domingo, 31 de outubro de 2021

EVANGELHO DO DOMINGO

'Eu Vos amo, ó Senhor, porque sois minha força!' (Sl 17)

 31/10/2021 - Trigésimo Primeiro Domingo do Tempo Comum

49. OS DOIS GRANDES MANDAMENTOS


Houve um triste tempo em que os fariseus se aproximaram de Jesus cheios de malícia e dissimulação. Cientes das manifestações anteriores das sábias palavras do Senhor e testemunhas de suas respostas demolidoras diante da perfídia e tentativas de manipulação dos saduceus, era preciso adotar desta vez estratégias mais elaboradas e mais ardilosas para induzir Jesus à contradição ou à suspeição da sua observância a algum preceito fundamental da lei judaica.

E, cingidos de todos os cuidados, reuniram-se em grupo, definiram-se pela pergunta mais ardilosa e escolheram um deles para fazê-la a Jesus, provavelmente aquele que fosse capaz de apresentar a questão aparentemente de forma mais sincera e espontânea possível: 'Qual é o primeiro de todos os mandamentos?' (Mc 12, 28). E, diante a insincera indagação do homem fragilizado pelo pecado, a sabedoria divina vai pronunciar que, é no amor a Deus, traduzido em dois grandes mandamentos, que está contida toda a Lei e toda glória humana.

'Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e com toda a tua força!' (Mc 12, 30). O amor de Deus não contempla divisões, parcelas, frações... impõe-se como a perfeição do todo, na manifestação plena de todos os sentidos e de todos os afetos humanos; não permite partilhas ou ressalvas, é o todo em tudo que fazemos, é tudo em todas as coisas que possuímos. De todo coração, de toda a alma, de todo o entendimento e com toda a força: esta constitui a percepção da plenitude sem concessões de natureza alguma, a síntese de que o amor de Deus só pode ser emanado a partir de todas as forças da vontade humana, de toda a potência da alma entregue e disposta a cumprir, como meta única e definitiva, a Santa Vontade de Deus.

O pleno cumprimento da Vontade de Deus exige o amor incondicional ao próximo, essência do segundo mandamento: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’ (Mc 12, 31). Amor ao próximo no amor de Deus: a face do irmão refletida no espelho de nossa alma, pois o amor sem medidas tem como princípio a caridade. Nas palavras de Jesus ao mestre da Lei, afloram os dois grandes mandamentos que constituem a síntese da perfeição do amor que, nascido do coração humano, eleva-se sem máculas e em plenitude até o Coração de Deus.

sábado, 30 de outubro de 2021

ET SEPARABUNT...

Sairão pois os anjos; vede que ansiedade e que tremor será o dos corações dos homens naquela hora. Sairão os anjos e irão primeiramente ao lugar dos papas: Et separabunt (faz horror só imaginar, que em uma dignidade tão divina e em homens eleitos pelo Espírito Santo há de haver também que separar)... Et separabunt malos de medio justorum [e separarão os maus do meio dos justos (Mt 13, 49)]. E separarão os pontífices maus dentre os pontífices bons. Eu bem creio que serão muito raros os que se hão de condenar, mas haver de dar conta a Deus de todas as almas do mundo, é um peso tão imenso que não será maravilha que, sendo homens, levasse alguns à perdição. Todos nesta vida foram chamados a ser sacerdotes santos; mas o dia do Juízo mostrará que a santidade não consiste no nome, mas em obras. Nesta vida beatíssimos, na outra mal-aventurados: ó que grande miséria!

Sairão após estes outros anjos e irão ao lugar dos bispos e arcebispos: Et separabunt malos de medio justorum. Lá vai aquele porque não deu esmolas; aquele porque enriqueceu os parentes com o patrimônio de Cristo; aquele porque, tendo uma esposa, procurou outra melhor dotada; aquele porque faltou com o pastoreio da doutrina às suas ovelhas; aquele porque na sua diocese morreram tantas almas sem sacramentos; aquele por simonias; aquele por irregularidades; aquele por falta de exemplos da vida e também algum por falta de ciência necessária, empregando o tempo e o estudo em divertimentos, da corte e não de um prelado ou do campo e não de um pastor. 

Valha-me Deus, que confusão tão grande será! Mas que alegres e que satisfeitos estarão neste passo, um São Bernardino de Sena, um São Boaventura, um São Domingos, um São Bernardo, e muitos outros varões santos e sisudos que, quando lhes ofereceram as mitras, não quiseram subir à alteza da dignidade, porque reconheceram a do precipício. 

Por outro lado, que tais levarão os corações aqueles miseráveis condenados? Dirão: 'Maldito seja o dia em que nos elegeram, e maldito quem nos elegeu; maldito seja o dia em que nos confirmaram, e maldito quem nos confirmou'. Se um homem mal pode dar conta de sua alma, como poderá dar conta de tantas? Se este peso prostrou por terra os maiores gigantes da Igreja, quem não temerá e tenderá a fugir dele?

(Excertos dos Sermões do Pe. Antônio Vieira)

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

AS CORES DAS VESTES LITÚRGICAS


Nos primeiros séculos, a liturgia cristã foi muito despojada por duas razões principais: primeiro, para não imitar a liturgia judaica e nem os cultos pagãos, cujos cerimoniais eram muito pomposos; segundo, para não expor demasiado a Igreja às perseguições que acompanharam a sua implantação no vasto mundo romano. Assim, maior simplicidade implicava menor exposição e, neste sentido, em termos das cores das vestes, não se tinha distinção além da utilização de cores mais alegres para as celebrações festivas e de cores mais sombrias para os períodos de penitência.

A cor branca é a única que aparecia referenciada nos ritos batismais, como cor própria dos novos vocacionados. No século V, os bispos celebravam trajados de vestes brancas de linho e, aparentemente, vestes litúrgicas de cores alternativas só foram introduzidas na liturgia da Igreja a partir do século VIII. No Missal de São Pio V (1570), são mencionadas cinco cores distintas para as vestes litúrgicas: branca, vermelha, preta, verde e roxa.

O contexto das diferentes cores expressa o vínculo peculiar dos mistérios da fé e o sentido progressivo da vida cristã ao longo do ano litúrgico. Assim, a cor branca expressa alegria, pureza e  luz, sendo aplicada no Tempo Pascal, no Natal e em outras festas de celebração do Senhor (exceto Paixão) e também nas festas litúrgicas de Nossa Senhora, dos Anjos e dos Santos não mártires, nas solenidades de Todos os Santos e de São João Batista e nas festas de São João Evangelista, Cátedra de São Pedro e da Conversão de São Paulo.

Usamos a cor vermelha no Domingo de Ramos, na Sexta-Feira Santa, no Domingo do Pentecostes, nas celebrações da Paixão do Senhor, nas festas natalícias dos Apóstolos e Evangelistas e nas celebrações dos Santos Mártires (neste contexto, a cor vermelha expressa o sacrifício destes homens e mulheres como testemunhas da morte de Cristo).

A cor verde, símbolo da vida e da esperança, é aquela que se usa mais vezes durante o ano, nos domingos e dias feriais do Tempo Comum. Usa-se a cor roxa, símbolo da dor e da penitência, no Tempo do Advento e da Quaresma, podendo também usar-se nas missas de defuntos em substituição à cor preta, característica destes eventos. 

No III Domingo do Advento e no IV Domingo da Quaresma, podem ser utilizadas vestes cor-de-rosa, símbolo do alívio do roxo e, em datas especialmente solenes, podem ser trajados paramentos festivos ou mais nobres, ainda que não sejam da cor do dia, tipicamente incluindo ornamentos ou tecidos dourados, à guisa de ouro. Variantes destes regramentos gerais ou mesmo a utilização de cores não tradicionais em eventos especiais (por exemplo, vestes azuis na Solenidade de Nossa Senhora da Conceição), podem ser aplicadas, mas sempre como concessões especiais das respectivas conferências episcopais.

(texto adaptado do Secretariado Nacional de Liturgia, de Portugal)

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

ORAÇÃO PARA PEDIR A SABEDORIA


Concede-me, Deus misericordioso, que deseje com ardor o que Tu aprovas, que o procure com prudência, que o reconheça em verdade, que o cumpra na perfeição, para louvor e glória do Teu nome.

Põe ordem na minha vida, ó meu Deus, e permite-me que conheça o que Tu queres que eu faça, e que o cumpra como é necessário e útil para a minha alma. Que eu chegue a Ti, Senhor, por um caminho seguro e reto; caminho que não se desvie nem na prosperidade nem na adversidade, de tal forma que Te dê graças nas horas prósperas e nas adversas conserve a paciência, não me deixando exaltar pelas primeiras nem me abater pelas segundas.

Que nada me alegre ou entristeça, exceto o que me conduza a Ti ou de Ti me separe. Que eu não deseje agradar nem receie desagradar senão a Ti. Tudo o que passa torne-se desprezível aos meus olhos por Tua causa, Senhor, e tudo o que Te diz respeito me seja caro, mas Tu, meu Deus, mais do que o resto. Que eu nada deseje fora de Ti.

Concede-me, Senhor meu Deus, uma inteligência que Te conheça, uma vontade que Te busque, uma sabedoria que Te encontre, uma vida que Te agrade, uma perseverança que Te espere com confiança e uma confiança que te possua enfim. Concede-me ser atormentado com as Tuas dores pela penitência, recorrer no caminho aos Teus benefícios pela graça, gozar das Tuas eternas alegrias sobretudo na pátria pela glória. Tu que vives e reinas pelos séculos dos séculos. Amém.

(São Tomás de Aquino)

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

O NASCIMENTO DE JOÃO PAULO II

 
(Karol Wojtyla com os seus pais Karol e Emilia Wojtyla)

João Paulo II nasceu em 18 de maio de 1920, em Wadowice, na Polônia. O que não se sabe comumente é que o futuro papa nasceu de uma gravidez difícil e de alto risco, e que a sua mãe foi aconselhada pelo seu médico à época para fazer o aborto.

A mãe de João Paulo II - Emilia Wojtyla - ficou bastante deprimida com a recomendação do seu médico particular - o Dr. Jan Moskała - para abortar, pois correria sérios riscos de morte durante o parto.  Além de não optar pelo aborto, Emilia buscou a orientação de um segundo médico - Dr. Samuel Taub, um médico judeu de Cracóvia, que havia se mudado para Wadowice após a Primeira Guerra Mundial. Este segundo médico reconheceu e manifestou à gestante os riscos inerentes à gravidez em curso mas, em momento algum, sugeriu a interrupção da mesma.

E realmente a gravidez transcorreu com dificuldades: Emilia ficava a maior parte do tempo em repouso absoluto, com alimentação controlada e sentindo-se muito prostrada. No dia do nascimento de Karol Wojtyla, enquanto a mãe passava pelos últimos procedimentos para o parto no apartamento da família e sob a supervisão de uma parteira, o seu marido e o filho Edmund, de 13 anos, saíram de casa por volta das 17h, para rezar o Ofício Divino na igreja paroquial que ficava bem em frente à casa, do outro lado da rua.

No momento em que era entoada a Ladainha de Loreto em honra a Nossa Senhora, Emilia pediu à parteira que abrisse a janela, para que o primeiro som que seu filho pudesse ouvir fosse um cântico de louvor a Nossa Senhora. Emília Wojtyla deu à luz o seu filho, ouvindo a canção da Ladainha de Loreto. João Paulo II, muitos anos depois, afirmou ao seu secretário particular - Pe. Stanislaw Dziwisz - que ele nasceu ao som da ladainha em honra da Mãe de Deus e que havia sido eleito papa na mesma hora do dia em que nasceu.

Emilia Wojtyla morreu de ataque cardíaco e insuficiência hepática em 1929, quando o jovem Karol Wojtyla estava a um mês de seu nono aniversário. As causas de santidade em favor dos pais de São João Paulo II já foram formalmente abertas na Polônia. Karol, um tenente do exército polonês, e Emilia, uma professora escolar, casaram-se em Cracóvia em 10 de fevereiro de 1906. O casal católico deu à luz três filhos: Edmund em 1906; Olga, que morreu logo após o seu nascimento; e Karol em 1920.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

TESOURO DE EXEMPLOS (107/109)

 

107. NÃO TERIA SIDO UM ANJO?

Pio IX (1846-1878), o grande papa da Imaculada, era filho do conde Mastai-Ferreti. Quando menino, costumava ajudar à missa, na capela doméstica dos seus pais. Um dia, estando ajoelhado no degrau do altar, notou que, do lado oposto, um vulto o chamava por sinais.

O menino teve medo de sair do seu lugar. Mas, como viu que o vulto insistia, cada vez mais, deixou o lugar e passou para o outro lado onde se achava aquele vulto. Naquele mesmo instante, desprendeu-se do teto uma grande estátua que caiu exatamente no lugar onde o coroinha, havia poucos segundos, estava ajoelhado. É que os Santos Anjos protegem as crianças de um modo maravilhoso.

108. INSPIRAÇÃO DO ANJO DA GUARDA

Em um dia de 1890, 31 crianças da escola de uma aldeia na Boêmia foram a passeio pelos campos vizinhos. Estando ali, desencadeou-se uma furiosa tempestade que as obrigou a se refugiarem debaixo de uma grande árvore até que cessassem a chuva e os raios.

De repente uma das meninas se sentiu impelida a sair daquele abrigo, gritando:
➖ Vamo-nos embora! - e pôs-se a correr.
Seguiram-na instintivamente todas as crianças. Apenas se haviam afastado um pouco, caiu um raio naquela árvore, causando enorme estrago. Os pais das crianças, gratos aos Santos Anjos, ergueram ali um grande cruzeiro para perpetuar a lembrança do acontecimento.

109. PERDOAR AOS INIMIGOS

João Gualberto era homem como outros. Trazia uma espada à cinta e costumava viver metido em brigas e desafios. Tinha um irmão a quem amava com toda a sua alma. Um dia, porém, um malvado matou o seu irmão. Gualberto conhecia muito bem o assassino, e daquele dia em diante procurava ocasião de varar-lhe o peito com a sua espada. Ele o havia jurado e assim o faria.

Era uma Sexta-feira Santa. João Gualberto montou a cavalo e saiu passear pelo campo. Foi andando até que se meteu num caminho estreito entre penhascos muito altos. Nesse momento, vê que vem ao seu encontro um viandante... fixa-o... conhece-o... e, veloz como um raio, salta de seu cavalo. Era o assassino de seu irmão. Ali o tinha diante de si; podia saciar seus desejos de vingança, e grita:
➖Canalha! assassino! Por Barrabás que agora mesmo morres em minhas mãos.

E, desembainhando a espada, lança-se sobre o outro. Nesse momento, o assassino, que vinha desarmado, prostra-lhe aos pés e, com voz angustiosa e com os braços em cruz, dirigia ele esta súplica:
➖ Irmão, hoje é Sexta-feira Santa; por amor de Cristo crucificado, perdoa-me!

O que se passou então no coração de Gualberto? Conteve-se; ergueu os olhos ao céu... olhou para a cruz gravada em sua espada. Pensou em Jesus Cristo que, do alto da cruz, perdoara aos seus crucificadores...
➖ Irmão - disse Gualberto ao assassino - por amor a Jesus Cristo eu te perdoo!

Despediram-se. O assassino afastou-se, arrependido e dando graças a Deus. Gualberto entrou numa capela que encontrou no caminho. Ajoelhou-se diante do Cristo que ali estava pregado na cruz. Tirou a espada, suspendeu-a aos pés daquela Vítima Divina e jurou aos pés da mesma deixar tudo e enveredar pelo caminho da santidade. E assim o fez e a Igreja comemora a sua santificação em 12 de julho.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

O LIVRE ARBÍTRIO E A SALVAÇÃO ETERNA

Por que é aparentemente tão difícil salvar a nossa alma? Por que - como nos é dito - poucas almas são salvas em comparação com o número de almas condenadas? Visto que Deus deseja que todas as almas sejam salvas (I Tm 2, 4), por que Ele não tornou isso um pouco mais fácil, como certamente poderia ter feito?

A resposta rápida e simples é que não é tão difícil salvar a nossa alma. Parte da agonia das almas no Inferno é o conhecimento claro de como teria sido fácil evitar a condenação. Os não católicos condenados podem dizer 'Eu sabia que havia alguma verdade no catolicismo, mas decidi nunca perguntar porque eu podia ver que, no futuro, eu teria que mudar o meu estilo de vida' (Winston Churchill disse uma vez que todo homem encontra a verdade em algum momento de sua vida, mas a maioria deles decide virar para o outro lado.) 

Os católicos condenados podem dizer: 'Deus me deu a fé e eu sabia que tudo que eu precisava era fazer uma boa confissão, mas achei melhor adiar e foi assim que morri com meus pecados ...'. Cada uma das almas no Inferno sabe que eles estão lá por sua própria culpa, por sua escolha. Deus não pode ser culpado por isso. Na verdade, quando você olha para trás em sua vida aqui na terra, você vê claramente o quanto Ele fez para tentar impedir que você se jogasse no Inferno, mas você escolheu livremente seu próprio destino, e Deus respeitou a sua escolha. 

Vamos nos aprofundar um pouco mais sobre o assunto. Sendo infinitamente bom, infinitamente generoso e infinitamente feliz, Deus escolheu - e não era de forma alguma obrigado - criar seres que fossem capazes de compartilhar a sua felicidade. Por ser puro espírito (Jo 4, 24), esses seres deveriam ser espirituais e não apenas materiais, como animais, vegetais ou minerais. Daí a criação de anjos sem matéria, e de homens, com alma espiritual em corpo material. 

Mas esse mesmo espírito pelo qual os anjos e os homens são capazes de compartilhar a sua felicidade divina inclui necessariamente a razão e o livre arbítrio; na verdade é através do livre arbítrio que eles escolhem Deus livremente e tornam-se capazes e participantes de sua felicidade. Mas como essa escolha de Deus pode ser verdadeiramente livre se não há alternativa que nos faça dizer não? Que mérito tem alguém em escolher comprar um volume de Cervantes se só tem Cervantes à venda na livraria? E se a alternativa ruim existe, e se o livre arbítrio é real e não apenas ficção, como é que não haverá anjos ou homens que escolherão o que não é bom?

A pergunta que ainda pode ser feita é como Deus poderia ter permitido que a maioria das almas (Mt 7, 13-14; 20, 16) sofram o terrível castigo de rejeitar o seu amor? Resposta: quanto mais terrível é o Inferno,  com mais certeza Deus oferece a cada homem a graça, a luz e a força necessárias para evitá-lo. No entanto, como explica Santo Tomás de Aquino, a maioria dos homens prefere o agora e os prazeres conhecidos dos sentidos às futuras e desconhecidas alegrias do Paraíso. 

Então, por que Deus associou aos sentidos prazeres tão acentuados? Em parte, sem dúvida, para garantir que os pais tivessem filhos para povoar o Céu, mas também certamente para atribuir mérito muito maior ao ser humano que coloca a busca pelo prazer nesta vida abaixo das verdadeiras alegrias da vida futura, que são realmente as verdadeiras alegrias!! Só precisamos desejá-las com fervor suficiente para arrebatá-las (Mt 11,12)! Deus não é um Deus medíocre e deseja oferecer às almas que o amam um paraíso que tampouco é medíocre!

('Eleison Comments', pelo arcebispo Richard Williamson, 2011)

domingo, 24 de outubro de 2021

EVANGELHO DO DOMINGO

   

'Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria!' (Sl 125)

 24/10/2021 - Trigésimo Domingo do Tempo Comum

48. 'SENHOR, QUE EU VEJA!'


São Marcos descreve, no Evangelho deste domingo, uma certa caminhada de Jesus pelas terras da Galileia, rumo a Jerusalém. Junto com Ele, além dos seus discípulos, ia uma grande multidão, ansiosa por ver, ouvir e compartilhar as santas alegrias do convívio com Aquele por quem já estavam plenamente convencidos de ser realmente o Messias esperado pelos séculos, ainda que com uma visão algo distorcida da verdadeira natureza divina do seu reino de glória.

O burburinho da multidão em marcha coloca em alerta um mendigo cego sentado à beira do caminho. Um homem cego, muito conhecido naquela região, tão conhecido que o seu nome ficou transcrito para sempre nas páginas das Sagradas Escrituras, Bartimeu, filho de Timeu. No meio do vozerio de tantos, grita mais alto do que todos: 'Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!' (Mc 10, 47). E, diante da reprimenda para se calar e não abafar os ensinamentos de Jesus, insiste ainda mais alto: 'Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!' (Mc 10, 48).

A fé vibrava firme na sua alma sem precisar dos acordes dos olhares e visões do mundo. Jesus percebeu de imediato a grandeza daquele sentimento, daquele gesto, daquela súplica, e o atendeu com deferência, fazendo calar o vozerio em volta: 'Chamai-o' (Mc 10, 49). De pronto e de súbito, diante do chamado de Jesus, Bartimeu se apura em pé num salto, desfaz-se do manto de uma vez e se coloca diante do Senhor, em muda expectativa. 'O que queres que eu te faça?' (Mc 10, 51) pergunta Jesus. E Bartimeu responde, cheio de fé e confiança no Senhor: 'Mestre, que eu veja!' (Mc 10, 51). E a luz da sua fé é então contemplada com os acordes da visão do Senhor: 'Vai, a tua fé te curou' (Mc 10, 52).

Bartimeu, privilegiado na graça, pediu a visão e recebeu a luz, a luz de Cristo, que rompe as trevas do pecado e eleva a alma às glórias eternas. Como cegos, muitas vezes tateando nas penumbras de uma fé claudicante, temos uma imensa dificuldade de vida espiritual e de aceitar e acolher Jesus em plenitude. Como Bartimeu, sejamos capazes de saltar além das quietudes e sonolências terrenas e nos livrarmos do manto das inquietações e vozerios do mundo, para irmos ao encontro do Senhor que passa e, como homens eivados de graça, 'seguir Jesus pelo caminho' (Mc 10, 52).

sábado, 23 de outubro de 2021

POEMAS PARA REZAR (XXXIX)

 

NAS MÃOS DE DEUS

Sou Vossa e por Vós nasci,
O que quereis de mim?

Ó majestade soberana,
Sabedoria eterna
Bondade que deleita a minha alma,
Deus Altíssimo, Fonte excelsa do Bem, 
Toma a minha alma que, sendo nada,
encanta-se toda pelo Vosso amor
O que quereis de mim?

Sou Vossa, pois me criastes
Vossa, pois me resgatastes,
Vossa, pois me sustentais,
Vossa, pois me chamastes,
Vossa, pois esperastes por mim,
Vossa, pois não me perdi,
O que quereis de mim?

Que quereis de mim, Dulcíssimo Bem,
que Vos faça uma serva tão vil?
Que obra feita das mãos
desta Vossa escrava pecadora?
Eis-me aqui, dulcíssimo Bem,
Dulcíssimo Bem, eis-me aqui.
O que quereis de mim?

Eis aqui o meu coração,
Que deponho em Vossas Mãos
Com o meu corpo, minha vida, minha alma,
O mais íntimo de todo o meu amor.
Dulcíssimo Bem, meu Redentor,
Ofereço-me inteiramente a Vós,
O que quereis de mim?

Dai-me a morte, ou dai-me a vida,
a saúde ou qualquer doença
Dai-me honrarias ou humilhações,
a guerra ou a mais profunda paz,
a debilidade ou a força absoluta,
A tudo tendes o meu eterno sim.
O que quereis de mim?

Dai-me riqueza ou privação,
Prazeres ou angústias mil,
Felicidade extrema ou tristeza,
O Céu ou mesmo o inferno,
Dulcíssimo Bem, sol desvelado, 
A vós entrego o meu tudo.
O que quereis de mim?

Dai-me a graça da oração sincera;
Ou a aridez da provação;
Dai-me a abundância da devoção,
Ou quem sabe a petição estéril.
Somente em Vós, ó Soberana Majestade,
anseio encontrar a minha paz,
O que quereis de mim?

Dai-me quem sabe a sabedoria.
Ou os frutos da pura ignorância,
Tempos plenos de abundância,
Ou anos de fome e escassez.
Escuridão ou a luz cintilante do sol,
me movam para ali ou além mais.
O que quereis de mim?

Se quereis dar-me o alento do descanso,
no descanso encontrarei alento,
Se tiver que trabalhar até morrer,
Eu vou morrer trabalhando.
Dulcíssimo Bem, basta que escolheis
o meu onde, como e quando.
O que quereis de mim?

Dai-me subir o Calvário ou o Tabor,
no deserto ou em terra fértil;
Ser como Jó no rude sofrimento
Ou João amparado em Vosso peito;
Videira estéril ou coberta de frutos,
seja qual for a Vossa Santa Vontade.
O que quereis de mim?

Ser para Vós como José escravizado
Ou tornado governador do Egito,
Davi duramente provado
Ou incensado de todos os louvores,
Jonas em mares afogado,
Ou Jonas liberto de todos os seus males?
O que quereis de mim?

Em silêncio absoluto ou em alta voz,
serva de muitos frutos ou estéril,
 feridas expostas pelas regras,
de viver em plenitude o Evangelho;
Sofrendo ou exultante de júbilo,
Vós sois a minha única morada.
O que quereis de mim?

Sou Vossa e por Vós nasci,
O que quereis de mim?

(Santa Teresa de Ávila, tradução do autor do blog)

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

FONTE DA VIDA ETERNA


Considera, ó homem redimido, quem é aquele que por tua causa está pregado na cruz, e qual é a sua dignidade e grandeza. A sua morte dá a vida aos mortos; por sua morte choram o céu e a terra, e fendem-se até as pedras mais duras. Para que, do lado de Cristo morto na cruz, se formasse a Igreja e se cumprisse a Escritura que diz: 'Olharão para aquele que transpassaram' (Jo 19,37), a Divina Providência permitiu que um dos soldados lhe abrisse com a lança o sagrado lado, de onde jorraram sangue e água. Este é o preço da nossa salvação. Saído daquela fonte divina, isto é, no íntimo do seu Coração, iria dar aos sacramentos da Igreja o poder de conferir a vida da graça, tornando-se para os que já vivem em Cristo bebida da fonte viva que jorra para a vida eterna (Jo 4,14).

Levanta-te, pois, tu que amas a Cristo, sê como a pomba que faz o seu ninho na borda do rochedo (Jr 48,28), e aí, como o pássaro que encontrou a sua morada (Sl 83,4), não cesses de estar vigilante; aí esconde como a andorinha os filhos nascidos do casto amor; aí aproxima teus lábios para beber a água das fontes do Salvador (Is 12,3). Pois esta é a fonte que brota no meio do paraíso e, dividida em quatro rios (Gn 2,10), derrama-se nos corações dos fiéis para irrigar e fecundar a terra inteira.

Acorre com vivo desejo a esta fonte de vida e de luz, quem quer que sejas, ó alma consagrada a Deus, e exclama com todas as forças do teu coração: 'Ó inefável beleza do Deus altíssimo e puríssimo esplendor da luz eterna, vida que vivifica toda vida, luz que ilumina toda luz e conserva em perpétuo esplendor a multidão dos astros, que desde a primeira aurora resplandecem diante do trono da vossa divindade. Ó eterno e inacessível, brilhante e suave manancial daquela fonte oculta aos olhos de todos os mortais! Sois profundidade infinita, altura sem limite, amplidão sem medida, pureza sem mancha!'.

De ti procede o rio que vem trazer alegria à cidade de Deus (Sl 45,5) para que, entre vozes de júbilo e contentamento (Sl 41,5), possamos cantar hinos de louvor ao vosso nome, sabendo por experiência que em vós está a fonte da vida e que, em vossa luz, contemplamos a luz (Sl 35,10).

(São Boaventura)

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

PALAVRAS DE SALVAÇÃO

'Quando falardes, que seja de modo a não ofender ninguém e não digais senão coisas que possais dizer sem receio diante de toda a gente. Tende sempre paz interior e uma atenção amorosa para com Deus; e, quando for necessário falar, que seja com a mesma calma e a mesma paz. Guardai para vós o que Deus vos diz e lembrai-vos desta palavra da Escritura: 'O meu segredo é meu' (Is 24,16). Para avançar na virtude, é importante calar e agir, porque, falando, as pessoas distraem-se, ao passo que, guardando silêncio e trabalhando, recolhem-se. Depois de aprendermos com alguém o que é preciso para o nosso progresso espiritual, não lhe peçamos que continue a falar: ponhamos mãos à obra, com seriedade e silêncio, com zelo e humildade, com caridade e desprezo de nós mesmos. Antes de tudo, é necessário e conveniente servir a Deus no silêncio das tendências desordenadas e da língua, a fim de só ouvir palavras de amor'.

(São João da Cruz)

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

O DOGMA DO PURGATÓRIO (XVIII)

Capítulo XVIII

Dores do Purgatório - Santa Perpétua - Santa Gertrudes - Santa Catarina de Gênova - Irmão João de Via

Como já dissemos, a dor dos sentidos tem diferentes graus de intensidade: é menos terrível para aquelas almas que não têm pecados graves para expiar, ou que, já tendo cumprido a parte mais rigorosa de sua expiação, aproximam-se do momento de sua libertação. Muitas daquelas almas não sofrem mais do que a dor da perda, e até já começam a perceber os primeiros raios da glória celestial e a ter um antegozo da bem-aventurança.

Quando Santa Perpétua (Cf. Mar., eh. 7) viu o seu irmão mais novo Dinócrates no Purgatório, a criança não parecia ter sido submetida a nenhuma tortura cruel. A própria mártir escreve o relato dessa visão em sua prisão em Cartago, onde foi confinada pela fé em Cristo durante a perseguição sob Septimus Severus no ano de 205. O purgatório apareceu para ela sob a forma de um deserto árido, onde ela viu o seu irmão Dinócrates, que morrera aos sete anos. A criança tinha uma úlcera no rosto e, atormentado pela sede, tentava em vão beber das águas de uma fonte que estava diante dele, mas cuja borda era muito alta para se alcançar. 

A santa mártir compreendeu que o seu irmão estava no lugar de expiação e que implorava pela ajuda de suas orações. Ela então orou por ele e, três dias depois, em outra visão, viu o mesmo Dinócrates no meio de lindos jardins. Seu rosto era lindo, como o de um anjo; ele estava vestido com um manto brilhante; a beira da fonte estava abaixo dele, e ele bebia copiosamente daquelas águas refrescantes em uma taça de ouro. A santa então compreendeu que a alma de seu irmão mais novo agora desfrutava da bem-aventurança do Paraíso.

Lemos nas Revelações de Santa Gertrudes que uma jovem religiosa do seu convento, por quem nutria um amor especial pelas suas grandes virtudes, morreu nos mais belos sentimentos de piedade (Revelationes Gertrudiana ac Mechtildiana - Henri Oudin, Poitiers, 1875). Enquanto recomendava fervorosamente essa querida alma a Deus, ela ficou extasiada e teve uma visão. A irmã falecida foi mostrada a ela em pé diante do trono de Deus, rodeada por uma auréola brilhante e em ricas vestes. 

No entanto, ela parecia triste e preocupada; seus olhos estavam abaixados, como se ela tivesse vergonha de aparecer diante de Deus; parecia que ela queria fugir e se esconder. Gertrudes, muito surpresa, perguntou à Divina Esposa das Virgens a causa desta tristeza e constrangimento por parte de uma alma tão santa. 'Dulcíssimo Jesus' - ela exclamou - 'Por que a tua infinita bondade não convida a tua cônjuge a se aproximar de ti e a entrar na alegria do seu Senhor? Por que você a abandona assim, triste e receosa?'. Então Nosso Senhor, com um sorriso amoroso, fez um sinal para que aquela alma santa se aproximasse; mas ela, cada vez mais perturbada e após alguma hesitação e toda trêmula, retirou-se.

A essa visão, a santa dirigiu-se então diretamente à alma. 'O que minha filha! - disse à alma - 'você foge diante do Nosso Senhor que a chama? Você, que desejou tanto Jesus durante toda a sua vida, agora afasta-se quando Ele abre os braços para recebê-la?' 'Ah minha querida Mãe' - respondeu a alma - 'eu ainda não sou digna de comparecer perante o Cordeiro Imaculado. Ainda tenho algumas impurezas que contraí na terra. Para se aproximar do Sol da Justiça, é preciso ser tão puro quanto um raio de luz. Ainda não tenho aquele grau de pureza que Ele requer dos seus santos. Saiba que ainda que a porta do Céu fosse aberta para mim, eu não deveria ousar cruzar o limiar antes de estar totalmente purificada de todas as menores impurezas. Parece-me que o coro das virgens que rodeiam o Cordeiro me afastariam com repulsa e horror'. 'E, mesmo assim' - continuou a abadessa - 'vejo-te rodeada de luz e de glória!' 'O que você vê' - respondeu a alma - 'é apenas a orla da vestimenta da glória. Para usar este manto celestial, não devemos reter nem mesmo a sombra do pecado'.

Esta visão nos mostra uma alma muito perto da glória do Céu; mas a sua revelação sobre a santidade infinita de Deus foi de uma ordem muito diferente daquela que conhecemos. Este conhecimento pleno faz com que ela busque, como uma bênção, a expiação que sua condição requer para torná-la digna da visão do Deus três vezes santo. 

Este é exatamente o ensinamento de Santa Catarina de Gênova. Sabemos que esta santa recebeu uma luz particular de Deus sobre o estado das almas no Purgatório. Ela escreveu uma obra intitulada 'Um Tratado sobre o Purgatório', que goza de uma autoridade igual à das obras de Santa Teresa. No Capítulo VIII dessa obra, ela assim se expressa: 'O Senhor é misericordioso. Ele está diante de nós com os braços estendidos para nos receber em sua glória. Mas vejo também que a Essência Divina é de tal pureza que a alma, a menos que esteja absolutamente imaculada, não pode suportar esta visão. Se ela encontrar em si mesma o menor átomo de imperfeição, em vez de habitar com uma impureza na presença da Divina Majestade, ela preferiria mergulhar nas profundezas do Inferno. Encontrando no Purgatório um meio de apagar as suas impurezas, ela se lança ali prontamente e se considera feliz que, por meio de uma grande misericórdia de Deus, seja dada a ela um lugar onde possa se libertar dos obstáculos à felicidade suprema'.

A História da Ordem Seráfica (Parte 4., n. 7; cf. Merv., 83) faz menção a um santo religioso chamado Irmão João de Via, que morreu piedosamente em um mosteiro nas Ilhas Canárias. O seu enfermeiro, o Irmão Ascensão, estava na sua cela rezando e recomendando a Deus a alma dos defuntos, quando de repente viu diante de si um religioso da sua Ordem, mas que parecia transfigurado. Ele estava tão radiante que a cela se encheu de uma bela luz. O irmão, quase fora de si de espanto, não o reconheceu, mas aventurou-se a perguntar quem era e qual era o motivo da sua visita. 'Eu sou' - respondeu a aparição - 'o espírito do irmão João de Via. Agradeço-lhe as orações que elevou ao Céu em meu favor e venho pedir-lhe mais um ato de caridade'. 

'Saiba que, graças à misericórdia divina, estou no lugar da salvação, entre os predestinados para o Céu - a luz que me rodeia é uma prova disso. No entanto, ainda não sou digno de ver a face de Deus por causa de uma omissão que não foi expiada. Durante a minha vida mortal, omiti, por minha própria culpa, e por várias vezes, a recitação do Ofício dos Defuntos, conforme prescrito pela Regra. Rogo-te, meu querido irmão, pelo amor que tens a Jesus Cristo, que rezes esses ofícios de tal forma que a minha dívida seja paga e eu possa me deleitar da visão do meu Deus'. O Irmão Ascensão dirigiu-se de imediato ao seu superior e relatou o que havia acontecido, apressando-se a rezar os ofícios como solicitado. Então a alma do bem-aventurado Irmão João de Via apareceu novamente a ele mas, desta vez, mais brilhante do que antes, pois já estava na posse da felicidade eterna.

Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', 342p., do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog)

terça-feira, 19 de outubro de 2021

A LICENCIOSIDADE DE FALAR E ESCREVER


Continuemos agora com essas considerações sobre a liberdade de exprimir pela palavra ou pela imprensa tudo o que se quer. Sem dúvida, se esta liberdade não é temperada pela boa medida, se ela ultrapassa os limites e a medida, uma tal liberdade, evidentemente, não é um direito, pois o direito é uma faculdade moral. E como nós já dissemos e devemos sempre repetir, seria absurdo pensar que essa faculdade pertence naturalmente e sem distinção nem discernimento à verdade e à mentira, ao bem e ao mal.

A verdade, o bem, pode-se propagá-lo no Estado com uma liberdade prudente para que um maior número seja beneficiado; mas as doutrinas falsas, peste mortal para as inteligências, os vícios que corrompem os corações e os costumes, é justo que a autoridade pública os reprima com diligência, para impedir que o mal se estenda e corrompa a sociedade.

E as maldades das mentes licenciosas que redundam em opressão da multidão ignorante não devem ser menos punidas pela autoridade das leis que qualquer atentado da violência cometido contra os fracos. E essa repressão é tanto mais necessária quanto mais indefesa é a grande maioria da população, impossibilitada de se defender contra esses artifícios do estilo ou as subtilezas da dialética, principalmente quando tudo isso excita as paixões.

Deem a todos a licença ilimitada de falar e escrever e nada mais será sagrado e inviolável, nada será poupado, nem mesmo estas verdades primeiras, estes princípios naturais que devemos considerar como um nobre patrimônio comum a toda a humanidade. A verdade é assim invadida pelas trevas e nós assistimos, como tantas vezes, ao fácil estabelecimento e à plena dominação dos erros os mais perniciosos e os mais diversos.

(Excertos da Encíclica Libertas Praestantissimum, do papa Leão XIII,1888)

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

SOBRE O JUÍZO PARTICULAR


Santo Hilarião (+ 371), penitente austeríssimo, próximo da morte tremia todo ao pensar em ter de render contas de todas as suas obras. E para criar coragem dizia à sua alma apavorada: 'Ó minha alma, bem sabes que servi a Deus durante 70 anos num deserto; por que então ainda temes?'

Quando a alma estiver perante Deus, ser-lhe-á feito um rigoroso processo. Este não durará muito tempo: far-se-á num segundo; mas para compreendê-lo devemos considerá-lo de modo sensível. Eis os acusadores:

1. O demônio está ali pronto para apresentar ao pecador todas as suas iniquidades, lembrando-lhe as renúncias e as promessas feitas no batismo: Praesto erit diabolus; ante tribunal Christi recitabit verba professionis nostrae (Santo Agostinho): 'Esse pecador' - dirá o demônio - 'renunciou a mim, e depois cedeu sempre às minhas tentações e deu atenção às minhas sugestões. Eis aqui a fila dos seus pecados...'

2. A consciência dirá com a sua censura: 'Sim, é verdade: de fato cometestes esses pecados. Tua malícia será a tua condenação, e tua rebeldia gritará contra ti'. Tente o pecador dizer: 'Esse mal eu não fiz... Esse, eu não sabia que era pecado... Esse bem eu não pude fazer...'. A consciência gritar-lhe-á: 'Mentiroso! Isto são desculpas vãs! Para o bem porventura faltou tempo? E de certos pecados não sentias remorso? A ignorância?! Tu quiseste a ignorância: podias e devias instruir-te, e essa ignorância culposa te condena'.

3. E que dirá o Anjo da guarda? Ele foi testemunha de tudo... Deu sempre as suas boas sugestões, mas se nunca foi ouvido?! Como poderá servir de advogado de defesa? 'Lê aqui!...' - O Venerável São Beda conta que na Inglaterra um valoroso capitão, próximo da morte, teve essa espantosa visão. Ao pé de sua cama estavam dois homens negros com um grande livro na mão, os quais lhe disseram: ' Lê aqui: verás todas as iniquidades que cometeste em vida'. E enquanto isso os expunham ante seus olhos. Viu depois um Anjo com um livrinho em que era pouca a escrita e o resto era papel em branco. Disse-lhe o Anjo: 'Lê aqui o pouco bem que fizeste'. Fez-se, então, o confronto das partes, e os espíritos negros invocavam justiça; de sorte que o Anjo bom, muito triste, teve de dizer: 'Sim, é vosso!'

Então pedirá o Senhor contas de suas obras ao pecador: Redde rationem villicationis tuae (Lc 16,2). 'Agora me reconheces?' – Um rei da Inglaterra chamado Rocaredo, indo à caça, perdeu-se numa selva. Veio a noite, e ele ficou muito amedrontado. Andou daqui para ali, finalmente topou com uma casa. Bateu à porta e foi recebido por um aldeão. Mas este, não havendo conhecido o rei, o tratou muito mal e lhe deu até pancada. No dia seguinte, o rei retomou o caminho e, de volta à corte, mandou chamar o aldeão que o havia hospedado à noite e lhe disse: 'Agora me reconheces?' Estas palavras apavoraram de tal modo o infeliz, que ele caiu fulminado (Segneri).

'Agora me reconheces?' - dirá também o Juiz indignado ao pecador. Eu sou o Deus que te criou, e que devias amar e servir. Eu te fiz tantos benefícios; e tu, ingrato, começastes a ofender-me desde menino, antes de conhecer-me, e te uniste ao demônio para me fazeres guerra. Presta-me, pois, conta dos pecados que cometeste: de tantos olhares maus; de tantas palavras escandalosas. Presta-me contas de tantas obras más que fizeste ocultamente, dizendo: 'Ninguém me vê'; e no entanto, eu te vi, eu que sou o Juiz e a testemunha: Ego sum judex et testis' (Jer XXIX, 23).

Presta-me contas de tantas desobediências e falta de respeito aos pais e aos mais velhos. Praticaste tais pecados e eu sempre me calei (Sl 49,20). Presta-me contas de tantas festas não santificadas, que passaste em jogos e passeatas com companheiros do pecado. Quando muito ouvias uma missa: porém, mesmo esta ouvias mal, conversando, rindo, perturbando os bons. Não ias ouvir as prédicas, na doutrina. Cometestes esses pecados e eu me calei. Presta contas dos escândalos dados, e das almas que arruinaste tornando-as presa do demônio. Cometestes esses grandes pecados e eu me calei. Presta contas também do bem que podia fazer e não fizestes. Tinhas tempo para jogos, mas não para recitar umas orações; levantavas-te pela manhã e dormias a noite sem nem se lembrar de mim.

Por tua causa instituí os sacramentos, fonte de toda graça; e os recebestes bem raramente! E até recebeste o meu corpo e o meu sangue na Sagrada Comunhão em estado de pecado mortal, cometendo, ainda, enormes sacrilégios! Cometestes esses pecados horríveis e eu sempre me calei. Eis, como numa balança, as tuas iniquidades e o que eu fiz por ti. Vês? 

Por ti desci do Céu à terra; menino, vagi numa cabana; trabalhei até os 30 anos; fui injuriado, flagelado, coroado de espinhos! Por ti derramei o sangue; morri na cruz numa infinidade de espasmos... Podia eu fazer mais? E tu, ó iníquo, acreditavas talvez que eu deveria calar-me sempre? E que eu fosse igual a ti? Eis diante de ti toda a tua iniquidade: Existimasti, inique, quod erro tui similis? Arguam te, et statuam contra faciem tuam (Sl 49, 21).

(Excertos da obra 'La Parole di Dio per la Via d’Esempi', de G. Montarino)

domingo, 17 de outubro de 2021

EVANGELHO DO DOMINGO

  

'Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, pois, em vós, nós esperamos!' (Sl 32)

 17/10/2021 - Vigésimo Nono Domingo do Tempo Comum

47. QUEM ESTARÁ À DIREITA OU À ESQUERDA DO SENHOR?


A glória humana alimentava o pedido despropositado de Tiago e João, filhos de Zebedeu, feito a Jesus quando da sua derradeira subida a Jerusalém: 'Deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda, quando estiveres na tua glória!' (Mc 10, 37). Aqueles dois homens (que representam o conjunto de todos os demais apóstolos, que se 'indignaram' depois pela audácia deles), mais do que moldados pela graça, ainda estavam envoltos pela penumbra das glórias terrenas e, na dimensão dos poderes de um reino fictício no mundo dos homens, pleiteavam os postos mais elevados 'à direita e à esquerda' do Senhor.

Jesus vai prometer a ambos uma glória muito maior que qualquer poder concedido na escala dos homens. Os poderes e as glórias do mundo, por maiores que sejam, são instáveis e passageiros; Jesus tem a oferecer a eles heranças eternas. Na busca dos valores humanos, imperam a cobiça, a ambição, a disputa desenfreada por aplausos e pompas; a eternidade é moldada pelo recolhimento interior, pela oração e despojamento do ser, pela via do sofrimento e da dor: 'Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber?' (Mc 10, 38).

Quando ambos afirmam que 'sim', estão sendo apenas suscetíveis à crença de superação de dificuldades passageiras. Não conseguem vislumbrar os eventos tão próximos da Paixão e Morte do Senhor, o drama do Calvário, tantas vezes mencionado e reafirmado por Jesus em outras ocasiões. Jesus vai, num primeiro momento, confirmar este 'sim': 'Vós bebereis o cálice que eu devo beber, e sereis batizados com o batismo com que eu devo ser batizado' (Mc 10, 39). Com efeito, São João, o discípulo amado, acompanhou Jesus até o instante derradeiro da Paixão e Morte na Cruz; São Tiago foi o primeiro apóstolo a colher as palmas do martírio.

Mas, em seguida, Jesus os alerta que as moradas eternas estão destinadas àqueles forjados pela Santa Vontade do Pai: 'não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. É para aqueles a quem foi reservado' (Mc 10, 40). Na escala dos valores eternos, o maior é o que serve a todos, o posto mais alto será destinado ao que, por amor a Deus, tornar-se o menor entre os seus irmãos. A verdadeira glória passa pelo Calvário, por uma senda de dor e de sofrimento, e quem estará 'à direita ou à esquerda' de Jesus será aquele que viver e morrer, com maior semelhança, a própria vida e morte do Senhor: 'Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos' (Mc 10, 45).

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

A VIDA OCULTA EM DEUS: DEUS, MORADA DA ALMA

Deus, com efeito, reservou uma morada nas profundezas da alma, na qual nem mesmo a própria alma pode entrar sem a sua permissão especial. E é aí precisamente que a alma é então introduzida, não por alguns momentos, mas para sempre. Deus primeiro revelou à alma a existência desta morada e depois despertou nela um desejo ardente de adentrar nela. Esse desejo foi crescendo e, depois de duras provas, foi realizado. A alma finalmente adentrou a casa do Pai com a firme impressão de ser essa a sua morada para sempre. 

Mas há algo mais, porque a casa de Deus é o próprio Deus. É, portanto, nEle mesmo que Ele faz a alma adentrar. A frase de São Paulo torna-se então uma realidade tangível para a alma, poder-se-ia dizer vivida pela alma: 'em Deus vivemos, movemos e existimos'. Viver em Deus é, de agora em diante, a sua herança. Assim, o descanso, o refrigério, o alimento da alma é o próprio Deus. A alma sente que acaba de receber um novo impulso; a vida, e uma vida divina, passa a fluir através dela. Parece-lhe, não sem razão, que Deus a levou até o mais íntimo de si mesma e que a transpassou nesse abismo misterioso onde o finito e o infinito se confundem. Ali, Deus está por inteiro devotado, como a mais terna das mães, a conceder à alma vida, força, paz e alegria. E então, plena de felicidade, a alma exclama: 'o próprio Deus restaura a minha alma'. 

(Excertos da obra 'A Vida Oculta em Deus', de Robert de Langeac; Parte III - A União com Deus; tradução do autor do blog)

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

O PÃO NOSSO DA ORAÇÃO

Nosso Senhor não prometeu, em lugar nenhum, tornar-nos infalivelmente felizes neste mundo; Ele nos prometeu - leiamos o Evangelho - nos escutar como um pai que não daria por alimento ao seu filho, ainda que este lhe pedisse, uma pedra, uma serpente ou um escorpião, mas o pão, o peixe, os ovos, que o nutrirão e o farão viver e crescer. Aquilo que Jesus, nosso Salvador, se empenha de nos dar infalivelmente como fruto de nossa oração, não são aqueles favores que os homens pedem muitas vezes por ignorância daquilo que realmente serve para a sua salvação.

O que Ele nos dá é aquele 'bom espírito', aquele pão dos dons sobrenaturais necessários ou úteis para a nossa alma; aquele peixe por ele preparado que, futuro símbolo que Cristo ressurgido deu em alimento aos apóstolos na praia do Lago de Tiberíades; aqueles ovos, alimento da piedade e devoção para os pequenos, que os homens muitas vezes não distinguem das pedras danosíssimas para a saúde espiritual, a eles oferecidas por satanás tentador.

Os homens muitas vezes são como crianças ignaras daquilo que é bom para elas e que lhes convêm pedir e ineptas muitas vezes as orações que dirigem ao Pai Celeste. Mas o Espírito Santo, o qual com a sua graça age em nossas almas e inspira os nossos gemidos, sabe muito bem dar a elas um verdadeiro sentido e um valor real; e o Pai, que lê no fundo dos corações, à luz do sol, vê aquilo que através de nossas orações e de nossos desejos, o seu divino Espírito pede para nós e por nós, e tais pedidos do Espírito, profundamente íntimos em nós, Ele ouve com toda a certeza.

A oração, portanto, quer ser um pedido daquilo que é bom para a alma, um pedido com perseverança, mas também um pedido piedoso. E qual é a oração piedosa? Não é a oração do som de palavras somente, com a mente e o coração vagando, com os olhos desviando para todos os lados; mas é a oração recolhida que diante de Deus se anima de confiança filial, ilumina-se de viva fé, impregna-se de amor para com Ele e para com os irmãos.

É a oração sempre feita na graça de Deus, sempre meritória de vida eterna, sempre humilde em sua própria confiança; é a oração que, quando vos ajoelhais diante do altar ou diante da imagem do Crucifixo ou da Virgem Santíssima em vossa casa, não conhece a arrogância do fariseu, que se vangloria achando-se melhor do que os demais homens; mas, semelhante ao pobre publicano, vos faz sentir no coração que tudo o que recebestes não é senão pura misericórdia de Deus para convosco.

O pão da divina doutrina é verdadeiramente um pão cotidiano, é o pão da oração. Se volvemos um olhar para a história dos séculos passados, Roma, já nos albores da fé, nos parece como uma cidade orante, não nos templos dos falsos deuses do gentilismo, mas ao único verdadeiro Deus, seja nas casas particulares dos primeiros seguidores de Cristo ou mesmo nas catacumbas, em momentos de maior perigo. Com efeito, desde o século terceiro, ao ar livre ou em verdadeiras igrejas como as nossas, a oração foi desde então para ela potentíssima arma de vitória e de triunfo para permanecer firme diante das perseguições, forte diante os tribunais e os suplícios, para morrer mártir de Cristo sob o ferro dos seus algozes. 

A arma de sua defesa e de sua esperança era a oração, baluarte e rocha de fé as suas basílicas e os seus altares de elevação a Deus; as aras dos mártires, santuários e tumbas, onde a piedade chamava, desde distantes regiões e além dos mares também, devotos e coroados príncipes para se inclinarem na oração e escolherem para si, naqueles lugares venerandos, o repouso de seus despojos mortais. 

A oração é um bem, que não humilha e rebaixa, mas exalta e enobrece o homem. Os artistas mais exímios, os mestres da psicologia figurada, não conseguiram criar nada que mais subjugue o ânimo quanto a representação do homem em oração. Nesta atitude orante, ele demonstra a sua mais elevada nobreza, que se reafirma no princípio geral de que 'o homem é verdadeiramente grande quando está de joelhos'.

(Pio XII, excertos de discursos e alocuções)

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

TESOURO DE EXEMPLOS (104/106)


104. DEVOÇÃO AOS SANTOS ANJOS

São Paulo da Cruz e São Francisco de Sales nunca começavam os seus sermões sem antes saudar os Anjos da Guarda de seus ouvintes, suplicando-lhes o seu auxílio. O venerável Baltasar Álvares, em suas viagens, ao entrar em um povoado ou em uma cidade, invocava os Anjos tutelares daqueles habitantes e pedia-lhes que o ajudassem a salvar as almas; e o seu apostolado foi sempre coroado de grande êxito.

Santo Afonso, bispo de Santa Águeda, nunca entrava em um quarto estranho sem saudar primeiro os Anjos da Guarda dos donos da casa. São Luís Maria Grignion de Montfort, missionário e grande devoto de Maria, costumava saudar os Santos Anjos das pessoas com quem se encontrava.

105. QUANTO SOFREM AS ALMAS

O verdadeiro e principal tormento é a privação da visão de Deus. Fala-se, porém, do fogo do purgatório como de uma pena semelhante à do inferno, com a diferença de que não é eterna. Num convento dos Estados Unidos duas religiosas, ligadas durante dez anos por uma santa amizade espiritual, procuraram ajudar-se a servir a Deus cada dia com maior perfeição.

Veio a falecer uma delas a quem chamavam a 'santa da casa'. Fizeram-se por ela os sufrágios costumeiros da comunidade e sua companheira não deixou de recomendar por sua alma de modo todo especial. Uma tarde, na mesma semana da morte, enquanto ceavam, sua amiga que pensava nela, creu ter ouvido estas palavras: 'Venho pedir-lhe três missas; crê você que tenha rezado muito por mim e que não estou sofrendo? Para que tenha uma ideia das minhas penas, vou tocá-la apenas com um dedo'.

No mesmo instante a religiosa sentiu-se tão terrivelmente queimada no joelho que lançou um grito agudíssimo. Toda a comunidade reagiu espantada; interrompeu-se a leitura das orações e todas as religiosas voltaram suas atenções para a Irmã. Interrogada, referiu à Superiora o que acabava de passar-se e viram, com efeito, no joelho da Irmã uma profunda queimadura.

Esse fato ocorreu em julho de 1869, e o periódico La Croix acrescentou que, a 9 de novembro de 1889,  a referida religiosa ainda estava viva e apresentava as cicatrizes da queimadura. As missas foram naturalmente celebradas o mais breve possível e a falecida não tornou mais a se manifestar.

106. ÁTILA E SÃO LEÃO

Assim como o Anjo protegeu a São Pedro, o primeiro papa, livrando-o das mãos de Herodes, assim cuidou também que o grande Papa São Leão não caísse nas mãos do mais feroz dos bárbaros: Átila, rei dos hunos. As hordas dos bárbaros avançavam por toda a Europa, arrasando cidades e levando os povos como escravos. Átila, com seus cem mil guerreiros, havia penetrado no norte da Itália e marchava para Roma, arrasando as cidades, arruinando as searas, roubando tudo quanto tinha algum valor e matando a todos os que se lhe opunham.

Parecia que toda a cristandade ia perecer. Deus, porém, pusera à frente de sua Igreja um homem que foi o martelo das heresias e o domador dos bárbaros, São Leão Magno. Era homem de grande ciência, visão clara, decisão pronta e segura, firmeza inquebrantável, constância em seus projetos e grande caridade. Se era notável como homem de seu século, não era o menos por suas virtudes cristãs; sem pretensões pessoais, todas as suas atividades eram consagradas a Deus, à Igreja e ao serviço dos ignorantes, extraviados, pobres e aflitos.

Assim foi que, quando o imperador Valentiniano III lhe manifestou que seus soldados eram incapazes de defender a Itália e Roma dos bárbaros que avançavam vitoriosos, não duvidou em oferecer a sua vida por suas ovelhas. O terror e o pânico que se apoderaram de Roma e de outras cidades da Itália eram indescritíveis. Ninguém senão Deus podia deter a inundação e as destruições dos bárbaros que já assomavam às portas. O Bom Pastor não faltou ao dever de defender as suas ovelhas.

Mandou oferecer orações ao Deus dos exércitos, suplicando-lhe que velasse por seus rebanhos e pelos tantos inocentes que iriam perecer sem defesa. Dirigindo-se à cidade de Mântua, onde entrara o chefe dos bárbaros, resolveu apresentar-se a ele para implorar misericórdia e paz. Ia revestido de suas vestes pontificais, tiara e báculo; e seu rosto, embora suplicante, apresentava a majestade do Vigário de Jesus Cristo. 

Átila não se impressionaria com essa vista, nem com palavras ou lágrimas; mas aconteceu qualquer coisa de sobrenatural. Dizem que, por detrás do Pontífice, apareceu ao bárbaro um Anjo, sem dúvida São Miguel, com rosto severo e celestial que, de espada em punho, ameaçava Átila se não atendesse as súplicas do venerando ancião. E o feroz conquistador, pela primeira vez, sentiu-se vencido e ordenou imediatamente que suas tropas abandonassem o caminho de Roma e tomassem outro rumo.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)