sexta-feira, 20 de maio de 2022

A IGREJA CATÓLICA É UNA E INTOLERANTE (III)

'Sempre será mais prudente gritar antes de ser ferido. Não adianta gritar uma vez que se está ferido, especialmente se alguém está mortalmente ferido. Fala-se de impaciência, mas os bons historiadores sabem muito bem que as tiranias muitas vezes foram possíveis porque o os cidadãos agiram tarde demais. É quase sempre primordial resistir à tirania antes que ela exista. Não vale a pena dizer, com otimismo desapegado, que a coisa ainda está indefinida. Um golpe de machado só pode ser evitado enquanto ainda está no ar'.

('Eugenia e Outras Desgraças' - G.K. Chesterton)


'Incomoda-te ferir, criar divisões, demonstrar intolerância... e vais transigindo em posições e pontos (não são graves, garantes-me!) que têm consequências nefastas para muitos. Desculpa a minha sinceridade: com esse modo de atuar, tu, a quem tanto incomoda a intolerância, cais na intolerância mais néscia e prejudicial - a de impedir que a verdade seja proclamada'.

(Sulco, São Josemaria Escrivá)

BREVIÁRIO DIGITAL - LADAINHA DE NOSSA SENHORA (VI)

 

Deus Pai do Céu, tende piedade de nós.

(Ilustração da obra 'Litanies de la Très-Sainte Vierge', por M. L'Abbé Édouard Barthe, Paris, 1801)


quinta-feira, 19 de maio de 2022

SOBRE O APEGO À REPUTAÇÃO


As pessoas que são frágeis e sensíveis em relação à sua reputação assemelham-se às que, ao mais leve sinal de incômodo, tomam medicamentos, pois pensam que assim mantêm a sua saúde, enquanto, na prática, a deterioram. Aquelas que querendo manter tão delicadamente a sua reputação a perdem inteiramente, porque, com esta sensibilidade, tornam-se bizarras, obstinadas, insuportáveis e provocam a malícia dos maledicentes.

A reputação é simplesmente como uma insígnia que dá a conhecer onde está alojada a virtude. Portanto, a virtude deve ser preferida em tudo e em toda parte. Se as pessoas dizem que és um hipócrita porque te submetes à devoção; se és tido como homem de pouca fibra porque perdoaste a injúria, não faças caso de tudo isto.

Porque esses julgamentos são feitos por pessoas néscias e estúpidas na tentativa de que a pessoa perca a sua reputação, mas nem por isso deve abandonar a virtude nem afastar-se do seu caminho, tanto mais que se deve preferir o fruto às folhas, isto é, o bem interior e espiritual a todos os bens exteriores. É preciso ser zeloso, mas não idólatra de nossa reputação; e como não se deve ofender os olhos dos bons, também não se deve querer contentar o dos malignos.

(Excertos da obra 'Introdução à Vida Devota, de São Francisco de Sales)

quarta-feira, 18 de maio de 2022

A IGREJA CATÓLICA É UNA E INTOLERANTE (II)

Se eu não fosse católico e estivesse à procura da verdadeira Igreja no mundo de hoje, iria em busca da única Igreja que não se dá bem com o mundo. Por outras palavras, procuraria uma Igreja que o mundo odiasse. Faria isto porque se Cristo ainda está presente em qualquer uma das igrejas do mundo de hoje, Ele deve ainda ser odiado como o era quando estava na Terra, vivendo na carne.

Se quiser encontrar Cristo hoje procure uma Igreja que não se dá bem com o mundo. Procure uma Igreja que é odiada pelo mundo, como Cristo foi odiado pelo mundo. Procure pela Igreja que é acusada de estar desatualizada com os tempos modernos, como Nosso Senhor foi acusado de ser ignorante e nunca ter aprendido. Procure pela Igreja que os homens de hoje zombam e acusam de ser socialmente inferior, assim como zombaram de Nosso Senhor porque Ele veio de Nazaré. Procure pela Igreja que é acusada de estar com o diabo, assim como Nosso Senhor foi acusado de estar possuído por Belzebu, príncipe dos demônios.

Procure a Igreja que, em tempos de intolerância (contra a sã doutrina), os homens dizem que deve ser destruída em nome de Deus, do mesmo modo que os que crucificaram Cristo julgavam estar prestando serviço a Deus. Procure a Igreja que o mundo rejeita porque ela se proclama infalível, pois foi pela mesma razão que Pilatos rejeitou Cristo: por Ele se ter proclamado como sendo 'A Verdade'. Procure a Igreja que é rejeitada pelo mundo, assim como Nosso Senhor foi rejeitado pelos homens. Procure a Igreja que, no meio das confusões de opiniões, os seus membros a amem do mesmo modo que amam a Cristo e respeitem a sua voz como a voz do seu Fundador.

E aí começará a suspeitar que se essa Igreja é impopular com o espírito do mundo é porque ela não pertence a este mundo. E, uma vez que pertence a outro mundo, será infinitamente amada e infinitamente odiada como foi o próprio Cristo. Pois só aquilo que é de origem divina pode ser infinitamente odiado e infinitamente amado. Portanto, essa Igreja é divina .

(Arcebispo Fulton J. Sheen, Radio Replies, Vol. 1)

BREVIÁRIO DIGITAL - LADAINHA DE NOSSA SENHORA (V)


Cristo, atendei-nos.

(Ilustração da obra 'Litanies de la Très-Sainte Vierge', por M. L'Abbé Édouard Barthe, Paris, 1801)

terça-feira, 17 de maio de 2022

TESOURO DE EXEMPLOS (149/151)


149. O RESPEITO DO IMPERADOR

No ano de 325, após três séculos de cruéis perseguições, movidas pelos imperadores pagãos contra os discípulos de Jesus Cristo, puderam afinal reunir-se em Nicéia os bispos de todo mundo, para celebrar o primeiro Concílio ecumênico ou universal. A esse concílio assistiram trezentos e quinze bispos e inúmeros sacerdotes. A ele assistiu também o grande imperador Constantino, que fizera cessar a perseguição contra a Igreja, convertendo-se ele próprio ao catolicismo.

O imperador, cheio de respeito para com os ilustres prelados, quis ocupar o último lugar na augusta assembleia e, além disso, não se assentava antes dos bispos ou sem obter permissão para isso. Terminado o grandioso Concílio, perguntou alguém ao monarca:
➖ Por que mostrava vossa majestade tanto respeito àqueles homens?
➖ Meu amigo - disse o imperador - o sacerdote, embora revertido de uma dignidade divina, é homem e pode pecar; mas nenhum de seus pecados deve diminuir o nosso respeito. Digo-lhe mais: se visse um sacerdote pecar, em vez de publicar ou divulgar o pecado dele, cobriria o sacerdote com meu manto imperial para subtraí-lo às murmurações.

Aquele imperador tinha razão. O caráter sacerdotal é de um valor intenso, impresso embora, algumas vezes, numa alma fraca.

150. VIVA CRISTO REI!

No México, não faz muitos anos, um presidente chamado Calles perseguiu com furor não só os padres, mas também todos os católicos militantes. Em setembro de 1927, os soldados de Calles prenderam três jovens: José Valência, Nicolau Navarro e Salvador Vergas, porque faziam propaganda em favor da religião.

Depois de maltratá-los brutalmente, conduziram-nos, a 3 de janeiro de 1928, para longe da cidade, e ali os espancaram e feriram com cutelos. Repreendeu-os José Valência, dizendo:
➖ Sois uns perversos, martirizando-nos ferozmente: Deus vos perdoe!
E dirigindo-se aos companheiros, recordou-lhes que eram católicos, que a verdadeira pátria era o céu, para onde logo partiriam. E todos os três gritaram: Viva Cristo Rei! Viva a Mãe de Deus! 

Furiosos, os cruéis soldados os espancavam de novo e cortaram-lhes a língua, dizendo:
➖ Vamos ver se agora falais e rezais!
Ao volver-se o mártir para os seus companheiros para mostrar-lhes o céu, fuzilaram-no e em seguida cortaram-lhe a cabeça. Os outros dois companheiros imitaram o heroísmo do primeiro.

Em seguida aquela soldadesca tomou os cadáveres e, levando-os à cidade, deixou-os no meio da praça, como se tivesse realizado uma grande façanha. Acudiu logo uma multidão imensa de curiosos. Chamaram também a mãe do jovem mártir José Valência. A heroica senhora, em vez de chorar, olhos fixos no céu exclamou:
➖ Senhor, bendigo-vos por terdes disposto que eu fosse a mãe de um mártir!
E julgando-se indigna de abraçar o corpo do filho, beijou-lhe os pés devotamente.

151. QUE LHE PARECE?

Apresentou-se, certo dia, num convento, uma jovem que desejava ser religiosa. Parecia ter muito boas disposições, mas a Superiora, querendo experimentar-lhe a vocação, percorreu com ela as dependências da casa, e foi dizendo:
➖Esta é a nossa capela. Aqui mora o dono da casa: é Jesus. O que Ele manda se faz; O que Ele proíbe, se deixa: o que não pede, se adivinha.

Rezaram ali um instante e, continuando a visita, disse a Superiora:
➖ Aqui é a sala de jantar: tudo pobre. Sendo assim, neste refeitório não se prova nenhum manjar delicado, entende?
➖ Sim, senhora - respondeu a jovem.
➖ Esta é a sala de trabalhos; como sabe, todas as religiosas vivem trabalhando e rezando; descanso, só no céu.

Passaram a outro corredor e a Superiora indicou uma cela à jovem, dizendo:
➖ Este será o seu quarto; é limpo, mas pobre, até na mobília. Será a sua morada para toda a vida: aqui você fará penitência por seus pecados e pelos pecados do mundo, ouviu?
➖ Sim, senhora.

Saíram para fora da casa, andaram alguns passos e a Superiora falou então:
➖ Olhe este horto; quando você falecer, será enterrada, sem nenhuma pompa, aos pés daquele grande Cristo.

A jovem, sem dizer uma palavra, contemplava a bela imagem de Jesus Crucificado.
➖ Que lhe parece? Tem medo?
➖ Não, madre - respondeu. Está tudo bem. Não tenho medo não; porque na capela, na sala de trabalhos, no refeitório, na cela, no jardim e em toda parte vi o Crucifixo; ele me dará forças para sofrer. Se tanto padeceu Jesus por mim, por que não hei de padecer um pouco por Ele?
E a jovem foi aceita. E tornou-se santa.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)

segunda-feira, 16 de maio de 2022

A IGREJA CATÓLICA É UNA E INTOLERANTE (I)

Nosso século clama: 'Tolerância, Tolerância!'. Tem-se como certo que um sacerdote deve ser tolerante, que a religião deve ser tolerante. Meus irmãos, não há nada que valha mais que a franqueza, e eu aqui estou para vos dizer, sem disfarce, que no mundo inteiro só existe uma sociedade que possui a verdade, e que esta sociedade deve ser necessariamente intolerante.

É da essência de toda verdade não tolerar o princípio que a contradiz. A afirmação de uma coisa exclui a negação dessa mesma coisa, assim como a luz exclui as trevas. Onde nada é certo, onde nada é definido, podem-se partilhar os sentimentos, podem variar as opiniões. Compreendo e peço a liberdade de opinião nas coisas duvidosas: in dubiis, libertas. Mas, logo que a verdade se apresenta com as características certas que a distinguem, por isso mesmo que é verdade, ela é positiva, ela é necessária, e por conseguinte ela é una e intolerante: in necessariis, unitas.

No mundo inteiro só existe uma sociedade que possui a verdade e esta sociedade deve ser necessariamente intolerante. Condenar a verdade à tolerância é condená-la ao suicídio. A afirmação se aniquila se duvida de si mesma, e ela duvida de si mesma se admite com indiferença que se ponha a seu lado a sua própria negação. Para a verdade, a intolerância é o instinto de conservação, é o exercício legítimo do direito de propriedade. Quando se possui alguma coisa, é preciso defendê-la, sob pena de logo se ver despojado dela.

Assim, meus irmãos, pela própria necessidade das coisas, a intolerância está em toda parte, porque em toda parte existe o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, a ordem e a desordem. O que há de mais intolerante do que esta proposição: 2 mais 2 são 4? Nada é tão exclusivo, meus irmãos, quanto a unidade. Ouvi a palavra de São Paulo: Unus Dominus, una fides, unum baptisma. Há, no céu, um só Senhor: unus Dominus. Esse Deus, cuja unidade é seu grande atributo, deu à terra um só símbolo, uma só doutrina, uma só fé: una fides. E esta fé, esta doutrina, Ele confiou-as a uma só sociedade visível, uma só Igreja, cujos filhos são, todos, marcados com o mesmo selo e regenerados pela mesma graça: unum baptisma.

Assim, a unidade divina que resplandece por todos os séculos na glória de Deus produziu-se sobre a terra pela unidade do dogma evangélico, cujo depósito foi confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo à unidade hierárquica do sacerdócio: um Deus, uma fé, uma Igreja: unus Dominus, una fides, unum baptisma. Para a verdade, a intolerância é o instinto de conservação, é o exercício legítimo do direito de propriedade.

Um pastor inglês teve a coragem de escrever um livro sobre a tolerância de Jesus Cristo, e certo filósofo de Genebra disse, falando do Salvador dos homens: 'Não vejo que meu divino Mestre tenha formulado sutilezas sobre o dogma'. Bem verdadeiro, meus irmãos. Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma, mas trouxe aos homens a verdade e disse: 'Se alguém não for batizado na água e no Espírito Santo, se alguém se recusa a comer a minha carne e a beber o meu sangue, não terá parte em meu reino'. Confesso que nisso não há sutilezas; há intolerância, há exclusão, a mais positiva, a mais franca.

E mais: Jesus Cristo enviou os seus Apóstolos para pregar a todas as nações, isto é, derrubar todas as religiões existentes, para estabelecer em toda a terra a única religião cristã e substituir todas as crenças dos diferentes povos pela unidade do dogma católico. E, prevendo os movimentos e as divisões que esta doutrina iria incitar sobre a terra, Ele não se deteve e declarou que tinha vindo para trazer não a paz, mas a espada, e para acender a guerra não somente entre os povos, mas no seio de uma mesma família e separar, pelo menos quanto às convicções, a esposa fiel do esposo incrédulo, o genro cristão do sogro idólatra. A afirmação é verdadeira e o filósofo tem razão: Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma.

Falam da tolerância dos primeiros séculos, da tolerância dos Apóstolos. Mas isso não é assim, meus irmãos. Ao contrário, o estabelecimento da religião cristã foi, por excelência, uma obra de intolerância religiosa. No momento da pregação dos Apóstolos, quase todo o universo praticava essa tolerância dogmática tão louvada. Como todas as religiões eram igualmente falsas e igualmente desarrazoadas, elas não se guerreavam; como todos os deuses valiam a mesma coisa uns para os outros, eram todos demônios, não eram exclusivos, eles se toleravam uns aos outros: Satã não está dividido contra si mesmo.

O estabelecimento da religião cristã foi, por excelência, uma obra de intolerância religiosa. O Império Romano, multiplicando suas conquistas, multiplicava os seus deuses, e o estudo de sua mitologia se complica na mesma proporção que o de sua geografia. O triunfador que subia ao Capitólio fazia marchar diante dele os deuses conquistados com mais orgulho ainda do que arrastava atrás de si os reis vencidos. O mais das vezes, em virtude de um decreto do senado, os ídolos dos bárbaros se confundiam desde então com o domínio da pátria e o Olimpo nacional crescia como o Império.

Quando apareceu o cristianismo (prestem atenção a isso, meus irmãos, são dados históricos de valor com relação ao assunto presente), quando o cristianismo surgiu pela primeira vez, não foi repelido imediatamente. O paganismo perguntou-se se, em vez de combater a nova religião, não devia dar-lhe acesso ao seu solo. A Judéia tinha se tornado uma província romana. Roma, acostumada a receber e conciliar todas as religiões, recebeu a princípio, sem maiores dificuldades, o culto saído da Judéia. Um imperador colocou Jesus Cristo, como a Abraão, entre as divindades de seu oratório, assim como se viu mais tarde outro César propor prestar-lhe homenagens solenes.

Mas a palavra do profeta não tardou a se verificar: as multidões de ídolos que viam, de ordinário sem ciúmes, deuses novos e estrangeiros ser colocados ao lado deles, com a chegada do Deus dos cristãos, lançam um grito de terror, e, sacudindo sua tranquila poeira, abalam-se sobre seus altares ameaçados: Ecce Dominus ascendit, et commovebuntur simulacra a facie eius - Eis que surge o Senhor, e os ídolos estremecem diante de sua face (Is 19, 1).

Roma estava atenta a esse espetáculo. E logo, quando se percebeu que esse Deus novo era irreconciliável inimigo dos outros deuses; quando se viu que os cristãos, cujo culto se havia admitido, não queriam admitir o culto da nação; em uma palavra, quando se constatou o espírito intolerante da fé cristã, foi então que começou a perseguição.

Ouvi como os historiadores do tempo justificam as torturas dos cristãos. Eles não falam mal de sua religião, de seu Deus, de seu Cristo, de suas práticas; só mais tarde é que inventaram calúnias. Eles os censuram somente por não poderem suportar outra religião senão a deles. 'Eu não tinha dúvidas' - diz Plínio, o Jovem - 'apesar de seu dogma, de que não era preciso punir sua teimosia e sua obstinação inflexível': pervicaciam et inflexibilem obstinationem. 'Não são criminosos' - diz Tácito - 'mas são intolerantes, misantropos, inimigos do gênero humano. Há neles uma fé teimosa em seus princípios, e uma fé exclusiva que condena as crenças de todos os povos': apud ipsos fides obstinata, sed adversus omnes alios hostile odium.

Assim, meus irmãos, o principal agravo contra os cristãos era a rigidez absoluta do seu símbolo de fé, e, como se dizia, o humor insociável de sua teologia. Se só se tratasse de um Deus mais, não teria havido reclamações; mas era um Deus incompatível, que expulsava todos os outros: aí está o porquê da perseguição. Assim, o estabelecimento da Igreja foi obra de intolerância dogmática.

Toda a história da Igreja não é senão a história dessa intolerância. Que são os mártires? Intolerantes em matéria de fé, que preferem os suplícios a professar o erro. Que são os símbolos de fé? São fórmulas de intolerância, que determinam o que é preciso crer e que impõem à razão os mistérios necessários. Que é o papado? Uma instituição de intolerância doutrinal, que pela unidade hierárquica mantém a unidade de fé. Por que os concílios? Para frear os desvios de pensamentos, condenar as falsas interpretações do dogma, anatematizar as proposições contrárias à fé.

Nós somos então intolerantes, exclusivos em matéria de doutrina; disto fazemos profissão; orgulhamo-nos da nossa intolerância. Se não o fôssemos, não estaríamos com a verdade, pois que a verdade é uma, e consequentemente intolerante. Filha do céu, a religião cristã, descendo à terra, apresentou os títulos de sua origem; ofereceu ao exame da razão fatos incontestáveis, e que provam irrefutavelmente sua divindade.

Ora, se ela vem de Deus, se Jesus Cristo, seu autor, pode dizer: 'Eu sou a verdade' - Ego sum veritas, é necessário, por uma consequência inevitável, que a Igreja de Cristo conserve incorruptivelmente esta verdade tal qual a recebeu do céu; é necessário que repila, que exclua tudo o que é contrário a esta verdade, tudo o que possa destruí-la. Recriminar à Igreja Católica sua intolerância dogmática, sua afirmação absoluta em matéria de doutrina, é dirigir-lhe uma recriminação muito honrosa. É recriminar à sentinela ser muito fiel e muito vigilante, é recriminar à esposa ser muito delicada e exclusiva.

As paixões sabem bem o que querem quando procuram abalar os fundamentos da fé. Nós ficamos muitas vezes confusos, meus irmãos, com o que ouvimos dizer sobre todas estas questões até por pessoas sensatas. Falta-lhes a lógica, desde que se trate de religião. É a paixão, é o preconceito que os cega? É um e outro. No fundo, as paixões sabem bem o que querem quando procuram abalar os fundamentos da fé, pondo a religião entre as coisas sem consistência. Elas não ignoram que, demolindo o dogma, preparam para si uma moral fácil.

Diz-se com justeza perfeita: é antes o decálogo que o símbolo de fé o que as faz incrédulas. Se todas as religiões podem ser postas num mesmo nível, é que se equivalem todas; se todas são verdadeiras, é porque todas são falsas; se todos os deuses se toleram, é porque não há Deus. E, se se pode aí chegar, já não sobra nenhuma moral incômoda. Quantas consciências estariam tranquilas no dia em que a Igreja Católica desse o beijo fraternal a todas as seitas suas rivais!

Jean-Jacques Rousseau foi entre nós o apologista e o propagador desse sistema de tolerância religiosa. A invenção não lhe pertence, se bem que ele tenha ido mais longe que o paganismo, que nunca chegou a levar a indiferença a tal ponto. Eis, com um curto comentário, o ponto principal desse catecismo, tornado infelizmente popular: todas as religiões são boas. Isto é, de outra forma, todas as religiões são ruins.

A filosofia do século XIX se espalha por mil canais por toda a superfície da França. Esta filosofia é chamada eclética, sincrética e, com uma pequena modificação, é também chamada progressiva. Esse belo sistema consiste em dizer que não existe nada falso; que todas as opiniões e todas as religiões podem conciliar-se; que o erro não é possível ao homem, a menos que ele se despoje da humanidade; que todo o erro dos homens consiste em julgar-se possuidores exclusivos de toda a verdade, quando cada um deles só tem dela um elo e quando, da reunião de todos esses elos, se deve formar a corrente inteira da verdade. Assim, segundo essa inacreditável teoria, não há religiões falsas, mas são todas incompletas umas sem as outras.

A verdadeira seria a religião do ecletismo sincrético e progressivo, a qual ajuntaria todas as outras, passadas, presentes e futuras: todas as outras, isto é, a religião natural que reconhece um Deus; o ateísmo, que não conhece nenhum; o panteísmo, que o reconhece em tudo e por tudo; o espiritualismo, que crê na alma, e o materialismo, que só crê na carne, no sangue e nos humores; as sociedades evangélicas, que admitem uma revelação e o deísmo racionalista, que a rejeita; o cristianismo, que crê no Messias que veio e o judaísmo, que o espera ainda; o catolicismo, que obedece ao Papa e o protestantismo, que olha o Papa como o Anticristo. Tudo isto é conciliável. São diferentes aspectos da verdade. Da união desses cultos resultará um culto mais largo, mais vasto, o grande culto verdadeiramente católico, isto é, universal, pois que abrigará todas as outras no seu seio.

Esta doutrina, meus irmãos, que qualificais de absurda, não é de minha invenção; ela enche milhares de volumes e de publicações recentes; e, sem que seu fundo jamais varie, toma todos os dias novas formas sob a caneta e sobre os lábios dos homens em cujas mãos repousam os destinos da França. A que ponto de loucura chegamos então? Chegamos ao ponto a que deve logicamente chegar todo aquele que não admite o princípio incontestável que estabelecemos, a saber: que a verdade é uma e, por consequência, intolerante, apartada de toda doutrina que não a sua. E, para resumir em poucas palavras toda a substância deste meu discurso, eu vos direi: Procurais a verdade sobre a terra? Procurai a Igreja intolerante. Todos os erros podem fazer-se concessões mútuas; eles são parentes próximos, pois que têm um pai comum: Vos ex patre diabolo estis - Vós sois de vosso pai, o diabo. A verdade, filha do céu, é a única que não capitula.

A verdade é uma e, por consequência, intolerante, apartada de toda doutrina que não a sua. Vós, pois, que quereis julgar esta grande causa, tomai para isto a sabedoria de Salomão. Entre essas diferentes sociedades para as quais a verdade é objeto de litígio, como era aquela criança entre as duas mães, quereis saber a quem adjudicá-la. Pedi que vos deem uma espada, fingi cortar, e examinai as expressões que farão os pretendentes. Haverá vários que se resignarão, que se contentarão da parte que vão ter. Dizei logo: 'Essas não são as mães!' Há uma, ao contrário, que se recusará a toda composição, que dirá: a verdade me pertence, e devo conservá-la inteira, jamais tolerarei que seja diminuída, partida. Dizei: 'Esta aqui é a verdadeira mãe!' Sim, Santa Igreja Católica, vós tendes a verdade, porque tendes a unidade e, porque sois intolerante, não deixais decompor esta unidade.

(Excertos de um Sermão do Cardeal L.E. Pie - Ouvres Sacerdotales du Cardinal Pie, 1901)

BREVIÁRIO DIGITAL - LADAINHA DE NOSSA SENHORA (IV)

 

Cristo, ouvi-nos.

(Ilustração da obra 'Litanies de la Très-Sainte Vierge', por M. L'Abbé Édouard Barthe, Paris, 1801)

domingo, 15 de maio de 2022

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'Bendirei o vosso nome, ó meu Deus, meu Senhor e meu Rei para sempre' (Sl 144)

 15/05/2022 - Quinto Domingo da Páscoa

24. O NOVO MANDAMENTO 


Deus, em sua infinita misericórdia, destinou ao homem, não apenas a plenitude de uma felicidade puramente natural mas, muito mais que isso, por desígnios imensuráveis à condição humana, a plenitude da eterna felicidade com Ele. E, para nos tornar co-participantes de sua glória, nos escolheu, um a um, desde toda a eternidade, como criaturas humanas privilegiadas e especiais, moldadas pelo infinito amor do divino intelecto. Glória aos homens bem-aventurados que, nascidos e criados pelo infinito amor, foram e serão redimidos pelo amor de Cristo para toda a eternidade!

Neste Quinto Domingo da Páscoa, somos chamados a vivenciar este amor de Deus em plenitude. Jesus encontra-se no Cenáculo, pouco antes de sua ida ao Horto das Oliveiras e da sua prisão e morte na cruz. E acaba de revelar aos seus discípulos amados, mais uma vez, a identidade do amor divino entre Pai e Filho, regida pelo Espírito Santo: 'Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele' (Jo 13, 31). Do amor intrínseco à Santíssima Trindade, medida infinita do amor sem medidas, Jesus vai nos dar o princípio do amor humano verdadeiro e recíproco ao amor divino: 'Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros' (Jo 13, 34).

Sim, como Cristo nos amou. Na nossa impossibilidade humana de amar como Cristo nos ama, isso significa amar sem rodeios, amar sem vanglória, amar sem zelos de gratidão, amar de forma despojada e sincera aos que nos amam e aos que não nos amam, a quem não conhecemos, a quem apenas tangenciamos por um momento na vida, a todos os homem criados pelos desígnios imensuráveis do intelecto divino, à sombra e imersos na dimensão do infinito amor de Cristo por nós.

Nesta proposição distorcida e acanhada do amor divino, o amor humano se projeta a alturas inimagináveis de santificação, e expressa a sua identificação incisiva no projeto de redenção de Cristo: 'Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros' (Jo 13, 35). Eis aí a essência do novo mandamento: amar, com igual despojamento, toda a dimensão da humanidade pecadora, a exemplo de um Deus que se entregou à morte de cruz para nos redimir da morte e mostrar que o verdadeiro amor não tem limites nem medida alguma.

sábado, 14 de maio de 2022

BREVIÁRIO DIGITAL - LADAINHA DE NOSSA SENHORA (III)

 

Senhor, tende piedade de nós.

(Ilustração da obra 'Litanies de la Très-Sainte Vierge', por M. L'Abbé Édouard Barthe, Paris, 1801)

OS MAIS BELOS LIVROS CATÓLICOS DE TODOS OS TEMPOS (7)

 13. CORNELIUS A LAPIDE TESOUROS

Cornelius a Lapide ou Cornelis Cornelissen Van den Steen (1567 – 1637) foi um jesuíta e exegeta flamengo, natural da cidade de Bocholt, na Bélgica. Ingressou na Companhia de Jesus em 15 de julho de 1592 e foi ordenado sacerdote em 24 de dezembro de 1595. Atuou por mais de 40 anos de sua vida religiosa ensinando as Sagradas Escrituras, inicialmente na Universidade de Louvain, entre 1598 e 1616 e depois no Colégio dos Jesuítas em Roma, entre 1616 e 1636, falecendo nesta cidade em 12 de março de 1637. 

Muitos dos seus comentários (como aqueles relativos às Epístolas de São Paulo, Atos dos Apóstolos, o Apocalipse ou Livro do Eclesiástico) foram compilados, revistos e publicados pelo próprio autor, mas muitos deles somente foram publicados após a sua morte. Os seus textos e comentários traduzem uma dura resposta às heresias da Reforma Protestante (principalmente às introduzidas por Lutero e Zwinglio), com ênfase em uma devoção especial à Santíssima Virgem e na defesa intransigente das doutrinas e ensinamentos da Santa Igreja. É obra de um homem profundamente apaixonado pela Igreja e dominado pela erudição bíblica das eras patrística e medieval, que fala e comenta as Sagradas Escrituras no contexto único dos ensinamentos dos Grandes Padres e da mais pura tradição da Igreja.

A coletânea dos seus volumosos comentários sobre passagens e textos de praticamente todos os livros das Sagradas Escrituras (com exceção do Livro dos Salmos e do Livro de Jó) tem sido sistematizada em uma obra de cunho geral, comumente designada com o nome de Tesouros de Cornelius a Lapide, ainda não integralmente traduzida para o português (existem versões traduzidas para o português apenas de alguns comentários isolados de sua obra monumental).

14. JEAN-BAPTISTE CHAUTARD A ALMA DE TODO APOSTOLADO

A Alma de Todo Apostolado é uma obra clássica da literatura cristã do século XX e tem como tema central a inserção e o aperfeiçoamento da vida interior, como base, sustentação e instrumento para quaisquer obras de apostolado. O seu autor foi um monge trapista francês chamado Jean-Baptiste Chautard, nascido em Briançon em 12 de março de 1858. Ingressou como noviço no mosteiro de Aiguebelle em 1877, situado numa das regiões mais ermas e agrestes da França. Revestido do hábito branco da Ordem Cisterciense, ali iniciou os seus estudos religiosos, sendo ordenado sacerdote em junho de 1884.

A obra é um grito de resistência a uma época histórica de perseguições. No início do século XX, a Igreja da França passou a ser alvo de um singular período de perseguições e a Ordem Cistercience ficou então muito ameaçada de expulsão e fechamento no país, sob a tibieza e indiferentismo do povo cristão. À época, Dom Jean-Baptiste Chautard era o prior da Abadia de Sept-Fons, função que iria exercer até a sua morte em 29 de setembro de 1935.

Escrita originalmente com o objetivo definido de manter e sustentar o ânimo dos seus confrades e demais religiosos da Ordem Cisterciense diante das perseguições do Estado, a obra tornou-se um clássico da espiritualidade católica. Nestas páginas, o autor apresenta a síntese dos princípios que devem nortear aqueles que lutam pela Igreja por meio de uma vida de piedade, mortificação e sacrifícios, na estrita compreensão de que os meios de ação naturais devem ser canais da graça de Deus, e que o apóstolo – clérigo ou leigo – precisa ser ele próprio um reservatório das graças que devem vivificar em todas as suas obras. Para prover um fecundo apostolado e ser instrumento da salvação para muitos dos seus irmãos, cada homem deve buscar na vida interior uma íntima união com Deus, impregnando-se com o verdadeiro espírito de Jesus Cristo para agir, desta forma, em tudo, com todos, todo o tempo. A tradução da obra em português encontra-se disponível por diferentes editoras.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

FÁTIMA - 105 ANOS

 

'Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o Preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da Terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos de seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores'.

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(a história completa de Fátima resumida em 100 questões):


FÁTIMA EM 100 FATOS E FOTOS

quinta-feira, 12 de maio de 2022

BREVIÁRIO DIGITAL - LADAINHA DE NOSSA SENHORA (II)


Cristo, tende piedade de nós.

(Ilustração da obra 'Litanies de la Très-Sainte Vierge', por M. L'Abbé Édouard Barthe, Paris, 1801)

SOBRE A ESCRAVIDÃO DO PECADO

Que situação mais triste, mais infeliz, mais desgraçada e deplorável que a do filho pródigo! Reduzido à pobreza, tendo fome, abandonado de todos os seus inimigos, escravo de um patrão sem compaixão, o qual lhe envia a guardar os porcos; deseja poder nutrir-se com os vis alimentos daqueles animais imundos! Eis aqui uma débil imagem do estado de servidão a que pode levar o pecado mortal.

Um pássaro atado com um fio trata de voar; porém, preso, não pode escapar; assim também o pecador, cativo de suas más inclinações, dá alguns passos, porém, sem adquirir a liberdade, detém-no os laços de seus desgraçados hábitos. O homem terrestre e carnal crer ser livre, porém, na realidade, é escravo. Quer ser livre, e o querer tal liberdade é o que lhe lança na escravidão. Assim é que a liberdade afoga a liberdade de tal modo que o excesso de liberdade é uma extraordinária escravidão; porque, então, não há mais freio para as concupiscências, e chegamos a ser escravos de tantos tiranos cruéis quantas são as paixões diferentes que nos subjugam.

O furor do Eterno acendeu-se contra o povo, diz o Salmista; e entregou o povo ao poder das nações, e seus inimigos chegaram a ser seus donos. Seus inimigos oprimiram-nos e fizeram-no sofrer a humilhação de seu poder (Sl 115, 39-41). Estavam sentados nas trevas e nas sombras da morte, encadeados pelo ferro e pela fome: sedentes in tenebris et umbra mortis, vinctos in mendicitate et ferro (Sl 106, 10). Porém, aquela não era mais que uma sombra da escravidão dos pecadores!

Ouvi, pecadores, os gemidos dos hebreus escravos e cativos; entregai-vos aos mesmos lamentos, posto que o vosso estado é o mesmo, e ainda muito pior. Próximo aos rios da Babilônia, exclamam por meio do Real Profeta, nós nos sentávamos, e derramávamos lágrimas recordando-nos de Sião. Nos salgueiros de suas margens, penduramos nossas harpas. E ali, aqueles que nos levaram para o cativeiro, pediram o canto de nossos hinos. Aqueles que nos arrastaram cativos, disseram-nos: ‘Cantai os cânticos de Sião’. Como havemos de cantar os cânticos do Senhor em uma terra estrangeira? (Sl 136, 1).

Escravos do demônio e das paixões, dai um eterno adeus à felicidade e à vossa antiga alegria; porque perdestes tudo, perdendo a liberdade dos filhos de Deus pelo pecado mortal! Encontramo-nos aqui na terra em uma escravidão semelhante à de uma criança ainda no ventre de sua mãe, diz São João Crisóstomo: sicut in úteropuellus, sic in mundo vivimus interclusi angustiis. Estamos aqui nesta terra de desterro e de maldição em uma situação análoga àquela em que se encontrava Jonas no ventre da baleia.

Ainda que fosse rei, o homem insensato e pecador seria sempre escravo de suas paixões e servente de seus desejos, diz São Jerônimo; não pode, nem de noite nem de dia, sacudir o domínio deles, porque estão em seu coração; e experimenta interiormente uma servidão intolerável: Stultus esto imperet, servit propriis passionibus, servit suis cupiditatibus, quorum dominatio, nec nocte, nec die, fugari potest; quia intra se dominas habet, intra servitium potitur intolerabile. Toda paixão escraviza, diz Santo Ambrósio: servilis est omnis passio.

Ainda que seja um escravo, o homem virtuoso é livre, diz Santo Agostinho, porém, ainda que que o culpável seja rei, é escravo, e escravo não de um só senhor, senão que – o que é pior – é escravo de tantos senhores quantos vícios tenha: Bonus, etiamsi serviat, liver est: malus autem, si regnat, servus est, non unius hominis, sed quodgravius est, tot dominorum quot vitiorum. O rei Lisímaco entregou seu exército ao inimigo somente para apagar sua sede física. Feito cativo, depois de ter recebido e bebido água, exclamou: Desgraçado de mim, por um momento de prazer, que bens e que reino eu perdi! Era rei, e me acho convertido em escravo: Pro deum fidem, quam exiguae voluptatis gratia, quantum bonum, quantum regnum perditi; meque ex rege servum effeci!

'Ai de mim!'… Não tem mil vezes mais motivos de falar da mesma maneira o desgraçado pecador? Ó Deus, por uma gota de água, por um vil e passageiro deleite, quantos bens perdi! Perdi minha alma, perdi a graça, perdi as delícias do Céu, e encontro-me convertido em escravo do demônio, da morte e do Inferno por toda uma eternidade!

Servirá a teu inimigo com fome, com sede, nu e em maior penúria, diz o Senhor, e porá em teu pescoço um jogo de ferro até que te esmague: Servies inimico tuo in fame, et siti, et nuditate, et omni penúria, et ponet jugum ferreum super cervicem tuam, donec te conterat (Dt 28, 48). E ele devorará o fruto de teus ganhos e todos os frutos de tua terra até que pereças; e não te deixará trigo, nem vinho, nem azeite, nem rebanho de vacas, nem rebanho de ovelhas até que, enfim, te destruas inteiramente (Dt 28, 51). E te pisoteará, e os teus muros fortes e elevados serão derrubados, e comerás o fruto de tuas entranhas e as carnes de teus filhos e de tuas filhas que o Senhor te der, na angústia e desolação com que te oprimirá teu inimigo (Sl 28, 51-53). Porém, todas estas desgraças não são nada quando comparadas com a desgraça de um pecador escravo do demônio!

Temos pecado em Vossa presença, Senhor, exclama a rainha Ester, por cujo motivo vemo-nos entregues nas mãos de nossos inimigos: Peccavimus in conspectu tuo, et idcirco tradidisti nos in manus inimicorum nostrorum (Est 14, 6). Ao ímpio envolvem suas próprias iniquidades, dizem os Provérbios, e está acorrentado nos laços de seu pecado: Iniquitaes suae capiunt impium, et funibus peccatorum suorum constringitur (Pr 5, 22). Além das algemas de seu crime, o pecador carrega as de suas penas e a de sua penitência; porque estas também o atam, sobrecarregando-o e torturando-o. Penas temporais e eternas!

É necessário que sejamos escravos e que soframos todas as consequências e desgraças quando a carne comanda o espírito, ela que deveria ser escrava deste. Quando esta carne rebelde é bajulada e honrada, ela quer mandar, em vez de estar subordinada à razão. Que coisas mais desiguais em valor que a razão e a concupiscência, a alma e o corpo! A concupiscência e a carne são terrestres, semelhantes ao selvagem; porém, a razão e a alma são espirituais, grandes, nobres e semelhantes aos anjos pela inteligência e pela espiritualidade. A concupiscência e a carne são a mesma pobreza, a baixeza; porém, a razão e a alma tem um preço imenso! São, pois, absurdos abomináveis: que a alma sirva ao corpo, pois a ela deve estar este submetido; e que a razão seja escrava da concupiscência.

Edificastes ao meu redor, diz Jeremias, rodeaste-me de fel e trabalho: Aedificavit in gyro meo, et circundedit me felle et labore (Lm 3, 5). Edificastes ao meu redor para que eu não saia, e aumentastes o peso de minhas cadeias: Circunaedificavit adversum me ut non ingrediar; aggravavit compendem meum (Lm 3, 7). Semeastes meu caminho de pedras cortantes, e destruístes minhas veredas: Conclusit vias meas lapidibus quadris, semitas meas subvertit (Lm 3, 9). E a paz foi extirpada de meu coração, esqueci a alegria, e disse: 'Minha força está perdida' (Lm 3, 17-18). Ó profeta Jeremias, ainda não é bastante hábil o teu pincel para pintar-nos as desgraças reais da escravidão do pecador!

(Excertos da obra 'Tesouros de Cornelius a Lapide')

quarta-feira, 11 de maio de 2022

PALAVRAS DE SALVAÇÃO

'A moderação é sem dúvida a mais bela das virtudes... A moderação, com efeito, deve temperar a justiça. Não sendo assim, como poderia alguém a quem tens desaprovação – alguém que pensasse ser objeto de desprezo e não de compaixão para o seu médico – como poderia ele vir ter contigo para ser tratado? Foi por isso que o Senhor Jesus mostrou compaixão para conosco. O seu desejo era chamar-nos a si, e não fazer-nos fugir, assustando-nos. A doçura marca a sua vinda; a sua vinda é marcada pela humildade. Ele disse: 'Vinde a Mim, vós que estais aflitos e Eu vos reconfortarei'. Assim o Senhor Jesus reconforta, não exclui, não rejeita. E com razão escolheu para discípulos homens que, sendo fiéis intérpretes da vontade do Senhor, reuniam o povo de Deus em vez de o afastar'.

(Santo Ambrósio de Milão)

terça-feira, 10 de maio de 2022

BREVIÁRIO DIGITAL - LADAINHA DE NOSSA SENHORA (I)

 

Senhor, tende piedade de nós.

(Ilustração da obra 'Litanies de la Très-Sainte Vierge', por M. L'Abbé Édouard Barthe, Paris, 1801)

NA SOLIDÃO DO DESERTO...


Os santos, os Padres da Igreja, os grandes monges contemplativos buscaram de forma determinada o retiro espiritual, o afastamento do convívio dos homens, a solidão para viver de Deus e para Deus (Imitação de Cristo - Livro I , XX.1). Os textos das Sagradas Escrituras são muitos e diversos neste sentido: Davi habitava o deserto desde tenra idade, João Batista escolheu o deserto, Jesus se retirava a lugares ermos para se colocar em oração:

'Lembra-te de todo o caminho por onde o Senhor te conduziu durante esses quarenta anos no deserto, para humilhar-te e provar-te, e para conhecer os sentimentos de teu coração, e saber se observarias ou não os seus mandamentos' (Dt 8, 2).

'Ele conduziu seu povo através do deserto, porque sua misericórdia é eterna' (Sl 135, 16).

'Uma voz exclama: “Abri no deserto um caminho para o Senhor, traçai reta na estepe uma pista para nosso Deus" (Is 40, 3).

'Eu disse no deserto a seus filhos: não sigais os preceitos dos vossos pais, não imiteis as suas práticas, contaminando-vos com os ídolos' (Ez 20, 18).

'De manhã, tendo-se levantado muito antes do amanhecer, ele saiu e foi para um lugar deserto, e ali se pôs em oração' (Mc 1,35).

'A essa notícia, Jesus partiu dali numa barca para se retirar a um lugar deserto, mas o povo soube e a multidão das cidades o seguiu a pé' (Mt 14, 13).

'À Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente' (Ap 12, 14).

A santificação impõe a solidão, o retiro da alma do mundo, o recolhimento interior. Estar com Deus e em Deus impõe o deserto do corpo e da alma, a libertação do mundo exterior e do mundo interior, o domínio da imaginação, dos sentimentos e da própria vontade:

'É difícil uma árvore plantada à beira de uma estrada conservar os seus frutos até a maturidade; é difícil também para uma alma, no meio dos homens, conservar a sua inocência até o fim' (São Crisóstomo).

'Aquele que ama a solidão é invulnerável aos dardos de seus inimigos: mas aquele que se mistura com a multidão receberá feridas frequentes e cruéis' (São Nilo) . 

'A solidão é o muro e o baluarte das virtudes' (São Bernardo). 

'Aquele que habita em ti, ó solidão, eleva-se acima de si mesmo, porque tendo a alma faminta de Deus, põe-se acima de tudo o que é da terra; fica suspensa na força da contemplação, e separada do mundo, voa para o céu, e esforçando-se para ver o que é superior a tudo, despreza tudo o mais' (São Basílio).

'A solidão é a forma e a regra da sabedoria; a solidão é por si só uma predileção à virtude; afastar-se do mundo é dispor-se a ir para o Céu' (São Jerônimo).

segunda-feira, 9 de maio de 2022

A VIDA OCULTA EM DEUS: CONHECIMENTO DOS ATRIBUTOS DE DEUS


Quando uma alma adentra em Deus pela primeira vez, experimenta a impressão que alguém teria ao entrar de repente em uma sala ampla e cheia dos mais ricos e variados tesouros. Não seria capaz de perceber nenhum deles em detalhes, mas apenas ter uma visão geral de todos eles. Tal visão, entretanto, causaria nela uma alegria única, moldada de certa forma por todas as alegrias que seria possível ser experimentadas se ela pudesse admirar cada um desses tesouros em particular. Os atributos de Deus são esses tesouros. Na sua união com Deus, a alma interior os vê em um único olhar e os absorve todos de uma vez, porque Deus é riqueza e simplicidade ao mesmo tempo, de tal forma que a impressão que  se grava em nosso espírito e em nosso coração é fruto de ambos. Ao encanto desta alegria, tão nova para a alma, acrescenta-se algo inesgotável, infinito, que nela se impregna de forma discreta e indescritível.

Pouco a pouco a alma se acostuma a viver nesta cela interior. Adormece e vive nela; faz dela a sua morada. Quando tem que deixá-la, sofre e pressente-se estranha, como alguém fora do seu lugar próprio. Assim que possível, busca retornar, pedindo humildemente a Deus que seja recebida de volta. Deus nem sempre a atende de imediato. Então ela reza em recolhimento e espera, com confiança e em paz, como uma virgem fiel atenta ao menor sinal que possa anunciar a vinda do Esposo. E chega o momento em que Deus a recolhe outra vez na sua intimidade: novas luzes, novos encantos; novas alegrias e ainda muito mais profundas. Aí está a recompensa pela sua fidelidade: 'Muito bem, servo bom e fiel... vem regozijar-te com teu senhor!' (Mt 25, 21).

Aquele sentimento geral que a alma experimenta em seu primeiro encontro com Deus é gradualmente delineado e forjado. Em sequência, cada um dos atributos divinos pode ser melhor conhecido e melhor experimentado. A alma pode experimentá-los cada vez mais intimamente e de forma consciente, tendendo então a ser aquilo que se ama. Neste caso, as coisas tornam-se ainda mais fáceis porque Deus fez da alma a sua morada, está ao alcance das suas aspirações. Assim que Ele se manifesta, a vontade impele a alma ao seu encontro, tomando-o para si com todas as suas forças. Ocorre então um processo de deificação consciente da alma, que pode ser genérica e confusa ou mais precisa e clara, expressa pela dimensão da comunhão da Fortaleza, Sabedoria, Bondade, Misericórdia ou qualquer outro atributo de Deus. Que também se expressa como uma união, envolvendo a Trindade Santa ou apenas uma das Três Pessoas em particular. Neste caso a alma, ao assimilar uma certa Pessoa da Santíssima Trindade, busca ser um reflexo dela e agir da mesma forma que ela em todas as suas atitudes e manifestações.

(Excertos da obra 'A Vida Oculta em Deus', de Robert de Langeac; Parte III - A União com Deus; tradução do autor do blog)

domingo, 8 de maio de 2022

EVANGELHO DO DOMINGO

'Sabei que o Senhor, só Ele, é Deus, nós somos seu povo e seu rebanho' (Sl 99)

 08/05/2022 - Quarto Domingo da Páscoa

23. O BOM PASTOR


No Quarto Domingo da Páscoa, ressoa pela cristandade a imagem e a missão do Bom Pastor: 'As minhas ovelhas escutam a minha voz; eu as conheço e elas me seguem. Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão' (Jo 10, 27-28). Jesus, o Bom Pastor, conhece e ama, com profunda misericórdia, cada uma de suas ovelhas desde toda a eternidade.

Criadas para o deleite eterno das bem-aventuranças, redimidas pelo sacrifício do calvário e alimentadas pela sagrada eucaristia, Jesus acolhe as suas ovelhas com doçura extrema e infinita misericórdia. E com ânsias de posse calorosa e zelo desmedido: 'Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos um' (Jo 10, 29-30).

Nada, nem coisa, nem homem, nem demônio algum, poderá nos apartar do amor de Deus. Porque este amor, sendo infinito, extrapola a nossa condição humana e assume dimensões imensuráveis. Ainda que todos os homens perecessem e a humanidade inteira ficasse reduzida a um único homem, Deus não poderia amá-lo mais do que já o ama agora, porque todos nós fomos criados, por um ato sublime e extraordinariamente particular da Sua Santa Vontade, como herdeiros dos céus e para a glória de Deus: 'Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas. A Ele a glória por toda a eternidade!' (Rm 11, 36).

Jesus toma sobre os ombros a ovelha de sua predileção, cada um de nós, a humanidade inteira, para a conduzir com segurança às fontes da água da vida (Ap 7, 17), onde Deus enxugará as lágrimas dos nossos olhos. Reconhecer-nos como ovelhas do rebanho do Bom Pastor é manifestar em plenitude a nossa fé e esperança em Jesus Cristo, Deus Único e Verdadeiro, cuja bondade perdura para sempre e cujo amor é fiel eternamente (Sl 99,5). Como ovelhas do Bom Pastor, não nos basta ouvir somente a voz da salvação; é preciso segui-Lo em meio às provações da nossa humanidade corrompida, confiantes e perseverantes na fé, até o dia dos tempos em que estaremos abrigados eternamente na tenda do Pai, lavados e alvejados no sangue do Cordeiro (Ap 7, 14b).

sábado, 7 de maio de 2022

O FUNDAMENTO DA BATALHA ESPIRITUAL

São quatro as armas seguríssimas e muito necessárias para vencer a batalha espiritual que é a continua e duríssima luta contra você mesmo. São as seguintes: a desconfiança de si mesmo, a confiança em Deus, o exercício e a oração... mas há alguns enganos que podem levar à perdição.

O engano mais frequente é o da virtude. Muitos, sem pensar, julgam que ela consiste na austeridade de vida, no castigo da carne, nas longas vigílias, nos jejuns, e em outras penitências e fadigas corporais. Outras pessoas, mulheres especialmente, pensam ter chegado à grande perfeição quando rezam muito, ouvem muitas missas e longos ofícios, frequentam as igrejas e a Sagrada Comunhão. Outros ainda, e entre eles, certamente muitos religiosos de convento, chegaram à conclusão de que a perfeição consiste na frequência ao coro, no silêncio, na solidão e na disciplina. A verdade, porém, é muito outra.

Tais ações são, às vezes, meios de se adquirir o espírito e, às vezes, frutos do espírito. Não se pode, porém dizer que somente nestas coisas consista a perfeição cristã e o verdadeiro espírito. Estas pessoas seguem com grande abnegação, e com sua cruz às costas, o Filho de Deus, frequentam os santos sacramentos, para glória de sua divina Majestade, para mais se unirem com Deus e para adquirirem novas forças contra o inimigo.

Se, porém, põem todo o fundamento de sua virtude nas ações exteriores, estas ações, não por serem defeituosas, pois são santíssimas, mas pelo defeito de quem as usa, serão, às vezes mais do que os próprios pecados, a causa de sua ruína. Pois estas almas que apenas prestam atenção às suas ações, largam o coração às suas inclinações naturais e ao demônio oculto. Este, reparando que já está aquela alma transviada, fora do caminho, deixa que ela continue deleitando-se naquele comportamento enganoso, e até mesmo a estimula, embalando-a com o pensamento das delícias do paraíso. A alma logo se persuade de estar no coro dos anjos e de possuir Deus dentro de si.

Estes estão em grave perigo de cair porque têm o olhar interno obscurecido. É com esse olhar que contemplam a si mesmos e suas obras externas boas, atribuindo-se muitos graus de perfeição. E. com soberba, julgam os outros. A não ser por um auxílio extraordinário de Deus, nada os converterá. É evidente que mais facilmente se converte e se entrega ao bem o pecador declarado e manifesto do que o pecador oculto que, enganado e enganadoramente, se apresenta coberto com o manto das virtudes aparentes.

A vida espiritual não consiste nestas coisas. A virtude outra coisa não é senão o conhecimento da finita bondade e grandeza de Deus, e da nossa inclinação para o erro e para o mal. A virtude está no ódio de nós mesmos e das nossas faltas, tanto quanto no nosso amor a Deus e na nossa confiança em Deus. A virtude está não só na sujeição mas, por seu amor, no amor de todas as criaturas.

O ponto mais alto da virtude consiste no desapropriamento da nossa própria vontade, entregando-lhe o comando de nossa vida e das nossas ações, em acatamento total as suas divinas disposições. Por fim: querer e fazer tudo isto para glória de Deus, para seu agrado, e porque ele quer e merece ser amado e servido. Esta é a lei do amor, impressa pela mão de Deus nos corações de seus servos queridos e fiéis. Esta é a negação de nós mesmos, que ele, como Pai e Criador amantíssimo, nos pede, para o nosso bem. Este é o jugo suave de que falava Jesus, a obediência a que o nosso divino Redentor e Mestre nos chama, com sua voz e seu exemplo.

Este é o combate preliminar de adestramento para a grande batalha. Se você aspira a uma vida em perfeita união com Deus, deverá começar pelo combate generoso contra as suas próprias vontades, grandes e pequenas. Com grande prontidão de ânimo, desde o primeiro instante, é necessário que você se aparelhe para este combate, onde só é coroado o soldado valoroso. Este combate é difícil, mais que nenhum outro, pois combatemos contra nós mesmos. Por maior, porém, que seja a batalha, mais gloriosa e mais cara aos olhos de Deus será a vitória.

(Excertos da obra 'Combate Espiritual', de Dom Lourenzo Scupoli)

sexta-feira, 6 de maio de 2022

O DOGMA DO PURGATÓRIO (XXXI)

Capítulo XXXI

Razões da Expiação no Purgatório - Pecados de Escândalo - Padre Zucchi e a Noviça

Aqueles que tiveram a infelicidade de dar mau exemplo, ferir ou causar a perdição das almas pelo escândalo devem ter todo o cuidado de reparar tudo isso neste mundo, senão serão submetidos às mais terríveis expiações no outro. Não foi em vão que Jesus Cristo proclamou: 'Ai do mundo por causa dos escândalos! Ai daquele homem por quem o escândalo vem!' (Mt 18,7). Ouçamos o que o Padre Rossignoli relata em seu Merveilles du Purgatoire

Um pintor de grande maestria e vida exemplar havia feito uma pintura que não se conformava com as regras estritas da modéstia cristã. Era uma daquelas pinturas que, a pretexto de serem obras de arte, são mantidas sob as melhores famílias, e cuja mera visão causa a perda de tantas almas. A verdadeira arte é uma inspiração do Céu, que eleva a alma a Deus; a arte profana, que apela apenas aos sentidos, que não apresenta aos olhos senão as belezas da carne e do sangue, traduz apenas uma inspiração do espírito maligno; suas obras, por mais brilhantes que sejam, não são obras de arte, e este nome é falsamente atribuído a elas. São apenas as infames produções de uma imaginação corrupta.

O artista que mencionamos deixou-se enganar neste caso por um mau exemplo. Em seguida, porém, renunciando a esse estilo pernicioso, dedicou-se à produção de quadros religiosos ou daqueles que pelo menos eram perfeitamente irrepreensíveis. Uma vez realizando a pintura de um grande afresco para um convento dos carmelitas descalços, abateu-se sobre ele uma doença mortal. Sentindo-se prestes a morrer, solicitou ao prior que pudesse ser sepultado na igreja do mosteiro, legando àquela comunidade os seus ganhos, que ascendiam a uma soma considerável em dinheiro, exortando-lhes que fossem rezadas muitas missas para o repouso de sua alma. 

Morreu sob piedosos sentimentos e, após alguns dias, um religioso que havia permanecido no coro depois das Matinas, o viu aparecer em meio a chamas e suspirando de maneira lastimável: 'Como? - disse o religioso - 'como pode você estar padecendo tantas dores, depois de levar uma vida tão justa e morrer uma morte tão santa?' 'Ai!' - respondeu ele - 'tudo isso é por causa do quadro imodesto que pintei anos atrás. Quando compareci perante o tribunal do Juiz Soberano, uma multidão de acusadores veio depor contra mim. Eles declararam que tinham sido estimulados a pensamentos impróprios e maus desejos pela imagem que foi obra da minha mão. Por causa desses maus pensamentos, alguns estavam no Purgatório e outros no Inferno. Estes clamavam por vingança dizendo que, tendo sido esta a causa de sua perdição eterna, eu merecia, pelo menos, o mesmo castigo. Então a Santíssima Virgem e os santos que eu havia glorificado com meus quadros me defenderam. Eles representaram ao Juiz que aquela pintura infeliz tinha sido obra da minha juventude e da qual havia me arrependido; que eu a havia reparado depois com objetos religiosos que haviam sido fonte de edificação para as almas. Em consideração a essas e outras razões, o Juiz Soberano declarou que, por causa do meu arrependimento e das minhas boas obras, eu deveria estar isento de condenação; mas, ao mesmo tempo, Ele me condenou a essas chamas até que aquele quadro fosse queimado, para que não pudesse mais escandalizar ninguém'.

Então a aparição implorou aos religiosos do convento que tomassem as providências para que aquela pintura fosse destruída. 'Eu imploro' - acrescentou - 'procure em meu nome tal pessoa, proprietária do quadro; diga-lhe em que condições estou por ter cedido às suas insistências em pintá-lo e exorte-o a desfazer-se dele de pronto e ai dele se o recusar! Para provar que isso não é uma fantasia e para puni-lo pela sua própria culpa, diga-lhe que em breve perderá os seus dois filhos e, se ainda recusar a obedecer Àquele que nos criou, ele pagará por isso com uma morte prematura'.

O religioso não tardou em fazer o que a pobre alma havia pedido e foi ter com o dono do quadro. Este, ao ouvir essas coisas, pegou a pintura e a lançou no fogo. No entanto, como designado pelas palavras do falecido, ele perdeu os seus dois filhos em menos de um mês e passou o resto dos seus dias fazendo penitência, por ter encomendado e mantido por tanto tempo aquela pintura escandalosa em sua casa. Se tais são as consequências de um único quadro, qual será, então, o castigo dos escândalos ainda mais desastrosos induzidos por maus livros, notícias falseadas, ensinamentos perversos e conversas vulgares? Vae mundo a scandalis! Vae homini illi per quem scandalum venit! - 'Ai do mundo por causa dos escândalos! Ai daquele homem por quem vem o escândalo!' (Mt 18, 7).

O escândalo faz grandes estragos nas almas pela sedução da inocência. Ah! esses malditos sedutores! Eles prestarão a Deus uma terrível conta pelo sangue de suas vítimas. Lemos o seguinte na Vida do Pe. Nicolau Zucchi, escrita pelo Pe. Daniel Bartoli, da Companhia de Jesus. O santo e zeloso Pe. Zucchi, falecido em Roma, em 21 de maio de 1670, atraiu para uma vida de perfeição três jovens, que se consagraram a Deus no claustro. A mais nova delas, antes de deixar o mundo, recebera uma proposta de casamento de um jovem nobre. Após a sua entrada no noviciado, este homem, em vez de respeitar a sua santa vocação, continuou a dirigir-lhe cartas a quem desejava chamar de sua noiva, insistindo que ela deixasse - como dizia - o tedioso serviço a Deus para voltar a viver as alegrias da vida. O sacerdote,  encontrando-o um dia na rua, exortou-lhe que abandonasse tal conduta: 'Eu lhe asseguro' - disse ele - 'que em breve você irá comparecer perante o tribunal de Deus e, portanto, já é mais que tempo para se preparar para isso com sincera penitência'.

De fato, quinze dias depois, este jovem morreu de uma morte muito rápida, que lhe deixou pouco tempo para colocar em ordem os assuntos de sua consciência, de modo que havia tudo a temer por sua salvação. Uma noite, enquanto as três noviças estavam envolvidas em uma conversa religiosa, a mais jovem foi chamada a se dirigir até a sala de entrada, onde a esperava um homem encoberto por uma pesado casaco e que andava a passos largos pelo ambiente. 'Sim, senhor - ela disse - 'o senhor queria falar comigo?' O estranho, sem nada responder, aproximou-se dela e abriu o misterioso manto que o envolvia. A religiosa reconheceu de imediato e horrorizada de que se tratava do recém-falecido, que estava totalmente tomado por correntes de fogo que o prendiam pelo pescoço, pulsos, joelhos e tornozelos. 'Reze por mim!' - gritou ele, desaparecendo em seguida. Esta manifestação milagrosa mostrou que Deus teve misericórdia dele no último momento e que não foi condenado, mas que pagou caro por sua tentativa de sedução à jovem noviça com um terrível Purgatório.

Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', 342p., do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog)