebendo necessariamente influxos do espírito do bem ou do espírito do mal. Por isso, há dezoito séculos, nos gritam os chefes do eterno combate, que cubramos a nós e às demais criaturas com o Sinal da Cruz, escudo impenetrável às setas inflamadas do inimigo [scutum in quo ignitae diaboli extinguuntur sagittae]. Como soldados indóceis e infiéis, queremos nos despojar voluntariamente da nossa armadura? Queremos, assim, ficar a peito descoberto e expostos estupidamente aos golpes mortais do exército inimigo?

A profanação progressiva dos domingos e dias santificados, os desprezos às leis do jejum e da abstinência, o abandono dos sacramentos da confissão e da comunhão, não comprometem apenas a alma, mas a saúde do corpo lhes pagam tributo. A excitação dos negócios, a agitação da política, a febre dos prazeres (que conforma o caráter distintivo dessa época de materialismo), a tibieza dos costumes, o hábito anormalíssimo de se trocar a noite pelo dia, a preocupação pela sensualidade na alimentação, o consumo assustador de bebidas alcoólicas, os milhares de botequins e tabernas, quanta consequência perniciosa isso não traz à saúde pública? De onde procede a perda das forças das gerações modernas?

O mundo atual é hoje mais enfermo que outrora. Qual o mal que o persegue? É o enfraquecimento da vida. O Verbo Criador é a vida e toda a vida. A vida, portanto, deve crescer para os que dEle se aproximam e deve diminuir para os que se desviam dEle. No pensar da Igreja e ao longo de todos os séculos cristãos, o ato exterior mais universal e cotidiano que sempre serviu para colocar o homem em contato direto com o Autor da Vida foi e é o Sinal da Cruz. O mundo atual, ao desprezar a sabedoria divina, pensa que pode violar impunemente uma Lei respeitada desde o berço do Cristianismo e que era respeitada inclusive pelos pagãos, que diziam: é necessário orar para ter saúde física e mental [orandum est ut sit mens sana in corpore sano].

Moral e fisicamente, o homem está na alternativa inevitável de viver debaixo da salutar influência do espírito do bem ou da maléfica artimanha do espírito do mal. O Sinal da Cruz nos coloca nessa primeira condição e a falta dele, na segunda. Esta é a doutrina da Igreja. Olha em torno de ti e procura por frontes, lábios, corações e mentes onde se conservam a santidade, a dignidade e a sobriedade do homem e do cristão, as vidas mortificadas e puras, as vidas fortes contra as tentações, as vidas dedicadas à caridade e às virtudes, as vidas que podem sem nenhum acanhamento revelar-se aos amigos e aos inimigos, e tudo isso encontrarás sob a proteção do Sinal da Cruz.

Devemos fazer o Sinal da Cruz bem feito. Devemos fazer o Sinal da Cruz muitas vezes. Devemos fazer o Sinal da Cruz com respeito, com atenção, com confiança e com devoção. Ainda que fosse de pequeno valor o Sinal da Cruz, devemos lembrar o que nos disse o Verbo Encarnado: 'quem é fiel nas pequenas coisas, será fiel nas grandes e quem é injusto no pouco também será injusto no muito' (Lc 16, 10). Esta fidelidade cotidiana forma a nossa vida cristã e nos prepara para a felicidade eterna. Em termos de salvação, não é bastante o que é apenas suficiente. Quem não faz senão o necessário, não o faz por muito tempo. Em se fazendo cinquenta vezes ao dia o Sinal da Cruz, e em se fazendo bem feito, teremos cinquenta boas obras ao final do dia, cinquenta degraus de glória e de felicidade para a vida eterna. São cinquenta moedas a mais para pagar as nossas dívidas ou dos nossos irmãos na terra ou no purgatório. Mais cinquenta súplicas pela conversão dos pecadores e pela perseverança dos justos, para afastar do mundo e das criaturas as moléstias, os perigos e os flagelos.

Repetindo as palavras dos padres e doutores da Igreja, ousemos dizer: Salve, ó Sinal da Cruz! Estandarte do Grande Rei, troféu imortal do Senhor, sinal de vida, salvação e bênção. Terror de satanás e das legiões infernais, baluarte inexpugnável, armadura invencível! Escudo impenetrável, espada real, fronte de honra! És a esperança dos cristãos, o remédio contra todas as enfermidades, a ressurreição dos mortos, o guia dos cegos, o amparo dos fracos, a consolação dos pobres, o deleite dos bons, a ruína dos soberbos, o jugo dos ímpios, a liberdade dos vassalos, a glória dos mártires, a virtude dos santos, o fundamento da Igreja! In hoc Signo Vinces - Por este sinal vencerás! 

(Excertos adaptados da obra 'O Sinal da Cruz', do Monsenhor Gaume, 1862)

domingo, 22 de março de 2020

COMO REZAR A SANTA MISSA


Jesus Cristo veio ao mundo para nos oferecer a Cruz. O sacrifício de Nosso Senhor foi o maior ato de caridade que já ocorreu na história da humanidade: 'Não há amor maior do que dar a sua vida por aqueles que você ama' (Jo 15,13). O Sacrifício de Nosso Senhor está no coração da Igreja, no coração de nossas almas, no coração da nossa salvação. Nós temos que participar deste sacrifício para a salvação de nossas almas. 

Nada pode substituir o sacrifício da cruz. A missa é a continuação da cruz; o propósito de Nosso Senhor foi o de continuar a sua cruz por meio do Santo Sacrifício da Missa até o fim dos tempos. E devoção alguma pode substituir o Santo Sacrifício da Missa, porque esta devoção foi criada, manifestada e desejada diretamente por Nosso Senhor Jesus Cristo pelos séculos dos séculos. Consideremos pois que:

1. A Santa Missa é o sacrifício do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo que, sob as espécies do pão e do vinho, se oferece pelas mãos do sacerdote a Deus sobre o altar. É, portanto, a renovação incruenta do sacrifício da Cruz. 

2. A Santa Missa é o único ato de adoração digno de Deus na Terra; o único modo de ação de graças digno de Deus; o único desagravo digno da justiça divina por nossas ofensas; o único ato de impetração suficiente e superabundante para todas as graças que o Bom Deus quiser nos conceder. 

3. A Santa Missa é o ato principal da nossa Santa Religião e a ação mais augusta da Igreja, pois é a renovação real do fato mais estupendo da terra: o Sacrifício da Cruz. 

4. A Santa Missa é a melhor devoção que um cristão pode ter; a que mais agrada a Deus; a que mais alivia as almas do purgatório; a que mais graça nos alcança do Céu. 

5. A Missa é geralmente subdividida em quatro partes: 

I. Desde o princípio até o Evangelho, unimo-nos a Jesus agonizante no Horto e se louvam a Bondade e a Misericórdia de Deus. 

II. Do Ofertório até a Elevação, unimo-nos a Jesus flagelado e coroado de espinhos, e damos graças a Deus por todos os benefícios recebidos, sobretudo pela benefício da Redenção. 

III. Da Consagração até a Comunhão, unimo-nos a Jesus agonizante e morto na Cruz, e pedimos perdão das próprias culpas. 

IV. Da comunhão até o fim, unimo-nos a Jesus depositado no Sepulcro e pedimos, pela sua Paixão e Morte, as graças que precisamos para nossa Salvação. 

Métodos para rezar com máxima devoção a Santa Missa

I - Método de São Francisco de Sales

1. Desde o começo da Missa até o padre subir ao altar, faze com ele a preparação que consiste em te apresentares a Deus, em confessares a tua indignidade e em pedires perdão de teus pecados. 

2. Depois de subir o padre ao altar, até ao Evangelho, considera a vinda e a vida de Nosso Senhor neste mundo, lembrando-te delas com uma representação simples e geral. 

3. Do Evangelho até depois do Credo, considera a pregação de Nosso Senhor; protesta-lhe sinceramente que queres viver e morrer na fé, na prática de sua palavra divina e na união da santa Igreja Católica. 

4. Do Credo ao Pai Nosso, aplica o teu espírito à meditação da paixão e morte de Jesus Cristo, as quais se representam atual e essencialmente neste santo sacrifício, que oferecerás em união com o padre e com todo o povo a Deus, o Pai de misericórdia, para sua glória e nossa salvação. 

5. Do Pai Nosso à comunhão, excita teu coração, por todos os modos possíveis, a querer ardentemente unir-se a Jesus Cristo pelos laços mais fortes do eterno amor. 

6. Da comunhão ao final da Missa, agradece a divina majestade por sua encarnação, vida, paixão e morte e também pelo amor que nos testemunhou neste santo sacrifício, conjurando-o por tudo isso a ser propício a ti, a teus parentes e amigos e a toda a Igreja e, ajoelhando-te em seguida com profunda humildade, recebe devotamente a bênção que Nosso Senhor te dá na pessoa de seu ministro. 

II - Método de Santo Afonso Maria de Ligório

Antes da Missa começar

Fazei, Senhor, que participemos deste santo sacrifício com a mesma fé e o mesmo amor que tiveram os Apóstolos, quando assistiram à sua instituição e também com o mesmo espírito de sacrifício e de reparação que teve a Santíssima Virgem Maria, quando assistiu, ao pé da Cruz, à paixão e morte de seu divino Filho. Dai-nos a graça de morrermos para nós mesmos, para vivermos unicamente da vida divina, que Jesus nos vai comunicar na Sagrada Comunhão. E seja assim, a Santa Missa, a nossa passagem duma vida de pecado para a vida da graça; duma vida imperfeita para a de perfeição. Amém. 

Às Orações ao Pé do Altar

Jesus entra no Horto de Getsêmani... Vai começar a Sua Paixão! Geme, suspira e exclama: 'A minha alma sofre uma tristeza mortal'. Ele vê todos os pecados... Também os meus. Vê a série de todos os tormentos que lhe estão preparados... os flagelos... os espinhos... os cravos... e a Cruz! 

Ao Confiteor 

A sua santíssima Humanidade fica aterrada e pede ao Eterno Pai que afaste o cálice da sua Paixão... Mas o Pai não lhe perdoa e condena-o à morte. Jesus desfalece, cai por terra e sua sangue. Ó Jesus, quão ingrato e cruel fui para convosco que tão bom e amável fostes para comigo! Os meus pecados traspassaram o vosso santíssimo Coração e abriram uma larga ferida, donde manou o Sangue precioso que banha a vossa face adorável e corre por terra. Oh! Perdoai-me, pela Vossa infinita misericórdia!  

Ao Beijo do Altar 

Jesus, sabendo que os seus inimigos vêm para o prender, levanta-se da oração e vai ao seu encontro. Judas imprime um ósculo de traição na face do Senhor e assim entrega o seu Mestre, o seu Benfeitor. Também eu, ó Jesus, tenho imitado, e por muitas vezes, esse apóstolo ingrato! Tende piedade de mim, Senhor, e dai-me a graça de vos ser fiel até a morte. 

Ao Introito, Kyrie e Gloria 

Jesus é preso e arrastado ao tribunal de Anás e ali recebe uma cruel bofetada na sua face divina! Em seguida é levado a Caifás. Confessa a sua divindade e, em vez de adoração, recebe insultos, bofetadas e escarros! Ó Jesus, eu vos agradeço o amor que me tendes e que vos obriga a sofrer tanto por mim. Fazei que eu também sofra, por vosso amor, as afrontas e as contrariedades da vida.

À Oração da Coleta 

Jesus é levado à presença de Herodes. Não responde às acusações, nem às perguntas. Uma palavra só bastaria para declarar a sua inocência e para transformar os insultos em aplausos. Mas Ele cala-se! Ó Sabedoria infinita, dai-me a graça de desprezar a sabedoria do mundo e seguir a loucura da Cruz! 

À Epístola 

Jesus é julgado inocente, mas condenado à flagelação e ao suplício dos escravos! Vê como prendem o Cordeiro divino a uma coluna, como lhe despem as roupas... Como ligam-lhe estreitamente as mãos... Como levantam ao alto os flagelos! Ouve os golpes, os escárnios dos algozes, os gemidos da vítima! O Corpo de Jesus primeiramente torna-se lívido, depois abre-se em mil feridas e o sangue corre abundante a banhar as mãos dos algozes, a coluna e a terra... Jesus sofre um martírio indizível e oferece ao Eterno Pai cada ferida do seu Corpo e cada gota do seu Sangue, em expiação dos meus pecados. Finalmente os algozes cansam e Jesus cai por terra, sem alento e banhado no seu sangue. Ó Jesus, a que estado vos reduziram os meus pecados! Se eu não tivesse pecado, vós não teríeis padecido tanto! Pesa-me, Senhor, de vos ter ofendido e proponho, com a vossa graça, não mais vos ofender. 

Ao Evangelho

Jesus está reduzido todo a uma chaga! Todavia os algozes não estão satisfeitos. Levantam da terra a Vítima divina e cobrem-lhe os ombros chegados com um pedaço de púrpura; põem-lhe na cabeça uma coroa de espinhos agudíssimos! Os espinhos rasgam a pele, a carne, as veias e o sangue sai das feridas abertas e banha os cabelos, os olhos, a boca de Jesus. Depois, ajoelham, por escárnio, diante dele, cospem-lhe na face, esbofeteiam-no e, arrancando-lhe das mãos a cana, dão-lhe com ela na cabeça cercada de espinhos. Jesus sofre. Cala-se e ama! Ó Jesus, pelos méritos dos vossos martírios, criai em mim um coração puro, humilde, mortificado!

Ao Credo

Jesus, nesse estado de dor e de agonia, é apresentado ao povo. O amoroso Salvador passou a sua vida fazendo sempre o bem. Mas o povo rejeita-o e pede a sua morte! Ó meu Jesus, as vossas humilhações não me escandalizam, antes vos tomam mais estimado e mais querido ao meu coração. Creio que sois o Senhor do Paraíso, gerado, desde a eternidade, no seio do Divino Pai, cheio de graça, de verdade e de amor. Se esse povo ingrato vos rejeita, eu vos adoro e reconheço por meu Salvador e meu Rei. Reinai sobre a minha inteligência e sobre o meu coração!

Ao Ofertório 

Jesus é condenado à morte. Nós merecíamos a morte eterna no inferno e o Filho de Deus, para nos salvar, sujeita-se à morte, e à morte da Cruz! Levanta ao céu os olhos, banhados em lágrimas e sangue e oferece ao Divino Pai o sacrifício de sua vida. Ó meu Jesus, como sois bom! Eu me ofereço todo a vós, para ser uma vítima imolada no altar do vosso amor. Aceitai este sacrifício e dai-me a graça para não faltar às minhas promessas. 

Ao Lavabo 

O Filho de Deus abraça, com imensa ternura, o seu patíbulo e, encaminhando-se para o Calvário,  vacila a cada passo e cai por terra! As feridas reabrem-se. Os algozes enfurecem-se e, com blasfêmia e golpes, levantam o Cordeiro Imolado. Depois, Jesus encontra sua Mãe, a sua pobre e dileta Mãe!

Ao Prefácio 

Novos martírios para o seu Coração amantíssimo! Mais além, uma piedosa mulher limpa a face de Jesus. Finalmente, depois de uma viagem dolorosa, Jesus chega ao Calvário. Ó meu Jesus, dai-me força e coragem para levar a cruz das minhas tribulações até o fim da minha vida! 

Ao Sanctus 

Chegando ao Calvário, Jesus é despido, com violência, de suas roupas entranhadas ao seu Corpo lacerado. Renovam-se as dores... corre mais sangue... O Salvador, por ordem dos algozes, estende-se sobre a cruz e apresenta as mãos e os pés para serem pregados. Os algozes pregam terríveis cravos nas mãos e nos pés do Salvador. Os cravos rasgam a pele, rompem as veias, traspassam a carne. Quanto sofre o nosso Bom Jesus! Ó meu Deus, por que amastes tanto os pecadores ingratos? Acabada esta obra de sangue, levantam ao alto a cruz e a deixam cair na cova preparada! Que doloroso abalo! Ó Jesus, atraí-me ao vosso Santíssimo Coração, para que eu chore sempre os meus pecados e os vossos sofrimentos. 

À Elevação da Hóstia 

Eu vos adoro, ó Corpo Divino de Jesus, todo lacerado, para expiar os meus pecados! Eu vos adoro, ó chagas sacratíssimas, testemunho do amor infinito do meu Salvador e penhor da minha felicidade eterna!. Eu vos amo, ó Jesus amantíssimo, meu Senhor e meu Deus, e prometo amar-vos sempre por toda a eternidade! 

À Elevação do Cálice 

Eu vos adoro, ó Sangue preciosíssimo do meu Jesus, derramado com tanta generosidade para expiar os meus pecados! Ó Sangue inocente, subi em perfume de suavidade ao trono do Altíssimo, aplacai a sua cólera e, transformado em orvalho de graça e em fogo de amor, descei sobre a minha alma, para purificar das suas culpas e consumi-la nas chamas de vossa caridade... 

Depois da Elevação do Cálice

O Redentor está agonizante sobre a Cruz. Não encontra o menor alívio naquele leito de dores. Os espinhos penetram-lhe, cada vez mais, na cabeça e os cravos rasgam feridas nas mãos e nos pés. Como Jesus sofre! A estas dores do corpo, juntam-se as desolações do espírito! A ruína da cidade deicida... a ingratidão dos homens... a perda de tantas almas... são outros tantos espinhos que laceram o Coração amantíssimo de Jesus! Ó como jesus sofre!

Ao Nobis Quoque Peccatoribus

Jesus levanta os olhos para o Céu e pede perdão e misericórdia para os seus algozes. Que bondade! Ó Jesus, também eu fui um dos algozes, pois vos causei tantos desgostos e martírios com os meus pecados! Pedi também por mim, e o vosso Pai me perdoará. Depois, Jesus promete o Paraíso a um criminoso que lhe tinha pedido a sua lembrança! Ó meu adorado Redentor, os meus pecados são grandes, mas a vossa misericórdia é infinita. É nessa misericórdia que eu tenho sempre confiado... Lembrai-vos de mim, Senhor, agora e sobretudo na hora terrível da minha morte Que felicidade a minha se, nesse momento, ouvir da vossa boca aquelas palavras que dirigistes ao criminoso arrependido: 'Hoje estarás comigo no Paraíso!'. 

Ao Pai Nosso

Ó Jesus, vós sois o meu Pai! Depois de me terdes criado, infundis a vossa graça na minha alma, elevando-a a uma vida sobrenatural e tornando-a semelhante à vossa essência. Mas quantos sofrimentos, quanto sangue vos está custando a minha felicidade! E, como se todas essas finezas não satisfizessem o vosso amor, dai-me por Mãe a vossa própria Mãe! Jesus é meu Pai, porque verte por mim tanto sangue, Maria é minha Mãe, porque derrama por mim tantas lágrimas! Bendito o meu Jesus, que, na hora da morte, me constitui filho da mais pura, da mais santa, da mais amável de todas as criaturas! 


Ao Agnus Dei 

Jesus é o amparo, a consolação de todos os que sofrem. Mas Ele, agonizado no patíbulo da Cruz, não encontra o menor lenitivo! Se o Pai o consolasse! Mas o Pai, vendo-o oprimido pelos pecados do mundo inteiro, abandona-o à raiva dos inimigos! Jesus queixa-se amorosamente deste abandono e exclama: 'Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?'. Ó Jesus, por esse tormento que amargurou e feriu o vosso Coração amantíssimo, não me desprezeis na vida, não me desampareis, sobretudo, na hora da minha morte! Jesus tem sede... sede de outros sofrimentos... sede do meu amor, da salvação da minha alma! Meu adorado Redentor, quero dar-vos refrigério na sede ardente que devora o vosso Coração. Vós desejais o meu amor! Renuncio a todos os bens miseráveis e mundanos, para não amar senão a vós, que sois tão amável e tão amante da minha alma! 

À Comunhão 

A grande obra da Redenção está acabada. Jesus entrega a sua alma nas mãos do Pai. Os seus olhos obscurecem-se e o Coração amoroso bate com lentidão; a cabeça inclina-se, como para dar aos pecadores o ósculo do perdão e da misericórdia... E, assim, o Senhor do Céu e da Terra, o nosso amado Redentor, abandonado por Deus e escarnecido pelos homens, solta o último suspiro e morre!... Jesus morreu. Um Deus morreu por mim! Ó meu Jesus, quanto vos devo! Que seria de mim se não tivésseis expiado, com a vossa Paixão, a morte que mereço, como pecador, e uno-a desde já à vossa morte dolorosíssima. Naquele momento terrível, tende piedade de mim! 

Às Abluções e Últimas Orações 

O Corpo do Redentor é descido da Cruz. Maria estende os seus braços, com imenso desvelo, e recebe o seu Filho, não belo e cândido como em Belém, mas todo ferido e desfigurado... E, chorando amargamente, inclina-se sobre o seu Jesus morto. Pobre Mãe! Ó Maria, fui eu que dei a morte a Jesus e causei tão acerbas dores ao vosso Coração. Perdoai-me, pelo Sangue do vosso dileto Filho e impetrai-me a graça de amar a Deus e a de perseverar neste amor até o fim da minha vida. 

Ao Último Evangelho

Jesus é encerrado num sepulcro. A sua aniquilação não podia ser mais completa! É o Deus imenso que enche o Céu e a terra, mas aqui está completamente escondido! O Deus vivo que comunica a vida a tudo o que se move, aqui é um Deus morto e sepultado! Oh! Quem levou um Deus a descer a tanta humilhação?O amor! Seja sempre bendito, amado e glorificado o vosso Coração, ó Dulcíssimo Jesus! Fazei, ó meu Deus, que eu morra para o mundo, para as criaturas, para mim mesma, e só viva no doce remanso desse tão amável Coração. Assim, a uma vida de recolhimento, de piedade e de amor, sucederá a glória da ressurreição e a luz da bem-aventurança eterna. Amém.