sexta-feira, 16 de agosto de 2019

DA PRÁTICA DA CARIDADE PELO SERVIÇO

1. Quanto a caridade que deveis praticar nas vossas ações, procurai estar dispostas a servir vossas irmãs em todas as suas necessidades. Algumas religiosas dizem que amam suas irmãs e que as conservam todas no coração, mas não querem incomodar-se em coisa alguma por seu amor. Esquecem-se do que o apóstolo São João escreveu aos seus discípulos: 'Filhinhos, não amemos com as palavras e com a língua, mas com obras e verdade' (1Jo 3,18).

Para satisfazer a caridade, não basta amar o próximo somente com palavras, é preciso amá-lo também com fatos. Todos os santos, diz o Sábio, são cheios de caridade e de compaixão para com aqueles que tem necessidade de seus socorros (Pv 13, 13). Escreve-se de Santa Teresa que ela procurava todos os dias praticar algum ato de caridade com suas irmãs e, quando alguma vez o não fazia durante o dia, procurava fazê-lo à noite, ao menos saindo da sua cela com a candeia, para fornecer luz às monjas que passavam no escuro diante dela

2. Quando puderdes fazer alguma esmola do vosso pecúlio, fazei-a. A sagrada Escritura diz que a esmola livra o homem da morte, o purifica dos pecados e lhe alcança a misericórdia divina e a salvação eterna (Tb 12,9). E reflete São Cipriano que nada há que o Senhor recomende tanto como a esmola, nas Sagradas Escrituras. 

3. Por esmola não se entende somente o dinheiro e os objetos materiais, mas também todo o alívio que se dá ao próximo necessitado desse auxílio. 'Como pode ufanar-se de ter caridade', pergunta São João, 'aquele que vendo seu irmão na necessidade, lhe fecha suas entranhas, e lhe não vem em auxílio, quando pode?' (1Jo 3,17). A religiosa faz uma esmola muito agradável a Deus, quando ajuda suas irmãs nos seus trabalhos. Santa Teodora, religiosa, procurava ajudar todas as irmãs nos seus ofícios, e evitava ao contrário que as outras a ajudassem no seu. 

Santa Maria Madalena de Pazzi, quando havia algum trabalho extraordinário para se fazer, logo se oferecia para fazê-lo sozinha; e depois ajudava as outras em todos os ofícios mais penosos, pelo que era voz corrente no convento que só ela trabalhava mais do que quatro irmãs conversas. Procurai também vos proceder desse modo, quanto for possível, e quando vos achardes cansadas, olhai para o divino esposo levando a cruz às costas, e abraçai alegremente vosso novo trabalho. O Senhor virá em vosso auxílio, quando ajudardes as vossas irmãs. 

Ele mesmo o disse: 'Pela medida com que houverdes medido, sereis medidos (Mt 7,2). Donde conclui São João Crisóstomo que a prática da caridade é uma arte muito lucrativa e o meio de ganhar muito diante de Deus . E Santa Maria Madalena de Pazzi se achava mais feliz socorrendo o próximo do que gozando na contemplação, pois como dizia: 'Quando estou em contemplação, é Deus que me auxilia e quando socorro o próximo, sou eu que ajudo a Deus'. O divino Salvador, com efeito, declarou que o bem que fazemos ao próximo, nós o fazemos a ele mesmo (Mt 25, 40).

4. Mas prestando serviços às irmãs, não deveis esperar delas nenhuma recompensa nem agradecimento. Regozijai-vos antes, se, em vez de agradecimentos, receberdes desatenções e censuras; porque, então, lucrareis uma dupla vantagem. É também um ato de caridade condescender com os pedidos honestos que vos fizerem vossas irmãs. Mas isto sempre se entende, contanto que o pedido não prejudique o vosso adiantamento espiritual; por exemplo: se a irmã quisesse que omitísseis os vossos exercícios de piedade, sem outro motivo que ficar a conversar com ela para lhe comprazer; nesse caso, é melhor que cuideis dos vossos afazeres. A caridade é bem ordenada, como diz a Esposa dos Cânticos (Ct 2,4). Não há pois caridade naquilo que prejudica o vosso bem espiritual ou o de vossa irmã. 

(Excertos da obra 'A Verdadeira Esposa de Jesus Cristo', de Santo Afonso Maria de Ligório)

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

GLÓRIAS DE MARIA: ASSUNÇÃO AO CÉU


A Assunção de Maria - Palma Vecchio (1512 - 1514)

"Pronunciamos, declaramos e de­finimos ser dogma de revelação divina que a Imaculada Mãe de Deus sempre Virgem Maria, cumprido o curso de sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à Glória celeste”.

                            (Papa Pio XII, na Constituição Dogmática  Munificentissimus Deus, de 1º de novembro de 1950)


A solenidade da Assunção da Virgem Maria existe desde os primórdios do catolicismo e, desde então, tem sido transmitida pela tradição oral e escrita da Igreja. Trata-se de um dos grandes e dos maiores mistérios de Deus, envolto por acontecimentos tão extraordinários que desafiam toda interpretação humana: 

1. Nossa Senhora NÃO PRECISAVA morrer, uma vez que era isenta do pecado original;

2. Nossa senhora QUIS MORRER para se assemelhar em tudo ao seu Filho, pela aceitação de sua condição humana mortal e para mostrar que a morte cristã é apenas uma passagem para a Vida Eterna;  

3. Nossa Senhora NÃO PODIA passar pela podridão natural da carne tendo sido o Sacrário Vivo do próprio Deus;

4. A morte de Nossa Senhora foi breve (é chamada de 'Dormição') e ela foi assunta ao Céu em corpo e alma;

5. Aquela que gerou em si a vida terrena do Filho de Deus foi recebida por Ele na glória eterna;

6. Nossa Senhora foi assunta ao Céu pelo poder de Deus; a ASSUNÇÃO difere assim da ASCENSÃO de Jesus, uma vez que Nosso Senhor subiu ao Céu pelo seu próprio poder.


Louvor a Ti, Filha de Deus Pai,
Louvor a Ti, Mãe do Filho de Deus,
Louvor a Ti, Esposa do Espírito Santo,
Louvor a Ti, Maria, Tabernáculo da Santíssima Trindade!

15 DE AGOSTO - NOSSA SENHORA DO PILAR



A devoção a Nossa Senhora do Pilar tem origem na Espanha. Segundo a Tradição, o apóstolo São Tiago Maior, enviado à Espanha para anunciar o Evangelho, estava frustrado pelos resultados limitados de sua atuação, quando teve uma visão da Virgem incentivando-o no cumprimento de sua missão. Nossa Senhora lhe apareceu encimando uma coluna (pilar), às margens do Rio Ebro, na região de Saragoza. Nossa Senhora do Pilar é invocada como sendo o Refúgio dos Pecadores e a Consoladora dos Aflitos. Na Espanha e nos países ibéricos, a festa é comemorada em 12 de outubro.  

Nossa Senhora do Pilar é Padroeira da cidade de Ouro Preto/MG, maior acervo arquitetônico barroco do Brasil e patrimônio cultural da humanidade. A festa de Nossa Senhora do Pilar em Ouro Preto é comemorada em 15 de agosto, data de sua entronização. Eu visitei e conheço bem a Igreja do Pilar, a mais imponente e mais rica de Minas Gerais. Recentemente (2012), a Paróquia do Pilar em Ouro Preto comemorou 300 anos como comunidade paroquial (1712 - 2012), 300 anos com Maria, a Senhora do Pilar. À cidade histórica mais importante do Brasil, a minha homenagem nestes versos à sua Padroeira.

Nossa Senhora do Pilar

Estão abertas as portas da Igreja do Pilar.
Entro. E logo nos meus primeiros passos,
meu olhar encontra no mais alto do altar
a Santa Virgem com Jesus nos braços.


Hesito. Diante da bela imagem da Senhora,
de repente, imensa inquietude me possui:
pois o homem que inda sou traz lá de fora
o pobre pecador que eu sempre fui.

Mas, do Vosso olhar materno não viceja
revolta alguma, nada de condenação:
Este caminho que atravessa a igreja
É uma via crucis que só tem perdão!

Sob o Vosso olhar de Mãe na minha fronte,
avanço sem medo a tão grande tesouro:
Sois Porta da terra, aberta para o horizonte,
Sois Pilar do Céu, entronizada em ouro.


Se inda há algo em mim que me pertença,
por mais louvável, quanto mais profano,
que seja apenas o tênue fio da presença,
do amor que pulsa no meu peito humano.


E, assim, diante do Vosso altar, prostrado,
Padroeira de Ouro Preto, ouso suplicar:
que eu seja por Vosso Filho muito amado,
como eu Vos amo, ó Senhora do Pilar!

(Arcos de Pilares)

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

14 DE AGOSTO - SÃO MAXIMILIANO MARIA KOLBE

São Maximiliano Maria Kolbe (08/01/1894 - 14/08/1941)

Quando tinha apenas 10 anos, Raimundo Kolbe recebeu uma dura repreensão de sua mãe: 'Se aos dez anos você é tão mau menino, briguento e malcriado, como será mais tarde?' Estas palavras doeram fundo na alma da criança e, muito perturbado por tal admoestação, prostrou-se aflito diante da imagem de Nossa Senhora: 'Que vai acontecer comigo?' A Mãe de Deus apresentou-se, então, diante dele, trazendo nas mãos duas coroas, uma branca e outra vermelha e lhe perguntou, sorrindo, qual delas ele escolhia para a sua vida. O pequeno escolheu as duas. A coroa branca lhe assegurou a castidade; a coroa vermelha lhe outorgou a glória do martírio. Assim nascem os santos, assim se forjam os mártires.

Assumindo a sua vocação religiosa, decidiu ser capuchinho franciscano com o nome de Maximiliano e fez os solenes votos do sacerdócio em 01 de novembro de 1914, acrescentando o nome de Maria aos seu nome religioso. Quase 40 anos após a visão da Santa Virgem, ele receberia a coroa do martírio. Em fevereiro de 1941, o padre Kolbe foi levado à prisão de Pawiak, em Varsóvia para interrogatório, tornando-se em seguida o prisioneiro de número 16670 do campo de concentração de Auschwitz durante a II Grande Guerra Mundial. Mais do que nunca, exerceu ali o seu apostolado de oração e pela conversão daqueles condenados. No final de julho de 1941, foi transferido para o Bloco 14 do campo, cujos prisioneiros faziam trabalhos agrícolas. Numa dada oportunidade, ocorreu a fuga de um deles e, como castigo, dez outros foram sorteados para morrer de fome e de sede num abrigo subterrâneo. 

O sargento Franciszek Gajowniczek do exército polonês foi um dos dez escolhidos e suplicou pela sua vida, por ser pai de uma família ainda de pequenos. Padre Kolbe se ofereceu para substitui-lo no 'bunker da morte' e assim foi feito. Desnudos, os dez homens padeceram o suplício da fome e da sede no subterrâneo confinado. Pe. Kolbe lhes deu toda a assistência espiritual possível neste período de martírio. Ao final de três semanas, 4 ainda estavam vivos e receberam, então, injeções letais de ácido muriático. Era o dia 14 de agosto de 1941, véspera da Festa da Assunção de Nossa Senhora. Pe. Kolbe foi o último a morrer. Sua festa religiosa é celebrada em 14 de agosto. Foi canonizado pelo papa João Paulo II em 10 de outubro de 1982.



'Não tenham medo de amar demasiado a Imaculada; jamais poderemos igualar o amor que teve por Ela o próprio Jesus: e imitar Jesus é nossa santificação. Quanto mais pertençamos à Imaculada, tanto melhor compreenderemos e amaremos o Coração de Jesus, Deus Pai, a Santíssima Trindade'.


(o 'bunker da morte')

Mas o que aconteceu com Gajowniczek - o homem que Padre Kolbe salvou? Depois da guerra, retornou à sua cidade natal, reencontrando a sua esposa. Seus dois filhos tinham sido mortos durante a guerra. Todos os anos, no dia 14 de agosto, ele retornou à Auschwitz e divulgou durante toda a vida o ato heroico do Pe. Kolbe. Morreu aos 95 anos, em 13 de março de 1995, em Brzeg, na Polônia, quase 54 anos depois de ter sido salvo da morte por São Maximiliano Kolbe. 


(Franciszek Gajowniczek)


terça-feira, 13 de agosto de 2019

DA PRÁTICA DA CARIDADE PELOS SENTIMENTOS

1. Tende cuidado de lançar fora todo juízo, suspeita ou dúvida temerária a respeito do próximo. É uma falta duvidar sem razão da inocência do próximo; mais falta ainda conceber uma suspeita positiva; e uma falta ainda maior julgar alguém certamente culpado, sem um fundamento certo. Aquele que julga desta maneira, será julgado por sua vez, pois disse o Senhor no Evangelho: 'Não julgueis e não sereis julgados, porque vos julgarão do mesmo modo que julgardes os outros' (Mt 7,12).

Disse, sem um fundamento certo, porque, se houvesse motivos certos para suspeitar e mesmo para crer mal do próximo, então não haveria falta. De resto, é sempre mais seguro e mais conforme à caridade pensar bem de todos e evitar os juízos e as suspeitas pois, diz o Apóstolo, que 'a caridade não pensa mal de ninguém'(1Cor 13,5). Todavia é preciso é preciso advertir que esta regra não serve para as religiosas que exercem os ofícios de superiora ou de mestra [ou pessoas que exercem cargos de direção espiritual], as quais, como dissemos em outro lugar, fazem bem ou antes devem suspeitar para prevenir o mal que pode suceder, com as diligências oportunas. Se, pois, não estais encarregadas de velar pela conduta das outras, tomai a resolução de sempre pensar bem de todas as vossas irmãs. 

Santa Joana de Chantal dizia: 'No próximo não devemos olhar o mal, mas somente o bem'. E se, falando do próximo, vos acontecer enganar-vos em seu favor e tomar por bem o que é mal, não fiqueis tristes por isso; porque, diz Santo Agostinho: 'a caridade não lamenta o seu erro quando pensa bem ainda de um mau' (conf. Sl 147). Santa Catarina de Bolonha dizia um dia: 'Há muitos anos que estou na religião, e nunca pensei mal de minhas irmãs, sabendo que aquela que parece imperfeita é talvez mais agradável a Deus do que a outra que parece muito exemplar'.

Guardai-vos, pois, de estar a espreitar os defeitos e ações dos outros, como fazem algumas, especialmente as que andam a perguntar o que se diz de sua pessoa e que, em seguida, se enchem de suspeitas, incômodos e aversões. Muitas vezes as coisas se referem adulteradas, ou como se diz, com franjas. Por isso, quando ouvirdes dizer qualquer coisa sobre os vossos defeitos, não deveis dar atenção, nem procureis saber quem assim falou. Fazei tudo de modo que ninguém possa dizer mal de vós, e depois deixai que todos digam o que quiserem. E, quando ouvirdes censurar alguma falta vossa, respondei: 'É muito pouco o que sabem de mim! Ó quantas coisas poderiam dizer, se soubessem tudo!' Ou então podereis dizer: 'Deus é que me há de julgar!' 

2. Quando suceder ao nosso próximo alguma desgraça, uma doença, um prejuízo ou outro qualquer pesar, a caridade manda que nos entristeçamos, ao menos na parte superior de nós mesmos. Digo na parte superior de nós mesmos, porque, quando ouvimos falar de um dano sofrido por pessoas que nos são contrárias, nossa natureza rebelde parece que sempre sente certo prazer; mas nisso não há falta, quando a má complacência é repelida pela vontade. Assim, pois, quando arrastadas pela parte inferior a vos regozijardes do mal acontecido ao próximo, deixai-a gritar, como se deixa gritar uma cachorrinha, que ladra como animal sem razão; e acudi com a parte superior a ter compaixão dos males alheios.

É verdade que algumas vezes, é lícito alegrar-se com a enfermidade de um pecador público e escandaloso porque, talvez assim, ele entre em si e se converta, ou, ao menos, porque assim cessará o escândalo dos outros. Entretanto, se a pessoa que sofre nos deu algum desgosto, tal alegria pode ser suspeita. 

3. A caridade nos obriga a nos alegrarmos com a felicidade do próximo, expulsando a inveja que consiste em ver com desprazer o bem do próximo, porque o seu bem impede o nosso. Segundo o doutor angélico, o bem alheio pode nos desagradar de quatro modos, a saber: 

1.º - Quando tememos que esse bem possa causar dano a nós ou a outros. Este temor, quando o dano é injusto, não é inveja e pode ser isento de toda a culpa, segundo aquilo que escreve São Gregório: pode muitas vezes acontecer que, sem faltar a caridade, a desgraça do nosso inimigo nos alegra, como quando a sua queda serve para livrar muitos das misérias que padecem; e também pode suceder que, sem inveja, nos aflija a prosperidade do inimigo, quando tememos que lhe sirva para oprimir injustamente os outros;

2.º - Quando vendo, o bem alheio, ficamos tristes, não porque dele goza o próximo, mas porque não gozamos também. Este desprazer não é inveja, é antes um sentimento virtuoso, tratando-se de bens espirituais;

3.º Quando vemos com pena o bem do próximo, porque o julgamos indigno dele. Tal desprazer não é ainda ilícito, quando pensamos que essa vantagem, essa dignidade, ou essa fortuna será prejudicial à sua alma;

4.º Quando, enfim, nos afligimos com o bem do próximo, porque impede o nosso. E este desprazer é propriamente a inveja de que nos devemos guardar. O sábio diz que os invejosos imitam o demônio que induziu Adão ao pecado, porque sentia desprazer em vê-lo destinado ao céu, donde tinha sido expulso. É pela inveja do demônio que a morte entrou no mundo e o imitam os que são do seu partido. Pelo contrário, caridade nos faz alegrar com o bem do nosso próximo como se fosse nosso, e nos faz olhar as suas perdas como nossas.

(Excertos da obra 'A Verdadeira Esposa de Jesus Cristo', de Santo Afonso Maria de Ligório)

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

SUMA TEOLÓGICA EM FORMA DE CATECISMO (XXXVI)

LVII

DO DOM CORRESPONDENTE À VIRTUDE DA TEMPERANÇA

Existe algum dom do Espírito Santo correspondente à virtude da temperança?
Sim, Senhor; o dom do temor (CLI, 1 ad 3)*.

Porém, não dissestes que o dom de temor corresponde à virtude teologal da esperança?
Corresponde às duas, porém, sob distintos aspectos (Ibid).

Quando pertence a uma e quando à outra?
Corresponde à virtude teologal da Esperança, quando o homem reverencia a Deus e evita as suas ofensas em consideração à sua grandeza infinita; e pertence à virtude cardeal da temperança quando, por consequência do grande respeito devido à Majestade divina que o dom inspira, procura não incorrer nos pecados com que se ofende a Deus com maior frequência, como é o abuso dos prazeres sensuais (Ibid).

Não basta a virtude da temperança para evitá-los?
Sim, Senhor; porém, em muito menor eficiência, porque não dispõe de outros meios além dos próprios do homem guiado pela luz da razão e da fé; enquanto que o dom do temor o auxilia com a moção pessoal e onipotente do Espírito Santo, permitindo-lhe, em virtude do respeito e reverência devidos à majestade divina, manter refreados os prazeres dos sentidos e os incentivos de pecar.

LVIII

DOS PRECEITOS RELATIVOS À TEMPERANÇA

Existe na lei divina algum preceito relativo à temperança?
Sim, Senhor; há dois (CLXX).

Quais são?
O sexto e nono preceitos do Decálogo: 'Não cometerás adultério' e 'Não desejarás a mulher do teu próximo'.

Por que os preceitos falam só do adultério e por que há no Decálogo dois preceitos nesta matéria?
O primeiro porque, entre os pecados contra a temperança, é o que mais profundamente perturba as boas relações entre os homens em matéria de justiça, objeto principal do Decálogo e o segundo, para dar-nos a entender a grande necessidade de combater o funesto pecado do adultério (CLXXI).

Existem no Decálogo mandamentos relativos às virtudes agregadas à temperança?
Não, Senhor; porque, consideradas em si mesmas, não moderam diretamente as relações com Deus, nem com o próximo; porém, tendo em consideração os seus efeitos, abrangem preceitos da primeira e da segunda tábua; como, por exemplo, o de honrar a Deus e aos pais, dever que o homem esquece por consequência do pecado de soberba; o que proíbe o homicídio, extremo a que o homem chega pela ira (CLXX, 2).

Deviam ter-se dado no Decálogo mandamentos e normas positivas para exercitar a virtude da temperança e suas agregadas?
Não, Senhor; porque os mandamentos do Decálogo devem ser aplicáveis a todos os homens em todas as épocas, e o exercício positivo destas virtudes, tais como a maneira de apresentar-se, vestir, falar, etc, varia com os tempos, lugares e costumes (CLXX, 1 ad 3).

Quem tem autoridade para regulamentar estas ações?
A Igreja.

Há na Sagrada Escritura alguma passagem em que somos convidados a pedir a Deus o dom de temor correspondente à virtude da temperança?
Sim, Senhor; aquele belo texto do Salmo 118, 120: Confige timore tuo carnes meas - 'O vosso temor extermine as rebeliões da minha carne'.

LIX

DE COMO SÃO SUFICIENTES AS VIRTUDES ENUMERADAS PARA CONSEGUIR A VIDA ETERNA — DA VIDA ATIVA, DA VIDA CONTEMPLATIVA E DO ESTADO DE PERFEIÇÃO — DA VIDA RELIGIOSA: AS CONGREGAÇÕES RELIGIOSAS NA IGREJA

Já temos conhecimento suficiente de todas as virtudes que o homem deve praticar para alcançar a glória, e dos vícios de que se deve precaver para se não expor a perdê-la?
Sim, Senhor; porque aprendemos a conhecer e a amar o fim sobrenatural e a tomá-lo por norte da vida, nas grandes virtudes da fé, esperança e caridade; estudamos as quatro virtudes morais cardeais: prudência, justiça, fortaleza e temperança, consideradas não só na ordem natural e como hábitos adquiridos, mas também como virtudes infusas em proporção com as teologais; e, conjuntamente com elas, as normas práticas para governar a nossa vida em harmonia com o fim sobrenatural; por conseguinte, basta praticar o estudado e de resto corresponder à inspiração dos dons do Espírito Santo, para alcançarmos um dia a bem aventurança eterna da glória. E, se, por desgraça, cairmos em algum pecado, dispomos de meios para satisfazer por ele e para aplicar em nós o valor satisfatório da paixão de Cristo, mediante outra virtude, a da penitência, que estudaremos na Terceira Parte desta obra.

Quantos métodos de vida existem para praticar o conjunto das virtudes enunciadas, objeto principal, ou para melhor dizer, único de nossa passagem pela vida?
Dois, chamados, vida ativa e vida contemplativa (CLXXLX - CLXXXII).

Que entendeis por vida contemplativa?
Aquela em que o homem, vencidas e sossegadas as paixões, isento e livre de cuidados e negócios temporais, passa a vida, na medida que lhe permite a pobre condição humana, sem outros afãs nem ocupações e nem deleites, do que os de meditar e contemplar a beleza e perfeições de Deus e as da natureza, obra de suas mãos; em conhecer estas verdades encontra a sua perfeição, e em amar o que contempla encontra tão delicado deleite que foge de tudo mais, parecendo-lhe vão tudo o que não seja Deus (CLXXX, 1 - 8).

Logo, a vida contemplativa supõe todas as virtudes?
Supõe-nas todas, como disposições, e, além disso, aperfeiçoa-as, porque consiste numa atuação em que intervém todas, as intelectuais e as morais, dispostas para que nelas se exerça a ação pessoal do Espírito Santo, mediante os seus dons (CLXXX, 2).

Em que consiste a vida ativa?
No exercício das virtudes morais, especialmente da prudência, porque o seu objeto não é a contemplação, mas a ação neste mundo e, para regular as ações, se necessitam as virtudes morais (CLXXXI, 1-4).

Qual destes dois gêneros de vida é mais perfeito?
Indubitavelmente, a contemplativa, porque é na terra uma imagem da do céu (CLXXXI, 1-4).

A prática das virtudes, em que se constitui a vida ativa e contemplativa, é compatível com todos os estados e condições, ou está ligada a algum em especial?
Pode encontrar-se em todos os estados ordinários ou desenvolver-se no estado de perfeição.

Que entendeis por estado de perfeição?
Um gênero de vida fixo e permanente em que o homem, livre dos laços com que o escravizam às necessidades da vida, pode, sem prisões nem estorvos, dedicar-se ao serviço de Deus (CLXXXIII, 1,4).

Perfeição é o mesmo que estado de perfeição?
Não, Senhor; porque a perfeição é interior, e no estado de perfeição se considera principalmente um conjunto de atos exteriores (CLXXXIV, 1).

Podemos ser perfeitos sem viver em estado de perfeição ou viver em estado de perfeição e não ser perfeitos?
Sim, Senhor (CLXXXIV, 4).

Logo, para que ingressar no estado de perfeição?
Porque facilita a sua aquisição, e é ali que ordinariamente se encontra.

Logo, que é que constitui o estado de perfeição?
A obrigação perpétua e adquirida em forma solene de levar uma vida interior em conformidade com o que a perfeição exige (Ibid).

Quem vive em estado de perfeição?
Os bispos e os religiosos (CLXXXIV, 5).

Por que se acham os bispos no estado de perfeição?
Porque no momento de receberem a consagração e tomarem o ofício e cargo pastorais, se obrigam solenemente a dar a vida por suas ovelhas (CLXXXIV, 6).

Por que o estão os religiosos?
Porque se obrigam, com votos perpétuos, feitos com a solenidade que a profissão ou a benção requerem, a por de parte os bens deste mundo que licitamente poderiam usufruir, para mais livremente se consagrarem ao serviço de Deus (CLXXXIV, 5).

Qual destes dois estados é o mais perfeito?
É o dos bispos (CLXXXIV, 7).

Por que?
Porque, tendo em devida conta o aforismo, é mais nobre quem dá do que quem recebe, os bispos têm obrigação de ser perfeitos, e os religiosos a obrigação de aspirar à perfeição (Ibid).

Por que dizeis que os religiosos, pelo seu estado, propendem para a perfeição?
Porque, em virtude, dos três votos de pobreza, castidade e obediência, encontram-se felizmente impossibilitados de pecar e obrigados a fazer bem todas as coisas (CLXXXVI, 1 - 10).

São essenciais os três votos no estado religioso?
São tão essenciais que, sem eles, não poderia existir (CLXXXVIII).

Em que se distinguem?
Nos diferentes ministérios em que o homem pode consagrar-se totalmente ao serviço de Deus e nas diversas práticas e exercícios com que se dispõe para exercê-los (CLXXXVIII, 1).

Como se classificam as Ordens religiosas?
Em dois grupos ou famílias. segundo o gênero de vida que observem (CLXXXVIII, 2-6).

Logo, há Congregações de vida ativa e Congregações de vida contemplativa?
Sim, Senhor.

Que entendeis por congregações de vida ativa?
Aquelas em que a maior parte das ocupações de seus membros se ordenam a servir ao próximo pelo amor de Deus (CLXXXVIII.2 ad 2).

E por congregações de vida contemplativa?
Aquelas cujos religiosos se dedicam exclusivamente ao culto e serviço de Deus (Ibid).

Quais são as mais perfeitas?
As da vida contemplativa; apesar disso, ainda as excedem aquelas que têm por objeto principal os estudos sagrados e o culto divino, para comunicar aos povos o fruto de suas meditações e estudos, e atraí-los, por este meio, ao serviço de Deus (CLXXXVIII, 6).

É conveniente que haja Congregações religiosas em contato com a sociedade? 
É muito conveniente e sumamente útil porque, além de serem asilo de todas as virtudes e constituírem santuários onde elas se praticam com maior perfeição, contribuem para o bem estar do próximo com obras de caridade, de apostolado e de sacrifício.

Por que é própria e característica das congregações religiosas a prática de todas as virtudes em grau excelente?
Porque os seus membros se consagram, por dever e vocação, a marchar pelo único caminho que devem percorrer os homens, a fim de praticarem as virtudes e alcançarem a bem aventurança.

Qual é este caminho fora do qual não é possível ir ao encontro de Deus ou praticar as virtudes?
É Nosso Senhor Jesus Cristo ou o Mistério do Verbo feito carne; dele vamos tratar e o seu estudo será objeto da Terceira Parte desta obra.

referências aos artigos da obra original

('A Suma Teológica de São Tomás de Aquino em Forma de Catecismo', de R.P. Tomás Pègues, tradução de um sacerdote secular)

sábado, 10 de agosto de 2019

PALAVRAS DE SALVAÇÃO




'A doutrina católica nos ensina que o primeiro dever da caridade não está na tolerância das convicções errôneas, por sinceras que sejam, nem na indiferença teórica e prática pelo erro ou o vício, em que vemos mergulhados nossos irmãos, mas no zelo pela sua restauração intelectual e moral, não menos que por seu bem-estar material'.

(São Pio X)

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

DA PRÁTICA DA CARIDADE PELA MANSIDÃO

1. Antes de tudo, procurai nas ocasiões refrear a ira, quanto puderdes. Guardai-vos, depois, de dizer palavras desabridas, e ainda mais de usar de maneiras altivas e grosseiras, porque, às vezes, mais desagradam os modos ásperos do que as próprias palavras injuriosas. Se vossas irmãs [o texto foi dirigido originalmente à orientação espiritual de religiosas] dirigirem algumas palavras de desprezo, um pouco de coragem! sofrei-o; sofrei tudo por amor de Jesus Cristo, que suportou muitos outros desprezos maiores por amor de vós. 

Meu Deus! que miséria ver certas religiosas, que vão todos os dias à oração e tantas vezes à comunhão, mostrarem-se tão sensíveis e delicadas a toda palavra de pouco respeito e a todo ato pouco atencioso que se lhes fazem! Sóror Maria da Ascensão, quando recebia alguma afronta, corria logo ao altar do Santíssimo Sacramento e dizia: 'Meu divino Esposo, eu vos ofereço este mimo. Dignai-vos aceitá-lo e perdoar a quem me ofendeu'. Por que não havereis de fazer assim? É necessário sofrer tudo para conservar a caridade. 

2. Quando alguma pessoa vos falar com cólera, vos injuriar ou censurar de alguma coisa, respondei-lhe com doçura, e a vereis logo aplacada, porque está escrito: 'Uma resposta branda detém e acalma a ira' (Pv 15,1). 'Assim como o fogo não pode ser extinto pelo fogo', nota São João Crisóstomo, 'assim também a ira não pode ser apaziguada pela ira'. Aquela pessoa vos fala com ira e vós lhe respondeis com cólera, como quereis que se acalme? Ainda que acendereis nela o furor, e ofendereis ainda mais a caridade. 

Eis o que Sofronio refere a este propósito: 'Dois monges em viagem tendo errado o caminho, entraram, por acaso, em um campo semeado. O camponês, guarda do território, ao vê-los andando naquele sítio, os cobriu de injúrias. Eles, a princípio, calaram-se, mas vendo que o guarda se enfurecia cada vez mais e engrossava as afrontas, disseram-lhe: Irmão, nós erramos, nós fizemos mal. Por amor de Deus, perdoai-nos. Essa resposta tão humilde o fez entrar em si, de modo que, por sua vez, se pôs a pedir perdão das injúrias irrogadas; e se compungiu tanto, que deixou o mundo e se fez monge com eles'. 

3. Algumas vezes, talvez vos pareça razoável, ou mesmo necessário rebater a insolência de qualquer irmã, respondendo-lhe com vivacidade, sobretudo se sois superiora e ela vos tenha faltado como respeito. Mas, cuidado com a ilusão! Sabei que nesse caso é antes a paixão, do que a razão, que vos leva a falar. Não nego que, especulativamente falando, às vezes, seja lícito irar-se, com tanto que faça sem defeito, como disse o rei profeta (Sl 4,5). Mas a dificuldade está em pôr-se isto em prática. Entregar-se à ira é como montar em um cavalo fogoso que não obedece ao freio, sem saber onde nos levará. 

Por isso escreve sabiamente São Francisco de Sales na sua Filoteia: 'Os movimentos da cólera devem ser reprimidos, por maior que seja a causa que os justifique'. E acrescenta o santo: 'É melhor que se diga de vós que nunca vos irais, do que se afirme que vos encolerizais com razão'. E Santo Agostinho nota que é difícil lançar fora da alma a cólera que uma vez se deixou ali entrar; e por isso exortava a fechar-se a porta todas as vezes que tentasse lá entrar. Um certo filósofo, chamado Agripino, tendo perdido todos os seus bens, dizia tranquilo: 'Se perdi tudo, não quero perder também a paz'. 

Assim dizei também vós, quando receberdes algum desprezo. Se já sofrestes a afronta, quereis perder também a paz, entregando-vos à cólera? Irritar-vos seria causar-vos a vós mesmas um dano muito maior do que a perda da estima ocasionada pela injúria. Santo Agostinho diz ainda que encolerizar-se com o insulto é castigar-se a si mesmo. É sempre nocivo perturbar-se, ainda que fosse por ter cometido alguma falta, porque, como diria São Luiz Gonzaga, 'na água turva, isto é, na alma inquieta, o demônio sempre acha que pescar'. 

4. Eu vos disse que, quando vos irrogarem alguma injúria ou vos falarem com ira, vós devereis responder com mansidão; entretanto, se, na ocasião, vos sentirdes perturbadas, será melhor guardar silêncio. Então a paixão vos fará parecer justo e razoável tudo o que disserdes. Observa São Bernardo: 'Os olhos ofuscados pela indignação não vêem mais o que é justo e o que é injusto'. Figurai-vos que a paixão é como um véu preto posto diante dos olhos, que vos não deixa discernir o torto do direito. 

5. Se acontecer que uma irmã, depois de vos ter ofendido, se arrependa e venha vos pedir perdão, guardai-vos de recebê-la de semblante carregado ou lhe responder com meias palavras, ou de fitar os olhos no chão ou pôr-nos a olhar as estrelas. Fazendo assim, ofendereis muito a caridade e dareis ensejo a essa irmã de mais vos odiar, e além disso dareis um grande escândalo a todo o mosteiro. Ao contrário, testemunhai-lhe uma sincera estima e se, por humildade, ela se ajoelhar diante de vós, dobrai também os joelhos; e quando começar a pedir-vos perdão, cortai-lhe a palavra na boca, dizendo: 'Ó minha irmã, para que fazer isto? Sabeis quanto vos amo e estimo. Pedis perdão a mim? Eu é que vos devo pedir perdão de vos ter inquietado, pela minha ignorância e descuido, não usando da atenção que vos devia. Desculpai-me, pois, e perdoai-me'. 

6. Se, porém, vos suceder ofender alguma de vossas irmãs, empregai logo todos os esforços para apaziguá-la e tirar-lhe do coração todo o rancor. Diz São Bernardo, que não há meio mais próprio para reparar a caridade ofendida, do que humilhar-se. E fazei isto o mais cedo possível. Esforçai-vos por vencer a repugnância que experimentais; porque quanto mais demorardes, mais crescerá a vossa repugnância e depois nada fareis. Sabeis o que disse Jesus Cristo: 'Se estiverdes já diante do altar para ofender a vossa oblação, isto é para comungar ou para ouvir Missa, e vos lembrardes que vosso próximo está desgostoso convosco, deixai o altar e ide primeiro reconciliar-vos com ele (1Jo 3, 18). Advirta-se porém que, às vezes, não convém usar deste ato de humilhação, quando se julga que isso ocasione novo dissabor à pessoa ofendida. Neste caso, espere-se uma ocasião mais oportuna ou empregue-se a intervenção de outra irmã, e tenha-se cuidado de demonstrar-lhe uma atenção e respeito particular.

(Excertos da obra 'A Verdadeira Esposa de Jesus Cristo', de Santo Afonso Maria de Ligório)

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

FOTO DA SEMANA

'O Senhor, teu Deus, vai conduzir-te a uma terra excelente, cheia de torrentes, de fontes ... que brotam nos vales e nos montes' (Dt 8, 7) 

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

TRÊS PERGUNTAS SOBRE AS VIRTUDES QUE NOS FALTAM

Primeira: 

'Onde está o teu tesouro, lá também está o teu coração' (Mt 6,21)

'Tesouro” é aquilo que mais prezamos, que mais valorizamos. Pode ser uma pessoa querida, ou o nosso sucesso, ou o dinheiro, ou o prazer... O 'coração' – o mundo íntimo dos nossos pensamentos, sonhos, projetos e desejos – está centrado naquilo que mais estimamos e julgamos necessário para a nossa felicidade. Qual é seu ' tesouro'? Qual é o 'rei' que reina em seu mundo íntimo? Para muitas pessoas, o 'tesouro' são os três esses: Sucesso, Satisfação, Sossego. Se você se enquadra aí, não duvide: precisa urgentemente começar a lutar contra o egoísmo.

Para outras, o 'tesouro' consiste em acumular riquezas, entrar na lista dos 'mais'. Não entendem que, se os bens materiais são o seu Tesouro – assim, com maiúscula – estão a caminho de um suicídio moral, e podem despedir-se da felicidade que Cristo promete: 'Felizes os pobres em espírito [os que são desprendidos e generosos, ainda que tenham bens], porque deles é o Reino dos céus' (Mt 5,3). Para outros é a liberdade. Por enquanto, vou limitar-me a perguntar: Liberdade para quê? Dependendo da resposta, você vai conhecer seu coração. Se é liberdade para 'fazer o que eu quero', você é um lamentável egoísta; se for liberdade para poder dar-se mais a Deus e dedicar-se a grandes ideais em favor dos outros, você tem a virtude da generosidade. 

Segunda: 

'A boca fala daquilo de que o coração está cheio' (Lc 6,45) 

De que fala mais você? De você mesmo? Fala demais e escuta pouco? Não precisa refletir muito: você tem que lutar contra a vaidade. Talvez o despertem estas palavras de Caminho: 'Obstinas-te em ser o sal de todos os pratos... e – não te zangues se te falo claramente – tens pouca graça para ser sal... Falta-te espírito de sacrifício. E sobra-te espírito de curiosidade e de exibição' (n. 48). Você critica muito os outros? Acha logo defeito em tudo o que dizem ou fazem? Precisa adquirir a virtude da compreensão. E, se curte mágoas e rancores, precisa – mais do que o ar que respira – aprender a virtude da misericórdia. 

Você é boca-suja, que não pára de falar de sexo e baixarias? Precisa descobrir e começar a praticar uma virtude que provavelmente ignora, e até despreza, a castidade; e precisa também praticar a veracidade, isto é, lutar para não ficar enganando, traindo os compromissos de fidelidade que assumiu. Você pensa até dormindo – como se fosse um ingrediente imprescindível da felicidade – em requintes de comida, em bebidas, em prazeres do gosto que não consegue largar? Também é urgente que aprenda como se adquire a virtude da temperança. 

Terceira: 

'Por que estais tristes?' (Lc 24,17)

Essa é a primeira pergunta que Jesus ressuscitado fez aos discípulos de Emaús, quando voltavam para casa desesperançados, depois do 'fracasso' de Jesus na Cruz. As alegrias e as tristezas (não falo das que procedem do amor a Deus aos outros) são excelentes radiografias das doenças do coração. Causa-lhe alegria o que é 'fácil' ou o que é 'certo'? Diz, todo feliz: 'Consegui driblar um compromisso'? Então, no seu coração há um buraco negro no lugar que deveria ocupar a virtude da responsabilidade. 

Causa-lhe muito mais alegria o que recebe do que aquilo que dá? Há um vazio no lugar da caridade e da abnegação. Quando se porta mal, entristecem-no as ofensas feitas a Deus e ao próximo, ou só a humilhação de se ver fraco e ruim? Precisa, então, ganhar as virtudes da humildade e do arrependimento. Alegra-se com o fracasso dos outros, quando faz brilhar mais o seu sucesso? Não demore a iniciar uma luta séria contra os feios vícios da inveja e da vanglória. 

As perguntas poderiam prosseguir e continuarão em outros capítulos. Mas vou terminar agora com palavras de um sermão de Quaresma de São Bernardo, que inspiraram as perguntas acima: 'Examina com cuidado o que é que amas, o que é que temes, de que te alegras, com que te entristeces. Todo o coração consiste nestes quatro afetos' (Sermão no começo do jejum, n. 2-3). As virtudes que nos faltam são um cartaz luminoso. Cada uma delas nos lança um apelo: veja o caminho que ainda deve percorrer, e comece a andar. Pense. Reze. Peça luz a Deus e procure ver a verdade no fundo do seu coração (Sl 50, 8).

(Excertos da obra 'A Conquista das Virtudes', de Francisco Faus)

terça-feira, 6 de agosto de 2019

COMPÊNDIO DE SÃO JOSÉ (XVIII)


86. São José entrou também no folclore? 

A piedade popular e o amor a São José que os fiéis demonstraram teve um gosto folclorístico em muitos lugares. Na Sicília (Itália), por ocasião do dia 19 de março, os fiéis organizavam o 'Banquete de São José', convidando alguns pobres para almoçarem em suas casas. Ainda na Sicília, costumava-se vestir um velho de bons costumes com uma túnica e um manto, tendo nas mãos uma vara florida, com a qual abençoava o povo. Em outras localidades levam-se, neste dia, pães às Igrejas para serem abençoados e distribuídos aos pobres ou comidos em família. Ainda na Itália, numa localidade de nome Gela, costuma-se no dia 1º de maio levar à Igreja o 'Prato de São José', cheio de vários tipos de alimentos. Este é leiloado e a renda revertida para as obras de caridade. Da mesma forma, em Riccia (Itália), os fiéis praticam a devoção a São José, convidando para o almoço três pessoas: um casal e um adolescente ou jovem, representando a Sagrada Família. Em Siracusa, no dia 19 de cada mês, os devotos celebravam o chamado 'dezenove', onde doze devotos preparam, cada um, três roscas grandes e várias roscas pequenas e as levavam diante da imagem do santo durante a missa do dia; as três roscas grandes eram distribuídas uma para um idoso, outra para uma moça e a terceira para uma criança, enquanto que as pequenas eram dadas aos amigos. 

Em outros lugares, no dia 19 de março, as famílias preparam uma farta mesa convidando cinco pessoas representando Jesus, Maria , José, Santa Ana e São Joaquim, ou também preparam uma farta mesa na praça pública às 12 horas, onde participam dela os mais pobres e idosos. No dia 23 de janeiro, Festa dos Esponsais de São José com Maria, costuma-se mandar benzer muitos doces e confeitos para depois levá-los aos doentes e distribuí-los entre os amigos. Outro costume em Nápoles (Itália) é o de, na ocasião da festa do santo, organizar a 'Violeta de São José', onde os devotos oferecem estas flores ao santo nas igrejas ou diante das imagens que possuem em suas casas. Existe ainda o costume de organizar procissões que partem de duas igrejas, uma com a imagem de São José e outra de Nossa Senhora, e estas se encontram na praça principal, onde Nossa Senhora oferece um ramalhete de flores a São José. Atualmente no Brasil,  em várias igrejas, celebra-se a 'Novena de São José' nos dias 19 de cada mês, onde os devotos costumam levar alimentos, folhas de chá, flores para serem abençoadas e depois levadas para as suas casas ou distribuídas. 

87. São José é relacionado a alguma crença particular? 

Na Escócia, ele é tido como Patrono do Tempo, por isso a sua estátua é colocada fora de casa e coberta com um guarda-chuva para indicar o tempo que se deseja. Na Austrália sua estátua é colocada para fora com um guarda-chuva aberto. No nordeste do Brasil, ele é tido como o santo que envia a chuva; se não chove no dia de São José, o povo acredita que aquele ano será de seca, mas se chover no dia 19 de março ou proximidades desde dia, o tempo será bom e haverá boa colheita. Neste dia o povo faz uma procissão com sua imagem e solta muitos fogos de artifício. Na Califórnia (EUA), mantém-se viva a tradição de que, no dia 19 de março, os pássaros retornam para a primavera. São José disputa também com Santo Antônio o título de santo casamenteiro. No Brasil, desde o século XVIII, é invocado pelas mulheres grávidas, as quais sempre recorrem a Nossa Senhora do Bom-parto, mas com a participação de São José. Ainda no Brasil, sobretudo no Nordeste, é invocado como protetor para um bom casamento, ou para se livrar de um casamento indesejado. Sobretudo no Nordeste o povo faz procissões de penitência durante a seca onde cantam 'Bendito, louvado seja, Senhor São José, leva Deus Menino para Nazaré'. 

88. E o que dizer da presença de São José na arte? 

Juntamente com Nossa Senhora, São José é sem dúvida um dos personagens bíblicos mais presentes na arte. A arte espelha aquilo que foi pregado e ensinado aos fiéis ao longo dos séculos nos diversos lugares; a arte testemunha a catequese. Vemos São José sempre presente nas representações do nascimento de Jesus em Belém; vemo-lo ao lado de Maria, em sonho, com o Menino Jesus nos braços; apresentando o Menino no Templo; fugindo para o Egito; dentro da sua carpintaria com serrote nas mãos; ensinando Jesus, com o martelo nas mãos; em adoração diante do Menino; com o livro nas mãos ensinando Jesus… Apreciamos na arte um São José velho, com cabelos e barba brancos, com um bastão ou vara florida nas mãos, com uma auréola na cabeça, com um lírio na mão direita, na cena do casamento com Maria… Mas vemos também um São José jovem, jovial, alegre, robusto, sereno, afável, dócil, como aquele apresentado pelo diretor de cinema Franco Zeffirelli em seu filme: 'Jesus de Nazaré', no exercício de sua profissão de carpinteiro, inserido dentro de uma família, atraente, hebreu profundamente religioso… Podemos dizer que a presença de São José na arte é bastante satisfatória a ponto de possibilitar variadas exposições denominadas 'José na arte' em diversos lugares. 

89. Por que José é representado na arte com um bastão florido na mão? 

A origem do bastão florido é bíblica, está ligada à eleição de Araão para o serviço do tabernáculo (Nn 17,6-16). O bastão é símbolo de autoridade, é um instrumento para exprimir o juízo de Deus. Com o florescimento do próprio bastão, Araão foi divinamente eleito para o serviço do Santuário. A José foi reservada uma missão mais importante do que a de Araão, pois ele foi designado para servir o 'tabernáculo verdadeiro, constituído pelo Senhor, e não por um homem' (Hb 8,2; 9,11.24). Se para escolher aquele que devia servir o antigo Tabernáculo foi necessária uma eleição divina, com muito mais razão houve a necessidade da escolha divina para aquele que devia servir a realidade mesma da Nova Aliança, ou seja, Jesus. 

90. Por que, às vezes, os artistas representam o bastão de São José com flores de amendoeira e outras vezes com um lírio? 

Esta diferente representação é devida ao fato de uma prevalente interpretação moral sobre uma interpretação religiosa. A interpretação artística do bastão florido é símbolo de sua divina eleição como esposo de Maria e pai de Jesus e foi entendida como prova de sua castidade virginal e portanto representada pelo lírio. O simbolismo da flor de amendoeira recebe a explicação com o fato de que, na língua hebraica, a amendoeira é chamada saqed, que significa 'vigilante', porque é a primeira planta que floresce na primavera e aqui se entende a ligação do simbolismo com o fato descrito em Jeremias (Jr 1,11) entre o ramo de uma amendoeira visto pelo profeta e a vigilância que Deus exercita sobre a sua palavra. José é justamente aquele que deve estar sempre vigilante sobre Jesus e Maria, realizando assim a vigilância de Deus sobre as suas promessas.

('100 Questões sobre a Teologia de São José', do Pe. José Antonio Bertolin, adaptado)

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

O TESOURO DAS INDULGÊNCIAS

Para um católico seriamente praticante, que conhece pelo menos os pontos básicos do Catecismo, a Santa Igreja é de uma beleza incomparável. Seus tesouros espirituais, descobertos a cada dia, são sempre motivo de encantamento, alegria e admiração. Para os não católicos ou os indiferentes à Igreja, mas principalmente para aqueles que lhe têm um ódio profundo, qualquer pequena calúnia levantada contra Ela ou o mau procedimento de algum de seus filhos é pretexto para arroubos de indignação e deblateração. É o que sucede, por exemplo, com a doutrina sobre as indulgências.

Quanta calúnia se levantou contra a Igreja a propósito do famigerado heresiarca Lutero, com sua revolta baseada em uma suposta 'venda da salvação eterna pelas indulgências'! Quanta invenção, mentira, superficialidade e ignorância histórica! 

Dedicando-me à formação religiosa de adolescentes, tenho observado uma atenção e um interesse especial deles pelo assunto, o que me levou muitas vezes a orientá-los. Recentemente fui convidado a expor a doutrina sobre as indulgências para pessoas já bem longe da adolescência, conhecedores da doutrina católica e com décadas na prática séria da religião. Para surpresa minha, o interesse dos componentes desse público era igual ou até maior que o dos jovens, mas observei também, da parte deles, um conhecimento insuficiente e não aprofundado sobre a matéria, que os leva a não aproveitar esta riqueza incomparável da Igreja.

A grande Santa Teresa d’Ávila teve uma visão de Nosso Senhor, durante a qual ela viu no Céu uma religiosa de sua Ordem que era pouco fervorosa. Espantada, quis saber por que a mesma se livrou tão rapidamente do Purgatório. O Divino Redentor então lhe respondeu: 'Ela soube aproveitar bem as indulgências que a Santa Igreja lhe concedia'. Explicarei do modo mais sucinto e didático possível como um católico pode obter facilmente uma indulgência plenária, e também como ele pode ir diretamente para o Céu sem passar pelo Purgatório, bastando rezar algumas orações durante a vida.

Nada disso é impossível aos católicos que têm uma vida de piedade normal. Não se requerem méritos nem 'truques' pessoais, pois os benefícios advindos das indulgências nos são fornecidos pelos méritos infinitos de Nosso Senhor Jesus Cristo, da Virgem Santíssima e dos santos. Tudo está claramente definido no Manual das Indulgências, documento oficial da Santa Igreja, do qual colhi as condições, normas e vantagens para a obtenção durante a vida da remissão das próprias penas, bem como as vantagens decorrentes, como exponho a seguir.

A remissão das penas temporais devidas aos pecados já perdoados pode ser obtida de várias maneiras: por atos de penitência voluntária, jejuns, sofrimentos no Purgatório ou através das indulgências. São seis as condições para se receber uma indulgência plenária:

1. Ter a intenção de recebê-la; pode ser uma intenção genérica, enunciada no começo do dia, uma vez por semana ou até uma vez por mês.

2. Confessar-se; uma única confissão vale para muitas indulgências plenárias.

3. Comungar; uma comunhão vale apenas para uma indulgência plenária.

4. Rezar pelas intenções do Santo Padre; pode ser um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.

5. Não ter apego ao pecado, mesmo venial; isto não significa a exigência de a pessoa não cometer pecado, mas sim de não ter apego a ele e desejar abandoná-lo.

6.  Execução da obra; dou cinco exemplos de atos fáceis de serem realizados:

a) Meia hora de visita ao Santíssimo Sacramento;

b) Rezar um terço em família, em grupo ou com algum amigo;

c) Ler durante meia hora um dos livros da Bíblia Sagrada;

d) Ensinar o Catecismo durante meia hora;

e) Assistir a uma Primeira Comunhão.

Além de ganhar uma indulgência plenária todos os dias, o fiel que ao longo de sua vida rezar — uma vez por semana, por exemplo — uma oração (a 'Alma de Cristo' ou qualquer outra) fazendo uso de um crucifixo, receberá uma indulgência plenária no momento de sua morte.

Uma dádiva como esta constitui uma verdadeira misericórdia de Deus, desde que queiramos e nos esforcemos para viver na sua amizade. Ela nos induz a abandonar o pecado e nos livra dos pesos de consciência que sempre acompanham o estado de pecado grave. Aproveitemos todas as indulgências que nos são concedidas para o nosso proveito, o bem das almas e as necessidades da Santa Igreja, mas principalmente para a maior glória de Deus Nosso Senhor.

(Sérgio Bertoli, Revista Catolicismo n. 805, janeiro de 2018)